A última aldeia e cascata de que falámos em anterior post, Lamedo e Candosa, a sul de Vieira do Minho, são territórios de fronteira para entrarmos no concelho de Cabeceiras de Basto. Carrazedo, Vila Boa e Bucos são, por isso, as primeiras aldeias que aguardam a nossa visita. Estas aldeias guardam como tradição o artesanato em linho e lã (Bucos, em especial, é famosa pelas mantas, colchas e toalhas tecidas no pisão), mas são sobretudo povoações agrícolas.


A primeira delas, Carrazedo, é conhecida por ser dona do maior canastro (espigueiro) do Minho, com capacidade para armazenar entre 14 e 18 toneladas de milho. E, diz-se, era o lugar dos padres da Casa da Eira, famosos pelos seus poderes sobrenaturais, os quais através de exorcismos do demónio faziam reaparecer objectos desaparecidos.

Muitas mais aldeias há a visitar por Cabeceiras, de que Uz, Moscoso, Moimenta e Meijoadela são alguns exemplos, quase sempre com grandes miradouros na envolvente. Moscoso, em especial, é onde fica o tradicional restaurante Adega Regional Nariz do Mundo e o seu fantástico percurso pedestre, já Alto Tâmega, outro daqueles que está na nossa lista de desejos. Mas estas hão de ficar para uma próxima viagem.

Não deixámos escapar, porém, a visita a Cabeceiras de Basto, a bonita povoação implantada no vale do Tâmega, sede de um dos concelhos mais antigos e históricos do Minho. Envolvida por um cenário natural, acolhe um valioso património arquitectónico, para além de ser guardiã das vincadas tradições da região das Terras de Basto. Terá origem pré-românica, havendo vestígios castrenses e construções megalíticas por perto. A origem do topónimo não é certa, acreditando uns que derivará do povo – os Bástulos – que vindo da Andaluzia terá fundado uma cidade de nome Basto aqui próximo. Junto com “Cabeceiras”, por ser a cabeça das várias povoações da região, compõe o nome actual. Há ainda a lenda que nos conta que no tempo dos visigodos, D. Gelmiro, abade do Mosteiro de São Miguel de Refojos, e seus homens, entre os quais Hermígio Romarigues, um monje-guerreiro enorme e com marcas no rosto de antigas lutas, plantaram-se junto à ponte que dava acesso ao mosteiro e, à chegada de Tarik e suas tropas mouras, estendeu a mão e sua espada e soltou: “Até ali, por S. Miguel, até ali, basto eu!”. E bastou para afugentar os mouros e manter o mosteiro seguro. Mais tarde, diz ainda a lenda, após juntar-se a Pelágio das Astúrias, que iniciou a Reconquista, Hermígio Romarigues, “O Basto”, acabou imortalizado no imaginário popular através da estátua que erigiram em sua homenagem, como reconhecimento pelos serviços prestados.

No centro de Cabeceiras, na Praça da República, a estátua do “Basto”, à vista de todos, chama a atenção. Apesar da lenda acima descrita, esta estátua será provavelmente da época anterior à chegada dos romanos, século I a.C., representa um guerreiro lusitano e será uma de várias estátuas jacentes vindas da Galiza que eram colocadas sobre as sepulturas de alguns dos guerreiros heróis. Em granito, vê-se o guerreiro com o seu escudo redondo ao centro, mas não corresponderá já à forma primitiva, tendo sido modificada em 1612 e em 1892 para lhe ser acrescentada uma cabeça com barretina e fartos bigodes (era uma estátua acéfala como a maior parte das existentes) e gravada no peito e no escudo a legenda: “Ponte de São Miguel de Refoyos 1612”. A simbologia é clara: vincar a coragem e honradez das gentes da região.

O Mosteiro de São Miguel de Refojos, imponente ao fundo da mesma Praça da estátua O Basto, já foi o mais rico do Minho, lugar de importante peregrinação na Idade Média. Desconhecendo-se com certeza a data da sua construção, sabe-se que já existia no início do século XII. Os seus fundadores seriam os ascendentes de D. Gomes Mendes, “Guedeão”, nobres senhores do lugar de “Refúgios”. D. Nuno Álvares Pereira casou aqui em 1376 e viveu na vizinha Pedraça. Em 1690 foi reconstruída a igreja do mosteiro, em estilo barroco, dando-lhe a arquitectura que hoje vemos, com duas elegantes torres na fachada principal.


