A Moreninha Voltou a Paquetá

Três sílabas. Pa-que-tá. Paquetá. Toda a doçura e tranquilidade concentradas em três sílabas.
Localizada no meio da Baía de Guanabara, a ilha de Paquetá pertence à metrópole do Rio de Janeiro. Na verdade a pertença é pouca, tais as diferenças de contextos.
Paquetá é um lugar perdido. Parado no tempo. Está como ficou na minha memória há mais de 20 anos, quando a visitei pela primeira e única vez, até esta nova visita.
Ter cristalizado não será um defeito. É antes um traço distintivo. Pelo menos na minha óptica.
Pouco terá mudado desde que D. João VI a frequentava. Ou desde que Joaquim Manuel de Macedo escreveu, em 1843, “A Moreninha“, romance responsável pelo baptismo de alguns locais da ilha, como a Praia da Moreninha e a Pedra da Moreninha de onde se avista, ao fundo, a cidade do Rio de Janeiro e onde o final do dia tem outro encanto.
É a sensação de estarmos noutro momento histórico, bem como o sossego, que dão todo o encanto a Paquetá.
As ruas continuam a ser em terra batida. Os carros não existem (só veículos de emergência).
A bicicleta é o transporte de excelência. Andar a pé também é boa opção.
As casas são baixas, com traça antiga e charmosas.
A vegetação e as árvores de flor laranja, que anunciam a chegada do Verão, as Flamboyant ou Flamejantes, dão uma beleza e um toque caloroso especial.

Pelas ruas ou na praia as crianças brincam tranquilamente e divertem-se com coisas simples.
Ao final do dia a população encontra-se na praça junto ao terminal das barcas que vão e vêm do Rio de Janeiro.
Nós percorremos parte da ilha de bicicleta. Absorvemos as cores, cheiros e silêncios. Sentamo-nos amiúde para sentir a atmosfera.
Deixamos as bicicletas no ponto de aluguer e, desastradamente, ao estacionar a minha bicicleta faço um dominó com todas as outras que estavam perfiladas. Ninguém se importa. Imperturbável e com toda a calma o moço repõe a ordem.
Continuamos a jornada, a pé, para o outro lado da ilha. A serenidade continua, ainda que as águas naquele lado estejam agitadas pelo vento. Voltamos a dobrar a ilha e a serenidade torna a ser total. O vento ali não afecta a tranquilidade das águas.
A tarde corre para o fim. A atmosfera está quente. O calor vem de todos os lados. Não resisto e dou um mergulho. Não que a água tenha uma cor apetecível, mas a canícula pede mesmo. Depois, sento-me no banco quente, com o calor acumulado do dia, e deixo-me secar. 
Um homem rema enquanto o sol baixa e começa a ficar atrás das nuvens. Ainda assim a luz dourada do sol está reflectida na água. Deixamo-nos ficar, no topo da Pedra Moreninha, enquanto uma trovoada está cada vez mais próxima e forte. Sintomas tropicais.
O sol continua a declinar, mas sem se dar a ver. Ainda assim o momento não deixa de ser bonito e não deixamos de agradecer por sentirmos toda esta beleza e paz. Muitas vezes bem próximo de onde não se imagina.
A moreninha voltou a Paquetá. E amou.

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