Por Aljezur

Aljezur é um dos concelhos mais bonitos de Portugal. Depois de anos a passar pelas suas praias no Verão, ficando com a certeza de que nesta frente marítima moram alguns dos areais e falésias mais incríveis do país, uma inédita visita no Inverno ofereceu outras formas e outras cores – ribeiras e vales e cerros verdíssimos, garantidos pelo interior do concelho que não está muito longe de ter o pé à beira mar.

Odeceixe, Aljezur, Bordeira e Carrapateira são povoações pitorescas e carismáticas, bem conhecidas daqueles que gostam de um Algarve recolhido e longe da imagem de voracidade urbanística e de artificial animação que a região deixou que se lhe colasse à pele. Também há mar, claro, e a água foi desde sempre um elemento essencial para que os homens aqui se estabelecessem.

Um passeio pela História leva-nos a uma outra surpresa, para além daquela de descobrir a diversidade de Aljezur. Já sabemos que a paisagem de um dado lugar vai mudando ao longo dos séculos, mas como imaginar que a vila de Aljezur foi até há umas centúrias um porto que até rivalizava com Silves e Lagos em importância? Pois é, o único porto na escarpada costa entre Sagres e Alcácer do Sal ficava na Boca da Barra, hoje conhecida como Praia da Amoreira, a cerca de 5 quilómetros então navegáveis até à beira do Castelo de Aljezur, para onde eram conduzidas as pessoas e mercadorias.

Esta via de comunicação foi-se, mas a bela e fértil várzea permanece. Continuamos a imaginar e uma leitura mais na História conta-nos que que o topónimo “Aljezur” deriva da palavra árabe “al-jazira”, de significado “ilha”. Pois é, até há poucos séculos seria esta a configuração da povoação, com a ribeira e envolvê-la. Hoje, no lugar onde as Ribeiras das Cercas e das Alfambras se juntam para seguir como uma só até ao mar, sob a denominação de Ribeira de Aljezur, percebe-se apenas uma curva fluvial mais discreta num dos lados, mas a ribeira continua a ser presença marcante.

Foram os muçulmanos que no século X levantaram o castelo de Aljezur para protecção do porto e desde aí os três cerros que se confundem foram sendo ocupados por aí abaixo pelo casario. O “aí abaixo” que dizer até à ribeira. Mas o progressivo assoreamento do rio, o Terramoto de 1755 e as sezões trouxeram a irremediável decadência da vila, que chegou até a ser considerada a vila mais insalubre do Algarve. E com isso veio a construção da parte nova da vila, a de lá da ribeira. De nenhum outro ponto como do alto do Castelo, o último do Algarve a ser tomado pelos cristãos, em 1249, se percebe na perfeição a implantação de Aljezur, ribeira a dividir vila antiga da vila nova – como se fossem duas povoações autónomas -, extensa e fértil várzea, cerros ondulantes a toda volta.

A vila preserva o seu traçado medieval, casas caiadas empoleiradas na encosta ao longo de ruelas, algumas a pique. Para aqui, algures, fica o sítio do Degoladoiro, onde se conta que os cavaleiros cristãos da Ordem de Santiago aguardaram os mouros ao raiar do sol, vindos do seu banho ritual, e os degolaram sem piedade. Nomes de pequenas povoações não muito distantes, como Maria Aires e Maria Vinagre, sinalizam as primeiras cristãs a vir povoar a região, mas não reflectem tamanha mortandade, nem a paisagem vizinha nos faz imaginar qualquer espécie de violência.

Saindo de Aljezur rumo ao mar, pelo vale de D. Sancho que se estende até à praia da Amoreira, com a Ribeira a esparramar-se para melhor se aninhar ao colo dos cerros, a sensação com que se fica é a de um ambiente puro e delicado. Da margem norte da praia da Amoreira sai um trilho circular fácil de 8 quilómetros que nos permite adentrar a natureza. Percorremos vales escondidos nos cerros, montes abandonados, algumas terras ainda cultivadas, bosques de árvores altas e arbustos rasteiros e praias, enfim, do pinhal à duna, como explica o painel informativo.

A praia da Carriagem é uma das mais bonitas de todo o sempre, com a sua inconfundível laje circular que parece ter sido propositadamente traçada a compasso. Melhor admirada na maré baixa, as piscinas naturais sucedem-se, e nem precisamos de descer até à beira mar para nos convencermos da enormidade da paisagem. No canto norte da praia da Amoreira esta característica geológica repete-se, embora não com o mesmo estrondo (não há como a primeira imagem). Aqui é o largo areal que fura fundo terra adentro que cativa, o tal braço de ribeira que já foi navegável e de que hoje resta a sua encantadora várzea.

