Marvila por San Spiga

Também em Marvila, no âmbito do Festival Muro 2017, algumas fotos da arte do argentino San Spiga. Esta bem mais efémera do que as pinturas nas empenas, pelo recurso a colagem. Hoje já não se veem estas imagens por inteiro, mas aqui ficam testemunhos desta tentativa de integração da arte urbana com as vivências do bairro, mesmo se recorrendo a ícones que a uma primeira vista nos podem parecer alheios (não tanto Maradona, mas mais Evita e as Madres da Praça de Maio).

Marvila

O Festival Muro 2017 teve lugar em Marvila jáem Maio do ano passado, mas deixou as suas marcas na arte urbana que espalhou pelos seus bairros. Aproveitando que nesse ano se celebrava Lisboa, Capital Ibero-Americana de Cultura, foram convidados diversos artistas ibero-americanos que entre workshops, concertos, palestras se dedicaram ainda à pintura de empenas, enormes obras de arte a céu aberto que a cidade de Lisboa acabou por ganhar.
Sob o mote da inclusão, a arte andou – e anda – à solta nos bairros da Quinta do Marquês de Abrantes, da Quinta do Chalé e da Quinta das Salgadas.
Em Novembro de 2016 havia sido inaugurada a Bibilioteca Municipal de Marvila, a maior biblioteca municipal da cidade e uma das meninas dos olhos da vereação da cultura do município. Não é para menos. O projecto de arquitectura está muito bem conseguido, numa bela recuperação e adaptação do antigo edifício da Quinta das Fontes pelo arquitecto Hestnes Ferreira. 
Lugar de realojamentos, Marvila era ao mesmo tempo um lugar de quintas, com uma vista altaneira privilegiada para o rio Tejo. É fácil ainda hoje caminhar-se por aqui e ficarmos perdidos entre o sentido campo / cidade. As ovelhas convivem com os graffitis; o hip hop com os livros. Não têm de ser contraditórios. A noção de que a integração é necessária e desejável e de que a Biblioteca deve ser já não apenas um espaço de cultura mas sobretudo um espaço de comunidade foi o que levou a que este seja hoje um equipamento central a estes bairros, projectando o futuro, mas sem deixar de preservar as memórias do lugar.
Sugere-se, assim, que a partir do espaço da Biblioteca se parta à descoberta destes novos bairros e comunidades mais esquecidas de Marvila à boleia da arte urbana. 
Algumas fotos:
A estrela da companhia, o brasileiro Eduardo Kobra e o índio Raoni:
Outras cores:
E uma mensagem:

Padre Cruz

O Bairro Padre Cruz, na freguesia de Carnide, quase a deixar Lisboa para adentrar a ruralidade de Odivelas, é considerado pela própria Câmara Municipal de Lisboa como o maior bairro de habitação social da Península Ibérica. 
Assim designado como homenagem ao padre de mesmo nome, este bairro data dos anos 60, quando a Câmara começou a urbanizar a área para alojar os seus funcionários. No início as habitações eram precárias, com construções em lusalite, e queriam-se provisórias. O provisório tornou-se definitivo por muito tempo, apenas nos anos 70 surgiram os primeiros prédios, e os realojamentos tardaram. De tal forma que ainda no início do ano passado foi notícia a construção de mais dois novos edifícios para realojar mais algumas das famílias que ainda viviam em casas de alvenaria no bairro.
Hoje são cerca de 8000 os habitantes do Bairro Padre Cruz e já não exclusivamente funcionários da Câmara. A construção do chamado “bairro novo” nos anos 90 trouxe consigo o realojamento de muitos novos habitantes vindos de diversos bairros de Lisboa – e entre estes vieram indivíduos originários de várias zonas do país e de vários países de língua oficial portuguesa. 
Como consequência, a mistura de culturas no bairro. É aqui que o trabalho com a comunidade tem de ser decisivo, quer ao nível dos poderes públicos quer de iniciativas privadas. Existem diversas colectividades no bairro e a Paróquia de Carnide tem também um papel social importante. Ao nível dos equipamentos, decisiva foi igualmente a iniciativa de se instalar aqui infraestruturas como creches, centros culturais, bibliotecas e pavilhões desportivos, todas estas existentes no Bairro.
Mas uma das melhores formas – e também uma das mais na moda – é a que procura colocar estes bairros no mapa da cidade através da arte urbana.
O Bairro Padre Cruz foi pioneiro em receber o Festival Muro no Verão de 2016, acolhendo dezenas de artistas portugueses e estrangeiros que se propuseram mudar a cara do Bairro oferecendo um novo colorido ao amarelo desmaiado dos seus edifícios. A urbanização do bairro mostra algumas contradições. Os edifícios respiram e não vivem encafuados. Porém, registe-se as magras janelas e a ausência de varandas.
O que estas iniciativas fazem é trazer os lisboetas – e outros – a conhecer zonas da cidade que de outra forma não conheceriam. Aproximam os bairros e, sobretudo, aproximam os concidadãos. Até o Presidente Marcelo dos Afectos lá esteve, embora esse seja omnipresente. Mas disse-o bem na altura, ao afirmar que o bairro está vivo e aponta para o futuro.
No fundo, Festivais como o Muro, que enquanto ocorrem têm na sua programação intervenções, debates e diversas iniciativas artísticas que procuram envolver os moradores, deixam para sempre uma galeria a céu aberto visitável por qualquer um que o deseje. E isso faz com que os moradores se sintam, precisamente, desejados. Um sentimento de orgulho e de pertença invade os moradores destes bairros sociais ao realizarem que podem ter algo de belo, uma fachada mais bonita que a do seu vizinho até, e que isso possa ser motivo de admiração de tal forma que venha gente de fora. Que o seu bairro possa ser visitado como se visitam os monumentos do centro da capital.
Em seguida, alguns exemplos das dezenas de murais espalhados pelo Bairro Padre Cruz sob o âmbito do projecto “Criar mudança através da arte urbana”, começando por esta obra de Skran, paradigmática do objectivo de beleza, sim, mas sobretudo de integração deste projecto: velho, adolescente, criança, todos eles com futuro no Bairro.

Festa da Ilustração, Setúbal

Até dia 2 de Julho corre solta por Setúbal a 3.ª edição da Festa da Ilustração, sob o mote “É preciso fazer um desenho?” São diversas as mostras dos trabalhos de alguns dos melhores ilustradores portugueses, espalhadas por vários espaços da cidade.


Dois exemplos. 
Em primeiro lugar, o ilustrador convidado, António Jorge Gonçalves (talvez o meu preferido), presente na Casa da Cultura com a exposição “A Minha Casa Não Tem Dentro Desenhos Efémeros”. 

São três núcleos, um dos quais com os desenhos do seu projecto Subway Life. Em 1997, altura em que vivia em Londres, António Jorge Gonçalves decidiu desenhar as pessoas que por acaso se sentavam à sua frente no metro. Desde aí passou por inúmeras cidades (Atenas, Berlim, Lisboa, Cairo, São Paulo, Estocolmo, Moscovo e Tóquio) e o resultado é uma palete de figuras onde a diversidade impera. Podemos agora observar esses desenhos em formato grande ou espreitá-los nos cadernos do artista. Brilhante.

Outro dos núcleos é o seu mais recente projecto “A Minha Casa Não Tem Dentro”. É a consequência de um episódio da sua vida onde experimentou um estado de quase morte. Voltando da morte, expressa em desenhos o que passou.

Outro exemplo é a mostra patente na Casa d’ Avenida,  “É Preciso Contar uma História?”, com obras de João Catarino, Bernardo Carvalho, Andrés Sandoval, Melkio & Ana Feriàs e Plasticus Maritimus.



O interior deste edifício é surpreendente e presta-se bem ao duplo papel de servir de atelier e de espaço expositivo. Num trabalho integrado com as escolas locais, vemos aqui trabalhos de ilustração infantil e recorte em papel. E no segundo piso exploramos os trabalhos dos citados, em especial João Catarino e Bernardo Carvalho. Tudo guiado pela temática “mar”.

David Hockney: 60 anos de Carreira

O pretexto desta viagem a Londres foi a visita à exposição temporária da Tate Britain, patente de 9 de Fevereiro a 29 de Maio, “David Hockney: 60 Years of Work”.
 

 

David Hockney é considerado o maior artista britânico vivo e o mais reconhecido, com uma elevada reputação quer entre o público quer entre os críticos. Com 80 anos de idade e 60 de carreira artística, a Tate apresenta-nos por estes dias uma enorme retrospectiva da sua obra.
 
