Parque Ecológico do Gameiro

Na freguesia de Cabeção, em Mora, junto ao seu Fluviário, fica um dos lugares mais recolhidos e tranquilos para se fazer uma caminhada fácil e acessível para toda a família. E caso nem todos os membros da família queiram ou possam caminhar por cerca de 2 horas podem sempre aguardar os demais descansando no areal da praia fluvial do Gameiro, mergulhando nas águas da ribeira de Raia ou desfrutando de uma das várias infra-estruturas do Parque Ecológico do Gameiro.

No verão passado experimentámos a relaxante água da ribeira e escondemos-nos do sol debaixo de uma das idílicas sombrinhas mesmo à sua beira. O sol forte do Alentejo não era então propício a esta caminhada de cerca de 5,5 quilómetros (mais 1 quilómetro com desvio até à torre de observação) pela zona ribeirinha e pela zona do montado do Gameiro. Voltámos agora e, mesmo sem novo mergulho, o passeio encheu-nos as medidas.

O Parque Ecológico do Gameiro foi inaugurado em 2012 e, Fluviário de Mora à parte, a sua grande atracção são os 1,5 quilómetros de passadiços de madeira ao longo da ribeira de Raia. No entanto, podemos continuar por mais um bom bocado junto ao rio, ora envolvidos pelo bosque ripícola ora a céu aberto, antes de empreendermos o caminho de volta mas dessa vez pela zona do montado. Chamam-lhe “Percurso da Natureza” e é disso mesmo que se trata, de um ambiente absolutamente natural onde a acção do Homem é discreta e consegue acrescentar ainda mais beleza ao lugar.

Começámos, então, este nosso passeio por uma jogatana de pingue-pongue com os pés descalços na areia, imaginado que melhor só mesmo tê-los de molho na ribeira. As águas estavam barrentas, mas os reflexos da vegetação na Raia estavam, ainda assim, absurdamente incríveis.

O percurso pelos passadiços é um prazer delicioso, um daqueles em que o mínimo de esforço nos oferece um retorno máximo. A paisagem é serena, com a água e a vegetação numa parceria de sucesso. Pelo caminho vamos encontrando painéis informativos com indicação dos peixes (barbo-comum, perca sol, boga, bordalo) e das aves (garça-branca, garça-real, corvo-marinho, corvo-real, guarda-rios) autóctones, mas também da flora (sobretudo salgueiros e choupos, mas também pinheiros).

O açude do Gameiro vai ficando para trás, mas as cores e os reflexos mantém-se grandes.

A dado momento podemos desviar até à torre de observação, cerca de 400 metros para cada lado, numa das duas únicas subidas dignas desse nome de todo o percurso. Mas vale a pena pelo panorama diferente, altaneiro e por isso mais abrangente, da paisagem alentejana quase a perder de vista.

Há quem não aprecie passadiços, por os considerar intrusivos do meio ambiente natural, mas estes parecem muitíssimo bem integrados, corredores longos que não perturbam a natureza nem nos distraem do essencial.

No final dos passadiços continuamos o caminho por um trilho junto ao rio, desta vez por um curto bosque que nos vai dando umas abertas para as águas castanhas da Raia onde até uns cactos de tamanho generoso têm lugar.

A paisagem abre-se por altura do que é considerada a Pista de Pesca, vêem-se efectivamente uma série de pescadores, e uns metros adiante abandonamos as margens da ribeira para subir (a segunda e última do percurso) em direcção à zona do montado.

A paisagem não é menos bonita. E é sobretudo típica. Estamos verdadeiramente no Alentejo e aqui sentimo-lo bem. O montado é um ecossistema florestal que permite a coexistência de áreas de cultivo e pastoreio juntamente com a preservação dos habitats. Este é um montado de sobro e de azinho, sendo o sobreiro e a azinheira espécies de carvalhos. A cortiça do sobreiro é um símbolo de Portugal e a madeira rija e resistente da azinheira é muito procurada para diversas construções, desde vigas a embarcações ou até barris para envelhecimento de vinhos. Ambas dão como fruto a bolota, servindo esta de alimento para o porco de montanheira, também conhecido como porco preto alentejano – não encontramos porcos mas vimos muito gado bovino. Para além disso, estes montados são dos habitats mais ricos em biodiversidade, acolhendo centenas de espécies de aves que aqui vêm para nidificar.

E, claro, não nos livramos dos clichés pelo que temos de rematar dizendo que descansar à sombra de um chaparro é uma actividade a não perder. Alentejo puro.

Trilho no wikiloc

Seixal

O reclame “Seixal, uma baía no coração do Tejo” não é propaganda. Por mais voltas que se dê, a grande atracção da região é a baía e é ela que sempre levaremos na memória numa visita ao Seixal.

A sua marginal ribeirinha é enorme, cerca de 14 kms de pura paisagem. Este conjunto de braços de mar fica em pleno Estuário do Tejo, um lugar que abriga diversos ecossistemas e rico em biodiversidade e, para nós leigos, sobretudo precioso pela sua beleza natural paisagística.

As comunidades que ao longo dos tempos se foram estabelecendo no Seixal tiveram desde sempre uma forte ligação com o rio e, se em tempos idos dependiam dele para a sua sobrevivência, hoje parecem depender dele para o seu lazer. Desde os passeios de barco pelo rio (em embarcações típicas que outrora faziam o transporte de mercadorias entre as margens do Tejo) a actividades náuticas de recreio várias, a azáfama junto ao rio continua.

O topónimo “seixal” derivará da grande quantidade de seixos que aqui existia, os quais terão servido na construção das embarcações. A ocupação humana do lugar data pelo menos da época romana, como o atestam os sítios arqueológicos da Olaria Romana da Quinta do Rouxinol, em Corroios, e da Quinta de São João, na Arrentela. Sempre ligada ao mar, era então uma terra de pescadores e rural, produtora de cereais, vinho e fruta, para além do peixe. Com os Descobrimentos a sua bela localização geográfica tornou-se ainda mais estratégica, um lugar favorável ao transporte fluvial donde se escoavam os produtos para a capital e daí para qualquer outro lado. A indústria naval proliferou, o aproveitamento das marés passou a ser utilizado com a construção de moinhos de maré (entre muitos que chegaram aos nossos dias, destaque para o de Corroios) e quintas senhoriais e fábricas instalaram-se aqui. Mais tarde, já no século XX, a Siderurgia Nacional e a construção da ponte sobre o Tejo viriam a transformar definitivamente o Seixal num lugar industrial, deixando a sua faceta rural e passando a ser um pólo urbano, periferia de Lisboa, até.

