Santo Antão – Parte 1 – Os Vales

Santo Antão é a segunda maior ilha do arquipélago de Cabo Verde, a mais a norte e a mais montanhosa. Dizem que a mais bonita, e confirmamos. Exótica e exuberante, a costa é dramática e os vales profundos, realçando ainda mais as montanhas de pontas afiadas. É um paraíso para os amantes de caminhadas e nela somos deixados aos elementos: o sol, o frio, a chuva e a lestada podem acontecer todos no mesmo dia. Chegamos a Santo Antão vindos de barco de São Vicente, depois de atravessado o canal. Nós e muitos mais turistas, cada vez mais decididos a não catalogarem Cabo Verde apenas como um destino de sol e mar.

Vale do Paul

Trazíamos connosco duas ideia sobre Santo Antão, a de ser uma Madeira em esteróides e de ser esta a ilha dos Flagelados do Vento de Leste. A comparação com a parceira da Macaronésia, a nossa ilha preferida, não é abusiva: o que na portuguesa nos suscita espanto vê multiplicada a intensidade na cabo-verdiana. E felizmente não experimentámos o vento de leste superiormente retratado por Manuel Lopes, mas dois dias de chuva intensa (em Dezembro!) serviram para nos colocar em respeito: os caminhos de ontem transformaram-se hoje em ribeiras e as montanhas entraram num choro quase convulsivo, tantas foram as cascatas que apareceram. As estradas, essas, ficaram perigosas, pelas muitas pedras que rolaram. Aqui, a chuva – a esmola abençoada do céu, nas palavras de Manuel Lopes – é sempre bem-vinda, pois que permite que os vales férteis da ilha possam continuar a dar alimento aos que ficaram, nesta que, à semelhança das demais do arquipélago, é uma ilha de emigração.

Vale do Paul

Há pelo menos três vale que são uma maravilha, o vale de Coculi, o vale da Ribeira da Torre e o vale do Paul. Inesperadamente verdes, em contraste com as montanhas negras, neles tudo dá, banana, cana de açúcar, mandioca, inhame, batata doce, milho, feijão e tanto mais. E o grogue, claro. Mas é a paisagem de Santo Antão, muito diversa, que mais deslumbra.

Miradouro do Delgadinho
Miradouro do Delgadinho – Vale da Ribeira da Torre
Miradouro do Delgadinho – Vale da Ribeira da Torre
Miradouro do Delgadinho – Vale de Coculi
Miradouro do Delgadinho – Vale de Coculi
Miradouro do Delgadinho – Vale de Coculi
Miradouro do Delgadinho

O barco atraca em Porto Novo e é a aridez da costa sul que imediatamente se destaca. À nossa chegada, pela manhã, o céu estava totalmente limpo, quer junto ao mar quer lá em cima na montanha. Fomos primeiro ao Tarrafal e só a meio da tarde subimos do Porto Novo à Cova, pela estrada velha empedrada, a Estrada de Corda, em direcção ao norte da ilha (Ribeira Grande e Ponta do Sol), subindo a montanha para logo a voltar a descer. Esta estrada é, em si, uma das grandes atracções da ilha, pelos grandes cenários que proporciona. Miradouro da Cova, Chão de Mato, Espongeiro e Corda eram nomes que levávamos como pontos de miragem ou de paragem para conhecer o modo de vida na ilha no meio de uma natureza bruta. Para isso alugámos um carro, para podermos parar à vontade em cada momento, dedicando os outros 3 dias às caminhadas. Mas o nevoeiro que então se instalou era tal que não se viu nem percebeu nada, nem gentes nem paisagem. Só no Delgadinho conseguimos uma aberta e aí, sim, tivemos a primeira ideia do porquê ser Santo Antão a mais bonita e impressionante do arquipélago. Lá no alto, neste ponto em que a estrada se torna ainda mais estreita – literalmente delgadinha – olhamos em redor e vemos um espectáculo de cortar a respiração e interdito a quem sofre de vertigens. O vale da Ribeira do Torre de um lado, o vale de Coculi do outro, vales profundos donde emergem paredes montanhosas verticais adornadas por cristas, um cenário que parece retirado do filme Avatar. Diz que esta orografia se deveu a um fenómeno geológico resultante das escoadas lávicas, mas os seus contornos mais parecem ter sido criados por um pintor surrealista num momento de puro devaneio. E é tudo tão surpreendentemente verde (não gostamos da chuva e do nevoeiro em viagem, mas, sabemo-lo, são eles que fazem esta paisagem e permitem que a vida seja aqui possível).

Vale de Coculi
Vale de Coculi
Vale de Coculi
Vale de Coculi

Ao vale de Coculi atravessámo-lo de carro em direcção à Cruzinha, pedindo ao motorista do aluguer para parar em alguns pontos que não resistimos a observar sem a barreira do vidro do carro.

Vale da Ribeira da Torre
Vale da Ribeira da Torre
Vale da Ribeira da Torre
Vale da Ribeira da Torre
Vale da Ribeira da Torre

E ao vale da Ribeira da Torre, logo abaixo da Cova e para muitos o mais bonito de todos, tentámos percorrê-lo em parte, lá para os lados do Xoxo, mas a chuva acabou por nos interromper e, por isso, não chegámos à cascata. É de uma exuberância luxuriante incrível, com pináculos rochosos pontiagudos a emergirem num repente das profundezas da terra. Neste vale muito encaixado, há uma série de caminhos (os caminhos vicinais) que ligam povoações isoladas que se dedicam à agricultura profunda. Estes caminhos, construídos no século XIX, são ainda hoje usados pelos seus habitantes – foi num deles que um miúdo nos explicou de forma muito expressiva como devemos percorrê-los por forma a não perturbar a viagem dos burros, a quem deve ser dada prioridade no seu labor de carregar as mercadorias.

