As 10 Praças e Largos mais Bonitos de Lisboa

Eleger as praças e largos mais bonitos de Lisboa não é tarefa fácil, tal a profusão de beldades neste quesito. A ideia é fugir ao mais óbvio e conhecido, e se aqui não encontramos o Terreiro do Paço (Praça do Comércio), o Rossio, a Praça do Município e a Praça Luís de Camões não é por esquecimento, é antes por estas estarem já na Liga dos Campeões deste reconhecimento.

Praça das Flores – Entre o Príncipe Real e São Bento, esta é uma das zonas mais agradáveis e carismáticas da cidade, onde a faceta residencial surge aliada à faceta mais boémia. Um pedaço de tranquilidade sob o arvoredo durante o dia, pela noite são muitas as opções de qualidade para jantar ao longo da praça.

Largo São Carlos – No final do século XVIII construiu-se aqui o neoclássico Teatro São Carlos e quase cem anos depois aqui haveria de nascer e viver, no número 4 que lhe está mesmo em frente, Fernando Pessoa, poeta maior da cidade e da língua portuguesa. Espaço cultural de excelência, em dias de récitas é ver (ainda) os visons a saírem à rua, no mesmo espaço onde já é também tradição celebrar-se o mais popular Festival ao Largo.

Largo do Carmo – Situado num dos cantos do Chiado, este é um dos lugares mais históricos da cidade. Entre vários edifícios que foram palacetes, aqui fica o antigo Convento do Carmo (uma ruína cheia de atmosfera com o seu portal gótico intacto) – com o exuberante oitocentista tardo-barroco Chafariz do Carmo diante si – e o Quartel do Carmo. Ambos testemunhos de dois dos episódios que marcaram e marcam o urbanismo e a liberdade da cidade e do país, o Terramoto de 1755 e a Revolução dos Cravos de 1974.

Praça de São Paulo – Numa das mais animadas zonas de Lisboa, perto do Cais do Sodré, fica esta praça encimada pela igreja que lhe dá nome. A Igreja de São Paulo já não é a original do século XIV, destruída pelo Terramoto, antes outra construída na sequência desta tragédia. Na placa central da Praça com calçada típica portuguesa encontramos um chafariz-obelisco e quiosques em ferro forjado, tudo elementos que conferem uma beleza harmoniosa ao conjunto.

Largo Dr. José de Figueiredo – Com o nome do primeiro director do Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes, este largo monumental é um dos mais cénicos de Lisboa. O Chafariz barroco com bicas com carrancas e uma escultura de Vénus a encimá-la e uma escadaria de ambos os lados dão o enquadramento perfeito para os edifícios todos diferentes mas cheios de coerência que ladeiam esta praça em forma de U.

Praça do edifício Sede da Edp – Junto à Avenida 24 de Julho, o novo edifício dos arquitectos Aires Mateus deu à cidade uma das suas mais recentes praças e talvez a mais não convencional. Para além dos blocos de escritórios da empresa eléctrica, o propósito foi também o de criar um espaço público que pudesse ser usufruído por todos e não apenas pelos funcionários que ali trabalham. Esta praça é uma pequena obra de arte, com uma cobertura futurista que joga magistralmente com a luz natural e que nos dá ao mesmo tempo uma sensação de recolhimento e de passagem.

Largo da Achada – Situado na Mouraria, o seu nome derivará do facto de este ser um lugar relativamente plano, ideal para recolhimento na encosta, provindo “Achada” de “terra chã”. Num dos cantos do Largo fica a Casa da Achada, Centro Mário Dionisio, que no Verão se encarrega de aqui passar cinema ao ar livre, e no outro uma fachada de arte urbana pintada por Andrea Tarli, ironicamente retratando uma velha moradora e um turista intrusivo. São dois apontamentos modernos em lugar muito antigo, onde se destaca um edifício com porta e janela ogival, diz-se que um sobrevivente do Terramoto.

Beco do Jasmim – Ziguezagueando pelas labirínticas ruas do bairro da Mouraria, esta praça com declive acentuado bem aproveitado por umas escadarias é rodeada de edifícios mas tem uma árvore no meio. Pode levar “beco” no nome mas é um espaço relativamente amplo para os padrões do bairro e aqui o privado e o público confundem-se, fazendo deste um lugar óptimo para se estar. Escusado será dizer que, à semelhança do Largo da Achada, é um dos lugares mais procurados por altura dos Santos Populares.

Praça da Viscondessa dos Olivais – Nos Olivais Velho, outrora arrabalde de Lisboa onde no século XVII a nobreza da capital começou a construir as suas quintas de recreio, esta praça ainda dá ares de tempos que já lá vão. Tanto, mas tanto, que foi possível ver um senhor sentado num dos bancos da praça com um rechonchudo porco quando lá passei para tirar esta foto. À volta da praça com o seu coreto, cruzeiro e chafariz encontramos diversos edifícios que compunham o conjunto urbano então conhecido como Rossio (e a Igreja Matriz de Santa Maria dos Olivais nas suas traseiras). Um deles é a Casa Viscondessa dos Olivais, mais tarde transformada em asilo para crianças pobres e hoje um jardim de infância.

Praça Afrânio Peixoto – Esta deve ser a praça mais desconhecida desta lista. Situada no Areeiro, é uma praça-jardim junto à linha do comboio, mas acaba por ser um lugar escondido. Os prédios à sua volta estão dispostos em forma de U invertido e todos têm vista para um lago protegido por árvores. Por um deles ser a casa da tia, conheço o lugar desde pequena e se em tempos idos era mal frequentado e perigoso depois do entardecer, hoje é um luxo podermos sentar numa das cadeiras que acompanham as mesas e aí fazer um piquenique à beira da água.

Lisboa em Pinturas

Lisboa é linda. Sempre o foi.

Muitos pintores a retrataram ao longo dos séculos, mas aqui fica uma viagem pela cidade e seus motivos durante o século XX, com dois bónus fora desse tempo.

Alfredo Keil, Vista de Lisboa desde o Ginjal, finais do século XIX
Francis Smith Lisboa, Alfama, 1920
Sarah Afonso, Varina, 1924
Mário Eloy, Bailarico no Bairro, 1936
João Hogan, Casario de Lisboa, 1952
Abel Manta, Praça de Camões, 1954
Nikias Skapinakis, Pátios de Lisboa, 1956
Mário Cesariny, Vista sobre Lisboa, 1958
Carlos Botelho, Colinas de Lisboa, 1969
Maria Helena Vieira da Silva, A Poesia está na Rua, 1974
Maluda, Lisboa, 1988
Rui Carruço, Bairro Alto, 2018

Jardim Amália Rodrigues

Acima do miradouro do Alto do Parque, desde 1996 temos mais um jardim na cidade, o Jardim do Alto do Parque, renomeado Jardim Amália Rodrigues após a morte da fadista.