Cingindo-nos apenas à povoação do Seixal, hoje cidade, iniciamos este passeio por uma visita a uma das tais quintas senhorias, a Quinta da Fidalga.

A chegar ao centro do Seixal, na avenida ribeirinha, encontramos esta quinta que terá origem no século XV. Crê-se que Paulo da Gama, irmão de Vasco da Gama, tenha sido seu proprietário numa altura em que para aqui veio para acompanhar a construção de caravelas num estaleiro local. Depois disso o lugar passou para a propriedade da família Gama Lobo, servidores régios, e o Terramoto de 1755 terá destruído parte da quinta que acabou por ser restaurada. Um salto grande no tempo diz-nos que no século XX Salazar vinha aqui amiúde como visita dos seus proprietários e que em meados da década de 50 o arquitecto Raul Lino foi o responsável por um novo projecto para a casa, capela e jardim.

Hoje a Quinta da Fidalga é propriedade da Câmara Municipal do Seixal e está aberta a todos aqueles que desejem um passeio pela história, sentindo o ambiente das antigas quintas agrícolas e de recreio. O edifício principal, correspondente ao palacete, está muito bonito na sua fachada cuidada, mas não conhecemos o seu interior. Seguimos, sim, pelos jardins de buxo, com fonte no meio, um miradouro num patamar superior com vista para o Tejo e um corredor em latada que nos leva até ao lago de maré – este último talvez seja o elemento mais surpreendente da propriedade, com a sua água alimentada pela subida da maré e com duas casas de fresco, uma de cada lado, a embelezar ainda mais o cenário que serviu de momentos de sociabilização pada os proprietários da quinta e seus convidados.

Pelo meio, diversos apontamentos azulejares bem conservados, uma zona de pomar e mais uma fonte, esta com embrechados. E, cereja no topo do bolo para os amantes da arquitectura contemporânea, o Centro de Artes Manuel Cargaleiro, um projecto de Álvaro Siza Vieira. As linhas rectas deste edifício branco que parece desmultiplicar-se não enganam, é mesmo uma obra do nosso grande arquitecto. E Cargaleiro, artista multifacetado mais conhecido pelas suas obras em cerâmica, é um filho da terra e tem aqui o devido reconhecimento neste espaço municipal.

Outra das quintas históricas do Seixal é a Quinta da Trindade, igualmente junto ao Tejo mas do lado contrário da cidade. Aqui estão instalados diversos serviços da câmara municipal, sendo o acesso condicionado, pelo que acabei por não visitar esta quinta. Com pena, no entanto, uma vez que esta é reconhecida pela sua riqueza azulejar, contando-se no seu espólio cerca de 8000 azulejos com datas entre o século XV e o XX.

Mas o Seixal é também, como já se referiu, rico pelo seu património industrial. Durante quase todo o século XX a Mundet foi central em diversos domínios da vida seixalense, como o urbanístico, económico e social (a este respeito, por exemplo, a Mundet proporcionava creche e serviços de saúde para os seus funcionários e família). A maior empresa corticeira de Portugal encerrou em 1988 mas deixou marcas e hoje a enorme fatia do terreno que ocupava, junto à antiga Quinta dos Franceses onde Cargaleiro passou a sua juventude, tem vindo a ser reinventada de forma a que todos a possamos fruir. Desde logo, dois dos edifícios da antiga fábrica são hoje espaços culturais, um acolhendo a Escola de Música e outro um dos núcleos do Eco-Museu Municipal – preservando e divulgando a memória da antiga fábrica, mantendo-a viva; outro dos edifícios foi adaptado a restaurante; construiu-se um pavilhão desportivo; e o facto da Mundet se desenvolver encosta acima permitiu que parte dos seus antigos terrenos tenham sido reconvertidos no novo Parque Urbano do Seixal.

O Alto Dona Ana é uma pequena elevação que se ergue nas costas do centro histórico do Seixal. Pequena, com não mais de tinta metros acima do mar, mas o suficiente para nos garantir uma vista fabulosa para o largo Estuário do Tejo. Seguindo por entre um pequeno bosque com algumas árvores, por entre caminhos vários e zonas para se estar, este miradouro natural dá-nos uma vista privilegiada para o Barreiro e Amora – povoações imediatamente à direita e à esquerda -, casario do Seixal mesmo debaixo do nosso olhar, Ponta dos Corvos logo à frente, Almada mais adiante e, parecendo coladinhos a ela, o Cristo e Rei e as duas torres vermelhas da Ponte 25 de Abril. Segue-se toda a Lisboa espraiada ao longo Tejo. E é precisamente o Tejo, seus contornos e suas manhas, que ficamos a perceber melhor com esta enormíssima perspectiva.

Depois de um bom tempo a apreciar esta beleza, descemos ao centro histórico para passear pelas suas ruas. Edifícios baixos, maioritariamente com dois pisos, este é um aglomerado urbano coeso e coerente que se desenvolveu por duas ou três ruas rectas ao redor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Alguns edifícios são históricos pelas memórias que guardam, como é o caso dos das duas sociedades filarmónicas e do da Associação Náutica do Seixal. Mas é o rio que volta a estar no horizonte. Aliás, em vários prédios encontramos nas suas fachadas modestas painéis de azulejo alusivos a barcos e à pesca.

Como nunca se está distante do Tejo, é para ele que voltamos, caminhando pela frente ribeirinha. Restaurada e cuidada, cheia de esplanadas de cafés e restaurantes, ao longo dela voltamos a apreciar a paisagem, agora acompanhando mais de perto os barcos que por ali passam ou estão ancorados. É uma beleza pitoresca, permitindo que a natureza seja aqui fruída de forma plena.

