Primeiro dia pelo Alentejo Central

3 dias de Inverno pelos caminhos mais a leste do Alentejo Central significam dias mais curtos de luz, mas não necessariamente de frio. 

Saindo de Lisboa em direcção a Monsaraz, primeira paragem, são pouco mais de 90 minutos de viagem de carro sempre por autoestrada ou estradas rectas, uma constante por esta região.


Contraindo, no entanto, a ideia de planície alentejana, à aproximação de Monsaraz vamos avistando esta aldeia histórica desde longe, num destaque absoluto instalada no alto de um outeiro, como se fosse a campeã que ocupa o lugar cimeiro de um pódio. E é como se o fosse, ou não estivesse Monsaraz sempre nas listas das aldeias mais bonitas do nosso país.


Antes de entrarmos por uma das quatro portas das muralhas que irão oferecer-nos este burgo medieval feito de casas brancas e xisto, um presente à sua altura é a vista fabulosa para a Barragem do Alqueva e planície alentejana que a rodeia. Pura serenidade. 


E porque o Alentejo não é só paisagem, à entrada da aldeia encontramos uma bonita escultura a celebrar o Cante Alentejano.


Já estamos convencidos da grandeza do lugar e ainda nem entrámos em Monsaraz.

Este era o lugar de um primitivo castro. Ocupado por visigodos e mouros, em 1252 D. Sancho II conquista-a para Portugal, com a ajuda dos Templários, tendo-lhe sido concedido foral poucos anos depois. As guerras com Castela, porém, seguiram-se, com frequentes cercos e pilhagens, nesta que é uma terra de fronteira. 

Sabendo, então, que este foi um lugar de muitos povos, e até de ocupação que remonta a tempos pré-históricos (como o testemunham os diversos monumentos megalíticos presentes nas redondezas), adentramos a aldeia pela Porta de Alcoba, em arco, e após uma breve subida logo se nos abre um grande largo, onde encontramos a igreja matriz, o pelourinho, o edifício do antigo Hospital da Misericórdia e os Paços da Audiência. 


As ruas em pedra, duas mais longas e inúmeras outras que lhe são perpendiculares, todas elas estreitas, são em xisto. 


O casario, branco. 


A pedra teima em subir pelas casas acima. 


Os pormenores são deliciosos, como portas, janelas, bancos, chaminés ou uma árvore que parece concorrer com o telhado. 


Pela altura do Natal a aldeia transforma-se num presépio, com figuras em tamanho real espalhadas um pouco por todo o lado.



A Porta da Vila, virada para o Arrabalde (onde se situa a Igreja de São João Baptista, o mais antigo monumento de Monsaraz), é a principal entrada, com a sua torre sineira alva. 


Daqui saímos para logo entrarmos novamente e percorrermos a outra rua longa que irá dar à outra ponta da aldeia, onde fica o Castelo. A caminho, mais vistas fantásticas e inspiradoras se nos abrem, o Guadiana ao fundo e a planície lá em baixo pingada de oliveiras.


Do Castelo alcançam-se vistas ainda maiores, Guadiana e Barragem do Alqueva de um lado, aldeia de Monsaraz a nossos pés do outro. Daqui conseguimos perceber definitivamente a forma da aldeia e o lugar estratégico e encantado que é.
No século XVIII a população começou a abandonar Monsaraz, sobretudo pela escassez de água. As guerras da Restauração estavam terminadas e a gente de intra-muralhas e do Arrabalde optou por se instalar em Reguengos, na planície, a cerca de 16 km de distância, atraídos pelas vinhas e pelas colheitas de trigo, a par da água. 

Monsaraz viu-se abandonada e decaiu. Hoje está totalmente recuperada e bem viva, fazendo parecer distante a sentença de Vergílio Ferreira, na Aparição,  “Monsaraz-terra, esqueleto de velhice e de ruína, com crianças solitárias que riem como sobre uma sepultura”.

Já fora de Monsaraz, um bom local para almoçar é a Herdade de São Lourenço do Barrocal.

Para a tarde, um passeio pelas margens do Alqueva, com paragem obrigatória na nova Aldeia da Luz

O Alqueva é hoje o maior lago artificial da Europa. Possui 250 km2, 1200 km de margem, e entre 226 a 427 ilhas (este número varia consoante a cota da água, entre 130 e 152 metros). O projecto de construção da Barragem implicou a submersão da antiga aldeia da Luz em 2002 e sua correspondente relocalização, dando origem à referida nova aldeia da Luz, a cerca de 3 km da anterior. 


