Gares Marítimas de Lisboa

As Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, são dois exemplos do modernismo na capital onde a arquitectura e a pintura têm uma relação umbilical. O arquitecto Pardal Monteiro e o pintor (e muito mais) Almada Negreiros são os responsáveis pela obra-prima, numa parceria que se repete em outros pontos de Lisboa, como são exemplos a Igreja de Nossa Senhora de Fátima e a sede do Diário de Notícias (bem como a colaboração de ambos na Exposição do Mundo Português).


Abertas ao Tejo, a primeira a ser inaugurada foi a Gare Marítima de Alcântara, em 1943, depois a da Rocha, em 1948, tendo ficado a faltar a do Cais do Sodré, projecto que nunca chegou a avançar. De qualquer forma, as duas Gares existentes, para além da sua relevância patrimonial, são igualmente testemunhas e difusoras de lendas e de um período da história portuguesa.


O transporte marítimo sempre existiu no Tejo e a cidade de Lisboa sempre dependeu do comércio que por ele chegava e que nele se fazia. Com a epopeia dos descobrimentos e as possessões além mar, não era só o embarque de mercadorias que dominava. No século XX, com Salazar no comando e Duarte Pacheco nas Obras, foi decidido que Lisboa e o Tejo mereciam um lugar digno para as partidas e chegadas de passageiros. É nesse sentido que nos anos 30 se entrega ao arquitecto Pardal Monteiro o projecto dos edifícios de transporte e que nos anos 40 esses edifícios são construídos. Os passageiros passaram a embarcar e desembarcar em terra e como elementos comuns aos dois projectos temos, para além do modernismo bem visível nas suas linhas rectas e nas janelas rasgadas na vertical na fachada, o facto de ambos os edifícios possuírem dois andares e umas enormes varandas debruçadas sobre Tejo. A vista é um elemento essencial nestas Gares – à qual cerca de 20 anos mais tarde foi acrescentada a Ponte sobre o Tejo.


É, porém, a decoração das salas de espera dos segundos pisos das Gares Marítimas o seu elemento mais atrativo e valioso: os painéis murais de Almada Negreiros. 

Contextualizando um pouco mais, a construção destas Gares Marítimas decorreu em plena II Guerra Mundial. A encomenda a Almada Negreiros pretendia mostrar a quem chegava a Lisboa (a metrópole) um país moderno e pujante, no fundo, pretendia o Estado Novo afirmar-se no panorama internacional e ao mesmo tempo calar a contestação interna ao regime por parte de artistas e intelectuais. Como resultado temos este conjunto de frescos vivos, plenos de cores, traços geométricos e influências do cubismo, dois trípticos e dois isolados na Gare Marítima de Alcântara (pintados em 1945) e dois trípticos na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (pintados em 1949).

A cor que testemunhamos ainda hoje nestas obras é um contraste evidente com os tempos cinzentos do Estado Novo de Salazar. E se na Gare Marítima de Alcântara Almada Negreiros parece “conformado” com a encomenda de representar um Portugal de lendas e mitos da História, a paisagem de Lisboa e a vida das gentes trabalhadoras junto rio, já na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos Almada Negreiros rompe definitivamente com o cinzentismo do regime e apresenta-nos ainda com mais cor e sem receio um Portugal feito de emigração, de despedidas, de muita saudade.

Os temas dos frescos que decoram os salões das Gares Marítimas – lendas e a história heróica dos portugueses, a paisagem e as gentes de Lisboa, a emigração – contam-nos cada um deles uma história.

Gare Marítima de Alcântara 

O interior dá-nos através da sua varanda / esplanada e das suas janelas panorâmicas, por um lado, uma vista soberba do Tejo e, por outro, uma vista não menos marcante do vale de Alcântara, com os Prazeres e as Necessidades lá em cima.



Um primeiro tríptico dos painéis de Almada Negreiros é dedicado à Lenda da Nau Catrineta, poema popular português reproduzido por variadas vezes, incluindo por Almeida Garrett no seu Cancioneiro Geral. Encimado com o dizer “Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar”, ao longo dos três painéis vamos vendo, sucessivamente, os marinheiros famintos à volta da mesa, ao mesmo tempo que o capitão procura avidamente terra para fugir à sorte de ser comido pelos seus subordinados, enquanto a morte e o diabo espreitam; no segundo painel as três donzelas, filhas do capitão e por ele avistadas desde o mar; por último, a chegada a terra e a reunião familiar, enquanto a morte e o diabo aguardam por receber a sua parte do pacto feito com o capitão.