Criação do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles, a ideia é que este jardim seja parte da ligação entre o Parque Eduardo VII e Monsanto, o célebre Corredor Verde de Lisboa. Tudo aqui é tão bem pensado e melhor executado, de uma delicadeza tal (como a que, aliás, se observa no seu vizinho Jardim Gulbenkian, igualmente projecto de Ribeiro Teles), que custa a crer que tenhamos passado tanto tempo sem ele.

À entrada do enorme anfiteatro aberto ao vale do Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, recebe-nos “Maternidade”, a escultura de Fernado Botero. A maior bandeira de Portugal por vezes também está por aqui hasteada, mas devo confessar que não fez grande falta que esvoaçasse ao vento interrompendo a vista desafogada.

Para lá desta encosta chegamos a um lago circular com a esplanada Linha de Água numa das suas margens. Enquanto uns, bem postos, se limitam a um café ou um gelado numa das cadeiras, os mais atrevidos não resistem a uma banhoca nos dias mais quentes. Ao redor do lago temos uma ampla zona relvada, quer totalmente exposta ao sol quer com zonas de sombra. Os mais conhecedores perceberão a diversidade das espécies arbóreas.

Mais acima, no ponto mais alto do Jardim, no designado miradouro, encontramos a escultura “O Segredo”, de Lagoa Henriques, duas meninas segredando ao ouvido uma da outra enquanto o mega edifício do Corte Inglês as observa. Do lado contrário, o restaurante Eleven, com estrela Michelin. E nas traseiras, o longo edifício do Palácio da Justiça, por onde segue o Corredor Verde de Lisboa. Tudo elementos de uma modernidade que continua o seu rumo nesta zona da cidade maioritariamente de bom gosto (riscar o que não interessa, por exemplo, caixote do Corte Inglês).

Duna da Cresmina, Guincho

A Duna da Cresmina é parte do sistema dunar Guincho-Oitavos, em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. Um passadiço circular com menos de 2 kms, meia-hora a andar sobre madeira a espaços invadida pela areia, sai desde o Núcleo de Interpretação da Duna da Cresmina, no alto da Praia do Guincho. Já sabemos que o Guincho é uma bela praia de areia branca que tinha tudo para ser o lugar indicado para estender a toalha na areia e nos deixarmos ficar por ali a apanhar sol. Mas daí vem o vento, e ele vem grande parte do tempo, e a praia transforma-se no lugar ideal para o windsurf, uma caminhada na areia, uma refeição num dos seus restaurantes ou… um passeio ao longo da duna, sem sair do trilho previamente definido para o efeito.

O que este sistema dunar tem de curioso é precisamente a condição climatérica adversa de vento forte carregado de sal. As areias das praias da Cresmina e do Guincho são por ele empurradas e retornam ao mar mais a sul, entre os Oitavos e a Guia, depois de migrarem sobre a plataforma rochosa aplanada do Cabo Raso.

Este é um sistema dinâmico, acreditando-se que a Duna da Cresmina esteja a avançar cerca de 10 metros por ano. Ou seja, embora a duna desempenhe um papel muito importante na protecção do terreno em caso de subida do nível do mar, ao mesmo tempo teme-se que a longo prazo este avanço possa vir a representar a perda de solos aráveis, infraestruturas e habitações.

Ao longo do trilho podemos observar o habitat diverso que nos rodeia, quer na sua flora quer fauna. As areias permitem alguma vegetação, embora rasteira, como o feno e o estorno da areia e pinheiro bravo. Surpreende que algumas flores consigam romper a areia. E vemos borboletas, melros e, sobretudo, lagartixas.

Mas a grande atracção são as dunas e as formas que são capazes de tomar. Num lugar de paisagem superior, Serra de Sintra nas costas e Oceano Atlântico por diante, é um agradável passatempo tentar observá-los num enquadramento especial dado pelas dunas.

Pelo Trilho Castrejo

Os Montes Laboreiro, hoje mais conhecidos pela Serra da Peneda, são um dos lugares de Portugal que mais encanto produzem em mim. Sobretudo pela paisagem, sim, mas também pela cultura secular da qual chegaram testemunhos até aos dias de hoje. Em tempos andei por Castro Laboreiro e disso dei conta aqui.

Com a pandemia novos horizontes se abriram e o que me habituei a circundar de carro hoje adentro a pé, alcançando lugares, paisagens e ambientes que de outra forma não seriam possíveis perceber. Foi assim que surgiu a ideia da caminhada pelo Trilho Castrejo, percurso oficial de Melgaço (MLG – PR3), com 17 quilómetros pelos caminhos de transumância que outrora ligavam as brandas às inverneiras, um sistema de povoamento usado pelos povos castrejos que vale muito a pena conhecer e descobrir.

Antes de iniciarmos o Trilho Castrejo tal como está definido fizemos um desvio e subimos ao Castelo de Castro Laboreiro. O caminho até lá é fácil, cerca de 15 a 20 minutos para cada lado, indo por uma vertente do penedo e voltando pela outra, entrando e saindo por cada uma das portas do Castelo. Implantado num monte a 1033 metros de altitude (a vila de Castro Laboreiro está a 945 metros), neste miradouro natural para todo o planalto de Castro Laboreiro e montes escarpados que o rodeiam a vista é, está bom de ver-se, soberba.

Construído no século XII ou XIII sobre uma estrutura pré-existente, a muralha envolve dois espaços bem definidos. Um deles correspondia à povoação intramuros, a qual ainda na Idade Média abandonou o castelo altaneiro para se estabelecer mais abaixo, na vila que hoje conhecemos como Castro Laboreiro e que espreita para lá da muralha. Com o tempo o Castelo foi perdendo a sua importância estratégica, embora ainda tenha desempenhado um papel importante na Guerra da Restauração e na Guerra Peninsular. Realce-se, no entanto, que a ocupação humana do lugar do monte do Castelo é muito antiga, remontando ao Paleolítico e ao período castrejo, eram então os seus povos nómadas. Aliás, veremos adiante que uma espécie de nomadismo continua a ser prática na região.

Descemos do Castelo rumo à vila e desviámos breve até à face da Cascata de Castro Laboreiro, alimentada pelas águas do rio de mesmo nome. Chovia bem, mas não o suficiente para que pudéssemos confundir a água caída do céu com a torrente que cai em diversos patamares nesta falha nas rochas e que proporciona (mais) um belo espectáculo da natureza.

