Monchique

Por vezes, quando passeamos por uma região saímos frustados. Não por não ter correspondido às nossas expectativas, antes por não a termos aproveitado como deveríamos. O que aconteceu com o passeio de uma tarde em Monchique não foi bem ter superado o que esperávamos visitar – já sabíamos que o “Jardim do Algarve” era lindo (já aqui havíamos estado, embora há mais de uma década). O que acontece é que a região de Monchique necessita de mais tempo. E, já agora, de uma visita fora do Verão para se perceber água nas suas cascatas. Ainda assim, embora muito incompleto, aqui vai o relato do passeio possível por Monchique, com a convicção de que havemos de voltar.

Começámos pela visita à vila termal das Caldas de Monchique. A riqueza das suas águas (naturais e termais) é reconhecida pelas suas propriedades curativas já desde os tempos dos romanos, mas é a sua implantação geográfica que faz as maravilhas de qualquer visitante. Encravada num vale rodeado de vegetação luxuriante, a pequena povoação tem chalets, uma praça acolhedora com edifícios coloridos e um parque de merendas por onde a água escorre tranquilamente em patamares. Região forte em artesanato, vale a pena dar uma olhada às suas lojas.

Esperámos pela vila de Monchique, sede do concelho, para abastecer da famosa aguardente de Medronho. Mas perdemos a Picota, o segundo ponto mais alto da Serra de Monchique e do Algarve, a 774 metros de altitude. A vila de Monchique é também rodeada pela vegetação serrana, o que é bem apreciado desde o Miradouro de São Sebastião.

Desde este ponto alto vê-se a vila desenvolver vale abaixo e vale acima, com o seu centro histórico a ocupar parte da encosta à frente. O casco urbano diante nós, percebemos depois já cá em baixo, é surpreendente, um conjunto homogéneo de casas brancas dispostas numa série de ruas que se cruzam de forma irregular. Pode ser o costumeiro das vilas algarvias, mas não esperávamos que aqui, no interior algarvio esquecido, encontrássemos um núcleo urbano tão grande e tão preservado (embora infelizmente com muito do edificado abandonado). Ou seja, este foi mais um dos motivos que nos fez lamentar não ter perdido mais tempo em Monchique.

A meia encosta numa colina imediatamente acima da vila ergue-se o Convento de Nossa Senhora do Desterro. Mais uma surpresa. Paramos o carro onde der na estrada e seguimos os últimos 300 metros a pé, por um caminho florestal com vistas generosas. Já sabíamos que este Convento estava abandonado e em ruína; o que não sabíamos era o momento kitsch que nos esperava. Mandado construir em 1631 por Pero da Silva, um vice-rei da Índia que patrocinou a obra aos frades franciscanos, é um enorme edifício em estilo manuelino e maneirista cujo brasão da família fundadora ainda persiste na fachada da igreja. O Terramoto de 1755 arruinou-o e a extinção das ordens religiosas em 1834 fez com que fosse parar às mãos de privados. O pior veio depois, vendido em partes a vários proprietários que nunca o restauraram, a Câmara Municipal tem vindo a adquirir o que pode para desenvolver projectos adequados ao espaço, mas a verdade é que este está hoje ocupado com hortas e galinheiros. É isso mesmo: no claustro do antigo Convento passeiam-se galinhas que também podem livremente seguir até ao interior da igreja, completamente esventrada e com um altar pavoroso decorado sabe-se lá por quem. É uma ruína que só a espaços possui ambiente, mas que vale bem a pena visitar – apesar dos avisos de cuidado com o cão (que não vimos), os ocupantes do Convento não se importam de nos permitir a entrada.

Daqui seguimos a caminho da Fóia, tendo passado pela Cascata de Penedo Buraco onde água… nem vê-la. Situada à beira da estrada, por isso fácil de alcançar, nem dá para imaginar por onde a água poderá cair, tal é a seca durante os meses de Verão. Já nem arriscámos desviar para a Cascata do Barbelote, diz que a mais bonita, uma vez que para além do caminho de carro até lá terá de se andar mais um pouco a pé para a ver melhor. E junto a ela valerá a pena conhecer a aldeia de Barbelote, perdida e abandonada na Serra de Monchique. Ou seja, é um lugar que merecerá uma caminhada sem pressas. A outra cascata de Monchique é a Cascata do Chilrão, cuja visita também ficará para outra altura que garanta a possibilidade de a ver jorrar água.

