Marvila por San Spiga

Também em Marvila, no âmbito do Festival Muro 2017, algumas fotos da arte do argentino San Spiga. Esta bem mais efémera do que as pinturas nas empenas, pelo recurso a colagem. Hoje já não se veem estas imagens por inteiro, mas aqui ficam testemunhos desta tentativa de integração da arte urbana com as vivências do bairro, mesmo se recorrendo a ícones que a uma primeira vista nos podem parecer alheios (não tanto Maradona, mas mais Evita e as Madres da Praça de Maio).

Marvila

O Festival Muro 2017 teve lugar em Marvila jáem Maio do ano passado, mas deixou as suas marcas na arte urbana que espalhou pelos seus bairros. Aproveitando que nesse ano se celebrava Lisboa, Capital Ibero-Americana de Cultura, foram convidados diversos artistas ibero-americanos que entre workshops, concertos, palestras se dedicaram ainda à pintura de empenas, enormes obras de arte a céu aberto que a cidade de Lisboa acabou por ganhar.
Sob o mote da inclusão, a arte andou – e anda – à solta nos bairros da Quinta do Marquês de Abrantes, da Quinta do Chalé e da Quinta das Salgadas.
Em Novembro de 2016 havia sido inaugurada a Bibilioteca Municipal de Marvila, a maior biblioteca municipal da cidade e uma das meninas dos olhos da vereação da cultura do município. Não é para menos. O projecto de arquitectura está muito bem conseguido, numa bela recuperação e adaptação do antigo edifício da Quinta das Fontes pelo arquitecto Hestnes Ferreira. 
Lugar de realojamentos, Marvila era ao mesmo tempo um lugar de quintas, com uma vista altaneira privilegiada para o rio Tejo. É fácil ainda hoje caminhar-se por aqui e ficarmos perdidos entre o sentido campo / cidade. As ovelhas convivem com os graffitis; o hip hop com os livros. Não têm de ser contraditórios. A noção de que a integração é necessária e desejável e de que a Biblioteca deve ser já não apenas um espaço de cultura mas sobretudo um espaço de comunidade foi o que levou a que este seja hoje um equipamento central a estes bairros, projectando o futuro, mas sem deixar de preservar as memórias do lugar.
Sugere-se, assim, que a partir do espaço da Biblioteca se parta à descoberta destes novos bairros e comunidades mais esquecidas de Marvila à boleia da arte urbana. 
Algumas fotos:
A estrela da companhia, o brasileiro Eduardo Kobra e o índio Raoni:
Outras cores:
E uma mensagem:

Padre Cruz

O Bairro Padre Cruz, na freguesia de Carnide, quase a deixar Lisboa para adentrar a ruralidade de Odivelas, é considerado pela própria Câmara Municipal de Lisboa como o maior bairro de habitação social da Península Ibérica. 
Assim designado como homenagem ao padre de mesmo nome, este bairro data dos anos 60, quando a Câmara começou a urbanizar a área para alojar os seus funcionários. No início as habitações eram precárias, com construções em lusalite, e queriam-se provisórias. O provisório tornou-se definitivo por muito tempo, apenas nos anos 70 surgiram os primeiros prédios, e os realojamentos tardaram. De tal forma que ainda no início do ano passado foi notícia a construção de mais dois novos edifícios para realojar mais algumas das famílias que ainda viviam em casas de alvenaria no bairro.
Hoje são cerca de 8000 os habitantes do Bairro Padre Cruz e já não exclusivamente funcionários da Câmara. A construção do chamado “bairro novo” nos anos 90 trouxe consigo o realojamento de muitos novos habitantes vindos de diversos bairros de Lisboa – e entre estes vieram indivíduos originários de várias zonas do país e de vários países de língua oficial portuguesa. 
Como consequência, a mistura de culturas no bairro. É aqui que o trabalho com a comunidade tem de ser decisivo, quer ao nível dos poderes públicos quer de iniciativas privadas. Existem diversas colectividades no bairro e a Paróquia de Carnide tem também um papel social importante. Ao nível dos equipamentos, decisiva foi igualmente a iniciativa de se instalar aqui infraestruturas como creches, centros culturais, bibliotecas e pavilhões desportivos, todas estas existentes no Bairro.
Mas uma das melhores formas – e também uma das mais na moda – é a que procura colocar estes bairros no mapa da cidade através da arte urbana.
O Bairro Padre Cruz foi pioneiro em receber o Festival Muro no Verão de 2016, acolhendo dezenas de artistas portugueses e estrangeiros que se propuseram mudar a cara do Bairro oferecendo um novo colorido ao amarelo desmaiado dos seus edifícios. A urbanização do bairro mostra algumas contradições. Os edifícios respiram e não vivem encafuados. Porém, registe-se as magras janelas e a ausência de varandas.
O que estas iniciativas fazem é trazer os lisboetas – e outros – a conhecer zonas da cidade que de outra forma não conheceriam. Aproximam os bairros e, sobretudo, aproximam os concidadãos. Até o Presidente Marcelo dos Afectos lá esteve, embora esse seja omnipresente. Mas disse-o bem na altura, ao afirmar que o bairro está vivo e aponta para o futuro.
No fundo, Festivais como o Muro, que enquanto ocorrem têm na sua programação intervenções, debates e diversas iniciativas artísticas que procuram envolver os moradores, deixam para sempre uma galeria a céu aberto visitável por qualquer um que o deseje. E isso faz com que os moradores se sintam, precisamente, desejados. Um sentimento de orgulho e de pertença invade os moradores destes bairros sociais ao realizarem que podem ter algo de belo, uma fachada mais bonita que a do seu vizinho até, e que isso possa ser motivo de admiração de tal forma que venha gente de fora. Que o seu bairro possa ser visitado como se visitam os monumentos do centro da capital.
Em seguida, alguns exemplos das dezenas de murais espalhados pelo Bairro Padre Cruz sob o âmbito do projecto “Criar mudança através da arte urbana”, começando por esta obra de Skran, paradigmática do objectivo de beleza, sim, mas sobretudo de integração deste projecto: velho, adolescente, criança, todos eles com futuro no Bairro.

