Pelo Mira Acima

É diferente da maioria, corre de sul para norte. Nasce na Serra do Caldeirão, no Algarve, e depois de percorrer cerca de 140 km, maioritariamente em solo alentejano, desagua no oceano Atlântico, em Vila Nova de Milfontes. É do rio Mira que falamos.

A beleza da foz do Mira é facilmente admirada quando em Vila Nova de Milfontes ou mesmo, tão só, quando se atravessa a ponte de Vila Nova de Milfontes. Perante tamanha beleza, marcada por uma grande serenidade, não há como não nos questionarmos o que se encontra a montante e ter vontade de descobrir outras paisagens.

Já conhecíamos alguns troços do rio Mira, nomeadamenteo o que passa junto a Odemira, a Santa Clara a Velha e a albufeira da barragem de Santa Clara, mas tivemos curiosidade por descobrir mais e de uma forma diferente. Foi assim que decidimos subir o rio Mira de caiaque (alugado na praia da Franquia). É essencial ter presente as marés para que a jornada seja o mais fácil e agradável possível. Assim, se o objetivo for subir o rio, a maré cheia/a encher é a ideal. O Mira é um rio navegável desde a foz até Odemira. Fizemos o troço desde Vila Nova de Milfontes até à Casa Branca, o que corresponde a cerca de 14 km (percurso no Wikiloc aqui).

Uma das caraterísticas do Mira é correr, genericamente, lentamente, por na maioria do seu curso o desnível ser baixo. O início do percurso, na boca do estuário do Mira, permite explorar diversas paisagens, desde o bonito casario de Vila Nova de Milfontes e o Forte de São Clemente, na margem norte, aos cordões dunares da Praia das Furnas, na margem sul da foz do rio. Começamos a remar e sentimos a ligeira corrente a favor. Para trás fica o mar, a praia da Franquia e a praia do Farol, enquanto por baixo vislumbramos alguns bancos de areia, os quais dão uma componente cénica ao tornarem a água mais clara.

Passamos a ter como horizonte a ponte sobre o rio Mira e a Serra Monte Trigo e Serra do Penedo. Ainda antes de passarmos por baixo da ponte, observamos na margem sul uma zona de bosque e matagal. Logo a seguir começa uma zona de sapal e vamos observando diversas aves. A biodiversidade nestes ecossistemas é grande. Mais para o interior do estuário, na zona do Moinho da Asneira, na margem norte do rio, para além de sapal, encontram-se antigas salinas, hoje convertidas em pisciculturas.

Dá-se a primeira curva do nosso percurso. O rio corre sereno. Paramos de remar e deixamo-nos ir suavemente pela corrente enquanto observamos a beleza que nos rodeia e assistimos ao voo das aves que têm residência na zona de sapal.

O rio estreita em relação à foz, mas mantém uma largura razoável. Seguimos natureza fora, com pouca presença humana, excepção feita a algumas unidades hoteleiras, discretamente integradas na paisagem, como o Monte do Zambujeiro, antes da segunda curva do percurso. O rio serpenteia um pouco, reduzindo o horizonte mais amplo do início do percurso e dando mais curiosidade em relação ao que virá a seguir. Ao longe, sobretudo na margem Oeste do rio, vislumbram-se alguns campos agrícolas e, pontualmente, cais e ancoradouros.

A paisagem é serena. O silêncio está presente e só é interrompido pelo barulho das pagaias a entrarem na água. Sabe-nos bem tamanha tranquilidade. Remamos sem grande esforço e, simultaneamente, enquanto apuramos a técnica da remada, deixamo-nos envolver pela paisagem ao nosso redor.

Aqui e acolá as margens tornam-se mais elevadas, sobretudo a margem Oeste. Depois de algumas curvas do rio, entramos na recta final do nosso percurso. Ao longe começamos a avistar, na margem Este do rio, o cais da Casa Branca, outrora um cais de embarque de trigo. A luz do final do dia torna tudo mais belo. Chegamos ao final da nossa jornada, mas com vontade de prosseguir rio acima até Odemira. Já com pé em terra firme decidimos de imediato que em breve descobriremos o troço seguinte, o que liga a Casa Branca a Odemira.

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