Imediatamente a sul da praia da Amoreira outra surpresa: a praia de Monte Clérigo, com um punhado de casinhas de pescadores a ocuparem a encosta da falésia, um perdoável disparate ambiental com um imenso potencial pitoresco. O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina permitiu que a região não fosse alvo da muita aberração que se vê na costa sul, mas não foi capaz de, por exemplo, evitar o estranho caso da urbanização do Vale da Telha.

Voltemos atrás no caminho, porém, para admirar mais paisagens grandiosas. Ao ver a Amoreira, recordamos a praia de Odeceixe, igualmente larga de areal e funda na sua várzea até à povoação banhada pela Ribeira de Seixe que marca oficialmente a divisão entre o Alentejo e o Algarve.

Odeceixe, a primeira vila algarvia que não deixa o Alentejo sair de nós, está 3 quilómetros adentro e é uma pacata povoação instalada numa encosta sobranceira a mais uma fértil várzea. Caminhar por ela até ao mar num dia de céu nublado é como que fazer uma viagem no tempo. É um ambiente misterioso aquele por onde nos embrenhamos, campos agrícolas como companhia, deixando a casario branco empoleirado a cair pela colina, onde se avista no seu cimo o Moinho de Vento, como se um guardião desta paisagem pura se tratasse.

A Ribeira de Seixe vai serpenteando até ao mar até chegarmos à praia de Odeceixe, vencedora do concurso das 7 Maravilhas de Portugal. Merecido. A costa que se segue é prodigiosa. Vale dos Homens e, num pulinho, estamos novamente na Carriagem e na Amoreira e Monte Clérigo. Pouco afastado da costa, passamos pelo Rogil, onde obrigatoriamente paramos no Pão do Rogil para abastecer de iguarias locais. A tradição mantém-se mas os velhos produtos e sabores artesanais locais são agora adaptados de forma a inovar nestes tempos modernos: o bolo rei de batata doce é tão inesquecível como as praias, os vales e os cerros da região.

Fazendo de conta que Vale da Telha não existe, seguimos de imediato para a Arrifana. O lugar, inundado por surfistas durante todo o ano, tem vindo a crescer. A praia, em forma de metade de uma concha, é bonita e do alto da falésia onde está instalado a sua Fortaleza do século XVII assiste-se a mais um recorte fabuloso da costa. Agreste como o clima que se fazia sentir naquele dia. Faz sentido.

Um pouquinho mais a norte, no prolongamento destas arribas furiosas e justo em cima delas, quase que caindo abruptamente sobre o mar, descobrimos na Ponta da Atalaia uns vestígios de um assentamento. É o Ribat da Arrifana. Apesar da menção a um conjunto religioso islâmico em escritos de geógrafos e historiadores muçulmanos já no século XII, apenas em 2001 se identificou com precisão neste lugar as ruínas arqueológicas do Ribat da Arrifana, o testemunho do mais importante conjunto deste tipo no ocidente da Península Ibérica. Terá sido o mestre sufi Ibn Qasī, aliado de D. Afonso Henriques, quem decidiu construir um mosteiro aqui, onde a Terra se encontra com o Mar. Se desde há muitos séculos o lugar estava abandonado, com localização imprecisa (chegou a pensar-se que corresponderia ao castelo de Aljezur, povoação que gosta de acreditar ter sido fundada por um príncipe poeta, precisamente como Ibn Qasī), apesar da descoberta recente a situação não mudou muito. Caminhamos pela língua de terra que teima em manter-se imponente sobre o mar sem perceber os edifícios seculares, diz-se que incluindo nove mesquitas e uma necrópole. Acaba por ser a paisagem, sempre ela, que nos dá o poder espiritual do lugar. Esta não é, porém, uma beleza oferecida. Pelo menos, não em dias sem sol. Mas, já se disse atrás, talvez faça até mais sentido.

Para uma beleza imediata seguimos até à Bordeira e à Carrapateira, as povoações que dividem entre si o nome de mais uma daquelas praias largas e longas (na verdade, a maior do concelho de Aljezur) de mar salgado e areal límpido cortados pelo doce da ribeira local. Mas são as aldeias que nos arrebatam. Ambas (pouco) interiores e protegidas por cerros que se multiplicam ao longo da vista, a pacatez e a sensação de apartamento do bulício do mundo que nos rodeia são totais. Perto do mar, é a ruralidade quem aqui mais ordena. E nada melhor para perceber o cenário na sua plenitude do que partir a caminhar desde cada uma delas: “Da Bordeira até ao Mar” e “Pontal da Carrapateira” são dois dos muitos trilhos da rede Rota Vicentina que se podem percorrer nas imediações e deles daremos conta em próximos posts, terminando este nosso passeio pelo concelho de Aljezur pela Praia do Amado – apenas mais um ponto a comprovar ser este o mais belo de Portugal.

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