Serra da Cabreira – Parte 1 (Vieira do Minho)

Para quem gosta de ambientes serranos, com grandes paisagens e recantos naturais, aliados a uma marcada vida rural de que as levadas e as aldeias cravadas a meia encosta ou no fundo dos vales são ainda exemplo, a Serra da Cabreira é um destino a não perder. Pouco povoada e com ainda menos visitantes, é uma região a explorar, onde a companhia da vida selvagem é garantida, incluindo garranos à solta no meio dos caminhos.

Campos

Situada entre o Minho e Trás os Montes e ocupando os concelhos de Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto, mas também um pouco do de Montalegre, é aqui que nasce o rio Ave, que no final do seu variado percurso de cerca de 94 kms desagua no Atlântico em Vila do Conde. O nome Cabreira, diz a lenda, vem da jovem que pastava o seu rebanho de cabras na então Serra de Agra. Um dia, cavaleiros vindos de Santiago de Compostela passaram por aqui, tendo um deles enamorado-se da bela cabreira, sentimento mútuo. Mas logo partiu de volta para a sua terra, tendo a jovem esperado eternamente pelo seu amado, derramando tantas lágrimas que um rio se formou, o Ave, assim denominado por a cabreira desejar ser ave e voar para perto do seu cavaleiro. Dá gosto crer em histórias como esta, imaginando em cada pedaço desta terra bruta que, se não aconteceu, poderia ter acontecido, tão inspiradora é esta serra. O que se segue é um roteiro exploratório, tantos são os lugares que ficaram de fora. É imprescindível um carro para circular pela serra, mas é obrigatório trocá-lo frequentemente pelos muitos trilhos pedestres que há a percorrer.

Rio Cávado – Gerês
Gerês

Os rios Cávado e Tâmega como que delimitam a Serra da Cabreira e quando atravessamos a EN 103 na vertente norte da Cabreira temos grandes panorâmicas para a Serra do Gerês, para um lado, e um autêntico desfile de aldeias típicas, para o outro. Pelo meio, a barragem de Salamonde e a cascata das Fragas de Pena Má.

Barragem de Salamonde
Cascata das Fragas de Pena Má

Esta cascata das Fragas de Pena Má fica escondida num bosque cerrado, onde o pequeno curso de água, o Rio-Mau, tem mais blocos de rochas do que água propriamente dita. A cascata está encravada numa garganta apertada e de uma altura considerável despenha-se um belo fio de água (na época pós-Verão em que a visitámos, embora não tenhamos visto caudal muito diferente num Março em tempos idos). Ditos populares contam que este era um lugar procurado para curar males das crianças e a ver pelo seu ambiente misterioso, não duvidamos de que possua este poder.

Aldeia
Louredo
Louredo

São muitas as aldeias a norte da Cabreira que merecem uma visita, em especial Louredo, Espindo, Zebral, Campos e Lamalonga, todas elas no concelho de Vieira do Minho. Em comum têm o facto das suas casas serem construções em granito, rodeada por campos de cultivo, com os espigueiros como marca distintiva e um acentuado espírito comunitário. Para além da agricultura, também a agropecuária é atividade central na região, tendo ainda a exploração de volfrâmio na Serra (Minas da Borralha, em Salto, já Montalegre) trazido alguma população no início do século passado.

Espindo
Espindo
Espindo
Espindo
Espindo

Espindo é talvez a mais bonita delas. Tem um conjunto compacto de casas de arquitectura vernacular bem conservadas e diz que a mais antiga delas data de 1697. Ao longo da rua principal, com uma pendente que se acomoda aos desníveis da Serra, vemos um interessante sistema de drenagem das águas pluviais da aldeia, de forma a irrigar os campos. Junto a uma ribeira, em Espindo havia uma série de azenhas e, claro, os espigueiros não podiam faltar.

Campos
Campos
Campos
Campos

Mas onde eles mais abundam é na aldeia de Campos. Isolados ou em conjunto, é mais uma demonstração da vertente agrícola da região, com o milho, o centeio e a batata a constituem as principais culturas. Há ainda um forno comunitário, um cruzeiro e uma pitoresca igreja.