Isolado surge-nos o painel dedicado a outra lenda, desta vez a de “D. Fuas Roupinho, 1.° Almirante da Esquadra do Tejo”, com a representação do milagre da praia da Nazaré. Quem conhece a Nazaré e já esteve no Sítio ou leu os Lusíadas de Camões reconhece a lenda e o personagem. Este painel reproduz todos os pormenores, como Dom Fuas (nobre cavaleiro companheiro de Dom Afonso Henriques) no seu cavalo perseguindo o veado, a montanha donde se prepara para cair ao mar, a virgem da Nazaré atenta e, depois, detalhes como a caravela e os pescadores a chegarem da faina enquanto as suas mulheres trabalham as redes em terra e, pormenor maior, um outro pescador descansa na sombra do seu barco. 


Na outra lateral do Salão encontramos um segundo tríptico nomeado “Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa”, dedicado à representação de cenas da Lisboa ribeirinha. No primeiro destes painéis vemos as mulheres fortes que carregam o carvão à cabeça através de um passadiço que liga os barcos a terra; no segundo painel o Tejo está presente pelos barcos, mas Almada fez questão de deixar o nome do rio escrito num desses barcos – observe-se ainda o pormenor da matrícula de um dos barcos inscrita na sua vela; o terceiro painel mostra-nos a Sé de Lisboa e o casario ao seu redor, enquanto que em primeiro plano estão uma vez mais as gentes trabalhadoras de Lisboa, neste caso as mulheres que tratam do peixe.


Isoladamente temos ainda o painel “Ó terra onde eu nasci”, dedicado ao Portugal rural. Aqui Almada pretende representar um domingo típico português, talvez nos arredores de Lisboa, onde a tranquilidade grita. Vemos um grupo de jovens debaixo de uma árvore, uma pequena igreja e uma casa de aldeia decorada com motivos de festa, a senhora a vender o capilé na sua banquinha, enquanto um casal enamorado conversa – ele marinheiro vestido de azul mar, ela varina vestida de vermelho terra.

Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos


A Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, por sua vez, para além de mais uma longa varanda / esplanada para o Tejo, possui dois conjuntos de trípticos. A diferença entre estes painéis e os de Alcântara é visível. Mais cor, o cubismo como estilo evidente (a recordar Picasso) e apesar de o rio Tejo e Lisboa continuarem presentes agora são-no enquanto local de partida, retratando Almada de forma corajosa e dura a temática da emigração. 


O primeiro tríptico é dedicado à Lisboa ribeirinha. No primeiro painel, talvez a representação de mais um domingo, em que a gente do povo trabalhador se veste com as suas melhores roupas e usa desta vez o barco para um passeio e em que, divertida, tenta não deixar cair o chapéu ao rio. Ainda neste painel vemos mais um barco em segundo plano e, sobretudo, uma varanda e uma janela com uma mesa – pormenor tipicamente cubista. A sensação que se tem quando se observa demoradamente este painel é a de que daqui se poderiam extrair vários quadros isoladamente, tal é a profusão de temas e pormenores. 


Num segundo painel temos a representação de um barco decorado com olhos, cores sempre vivas, tão intenso que mais parece que é a pintura que nos espreita. As varinas robustas contrastam com os miúdos que descansam no barco. O terceiro painel é dedicado ao ócio, ao circo e seus saltimbancos (tema recorrente nas representações por parte dos cubistas), com um pormenor maior do rapaz que descansa o seu rosto ao ombro de uma mulher negra.



No tríptico do lado contrário do Salão a temática torna-se mais dura – podemos ter também representado um domingo, mas este não é mais um domingo de descanso, de ócio, de evasão, é antes um momento de despedida daqueles que partem para a emigração. O navio prepara-se para partir e entre os passageiros leva muitos que abandonam a sua família para buscar uma vida melhor noutro canto do mundo. Cá fora, em terra, os que ficam para se despedir estão bem vestidos e bem calçados e não esqueceram os chapéus para proteger do sol; dentro do navio, debruçados na amurada, os que partem preparam-se para dizer adeus. Espaço ainda para vermos um operário carregar cimento para dentro do barco, porque não só de passageiros se ocupavam os navios.


