Tendo estabelecido a base na ilha de Santo Antão na vila das Pombas / Paul, pensámos fazer uma curta caminhada por perto, ribeira Poneta adentro até à Cascata das Neves, mas a chuva alagou o trilho e tornou-o impossível e perigoso de percorrer. Não arriscando, limitámo-nos a caminhar sob a chuva pela costa junto às Pombas.



As falésias costeiras da costa nordeste desta ilha são negras e têm formas curiosas, muitas delas com marcas da erosão. Uma fez mais, esta faixa costeira faz lembrar a costa norte da ilha da Madeira, com majestosas é imponentes montanhas à beira-mar.



Perto das Pombas, o destaque vai para a muito pitoresca Praia do Gil, com um casario colorido num perfeito contraste com o negro das falésias e do areal. Tem ainda umas palmeiras que dão um ar mais exótico ao lugar.





A Estrada Costeira que liga o nordeste da ilha (Ponta do Sol, Ribeira Grande e Pombas) ao Porto Novo é muito bonita. Os últimos 23 kms, correspondentes ao troço Janela – Porto Novo, foram inaugurados apenas em 2009, numa obra de engenharia que trouxe consigo os únicos 2 túneis da ilha, para além da importância de aproximar povoações, reduzindo o tempo de transporte entre elas. É uma experiência cénica fantástica, aliando a paisagem de mar à de montanha, permitindo-nos passar, num ápice, de uma área verde e fértil para outra negra e seca.


Para lá das Pombas em direcção à Ponta do Sol, em Sinagoga encontramos umas piscinas naturais entre a rocha vulcânica e junto à ruína de um antigo hospício / lazareto.


A Ribeira Grande é um dos maiores centros urbanos da ilha e o primeiro lugar de povoamento (e sua primeira sede de concelho), mas para nós acabou por servir de ponto de passagem a caminho de outros destinos. O mesmo para a Ponta do Sol, uma vila de pescadores onde ficava o antigo aeródromo da ilha, hoje desactivado. Mas esta povoação constitui o ponto inicial ou final, é escolher, do percurso pedestre merecidamente mais famoso de Santo Antão, a par do já referido Cova – Paul. Uma vez que o percurso é linear, por uma questão logística, designadamente, de transporte, optámos por iniciar a caminhada de cerca de 16 kms na Cruzinha e terminá-la na Ponta do Sol, embora nos pareça que em termos de esforço físico seja indiferente o sentido.






Certo é que a magnificência das paisagens costeiras da costa noroeste entre a Cruzinha e a Ponta do Sol é garantida, através de caminhos empedrados “lavrados” directamente nas enormes e imponentes falésias que acompanham o Atlântico (uma verdadeira obra de engenharia) e que há séculos servem os locais nas suas deslocações entre povoações. Saindo da aldeia piscatória Cruzinha, passamos por uma praia e uma língua de areia negra vulcânica, quedas de água, uma aldeia abandonada sob uma escultural parede rochosa directamente levantada do mar, uma via sacra extenuante, cores diversas (negro da falésia, azul do mar e do céu, verde dos campos e vales agricultados) e, para além das vistas mar, sempre que podemos vamos espreitando para o interior da ilha. Sobretudo, passamos por uma série de aldeias, hoje menos povoadas em relação a outros tempos, e cujo acesso é feito exclusivamente a pé, testemunhos de vida e de isolamento. São elas, por ordem de passagem, Formiguinhas, Corvo e Fontainhas, todas com uma implantação incrivelmente bonita e até desafiadora.








Formiguinhas está numa zona baixa da falésia, mas não ao nível do mar, e tem terrenos cultivados em socalcos logo nas costas e umas cascatas a jorrar do alto logo a receber-nos. Nela podemos pausar um pouco enquanto admiramos o mar ou saboreamos um pastel feito ali mesmo no seu café.



O Corvo é linda, linda. O topónimo indica-nos que terá sido fundada por um corvino (a ilha foi povoada por alguns açorianos e madeirenses, e as várias povoações denominadas “Fajã”, “Lomba” e “Chã”, atestam-no), mas é a sua disposição que fascina: espremida entre o mar e o vale, o seu recorte é desenhado pela curva da ribeira que desagua ali no oceano. Junto à ribeira, vale verdejante adentro, veem-se os terrenos ainda marcados pelas linhas dos patamares em socalcos, mas agora abandonados. É nesta aldeia que existe uma Via Sacra pontuada por 14 estações com imagens e palavras, que representam o caminho de Jesus até à Cruz. Dada a direcção Cruzinha – Ponta do Sol por nós escolhida, tivemos de subir esta via crucis muito acentuada, a única penitência do caminho, felizmente aliviada pelas vistas inesquecíveis para o maravilhoso Corvo.



Fontainhas, disse a National Geographic espanhola, é uma das aldeias do mundo com a melhor vista. É, verdadeiramente, um símbolo e síntese de todo este percurso pedestre: uma aldeia a que apenas se acede caminhando, com as suas casas coloridas empoleiradas num penhasco, rodeada por montanhas grandiosas e vales profundos rasgados por sulcos e desenhados por socalcos. As sucessivas cascatas caem das montanhas nas costas da aldeia e o mar diz presente à distância de um olhar. É mais um postal perfeito.

Mas há uma imagem nas Fontainhas que não esqueceremos, a daquelas casas (prédios de 3 ou 4 andares) instaladas num verdadeiro precipício, uma rocha comida pela erosão, num exercício de equilíbrio que é desafio à sorte.


E, memória pessoal que levámos das Fontainhas, nesta aldeia parámos para comprar água numa loja e logo os nossos sentidos se activaram: o odor não enganou, ali vende-se vinho, não grogue ou poncha, vinho como aquele que a avó vendia na sua loja tão distante daquelas paragens. E aí nos deixámos estar por uns momentos a ouvir a história de vida de um local que por ter trabalhado num cargueiro já esteve em todos os cantos do mundo, Lisboa, Europa, América e Japão, mas que decidiu, por fim, voltar à terra mais bonita, aquela onde estão as suas raízes. Esta caminhada permitiu-nos, pois, perceber como ainda se vive em Santo Antão tão remotamente, tão longe do longe, mas há sempre uma palavra para nos receber, um bom dia, um tudo dret, a tal morazbeza, e nos retribuímos com um redondo SIM, tudo sab, sab.