Por sorte, teremos sempre a Fóia. O ponto mais alto de todo o Algarve, a 902 metros de altitude é não apenas simbólico como lugar de uma enorme vista – toda a costa algarvia. O mar, sim, mas também a serra. José Hermano Saraiva descreveu em tempos o cenário que daqui se obtém como sendo um “mar de montanhas”. A ondulação que se estende diante nós até lá longe no Atlântico é belíssima. Vale a pena resistir ao frio e vento e subir ao pequeno penedo de granito ao lado esquerdo do miradouro para a melhor vista.

A estrada que nos transporta à Fóia é bonita e dependendo do clima e hora do dia podemos descobrir para além dela outra silhueta preciosa do tal “mar de montanhas”.

A caminho de Marmelete, a paisagem é ainda mais fantástica e os cabeços verdes quase siameses que se sucedem revelam uma paisagem surpreendente, única no nosso país. A estrada é estreita e com repetidas curvas, difícil de parar o carro para uma fotografia. Antes assim: este cenário puro do “Jardim do Algarve” ficará em exclusivo guardado na memória.

Silves

Silves é a capital histórica do Algarve. Situada no Barrocal Algarvio, entre a serra e o mar, afastada cerca de 15 quilómetros da costa marítima, há registos de ocupação humana desde o Neolítico e entre os séculos X a XII era a maior e melhor povoação do Algarve.

Foi durante o período árabe (século VIII a XIII) que mais floresceu, tornando-se uma cidade civilizada com relevância política e cultural que rivalizava com outras das maiores do mundo árabe. O Rio Arade era então navegável desde o Atlântico até ela, servindo como via de comunicação que permitia manter relações comerciais com os povos do Mediterrâneo (como fenícios, gregos e cartagineses), e foi o grande responsável pela implantação da povoação neste lugar. A ponte medieval sobre o Rio Arade, embora de construção bem mais tardia, lá continua a marcar presença. Mas é o inconfundível castelo vermelho no topo de uma colina que domina por completo a paisagem de Silves.

Após um longo cerco no reinado de D. Sancho I, em 1189 a cidade foi tomada pelos cristãos aos mouros, não sem uma enorme mortandade. Mas essa conquista foi revertida e só viria a tornar-se definitiva em 1248-49, com D. Afonso III. Então, Silves foi elevada a cidade e feita capital do Reino do Algarve. Assim permaneceria, desempenhando papel importante no período inicial da época dos Descobrimentos, até à sua entrada em decadência no século XVI pelo assoreamento do Arade e pelo surgimento de zonas de lodo que tornaram a cidade insalubre. Ou seja, se o Rio Arade foi decisivo na implantação e desenvolvimento da povoação, seria também ele em grande parte o responsável pelo seu declínio, motivado pela seca das suas águas e impossibilidade de navegabilidade. Silves foi gradualmente perdendo importância e Faro começou a tomar o seu lugar. Mas não sem contestação, até porque entretanto havia sido construída na cidade a Sé Catedral (crê-se que no lugar de uma antiga Mesquita), fazendo de Silves não apenas o centro político e cultural do Algarve, mas também o seu centro espiritual. O Terramoto de 1755 deu a machadada final, destruindo grande parte do edificado.

Mas a história continuou e a Silves de hoje surge novamente em grande, com o seu património monumental restaurado e com vida – surpreendeu os muitos turistas que num dia de calor ousaram trocar a praia por um passeio na cidade do interior.