Parque da Bela Vista e Vale da Montanha

Do Parque da Bela Vista quase todos terão ouvido falar, por aqui se realizar o Rock in Rio. Mas conhecê-lo-ão para lá de todo o folclore? Saberão que esta é a maior mancha verde de Lisboa depois de Monsanto? E que desde 2018 tem a companhia do Parque Urbano Vale da Montanha?

Situados em Marvila, zona oriental da cidade, estes dois parques estão longe de ser centrais, mas à boleia da ideia do Corredor Verde de Lisboa possuem uma ligação não apenas entre eles mas também com o centro da cidade.

Comecemos este passeio pelo Parque da Bela Vista pela sua entrada norte, depois de percebermos as vinhas com vista para o aeroporto que preenchem uma das colinas vizinhas. A partir dos anos 1960 a zona foi sendo ocupada por vários conjuntos habitacionais que vieram urbanizar Chelas. Até aí este era um território de quintas e hortas, pura ruralidade, ambiente que retém até hoje apesar dos prédios que agora o rodeiam. A origem do Parque é, precisamente, essa, antigas quintas que se tornaram um enorme espaço verde. São 85 hectares e logo à entrada podemos apreciar o fantástico vale que se debruça abaixo de nós e o largo espaço que ocupa. São sobretudo zonas de prado e de relvado, com muito arvoredo – oliveiras, pinheiros e sobreiros – e caminhos à mistura.

Instalada numa colina que se levanta algo abrupta sobre a Avenida Gago Coutinho, as suas partes mais elevadas servem de miradouro para uma grande parte da cidade de Lisboa. De forma mais imediata, praticamente ao esticar de uma mão, temos o bairro de Alvalade e do Areeiro, constantemente alvos de razias dos aviões que em breve aterrarão na pista ali perto. Mais ao fundo, o rio Tejo. A vista da larga clareira central é fantástica e o desenho ondulante do jardim encaixa na perfeição no vale.

Vale abaixo não caímos logo no Tejo, antes atravessamos a Avenida Marechal António de Spínola (que liga Braço de Prata à Gago Coutinho) por cima do seu viaduto. O Parque da Bela Vista continua com os seus caminhos, mas agora estamos na sua vertente sul, cada vez mais perto do vale das Olaias.

É aqui que se lhe junta o novo Parque do Vale da Montanha, mais 11 hectares de caminhos pedonais e cicláveis que com a Bela Vista se confundem. O nome “Montanha” toma o de uma antiga quinta que aqui existia e que até há pouco tempo partilhou o terreno com hortas e com construções de habitação ilegal. Já não estamos numa colina, antes na encosta do vale que foi aproveitada de forma brilhante para a implementação deste parque. Como acima referido, o Parque Vale da Montanha foi construído no âmbito do desenvolvimento do Corredor Verde Oriental de Lisboa, constituindo uma linha de continuidade em relação ao Parque da Bela Vista, sendo não apenas um espaço verde, mas também de ligação a outros espaços verdes envolventes. Esta ideia de Corredor Verde está intimamente ligada à necessidade das zonas urbanas das cidades face à existência de espaços verdes que lhe sirvam numa dupla função de paisagem e recreação.

O desenho do Vale da Montanha e as ideias expressas acima podem ser apreciadas na perfeição desde a ponte pedonal e ciclável que nos leva até à colina do Casal Vistoso (Areeiro) ao atravessar o vale das Olaias. A linha de comboio corre no seu sopé e não é ofensa nenhuma afirmar que linhas férreas não costumam ser áreas muito valorizadas em termos paisagísticos. Mas esta obra de requalificação veio mudar todo esse cenário e num risco um espaço marginal à cidade tornou-se uma beleza que merece ser vista e desfrutada.

E com ela ficámos com as Avenidas Novas ligadas a Marvila de uma forma engenhosa, mas natural e pura.

Convento da Arrábida

Em pleno Parque Natural da Arrábida fica o Convento de Santa Maria da Arrábida, aquele conjunto de construções brancas que nos habituámos a ver ao longe em harmónico contraste entre o verde da serra e o azul do oceano. Totalmente envolvido pela vegetação da serra, espécie de protecção natural que ao mesmo tempo atrai e afasta os curiosos, este Convento hoje propriedade da Fundação Oriente pode – e deve – ser visitado (apenas visitas guiadas mediante agendamento prévio).

As origens deste Convento têm de ser buscadas muito antes da sua fundação em 1542 e, como toda a estória que se preze, tem uma lenda associada. Conta-se que por volta de 1250 o mercador inglês Hildebrant navegava por ali noite cerrada quando uma tempestade fez com que o seu barco se perdesse no mar e ficasse exposto a todos os perigos. Devoto de Nossa Senhora, com cuja imagem sempre viajava, o mercador reza-lhe e pede-lhe ajuda para guiar a tripulação. Atendido, uma luz alumia-os e a tempestade esmorece, conseguindo navegar até terra firme. Vão então serra acima em busca do lugar de onde tinham visto a salvadora luz surgir e aí descobrem a imagem de Nossa Senhora que sempre acompanhava Hildebrant. Em agradecimento pelo milagre, o inglês constrói uma ermida nesse lugar e torna-se o primeiro dos monges ermitas da Arrábida.

A Ermida da Memória é, pois, a antecedente do Convento da Arrábida. Três séculos mais tarde, em 1539, numa peregrinação encontraram-se D. João de Lencastre (1° Duque de Aveiro, proprietário das terras da Serra da Arrábida) e Frei Martinho de Santa Maria e daí surgiu a ocupação do que hoje conhecemos como Convento Velho. Frei Martinho de Santa Maria, um franciscano espanhol de ascendência nobre, pretendia uma experiência de vida religiosa mais radical materializada numa vida ermita mística. A convite do Duque veio, assim, para a Serra da Arrábida em busca de despojamento para uma vida de contemplação. A sua primeira impressão é elucidativa do cenário que encontrou (e que ainda encontramos todos nós), tendo soltado a expressão “se não estou no Céu, estou nos seus arrabaldes”. Este primeiro Convento Velho, no lugar da tal Ermida da Memória, mais não era do que as capelas, de que restam hoje as guaritas de veneração que vemos espreitar no alto da Serra, e as celas escavadas nas rochas onde os ermitas sobreviviam. O mote era muita penitência e muita austeridade, uma abnegação total que resultava numa vida duríssima.