Atravessámos então a vila, conquistada por D. Afonso Henriques e logo integrada nos domínios do reino de Portugal, tendo recebido foral e sido elevada a sede de concelho em 1271, extinto em 1855 e hoje parte do concelho de Melgaço. O seu coração é a pequena praça onde encontramos a Igreja Matriz, o Pelourinho e o antigo edifício da Casa da Câmara. Instalada no planalto, o topónimo Castro Laboreiro deriva de “castrum” – povoação fortificada – e “lepporeiro” ou “lepus” (ou leporis, leporem, leporarium, lepporeiro, leboreiro) – palavra latina que significa lebre. Seria então a “fortificação das lebres”, talvez por existirem aqui muitos destes animais. Ou, palpitam ainda outros, derivará do “Castram Laborarum” dos romanos, de significado “acampamento de trabalhadores”. O que espanta na região é que desde sempre celtas, romanos, mouros e por fim os cristãos do reino de Portugal aqui tenham teimado em tomar assento, sobrevivendo às agruras do clima e da infertilidade do solo – daí a alusão aos trabalhadores. Ainda assim, têm demonstrado que é possível viver em comunhão com a natureza, adaptando-se e fazendo das previsíveis fraquezas a sua força.

Iniciámos oficialmente o Trilho Castrejo virando costas ao centro da vila de Castro Laboreiro e seguindo planalto afora. As fragas graníticas e os rochedos com formas cativantes marcam a paisagem típica da Peneda. A vegetação é rasteira, feita de tojo, carqueja, urze, com cores variadas que só o Outono sabe como fazer sobressair na perfeição. Este mato que aqui encontramos possui uma dupla função, servindo de alimento para o gado e mantendo alguma fertilidade do solo. Estamos no planalto, recordemos, e nas terras mais altas, as brandas, a fertilidade dos solos é ainda menor, pouco se produzindo, servindo as terras sobretudo para pastoreio e pastagens que aqui encontram alimento precisamente na vegetação rasteira referida.

À medida que abandonamos o planalto e descemos o vale do rio Laboreiro, com o monte do Castelo dominador à nossa esquerda, a paisagem e características do solo vão mudando. Somos transportados para um outro mundo, com um ambiente totalmente diferente. Primeiro aproximamo-nos de uma pequena lagoa com ponte (são às dezenas as pontes por estes caminhos), um lugar incrível, quase como se de um oásis na penedia se tratasse.

Depois continuamos a descer mas agora já não a céu aberto, antes totalmente imersos por um não menos incrível bosque. É o bosque de carvalhal do Barreiro e as palavras para o descrever nunca serão suficientes. Delicioso nas suas cores e tranquilo no seu recato, a dado passo os muros aparecem inteiramente cobertos de turfeira, de um verde tão intenso que parece irreal. É este musgo que faz reter a água e que juntamente com os rios e ribeiros que por aqui correm faz da zona baixa da região de Castro Laboreiro um mundo à parte em termos de fertilidade, num clima menos frio e numa terra menos pobre.

A piada e o interesse deste Trilho Castrejo está, precisamente nesta diversidade de paisagens que tem gerado ao longo dos séculos diferentes povoamentos. Ou melhor, um sistema de povoamento triplo: no planalto, nas brandas e nas inverneiras. Explique-se: este trilho segue pelos caminhos que ligavam as brandas às inverneiras, hoje ligadas por estradas asfaltadas mas há nem sequer um século apenas por caminhos medievais de calçada em pedra como este que percorremos agora (a estrada que liga Melgaço a Castro Laboreiro foi construída apenas na década de 1940). Os povos castrejos possuíam duas casas, uma nas brandas e outra nas inverneiras. Hoje, com as alterações climáticas e com o clima menos inclemente conseguem viver maioritariamente no planalto ou até nas brandas. Mas até há pouco tempo grande parte das famílias passavam os meses mais quentes nas encostas (brandas) e os meses mais frios nos vales (inverneiras). Nas brandas, situadas a maior altitude, faziam as sementeiras, como centeio e batata. Nas inverneiras, a mais baixa altitude e mais abrigadas, cultivavam-se os cereais e as frutas. Ou seja, o povoamento e exploração do solo varia conforme a época e o clima de modo a que o homem possa fazer o melhor uso da terra, trabalhando-a sempre que isso seja possível. Isto acontece um pouco por toda a Peneda, mas é aqui, em Castro Laboreiro, que assistimos a este sistema singular com maior evidência. Nos dias de hoje, porém, as pessoas têm vindo a fixar-se em permanência na vila de Castro Laboreiro, daí que, como alguém já se lhe referiu, esta seja a mais alta das inverneiras e a mais baixa das brandas.

Prosseguindo a nossa caminhada, aproveitámos para um lanche no inspirador bosque do Barreiro e atravessámos as inverneiras do Barreiro, Podre e Assureira. É à saída desta última aldeia que encontramos um belo postal que resulta do conjunto de um moinho junto à ponte. Até nos esquecemos que também a Capela de São Brás está ali. Em uso até há pouco tempo, alguns dos moinhos de água estão ainda bem conservados na sua fachada em granito e são uma expressão da arquitectura tradicional local.

Estamos já no ponto mais baixo do nosso trilho, a cerca de 750 metros de altitude. É nele que fica uma das pontes mais importantes e pitorescas da região e até de todo o Parque Nacional Peneda-Gerês. Classificada como Monumento Nacional, a Ponte da Cava Velha foi construída na época romana, embora tenha sido restaurada na época medieval. O facto de ser também designada por Ponte Nova faz crer que por aqui tenha existido uma outra ainda mais antiga. À semelhança de outras, o seu tabuleiro é em arco, mas maior. Na verdade, são dois os arcos que nos transportam até à outra margem do rio Castro Laboreiro.

E depois disso, atravessada a Ponte da Cava Velha o caminho brinda-nos com uma longa subida. A beleza agreste do lugar, mesmo com chuva e tempo nublado, reconforta no esforço. Os penedos e rochas não param de surpreender mas a forma de uma delas, em especial, supera tudo. O Bico do Patelo é irreal, como se um pássaro tivesse pousado à beira de um penedo e ali se tivesse quedado petrificado.

Vamos vendo o Bico ao longe, atravessamos a inverneira de Curveira já a preparar a lenha para os dias frios que aí virão, continuamos a subir por entre as pedras e ficamos mesmo debaixo da magistral formação rochosa. Aqui não podemos deixar de soltar um lamento pelo céu nublado não nos permitir registar na perfeição o fantástico enquadramento da aldeia com o Bico. Como pode um cenário ser tão grandioso mesmo com uma visibilidade tão má? E como pode a natureza moldar uma pedra de forma tão formosa?

