Com uma curiosa forma em “T”, resultado da provável ligação de duas ilhas independentes em decorrência de erupções vulcânicas, a ilha de São Nicolau é extremamente variada em termos geológicos e geomorfológicos. O vulcanismo moldou de forma vincada a sua paisagem, feita de um relevo acidentado com montanhas a pique e vales profundos, para além de uma costa escarpada. Na parte ocidental, ao centro está aquela que é considerada uma das 7 maravilhas de Cabo Verde, o Monte Gordo, vigia do lindíssimo e fértil Vale da Fajã, um coração verde rodeado de uma costa castanha.

Imediatamente antes do avião aterrar, logo percebemos um elemento vulcânico. É a caldeira da Preguiça – veremos mais destes elementos durante a nossa estadia na ilha. Não chegámos a visitar a Preguiça, a aldeia portuária que a tantos serviu de porta de saída da ilha rumo à emigração e que há mais de 500 anos tinha servido de repouso a Pedro Álvares Cabral, na sua viagem de descoberta do Brasil. E também não desviámos a Caleijão, a terra de Chiquinho (na verdade, tanto ficou por visitar nesta curta paisagem por São Nicolau). Seguimos antes para a Ribeira Brava, a capital da ilha e a par de São Filipe, no Fogo, uma das mais bem conservadas cidades coloniais no arquipélago. Instalada num vale que a antiga ribeira perfurou e protegida pelos picos afiados das montanhas que a rodeiam, a cidade foi criada neste lugar no século XVII como fuga aos ataques piratas que atormentavam Preguiça. Um abrigo que veio a tornar-se conhecido como a “Stancha”, derivada de “estância”. Como referido em anterior post, decisivo para o crescimento e desenvolvimento da Ribeira Brava foi o facto de D. Frei Cristóvão de São Boaventura, bispo de Cabo Verde, ter estabelecido nela a sede da diocese em 1786, escolhida como alternativa às más condições de salubridade da Ribeira Grande, ilha de Santiago. Com isso, a ilha de São Nicolau tornou-se um centro religioso, e em 1811 estava concluída a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário a qual, depois de reedificada em 1898, viria a tornar-se Sé Catedral até 1943 – está até hoje na praça principal da cidade, o Terreiro.




De ruas estreitas com casario colorido, é fácil deixarmo-nos encantar pela Ribeira Brava. A praça central, essa, é uma beleza, cercada por montes verdes. Domina-a a referida Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em tom pastel com listas ocre a sobressair e duas torres sineiras, uma de cada lado. Com um pacato jardim na base, aí está também a biblioteca que, custa a acreditar, não tem o Chiquinho nas suas estantes (talvez na escola, informou a menina). Mesmo se, nas traseiras da praça, vejamos uma estátua de Baltasar Lopes, autor de uma das maiores obras em língua portuguesa e um dos grandes impulsionadores do movimento Claridade. Em contrapartida, a dois passos dali, a casa onde nasceu está ao abandono. Uma pena que não se preservem elementos essenciais da memória deste que foi em tempos considerado o principal centro cultural e intelectual de Cabo Verde e um dos mais importantes de todas as colónias portuguesas.




Em 1866 foi criado na Ribeira Brava o Seminário Diocesano que, tendo começado por formar sacerdotes, haveria de formar muitos outros leigos a partir de 1892, quando passou a designar-se Seminário-Liceu. Fundado num edifício doado pelo médico local Júlio José Dias (cujo busto está no Terreiro), foi a primeira escola secundária e superior do arquipélago e por ela passaram não apenas Baltasar Lopes, como tantos outros que viriam a ser parte da intelectualidade cabo-verdiana, incluindo o pai de Amílcar Cabral, símbolo das independências africanas. Mais infame, o Seminário-Liceu, encerrado em 1918, serviu para receber os deportados da Revolta da Madeira, em 1931 (depois enviados para o campo de concentração do Tarrafal, na vila costeira desta ilha). Hoje, a aproximação a este casarão de dois andares, rodeado de verde, como a cidade, faz-se tranquilamente e, atraídas pelas vozes que saiam da porta entreaberta de uma das salas, percebemos que voltou ao seu propósito inicial, as aulas e a formação da nova geração.



