Santo Antão – Parte 3 – A Montanha e a Praia

A chegada a Santo Antão é feita exclusivamente de barco, desde a vizinha ilha de São Vicente, e à medida que navegamos as águas do canal vamos vendo aproximar-se uma enorme e magistral montanha. Ao aportar em Porto Novo, sob um céu azul intenso, já não havia dúvidas sobre a imagem que fomos criando ainda em São Vicente, a costa que nos recebe, a sul, é árida, com uma longa parede montanhosa como pano de fundo.

Travessia do Canal

O Porto Novo é, pois, a porta de entrada na ilha de Santo Antão, com um moderno e acolhedor edifício portuário, e a povoação tem crescido e desenvolvido desde que há umas décadas passou a receber as embarcações, quer de pessoas, quer de mercadorias. Com casario simples, tem uns quantos grafittis a dar-lhe vida e veem-se muitos miúdos envergando a camisola da Académica. É a Académica de Porto Novo, mas não interessa, é linda por ser igual à nossa Académica de Coimbra.

Porto Novo
Porto Novo
Porto Novo – estrada

Seguimos de imediato para o Tarrafal, os primeiros 10 kms numa estrada de asfalto e os restantes 38 kms numa estrada empedrada. Tirando Porto Novo, não há povoações nesta costa sul, precisamente pela sua aridez e, logo, terrenos nada férteis, avessos ao estabelecimento de vida humana – é um contraste absoluto com as paisagens da vertente este da ilha, com vales verdejantes e profundos e picos afiados, onde está a maioria dos seus habitantes. No cruzamento da Ponta Sul, uma imagem de um canyon onde passa a Ribeira das Patas, leve desfiladeiro onde sobressai a pedra negra vulcânica. Esta estrada segue para norte, uma subida rumo a um planalto desértico e árido onde, por magia, despontam pequenos oásis verdes que permitem a existência de populações que se dedicam a uma agricultura de regadio, aproveitando nascentes subterrâneas. É o caso da Ribeira das Patas e do Alto Mira que, apesar de não as termos visitado, conhecemo-las da literatura, graças aos Flagelados do Vento de Leste e ao Chuva Braba, ambos de Manuel Lopes, que situou o enredo das suas histórias nesta região de Santo Antão. A seca de 1942 que assolou a ilha, matou milhares dos seus habitantes e forçou outros tantos à emigração serviu de inspiração para as obras referidas. Nos Flagelados do Vento de Leste, à falta de chuva seguiu-se o hermatão e, em consequência da lestada que deu em estiagem e trouxe a praga de gafanhotos, veio a fome. E os homens bonzinhos quando Deus manda chuva, tornaram-se maus quando veio a seca. É um retrato pungente de uma época, de um povo, de uma ilha, uma obra-prima da literatura em português. Já o Chuva Braba retrata o dilema do cabo-verdiano entre ficar na sua terra e partir para o estrangeiro, aguardar pela chuva ou ir em busca da terra rica cheia de abundâncias, ainda hoje parte da sua identidade. É outra obra do cânone literário em português.

Estrada Porto Novo – Tarrafal
Estrada Porto Novo – Tarrafal
Estrada Porto Novo – Tarrafal

Não continuámos na estrada de asfalto rumo ao deserto, antes seguimos na estrada empedrada rumo a outro deserto. O céu limpo vai sendo tomado por nuvens e nevoeiro e o frio aparece. Continuam os canyons, que a bela estrada procura ultrapassar, cheios de precipícios a vencer junto ao mar. As montanhas fazem lembrar as paisagens da Escócia, cobertas por uma vegetação rasteira verde escura. Sem povoações, há vestígios de casas abandonadas, com terrenos delimitados por pedras que em tempos terão sido cultivados, agora igualmente ao abandono. Mas ainda resistem alguns, uma espécie de montes alentejanos, vendo-se galinhas e porcos à beira da estrada junto a um ou outro ponto com uma ou outra árvore.