Em conclusão, este é mais um dos segredos bem guardados de Lisboa (cuja visita é possível mediante marcação junto do Porto de Lisboa) que merece ser visto por todos aqueles que apreciam história, arquitetura e arte e Lisboa. Da “obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século”, nas palavras de José Augusto França, disse o multifacetado artista Almada Negreiros, autor destes painéis, que “creio não haver antes cumprido melhor, nem feito obra que fosse mais minha”.

Fernando Botero

Fernando Botero será o artista mais famoso da Colômbia e tirando Gabriel Garcia Marquez o grande nome da cultura colombiana.

Algumas das esculturas das suas características gorditas estiveram há uns anos na Praça do Comércio da minha Lisboa e há menos anos ainda uma exposição de pinturas suas esteve patente no Palácio da Ajuda da mesma Lisboa. Não é, pois, um artista desconhecido no nosso país.
Na Colômbia, porém, temos à nossa disposição permanente um grande número de obras de Botero. Na sua Medellin natal encontramos numa praça só mais de uma vintena de esculturas e mais umas noutros locais da cidade.
Em Bogotá temos um Museu que leva o seu nome e aí podemos observar obras de diferentes fases da sua obra, embora nenhuma do início da sua longa carreira (estarão em posse desconhecida). Muitas delas icónicas. Eis alguns exemplos reunidos num post delicioso onde se alia arte e gastronomia no Cantina dos Sabores.

Berlim, Arte Urbana Em Cada Esquina

Berlim, apesar de todas as contrariedades e dramas históricos, é actualmente uma cidade onde se respira liberdade. Há um clima de abertura e tolerância que incentiva a experimentação e é responsável pela promoção de uma subcultura artística, a qual se expressa de diversas formas, nomeadamente no desenvolvimento de arte urbana.
A arte, nas suas várias dimensões, tem a grande virtude de oferecer visões alternativas do mundo e, assim, criar utopias.
Essa efervescência artística em Berlim tem um momento fundamental quando após a queda do Muro, no início dos anos 90, artistas transformaram um edifício abandonado num marco da cena artística alternativa de Berlim e com isso salvaram o edifício da demolição. Esse é o início da história de Tacheles, um espaço cultural e de arte alternativa, que durante cerca de 20 anos foi responsável pela criação de um mundo utópico paralelo.

 

Lembro-me de em 1998, aquando a minha primeira visita a Berlim, ficar fascinada com o ambiente artístico carregado de subversão, liberdade e experimentalismo que se vivia em Tacheles. Aquele ambiente caótico e apocalíptico era magnético. Tacheles criou uma visão criativa anarquista, plena de liberdade social. Contudo, o que aquele espaço sempre contrariou, o mainstream e a racionalidade do capital, foi responsável pelo seu fim. Tacheles sucumbiu à marcha inexorável do capitalismo alemão.

Foi, no entanto, enquanto durou, uma experimentação do poder da imaginação, que ficará na memória colectiva durante anos. Por outro lado, criou tendências em espaços abandonados e ainda a salvo da gentrificação urbana. Exemplo disso é a RAW Gemalde, em Friedrichshain, um espaço igualmente caótico, mas pleno de experimentalismo e criatividade artística. Para além da arte urbana espalhada pelos antigos edifícios industriais, há espaços informais versáteis e permeáveis a qualquer uso.

 

 

 

 

 

Aquele espaço tanto se assemelha a um local fantasma, como no momento seguinte alberga um concerto, outro espectáculo, um evento de street food (na Neueheimat) ou outra coisa qualquer que crie uma dinâmica própria.
Bem próximo do Urban Spree, contíguo à RAW, numa noite gelada, quando regressávamos do Skatehalle Berlin, um skatepark indoor, uma fila de pessoas esperava heroicamente para entrar no Astra Kulturhaus onde iria actuar Skunk Anansie. É de surpresas e situações inusitadas que são feitos estes lugares, que emanam um charme apocalíptico contagiante.

 

 

 

 

Ainda em Friedrichshain, na Boxhagener Strasse, encontramos o Diary / Guestbook. Num dos lados do cinema Intimes, encontramos uma parede com uma profusão imensa de trabalhos. O nome Diary / Guestbook deve-se ao conceito de ser um espaço em permanente mudança.

 

 

 

 

Enquanto o poder económico não se sobrepuser, estes territórios sobreviverão.