Mosteiro de Alcobaça

Alcobaça fica a cerca de uma hora e meia de viagem de Lisboa. 
A zona oeste é marcada por diversos pontos de interesse para qualquer viajante, como Óbidos e Caldas da Rainha, São Martinho do Porto e Nazaré, Serras de Aire e Candeeiros, mas desta vez foi o Mosteiro de Alcobaça que nos levou à estrada.


Também conhecido como Abadia de Santa Maria de Alcobaça, este monumento distinguido pela Unesco como Património da Humanidade foi obra dos monges da Ordem de Cister. Lutava ainda D. Afonso Henriques pelo reconhecimento da independência do Reino de Portugal quando, em 1153, interessado numa política de expansão e povoamento, doou àquela Ordem os terrenos (e muitas mais áreas) onde está hoje implantado o Mosteiro. 

Lugar de terras férteis e de passagem de rios, entre 1178 e 1253 os monges de Cister viriam a construir uma obra monumental em todos os aspectos. 

Arquitectonicamente, o Mosteiro é considerado o maior exemplo do gótico no nosso país. Esteticamente parece-se uma igreja-fortaleza. A sua igreja é a maior de Portugal. As abadias e os monges cistercienses prezavam a sua auto-suficiência, dai que empreendessem esforços no sentido do melhor conhecimento e administração dos terrenos onde estavam implantados. Em Alcobaça, por exemplo, é notável a utilização pelo Mosteiro do rio Alcoa, demonstrando toda a excelência por parte dos monges na criação de um sistema hidráulico único. Os monges tiravam frutos, ainda, dos seus campos, pomares e estábulos. No que respeita à cultura, registe-se que foi aqui que em 1269 se leccionaram as primeiras aulas públicas em Portugal, no caso de Gramática, Lógica e Teologia.

Em tempos recentes a zona envolvente ao Mosteiro foi objecto de uma obra de requalificação por parte do arquitecto Goncalo Byrne que lhe confere hoje uma amplidão à sua medida, livre de elementos, como veículos automóveis, que perturbem a sua leitura.


A fachada do Mosteiro de Alcobaça apresenta-se-nos com vários estilos: românico, barroco e gótico. Daquela que foi a fachada original restam o portal gótico e a rosácea. No século XVIII foi remodelada ao estilo barroco tendo sido acrescentados os dois campanários. 


Logo à entrada percebemos o título de maior igreja de Portugal: o interior estende-se ao longo da enorme nave central – enorme em comprimento e em altura – seguindo-se duas naves laterais, todas elas abobadadas. A magnificência é evidente mas ao mesmo tempo este é um monumento despojado, seguindo os preceitos de sobriedade e austeridade da Ordem fundada por São Bernardo. Os elementos decorativos ou são inexistentes ou são muito simples, de que é exemplo o recurso à opção de decoração dos capitéis com motivos vegetalistas. 



A iluminação da igreja é proporcionada na sua maior parte pela luz natural que entra pela rosácea na fachada. Existem, ainda, outras rosáceas mais pequenas e algumas frestas altas e janelões ao longo do espaço que contribuem também para a luz natural do seu interior.


Esta austeridade é quebrada de forma grandiosa com os Túmulos de D. Inês de Castro e de D. Pedro I, cada um deles numa das naves laterais, um espreitando o outro, enfim juntos na eternidade, eles que foram personagens de uma das maiores histórias de amor da nossa História. Estes dois túmulos são considerados os melhores exemplares escultóricos da tumulária medieval portuguesa. Verdadeiras obras-primas. Um hino à perfeição. 



Na cabeceira do túmulo de D. Pedro, por exemplo, pode observar-se uma imagem tantas vezes difundida do nosso país, a rosácea representando a Roda da Vida e a Roda da Fortuna. 



Já no túmulo de D. Inês são as cenas da Paixão de Cristo e do Juízo Final que ganham maior relevo e nos fazem admirar a excelência do trabalho efectuado.