Uma obra plena de versatilidade, dominada à vez pelo uso da pintura, fotografia, vídeo, iPhone e iPad, escrita de ensaios de pendor artístico-filosófico, numa constante reinvenção de Hockney ao longo de todas estas décadas. Didier Ottinger titula o seu texto do catálogo da exposição como “Quando Chaplin dança com Picasso”, aludindo à forma como Hockney consegue reconciliar a pintura com a tecnologia e fundir a dita pintura com o cinema. 
 
Poucos artistas tão completos haverá.
 

 

Conhecia algumas obras de David Hockney, em especial as suas pinturas de piscinas e as suas paisagens de Hollywood e do Grand Canyon, quase todas elas através da visualização de imagens impressas em livros. 
 

 

Vê-las ao vivo foi, no entanto, surpreendente e um prazer imensurável. Grandes telas que enchem todos os nossos sentidos, “uma orgia de cor”, nas palavras de Jorge Calado no seu texto na edição de 11 de Março do Expresso, por parte de “um dos raros artistas que conseguem ser simultaneamente exuberantes e económicos”.
 
Apesar de termos bilhete comprado com antecedência, chegámos cedo e começámos a formar fila antes da abertura da Tate. Às 10:00 em ponto entrámos e numa decisão mais do que acertada passámos directamente para a terceira sala de forma a contornar as muitas pessoas que enchiam desde logo a exposição. Quando no fim aqui voltámos foi impossível arranjar espaço para partilhar estas duas salas, quanto mais tentar uma olhada consentânea para com estas obras. Todavia, todas as restantes onze salas foram vistas à larga e demoradamente.
 

 

Foi possível captar e entender as técnicas usadas por Hockney, não apenas nas linhas e curvas das suas piscinas, mas sobretudo nas colagens fotográficas. Pearblossom Hwy é uma das suas obras mais famosas e como nunca a tinha visto ao vivo sempre pensei que fosse uma pintura. Nada mais errado. No princípio dos anos 80 Hockney criou uma nova técnica de colagem de fotografias. Considerando que a fotografia mais não é do que o ponto de vista de um Ciclope paralisado numa fracção de segundo, o que a impede de representar o mundo e a experiência de viver no mundo, Hockney decidiu-se a juntar diversas polaroids, resultando do seu conjunto uma imagem dinâmica que reúne todas elas.
Eis um exemplo com “Gregory Swimming”
 
 
David Hockney nasceu no Yorkshire, mas fixou-se na Califórnia nos anos sessenta. Regressou à sua terra natal já neste milénio, para acabar por voltar novamente para a Califórnia. Estas duas regiões são marcantes na sua obra e grandes e intensas pinturas mostram-nos o porquê. A zona dos Wolds, no Yorkshire natal, foi ainda inspiração para uma interessante experiência em vídeo. Através da instalação de uma câmara no exterior de um carro, Hockney realizou o mesmo caminho de estrada por um bosque nas quatro diferentes estações do ano.
 
A minha maior curiosidade era, porém, ver como David Hockney realizava as suas pinturas em IPad. Pois é. Este é um dos caminhos que tem seguido nos últimos anos. Mais uma nova técnica, mais uma nova surpresa, mais uma demonstração da sua versatilidade. 
 
No fundo, o percurso de David Hockney reúne coerentemente as suas diversas experiências motivadas pelo desejo de realizar imagens que representem a forma como nós observamos e compreendemos o mundo.

Amadeo de Souza-Cardozo / Porto Lisboa / 2016-1916

Até dia 26 deste mês ainda podemos ver em Lisboa, no novo espaço do Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, a exposição de Amadeo que pretende recriar uma outra do mesmo Amadeo que aconteceu há 100 anos, no Jardim Passos Manuel, no Porto, e na Liga Naval Portuguesa, em Lisboa. Na época esta exposição foi apresentada por Almada Negreiros como “mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia”.
Modernista e vanguardista, as obras de Amadeo são encaixadas à vez no cubismo, futurismo e expressionismo, numa mostra da sua clara versatilidade.
O que mais me agrada na sua pintura são as cores e a geometria do seu desenho.
O nosso primeiro modernista pode ter andado por Paris, mas o resultado das suas pinceladas remete directamente para a paisagem portuguesa, como é evidente nestas duas obras.