 

Contudo, ironicamente, é o lado artístico e subversivo destas áreas que, por vezes, as valoriza e as torna apetecíveis. Conscientes disso, os intervenientes directos da produção artística urbana chegam a preferir destruir a sua arte de rua do que deixá-la contribuir para o processo de valorização e especulação do lugar. Foi o que aconteceu em Schlesisches Tor, Kreuzberg, onde Blu, artista italiano de street art, pintou de preto o seu mural  Take Off That Mask & Shackled By Time, o qual era considerado um dos murais mais emblemático de Berlim.
Apesar desta perda, Kreuzberg, Friedrichshain e Neukölln continuam a congregar diversidade e criatividade artística e a serem locais onde as tendências futuras da street art são gizadas. De tal forma que Berlim é considerada a capital mundial da arte urbana e os seus mais emblemáticos artistas têm ali a sua marca.
Não esquecer que Berlim tem o maior mural do mundo, os 1,3 km do Murro de Berlim, correspondente à East Side Gallery.
Do outro lado do rio Spree, em Kreuzberg, encontramos alguns dos nomes maiores da arte urbana, como Blu, com o seu Leviathan.

 

 

 

Também damos com o Yellow Man dos manos brasileiros Os Gemeos.

 

No outro lado da mesma rua com a obra Rounded Heads de Nomad.

 

Ainda em Kreuzberg, cruzamo-nos com Two Landscapes, de Agostino Iacurci, criado pelo 25º aniversário da queda do Muro e que representa os aspectos humanos da reunificação.

 

No início da Skalitzer Strasse fica a Nature Morte de ROA.

 

 

Também na Skalitzer Strasse o Astronaut de Victor Ash.

 

 

Em Neukölln, fica uma das obras do projecto The Wrinkles of the City! do francês JR.

 

 

Muitos outros artistas de street art têm a sua obra espalhada pela cidade. Talentos locais, como El Bocho, podem ser encontrados em Friedrichshain e em Hackesche Höfe.
Até espaços aparentemente mais arrumadinhos como a Hackesche Höfe, no Mitte, têm um recanto em que a liberdade de expressão artística tem todo o espaço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Berlim é o lugar. Para quem quer fazer obra artística e para quem, como eu, quer e adora admirar este  tipo de arte.
Não pensem mais.
Vamos voar até lá.
E dançar com a liberdade artística que ali se vive.

 

 

O Muro de Berlim

A presença do Muro marcou Berlim de forma inegável. Actualmente parte das áreas por onde passava o Muro são alguns dos principais pontos turísticos da cidade.
Porém, a presença do Muro e a sua história é oferecida de formas diferentes. Se a East Side Gallery, em Friedrichshain, com o muro pintado por artistas, nos dá uma leitura leve, artística e mesmo divertida, não nos remetendo para o drama das quase três décadas de encarceramento da população da Berlim Oriental, já o Memorial da Bernauer Strasse, no bairro de Prenzlauer Berg, transporta-nos para o sofrimento e a barbárie daqueles tempos.
Na East Side Gallery, um troço de muro de 1,3 Km paralelo ao rio Spree, podemos ver a arte urbana desenvolvida por diversos artistas do mundo na sequência da queda do Muro.
A cor está presente e a temática expressa está intimamente relacionada com a história.
Um dos murais mais famosos é o beijo do líder soviético Brezhnev ao líder da RDA, Honecker, obra, de 1990, de Dmitri Vrubel designada My God, Help Me To Survive This Deadly Love.
Este graffiti reproduz o beijo icónico entre os dois líderes em 1979, aquando da celebração dos 30 anos da criação da RDA.
O mural do francês Thierry Noir é também considerado um dos mais icónicos. Noir foi, em 1984, o primeiro artista a pintar o Muro e aparece, inclusivamente, no filme de Wim Wenders Asas do Desejo, de 1987.
O Trabant, carro icónico da formação comunista da Alemanha Oriental, a rebentar pelo muro, obra de Birgit Kinder, é outra das pinturas mais conhecidas.
Mas muitas outras são fascinantes. Pena o estado de conservação que já obrigou a novas repinturas, processo polémico na medida em que nalguns casos não foram os artistas originais que as refizeram. Após esse restauro, algumas das pinturas estão actualmente protegidas por gradeamentos, o que retira muito do encantamento do espaço.
Noutras partes da cidade é também possível ver vestígios do Muro, como na área envolvente à Potzdamer Platz.
Mas é na Bernauer Strasse onde mais se sente o Muro como ele foi.
A Bernauer Strasse foi uma das ruas em que um lado fazia parte de Berlim Ocidental e o outro de Berlim Oriental.