Como essa vivência de isolamento era muito radical, em 1542 o Duque de Aveiro manda construir o Convento Novo, na encosta da Serra no lugar que hoje visitamos, e convida Frei Pedro de Alcântara, igualmente espanhol, para criar as bases desta comunidade e atrair outros frades a ela. Não se julgue, porém, que aqui os frades vivessem em luxo. Nada disso, a austeridade continuava a palavra de ordem e o único luxo era mesmo a paisagem que se propunham contemplar.

Apesar da construção do Convento Novo, Frei Martinho de Santa Maria é o fundador indisputado deste movimento de capuchos arrábidos no seio dos franciscanos que aqui marcaram presença entre os séculos XVI e XIX, até à extinção das ordens religiosas em 1834. É a imagem dele que constitui o primeiro grande momento da nossa visita. Passamos os muros do Convento pelo portão de entrada, descendo uma longa estrada que nos deixa no edifício hoje transformado em recepção, uma série de casinhas brancas com apontamentos decorativos simples como a natureza que as envolve. E, para lá do que parece uma fonte rosa decorada com pedrinhas e encimada por uma cruz, entramos no adro da igreja.

Na sua fachada, uma estátua do Frei Martinho de Santa Maria. A sua representação é incrível. Numa postura de crucificado, tem na mão direita uma vela, sinal da fé, e na mão esquerda um cilício, sinal da disciplina; a boca cosida e os olhos vendados, sinal de que os sentidos de quem entra para aqui estão encerrados para o mundo, restando apenas o silêncio; o seu coração possui um cadeado, igualmente sinal de que está fechado para o mundo e o seu caminho é apenas interior; está descalço e veste o hábito dos capuchos, incluindo o característico capucho piramidal típico dos capuchinhos da Arrábida; ergue-se em cima de uma serpente, esmagando o demónio, e de um globo.

O interior da igreja é simples. As missas eram abertas a elementos fora da comunidade e os frades participavam apartados dos demais no coro alto, onde se dedicavam a leituras.

Saindo da igreja percebemos a bela decoração das paredes com recurso a azulejos e revestimento de pedrinhas que no seu conjunto formam diversos elementos geométricos e símbolos. Tudo muito singelo. A extinção das ordens religiosas em 1834 e o consequente abandono da comunidade levou a que o lugar fosse pilhado. A Casa de Palmela adquiriu o Convento em 1863 e fez grandes alterações no conjunto, mas a dado momento pouco pode fazer para evitar que o tempo continuasse a produzir estragos. Em 1990 a família decidiu vender o Convento à Fundação Oriente e ainda que de forma lenta têm vindo a ser levadas a efeito diversas acções de salvaguarda deste património conventual. Daí que vejamos algumas decorações restauradas e outras que tardam a sê-lo.

De qualquer forma, o que visitamos já é excessivamente inspirador. Pequenos edifícios brancos com telha ocre, fontes, capelas, pátios, a serra, o mar. Ai, aquele mar. Tão luzidio que às vezes parece que estamos numa ilha grega, uma daquelas que a tantos serviu igualmente de inspiração.

De um dos pátios com vista para as hortas e pomares vemos ainda algumas das sete ermidas que se alinham serra acima, aquelas que constituíam o Convento Velho.

Já na meia encosta em que estamos, no Convento Novo, é altura de visitar algumas das celas dos frades. O despojamento é completo. Cada espaço é exíguo, limitado aos metros suficientes para acomodar um indivíduo, não há cama – apenas um pedaço de cortiça onde deitar -, talvez um minúsculo assento e um crucifixo. Mas para os nossos tempos há um luxo, uma pequena janela que deixa ver o imenso mar. Talvez não saibamos é fazer o mesmo grandioso uso deste cenário, avessos que somos hoje à contemplação.

Seguimos pelas escadarias e pátios apertados e visitamos então o refeitório, deslumbrando-nos antes com o seu terraço com uma esplanada soberba sobre o mar. À entrada um pequeno martelo em cortiça (marca distintiva da pobreza como escolha), usado silenciosamente para a chamada para a refeição. O silêncio, sempre o silêncio. Havia apenas uma refeição diária, usavam-se conchas como pratos, a carne estava ausente e os períodos de jejum e abstinência eram longos. No mais, os frades andavam sempre descalços, independentemente das condições climatéricas e do piso, mais um exemplo da austeridade e penitência em que vivia a comunidade. No final da nossa visita, um lamento, porém: que pena é não podermos estar neste belíssimo lugar mais tempo para além da hora que dura a visita guiada.

As 10 Praças e Largos mais Bonitos de Lisboa

Eleger as praças e largos mais bonitos de Lisboa não é tarefa fácil, tal a profusão de beldades neste quesito. A ideia é fugir ao mais óbvio e conhecido, e se aqui não encontramos o Terreiro do Paço (Praça do Comércio), o Rossio, a Praça do Município e a Praça Luís de Camões não é por esquecimento, é antes por estas estarem já na Liga dos Campeões deste reconhecimento.

Praça das Flores – Entre o Príncipe Real e São Bento, esta é uma das zonas mais agradáveis e carismáticas da cidade, onde a faceta residencial surge aliada à faceta mais boémia. Um pedaço de tranquilidade sob o arvoredo durante o dia, pela noite são muitas as opções de qualidade para jantar ao longo da praça.

Largo São Carlos – No final do século XVIII construiu-se aqui o neoclássico Teatro São Carlos e quase cem anos depois aqui haveria de nascer e viver, no número 4 que lhe está mesmo em frente, Fernando Pessoa, poeta maior da cidade e da língua portuguesa. Espaço cultural de excelência, em dias de récitas é ver (ainda) os visons a saírem à rua, no mesmo espaço onde já é também tradição celebrar-se o mais popular Festival ao Largo.