As casinhas, portas e janelas, e Manhufe, arredores de Amarante, como aperitivo de uma futura viagem ao norte para (re)descobrir o Portugal de Amadeo.

China Hoje: A Desafiar os Limites

China Hoje: A Desafiar os Limites é uma das exposições temporárias do Museu do Oriente, em Lisboa, patente até 18 de Dezembro.


Apresenta-nos três artistas chineses que nos interpelam e nos fazem pensar sobre as consequências de um crescimento desenfreado desacompanhado de um desenvolvimento sustentável. Cada um destes três artistas foca-se em três temáticas essenciais. Li Fang debruça-se sobre a Liberdade de Expressão, Du Zhenjun sobre os Limites do Crescimento e Qiu Jie sobre a Cidadania Cultural.


Li Fang mostra-nos diversos trabalhos de nus – entre eles o do maior artista chinês da actualidade, Ai Weiwei – confrontando a modernidade dos nossos tempos com o facto de o nu na China ser ainda visto como um acto e pornografia. Onde fica a liberdade de expressão aqui?


Du Zhenjun, por seu lado, exibe grandes fotografias digitais onde nos mostra os efeitos imaginários (mas bem reais) numa cidade do aumento excessivo da sua população, das alterações climáticas, da escassez de recursos escassos como a água e os alimentos, e da crise ambiental que se lhe sucede. Será o caos o que nos espera no futuro?


Por último, os trabalhos de Qiu Jie remetem para uma arte pictórica tipicamente chinesa, os tons pastel a sobressair, para nos mostrar uma China mais pop, com Mao à cabeça com rosto de gatinho.
Muito interessante este olhar contemporâneo da China, pronto a despertar novas consciências políticas. 

Gares Marítimas de Lisboa

As Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, são dois exemplos do modernismo na capital onde a arquitectura e a pintura têm uma relação umbilical. O arquitecto Pardal Monteiro e o pintor (e muito mais) Almada Negreiros são os responsáveis pela obra-prima, numa parceria que se repete em outros pontos de Lisboa, como são exemplos a Igreja de Nossa Senhora de Fátima e a sede do Diário de Notícias (bem como a colaboração de ambos na Exposição do Mundo Português).


Abertas ao Tejo, a primeira a ser inaugurada foi a Gare Marítima de Alcântara, em 1943, depois a da Rocha, em 1948, tendo ficado a faltar a do Cais do Sodré, projecto que nunca chegou a avançar. De qualquer forma, as duas Gares existentes, para além da sua relevância patrimonial, são igualmente testemunhas e difusoras de lendas e de um período da história portuguesa.


O transporte marítimo sempre existiu no Tejo e a cidade de Lisboa sempre dependeu do comércio que por ele chegava e que nele se fazia. Com a epopeia dos descobrimentos e as possessões além mar, não era só o embarque de mercadorias que dominava. No século XX, com Salazar no comando e Duarte Pacheco nas Obras, foi decidido que Lisboa e o Tejo mereciam um lugar digno para as partidas e chegadas de passageiros. É nesse sentido que nos anos 30 se entrega ao arquitecto Pardal Monteiro o projecto dos edifícios de transporte e que nos anos 40 esses edifícios são construídos. Os passageiros passaram a embarcar e desembarcar em terra e como elementos comuns aos dois projectos temos, para além do modernismo bem visível nas suas linhas rectas e nas janelas rasgadas na vertical na fachada, o facto de ambos os edifícios possuírem dois andares e umas enormes varandas debruçadas sobre Tejo. A vista é um elemento essencial nestas Gares – à qual cerca de 20 anos mais tarde foi acrescentada a Ponte sobre o Tejo.


É, porém, a decoração das salas de espera dos segundos pisos das Gares Marítimas o seu elemento mais atrativo e valioso: os painéis murais de Almada Negreiros. 

Contextualizando um pouco mais, a construção destas Gares Marítimas decorreu em plena II Guerra Mundial. A encomenda a Almada Negreiros pretendia mostrar a quem chegava a Lisboa (a metrópole) um país moderno e pujante, no fundo, pretendia o Estado Novo afirmar-se no panorama internacional e ao mesmo tempo calar a contestação interna ao regime por parte de artistas e intelectuais. Como resultado temos este conjunto de frescos vivos, plenos de cores, traços geométricos e influências do cubismo, dois trípticos e dois isolados na Gare Marítima de Alcântara (pintados em 1945) e dois trípticos na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (pintados em 1949).