A estrutura urbana de Silves conserva ainda as características muçulmanas. Temos o castelo no alto do Monte da Almedina, seguido do que correspondia à medina numa das suas encostas e logo depois o arrabalde. Este arrabalde é a zona de expansão, a cidade nova extra-muros que foi sendo construída e ocupada ao longo de várias épocas até aos dias de hoje. E para percebermos bem esta transição nada melhor do que o terraço do edifício dos Paços do Concelho. Em baixo fica a Praça do Município com Pelourinho e a meio caminho a Porta da Vila com a torre albarrã, o único dos três acessos à antiga medina que ainda se conserva. Pela Porta da Vila entramos, então, na medina, com as suas ruas estreitas, irregulares e íngremes que dão acesso ao castelo. Seguimos pela antiga Rua Direita, hoje Rua da Sé, onde ficam alguns dos edifícios mais importantes da cidade: a própria (em estilo gótico, manuelino e barroco), a Igreja da Misericórdia (em estilo manuelino e maneirista) e palacetes (um deles com uma deliciosa varanda).

E logo ficamos perante a enorme muralha vermelha do Castelo de Silves. Construído em taipa, usando a rocha grés da região, não se sabe ao certo a data da sua fundação, mas é antiquíssimo. Restaurado, preserva ainda as suas torres e ameias e pelo adarve podemos passear ao longo de toda a muralha, obtendo bonitas vistas para a pacata paisagem rural que rodeia Silves. No interior do Castelo são visíveis os vestígios da alcáçova, nomeadamente dos palácios onde residiam os governadores, militares e administrativos que tinham sobre si o rumo da antiga urbe.

Entre as várias cisternas no interior do Castelo, impressiona o Grande Aljibe, a cisterna construída no século XII, durante o período Almóada, que até aos anos 90 do século XX permitiu o fornecimento de água à cidade. É um enorme reservatório escavado no subsolo, hoje transformado em galeria de exposições.

Saindo do Castelo, voltamos a percorrer as ruas da antiga medina e caminhamos por algumas das que então constituíam o arrabalde. São hoje ruas tipicamente algarvias, com edifícios de um ou dois pisos maioritariamente brancos, alguns com decorações azulejares. As ruas estendem-se sem ordem até ao Rio Arade, fazendo-nos perder. E não há melhor prazer do que este, deixarmo-nos perder por este Algarve menos pisado.

Por Lagos, com paragem na Ponta da Piedade, Luz e Capela do Monte

Este é um passeio por parte do concelho de Lagos que nos permite testemunhar da sua diversidade. Começámos pela sua sede, a cidade de Lagos, uma das mais bonitas e dinâmicas do Algarve.

A presença humana em Lagos é muito antiga, vindo já do Paleolítico. À semelhança de outras cidades costeiras algarvias, por aqui passaram os fenícios, os romanos e os muçulmanos, até os cristãos portugueses a tomarem definitivamente em 1249. Foi Lacóbriga com os romanos e Zawaia com os muçulmanos, até ficar Lagos com os portugueses, talvez designação com origem na água que vinha da Serra de Espinhaço de Cão, nas suas costas.

Na época dos descobrimentos chegou a ser a urbe mais importante do Reino do Algarve, centro da Escola de Sagres, daqui tendo partido as caravelas ao encontro de novos mundos. O Infante Dom Henrique é por isso lembrado, tendo sido levantada uma estátua em sua homenagem na praça que leva o seu nome. Esta praça está aberta para o canal por onde a Ribeira de Bensafrim corre para o Atlântico, Marina e Meia Praia de um lado, Forte da Ponta da Barreira do outro, seguindo ao longo da muito agradável marginal. Ao seu redor fica o Mercado dos Escravos, a Igreja de Santa Maria e, pouco mais adiante, o Castelo dos Governadores.

Construído no século XIV sobre a antiga alcáçova islâmica, este pano de muralha surge imponente – e conservado – de frente para o mar. Entramos pelo Arco de São Gonçalo para o que foi a Viladentro, outrora rodeada pela muralha conhecida pela Cerca Velha. Hoje restam alguns outros panos de muralha e baluartes.

