Jardim Gulbenkian

O Jardim Gulbenkian é uma obra-prima do paisagismo moderno. Não é segredo para nenhum lisboeta, mas os seus cantos e recantos continuam a surpreender pela diversidade de ambientes que permitem vivenciar.

As suas origens remontam ao século XVIII, à quinta conhecida como Quinta do Provedor dos Armazéns, propriedade de Fernando Larre, no lugar de Palhavã, então uma das portas da cidade de Lisboa. Era uma quinta de recreio típica da época, com edifício senhorial, jardim, pomar, horta, vinhas e campos de cereal. Na segunda metade do século XIX, o palácio e a quinta foram adquiridos pelo conselheiro de Estado José Maria Eugénio de Almeida e aí começaram as transformações da quinta, com a criação do Parque de Santa Gertrudes, sob a influência do desenho de jardins da escola francesa, com lago e vegetação autóctone e exótica. Em 1883, com a morte do conselheiro, o parque foi cedido para a instalação do Jardim Zoológico de Lisboa que por aí ficou por uma década. Depois disso, foi lugar de velódromo, hipódromo e feira popular, parte da vida social lisboeta.

Até que chegamos a 1957, ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian decide adquirir parte do Parque de Santa Gertrudes para aí instalar a sua sede, conforme desejo do seu fundador. Os arquitectos Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy d’Athouguia ficaram responsáveis pelo projecto dos edifícios da sede e museu e os arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto pelo projecto de concepção dos jardins, todos trabalhando de forma interdisciplinar para que o resultado fosse o que se vê hoje, o de uma brilhante integração e fruição de todos os elementos do conjunto. Em 1969 as obras ficaram concluídas e a Fundação e respectivo Jardim abriram as suas portas. Desde aí o espaço foi objecto de algumas transformações, umas radicais, como a construção do edifício do Centro de Arte Moderna (1983, arquitecto John Leslie Martin), outras de continuidade, como a remodelação do jardim (2003, arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles). O melhor que se pode dizer é que a Gulbenkian pode ir mudando, mas não perde o seu carácter, o que, acredita-se, possa continuar a acontecer com a ampliação do jardim – e edifício da colecção moderna – prevista para 2021, sob projecto do arquiteto Kengo Kuma e do paisagista Vladimir Djurovic, vencedores do concurso internacional para a remodelação dos jardins da Gulbenkian.

“Gostaria que se tornasse um grande amigo da natureza porque a criação de uma relação íntima com a natureza é motivo de profunda satisfação na vida”, Calouste Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu, por vontade do seu fundador, ter a sede em Lisboa e todos nós só o podemos agradecer ao magnata do petróleo. Com fins caritativos, artísticos, educacionais e científicos é, igualmente, senhora deste espaço que temos vindo a apresentar historicamente e que hoje é não apenas central geograficamente na cidade como também na vivência dos seus habitantes. Para aqui vimos admirar arte, escutar música, pesquisar documentos e participar em actividades educativas várias. Em todas estas viagens não prescindimos, nem por uma única vez, de um passeio pelo seu Jardim.

Jardim modernista, os elementos vegetais jogam de forma magistral ao redor dos edifícios e, mesmo sem lhes virar as costas, é possível sermos tomados apenas pela natureza.

O espaço de jardim não é um mero complemento, antes um companheiro inseparável, sendo prova maior disso a forma soberba como quando dentro do museu nos distraímos das obras de arte para admirar o jardim que é delas uma extensão. Já tínhamos avisado, o Jardim Gulbenkian é ele próprio uma obra-prima.

São caminhos, uns em clareira e outros em túnel, que se vão cruzando, criando espaços intimistas e micropaisagens, reproduzindo os momentos de descoberta e de felicidade. O contraste da luz e da sombra é perfeito, com muitos lugares onde o sol parece pedir licença para filtrar entre as folhas.

O coberto vegetal é variado e vemos até bambus. A água é uma presença constante, com o riacho a correr em grande parte dos caminhos, criando pequenas cascatas em diversos pontos. E a avi-fauna do jardim uma companhia prazerosa, fazendo-se sentir quer pela sua melodia quer pela sua figura. O mobiliário – bancos, caixas de luz ou caixotes de lixo – é todo em betão, mas nem por um momento endurece a paisagem. Sentar-mo-nos num dos bancos cinzentos de desenho simples num dos recantos do jardim, sem quase perceber se faz sol ou chuva, apenas escutando o chilrear de um pássaro ou a água a correr, é uma experiência comum no Jardim da Gulbenkian. Um convite à evasão ou à meditação, não sendo por isso de estranhar ver um praticante de ioga num qualquer ponto do jardim. Porque todo e cada espaço do jardim é ideal para alguma actividade: meditar, ler, namorar, trabalhar, piquenicar, apanhar sol. O extenso relvado junto ao lago e ao edifício sede é o mais concorrido para banhos de sol com toalha estendida e biquini vestido e tudo.

O jardim tem ainda espaço para um belo anfiteatro ao ar-livre e, depois, espalhados de forma precisa ao longo do jardim vamos tendo vários elementos escultóricos contemporâneos, mais um testemunho da ligação entre paisagismo e cultura, as duas marcas da sede da Fundação.

Talvez a mais famosa das esculturas do jardim seja aquela que todos podemos ver quando passamos na Praça de Espanha, Calouste Gulbenkian sentado de forma majestática, da autoria de Leopoldo de Almeida – a imagem foi reproduzida a partir de uma fotografia tirada durante a sua visita ao Egipto, com Gulbenkian junto à estátua do deus Hórus, no templo de Edfu.