Visitados estes túmulos, poder-se-ia pensar que a sala do Panteão Real, ali mesmo ao lado onde repousa D. Pedro I, onde são apresentados outros túmulos, não merece uma visita. Nada mais errado. Estes são bem mais modestos, mas ainda assim obras escultóricas cativantes. 


De caminho, uma olhada à capela barroca de São Bernardo com um conjunto de imagens em terracota representando a sua morte. 



Outra ruptura à austeridade original do fundador de Cister encontramos na porta da sacristia, num inconfundível estilo manuelino. Para lá da sacristia – fechada – fica a também nada austera capela-relicário, repleta de talha dourada (que não tive oportunidade de conhecer).  

Visitada a igreja, é agora altura de seguirmos para o lado esquerdo do Mosteiro, que dará acesso ao claustro. Antes, porém, passamos pela Sala dos Reis, quase toda revestida a azulejo, com estátuas dos reis elaboradas pelos monges e com uma representação de D. Afonso Henriques a ser coroado por São Bernardo e pelo Papa.





O Claustro de D. Dinis ou do Silêncio, do século XIV,  era a área central do Mosteiro que dava acesso a todas as dependências e para onde estas confluíam. Os monges circulavam por aqui em silêncio e este era um espaço de leitura e meditação. Este claustro é todo ele abobadado e os seus arcos formam voltas perfeitas. 


No pátio umas laranjeiras trazem cor e sorrisos e a austeridade fica em causa. Um olhar para o piso superior faz-nos avistar umas gárgulas e as certezas de que essa tal de austeridade já era tornam-se cada vez mais fortes. 





A Sala do Capítulo é magnífica, plena de abobadas, colunas e capitéis, devendo também mostrar-se atenção ao chão.



No piso superior o dormitório dos monges (ou Claustro dos Noviços) deslumbra pela sua amplidão e, mais uma vez, pela sequência de abobadas. Nas suas traseiras fica o Claustro da Levada, construção do século XVI na sequência de uma remodelação do Mosteiro.


Mas são a Cozinha e o Refeitório as divisões onde os nossos sentidos são definitivamente conquistados. E nem é necessário que se cozinhe já lá qualquer iguaria ou doce conventual. 


Destaque imediato para as enormes chaminés da cozinha, onde diz a cultura popular que aqui se podiam assar bois inteiros. 





Vêem-se ainda os tanques e as levadas por onde vão passando as águas do Rio Alcoa. Recorrendo uma vez mais à sabedoria popular, ficamos a saber que os monges aqui pescavam. Mas nesta cozinha fica evidente toda a excelência no aproveitamento do sistema hidráulico por parte dos monges de Cister. Neste ambiente monumental ouve-se ainda o correr da água pelas levadas, dando uma carga mais profunda e mística a este espaço.



Ali ao lado fica o não menos monumental Refeitório. Em estilo gótico manuelino, tem cerca de 620 metros quadrados, tão amplo tão amplo, onde apenas umas frestas e rosácea deixam entrar uma luz natural escassa (acompanhada de uma luz artificial e sombria vinda de uns capitéis), sendo fácil imaginar o ambiente misterioso em que os monges faziam as suas refeições.


Cá fora destaque ainda para um mimoso Lavabo, com o elemento harmonioso da água a marcar mais uma vez presença.


Finda a visita ao Mosteiro, vale a pena percorrer a curta promenade à beira do Rio Alcoa e admirar alguma da cerâmica local ali em exposição pública.

Mais adiante os rios Alcoa e Baça juntam-se. A tradição popular, sempre ela, diz-nos que dois apaixonados viram o seu amor contrariado em vida e só depois de mortos puderam unir-se para a eternidade, como o rio que aqui se junta.

Ainda, dois palacetes impossíveis de perder e de admirar em Alcobaça: 


o Palacete Gafa, edifício oitocentista de influência brasileira onde está hoje instalada a Câmara Municipal; 


e o Palacete Casa da Família Rino, do século XIX, actualmente um jardim infantil.

Fim de Semana na Serra da Estrela

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Perdi a conta às vezes que terei ido até à Serra da Estrela, mas pouco mais guardo na memória do que o ambiente de feira ambulante da Torre.

Em tempos idos as caminhadas não estavam na moda e o passeio até ao ponto mais alto de Portugal continental servia para ir ver a neve e eles – o ponto mais alto e a neve – até estavam ali perto, a uma relativamente curta distância da terra da avó, Aldeia das Dez. Hoje a distância parece ainda menor, será menos de 1 hora de carro desde Aldeia, menos de 3 horas de carro desde Lisboa.

E os atrativos para se visitar o Parque Natural da Serra da Estrela, a maior área protegida de Portugal, não estão só no Inverno, deixando-nos a sonhar com as cores do Outono, a vida a raiar na Primavera, os banhos nos seus rios no Verão.
Ainda assim, foi neste Inverno que lá voltámos.

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Da Covilhã até às Penhas da Saúde são meros 10 km de subida onde se vai ganhando uma vista cada vez maior. O tempo nublado que se fazia sentir não deixou apreciar a paisagem fantástica que se nos oferece durante todo o caminho e em diversos miradouros.