Vale do Paul
Vale do Paul
Vale do Paul

O vale do Paul é o mais conhecido dos vales de Santo Antão. E uma das caminhadas mais emblemáticas da ilha é descer da Cova, a 1260 metros de altitude, até às Pombas, junto ao mar, atravessando o vale do Paul, 13 vertiginosos kms sempre a descer por uma das zonas mais férteis da ilha, alimentada pela única ribeira de curso permanente em todo o arquipélago, a ribeira do Paul.

Cova
Cova
Cova
Cova
Cova

A Cova é uma antiga cratera de um vulcão extinto. Vêmo-la do alto, desde o miradouro na Estrada da Corda, e logo percebemos as quadrículas que parecem ter sido traçadas a regra e esquadro, cada uma delas correspondente a um campo agrícola onde se semeia milho, feijão, batata-doce e muito mais. Tudo isto, repita-se, no interior do antigo vulcão que, para além de da sua fertilidade, é também um garante de biodiversidade, uma vez que a Cova tem a capacidade de reter a água da chuva de forma a alimentar as nascentes de água doce que, depois, irrigarão os vales abaixo.

Vale do Paul
Vale do Paul

Se da primeira vez que aqui passamos o nevoeiro nada nos permitiu admirar, na segunda vez tudo foi diferente e saindo do miradouro entrámos por um bosque de pinheiros para depois contornarmos parte da vertente norte da Cova, na única subida de todo o percurso. No topo, nova fornada de nevoeiro bloqueava toda a vista para o vale do Paul, mas, apostadas em não deixar que o clima nos pregasse nova partida, crentes que o costumeiro nevoeiro se dissiparia, decidimos aguardar breves minutos e tivemos o que merecíamos: a esplendorosa vista para o vale do Paul desde a borda da Cova. Um amplo cenário verde estende-se a nossos pés e o vale tenta aproveitar o caminho rasgado pela ribeira para serpentear as montanhas com cristas irregulares mas formosas. Vê-se uma multiplicidade de terrenos agricultados, a maior parte deles obrigados a recorrer à engenharia dos socalcos nas encostas íngremes, uma vez que nada é plano e o espaço é reduzido. A fertilidade do vale deve-se não apenas à ribeira e sua capacidade de irrigação, mas também às imponentes paredes montanhosas que o rodeiam, capazes de o proteger dos ventos secos e, assim, criando um microclima ideal para a agricultura. Para lá do vale, apenas o mar, o azul do Atlântico. E as nuvens que teimavam em marcar presença no céu, desta vez ajudaram para tornar a paisagem mais mística.

Cova – descida
Cova – descida
Cova – descida
Vale do Paul
Vale do Paul

A parte mais intensa da descida (ou subida, porque há quem prefira poupar os joelhos em detrimento do coração) é a inicial, num incrível e improvável caminho em ziguezague. A paisagem soberba mantém-se e à medida que nos envolvemos no vale vamos vendo os seus pormenores com mais detalhe, incluindo o recorte das montanhas. Os habitantes do vale vão para lá e para cá no seu dia a dia de trabalho agrícola, vê-se roupa estendida a secar à beira do caminho e casas ainda com telhado de palha. Algumas delas são os típicos trapiches (moinhos), onde se mói a cana de açúcar para daí se produzir o grogue, a típica aguardente da ilha (Santo Antão é a maior produtora de grogue no arquipélago). É, porém, a vegetação e as suas culturas que fazem desta uma paisagem a não perder, um verdadeiro paraíso tropical. As bananeiras, mangueiras e, sobretudo, as plantações de cana de açúcar fazem deste um vale verdejante e vivo.

Vale do Paul
Vale do Paul
Vale do Paul
Vale do Paul

Há diversas povoações no vale do Paul, mas nesta caminhada passamos pela Chã de Manuel dos Santos e, a meio do caminho da Cova – Pombas, páramos para almoçar no Curral, na Chã de João Vaz, comida típica cabo-verdiano com um toque cosmopolita dado pelos donos alemães.

Vale do Paul
Vale do Paul
Vale do Paul
Vale do Paul – Pombas

Por fim, Pombas, junto ao mar, na foz da ribeira do Paul, lugar que escolhemos para nossa base. Lugar onde está aquele que é considerado o trapiche mais antigo da ilha, do século XVII, esta vila é eminentemente rural e na primeira noite e manhã tivemos que repartir a nossa atenção entre o insistente cacarejar das galinhas e a inclemente caída da chuva. Mas quando esta passou, ficou o som ainda mais intenso das ribeiras que, notámos depois, eram ribeiras, agora sim com água a correr, mas numa torrente demencial. Foi aqui que percebemos também, ingenuamente, o perigo de se sair a caminhar por caminhos à beira das outrora ribeiras: se a chuva vem com força eles rapidamente retomam a sua origem e as suas curtas margens alagam, confundindo-se num só espaço. Tentámos, mas, convencidas, retornámos ao alojamento e deixámo-nos estar o resto do dia a ouvir a chuva cair junto à ribeira, nesta vila luxuriante carregada de plantações que, entretanto, se tornaram ainda mais verdes.

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