As ruas da Lagos antiga entrecruzam-se e são estreitas, nem sempre planas, com edifícios maioritariamente brancos. Típico da região. Mas o que Lagos têm de diferente é que essas ruas do centro estão cheias de cafés, bares e restaurantes, com esplanadas que se estendem calçada afora. O movimento é intenso. As praças Luís de Camões e Gil Eanes são exemplo do bulício, aqui se juntando as lojas de comércio. Nesta última praça fica a estátua de Dom Sebastião, obra de João Cutileiro que não deixa ninguém indiferente. “O Desejado” foi quem elevou Lagos a cidade e daqui partiu em 1578 para se perder no nevoeiro de Alcácer Quibir e nunca mais voltar.

Mas, dito isto, parece que Lagos é só história. Nada de mais errado. É certo que o Terramoto de 1755 a abalou em demasia e perdeu protagonismo para Tavira e, depois, Faro. Mas não deixa de ser uma cidade moderna onde as artes marcam presença, em especial a arte urbana. O LAC, Laboratório de Actividades Criativas, por exemplo, é uma associação cultural com sede na Antiga Cadeia de Lagos. Este espaço de criação artística, onde hoje os seus inquilinos se movem com total liberdade, possui salas de trabalho e de exposição donde resulta uma criatividade que não se fica entre portas, antes sai para as ruas da cidade, contribuindo para a tal dinâmica que falávamos ao início.

E o turismo é, claro, o grande motor da cidade e da região.

Da Marina de Lagos saem com enorme frequência barcos para um passeio até à Ponta da Piedade (cerca de 15 euros por pessoa por 1 hora). Sem risco de errar, este é um dos pontos mais bonitos da costa portuguesa. As suas falésias douradas têm formas diversas, algumas delas incríveis, permitindo-nos dar largas à imaginação. Será um elefante, um urso, um bolo de noiva? Certo é que os miúdos arranjam maneira de subir a algumas destas falésias para mergulhar nas águas transparentes deste pedaço de Atlântico. Passamos pelo Forte de Lagos, pela Praia do Estudante, pela Praia de Dona Ana e pela Praia do Camilo, das mais fotografadas do Algarve.

Algumas destas formações rochosas são rochedos no meio da água, espécie de ilhas que só terão bivalves e aves como habitantes, e outras erguem-se verticalmente acima do mar. Foi o vento e as marés que as foram esculpindo e dando este ar agreste e crespado, mas incrivelmente bonito. E, ponto alto do passeio de barco, formaram também as inúmeras grutas por onde adentramos pelos arcos desenhados nas falésias. O ambiente é fantástico, com um som que ecoa tranquilamente pelas caves e uma cor irreal, entre o azul e o verde, de uma transparência tocante.

Há que dizer, todavia, que não temos esta maravilha toda só para nós. Entre magotes de outros barcos, kayaks e sups, o congestionamento marítimo é intenso.

Mas a Ponta da Piedade pode e deve ser também apreciada de cima. Junto ao seu Farol saem caminhos, quer para ocidente quer para oriente, pelo topo das falésias. O recorte da costa visto daqui é de uma beleza esmagadora, percebendo-se na perfeição o contraste entre o azul do mar e o dourado da falésia.

Da Ponta da Piedade pode seguir-se a caminhar por trilhos oficiais quer em direcção a Lagos quer à Praia da Luz. Desta vez poupámos as pernas e seguimos até esta última de carro, onde assentámos durante uma semana nas passadas férias de verão.

À primeira vista a Praia da Luz pode não ser uma beleza. Mas é, seguramente, uma das mais interessantes do Algarve, até pela estranheza de cenário que aqui encontramos. A falésia é mais escura e bruta, parecendo que pode cair a todo o momento – e pode, há avisos a dar-nos conta da sua instabilidade e do perigo de derrocada. E do outro lado temos o casario totalmente branco todo juntinho. Dá um ar de costa marroquina, a qual, aliás, não anda muito longe daqui.

A Praia da Luz já foi uma aldeia piscatória, mas hoje está inteiramente voltada para o turismo. É, no entanto, um lugar pacato. Tem uma curta promenade com palmeiras, uma igreja pitoresca e um forte que testemunha os tempos em que havia necessidade de proteger a povoação dos ataques dos piratas. Para lá do Forte da Luz fica a Prainha, fazendo jus ao nome.