Passamos pelo antigo sanatório da autoria do arquitecto Cottinelli Telmo, construído nas décadas 20-30 do século passado a 950 de altitude para aproveitar os bons ares da Serra no tratamento dos doentes. Hoje este edifício está finalmente restaurado e desde 2014 é a Pousada da Serra da Estrela, após projecto do arquitecto Souto Moura.

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A Pedra do Urso fica logo a seguir e um pouco antes de se chegar às Penhas da Saúde. Não haverá para aqui ursos de verdade, pelo que não há que temer por ataques, antes largar um imenso sorriso de felicidade por este elemento simbólico que a natureza moldou e nos deixou.

As Penhas da Saúde é uma povoação com alojamento e restaurantes, certamente a mais alta de Portugal, instalada a 1500 metros de altitude. É famoso o seu hotel, assim como famosas são as iguarias que por aqui se podem provar, com o queijo Serra da Estrela à cabeça, sim, mas também enchidos e a carne de javali e o arroz de zimbro – o restaurante Varanda da Estrela é uma boa opção.

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A Torre e a estância de ski ficam aqui perto. Os nevões que de quando em vez caem costumam, porém, deixá-las muito longe. À falta de veículos de tracção total ou de correntes de neve, há que nos entretermos com os caminhos vizinhos.

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E foi isso que fizemos no sábado – dia de vento e nevão – e no domingo de manhã – dia de céu incrivelmente azul e terreno branco -, até que o acesso ao topo de Portugal fosse finalmente aberto.

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A estrada das Penhas da Saúde até Manteigas (cerca de 17 kms) é belíssima.
Passamos pelo Lago Viriato, cuja água abastece a Covilhã, por estradas com as árvores tão próximas que podemos sentir os flocos de neve a cair das suas copas, pelo desvio que em dias de clima menos severo nos leva até à Cascata Poço do Inferno e pelo imenso Vale Glaciar do Zêzere.

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Na Serra da Estrela nascem o Zêzere e o Mondego, dois dos maiores rios que correm por inteiro no nosso país. O Vale Glaciar do Zêzere é magnífico na sua forma em U, cerca de 13 km de comprimento desde a sua nascente até Manteigas. Esta forma característica deve-se à erosão do glaciar que levou à constituição deste vale, crê-se que há 19 000 anos, sendo estas as evidências glaciares mais a sul na Europa.

É aqui no vale que encontramos o Covão d’ Ametade, logo a seguir a uma curta descida da vista totalmente aberta para o vale glaciar. E é precisamente no Covão d’ Ametade que o Zêzere se vai formando e iniciando o seu rumo de mais de 200 km até desaguar no Tejo, em Constância. O Covão d’ Ametade é uma área deprimida e mal drenada onde se acumularam sedimentos que deram origem à vegetação que o circunda. Típico de áreas de montanha de origem glaciar, nestas figuras geológicas encontramos normalmente pequenos lagos nos vales.

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Este é um lugar surpreendente e certamente lindíssimo em qualquer época do ano. Calhou-nos um cenário que poucos imaginariam ser português, um estreito curso de água acompanhado por árvores e montanhas – os Cântaros – nevadas quase por completo, uma imagem invernosa mais habitual no centro da Europa. Em forma de anfiteatro, com uma zona de lazer que inclui mesas para piquenique e até assadores, este é um lugar plácido. À sua volta rompem majestosos o Cântaro Magro, o Cântaro Raso e o Cântaro Gordo.

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À medida que vamos descendo para Manteigas, sempre com o vale glaciar por companhia, a neve vai ficando menos presente e o verde sobressai no terreno. A floresta está aqui mais presente do que em qualquer outro ponto da Serra.

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Um vislumbre de água e rochas leva-nos a estacionar o carro à beira da estrada e descer para inspeccionar. A água é absolutamente transparente, só não convidando a um mergulho pela temperatura do ar abaixo de zero que se fazia sentir. É certo que temos que cá voltar para umas quantas caminhadas e banhocas quando o clima o permitir.

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Manteigas é uma vila sossegada com o enquadramento natural como o seu encanto maior.

Como a estrada de Manteigas para o Sabugueiro, com passagem pela albufeira de Vale Rossim, estava encerrada devido ao gelo, repetimos com agrado o caminho em direcção à Torre, agora em versão subida.

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A aproximação à Torre traz consigo uma série de miradouros soberbos, ou não estivéssemos nos mais altos poisos de Portugal. O trânsito por vezes tem pontos positivos e neste caso foi deixar-nos parados mesmo junto ao formoso Cântaro Magro, desta vez em versão granito nevado.

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Um pouco antes fica o miradouro Nossa Senhora da Boa Estrela. Pleno de rochas com formas diferentes e até irreais, numa delas encontramos esculpida a padroeira dos pastores.

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E eis que chegamos à Torre.
Estamos precisamente a 1993 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal continental. Diz-se que daqui se pode observar metade do território português e parte do espanhol.
Foi D. João VI que no século XIX mandou construir uma torre para que pudéssemos dizer que o lugar alcançava os 2000 metros. Entretanto foram ainda construídas duas estruturas – os radares abobadados de cabeça amarela – que são hoje uma das imagens de marca da Serra da Estrela.
Isso e o centro comercial mais alto do país, onde cada espécie de loja vende exactamente os mesmos produtos da sua vizinha. Queijo, presunto, pão regueifa, roupa. Tudo produtos da região.