Depois desta subida encontramos um terreno fácil e relativamente plano em terra batida. Um pouco para lá do ponto mais alto da nossa jornada (1090 metros de altitude) ficam algumas das brandas, como Padrosouro, junto à qual passámos sem entrar (e ainda mais escondidas nas montanhas ficam Seara, Eiras, Portos e Curral do Gonçalo).

Daqui iniciámos uma descida por mais um caminho de calçada de pedra, no que podia muito bem ser um rio com um fio de água. Avistam-se alguns pequenos prados verdejantes. Mas a melhor vista é para a inverneira de Cainheiras, um pequeno conjunto de casinhas de granito rodeadas de um manto verde entrecortado por uma fina e ondulante risca de asfalto, enquanto os penedos assistem a este espectáculo na fila de trás.

Antes de chegar a Castro Laboreiro ainda passámos pela ponte e povoação de Cainheiras e pela povoação e ponte de Varziela. Nesta última, junto ao ribeiro Corga das Lapas uma minúscula cabine está instalada num terraço verde com uma frente ribeirinha privativa. Um luxo. Mas voltam a ser as cores a ganhar protagonismo, fazendo questão de se sobrepor ao cinzento da paisagem.

À chegada a Castro Laboreiro temos a vista que nos faltava da sua cascata, agora no lugar cimeiro dos seus vários patamares e igualmente impressionante.

E podemos, finalmente, repousar desta enorme caminhada pela paisagem e cultura das aldeias de montanha dos Montes Laboreiro.

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Trilho da Peneda

Às vezes é bom visitar os lugares em dias de chuva. Visitada a Peneda no Verão, perceber-se-á a cascata que jorra água pelo penedo abaixo que serve de encosto ao seu Santuário?

Foi precisamente essa a imagem que nos tocou ver no início desta caminhada de 11 quilómetros designada por Trilho da Peneda, já no concelho de Arcos de Valdevez. O que acontece é que a chuva miudinha não nos largou durante toda a manhã e, pior, a nebulosidade era muita. Mas mesmo com pouca visibilidade seguimos adiante no nosso propósito e subimos os últimos patamares da escadaria do Santuário de Nossa Senhora da Peneda.

O culto mariano neste lugar tem 800 anos, quando, diz a lenda da Peneda, Nossa Senhora aqui terá aparecido a uma criança que pastoreava cabras e, após curar uma mulher de um caso já dado como perdido, lhe terá dito para pedir aos habitantes da Gavieira (sede da actual freguesia da Peneda) para erigirem uma ermida. O Santuário é, todavia, mais recente, tendo sido construído nos séculos XVIII e XIX. A escadaria das virtudes é a grande atracção cénica e formal, com estatutária representando a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória.

Nas costas do Santuário fica a carismática Fraga da Meadinha. A parede da Meadinha tem vindo a ser escalada por portugueses e sobretudo galegos desde a década de 1940 e é hoje a única onde se pode escalar legalmente no Parque Nacional da Peneda-Gerês. São 59 as vias de escalada desta fraga. Mas nós, apesar de a termos subido também, não o fizemos através de uma ascensão vertical, antes pelo bosque que a atalha mais suavemente. Apesar da nebulosidade intensa, as cores do bosque fizeram questão de se exibir. O penedo, esse, como é cinzento como a cor daquele dia, é que foi mais difícil de perceber em toda a perfeição. Ainda assim, conseguimos ver a água a rolar por entre as frechas da rocha, a tal que se transforma em cascata quando a queda surge mais abrupta nas costas do Santuário.

A subida é algo cansativa, indo dos 665 metros aos 1095 metros em apenas 3,7 quilómetros. Mas a quase 1000 metros temos um lago com uns reflexos incríveis, uma espécie de resistência à desfeita do clima. Conhecido como “pântano”, no lugar de Chã do Monte havia uma represa que servia uma mini-hídrica que fornecia energia eléctrica à povoação da Peneda. Hoje resta a água, com um belo rochedo no meio, circundada pelo granito que permite que uma vegetação rasteira verdíssima dele se apodere nas margens do lago.

O caminho prossegue por um campo de pedras com formas diversas. É basicamente um trilho sobre pedras, em que podemos saltitar de umas para as outras. Os afloramentos rochosos são fantásticos.

E vemos árvores negras despidas, outras inclinadas. O clima não perdoa. Indiferentes a ele, as vacas barrosãs e os cavalos garranos seguem nas suas vidas. Surpreende ver uma vaca descobrindo alimento mesmo em cima de um penedo. Outras passeiam juntas e assustam-se à nossa passagem, talvez não esperando que uns malucos caminheiros ali aparecessem com um tempo destes.

Os últimos 4 quilómetros do trilho são sempre a descer e o último segue pela estrada. À aproximação da aldeia da Peneda vemos uns prados com um tapete de um verde intenso, apenas perturbado pelos muros de granito que dividem as pequenas propriedades.

A cor é garantida pela chuva, sim, mas também por se situar na margem do rio da Peneda. Neste ponto o rio não parece correr muito tranquilo, encontrando no seu caminho uma série de pedras que tem de ultrapassar por vezes com alguma fúria. Na terra da pedra, não podia faltar um imenso monólito que servirá de arrumos – é ver a porta de madeira que lhe foi adossada.

Neste trilho da Peneda estão praticamente todos os elementos característicos do Parque Nacional da Peneda-Gerês: cascata, lagoa, rio, penedos, bosques, fauna, aldeias, espigueiros e socalcos. Na vizinha freguesia do Sistelo podem estar os socalcos mais conhecidos do Parque, mas estes da Peneda possuem um encanto muito próprio. E, junto ao Santuário, são uma bela forma de terminar este passeio pela natureza e modos de vida da serra, com mais um grande exemplo de como o Homem soube aproveitar as dificuldades dos terrenos para os transformar, vencendo engenhosamente os desníveis de forma a obter para si a maior área de terra possível para a agricultura, garantindo a sua subsistência e sobrevivência.

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Pela Penedia de Lamas de Mouro

Lamas de Mouro é uma aldeia no concelho de Melgaço e uma das portas oficiais do Parque Nacional Peneda-Gerês. Do centro recepção, que é também um lugar de recreio com um bosque de uma qualidade cénica incrível, parte um trilho circular de cerca 14 kms de dificuldade moderada pelos penedos graníticos da serra.