Mas a grande atracção da Luz é mesmo o seu belo areal. Não chega a 1 quilómetro, mas é muito agradável caminhar por ele, sobretudo logo de manhã, até ao final da falésia e aí descobrir umas rochas negras que aí parecem ter sido aqui estrategicamente colocadas.

E para algo totalmente diferente neste concelho de Lagos – que não é apenas costa – eis uma capela com assinatura de um Pritzker erguida num discreto monte a meio caminho do mar e da serra. Barão de São João (juntamente com Bensafrim) é pura ruralidade e o arquitecto Álvaro Siza Vieira imaginou para aqui um dos seus projectos mais surpreendentes, pleno de simplicidade.

A Capela do Monte é um edifício com as linhas geométricas com que nos tem habituado, mas desta vez a cor alva foi substituída por um tom pastel. A vizinhança onde a Capela foi implantada é parte do segredo deste projecto ser tão tocante: rodeada de uma paisagem natural feita de arvoredo e vegetação rasteira. Avistamos a Capela ao longe e para lá chegarmos temos de atravessar a pé parte da propriedade privada do Monte da Charneca, um turismo rural que tem vindo a recuperar uma série de casas antigas. O casal suíço seu proprietário encomendou a Capela, parte do seu projecto turístico, a Siza e a sua inauguração em 2018 faz deste o primeiro e até ao momento único trabalho do arquitecto no Algarve.

Não está aberta ao público, mas podemos espreitar de esguelha para o seu interior e perceber uns belos azulejos com o inconfundível traço de Siza. Este é, pois, um lugar perfeito para nos despedirmos de Lagos, de uma tranquilidade superior onde os crentes e não crentes alcançam facilmente um momento espiritual.

O Triunvirato da Ria Formosa

Esta foto tirada em Faro mostra um pouco da realidade farense no que a cidade para atrair turistas diz respeito. Capital indisputada do Algarve, não será nem a mais visitada nem a mais admirada.
E, no entanto, tem a Ria Formosa mesmo ali a banhá-la.
É subindo até ao topo da Sé que a desilusão se vai por completo. Haverá cidade com água à volta que não seja agradável à vista?

E afinal sempre há uns quantos edifícios bem bonitos.

Tavira, também beneficiando da Ria Formosa e do Gilão que por lá desagua, é bem mais pitoresca. E os telhados “tesoura”, de quatro águas, que viramos em Faro, são por aqui uma constante. É subir até ao Castelo para o confirmar.

Em Olhão … adivinhe-se: a Ria Formosa continua lá, mesmo atrás dos marcantes mercados e das fábricas de conserva.
Mas a chuva que caiu nesse dia… ui, ainda tenho os ténis cheios de água e os joelhos molhados.

Pousada de Estói

O périplo pelas Pousadas de Portugal teve novo desenvolvimento, desta vez em Estói, Algarve.
Há que fazer um aparte para dizer que não me parece, de todo, que o serviço destas pousadas mereça o dinheiro que por elas pedem, mas meti na cabeça que lhes tenho que dar uma volta e … vou fazê-lo. E não paro enquanto não der uma voltinha pelo menos até à do Freixo, no Porto.
Aqui há uns anos tínhamos estado em Estói e foi possível visitar os jardins do antigo Palácio, que se encontrava degradado e para o qual havia planos de reconverter em hotel.
Hoje pode visitar-se o Palácio recuperado, mas não os jardins, que ao que parece se encontram fechados para balanço.
Enquanto pousada abriu em 2009, após projecto de recuperação do arquitecto Gonçalo Byrne.

A pousada divide-se em dois blocos distintos:
o edifício do antigo Palácio do século XVIII, onde ficam os espaços comuns, como a recepção, os salões, o bar, o restaurante e a capela, com os jardins e a piscina no exterior.
Estamos num palácio, mas o ambiente é deverás descontraído.

e, depois,
o edifício construído de raíz, extremamente bem conseguido. São três andares, o primeiro e o terceiro com quartos com acesso directo ao jardim.