Largo do Carmo – Situado num dos cantos do Chiado, este é um dos lugares mais históricos da cidade. Entre vários edifícios que foram palacetes, aqui fica o antigo Convento do Carmo (uma ruína cheia de atmosfera com o seu portal gótico intacto) – com o exuberante oitocentista tardo-barroco Chafariz do Carmo diante si – e o Quartel do Carmo. Ambos testemunhos de dois dos episódios que marcaram e marcam o urbanismo e a liberdade da cidade e do país, o Terramoto de 1755 e a Revolução dos Cravos de 1974.

Praça de São Paulo – Numa das mais animadas zonas de Lisboa, perto do Cais do Sodré, fica esta praça encimada pela igreja que lhe dá nome. A Igreja de São Paulo já não é a original do século XIV, destruída pelo Terramoto, antes outra construída na sequência desta tragédia. Na placa central da Praça com calçada típica portuguesa encontramos um chafariz-obelisco e quiosques em ferro forjado, tudo elementos que conferem uma beleza harmoniosa ao conjunto.

Largo Dr. José de Figueiredo – Com o nome do primeiro director do Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes, este largo monumental é um dos mais cénicos de Lisboa. O Chafariz barroco com bicas com carrancas e uma escultura de Vénus a encimá-la e uma escadaria de ambos os lados dão o enquadramento perfeito para os edifícios todos diferentes mas cheios de coerência que ladeiam esta praça em forma de U.

Praça do edifício Sede da Edp – Junto à Avenida 24 de Julho, o novo edifício dos arquitectos Aires Mateus deu à cidade uma das suas mais recentes praças e talvez a mais não convencional. Para além dos blocos de escritórios da empresa eléctrica, o propósito foi também o de criar um espaço público que pudesse ser usufruído por todos e não apenas pelos funcionários que ali trabalham. Esta praça é uma pequena obra de arte, com uma cobertura futurista que joga magistralmente com a luz natural e que nos dá ao mesmo tempo uma sensação de recolhimento e de passagem.

Largo da Achada – Situado na Mouraria, o seu nome derivará do facto de este ser um lugar relativamente plano, ideal para recolhimento na encosta, provindo “Achada” de “terra chã”. Num dos cantos do Largo fica a Casa da Achada, Centro Mário Dionisio, que no Verão se encarrega de aqui passar cinema ao ar livre, e no outro uma fachada de arte urbana pintada por Andrea Tarli, ironicamente retratando uma velha moradora e um turista intrusivo. São dois apontamentos modernos em lugar muito antigo, onde se destaca um edifício com porta e janela ogival, diz-se que um sobrevivente do Terramoto.

Beco do Jasmim – Ziguezagueando pelas labirínticas ruas do bairro da Mouraria, esta praça com declive acentuado bem aproveitado por umas escadarias é rodeada de edifícios mas tem uma árvore no meio. Pode levar “beco” no nome mas é um espaço relativamente amplo para os padrões do bairro e aqui o privado e o público confundem-se, fazendo deste um lugar óptimo para se estar. Escusado será dizer que, à semelhança do Largo da Achada, é um dos lugares mais procurados por altura dos Santos Populares.

Praça da Viscondessa dos Olivais – Nos Olivais Velho, outrora arrabalde de Lisboa onde no século XVII a nobreza da capital começou a construir as suas quintas de recreio, esta praça ainda dá ares de tempos que já lá vão. Tanto, mas tanto, que foi possível ver um senhor sentado num dos bancos da praça com um rechonchudo porco quando lá passei para tirar esta foto. À volta da praça com o seu coreto, cruzeiro e chafariz encontramos diversos edifícios que compunham o conjunto urbano então conhecido como Rossio (e a Igreja Matriz de Santa Maria dos Olivais nas suas traseiras). Um deles é a Casa Viscondessa dos Olivais, mais tarde transformada em asilo para crianças pobres e hoje um jardim de infância.

Praça Afrânio Peixoto – Esta deve ser a praça mais desconhecida desta lista. Situada no Areeiro, é uma praça-jardim junto à linha do comboio, mas acaba por ser um lugar escondido. Os prédios à sua volta estão dispostos em forma de U invertido e todos têm vista para um lago protegido por árvores. Por um deles ser a casa da tia, conheço o lugar desde pequena e se em tempos idos era mal frequentado e perigoso depois do entardecer, hoje é um luxo podermos sentar numa das cadeiras que acompanham as mesas e aí fazer um piquenique à beira da água.

Lisboa em Pinturas

Lisboa é linda. Sempre o foi.

Muitos pintores a retrataram ao longo dos séculos, mas aqui fica uma viagem pela cidade e seus motivos durante o século XX, com dois bónus fora desse tempo.

Alfredo Keil, Vista de Lisboa desde o Ginjal, finais do século XIX
Francis Smith Lisboa, Alfama, 1920
Sarah Afonso, Varina, 1924
Mário Eloy, Bailarico no Bairro, 1936
João Hogan, Casario de Lisboa, 1952
Abel Manta, Praça de Camões, 1954
Nikias Skapinakis, Pátios de Lisboa, 1956
Mário Cesariny, Vista sobre Lisboa, 1958
Carlos Botelho, Colinas de Lisboa, 1969
Maria Helena Vieira da Silva, A Poesia está na Rua, 1974
Maluda, Lisboa, 1988
Rui Carruço, Bairro Alto, 2018

Jardim Amália Rodrigues

Acima do miradouro do Alto do Parque, desde 1996 temos mais um jardim na cidade, o Jardim do Alto do Parque, renomeado Jardim Amália Rodrigues após a morte da fadista.

Criação do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles, a ideia é que este jardim seja parte da ligação entre o Parque Eduardo VII e Monsanto, o célebre Corredor Verde de Lisboa. Tudo aqui é tão bem pensado e melhor executado, de uma delicadeza tal (como a que, aliás, se observa no seu vizinho Jardim Gulbenkian, igualmente projecto de Ribeiro Teles), que custa a crer que tenhamos passado tanto tempo sem ele.

À entrada do enorme anfiteatro aberto ao vale do Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, recebe-nos “Maternidade”, a escultura de Fernado Botero. A maior bandeira de Portugal por vezes também está por aqui hasteada, mas devo confessar que não fez grande falta que esvoaçasse ao vento interrompendo a vista desafogada.