A cor que testemunhamos ainda hoje nestas obras é um contraste evidente com os tempos cinzentos do Estado Novo de Salazar. E se na Gare Marítima de Alcântara Almada Negreiros parece “conformado” com a encomenda de representar um Portugal de lendas e mitos da História, a paisagem de Lisboa e a vida das gentes trabalhadoras junto rio, já na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos Almada Negreiros rompe definitivamente com o cinzentismo do regime e apresenta-nos ainda com mais cor e sem receio um Portugal feito de emigração, de despedidas, de muita saudade.

Os temas dos frescos que decoram os salões das Gares Marítimas – lendas e a história heróica dos portugueses, a paisagem e as gentes de Lisboa, a emigração – contam-nos cada um deles uma história.

Gare Marítima de Alcântara 

O interior dá-nos através da sua varanda / esplanada e das suas janelas panorâmicas, por um lado, uma vista soberba do Tejo e, por outro, uma vista não menos marcante do vale de Alcântara, com os Prazeres e as Necessidades lá em cima.



Um primeiro tríptico dos painéis de Almada Negreiros é dedicado à Lenda da Nau Catrineta, poema popular português reproduzido por variadas vezes, incluindo por Almeida Garrett no seu Cancioneiro Geral. Encimado com o dizer “Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar”, ao longo dos três painéis vamos vendo, sucessivamente, os marinheiros famintos à volta da mesa, ao mesmo tempo que o capitão procura avidamente terra para fugir à sorte de ser comido pelos seus subordinados, enquanto a morte e o diabo espreitam; no segundo painel as três donzelas, filhas do capitão e por ele avistadas desde o mar; por último, a chegada a terra e a reunião familiar, enquanto a morte e o diabo aguardam por receber a sua parte do pacto feito com o capitão.


Isolado surge-nos o painel dedicado a outra lenda, desta vez a de “D. Fuas Roupinho, 1.° Almirante da Esquadra do Tejo”, com a representação do milagre da praia da Nazaré. Quem conhece a Nazaré e já esteve no Sítio ou leu os Lusíadas de Camões reconhece a lenda e o personagem. Este painel reproduz todos os pormenores, como Dom Fuas (nobre cavaleiro companheiro de Dom Afonso Henriques) no seu cavalo perseguindo o veado, a montanha donde se prepara para cair ao mar, a virgem da Nazaré atenta e, depois, detalhes como a caravela e os pescadores a chegarem da faina enquanto as suas mulheres trabalham as redes em terra e, pormenor maior, um outro pescador descansa na sombra do seu barco. 


Na outra lateral do Salão encontramos um segundo tríptico nomeado “Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa”, dedicado à representação de cenas da Lisboa ribeirinha. No primeiro destes painéis vemos as mulheres fortes que carregam o carvão à cabeça através de um passadiço que liga os barcos a terra; no segundo painel o Tejo está presente pelos barcos, mas Almada fez questão de deixar o nome do rio escrito num desses barcos – observe-se ainda o pormenor da matrícula de um dos barcos inscrita na sua vela; o terceiro painel mostra-nos a Sé de Lisboa e o casario ao seu redor, enquanto que em primeiro plano estão uma vez mais as gentes trabalhadoras de Lisboa, neste caso as mulheres que tratam do peixe.


Isoladamente temos ainda o painel “Ó terra onde eu nasci”, dedicado ao Portugal rural. Aqui Almada pretende representar um domingo típico português, talvez nos arredores de Lisboa, onde a tranquilidade grita. Vemos um grupo de jovens debaixo de uma árvore, uma pequena igreja e uma casa de aldeia decorada com motivos de festa, a senhora a vender o capilé na sua banquinha, enquanto um casal enamorado conversa – ele marinheiro vestido de azul mar, ela varina vestida de vermelho terra.

Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos


A Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, por sua vez, para além de mais uma longa varanda / esplanada para o Tejo, possui dois conjuntos de trípticos. A diferença entre estes painéis e os de Alcântara é visível. Mais cor, o cubismo como estilo evidente (a recordar Picasso) e apesar de o rio Tejo e Lisboa continuarem presentes agora são-no enquanto local de partida, retratando Almada de forma corajosa e dura a temática da emigração. 