Serra da Cabreira
Serra da Cabreira
Serra da Cabreira
Serra da Cabreira
Serra da Cabreira
Serra da Cabreira
Serra da Cabreira
Serra da Cabreira

A estrada que nos leva de Salamonde à Serradela, sempre a subir, vai-nos dando grandes paisagens. O Talefe, a 1262 metros de altitude, é o ponto mais alto da Cabreira. Não o subimos, ficando perto e com vista privilegiada para ele, desde o Miradouro da Serradela. Com o baloiço da ordem a marcar o lugar, daqui obtém-se também uma vista larga para o vale do Turio, com uma série de elevações a envolvê-lo. Surpreende a diversidade da vegetação, num momento cabeços com vegetação rasteira e, de repente, pedaços de floresta cerrada e frondosa. Foi por aqui que vimos os garranos livres, a seu belo prazer, aproveitando o território natural que é deles. É uma raça de cavalos semi-selvagem, muito bonita e elegante, de pelo castanho e crina e cauda preta. É comum, ainda, ver-se o gado a pastar também livremente, sendo a espécie típica a barrosã. Região de pastoreio, junto à Serradela há uma casa do pastor e um fojo de lobo, mas não demos com esta última estrutura.

Albufeira do Ermal

Perto fica a nascente do rio Ave, um rio com início serrano que nos vai oferecendo belos e variados momentos. O mais conhecido será certamente o da praia fluvial do Ermal, uma das portas da Cabreira, um lugar extenso e com todas as valências, incluindo bar / restaurante, famoso no início dos anos 2000 por aqui ter acontecido o Festival Ilha do Ermal, dedicado ao hard-rock.

Ponte de Agra

Mas há lugares mais recônditos e serenos, e praticamente intocados pelo Homem, para espreitar o Ave numa faceta totalmente diferente daquela que nos habituámos a ver na sua passagem pelos meios urbanos e industrializados. Imediatamente após a sua nascente, a zona envolvente à Ponte de Agra é disso exemplo. De origem romana, o lugar idílico é ainda acompanhado pela ruína de uns moinhos à beira rio, testemunho do modo de vida das gentes de outrora. Mais para dentro do rio, embrenhando-nos totalmente pelo verde das suas estreitas margens, diz que há umas poças de água cristalina para descobrir, o que acabámos por não fazer.

Agra
Cascata da Candosa

Agra é aldeia agrícola, território da pedra granito, que divide os terrenos plantados de trigo e é usada na construção das casas de arquitectura vernacular. A pouca distância, na outra margem do Ave, está Lamedo, mais uma aldeia pitoresca a conhecer. Nela tem início o PR6 – Moinhos do Ave, o qual liga as duas aldeias, mas do qual só percorremos parte. Saindo de Lamedo logo adentramos um bonito bosque que nos leva, primeiro, a uma ponte medieval sobre o Ave e, depois de passarmos por uma série de moinhos em ruína, à cascata da Candosa. Os blocos de granito no caminho são uma constante e mantém-se junto à pequena piscina natural para onde jorra a água desta muito bonita cascata. Para além dos moinhos, há ainda vestígios de uma antiga levada, tradicional forma de transportar a água para os terrenos agrícolas, estrutura de que falaremos mais adiante.

Vieira do Minho
Vieira do Minho
Vieira do Minho

Até aqui andámos pelo concelho de Vieira do Minho, por cuja sede fizemos questão de passar. É talvez das mais pequenas do nosso país, com uma praça central engraçada – o Jardim da Praça Doutor Guilherme de Abreu, com edifício da câmara municipal e tribunal – e a Casa de Lamas, centro cultural. Agora propriedade da Câmara, a Casa de Lamas correspondia a uma antiga casa senhorial com origem no século XVI, tendo depois acompanhado as transformações da região ao longo dos séculos até se tornar o exemplar que chegou aos nossos tempos, em estilo barroco do século XVIII. Com um pátio bem cuidado e florido, a casa em granito tem dois pisos e capela e o portal é antecedido de escadaria, com pedra de armas ao lado, um exemplo da riqueza dos seus nobres proprietários.

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