Reerguida de raíz, observamos a suas casas de planta baixa, corridas, de cores variadas, obedecendo à arquitectura típica das povoações alentejanas. Embora não seja uma réplica original da anterior aldeia, foram respeitadas a posição relativa aos arruamentos e as relações de vizinhança. Foram construídas 212 habitações, edifícios públicos, equipamentos colectivos vários, espaços verdes. 


Mais delicado, até a construção do novo cemitério implicou a manutenção da memória da antiga aldeia, transladando-se todos corpos do cemitério da velha Luz.
A nova Igreja de Nossa Senhora da Luz é, essa sim, uma réplica fiel da que encontrávamos na antiga aldeia. Hoje fica no fundo da povoação, quase à beira das águas do Alqueva e junto ao Museu da Luz, ambos com vista imaginária para a entretanto submersa velha aldeia.


O Museu da Luz é etnograficamente e arquitectonicamente imperdível. Na sua visita ficamos a compreender todo o processo de transferência da aldeia, interpretando a paisagem quer na sua vertente natural quer cultural, sempre com referências à vida na região e na antiga aldeia.


A sua arquitectura é belíssima e perfeitamente integrada no ambiente tranquilo onde se insere. O edifício está parcialmente enterrado, deixando para lá dele a planície e a água, elementos aqui recorrentes. Em xisto no seu exterior, do interior do museu são rasgadas janelas que deixam observar o grande lago mesmo ali à beira e o lugar exacto da antiga aldeia.

Da Luz partimos rumo à Estrela, também situada junto às águas do Alqueva. O Alqueva estende-se por 20 concelhos e o seu projecto, que já vinha desde os anos 50, pretendeu trazer novas áreas de agricultura de regadio, garantir o abastecimento público e industrial, a produção de energia eléctrica e a criação de novas valências turísticas. 

Este é um habitat natural e rodando pelas estradas ao redor do Lago vemos desfilar rebanhos de ovelhas e cabras, porcos, vacas, para além de aves que infelizmente não sei identificar, como a águia pesqueira, a águia real e o abutre preto.


A aldeia da Estrela, em si, não tem grandes argumentos. São antes as margens do Alqueva que por aqui que nos preenchem os sentimentos, cheias tranquilidade exacerbada pelos reflexos que a paisagem natural e umas pequenas casinhas vão deixando na água. 

Retornando a Monsaraz, impõe-se uma paragem em Mourão
Situado na fronteira com Espanha, esta povoação é conhecida pelas suas características chaminés. 


E também por ser a terra de Marco Paulo. Mas, para mim, aqui não houve dois amores em disputa. O seu castelo, ou melhor, a localização do seu castelo rouba o coração de qualquer um, não deixando espaço para mais nada. 


Erguido num lugar mais elevado em relação ao casario, o Castelo da Lousa, por referência à antiga Villa da Lousa, é um excelente exemplo de arquitectura militar. A igreja matriz de Mourão fica por aqui e está conservada. As muralhas do castelo e algumas torres e ameias também restam de pé, mas muito não se tem, dando as ruínas um ambiente de mistério ao sítio. 




Caminhar sobre a sua muralha é um ponto altíssimo da visita ao castelo e, uma vez mais, o Guadiana transformado em Alqueva oferece-nos paisagens soberbas, bem como a planície alentejana.



Com a noite já a cair prematuramente sobre a tarde neste dia de Dezembro, restou tempo apenas para uma visita ao Cromeleque do Xerez, junto ao Convento da Orada, no sopé de Monsaraz. 


Foi o único monumento megalítico a ser relocalizado por força da construção da barragem do Alqueva, mas também já teria sido artificialmente composto no século XX. Supõe-se que um grande menir de 4 metros tivesse existido, sendo que o que hoje vemos é um menir ao centro de configuração fálica, de 5,60 de altura, rodeado por fragmentos menores. A paisagem em redor é, uma vez mais superior, e o fim do dia, com a luz natural a fugir e as luzes artificiais a surgir em sua substituição, dá ao sítio um encanto singular.

Para pernoitar, a escolha recaiu em Reguengos de Monsaraz, na Casa Monsaraz, e o jantar no restaurante Barril. Ambas escolhas a repetir, com a maciez daquelas bochechas de porco preto ainda na memória.