Logo nos primeiros metros, ainda antes de iniciarmos a subida serra adentro, uma pequena cascata aguarda-nos, lembrando-nos que nestas paragens nunca estamos muito longe de um rio ou ribeiro. A água, em especial o seu correr tranquilo e o som que transporta, é uma presença reconfortante.

A subida, embora um pouco longa, não é difícil. Começámos por nos distrair apreciando Lamas de Mouro ao fundo na encosta. Por enquanto está à distância de um olhar distante, mas havemos de a atravessar no regresso à Porta mais a norte do nosso único parque nacional, distante dela quase 2 quilómetros.

A distracção prossegue tentando imaginar o que nos sugere a forma dos inúmeros blocos graníticos da serra. Podem ser uns dedos, uma cabeça ou qualquer outra coisa para onde guia o nosso pensamento já imerso em pura evasão.

Mas eis que, rompendo o cinzento granítico, surgem as cores do Outono. A vegetação rasteira em tons verdes, castanhos, amarelos e vermelhos antecipa a entrada num lindo bosque de vidoeiros. Se até aqui lamentávamos o facto de o dia estar nublado e chuvoso, no meio deste bosque – e de outros que se seguiriam nos dias seguintes – este clima agreste e mais inóspito faz todo o sentido. É ele que lhe dá esta paleta e todo o carisma.

O Pico da Fanqueira, a 1175 metros de altitude, surge em destaque diante de nós, uma série de pedras que parecem ter sido empilhadas propositadamente para o fazer mais alto e elegante. Nós, porém, caminhamos um pouco mais baixo, a apenas 1097 metros, ainda assim mais alto do que o planalto Castro Laboreiro que agora nos toca avistar. O cenário é fabuloso. Não apenas pelas imagens que nos são oferecidas, mas também pela sensação de estes serem caminhos pouco pisados por outros que não alguns dos seus habitantes que ainda mantém uma vida dura de trabalho da terra. Mas nós não, nós estamos aqui por prazer e à dureza da vida daqueles que são nossos anfitriões mostramos respeito.

Na área de lazer de Veigas, à entrada da povoação de Várzea Travessa, fazemos uma paragem para um lanche numa das mesas junto à antiga casa da Guarda Florestal.

As vacas barrosãs a pastar livremente e os cães Castro Laboreiro (alguns presos, mas muitos docilmente à solta) cruzam o nosso caminho.

Há algumas povoações rente ao nosso percurso, mas apenas atravessaremos Portelinha. E Espanha é logo ali, talvez a menos de 50 metros de determinado ponto do nosso trilho junto ao rio Trancoso, por um caminho medieval por onde seguimos acompanhados por mais umas deliciosas cores de Outono. Foi esta fronteira imperceptível de diferença em termos paisagísticos que levou o escritor minhoto José Augusto Vieira a escrever “De cá nós! De lá vós!”.

Lamas de Mouro já não está distante e em breve a atravessaremos. O lugar é de povoamento muito antigo, como o atestam vestígios de dolmens e da cultura castreja. Diz-se que no século IX aconteceu aqui uma batalha contra os mouros, que estes perderam. Mas o nome, que é também nome do rio que por aqui passa, ficou: “Mouro”. Já “Lamas” virá das características do solo, cheio de lamas, pastagens de gado com água. Outros dizem que o nome “Lamas” derivará das lágrimas derramadas pelos mouros na dita batalha, que terá sido sangrenta. Seja como for, ficou Lamas de Mouro, aquela que no século XIV se terá tornado um couto da Ordem do Hospital e que durante muito séculos serviu de retaguarda à protecção do Castelo de Castro Laboreiro na defesa dos ataques inimigos na linha de fronteira.

Em Lamas de Mouro as vacas caminham ao nosso lado nas ruas pejadas de edifícios de granito onde muitos ainda reservam o primeiro piso para as guardar. As alminhas são outro dos seus elementos característicos.

Mas é a paisagem, sempre ela, que continua a surpreender-nos. Nesta foto se condensa muita da realidade da Serra da Peneda.

Prosseguindo caminho, à saída de Lamas de Mouro ainda somos brindados como a beleza sensível e pacata de um moinho muito bem conservado à beira do rio de Mouro, ao qual não falta sequer a companhia de uns esbeltos e distintos cogumelos.

Logo a seguir aparece a Ponte Romana de Porto Ribeiro. Atravessado o seu delicado arco seguimos os últimos metros da nossa caminhada sempre junto ao Rio de Mouro até ao centro de recepção das Portas de Lamas de Mouro. Já o havíamos antecipado logo no início deste texto, o seu bosque é belíssimo, a lembrar o Covão da Ametade, na Serra da Estrela. O curso de água rola tranquilo por entre um verde luxuriante, produzindo reflexos incríveis. Uma daquelas imagens que certamente nos acompanhará durante toda a nossa vida.

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Da Maceira a Santa Cruz

Em tempos falaram-me de uma prova de um trail pelas escarpas da Maceira e de como era bonita a região por onde o trail passava. Investiguei, segui caminho até Porto Novo, entrei vale do rio Alcabrichel adentro, para lá por uma margem e para cá pela outra, com viragem no Balneário dos Frades, e fiquei feliz com o curto passeio. Mas com a inauguração em 2019 do Passadiço das Escapas, um quilómetro que une Maceira a Porto Novo, no concelho de Torres Vedras, decidi voltar para percorrer a nova estrutura.

A ideia era que desta vez o passeio fosse mais alargado, com início na Gruta da Lapa da Rainha, na Maceira, e final na Praia Formosa, em Santa Cruz. Para isso, estacionei em Santa Cruz e apanhei um táxi até à Maceira. Só que, pela estrada que liga Porto Novo à Maceira percebi que o percurso do novo passadiço não seria nem um décimo tão bonito como o percurso que havia feito anteriormente junto à margem escarposa do rio Alcabrichel. Talvez deva dar razão àqueles que se irritam com a praga dos passadiços, sobretudo em lugares cuja beleza está em estado bruto e não é difícil de alcançar. É o caso das Escarpas da Maceira e por aqui iniciaremos o nosso passeio de hoje, 11 fáceis quilómetros a caminhar.

A Gruta da Lapa da Rainha fica no alto de um cabeço na povoação da Maceira, perto da entrada das Termas do Vimeiro. Subimos – a única subida do dia digna desse nome – e poucos metros depois espreitamos por esta Gruta classificada como Monumento Nacional. Crê-se que seja uma estação do Paleolítico Superior, testemunho de uma ocupação humana da zona bem antiga. Entramos por uma cavidade na rocha e saímos pelo lado contrário. Este é o Cabeço da Rainha e no cabeço em frente, o Cabeço do Castelo, há mais uma gruta gêmea desta, menos estudada mas igualmente classificada. As vistas do cimo do cabeço são bem bonitas, com a povoação da Maceira imediatamente abaixo.