O primeiro tríptico é dedicado à Lisboa ribeirinha. No primeiro painel, talvez a representação de mais um domingo, em que a gente do povo trabalhador se veste com as suas melhores roupas e usa desta vez o barco para um passeio e em que, divertida, tenta não deixar cair o chapéu ao rio. Ainda neste painel vemos mais um barco em segundo plano e, sobretudo, uma varanda e uma janela com uma mesa – pormenor tipicamente cubista. A sensação que se tem quando se observa demoradamente este painel é a de que daqui se poderiam extrair vários quadros isoladamente, tal é a profusão de temas e pormenores. 


Num segundo painel temos a representação de um barco decorado com olhos, cores sempre vivas, tão intenso que mais parece que é a pintura que nos espreita. As varinas robustas contrastam com os miúdos que descansam no barco. O terceiro painel é dedicado ao ócio, ao circo e seus saltimbancos (tema recorrente nas representações por parte dos cubistas), com um pormenor maior do rapaz que descansa o seu rosto ao ombro de uma mulher negra.



No tríptico do lado contrário do Salão a temática torna-se mais dura – podemos ter também representado um domingo, mas este não é mais um domingo de descanso, de ócio, de evasão, é antes um momento de despedida daqueles que partem para a emigração. O navio prepara-se para partir e entre os passageiros leva muitos que abandonam a sua família para buscar uma vida melhor noutro canto do mundo. Cá fora, em terra, os que ficam para se despedir estão bem vestidos e bem calçados e não esqueceram os chapéus para proteger do sol; dentro do navio, debruçados na amurada, os que partem preparam-se para dizer adeus. Espaço ainda para vermos um operário carregar cimento para dentro do barco, porque não só de passageiros se ocupavam os navios.


Em conclusão, este é mais um dos segredos bem guardados de Lisboa (cuja visita é possível mediante marcação junto do Porto de Lisboa) que merece ser visto por todos aqueles que apreciam história, arquitetura e arte e Lisboa. Da “obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século”, nas palavras de José Augusto França, disse o multifacetado artista Almada Negreiros, autor destes painéis, que “creio não haver antes cumprido melhor, nem feito obra que fosse mais minha”.

Fernando Botero

Fernando Botero será o artista mais famoso da Colômbia e tirando Gabriel Garcia Marquez o grande nome da cultura colombiana.

Algumas das esculturas das suas características gorditas estiveram há uns anos na Praça do Comércio da minha Lisboa e há menos anos ainda uma exposição de pinturas suas esteve patente no Palácio da Ajuda da mesma Lisboa. Não é, pois, um artista desconhecido no nosso país.
Na Colômbia, porém, temos à nossa disposição permanente um grande número de obras de Botero. Na sua Medellin natal encontramos numa praça só mais de uma vintena de esculturas e mais umas noutros locais da cidade.
Em Bogotá temos um Museu que leva o seu nome e aí podemos observar obras de diferentes fases da sua obra, embora nenhuma do início da sua longa carreira (estarão em posse desconhecida). Muitas delas icónicas. Eis alguns exemplos reunidos num post delicioso onde se alia arte e gastronomia no Cantina dos Sabores.

Berlim, Arte Urbana Em Cada Esquina

Berlim, apesar de todas as contrariedades e dramas históricos, é actualmente uma cidade onde se respira liberdade. Há um clima de abertura e tolerância que incentiva a experimentação e é responsável pela promoção de uma subcultura artística, a qual se expressa de diversas formas, nomeadamente no desenvolvimento de arte urbana.
A arte, nas suas várias dimensões, tem a grande virtude de oferecer visões alternativas do mundo e, assim, criar utopias.
Essa efervescência artística em Berlim tem um momento fundamental quando após a queda do Muro, no início dos anos 90, artistas transformaram um edifício abandonado num marco da cena artística alternativa de Berlim e com isso salvaram o edifício da demolição. Esse é o início da história de Tacheles, um espaço cultural e de arte alternativa, que durante cerca de 20 anos foi responsável pela criação de um mundo utópico paralelo.