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Da Torre saem umas pistas da Estância de Ski da Serra da Estrela (entrada cá em baixo), a única no país. Pequeninas, quer a estância quer as pistas, mas ainda assim razoáveis para matar o bicho em terra lusa aos aficionados.

Dizendo adeus à Torre, ainda antes que a luz dos diminutos dias de Inverno se fosse, houve tempo para descer a Serra pelo lado de outra das suas mais importantes povoações: Seia. Tudo ao redor estava nevado, cortesia do forte nevão da véspera, e as cores do fim do dia não eram perturbadas nem pelas nuvens quase à nossa altura.

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É neste caminho que encontramos a Lagoa Comprida, umas das 25 lagoas do Parque e, provavelmente, a mais famosa. A 1580 metros de altitude, este é um glaciar tornado barragem. A sua estrutura em granito é poderosa. Podemos, e devemos, subi-la para apreciar o espelho de água onde se avista ao longe no cimo de uma elevação uma casinha branca. Este pequeno monte faz lembrar as cavacas, doce típico de algumas regiões, em particular de Aldeia das Dez, não muito distante daqui.

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Mais lagoas se seguem até entrarmos no Sabugueiro, conhecida como a aldeia mais alta de Portugal, instalada a 1050 metros de altitude (este título não será, porém, correcto, uma vez que em Montalegre existem aldeias a maior altitude). Esta aldeia já no concelho de Seia é uma das portas de entrada no coração da Serra da Estrela, mas confesso que não lhe acho grande piada pelo ar de feira das suas lojas e mais lojas. Mas esta é também a vertente da Serra mais agrícola e virada para a pastorícia, lugar por excelência da feitura do Queijo da Serra.
Muito ficou a faltar conhecer, não fosse este o maior Parque Natural do país.
Mais planos para o futuro, portanto: percorrer a estrada que segue pelas Penhas Douradas, dita por um local como o pedaço mais bonito da Serra, e aquela que nos leva a Loriga, zona de vales rodeados de montanhas.

A montanha, sempre ela.

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Terceiro dia pelo Alentejo Central

“Ó minha terra na planície rasa
Branca de sol e cal e de luar
Minha terra que nunca viste o mar”

Minha Terra – Florbela Espanca


O amanhecer do terceiro dia pelo Alentejo Central deu-se no tranquilo e bem restaurado Solar dos Mascarenhas, em Vila Viçosa. 

Vila Viçosa deve o seu nome à fertilidade das suas terras, não apenas em termos agrícolas, mas também ao mármore que dai brota.



Terra de Florbela Espanca e Henrique Pousão, esta vila graciosa teima em recordar estes dois artistas superiores um pouco por cada canto, seja em placas anunciando “aqui viveu” seja em estátuas na praça central.








São muitas as igrejas e conventos de Vila Viçosa, mas ela é feita sobretudo de ruas estreitas com casario imaculadamente branco, onde as características listas alentejanas estão igualmente presentes. O amarelo domina, mas o azul também faz questão de aparecer.





Os pormenores pitorescos são inúmeros e alguns edifícios possuem fachadas mais ricas, recordando a nobreza que se estabeleceu ao redor do Paço Ducal.




As laranjas de Dezembro são, porém, as rainhas na decoração da vila. Estão por todo o lado, mas é na Praça da República e pela sua Avenida Bento de Jesus Caraça que realizamos que Vila Viçosa é um laranjal.




Esta sua praça principal é melhor compreendida desde as muralhas do castelo. 
Foi com a construção de um ermitério por parte dos monges Agostinhos e posterior construção do castelo, no século XIII, no reinado de D. Dinis, que Vila Viçosa deixou de ser um lugar dependente de Estremoz. 


O castelo, lugar intra-muralhas de umas poucas casas e da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (fundada por D. Nuno Álvares Pereira, outra das figuras maiores da vila – casou a sua filha com o rei D. João I -, e onde encontramos a imagem da padroeira de Portugal), foi residência dos Bragança, a família nobre mais importante do reino – “depois de vós, nós” -, que viria ela própria a reinar séculos mais tarde, até à inauguração do Palácio Ducal.

Este evento foi decisivo na vida da Vila.

Em 1501 foi dado início à construção do Paço Ducal, cuja obra continuou por mais de um século até ser concluída, e a fixação da Casa dos Duques de Bragança acabou por criar uma nova urbe, com a consequente construção de igrejas e conventos e muita animação e presença de figuras ilustres à volta da família ducal.
Foi D. Jaime, o quarto duque de Bragança, o grande impulsionador do Paço, mas viria a ser o oitavo duque desta casa aquele que ganharia maior projecção na história de Portugal quando a 3 de dezembro de 1649 daqui saiu para ser aclamado rei em Lisboa e fundar a quarta dinastia portuguesa. 