Caminhando em direcção ao Atlântico, somos totalmente envolvidos pela intensa vegetação de um bosque e assim seguimos durante umas centenas de metros.

Umas abertas deixam-nos ver, encravadas em baixo no vale, algumas das instalações das Termas do Vimeiro, em especial a sua piscina – vazia, uma vez que dada a Pandemia da Covid-19 as Termas do Vimeiro não abriram neste ano de 2020. Não confundir com a povoação do Vimeiro, ali vizinha mas já no concelho da Lourinhã. Há duas nascentes nesta zona termal, a da Fonte dos Frades e a da Fonte da Rainha Santa Isabel. Diz-se que a Rainha Santa residiu no Vimeiro e terá sido ela a descobrir esta última nascente de água que lhe terá curado algum mal de pele. Verdade ou não, o certo é que está comprovado cientificamente possuírem estas águas uma riqueza mineral e medicinal que traz aqui muita gente em busca de terapias ou tão somente para relaxar.

Estamos a caminhar no topo de um maciço rochoso calcário e as vistas tornam-se cada vez mais bonitas. As escarpas que ladeiam o verdejante vale do rio Alcabrichel são muito cénicas e ao fundo já se vê o azul do mar. Uma composição perfeita.

Quando descemos ao Balneário dos Frades e continuamos a seguir pelo vale, mas agora cá em baixo, a visão das escarpas é ainda mais bonita. As Escarpas da Maceira, monumento natural classificado como geossítio, erguem-se apertadas deixando o rio Alcabrichel correr em direcção ao Atlântico, na Praia de Porto Novo. E nós aproveitamos à boleia no carreiro junto ao rio (o Passadiço, esse, segue do outro lado de uma das escarpas, junto à estrada).

Porto Novo, a foz do Alcabrichel, é um antigo porto piscatório onde em 1808 desembarcaram as tropas britânicas que viriam a combater na batalha do Vimeiro, aquando da primeira Invasão Francesa. Hoje é uma praia com hotéis, restaurantes, actividades náuticas e a possibilidade de estender a toalha na areia ora à beira mar ora à beira rio.

Ao seu lado, passando a falésia baixa que se estende até à água por umas rochas negras muito cénicas, fica a Praia de Santa Rita. Esta tem um longo areal, quase 2 quilómetros, e não fosse o costumeiro vento e neblina locais todos aqui gostariam de ficar a apanhar banhos de sol sem preocupações com distanciamentos sociais.

Não desviámos para as ruínas do Convento de Penafirme, para lá da estrada que passa junto à duna, e no final de Santa Rita subimos o monte arenoso para daí passarmos a caminhar pelo topo da falésia até Santa Cruz. São menos de 5 quilómetros com vistas de praia e mar fantásticas. Vamos vendo a Praia de Porto Novo, para trás, a afastar-se cada vez mais e os contornos da costa a ficarem cada vez mais bonitos. O mais interessante é constatar a diversidade da flora dunar – umas vezes abundante e colorida, outras escassa e lunar.

E um dos passatempos é espreitar e fotografar as pessoas que caminham à beira-mar; vistas de cima da falésia parecem meros pontinhos minúsculos na areia.

Para diante passamos pela Praia da Mexilhoeira (para o interior, escondido na duna, há de estar o Areias do Seixo, um hotel de charme multipremiado pelo seu bom gosto e integração com o meio-ambiente onde está inserido) e pela Praia da Vigia, antes de chegarmos a Santa Cruz e suas praias mais urbanas. Na Praia da Física fica o Noah Surf House, hotel, restaurante, loja de surf, irmão do Areias do Seixo, mas mais popular e acessível e visível da estrada na sua arquitectura moderna.

Mas a imagem de marca de Santa Cruz são os seus toldos de praia com listas verticais coloridas. Eles quase que enchem o areal da Praia da Física nos dias de Verão e são também parte do mobiliário urbano na promenade, servindo como lugares de descanso e sombra.

Santa Cruz, uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão, é hoje um lugar concorrido, mas à entrada para o último quartel do século XIX tinha apenas uma meia-dúzia de casas. De porto piscatório transformou-se, entretanto, em lugar de veraneio da gente bem de Torres Vedras, atraindo igualmente escritores que se identificaram com o clima melancólico das praias do Oeste. O Passeio dos Poetas, marginal junto ao mar, é dedicado a três deles: Antero de Quental, João de Barros e Kazuo Dan.

O nosso passeio termina da melhor forma junto ao Penedo do Guincho, imediatamente antes da Praia Formosa. Este leixão é uma enorme e belíssima rocha, reclinada como a Torre de Pisa, pousada na água do mar. Já esteve ligada à arriba, e devido à erosão em algum momento dela se despegou. Não bastasse a sua formosura, tem ainda uma abertura no meio, espécie de túnel onde a água do mar bate quando está mais revolto ou rola tranquilamente em alturas de acalmia marítima. Não exagero se disser que este é um dos lugares mais bonitos de toda a nossa costa e mirando o Penedo do Guincho uma e mais uma vez nos despedimos desta jornada.

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Nas Escarpas da Mizarela

O Trilho PR7, nas Escarpas da Mizarela, é considerado o mais fantástico da Serra da Freita. Segue maioritariamente pelo vale encaixado da Frecha da Mizarela, uma queda de água que cai a mais de 60 metros de altura, contornando-a. O lugar é realmente grandioso, belo e selvagem, o coração da Freita. Mas este percurso pedestre de cerca de 10 quilómetros não é nada fácil.

Com início e chegada no Parque de Campismo do Merujal, este percurso oficial do Arouca Geopark vem marcado como tendo 8 quilómetros, mas acabámos por percorrer 10,5 quilómetros, tendo desviado até à base da cascata.

Saindo do Parque de Campismo, atravessamos a Estação da Biodiversidade do Merujal, um caminho plano com diversos painéis informativos acerca da fauna, flora e fungos presentes no lugar. Esta é uma zona de bosque, mato, pinhal e turfeiras onde são os cabeços rochosos que roubam por completo a nossa atenção.