Para lá desta encosta chegamos a um lago circular com a esplanada Linha de Água numa das suas margens. Enquanto uns, bem postos, se limitam a um café ou um gelado numa das cadeiras, os mais atrevidos não resistem a uma banhoca nos dias mais quentes. Ao redor do lago temos uma ampla zona relvada, quer totalmente exposta ao sol quer com zonas de sombra. Os mais conhecedores perceberão a diversidade das espécies arbóreas.

Mais acima, no ponto mais alto do Jardim, no designado miradouro, encontramos a escultura “O Segredo”, de Lagoa Henriques, duas meninas segredando ao ouvido uma da outra enquanto o mega edifício do Corte Inglês as observa. Do lado contrário, o restaurante Eleven, com estrela Michelin. E nas traseiras, o longo edifício do Palácio da Justiça, por onde segue o Corredor Verde de Lisboa. Tudo elementos de uma modernidade que continua o seu rumo nesta zona da cidade maioritariamente de bom gosto (riscar o que não interessa, por exemplo, caixote do Corte Inglês).

Duna da Cresmina, Guincho

A Duna da Cresmina é parte do sistema dunar Guincho-Oitavos, em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. Um passadiço circular com menos de 2 kms, meia-hora a andar sobre madeira a espaços invadida pela areia, sai desde o Núcleo de Interpretação da Duna da Cresmina, no alto da Praia do Guincho. Já sabemos que o Guincho é uma bela praia de areia branca que tinha tudo para ser o lugar indicado para estender a toalha na areia e nos deixarmos ficar por ali a apanhar sol. Mas daí vem o vento, e ele vem grande parte do tempo, e a praia transforma-se no lugar ideal para o windsurf, uma caminhada na areia, uma refeição num dos seus restaurantes ou… um passeio ao longo da duna, sem sair do trilho previamente definido para o efeito.

O que este sistema dunar tem de curioso é precisamente a condição climatérica adversa de vento forte carregado de sal. As areias das praias da Cresmina e do Guincho são por ele empurradas e retornam ao mar mais a sul, entre os Oitavos e a Guia, depois de migrarem sobre a plataforma rochosa aplanada do Cabo Raso.

Este é um sistema dinâmico, acreditando-se que a Duna da Cresmina esteja a avançar cerca de 10 metros por ano. Ou seja, embora a duna desempenhe um papel muito importante na protecção do terreno em caso de subida do nível do mar, ao mesmo tempo teme-se que a longo prazo este avanço possa vir a representar a perda de solos aráveis, infraestruturas e habitações.

Ao longo do trilho podemos observar o habitat diverso que nos rodeia, quer na sua flora quer fauna. As areias permitem alguma vegetação, embora rasteira, como o feno e o estorno da areia e pinheiro bravo. Surpreende que algumas flores consigam romper a areia. E vemos borboletas, melros e, sobretudo, lagartixas.

Mas a grande atracção são as dunas e as formas que são capazes de tomar. Num lugar de paisagem superior, Serra de Sintra nas costas e Oceano Atlântico por diante, é um agradável passatempo tentar observá-los num enquadramento especial dado pelas dunas.

Pelo Trilho Castrejo

Os Montes Laboreiro, hoje mais conhecidos pela Serra da Peneda, são um dos lugares de Portugal que mais encanto produzem em mim. Sobretudo pela paisagem, sim, mas também pela cultura secular da qual chegaram testemunhos até aos dias de hoje. Em tempos andei por Castro Laboreiro e disso dei conta aqui.

Com a pandemia novos horizontes se abriram e o que me habituei a circundar de carro hoje adentro a pé, alcançando lugares, paisagens e ambientes que de outra forma não seriam possíveis perceber. Foi assim que surgiu a ideia da caminhada pelo Trilho Castrejo, percurso oficial de Melgaço (MLG – PR3), com 17 quilómetros pelos caminhos de transumância que outrora ligavam as brandas às inverneiras, um sistema de povoamento usado pelos povos castrejos que vale muito a pena conhecer e descobrir.

Antes de iniciarmos o Trilho Castrejo tal como está definido fizemos um desvio e subimos ao Castelo de Castro Laboreiro. O caminho até lá é fácil, cerca de 15 a 20 minutos para cada lado, indo por uma vertente do penedo e voltando pela outra, entrando e saindo por cada uma das portas do Castelo. Implantado num monte a 1033 metros de altitude (a vila de Castro Laboreiro está a 945 metros), neste miradouro natural para todo o planalto de Castro Laboreiro e montes escarpados que o rodeiam a vista é, está bom de ver-se, soberba.

Construído no século XII ou XIII sobre uma estrutura pré-existente, a muralha envolve dois espaços bem definidos. Um deles correspondia à povoação intramuros, a qual ainda na Idade Média abandonou o castelo altaneiro para se estabelecer mais abaixo, na vila que hoje conhecemos como Castro Laboreiro e que espreita para lá da muralha. Com o tempo o Castelo foi perdendo a sua importância estratégica, embora ainda tenha desempenhado um papel importante na Guerra da Restauração e na Guerra Peninsular. Realce-se, no entanto, que a ocupação humana do lugar do monte do Castelo é muito antiga, remontando ao Paleolítico e ao período castrejo, eram então os seus povos nómadas. Aliás, veremos adiante que uma espécie de nomadismo continua a ser prática na região.

Descemos do Castelo rumo à vila e desviámos breve até à face da Cascata de Castro Laboreiro, alimentada pelas águas do rio de mesmo nome. Chovia bem, mas não o suficiente para que pudéssemos confundir a água caída do céu com a torrente que cai em diversos patamares nesta falha nas rochas e que proporciona (mais) um belo espectáculo da natureza.