Mas o que mais gostei, e dificilmente esquecerei, é o contraste do cor de rosa do palácio com o azul da piscina, com a planicie algarvia, entrecortada por um pequeno monte, a dominar todo o horizonte.

Zefa

E agora que se fala de tudo e mais um pouco para mostrar que o Algarve (só com um “l”) não é só praia, que tal o “Centro de Arte Contemporânea” ZEFA, em Almancil, Loulé?
A surpresa começa pelo local onde a arte está instalada – numa quinta perdida numa estrada perdida de uma zona não menos perdida do Algarve.
Se percorrermos o site do Zefa (http://www.centro-zefa.com/) lemos, entre outras, frases como “ver para crer”, “entre em nossa casa”, “work in progress”, e todas correspondem à mais absoluta verdade.
Tudo começa com um tocar à campainha. Segue-se a imediata simpatia de Cândida Paz, a anfitriã, que nos abre as portas para nos guiar pelo seu terreno onde arte e lar se confundem. Tudo o que nos rodeia saiu da imaginação de seu marido, Bota Filipe, preciosamente apoiado por Cândida.
À medida que vamos caminhando pelos anexos fantasiosos, perguntamos-nos: Gaudi passou por Loulé? Mas ficamos a saber que Bota apenas passou por Barcelona depois de aqui dar asas à sua criatividade.
Muita criatividade.
A que não falta uma piscina. Afinal, como diz Cândida, as muitas crianças das escolas que os visitam iriam ficar desiludidas por ver uma quinta tão grande sem uma piscina. Vai daí, ela está lá em cima do terraço da garagem, e não importa que seja apenas um chão pintado de azul com ondinhas, com prancha de saltos e tudo, a dar ares de uma torre de vigia.

Tudo aqui obedece a um princípio de comunidade, desde o receber os artistas que para cá queiram vir trabalhar, à atenção e preocupação que dedicam ao urbanismo e ambiente, com o aproveitamento de todos os materiais. E isto para chegarmos a uma simplicidade absoluta que se nos apresenta num sentido estético muito kitsch e estrambólico mas, ao mesmo tempo, agradável e que nos faz desejar viver num sítio assim.

Pelas Praias do Centro do Algarve


Depois de um jantar na Praia de Faro, com vista para a Ria Formosa,


não quisemos ficarmo-nos apenas pela calma da praia de Vale do Lobo.


Iniciámos o dia dedicado às praias do concelho de Albufeira pela da Rocha Baixinha Nascente, com um barquinho a trazer um pouco de tranquilidade à confusão de chapéus de sol.


Na praia da Falésia, vista de cima, preparámo-nos para o extenso areal que ainda nos faltava percorrer,


não imaginando que entre o Barranco das Belharucas e Olhos de Água as formas sairiam da monotonia.


São Rafael e as suas vizinhas são as mais bonitas, uma imagem de rochedos agrestes constrastando com a transparência da água,


com recantos que nos fazem lembrar um Castelo.

Chaminé Algarvia

A chaminé é um símbolo da arquitectura algarvia. A diversidade de modelos é imensa. Poucas vezes se repetem. Quanto mais ornamentada e mais motivos decorativos, mais dispendiosa a chaminé se tornava, fazendo com que, historicamente, constituísse um símbolo de prestígio e vaidade do proprietário. Actualmente este questão ostentativa já não tem significado, porém prevalece a estética e beleza deste elemento tradicional.

Costa Vicentina – Sagres

Este é o meu cantinho de eleição em Portugal continental.
Onde…
…vale o esforço de acordar cedo para ver este nascer do sol
…vejo os aficionados do vento a riparem no Martinhal

…há areais sem fim quase só para mim
ainda por cima de uma beleza única
…toda a família pode surfar
seja no Tonel,
na Cordoama,
na Ponta Ruiva
ou no Amado

…posso aproveitar a tranquilidade das águas da Mareta
…à noite como as maravilhas que este senhor pescou
…posso estar no lugar donde saíram os nossos descobridores
…observo as íngremes falésias do Cabo de S. Vicente
…fujo do vento no Beliche
…é fácil ser feliz.