 

A intervenção museológica ali feita é extraordinária. O Gedenkstätte Berliner Mauer, para além de um centro de documentação, de um fantástico centro interpretativo, inclui um percurso interpretativo ao longo de toda a rua (cerca de 1,4km) com elementos explicativos que nos permitem perceber a evolução da construção do Muro, a transformação ao longo dos anos daquela parte da cidade com a construção de um muro ainda mais intransponível devido à cegueira crescente de quem mandava, assim como entrar em algumas histórias pessoais de quem tentou atravessar o Muro.
Por vezes percorrendo Berlim damos por nós a questionar a que Berlim pertencia aquele território. Marcas subtis no pavimento ajudam a responder.
Porém, na Bernauer Strasse, através de uma instalação extraordinária e de grande sensibilidade é perceptível com nitidez como era feita a divisão do território. Ao mesmo tempo em que em alguns troços permanece a presença do Muro, na maioria da extensão da rua foi colocada uma instalação semelhante às cofragens dos muros no lugar onde este passava. Estes elementos dão-nos a noção de barreira, mas simultaneamente oferecem a transparência e possibilidade de atravessamento que o Muro durante décadas não permitiu.
Não há como não nos revoltarmos, chocarmos e emocionarmos ao termos acesso aos relatos de quem viveu esta situação na primeira pessoa. Seja por estar impedidos da natural liberdade, por familiares estarem impedidos ou por os vizinhos do outro lado da rua estarem.
Choca saber que de um lado da rua alguém tomasse livremente banhos de sol no seu jardim ladeado pelo muro e no outro uma multidão estivesse na fila para aquisição do racionamento definido nas lojas do povo, como mostram os registos fotográficos do centro de interpretação.
Impressiona também que o Muro tenha dividido o sistema de transportes, contribuindo para que algumas estações de metro tenham virado estações fantasmas, porque remetiam para território oriental. É o caso da estação Nord-bahnhof S-Bahn, que dá acesso à Bernauer Strasse. O metro passava, mas não parava nestas estações altamente patrulhavas por guardas de fronteira da RDA.
Mas não há como não nos emocionarmos com imagens, algumas implantadas nas empenas dos edifícios, como a do soldado a saltar a barreira de arame farpado ou também com os registos da queda do Muro e termos vontade de ter estado naquele momento histórico junto das pessoas que sofreram e lutaram anos pela queda daquela vergonha da humanidade.

 

 

Como não compreender que após a declaração da queda do Muro, muitos insistissem saltar o mesmo em vez de passarem por partes já derrubadas. Provavelmente naquele momento, para muitos, foi a concretização do acto de transgressão desejado durante anos a fio.
Por outro lado, como não fazer um sorriso irónico e pensar que quem lidera o mundo é patético. Sobretudo,  quando nos primeiros metros após o Checkpoint Charlie (que virou uma palhaçada turística), onde antes, de 1961 a 1989, a partir daquele ponto até Vladivostok o controlo era totalmente soviético e hoje está instalado um McDonald’s, um dos maiores símbolos do mundo capitalista.

 

 

É nesse momento que me questiono, porque razão a humanidade não aprende com os erros do passado.

A Arte na Quinta do Mocho


A Quinta do Mocho é muito mais do que rusgas da polícia às suas ruas e habitações. Uma galeria de arte a céu aberto, por exemplo, com empenas e fachadas pintadas criativamente pelos melhores artistas urbanos.

Situado em Sacavém, concelho de Loures, este bairro é uma urbanização construída na viragem deste século para realojamento da original Quinta do Mocho, um prédio de uns quantos andares nunca terminado que foi ocupado, bem como as suas imediações, por um grande número de pessoas. Hoje, tal como anteriormente, os seus habitantes (cerca de 3500) são na sua maioria africanos e o nome oficial da urbanização é Terraços da Ponte. Este nome é certeiro pois é precisamente de um terraço que se trata, uma parte elevada de terreno donde se espreita o rio Tejo e a sua Ponte Vasco da Gama. 

