Cândido Portinari

A propósito da visita da mana a São Paulo e ao Rio de Janeiro, e já que tocou no assunto Portinari  – pintor por mim adorado -, seguem mais detalhes.
Cândido Portinari nasceu em Brodowski, São Paulo, em 1903, filho de imigrantes italianos tornados camponeses. Colocou esta cidadezinha do interior do estado no mapa. A sua infância na região, terra do café, influenciaria a sua obra, uma vez que desde cedo testemunhou o trabalho nas plantações que o rodeavam, vida difícil de brancos, negros e mestiços.
Começou por estudar pintura e desenho no Rio de Janeiro, mas logo partiu para a Europa, onde frequentou os museus e tomou contacto com a pintura moderna. No entanto, não esquecia o Brasil e a sua Brodowski, confessando que “Daqui fiquei vendo melhor a minha terra – fiquei vendo Brodowski como ela é. Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor. Quando comecei a pintar, senti que devia fazer a minha gente e cheguei a fazer o “Baile na Roça”… A paisagem onde a gente brincou a primeira vez não sai mais da gente, e eu quando voltar vou ver se consigo fazer a minha terra.”.
De regresso, iria utilizar a sua arte como expressão daquilo que o rodeava, num processo reflectido. Sentia a necessidade de mostrar a realidade, não se mostrando alheado do que se encontrava à sua volta. Para isso, era central a utilização da figura humana de forma a melhor expressar essa realidade feita de vidas sofridas.
O seu filho, João Cândido, responsável pelo Projecto Portinari (http://www.portinari.org.br), afirmou em entrevista à agência FAPESP “O excluído é um personagem absolutamente central. Ele vivia em uma região cafeeira do interior paulista que era passagem de retirantes que vinham do Nordeste. Isso impressionou de forma indelével as retinas daquele menino que presenciou a tragédia das famílias que viajavam em condições desumanas. Essa experiência despertou nele, de forma muito precoce, um sentimento de solidariedade incondicional com o excluído.”.
A temática das suas obras possuía, claramente, uma preocupação social (Portinari era assumidamente comunista, ainda que fizesse questão de não seguir cegamente a cartilha), mostrando o negro, o trabalho, a infância. Dizia que sua obra era dedicada ao povo.
Mas, facto nem sempre conhecido, parte da sua obra foi dedicada ainda à arte sacra, ao que não será alheia a forte religiosidade dos seus pais italianos.
Ao longo da sua vida Portinari procurou de forma constante inovar na sua obra. Poderá considerar-se surrealista, cubista, neo-realista. Talvez seja esta a fase que mais me agrada e que o faz juntar aos vários portugueses que por este caminho seguiram, não esquecendo a oportunidade que a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, volta e meia, dá aos lisboetas para poderem observar ao vivo uma das suas obras. 
Apesar da sua obra estar espalhada um pouco por todo o mundo, quer em colecções públicas quer privadas, será obviamente no Brasil que se poderá visitar o maior número das suas obras. Desde logo no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, o qual possui o maior acervo público de Portinaris. Ainda no Rio, o Museu Chácara do Céu é também uma boa opção. Em São Paulo, visita incontornável aos inevitáveis Museu de Arte de São Paulo e à Pinacoteca.
Algumas das suas obras mais marcantes:

– “Despejados” (1934) é uma das suas primeiras obras de temática social, mostrando os retirantes que pouco mais têm para além da morte.

– “O Mestiço” (1934) foi adquirida pela Pinacoteca de São Paulo, a primeira instituição pública brasileira a incluir uma obra de Portinari no seu acervo. Aqui é representado o trabalhador, de mãos fortes e corpo pujante.

– “Café” (1935) (obra apresentada em Lisboa em 1940 por ocasião da Exposição do Mundo Português) mostra os trabalhadores com pés e mãos descomunais para suportarem a submissão ao peso dos sacos que trazem aos ombros.

– “O Lavrador de Café” (1939) mostra uma vez mais o trabalhador negro forte, capaz de adaptar-se às duras condições quer de trabalho quer geográficas e climáticas.

– “Guerra e Paz” (1952-56) – painéis efectuados para a sede da ONU em Nova Iorque onde o enfoque na exclusão dos homens provocada pela guerra é visível. Mas a guerra é representada pelo povo em sofrimento, não pelos soldados em luta. Notam-se aqui influências do Guernica de Pablo Picasso. Na sequência da feitura desta obra, devido à intoxicação pelas tintas utilizadas, Cândido Portinari viria a morrer em 1962. Ficou a que, para muitos, é a sua maior obra, síntese de todas as outras.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s