Poço da Broca

Banhava-me junto à nora do rio em São Sebastião da Feira num daqueles fins de tarde incrivelmente quentes de Julho quanto um parceiro de relax me dá a dica para visitar a Barriosa, um lugar fantástico não muito distante dali. Como podia um tripeiro de passagem pela Beira saber de um lugar fantástico a 15 minutos da terra da minha avó e eu nunca ter ouvido falar dele? 
O certo é que esta alfacinha tinha de voltar no dia seguinte para a capital, mas ficou os próximos meses a matutar na ideia. Até que em Setembro cheguei finalmente ao Poço da Broca – assim se chama o lugar fantástico na Barriosa, Vide, já concelho da Guarda. 
 
É uma parede extensa de cascatas que caem de uma falha (ou talvez de um terreno manipulado pelo Homem para melhor servir os seus propósitos agrícolas) para a Ribeira de Alvôco. 
 

O lugar é lindíssimo e mesmo numa época prolongada sem chuva a água que jorra lá de cima é suficiente para nos encantar. Não consigo imaginar o quão poderoso será o cenário após uma forte chuvada.   
Este espaço é também uma praia fluvial. Podemos mergulhar, estender a toalha, sentar na esplanada ou comer uma refeição completa no elogiado restaurante Guarda Rios ali mesmo à beira. 



Ou podemos sair para uma curta caminhada circundando o rio e cascata. 

Vistas privilegiadas é o que ganharemos.

Vemos a pitoresca nora de um antigo moinho, a brutal sucessão de cascatas, as águas ainda assim plácidas, a paisagem serrana. 


 

Subindo chegaremos a um outro patamar onde o rio corre calmo e um barco estacionado parece ter sido ali colocado para conferir maior dramatismo ao postal. 

Tudo belíssimo. 
No fim, por curiosidade descubro que em linha recta estamos apenas a 15 km da Torre, o ponto mais alto de Portugal continental. 

Tudo tão perto.

Piodão – Chãs d’ Égua – Foz de Égua – Piodão

Este é o maior e mais completo percurso pedestre que se pode fazer ao redor do Piodão. 

Em tempos havia percorrido o trilho de ida e volta até Foz de Égua, aqui descrito).

Agora, do Piodão até Chãs d’ Égua, passando pela praia fluvial de Foz de Égua e retornando ao Piodão são cerca de 10 intensos quilómetros, mais de quatro horas de uma soberba caminhada, pelo que é aconselhável sair bem cedo de manhã.




Logo pela manhã o Piodão recebe-nos vazio, sem as enchentes de turistas, ideal para deambularmos pelas suas sinuosas e declivosas ruazinhas conquistadas ao terreno em sossego. Os materiais usados nas suas típicas e pitorescas casas, já se sabe, são o xisto e a madeira, aqueles de que a região é pródiga. A tinta azul para pincelar as portas e os detalhes das frestas das janelas diz-se que era a única cor à disposição na povoação depois de lá ter sido deixada um lata de tinta dessa mesma cor. Lendas não faltam. 



Percorremos, então, o Piodão em direcção ao cemitério onde iniciamos o trilho até Chãs d’ Égua. 






A paisagem entusiasma desde o primeiro minuto. A Serra do Açor abre-se-nos em todo o seu esplendor e inunda-nos de felicidade. Enquanto que no topo vamos vendo os seus picos elevados recortando a paisagem e desenhando vales no horizonte, em baixo vemos desfilar os socalcos e as casinhas em xisto, forma artística do Homem adaptar esta natureza magnífica mas adversa às suas necessidades. 




Esta primeira parte do percurso é fácil. Quando descemos para a estrada e começamos a seguir no asfalto até à povoação com o curioso nome de Pés Escaldados e daí até Chãs d’ Égua é que tudo se torna mais cansativo por causa da subida e do calor. 


Pés Escaldados é um pequeno ponto na paisagem com as típicas casas de xisto da região e uma fonte branca a marcar a diferença. Já Chãs d’ Égua é um povoado maior de casas brancas encravado num vale  onde não faltam também as ditas casas de xisto com as telhas de lousa. 




Por esta zona foram encontradas algumas rochas com gravuras de arte rupestre, daí que há poucos anos tenha sido criado o Centro Interpretativo de Arte Rupestre de Chãs d’ Égua no edifício da antiga escola primária.