Caminhar na Quinta do Lago


Habituámo-nos a ouvir falar da Quinta do Lago sempre associada aos “ricos”, “famosos”, “bonitos” pertencentes à designada “alta sociedade portuguesa” e internacional. A Quinta do Lago do golfe, das festas no T-Club, dos banquetes no Gigi, das exuberantes moradias, enfim… do mostrar para ser visto.
A verdade é que a Quinta do Lago é tudo isto. Mas é muito mais. Sendo que este tudo mais é a melhor parte da história. Quem se lembrou de escolher aquelas bandas para lá instalar um recanto exclusivo e recatado para uma elite de ricos e famosos e dele fazer um resort escolheu muito bem. Mas, sorte a nossa, no nosso país ainda não é possível vedar o acesso às frentes do mar aos outros cidadãos não tão ricos e famosos. Pode o parque de estacionamento da praia da Quinta cobrar uma fortuna pelo mero serviço de aí deixar um carro, mesmo que os seus lucros não revertam para a protecção do habitat natural em que se encontra. O certo é que vale a pena engolir o sapo e lá deixar uma nota, aí isso vale.

Dito isto, a Quinta do Lago está situada em plena Ria Formosa.
A Ria Formosa está situada no Algarve e caracteriza-se por ser uma região de sapal e ter um habitat natural específico, ao longo de uma extensão de cerca de 60 km, desde o Ancão, no concelho de Loulé (e onde se encontra localizada a Quinta do Lago), até Manta Rota, no concelho de Vila Real de Santo António, abrangendo ainda os concelhos de Faro, Olhão e Tavira.
Iniciando um “tour” desde o parque de estacionamento da Quinta do Lago, existe a possibilidade de se percorrer a pé 2 trilhos naturais previamente definidos e (bem) sinalizados: o “Quinta do Lago” e o “São Lourenço”. Para além da saudável caminhada, ambos os trilhos têm ainda o valor acrescentado do iminente contacto com a flora e a fauna locais que se desenvolvem ali pertinho dos greens, do lago e do Atlântico, sob o sol algarvio.
O trilho da “Quinta do Lago” tem cerca de 2,3km e características de sapal e lago de água salgada. Por entre os pinheiros mansos, palmeiras anãs e rosmaninho, deparamo-nos com a criação de uma tapada de piscicultura com diversas espécies de peixinhos, como dourada, robalo, linguados, sargos, enguias.
Por seu lado, o trilho de “São Lourenço” desenrola-se ao longo de 3,2 km pelo sapal e pelo lago de água doce. Por este caminho é possível observar-se diversas espécies de aves, bem como o camaleão, um réptil em vias de extinção na Europa mas ainda relativamente fácil de se encontrar neste Parque Natural. No último ponto deste percurso existem umas ruínas romanas onde se poderá observar alguns tanques de salga (de peixe) da época romana do século II dC.


Para além destes 2 percursos “oficiais”, a vontade de descobrir mais sobre esta zona permite-nos percorrer caminhos ao sabor dos nossos próprios pés, seguindo a rota dos aviões que aterram e levantam voo bem ali ao lado, no aeroporto internacional de Faro.
Apesar dos aviões que sobrevoam esta zona constantemente (parece que estamos em Heathrow ou Charles de Gaulle), o rei por aqui é o flamingo. Isto no que diz respeito à natureza, a imperadora destas bandas. Mas não podemos esquecer o princípe, obra do homem – a ponte que liga os terrenos da Quinta do Lago à praia, construída sobre a Ria Formosa. A ponte, pedonal, é na sua simplicidade uma das mais bonitas e encantadoras que já tive oportunidade de ver. É uma passadeira de madeira de cerca de 320 metros, o que faz dela uma das maiores da Europa. Vista ao pôr do sol, reflectida na água juntamente com as cores muito especiais que entretanto o céu, o mar e a terra tomaram, é um privilégio para os nossos olhos. Olhos humanos, todos iguais ali no meio do visual que a natureza nos entendeu dar.