Campo Redondo
Campo Redondo
Campo Redondo
Campo Redondo

Estamos para os lados do Tope de Coroa, o Pico mais alto de Santo Antão, a 1979 metros de altitude, e o segundo mais alto do arquipélago depois do Pico do Fogo, na ilha de mesmo nome. Já novamente com o céu descoberto, fazemos uma paragem – obrigatória – no miradouro do Campo Redondo, para contemplar um cenário totalmente diverso da vertente este da ilha que, já de si, havia mostrado paisagens muito diferentes. Este miradouro, aberto ao planalto que se cria ao redor do Tope de Coroa, mostra-nos uma paisagem única, como se de outro planeta se tratasse. A terra é castanha, com tons variados que vão do ocre ao muito claro, nela se abrindo sulcos criados pelas marcas do vulcanismo relativamente recente. Com efeito, o Tope de Coroa é um vulcão inactivo, um cone que nasceu dentro de uma cratera e tem à sua volta outros cones secundários – daí verem-se tantas elevações. Ora, a terra castanha cheia de sulcos é o resultado da solidificação dos fragmentos de rocha e lava que foram expelidos para o ar aquando da erupção do vulcão, os chamados piroclastos (lapili ou bagacina, que também vemos muito nos Açores, em especial na ilha do Pico). Neste planalto vasto e árido onde a chuva não chega, sobressaem as rochas nuas e a vegetação é escassa, resistindo apenas um ou outro arbusto torcido pelo vento. Não se percebe de que se alimentarão as muitas cabras selvagens que vemos no caminho, mas elas lá andam, não se incomodando à nossa passagem, marrando umas com as outras. A este propósito, diga-se que o queijo “di terra” de Santo Antão, feito artesanalmente no Planalto Norte com o leite de cabra, costuma ser muito apreciado e servido juntamente com doce de papaia, mas não gostando de queijo, não o pudemos confirmar.

Estrada Campo Redondo – Tarrafal
Estrada Campo Redondo – Tarrafal
Estrada Campo Redondo – Tarrafal
Estrada Campo Redondo – Tarrafal
Tarrafal – miradouro
Tarrafal – miradouro
Estrada Tarrafal
Estrada Tarrafal

Seguindo uns quilómetros ainda pelo planalto, continuamos em direcção ao Tarrafal. A paisagem mantém-se soberbamente desoladora. No alto de uma falésia que se abre de forma impressionante ao mar, paramos para perceber a povoação que será o nosso destino instalada bem no fundo de um vale. O Tope de Coroa, ali perto, está agora encoberto pelas nuvens. E iniciamos, então, a descida até ao Tarrafal, sob avisos de cuidado na condução, dada a forte pendente e sucessivas curvas na estrada, que o piso empedrado pode agravar. Mas, não, uma condução segura em marchas mais baixas foi suficiente. A paisagem continua fantástica, e vê-se novo cone vulcânico, agora à beira mar.

Tarrafal
Tarrafal

O Tarrafal de Monte Trigo é um ponto único na ilha. Esta aldeia piscatória na costa sudoeste de Santo Antão é habitada continuamente há cerca de 3 séculos e mesmo com a construção de uma estrada pavimentada em 2021 continua isolada de tudo – os quase 50 kms de distância do Porto Novo percorrem-se em cerca de 1h 30m de carro. Mais isolada só mesmo o Monte Trigo, a que se acede apenas caminhando ao longo de 11 quilómetros ou de barco, instalada junto ao mar imediatamente abaixo do Tope de Coroa – projecto para uma próxima visita. São lugares remotos, pois, ideais para experimentar raros momentos de serenidade.

Tarrafal
Tarrafal

A mais longa praia de areia preta de Santo Antão fica no Tarrafal, sendo esta espécie de baía óptima para uns relaxantes banhos de mar, uma vez que está protegida dos ventos pelas montanhas vulcânicas, sendo este um lugar soalheiro e provavelmente o mais quente da ilha. À chegada, a primeira imagem do Tarrafal é, precisamente, a da sua língua de areia preta, num belo contraste com o azul do mar, o castanho das montanhas e, imagine-se, o verde nas costas da aldeia. A par da óbvia pesca, a agricultura é aqui possível, graças às nascentes naturais na base do vale onde cresceu a povoação, criando uma espécie de oásis onde as árvores de fruto e a cana de açúcar podem despontar, desafiando o negro solo vulcânico. Depois de um curto passeio péla aldeia, onde se percebe o gosto em manter as tradições vivas, é impossível resistir a uma refeição num dos restaurantes sobre a areia à beira mar, saboreando um delicioso pedaço de atum, pescado diretamente pelos locais ali mesmo naquelas águas.

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