No momento em que escrevo são já 46 as empenas e fachadas intervencionadas e é provável que amanhã e nos dias que se seguirão outras se juntem ao museu. O pretexto começou por ser o Festival o Bairro i o Mundo, finalista do prémio Diversity Advantage Challenge, promovido pelo Conselho da Europa, tendo esta galeria a céu aberto sido dada a conhecer pela primeira vez em Outubro de 2014. 
Como um bairro multicultural que é, a iniciativa de se ligar a este prémio é acertada, uma vez que o seu mote prende-se com a demonstração das vantagens da diversidade étnica e cultural. A sua população é maioritariamente jovem e iniciativas como esta – em que participou, por exemplo, Vhils, reconhecido mundialmente como um dos maiores artistas de arte urbana – procuram vencer o preconceito e aumentar a auto-estima dos seus habitantes. A imagem estigmatizada do bairro que tem sido passada até aqui pode e deve ser muito diferente e as suas gentes só têm de se orgulhar do que conquistaram para si e para nós.

Uma curta caminhada pelo bairro, para além da descoberta das pinturas que agora levam a que todos os últimos sábados do mês sejam dia de visita guiada pelos artistas e moradores do bairro, mostra-nos prédios um pouco degradados já, mas muito movimento nas suas ruas, amigos conversando à porta, sons de música sempre a sair das janelas escancaradas. São muitos os cafés, mercearias e lojas que anunciam variadas associações. O edifício da Casa da Cultura de Sacavém fica numa das entradas do bairro.
Como o bairro é maioritariamente habitado por gente vinda dos PALOP, nada como começar esta visita virtual com a fachada dedicada a Amílcar Cabral:

O mocho é quase omnipresente:

Vhils está cá:

Bisneto de Bordalo também:

As gentes do Bairro:

Um Bairro de causas:

Para mais informações, consultar o site de O Bairro i o Mundo no facebook.

Museus em Bruxelas, Bruges e Antuérpia

Opção é o que não falta. 
Como o meu interesse recai sobretudo na pintura e na arquitectura, a selecção estava feita à partida.
Por falta de tempo não visitei o Museu Horta, em Bruxelas, como desejava.
Mas visitei o Bozar (também conhecido como Palácio das Belas Artes) e os Museus Reais de Belas Artes de Bruxelas (que actualmente incluem o Musée Magritte, o Musée Old Masters e o Musée fin-de-siècle).
Em Bruges visitei o Groeningemuseum e o Arentshuis. 
Em Antuérpia o MAS, num edifício de arquitectura fantástica, e a Casa Plantin-Moretus, único museu do mundo distinguido com a classificação como património da humanidade pela Unesco.
Em Gent era segunda-feira, logo, dia de descanso cultural.
Seguindo uma fórmula inspirada em Lourenco Mutarelli no seu “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, o qual classificava as mulheres com quem se cruzava no dia a dia segundo o tipo de relacionamento que com essas desejava ter em “comia”, “casava” ou “mandava para a forca”, e na impossibilidade de comer ou casar com um quadro e não o desejando mandar para a forca para evitar problemas que me impeçam futuras viagens, classificarei o meu gosto pelas obras que vi em “vendia”, “comprava” ou “pedia emprestado”.
Os Rubens e os Van Eyck vendia-os todos para arranjar € para as outras operações.
A Casa Plantin-Moretus pedia emprestada para aí estabelecer a minha biblioteca.

O MAS pedia igualmente emprestado para aí colocar as obras que compraria, designadamente todos os Brughels e o “Império das Luzes” de René Magritte.

Já que estamos no domínio da Bélgica, compraria ainda a “Vue de Bruxelles”, de Jan Baptist Bonnecroy, “Les émigrants”, de Eugène Laermans, e “Les affligés”, de Frank Brangwyn.
Um aparte: neste momento Ai Weiwei, considerado o maior artista chinês, vê ser-lhe dedicada uma grande exposição em Londres. Em Bruxelas o Bozar tinha até ao final de Agosto uma exposição dedicada a uma série de artistas chineses contemporâneos, a “Chinese Utopia Revisited”. Em Bruges, a sua bienal trouxe para as ruas mais uma série de novos artistas do império do meio. Não é só economicamente que os chineses se mostram ao velho continente. A sua cultura sempre foi forte e cativou o resto do mundo, mas agora volta a fascinar de uma outra forma, igualmente surpreendente.

Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

A necessidade de expressão pública por palavras ou desenhos é inata ao homem, podendo nós pensar nas pinturas rupestres em cavernas já na época pré-histórica.
Como antecedentes do graffiti costumam apontar-se a origem italiana da palavra e o facto de haver registos da escrita de frases e poemas nas ruas de Pompeia, a cidade que ficou coberta com a lava do Vesúvio durante tempos e tempos.
Nos anos 60 do século passado as ruas de Nova York, em especial bairros mais estigmatizados, viram-se invadidas por tags (rabiscos com o nome dos seus criadores), uma forma de demarcação do território por parte dos gangs. A técnica foi evoluindo e nos anos 80 o graffiti viria a estar associado ao hip-hop e à pop art de Andy Warhol, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat e a uma cultura transgressora. As galerias passaram a interessar-se pelo fenómeno e o graffiti entrou no mercado artístico.
Hoje é difícil não lembrar que Banksy vende as suas obras a preços astronómicos nas melhores galerias.
Em Portugal, a moda dos graffiti chegou nos finais dos anos 80, começando igualmente pelos tags. Em muros nos subúrbios e nos comboios, os rabiscos coloridos em letras gordas eram omnipresentes. Ruído, até. Muitas críticas a esta suposta arte que vandalizava, sujava e não parecia acrescentar nada de positivo à cidade, nem sequer esteticamente. O debate estava instalado. Até que, progressivamente, os seus desenhos foram evoluindo dos rabiscos para desenhos esteticamente estimulantes, alguns com mensagens que demonstram preocupações com a cidade e a sociedade em geral, até a fazer lembrar as intervenções políticas nos muros de Paris aquando do Maio de 68 e os muros de Lisboa nos agitados tempos do 25 de Abril (três exemplos: intervenção em Campolide acerca da passividade do nosso governo face à troika, intervenção em Alcântara pró Palestina e intervenção nos muros do Estádio Universitário sobre a crise na Grécia).

Em 2010, um quarteirão devoluto na Av. Fontes Pereira de Melo foi objecto de obras de reputados artistas do meio, os brasileiros Os Gémeos e Sam3, o que foi visto como uma mais valia e não um acto sujo ou de vandalismo.
Ultimamente tem vindo a assistir-se a uma crescente aceitação desta forma de arte que nasceu ilegal. Para tal não é alheia a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de institucionalizar o fenómeno através da criação da Galeria de Arte Urbana. Esta autarquia percebeu que os graffitis podem ser uma forma de expressão que intervém na cidade e que com ela dialoga e a instiga a pensar, provocando-a, muitas vezes com pitadas de humor e sem perder a sua faceta subversiva. 
A acrescer a este apoio municipal à arte urbana, ou talvez por causa dele, veio o reconhecimento internacional de Lisboa como uma das cidades do mundo onde se pode observar esta arte com mais qualidade.
O ano passado foi lançado o livro Street Art Lisbon, em edição conjunta da GAU e da Zest Books, 
o qual reúne as melhores intervenções de 2012 e 2013, apontando a localização desses trabalhos em coordenadas GPS. Espera-se que possa vir a ter continuidade.
Entretanto, existem alguns espaços em Lisboa – verdadeiros museus a céu aberto desta arte urbana efémera – onde é possível apreciar estas obras. 

O Muro Azul, nas traseiras do Hospital Júlio de Matos, possui mesmo a tutela da GAU. 

As paredes de um extenso muro em Campolide, em frente às Amoreiras, são também um tradicional espaço para os artistas intervirem sobre os mais variados temas, desde a política (como vimos acima) à cultura pop. A ironia é dominante.

O antigo Mercado de Chão de Loureiro, hoje parque estacionamento, é igualmente um espaço muito interessante para se visitar e apreciar o traço variado dos desenhos. 

O melhor mesmo, no entanto, é confiar na atenção do nosso olhar quando deambulamos por uma qualquer rua de Lisboa, pois um belo pedaço de arte pode entrar-nos pelos olhos. 
Em Marvila e seus arredores, por exemplo, de tempos a tempos (felizmente não muito longos) têm vindo a surgir uns trabalhos de grande escala em empenas de edifícios promovidos pela Galeria Underdogs, a juntar a uns quantos que já existiam pela cidade.

E já que se fala da Underdogs, obrigatório falar de Vhils, o artista de streetart português mais admirado em todo o mundo. A sua técnica é inconfundível, daí que não seja preciso confirmar a sua assinatura na parede para descobrir que é mesmo ele.
Alguns sites de arte e intervenção urbana em Portugal
Galeria de Arte Urbana https://pt-pt.facebook.com/galeriadearteurbana