Deixando esta povoação para trás e todo este imenso e soberbo vale, iniciamos então a descida em direcção a Foz de Égua. Os ribeiros começam a acompanhar-nos e agora já não são apenas as casas e degraus em xisto a compor a paisagem: também as pontes de xisto a marcam para deixar as águas correr leve sob os seus arcos.





O caminho de Chãs d’ Égua até Foz de Égua não é especialmente difícil ou técnico, mas requer atenção e cuidados e bom calçado. Algo acidentado, tanto sobe como logo de seguida volta a descer, sendo estreito e escorregadio em alguns momentos. Sempre bem marcado, porém.





A chegada a Foz de Égua não engana. Avista-se ao longe o seu casario e, em especial, a sua ponte suspensa de estacas. Lá em baixo a praia fluvial boa para lavar os joelhos. Mas, também, sem chuva não se pode pedir muito mais.

Após uma breve banhoca e um curto descanso há que voltar ao Piodão, percurso fácil e belíssimo de uns meros 40 minutos.



Acontece que o acumulado e, sobretudo, o dia escolhido para esta caminhada tornaram a volta num quase tormento. Dia 17 de Junho de 2017, viríamos todos a saber nos dias seguintes, um dos dias mais trágicos no nosso país, dia de clima atípico, dia de calor extremo, dia sem humidade, dia irrespirável nas Beiras. 

Ainda a manhã não tinha chegado ao fim e já tinha bebido quase três litros de água e guardava ainda mais meio litro para o que desse e viesse (ia preparada). A uma meia-hora do Piodão vejo no caminho uma rapariga estendida no chão e o seu namorado pede-me algo com açúcar como ajuda. Dou e sigo o meu caminho pensando que tenho de chegar o mais rápido possível ao Piodão pois estou sozinha, algo que não apenas o cansaço começa a apoderar-se de mim e desato a imaginar coisas. Já não consigo aproveitar a paisagem do vale que cai para a minha direita e que sei que é belíssimo, já só penso em chegar.


E chego. Ainda com força para tirar a última foto. 
O silêncio impera. Como se antecipasse o que estaria para vir nas próximas horas.

Fraga da Pena

Da Fraga da Pena já havia falado em tempos aqui.
Mas é lugar tão bonito, tranquilo e luxuriante que vale sempre a pena nova visita.





Localizado na Mata da Margaraça, na Área Protegida da Serra do Açor, a cerca de meia-hora do Piodão e cinco minutos da Benfeita, outra aldeia de xisto que merece uma visita, aqui vemo-nos envolvidos pela natureza em estado puro.






No meio de uma vegetação profunda descobre-se  escondida num desvio da estrada uma sucessão de quedas de água irreal, cortesia de um acidente geológico.
A maior cascata cai de cerca de 20 metros de altura para uma piscina de água transparente e fria. É difícil o sol penetrar por entre o intenso arvoredo, feito na maioria de carvalhos, castanheiros e medronheiros, pelo que este é o lugar perfeito para fugir do calor.






E avançando pelo terreno acima vários patamares se nos abrem e vamos encontramos recantos e mais recantos, lugares perfeitos para o que sonharmos, onde o silêncio apenas é interrompido pelo som da água a correr ou o ruído dos bichos que por ali habitam. 




Para enfeitar ainda mais o lugar não faltam sequer umas casinhas em xisto.
De volta à base, cá em baixo existe um parque de merendas, pelo que para além do fato de banho é obrigatório não esquecer a lancheira.

Subida ao Monte do Colcurinho

O Monte do Colcurinho é o ponto mais elevado do concelho de Oliveira do Hospital, erguendo-se a 1242 metros de altitude. 

Parte integrante da freguesia de Aldeia das Dez, por aqui habituamo-nos a referir-se-lhe apenas por “o Cabeço”.

O Cabeço funciona quase como um guardião. De quase qualquer canto do concelho de Oliveira do Hospital ou de Arganil o vimos ou, pelo menos, sentimos.

Subi-lo é uma experiência arrebatadora.

Podemos fazê-lo de carro ou a pé. 

De carro, a viagem é assustadora, numa estrada absolutamente inclinada e estreitíssima cheia de curvas. Não a faço há décadas, mas tenho o medo marcado até hoje.

A pé, a viagem assemelha-se mais à Via Sacra em sentido literal, que não no sentido figurado que nos é apresentada no Vale de Maceira, onde começa o percurso que agora proponho de caminhada até ao Monte do Colcurinho.