Atravessámos então a vila, conquistada por D. Afonso Henriques e logo integrada nos domínios do reino de Portugal, tendo recebido foral e sido elevada a sede de concelho em 1271, extinto em 1855 e hoje parte do concelho de Melgaço. O seu coração é a pequena praça onde encontramos a Igreja Matriz, o Pelourinho e o antigo edifício da Casa da Câmara. Instalada no planalto, o topónimo Castro Laboreiro deriva de “castrum” – povoação fortificada – e “lepporeiro” ou “lepus” (ou leporis, leporem, leporarium, lepporeiro, leboreiro) – palavra latina que significa lebre. Seria então a “fortificação das lebres”, talvez por existirem aqui muitos destes animais. Ou, palpitam ainda outros, derivará do “Castram Laborarum” dos romanos, de significado “acampamento de trabalhadores”. O que espanta na região é que desde sempre celtas, romanos, mouros e por fim os cristãos do reino de Portugal aqui tenham teimado em tomar assento, sobrevivendo às agruras do clima e da infertilidade do solo – daí a alusão aos trabalhadores. Ainda assim, têm demonstrado que é possível viver em comunhão com a natureza, adaptando-se e fazendo das previsíveis fraquezas a sua força.

Iniciámos oficialmente o Trilho Castrejo virando costas ao centro da vila de Castro Laboreiro e seguindo planalto afora. As fragas graníticas e os rochedos com formas cativantes marcam a paisagem típica da Peneda. A vegetação é rasteira, feita de tojo, carqueja, urze, com cores variadas que só o Outono sabe como fazer sobressair na perfeição. Este mato que aqui encontramos possui uma dupla função, servindo de alimento para o gado e mantendo alguma fertilidade do solo. Estamos no planalto, recordemos, e nas terras mais altas, as brandas, a fertilidade dos solos é ainda menor, pouco se produzindo, servindo as terras sobretudo para pastoreio e pastagens que aqui encontram alimento precisamente na vegetação rasteira referida.

À medida que abandonamos o planalto e descemos o vale do rio Laboreiro, com o monte do Castelo dominador à nossa esquerda, a paisagem e características do solo vão mudando. Somos transportados para um outro mundo, com um ambiente totalmente diferente. Primeiro aproximamo-nos de uma pequena lagoa com ponte (são às dezenas as pontes por estes caminhos), um lugar incrível, quase como se de um oásis na penedia se tratasse.

Depois continuamos a descer mas agora já não a céu aberto, antes totalmente imersos por um não menos incrível bosque. É o bosque de carvalhal do Barreiro e as palavras para o descrever nunca serão suficientes. Delicioso nas suas cores e tranquilo no seu recato, a dado passo os muros aparecem inteiramente cobertos de turfeira, de um verde tão intenso que parece irreal. É este musgo que faz reter a água e que juntamente com os rios e ribeiros que por aqui correm faz da zona baixa da região de Castro Laboreiro um mundo à parte em termos de fertilidade, num clima menos frio e numa terra menos pobre.

A piada e o interesse deste Trilho Castrejo está, precisamente nesta diversidade de paisagens que tem gerado ao longo dos séculos diferentes povoamentos. Ou melhor, um sistema de povoamento triplo: no planalto, nas brandas e nas inverneiras. Explique-se: este trilho segue pelos caminhos que ligavam as brandas às inverneiras, hoje ligadas por estradas asfaltadas mas há nem sequer um século apenas por caminhos medievais de calçada em pedra como este que percorremos agora (a estrada que liga Melgaço a Castro Laboreiro foi construída apenas na década de 1940). Os povos castrejos possuíam duas casas, uma nas brandas e outra nas inverneiras. Hoje, com as alterações climáticas e com o clima menos inclemente conseguem viver maioritariamente no planalto ou até nas brandas. Mas até há pouco tempo grande parte das famílias passavam os meses mais quentes nas encostas (brandas) e os meses mais frios nos vales (inverneiras). Nas brandas, situadas a maior altitude, faziam as sementeiras, como centeio e batata. Nas inverneiras, a mais baixa altitude e mais abrigadas, cultivavam-se os cereais e as frutas. Ou seja, o povoamento e exploração do solo varia conforme a época e o clima de modo a que o homem possa fazer o melhor uso da terra, trabalhando-a sempre que isso seja possível. Isto acontece um pouco por toda a Peneda, mas é aqui, em Castro Laboreiro, que assistimos a este sistema singular com maior evidência. Nos dias de hoje, porém, as pessoas têm vindo a fixar-se em permanência na vila de Castro Laboreiro, daí que, como alguém já se lhe referiu, esta seja a mais alta das inverneiras e a mais baixa das brandas.

Prosseguindo a nossa caminhada, aproveitámos para um lanche no inspirador bosque do Barreiro e atravessámos as inverneiras do Barreiro, Podre e Assureira. É à saída desta última aldeia que encontramos um belo postal que resulta do conjunto de um moinho junto à ponte. Até nos esquecemos que também a Capela de São Brás está ali. Em uso até há pouco tempo, alguns dos moinhos de água estão ainda bem conservados na sua fachada em granito e são uma expressão da arquitectura tradicional local.

Estamos já no ponto mais baixo do nosso trilho, a cerca de 750 metros de altitude. É nele que fica uma das pontes mais importantes e pitorescas da região e até de todo o Parque Nacional Peneda-Gerês. Classificada como Monumento Nacional, a Ponte da Cava Velha foi construída na época romana, embora tenha sido restaurada na época medieval. O facto de ser também designada por Ponte Nova faz crer que por aqui tenha existido uma outra ainda mais antiga. À semelhança de outras, o seu tabuleiro é em arco, mas maior. Na verdade, são dois os arcos que nos transportam até à outra margem do rio Castro Laboreiro.

E depois disso, atravessada a Ponte da Cava Velha o caminho brinda-nos com uma longa subida. A beleza agreste do lugar, mesmo com chuva e tempo nublado, reconforta no esforço. Os penedos e rochas não param de surpreender mas a forma de uma delas, em especial, supera tudo. O Bico do Patelo é irreal, como se um pássaro tivesse pousado à beira de um penedo e ali se tivesse quedado petrificado.

Vamos vendo o Bico ao longe, atravessamos a inverneira de Curveira já a preparar a lenha para os dias frios que aí virão, continuamos a subir por entre as pedras e ficamos mesmo debaixo da magistral formação rochosa. Aqui não podemos deixar de soltar um lamento pelo céu nublado não nos permitir registar na perfeição o fantástico enquadramento da aldeia com o Bico. Como pode um cenário ser tão grandioso mesmo com uma visibilidade tão má? E como pode a natureza moldar uma pedra de forma tão formosa?