D. João IV e seu cavalo está hoje imortalizado em estátua no centro do imenso Terreiro do Paço de Vila Viçosa. Assim como imensa é a fachada tardo-renascentista do Palácio Ducal, a maior da arquitectura civil portuguesa. São 110 metros de comprimento de mármore preto e branco da região, uma frontaria em estilo italiano que respira elegância e delicadeza em cada centímetro. 



A visita ao Palácio é obrigatória. Por mais palácios que estejamos habituados a visitar, em Portugal ou no estrangeiro, este Palácio não deixa de nos surpreender pela beleza dos seus tectos, frescos, mobiliário, tapeçarias e pinturas. A escadaria que parece suspensa é encantadora. A capela é magnífica. E a cozinha, então, é um deslumbre de cor pelos mais de 600 utensílios em cobre da sua colecção.


Do Paço Ducal de Vila Viçosa saiu, em 1 de Fevereiro de 1908, o rei D. Carlos para morrer no Terreiro do Paço de Lisboa. O regicídio viria a trazer, dois anos mais tarde, o fim da monarquia e subsequente implantação da República. O Palácio Ducal de Vila Viçosa entraria então num período de ocaso até reabrir as suas portas nos anos 40, já propriedade da Fundação Casa de Bragança. 




Se entrarmos pela porta principal do Palácio no início da visita, esta terminará após uma delicada passagem pelo claustro e por alguns dos seus jardins que nos fará sair pela curiosa Porta dos Nós. Do outro lado da estrada fica a Tapada Real, a qual se estende para lá dos limites do concelho de Vila Viçosa. 

Voltando ao Terreiro do Paço, outros dois edifícios merecem aqui destaque. 


Um, o barroco Convento e Igreja dos Agostinhos, panteão dos duques de Bragança. 



Outro, o Convento e Igreja das Chagas, construído para ser panteão das duquesas de Bragança que acabou por ser ocupado pelas clarissas de Beja e hoje é a Pousada D. João IV. O claustro deste convento é imperdível e transmite uma tranquilidade imensa. 

Deixada Vila Viçosa seguimos para Redondo, com passagem pela bonita Bencatel, uma das freguesias da primeira destas terras conhecida pela extracção de mármore e agricultura. 

Redondo estende-se hoje no sopé de uma rocha onde se ergue a Torre de Menagem e restos da muralha. É aqui que podemos conhecer a Porta da Ravessa, nome que nos faz recordar ser esta uma das principais regiões vitivinícolas, e a curiosa entrada principal no castelo com relógio de sol, na chamada Porta do Postigo. 





De Redondo até Estremoz todo um novo mundo se nos apresenta. A monotonia da planície alentejana que nos habituámos a ter por companhia nestes três dias dá lugar de forma abrupta à ondulação da Serra de Ossa


Pela estrada vamos rodando com o carro por subidas e curvas, uma novidade. O seu ponto mais alto fica a 653 de altitude, mas toda a paisagem da Serra foi ideal para refúgio dos muitos monges eremitas que por aqui passaram ao longo de quase o último milénio. Construíram inúmeras grutas, antas e mosteiros, mas o Convento de São Paulo, do século XV, é destaque absoluto por estas paragens. D. Sebastião passou por aqui antes de morrer em Alcácer Quibir e Catarina de Bragança veio para aqui depois de enviuvar de Carlos II de Inglaterra. Hoje um hotel, abriga uma das maiores e melhores colecções de painéis de azulejo.


A Serra de Ossa é, pois, um lugar sagrado. Mas é o verde e as suas muitas espécies arbóreas (sobreiros, azinhos, pinheiros, oliveiras, laranjeiras e medronheiros) que fazem dela o pulmão da região.  

A majestática Torre de Menagem de Estremoz, no cimo de um outeiro, é o grande destaque na planície à medida que nos aproximamos da nossa última paragem. Iniciamos, porém, a visita a esta histórica vila branca e do mármore pela zona baixa por onde se estendeu esta urbe medieval. 


O Rossio de São João é monumental na sua dimensão. Pena que sirva de parque de estacionamento. À sua volta foram surgindo casas nobres e monásticas. 



Alguns exemplos, o Convento das Maltesas, antigo hospital, com a sua fachada com frontão manuelino, Escudo Real encimado pela Cruz de Malta e pela Cruz de Cristo e duas esferas armilares a ladearem-no. Tudo isto esculpido em mármore.


O Convento dos Congregados


E o antigo convento e Igreja de São Francisco


O Café Águias d’ Ouro, construção de 1909, é um elemento que rompe com o equilíbrio de todos estes edifícios anteriores. Com fachada com azulejos arroxeados, cinco varandins e duas janelas geminadas, esta é uma fantasiosa e imaginativa criação do seu original proprietário, com inspiração na Arte Nova.


Ainda no centro, um pequeno lago com a alcáçova lá em cima como protectora possui uma escultura no centro a simbolizar Saturno, o deus romano das colheitas. Mas este é popularmente conhecido como Gadanha devido à alfaia que traz na mão direita e que, diz-se, tanto simboliza o acto da colheita como a morte ceifando a vida. 