Vale a pena, ainda, dedicar tempo a Arco de Baúlhe, a vila que leva no nome o arco da ponte medieval sobre o rio Ouro e que se desenvolveu por conta da linha do caminho ferroviário. Encerrada a Linha do Tâmega e afastados os comboios, o canal do antigo caminho de ferro foi transformado na Ecopista do Tâmega, totalmente pedonal e ciclável ao longo de 39 kms, ligando Arco de Baúlhe a Amarante, com passagem por Celorico de Basto. A antiga estação, com os típicos azulejos como decoração, é agora ocupada pelo Museu Nacional Ferroviário e pelo Museu das Terras de Basto.

A atestar a riqueza de tempos antigos, são várias as casas senhoriais na região. Por exemplo, em Abadim, aldeia antiga a quem o Rei D. Manuel concedeu foral em 1514, está a Casa da Torre. A casa será contemporânea ao foral e no edifício em granito destaca-se, precisamente, a torre quadrada com ameias e gárgulas zoomórficas (com representação de um urso, um lobo, um lince e uma cobra). A aldeia é, ainda hoje, eminentemente rural, com campos e espigueiros ao redor, e videiras junto à casa nobre. Antes, porém, já a povoação era um couto (lugar privilegiado, muitas vezes isento de impostos e com leis próprias) e, diz-se, os assassinos de Inês de Castro procuraram refúgio no Couto de Abadim durante a fuga para Castela, aparecendo o seu fantasma de quando em vez a passear na varanda da Torre com a cabeça da amada do antigo Rei D. Pedro I.



Para o final da jornada, o cumprimento de um desejo de há muito: percorrer a Levada da Víbora. A 5 minutos de Abadim está a Área de Lazer do Oural, o ponto inicial do PR1 de Cabeceiras de Basto, lugar de um lago / barragem num cenário idílico. Já se percebeu, a Serra da Cabreira é pródiga em água e esta é aqui transportada por uma levada bem conservada para irrigação dos campos de cultivo e sob uma vegetação cerrada e luxuriante, feita de bosques de pinheiros bravos, carvalhos, castanheiros e madressilvas. E nós acompanhamos o seu percurso ao longo de um maravilhoso caminho – parece que estamos na Madeira, para onde a técnica das levadas, diz-se, terá sido levada pelos minhotos. Habituadas a caminhar pelo continente e ilhas, uma declaração: este é um dos percursos pedestres mais bonitos que já tivemos oportunidade de conhecer – há paisagem e há cultura.



Depois de deixada a Área de Lazer do Oural, em breve chegamos à Área de Lazer dos Moinhos de Rei. A levada passa junto a um conjunto de moinhos, outras vezes adentra-os, e vai correndo serena, mas por vezes desce rápida. O que não muda é o intenso ambiente natural, mágico até, de uma tranquilidade absoluta sob o encanto do som da água.



Os moinhos de mós terão sido criados nos alvores da nacionalidade, sendo a moagem anteriormente realizada pelos moinhos-a-braços, resultado do esforço do homem ou do animal. Estes em Abadim / Cabeceiras, foram mandados construir pelo Rei D. Dinis, cognome “O Lavrador”, e tinham como força motriz a Levada da Víbora. Comunitários, metade do rendimento dos moinhos ia para a Coroa.


Segue-se a Área de Lazer da Víbora, outro parque de merendas, cortada a meio pela ribeira de Busteliberne, nome de mais uma aldeia típica aqui perto. A vegetação ao longo do caminho é sempre muito bonita, mas aqui é ainda mais imponente, feita de consecutivas e enormes criptomerias.





Pausando no ambiente de floresta, este percurso pedestre faz-nos desviar até Porto de Olho, uma pitoresca povoação com nem meia-dúzia de casas, incrível vista de cima. Esse cima é o Outeiro da Varela, com capela, instalado a 975 metros de altitude e lugar de um miradouro natural onde foi instalada uma plataforma de madeira para melhor nos debruçarmos sobre a soberba vista. Daqui alcança-se grande parte do concelho de Cabeceiras, até o Monte Farinha (o Alto da Senhora da Graça, já Mondim de Basto), num conjunto perfeito de elevações com campos de um verde vivo pelo meio, interrompidos aqui e ali por blocos de granito. Logo abaixo está a povoação de Travassó e, do outro lado, Porto de Olho, vigiada pelo Pico das Torrinheiras, o ponto mais alto do concelho, com 1191 metros. É mais uma imagem fantástica da Serra da Cabreira, uma terra dura onde as suas gentes vivem ainda hoje da agricultura e da criação de gado, e cujo isolamento moldou o seu forte e valoroso carácter.