Vale de Maceira é o lugar do Santuário de Nossa Senhora das Preces, um conjunto de 13 capelas. A 13ª capela, a de Santa Eufémia, fica um pouco mais afastada das demais e é depois dela, junto à antiga casa do guarda florestal, que se inicia o percurso pedestre de subida para o Colcurinho. 

Daqui até ao Cabeço são cerca 4 ou 5 quilómetros numa penitência de uma hora e meia sempre a subir. Soa terrível mas a paisagem é redentora. 


O início deste caminho aberto no pinhal é um bom exemplo do que nos espera durante todo o percurso, subidas muito inclinadas. Mas aqui temos sombra, o que deixará de acontecer em breve.


Quando ficamos acima dos pinheiros começamos a perceber, enfim, o cenário que nos espera mais acima no Cabeço: uma paisagem ampla e totalmente aberta em todas as frentes. 


Num só olhar conseguimos abarcar Aldeia das Dez, Cimo da Ribeira, Goulinho e Vale de Maceira; 


num outro olhar Chão Sobral e Alvôco; 


num outro olhar ainda Gramaça, Porto Silvado e Vale do Torno.



O Colcurinho faz parte da Serra do Açor e embora não seja o seu ponto mais elevado é talvez o seu cerro mais mítico e celebrado. No seu alto se construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora das Necessidades. Conta-se que aqui apareceu a Virgem no ano de 1371 e até hoje este é local de peregrinação. 



Na região qualquer comemoração ou festa serve de pretexto para se subir ao Cabeço e lembro que há décadas até para cá viemos em romaria de madrugada à anunciação de uma passagem de um cometa ou chuva de estrelas. Não recordo o evento, mas recordo a noite gelada de verão que passámos enroladas em cobertores. E provavelmente também ventosa. Não é à toa que a paisagem é polvilhada por antenas eólicas. Por isso que à medida que vamos subindo a vegetação torna-se mais rasteira e vai escasseando e a aridez toma conta do lugar. 







Região de xisto, a urze e o medronheiro fazem-lhe companhia.



A aproximação ao Cabeço é um momento de alegria e a chegada ao topo uma verdadeira conquista. Feito com esforço, distinguido com um panorama superior. 


Para além das vistas que já vínhamos alcançando ganhamos agora a vista para a encosta onde está localizado o Piodão e o círculo fica completo.

Aqui já não interessa o que é o quê. Tudo se mistura num abraço infinito. Serra do Açor, Serra da Estrela, Serra de Montemuro, Serra do Caramulo. Ainda para mais, desta vez estou sozinha a 1242 metros de altitude e não vejo ninguém a quilómetros de distância. O mundo é o que eu quiser que seja. 

Contemplo a paisagem imensa e descanso no topo do meu mundo.

A descida é fácil. Se na subida vim pela frente debruçada para o Chão Sobral, na descida aproveito para me debruçar sobre a Gramaça, ambas também povoações distantes da freguesia de Aldeia das Dez.


Aldeia das Dez – Avelar – Alvôco – Aldeia das Dez

Avelar é aquela povoação que fica para lá do campo da bola, mas que em tantos verões passados em Aldeia das Dez nunca tinha tido curiosidade de espreitar.

Desta vez cheguei a Aldeia, calor tórrido a pedir um mergulho no rio, mas decidi adiar o refresco. O plano era caminhar até ao Avelar a pé, pela estrada, e depois daí até Alvôco, cair no rio e voltar por caminhos para cima até Aldeia das Dez.
Assim o fiz. 

Passei a fonte do Cabo Lugar e, como é da praxe, dei as boas tardes ao casal que aí se abastecia de água. Passei o que era a Casa do Povo e o Cemitério, já não vi o campo da bola onde há décadas ia fazer claque para o pinhal para que os coxos da nossa aldeia metessem golos, e reparei então que por esta estrada podemos não só sair para Alvôco como até chegar ao Chão Sobral. 



Afinal parece que o Avelar não é o fim do mundo. Durante anos pensei que a estrada para lá era de terra batida e que não havia saída. Nada mais errado. A estrada é de asfalto e como todas por aqui: a uma curva segue-se outra ainda mais apertada; se a ida é sempre a descer a vinda é sempre a subir; a vegetação é carregada de pinhal; a paisagem é fabulosa. 

Eis mais um pedaço da Serra do Açor.

O Avelar é um conjunto de pouco mais de uma dezena de casas, terá igualmente pouco mais de uma dezena de habitantes e faz parte de Aldeia das Dez. 