O restaurante e mercearia Gadanha é uma boa opção para almoçar, numa interpretação contemporânea da cozinha regional.



Subimos, então, até à cidade amuralhada de Estremoz. E apreciamos de perto, enfim, a elegância dos 27 metros da Torre de Menagem, toda em mármore. No seu terraço estão esculpidas as três coroas dos reinados que viram a sua construção: os de D. Afonso III, D. Dinis e D. Afonso IV. No entanto, devido ao mau tempo que se fazia sentir, foi impossível a subida ao seu topo, com entrada pela Pousada Rainha Santa Isabel. 




Mas do Terreiro onde está implantada a Torre, a vista para a vasta planície alentejana faz do local um miradouro fantástico, com a Rainha Santa Isabel como guardiã. D. Dinis passava por aqui amiúde e a Rainha Santa aqui acabou por falecer.




Dentro das muralhas desta fortaleza encontramos ainda a Casa da Câmara ou da Audiência e a Igreja de Santa Maria, bem como várias portas e janelas manuelinas. 

O Museu Municipal de Estremoz também fica no bairro do castelo. Aqui se apresenta a reconstituição de divisões das casas alentejanas, como quartos e cozinhas, com mobiliário e utensílios regionais, com destaque para um oratório que seduziu até José Saramago. 


Mas é a colecção dos tradicionais bonecos de barro de Estremoz o ex-libris deste espaço museológico. Recentemente distinguidos pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade, esta colecção foi reunida por Júlio Reis Pereira, tendo sido adquirida pelo município. Estes bonecos, com mais de trezentos anos de história, sempre mantendo as mesmas técnicas artesanais, representam cenas do quotidiano, presépios, procissões, o que calhar. A oficina Ginja, na rua à frente da entrada do castelo, é uma das que ainda se dedica a esta arte popular


Para terminar este périplo pelo Alentejo Central, uma informação acerca do nome Estremoz: diz a lenda que no outeiro onde hoje encontramos a Torre de Menagem existiu em tempos um tremoceiro onde se abrigavam famílias expulsas de Castelo Branco por delitos graves. “Não tendo encontrado mais do que sol, lua, estrelas e a sombra de um tremoceiro” decidiram, então, que a terra se chamasse Estremoços. D. Afonso III aceitou e concedeu-lhe foral em 1258, tendo o brasão de Estremoz acolhido estes três elementos: o tremoceiro, o sol e a lua.

Segundo dia pelo Alentejo Central


O segundo dia deste passeio pelo Alentejo Central começou com uma curta visita por Reguengos. A sua igreja de Santo António destaca-se, imediatamente, pelo seu estilo neo-gótico, mas sobretudo por ser um estilo pouco comum de se encontrar no nosso país. O edifício da Câmara Municipal, branco com frisos em azul, e uma arcaria mimosa, já é mais fácil de identificar com a paisagem urbana alentejana.



De Reguengos saímos com destino à Amieira, ainda em terras do Alqueva. Nesta época do ano não nos cruzamos com praticamente ninguém nas estradas. A chegada ao Miradouro do Monte, uns poucos quilómetros antes da entrada na povoação da Amieira, mostra-nos algum descuido, ou até descaso, na conservação das infraestruturas – as madeiras das plataformas de observação estavam partidas. No resto, a vista para o lago é fantástica. 



A uns minutos da povoação da Amieira fica a Marina da Amieira, donde saem os cruzeiros turísticos pelo Alqueva. A paisagem continua em alta, mas aqui o cuidado é outro, mais em conformidade com ela.



De volta a Reguengos, esta é uma zona com algumas quintas – os montes alentejanos – e com cenas rurais.




As povoações de São Marcos do Campo e Campinho valem uma visita. Curioso observar que para além das obrigatórias igreja e jardim público de qualquer povoação portuguesa, por aqui há que lhes juntar a praça de touros. Seja singela ou mais imponente, ela não pode faltar numa terra alentejana. E curioso, também, recordar costumes que julgava pertencerem apenas a memórias distantes de aldeia, como observar em Campinho aquelas carrinhas tipo Hiace cuja porta traseira deixa ver para dentro uma autêntica loja, cheia de roupa e tecidos que chegam às populações mais remotas em venda directa.



A próxima passagem foi num dos principais centros oleiros do país, em São Pedro do Corval. São 32 olarias oficialmente reconhecidas, uma delícia para quem gosta desta arte. 


Aqui perto fica a Rocha dos Namorados, um menir no meio de campos de oliveiras que, diz-se, é capaz de medir o número de anos que cada um terá de casamento.




Do Corval a Terena é uma bonita jornada por uma estrada que faz jus ao dito “é sempre em frente, não tem nada que enganar”. A paisagem continua pontuada com campos cultivados de oliveiras, com as cores do Outono majestosas.


Terena é uma das mais bonitas povoações da região. Com castelo que se destaca na paisagem desde longe, o burgo que se foi desenvolvendo à sua porta é extremamente pitoresco. 