Sem esforço, após 1,5 quilómetros chegamos ao miradouro da Frecha da Mizarela. À distância, parece que apenas um fiozinho de água se despenha da imensa escarpa. O Rio Caima nasce aqui perto, na freguesia de Albergaria da Serra, a mesma da vizinha aldeia da Mizarela, e quando aqui chega cai abrupto por mais de 60 metros por conta deste corte no penhasco. A partir do miradouro vamos descer, ao encontro do curso do Caima no fundo do vale, até à aldeia de Ribeira, onde passaremos para a outra margem do rio para voltar a subir o vale pela encosta contrária.

É precisamente nesta acentuada e interminável descida, sempre coberta pela vegetação, que está a dificuldade do trilho, por incrível que pareça bem pior do que a acentuada e interminável subida, nem sempre coberta pela vegetação. O trilho está bem marcado, com as risquinhas vermelha e amarela da praxe pintadas ora nos troncos da árvore ora nas rochas. O problema é que temos de dedicar tanta atenção à descida – muito perigosa em dias húmidos – que a cabeça baixa pode fazer-nos perder as marcas. Foi isso que aconteceu e descemos demais, ao invés de seguir pelo trilho à direita, e quando o percebemos entendemos que merecia a pena continuar no desvio até à base da cascata (entre ida e volta será cerca de 1 quilómetro a mais). Há enganos que vêm por bem e hoje agradecemos a distracção.

Já cá em baixo, furámos por entre as pedras e percebemos uma lagoa, com uma cascata e tudo. Subindo (não é fácil) pela parede desta piscina acedemos ao patamar seguinte e eis que surge mais uma lagoa, com a devida cascata. Já não arriscámos subir mais, mas o cenário vai-se repetindo. É um sítio poderoso com a natureza em estado bruto.

Depois deste deleite impõe-se a subida, realizada facilmente e em muito menos tempo do que a descida. Com mais atenção, desta vez não perdemos a indicação do desvio e seguimos, então, pelo trilho correcto. O trilho continua sem ser fácil, num carreiro apertado que ora sobe ora desce, quase sempre com vistas soberbas para a Frecha por entre as ramagens dos carvalhos e dos pinheiros. Mas quando cruzamos com a estrada de asfalto e metemos novamente pelo trilho é sempre a descer até à Ribeira.

As vistas continuam impressionantes, com o domínio absoluto das enormes encostas que se levantam do vale quase a direito, cobertas com uma vegetação luxuriante de um verde intenso. Mas devo confessar que nesta altura estava aborrecida com a dificuldade do percurso. Foi, pois, um alívio com comemoração à medida a chegada à Ribeira: um mergulho e um piquenique.

A Ribeira é uma pequeníssima povoação no fundo do vale com casas empoleiradas na encosta em visível mau estado e que parecem todas abandonadas. Percebem-se ainda, no entanto, os socalcos do que foram em tempos terrenos cultivados. E vê-se, também em ruína, um moinho de água que, em conjunto com outros que aqui existiam, trabalhavam para alimentar os habitantes do planalto, carecidos da água abundante na Ribeira.

Depois da pausa para refrescar corpo e mente, atravessamos a ponte da Ribeira e já pela outra margem subimos ao longo do Caima. Esta subida não é tecnicamente nem fisicamente dura, apesar de longa. As vistas continuam de alto nível e por este caminho na outra vertente do vale percebemos que as lagoas e cascatas não cessam no que julgávamos ter sido a base da Frecha da Mizarela, antes continuam ao longo do vale que segue até à bela Ribeira.

Continuando a subida, a dado momento escutamos o som da água e logo depois ela apresenta-se na forma de mais uma ribeira. Mais adiante, nova apresentação, desta vez sob a forma de mais uma cascata, a Cascata da Castanheira. Atravessamos a sua pequena e pitoresca ponte e… continuamos a subir, pois claro.

No topo ganhamos uma vista ao longe para as Pedras Parideiras e para a aldeia da Castanheira e, sobretudo, mais ao longe ainda para uma infinidade de horizonte que em dias de visibilidade máxima chega a permitir avistar o Atlântico para lá de Aveiro.

Durante diversos pontos do percurso já tínhamos percebido os afloramentos quartzíticos nas rochas graníticas, mas agora um enorme bloco branquíssimo surge diante nós. Face a ele qualquer pessoa compreende definitivamente o que é isso de “afloramento quartzítico”.

Parece que já estamos perto da aldeia da Mizarela e do seu miradouro, vê-mo-la quase à distância de um esticar de braço, telhados ocres debruçados na varanda granítica, mas ainda há que seguir pelo trilho que volta a ora descer ora subir, embora já não tão acentuado. Tempo e espaço ainda para passar por altas e inclinadas ravinas, onde até umas cordas estão cravadas na parede da rocha para nos ajudar a ultrapassar um último desafio, mas na verdade este ponto não é tão perigoso nem difícil como parece.

A parte pior há muito havia ficado para trás e de volta à aldeia da Mizarela, e à distância fácil do final do percurso, já só retinha a beleza extraordinária deste vale encaixadíssimo e suas estrondosas escarpas, as quais através de uma solidária abertura permitem que o raio Caima, que até então corria tranquilo, tenha um momento de aventura e se jogue por ali abaixo e no caminho vá nadando em diversas lagoas, fazendo dela a nossa felicidade.

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Drave, a Escondida

Tinha prometido a mim própria que voltaria à Serra da Freita para conhecer a Drave, aquela a que chamam a “Aldeia Mágica”. Os caminhos por vales e montanhas da Freita, em Arouca, são cenários impressionantes, mas também o secretismo e misticismo da povoação da Drave me impressionou. Em tempos tinha tentado percorrer de carro as estradas de asfalto pelas montanhas que lhe são próximas, mas nada de a conseguir vislumbrar.

Parte da atracção da Drave é precisamente esta, a de não se deixar ver nem pisar a não ser caminhando directamente até ela. Encaixada num vale e protegida por montanhas, a este lugar encantado apenas se chega depois de percorrer a pé os 4 quilómetros que a separaram da aldeia de Regoufe (bem marcados pelo PR14 – “Aldeia Mágica”).

Regoufe, a visigótica “rei dos lobos”, é também um lugar que merece ser visitado e explorado. Ao descer de carro até à aldeia percebemos logo a ocupação do vale com terras de cultivo. Um desvio à direita (onde estacionámos) sinaliza as Minas de Regoufe, hoje uma impressionante ruína cheia de ambiente desta antiga indústria de extracção de volfrâmio explorada pelos alemães durante a época da II Grande Guerra Mundial.