 

Lembro-me de em 1998, aquando a minha primeira visita a Berlim, ficar fascinada com o ambiente artístico carregado de subversão, liberdade e experimentalismo que se vivia em Tacheles. Aquele ambiente caótico e apocalíptico era magnético. Tacheles criou uma visão criativa anarquista, plena de liberdade social. Contudo, o que aquele espaço sempre contrariou, o mainstream e a racionalidade do capital, foi responsável pelo seu fim. Tacheles sucumbiu à marcha inexorável do capitalismo alemão.

Foi, no entanto, enquanto durou, uma experimentação do poder da imaginação, que ficará na memória colectiva durante anos. Por outro lado, criou tendências em espaços abandonados e ainda a salvo da gentrificação urbana. Exemplo disso é a RAW Gemalde, em Friedrichshain, um espaço igualmente caótico, mas pleno de experimentalismo e criatividade artística. Para além da arte urbana espalhada pelos antigos edifícios industriais, há espaços informais versáteis e permeáveis a qualquer uso.

 

 

 

 

 

Aquele espaço tanto se assemelha a um local fantasma, como no momento seguinte alberga um concerto, outro espectáculo, um evento de street food (na Neueheimat) ou outra coisa qualquer que crie uma dinâmica própria.
Bem próximo do Urban Spree, contíguo à RAW, numa noite gelada, quando regressávamos do Skatehalle Berlin, um skatepark indoor, uma fila de pessoas esperava heroicamente para entrar no Astra Kulturhaus onde iria actuar Skunk Anansie. É de surpresas e situações inusitadas que são feitos estes lugares, que emanam um charme apocalíptico contagiante.

 

 

 

 

Ainda em Friedrichshain, na Boxhagener Strasse, encontramos o Diary / Guestbook. Num dos lados do cinema Intimes, encontramos uma parede com uma profusão imensa de trabalhos. O nome Diary / Guestbook deve-se ao conceito de ser um espaço em permanente mudança.

 

 

 

 

Enquanto o poder económico não se sobrepuser, estes territórios sobreviverão.

 

Contudo, ironicamente, é o lado artístico e subversivo destas áreas que, por vezes, as valoriza e as torna apetecíveis. Conscientes disso, os intervenientes directos da produção artística urbana chegam a preferir destruir a sua arte de rua do que deixá-la contribuir para o processo de valorização e especulação do lugar. Foi o que aconteceu em Schlesisches Tor, Kreuzberg, onde Blu, artista italiano de street art, pintou de preto o seu mural  Take Off That Mask & Shackled By Time, o qual era considerado um dos murais mais emblemático de Berlim.
Apesar desta perda, Kreuzberg, Friedrichshain e Neukölln continuam a congregar diversidade e criatividade artística e a serem locais onde as tendências futuras da street art são gizadas. De tal forma que Berlim é considerada a capital mundial da arte urbana e os seus mais emblemáticos artistas têm ali a sua marca.
Não esquecer que Berlim tem o maior mural do mundo, os 1,3 km do Murro de Berlim, correspondente à East Side Gallery.
Do outro lado do rio Spree, em Kreuzberg, encontramos alguns dos nomes maiores da arte urbana, como Blu, com o seu Leviathan.

 

 

 

Também damos com o Yellow Man dos manos brasileiros Os Gemeos.

 

No outro lado da mesma rua com a obra Rounded Heads de Nomad.

 

Ainda em Kreuzberg, cruzamo-nos com Two Landscapes, de Agostino Iacurci, criado pelo 25º aniversário da queda do Muro e que representa os aspectos humanos da reunificação.

 

No início da Skalitzer Strasse fica a Nature Morte de ROA.

 

 

Também na Skalitzer Strasse o Astronaut de Victor Ash.

 

 

Em Neukölln, fica uma das obras do projecto The Wrinkles of the City! do francês JR.

 

 

Muitos outros artistas de street art têm a sua obra espalhada pela cidade. Talentos locais, como El Bocho, podem ser encontrados em Friedrichshain e em Hackesche Höfe.
Até espaços aparentemente mais arrumadinhos como a Hackesche Höfe, no Mitte, têm um recanto em que a liberdade de expressão artística tem todo o espaço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Berlim é o lugar. Para quem quer fazer obra artística e para quem, como eu, quer e adora admirar este  tipo de arte.
Não pensem mais.
Vamos voar até lá.
E dançar com a liberdade artística que ali se vive.