Ainda na Ribeira Brava, visite-se o seu mercado municipal, sempre um local cheio de cor, e as duas mercearias, uma diante da outra, com decoração antiga – balcão corrido e prateleiras de madeira logo atrás, como se vê já pouco em Portugal. O nome da povoação remete para a ribeira que a atravessa, seca quando por lá passámos. Mas atente-se no nome “brava”, basta virem as chuvas e ela transformar-se-á.




Parecia fácil ir da Ribeira Brava até ao Cachaço, centro da ilha, mas não, aquela estrada marcada no mapa, com a parte final em sucessivos “S”s, é impossível de ser percorrida por carros, mesmo 4×4. Assim, há que seguir a estrada rumo à costa norte, para depois subir todo o Vale da Fajã. E que vale este, de uma beleza sem limite. Principal zona agrícola da ilha, é um vale largo e extremamente verde, ladeado pelas majestosas montanhas e com algumas povoações à beira da estrada (Fajã de Baixo, Fajã de Cima, Canto da Fajã e Cachaço) e para lá dela (Queimadas e Covoada).








Caminhamos pelas “Fajãs”, por caminhos usados pelas suas gentes, resistentes habitantes das casas agrícolas imersas numa vegetação exuberante. O vale possui um microclima e ora faz sol, ora chuva ou até nevoeiro. Há muita água, daí a sua fertilidade, nele se plantando couve, batata, inhame, mandioca, papaia, cana de açúcar, banana, entre outros. E este é o reino dos dragoeiros (dracaena draco), a misteriosa e fascinante espécie típica da Macaronésia, sendo São Nicolau o território que a possui em mais abundância, em especial este Vale da Fajã – diz que serão cerca de 3.000 exemplares, o maior deles na Covoada. A ilha tem uma larga rede de trilhos, ligando praticamente todos os cantos, forma óptima para se conhecer efectivamente a sua paisagem e cultura. Porém, para os percorrer é necessário tempo, o que não tivemos (há que voltar, dedicando a São Nicolau todo o tempo que merece; e que merecemos nós também).




Junto ao desvio para a entrada no Monte Gordo está o acesso ao miradouro da Cintinha, debaixo do monte de mesmo nome (com um peculiar pompom rochoso no topo) e lugar de uma pitoresca capela e curta via crucis. A panorâmica é brutal, mais uma vista impressionante. A poucos passos, já na estrada, o vale da Ribeira Brava abre-se inteiro para nossa total admiração. Só grandes paisagens.


Tentámos caminhar pelo Parque Natural de Monte Gordo, o ponto mais elevado da ilha, com 1.312 metros de altitude. Este maciço vulcânico com forma de cratera está localizado na junção dos dois antigos maciços vulcânicos que deram origem a Sao Nicolau como ilha única e possui um ecossistema muito próprio. Igualmente luxuriante como o Vale da Fajã, a montanha faz com que a humidade e a forte precipitação que aqui são registadas, mas também o costumeiro nevoeiro, permitam o desenvolvimento de diversas espécies vegetais endémicas (contam-se 32), incluindo dragoeiros, para além de pinheiros, ciprestes e eucaliptos. Passámos o centro de visitantes do Parque, onde adquirimos bilhete (essencial para a manutenção e preservação desta maravilha), iniciámos a subida e, com pouca demora, começou a chover. Continuámos, teimosamente. Foi ficando cada vez mais frio e a chuva insistente tornou-se inclemente. Pior, o nevoeiro nada deixava vislumbrar. Desistimos, lamentando a pouca sorte.