Lá estão as casas brancas com listas azuis e amarelas à vez. Para compor o cenário multimedia, de uma delas saiam de um rádio (gosto de pensar que talvez de um gira-discos) os versos de Florbela Espanca cantados na voz de Luís Represas, “E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma, e sangue, e vida em mim. E dizê-lo cantando a toda a gente!”. Que exactidão e que emoção poder ouvir e ser tomada por este sentimento precisamente aqui.





Do castelo, para além da vista privilegiada para o casario temos igualmente uma vista soberba, livre e imensa para a planície pejada de oliveiras.


Terena é ainda conhecida e reconhecida por ser o lugar da Ermida da Boa Nova, já fora da povoação. O seu exterior parece uma fortaleza apalaçada. Possui ameias, escudo de Portugal e uma torre sineira. O interior é igualmente surpreendente, quase todo preenchido com frescos ainda bem conservados.  Elemento peculiar e singular desta Ermida é a sua cobertura em forma de cruz grega – aspecto só visível através de fotografias aéreas -, único no nosso país. 

A história da construção desta Ermida vale a pena ser contada. Em 1340 o imperador de Marrocos invadiu a Península Ibérica para a reconquistar. D. Maria, filha de D. Afonso IV, era casada com Afonso XI, rei de Castela, e tinha vindo a Portugal pedir por socorro ao rei seu pai. Quando chegou perto de Terena, de regresso a Castela, recebeu a notícia por parte de um cavaleiro de que seu pai iria preparar um exército em auxílio às suas preces. O marroquino acabou por ser derrotado, naquela que ficou conhecida como a Batalha do Salado, e D. Maria resolveu mandar construir esta igreja, dando-lhe o nome “Boa Nova” como homenagem à notícia que lhe foi trazida precisamente naquele lugar.
Junto a esta ermida fica o Vale Sagrado de Lucefecit (do deus pré-romano Endovélico) e, no sentido contrário, a Albufeira de mesmo nome.

A hora de almoço coincidiu com à chegada ao Alandroal. O restaurante típico A Maria é uma escolha óbvia. Não se espere simpatia em demasia, insista-se na auto escolha dos pratos e invista-se nas entradas.




Alandroal possui… adivinhe-se? um castelo. E umas muralhas. E uma torre de menagem que hoje está transformada em torre sineira. E uma fonte (das Bicas): “Linda cidade de Elvas, Tem Badajoz defronte, Mais bonito é Landroal, Que tem seis bicas na fonte”. Tem ainda umas casas distintas com adornos em azulejo que faz pensar o Alandroal como uma povoação com alguma importância.


Não é preciso ser apaixonado de castelos e fortalezas para compensar um desvio até à Juromenha. Mesmo na fronteira com Espanha, com o Guadiana a separar os dois países, Juromenha é também conhecida como Nossa Senhora do Loreto. A sentinela do Guadiana foi uma antiga vila e praça-forte dos árabes. Era a então Chelmena. Foi conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques e posteriormente doada à Ordem de Avis. A sua localização é privilegiada quer em termos estratégicos quer paisagísticos. Aqui se viveram episódios históricos na época das guerras da Restauração e Peninsular e aqui se celebraram casamentos reais. No princípio do século XX a sua população abandonou definitivamente o interior das muralhas, estabelecendo-se no arrabalde que constitui hoje a povoação. 






A Fortaleza da Juromenha é, pois, nos nosso dias um lugar abandonado. Desolado, até. Mas, depois, temos aquelas ruínas e aquela paisagem fenomenal que, em conjunto, fazem do espaço um pedaço encantado e misterioso, soberbo, enfim. 
Lugar de contrastes, no meio da imponência militar de outrora, mas ainda sentida, com o rio a correr sereno por debaixo dos seus baluartes, um rebanho passeia-se junto às muralhas, fazendo ecoar os seus “mé, mé” naquela imensa paisagem.


Depois da Juromenha queria passar por Vila Boim, mas evitar Elvas. Segui por Ciladas de São Romão e foi mais ou menos isso, uma cilada por estradas que se transformaram em caminhos rurais. Nada a apontar à paisagem, mas o resultado de caminhos que afinal pareceram não ter saída foi a obrigatoriedade de passar por Elvas. Oportunidade óptima para rever o seu sempre majestoso aqueduto.
Vila Boim é uma típica povoação alentejana, casario branco pontuado com cores várias, jardim público, igreja e praça de touros.

Para o final do dia ficou a visita a Borba.






Terra de mármore, vinhas e olivais, o burgo é interessante. Com alguns solares e palacetes, um pequeno núcleo muralhado com castelo, merecem uma visita mais atenta a Igreja das Servas e o Chafariz de Três Bicas (em mármore, diz a lenda que as três bicas correspondem cada uma a um dos estados civis: casados, solteiros e viúvos). 


A pernoita foi na vizinha Vila Viçosa, a uma curta distância por uma estrada que deixa ver a céu aberto as pedreiras donde se extrai o mármore que dá fama à região. Ainda farta do almoço, a escolha do breve jantar não pôde senão recair no Núcleo Sportinguista de Vila Viçosa, engalanado pela nossa vitória no Bessa. Final de dia perfeito.