A sua localização encravada num vale é surpreendente. A serenidade é tanta que deixando o povoado para trás, já a uma certa distância do Avelar e a caminho de Alvôco, podemos ver e ouvir o chocalhar dos rebanhos que pastam lá em baixo.
Voltemos, porém, um pouco atrás na história, mas não no caminho. De Aldeia das Dez ao Avelar são cerca de 3 ou 4 kms por estrada (não sei se haverá caminhos melhores). A natureza envolve-nos de uma forma esmagadora e é difícil não nos deliciarmos com a paisagem, mas o calor já tornava a caminhada estafante quando a cerca de um quilómetro do destino o dito casal da fonte passou de carro e me ofereceu boleia, pelo que a aceitei.

Cumpre aqui referir porque apenas neste ano de 2017 se terá feito um clique na minha vontade de visitar o Avelar. Meses antes tinha lido várias cartas entre o meu avô – que não cheguei a conhecer – e um seu tio emigrado na América em que tema recorrente era as perguntas sobre a Aldeia e o Avelar. A família paterna do meu avô era do Avelar. E, mundo pequeno, claro que fiquei a saber que o condutor da minha boleia (que afinal não era um casal) era casado com uma das primas do Avelar do meu avô. O mergulho no rio ficou adiado por mais uma hora e o passeio transformou-se em conversa e troca de (escassas) memórias.


O Avelar é apenas um ponto de passagem. Embora possua uma igreja, à semelhança do Chão Sobral são as badaladas do sino de Aldeia das Dez que se fazem sentir. As poucas pessoas que aqui vivem fazem-no num completo isolamento. Passei por aqui no dia 15 de Junho, dois dias antes do fatídico dia 17 do fogo de Pedrogão Grande, mas já pensava como seria possível viver aqui com o terror de imaginar o fogo a avançar sobre nós, tão carregada é a vegetação. Aliás, curiosa e inequívoca foi a expressão de um primo (aqui todos devem ser ainda primos) quando após se ter espantado por eu andar sozinha lhe perguntei se havia algum perigo nisso. Respondeu-me que o único perigo por aqueles lados era o “homem negro”. O fogo, pois claro. E deve ser mesmo o único perigo, porque até a chave de casa ainda fica na porta, pelo menos durante o dia.




O caminho de Avelar até Alvôco são também uns 3 ou 4 kms, mas agora numa descida mais pronunciada. A paisagem continua agradável, pura floresta.

Alvôco das Várzeas fica à beira do rio Alvôco, afluente do Alva, num vale com vista para a Serra da Estrela. Vale a pena conferir a vista da estrada nacional que segue da Ponte das Três Entradas para a Vide, do lado contrário à que entrámos agora, só para compreender a sua localização absolutamente soberba. 


A estrada que vem do Avelar vai ter precisamente à ponte medieval de Alvôco, destaque total desta aldeia. Datada do século XVI, é pura elegância do alto dos seus dois arcos. Bastante inclinada, do seu topo obtém-se mais uma vista privilegiada. 






Lá em baixo fica a praia fluvial de Alvôco, diz-se que aquela que possui das águas mais limpas do país. A notar pela transparência das suas águas, não duvido. E fica então cumprido objectivo do tão desejado mergulho, ainda para mais sob uma ponte medieval. Cenário mais inspirador era difícil de encontrar. 



A subida de volta para Aldeia das Dez começa plana, nas margens do rio num vale junto à Moenda. A designação Moenda vem dos vários moinhos que por aqui existiam, alguns ainda em laboração pela região. Passamos por um rebanho e por uma tímida ribeira  devidamente acompanhada pelo tranquilo som da sua água a correr e o descanso termina. 





A partir daqui é sempre a subir. Menos de meia hora e eis que se avista formosa a igreja da nossa Aldeia miradouro.

(antes d)O Fogo

Os próximos 4 posts dedicam-se a passeios pelos concelhos de Oliveira do Hospital e de Arganil efectuados durante os meses de Junho e Setembro e foram escritos antes dos arrasadores fogos de 15 de Outubro. A paisagem de todos estes locais encontrava-se luxuriante, uma vegetação que desde 2005, data dos últimos grandes fogos na região, crescia livre e sem amarras. Não obstante, o tom das gentes que por aqui habitam era premonitório: não havia quem não temesse e não suspeitasse que o fogo estava para vir.