No dia anterior, subimos no nosso 4×4 da Ribeira de Prata, que se acede desde a Praia Branca, até ao Vale da Fragata – desde 2023, uma estrada liga estas duas povoações, 2,5 kms de acentuada pendente num piso empedrado. Obra de inestimável necessidade, aproximando lugares isolados a que, de outra forma, só se chega caminhando, seja para ir para a escola, seja carregando as mercadorias do labor agrícola. Ainda assim, há que percorrer mais umas centenas de metros / quilómetro para se chegar ao núcleo habitacional (ligado por caminhos vicinais ao Canto da Fajã, para um lado, e à Praia Branca, para o outro). O vale é estreito e profundo, cheio de abismos e rochedos esbeltos, carregado de cana de açúcar, bananeiras, mangas e outras frutas e muito verde – este é mais um vale fértil; e este é mais um vale de uma beleza avassaladora. Começou a chover, trocámos umas palavras com alguns habitantes que apenas se expressavam em criolo, cedemos passagem aos locais e burros em trabalho agrícola, desistimos de escorregar no caminho empedrado e desistimos, uma vez mais, de adentrar no vale, não arriscando quedas. Dois dias depois, já em Santo Antão, lemos e vimos nas notícias que as chuvadas do dia seguinte (aquele que nos encharcou no Monte Gordo) mandou a água da Ribeira Brava para fora, fechou a estrada Ribeira de Prata – Fragata e voltou a destruir mais um bocado da estrada até ao Carriçal (que no mês anterior já havia cortado a ligação até esta povoação costeira). É disto que se trata quando se assinala as fracas infra-estruturas da ilha de São Nicolau, e não apenas a inexistência de hotel na ilha – os seus problemas estruturais deixam várias localidades (ainda mais) isoladas, situação que pode até ser, potencialmente, perigosa.


Ribeira de Prata é a aldeia da Rotcha Scribida, nome de morna, inspirada numa formação geológica que não chegámos a descobrir – a “rocha escrita” tem inscrições que as lendas gostam de acreditar terem sido deixadas por piratas que aqui esconderam tesouros, embora seja na verdade um fenómeno natural de depósitos sedimentares que se foram formando ao longo do tempo pela erosão da rocha. Com vistas esplêndidas quer para a costa (falésias negras imponentes), quer para o vale (montanhas verdes formosas), a sua implantação geográfica é naturalmente bela. Diz-se que há muito a água correu na ribeira em tal abundância que até camarão havia no seu leito.






Para algo totalmente diferente, para o final da viagem deixámos a visita à “outra” ilha, na vertente oriental. Da Ribeira Brava sai uma estrada única de cerca de 40 kms que passa por nem meia-dúzia de povoações. Não a percorremos toda (não chegámos ao citado Carriçal), chegando apenas ao Juncalinho. A paisagem é muito mais árida e não existem vales verdejantes, apenas respeitosas montanhas negras mesmo ao lado do mar. Pese embora a diferença, é igualmente deslumbrante.





O Juncalinho é uma aldeia de implantação curiosa. Plataforma plana junto à costa e com a falésia imediatamente nas costas, foi formada pelos materiais que caíram da montanha e por correntes de lava que acabaram por solidificar há milhares de anos – conhecida localmente por achada (fajã na Madeira e nos Açores). Neste território vulcânico onde foram construídas habitações, vemos uns cones / caldeiras e umas piscinas naturais, populares na ilha. Cortesia da natureza, a tranquila água desta piscina moldada pela lava solidificada contrasta em absoluto com o mar mexido, mesmo a seu lado. O céu e o clima não estavam a favor para desfrutar nem da melhor luz nem de um mergulho naquela água que, ainda assim, deu para perceber ser intensamente cristalina, mais um contraste com a negritude que a circunda. E mais um exemplo do forte apelo e magnetismo da muito esquecida ilha de São Nicolau.