Depois desta subida encontramos um terreno fácil e relativamente plano em terra batida. Um pouco para lá do ponto mais alto da nossa jornada (1090 metros de altitude) ficam algumas das brandas, como Padrosouro, junto à qual passámos sem entrar (e ainda mais escondidas nas montanhas ficam Seara, Eiras, Portos e Curral do Gonçalo).

Daqui iniciámos uma descida por mais um caminho de calçada de pedra, no que podia muito bem ser um rio com um fio de água. Avistam-se alguns pequenos prados verdejantes. Mas a melhor vista é para a inverneira de Cainheiras, um pequeno conjunto de casinhas de granito rodeadas de um manto verde entrecortado por uma fina e ondulante risca de asfalto, enquanto os penedos assistem a este espectáculo na fila de trás.

Antes de chegar a Castro Laboreiro ainda passámos pela ponte e povoação de Cainheiras e pela povoação e ponte de Varziela. Nesta última, junto ao ribeiro Corga das Lapas uma minúscula cabine está instalada num terraço verde com uma frente ribeirinha privativa. Um luxo. Mas voltam a ser as cores a ganhar protagonismo, fazendo questão de se sobrepor ao cinzento da paisagem.

À chegada a Castro Laboreiro temos a vista que nos faltava da sua cascata, agora no lugar cimeiro dos seus vários patamares e igualmente impressionante.

E podemos, finalmente, repousar desta enorme caminhada pela paisagem e cultura das aldeias de montanha dos Montes Laboreiro.

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Trilho da Peneda

Às vezes é bom visitar os lugares em dias de chuva. Visitada a Peneda no Verão, perceber-se-á a cascata que jorra água pelo penedo abaixo que serve de encosto ao seu Santuário?

Foi precisamente essa a imagem que nos tocou ver no início desta caminhada de 11 quilómetros designada por Trilho da Peneda, já no concelho de Arcos de Valdevez. O que acontece é que a chuva miudinha não nos largou durante toda a manhã e, pior, a nebulosidade era muita. Mas mesmo com pouca visibilidade seguimos adiante no nosso propósito e subimos os últimos patamares da escadaria do Santuário de Nossa Senhora da Peneda.

O culto mariano neste lugar tem 800 anos, quando, diz a lenda da Peneda, Nossa Senhora aqui terá aparecido a uma criança que pastoreava cabras e, após curar uma mulher de um caso já dado como perdido, lhe terá dito para pedir aos habitantes da Gavieira (sede da actual freguesia da Peneda) para erigirem uma ermida. O Santuário é, todavia, mais recente, tendo sido construído nos séculos XVIII e XIX. A escadaria das virtudes é a grande atracção cénica e formal, com estatutária representando a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória.

Nas costas do Santuário fica a carismática Fraga da Meadinha. A parede da Meadinha tem vindo a ser escalada por portugueses e sobretudo galegos desde a década de 1940 e é hoje a única onde se pode escalar legalmente no Parque Nacional da Peneda-Gerês. São 59 as vias de escalada desta fraga. Mas nós, apesar de a termos subido também, não o fizemos através de uma ascensão vertical, antes pelo bosque que a atalha mais suavemente. Apesar da nebulosidade intensa, as cores do bosque fizeram questão de se exibir. O penedo, esse, como é cinzento como a cor daquele dia, é que foi mais difícil de perceber em toda a perfeição. Ainda assim, conseguimos ver a água a rolar por entre as frechas da rocha, a tal que se transforma em cascata quando a queda surge mais abrupta nas costas do Santuário.

A subida é algo cansativa, indo dos 665 metros aos 1095 metros em apenas 3,7 quilómetros. Mas a quase 1000 metros temos um lago com uns reflexos incríveis, uma espécie de resistência à desfeita do clima. Conhecido como “pântano”, no lugar de Chã do Monte havia uma represa que servia uma mini-hídrica que fornecia energia eléctrica à povoação da Peneda. Hoje resta a água, com um belo rochedo no meio, circundada pelo granito que permite que uma vegetação rasteira verdíssima dele se apodere nas margens do lago.

O caminho prossegue por um campo de pedras com formas diversas. É basicamente um trilho sobre pedras, em que podemos saltitar de umas para as outras. Os afloramentos rochosos são fantásticos.

E vemos árvores negras despidas, outras inclinadas. O clima não perdoa. Indiferentes a ele, as vacas barrosãs e os cavalos garranos seguem nas suas vidas. Surpreende ver uma vaca descobrindo alimento mesmo em cima de um penedo. Outras passeiam juntas e assustam-se à nossa passagem, talvez não esperando que uns malucos caminheiros ali aparecessem com um tempo destes.

Os últimos 4 quilómetros do trilho são sempre a descer e o último segue pela estrada. À aproximação da aldeia da Peneda vemos uns prados com um tapete de um verde intenso, apenas perturbado pelos muros de granito que dividem as pequenas propriedades.

A cor é garantida pela chuva, sim, mas também por se situar na margem do rio da Peneda. Neste ponto o rio não parece correr muito tranquilo, encontrando no seu caminho uma série de pedras que tem de ultrapassar por vezes com alguma fúria. Na terra da pedra, não podia faltar um imenso monólito que servirá de arrumos – é ver a porta de madeira que lhe foi adossada.

Neste trilho da Peneda estão praticamente todos os elementos característicos do Parque Nacional da Peneda-Gerês: cascata, lagoa, rio, penedos, bosques, fauna, aldeias, espigueiros e socalcos. Na vizinha freguesia do Sistelo podem estar os socalcos mais conhecidos do Parque, mas estes da Peneda possuem um encanto muito próprio. E, junto ao Santuário, são uma bela forma de terminar este passeio pela natureza e modos de vida da serra, com mais um grande exemplo de como o Homem soube aproveitar as dificuldades dos terrenos para os transformar, vencendo engenhosamente os desníveis de forma a obter para si a maior área de terra possível para a agricultura, garantindo a sua subsistência e sobrevivência.

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