Descemos mais um pouco, agora a pé, e a entrada na aldeia permite-nos conhecer um exemplo singular de autêntica ruralidade bem no centro do nosso país. Casas de granito onde o piso térreo ainda é efectivamente usado para guardar os animais são uma realidade. Assim como o é a partilha das suas ruinhas entre os homens e as vacas, cabras e galinhas.

O percurso pedestre que nos leva até à Drave tem início à entrada do casario de Regoufe. São 4 quilómetros para cada lado, cerca de 1h 15m de caminho em cada sentido. É um percurso relativamente fácil, onde na ida a única parte cansativa é precisamente a primeira, aquela que após atravessar a ribeira da aldeia de Regoufe nos leva a enfrentar uma subida inclinada com muita pedra no terreno. Acontece que, na subida somos tentados a olhar para trás, para espreitar a implantação geográfica de Regoufe no vale, e de tão bela que é temos a desculpa perfeita para não apenas caminharmos lentamente como também forçarmos as paragens para descanso ver as vistas.

A chegada ao cimo desta subida dá-nos ainda um cenário maior, a junção das Serras da Freita e da Arada, e mais à frente ainda de São Macário, aquilo que há séculos era designado como o Monte Fuste. E a partir daqui o caminho é quase sempre relativamente plano e em bom piso, com excepção da aproximação a Drave, em que teremos que descer um empedrado.

A vista é fabulosa. As montanhas verdes com rasgões fazem lembrar as do Cáucaso. É impossível deixar de contemplar as enormes paredes montanhosas que se erguem desde abaixo no vale até tocarem no céu. E elas, camaradas, vão nos acompanhando pela nossa caminhada afora.

Começamos a avistar a Drave ao longe quase ao mesmo tempo que percebemos uma ribeira no fundo do vale em curva. Iniciamos a descida e em breve chegamos à Aldeia Mágica.

As casinhas escuras construídas em xisto e lousa confundem-se com as paredes rochosas. Esta é uma zona de transição de granito e xisto, mas o casario de Drave é todo em xisto, à excepção de um ponto branco correspondente à capela caiada. Impressiona como uma povoação implantada a 600 metros de altitude pode estar numa cova, rodeada de montanhas mais altas do que ela.

Esta primeira visão frontal e mais próxima de Drave impressiona ainda porque aqui percebemos de forma esmagadora o seu isolamento. A povoação da Drave tem como referência mais antiga uma dos tempos de D. Dinis, no século XIV, e em 1527 aparecia registada no Cadastro da População do Reino como contando com dois vizinhos e oito pessoas (por comparação, Regoufe tinha oito vizinhos e trinta e duas pessoas). Foi no ano 2000, depois de a linha telefónica ter chegado apenas 7 anos antes e de a electricidade não ter chegado nunca, que o último habitante deixou a aldeia. Era um Martins, descendente da família mais antiga e representativa do lugar, dona do Solar dos Martins, o maior edifício de Drave. Os habitantes de Drave dedicavam-se em exclusivo à agricultura, em especial à cultura do milho e batata, e possuíam algum gado e cabras. Foi a fertilidade do vale, pela confluência de algumas linhas de água, que aqui fez estabelecer as pessoas, mas nas últimas décadas o tempo, “esse grande escultor”, foi afastando os habitantes mais novos, em busca de melhores condições de vida ou tão somente de escolaridade – nunca houve escola na aldeia.

Hoje praticamente tudo está em ruína e não fossem os escuteiros esta seria uma aldeia fantasma. São eles que têm vindo a reabilitar alguma das casas, tendo feito da Drave a Base Nacional da IV Secção do Corpo Nacional de Escutas e é por sua responsabilidade que a Drave ainda não morreu, preservando não apenas o edificado mas também as memórias do lugar com as suas iniciativas.

Um dos prazeres desta caminhada é deambular pelo casario de Drave. Assim o fizemos, primeiro do lado de cá da Ribeira de Palhais e, atravessada a pequena ponte, depois do lado de lá. É uma atmosfera incrível, espreitar pelas portas ou janelas já idas, ou até pelos pedaços de pedra que faltam nas fachadas, e ver a montanha diante nós.

Não se pense que são meia dúzia de casas. Não, a Drave era uma povoação grande e com muitas habitações. Implantadas em pequenas plataformas adaptadas ao terreno, quase como se de socalcos se tratassem, estão construídas em xisto e com telhados em lousa e possuem anexos de apoio à agricultura, como palheiros, currais, azenhas e espigueiros. Podemos ver um espigueiro maior abaixo da Capela, um espigueiro que servia toda a comunidade, exemplo do espírito comunitário destas povoações isoladas.

Um lamento, porém. Ao deixarmo-nos perder por entre as ruinhas e casinhas, percebemos que nem toda a gente que se propõe vir até Drave compreende este legado que mais uma parceria brilhante entre Homem e Natureza nos deixou. Inúmeras casinhas escancaradas pela falta da cobertura e partes da fachada estão repletas de lixo e, sobretudo, de papel higiénico. Está bem que temos de fazer as nossas necessidades fisiológicas, mas como se explica que haja gente que se abale a caminhar esforçadamente durante algum tempo para não respeitar o lugar de destino, por sinal incrível e único? Não desejo que optem pelo depósito deste tipo de resíduos na ribeira – há alternativas – até porque depois do passeio pelo casario de Drave ainda há que mergulhar na Ribeira de Palhais.

Este é outro dos pontos altos desta caminhada. As inúmeras poças e cascatas que se vão formando ao longo do vale. O Verão não é o melhor momento para as ver na sua máxima ou média força, daí que Maio ou Junho sejam os meses mais aconselhados para quem quer caminhar e mergulhar. Não nos tocou essa pujança ribeirinha, pelo contrário, a ribeira estava bem vazia e até dava para caminhar por ela.

Ainda assim, arranjámos um poço sem ninguém e com uma água transparente bem apelativa, para além de um recanto para um piquenique.

Depois de um merecido momento de descanso e reflexão por esta dádiva, iniciámos o caminho de volta. Mais custoso, uma vez que se na vinda havíamos descido, agora haveria que subir. Nada que os momentos relaxantes e de felicidade vividos anteriormente não nos tenham preparado para encarar.

Esta caminhada foi, em conclusão, uma das mais fantásticas que tive oportunidade de percorrer. Trilho com cenas grandiosas de montanha, povoação de construção vernácula em ruína, curso de água com poços cristalinos para tomar banho, tudo reunido, faz deste o passeio perfeito.

Se quiser saber mais sobre Drave pode assistir ao filme “Uma Montanha do Tamanho do Homem”, de João Nuno Brochado, lançado em 2014 e disponível em RTP Play aqui.

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