A outra escultura, igualmente icónica, é o Monumento a Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação, obra de Pedro Cabrita Reis. Uma construção em betão com três patamares com ligação por escadas. Não há portas nem janelas, a construção prossegue e a Fundação quer-se como o betão: sólida e perene.

O Castelo de Lisboa

Numa colina sobre o Tejo ergue-se o Castelo. Lisboa é cidade antiga. Antes de sermos lisboetas, habituámo-nos a receber a visita dos fenícios, dos romanos, dos visigodos e dos muçulmanos, até que chegou D. Afonso Henriques e os seus amigos cruzados e a Alis Ubba (dos fenícios), a Olissipo (dos romanos), a Ulixbuna (dos visigodos) e a Al-Ushbuna (dos muçulmanos) tornou-se a Lisboa que hoje nomeamos.

As colinas, e em especial esta a que agora dedicamos a nossa atenção, já lá estavam todas no século VII a.C., quando o lugar começou a ser povoado. Foram, no entanto, os romanos quem no século I a.C. primeiro começaram a construir uma cidade estado murada, com uma construção primitiva no topo do que hoje conhecemos como colina do Castelo, muralhas essas que acabariam por ser aproveitadas pelos muçulmanos para, a partir do século X ou XI, erguerem a sua Cerca Moura. Da Cerca Moura, ou Cerca Velha, pouco resta hoje de visível para além do troço junto ao terraço das Portas do Sol (escadaria da Rua Norberto Araújo), donde se avista o que era então o arrabalde de Alfama encosta abaixo até desaguar no Tejo. Eram, então, cerca de 1250 metros de muralha e mais de 20 torres (são visíveis, ainda, troços de muralha dentro de vários edifícios como os da Fundação Ricardo Espírito Santo e da Casa dos Bicos) e, hoje, um circuito pedonal circular entre a Rua Chão da Feira e a Rua Milagres de Santo António, com 16 totens informativos espalhados pelo caminho, permite-nos conhecer este sistema defensivo medieval que perdurou até à construção da Muralha Fernandina, ou Cerca Nova, no século XIV, sete vezes maior do que a anterior.

Se destas muralhas que acabaram por ser aglutinadas pelos espaços urbanos pouco vemos, a muralha da Alcáçova, essa, ainda lá está para recriarmos uma imagem do nosso passado medieval. Da actual Rua Chão da Feira entramos para a parte mais alta da medina de outrora, a qual era protegida, precisamente, pela Alcáçova. Era aqui, no topo da colina, que ficavam os bairros residenciais da elite administrativa, religiosa e militar e o castelo. E para sul desenvolvia-se o núcleo urbano da cidade – a medina -, com comerciantes, artesãos, banhos públicos, mercados e mesquita, tudo isso ainda no interior da cerca urbana. Só depois vinham os arrabaldes.

Em 1147 D. Afonso Henriques e o seu exército de cruzados levaram 17 semanas de cerco a Al-Ushbuna até a tomarem. A construção muçulmana não era fácil de penetrar. Para além de estar localizada no alto de uma escarpa, a cada porta seguiam-se estreitos corredores em cotovelo, o que tornava difícil a entrada mesmo depois da porta derrubada, encurralando o invasor. Aliás, quando entramos pela Rua do Chão da Feira percebemos isso mesmo, uma entrada logo seguida de uma curva apertada.

A partir daqui estende-se o castelo e o bairro do Castelo.

São 4 ruas e 1 beco, mais coisa menos coisa. Ruas sempre estreitas, como já o eram aquelas que rodeiam o bairro e a Alcáçova (é obrigatório iniciar este périplo pelo Castelo por um passeio pela Rua da Costa do Castelo e/ou pela Calçada do Menino de Deus, onde os bairros da Mouraria e de Alfama se confundem com o bairro do Castelo).

E 2 praças separadas por um pano de muralhas e 11 torres.

Na primeira praça, a Esplanada, apesar da estátua de D. Afonso Henriques marcar o momento histórico da conquista da cidade, a história é completamente ultrapassada pelo miradouro em que se transforma o Castelo. A paisagem que daqui se avista é épica, tudo se registando aos nossos pés, 360° graus de ícones lisboetas.

A segunda praça é vivida já no interior do castelo, ultrapassado o fosso e a barbacã. Subimos à muralha, por ela caminhamos, subimos a uma torre, descemos, caminhamos mais um pouco pela muralha, subimos a outra torre, e assim vamos continuando. Por cada torre que passamos acrescentamos mais uma vista fantástica para um ponto cardeal da nossa Lisboa. É o Tejo, é a Baixa, é a Graça, é São Vicente, tudo, tudinho. Como curiosidade, destaque para duas destas torres. Uma, a Torre do Tombo, foi o lugar do inicial arquivo documental do reino. Outra, a Torre de São Lourenço, a única construída num lugar baixo, ao fim de uma longa escada que nos leva quase até à actual Praça do Martim Moniz – era lá abaixo que os antigos habitantes iam buscar água em segurança, com a Torre a servir de garantia de acesso seguro a um poço situado fora do castelo.

O Castelo de São Jorge, nome pelo qual o conhecemos desde o reinado de D. João I, no século XIV, não terá sido usualmente residência de reis. Talvez D. Sebastião tenha usado o lugar como paço, mas terá sido o último a fazê-lo e com a dinastia Filipina o paço real passou definitivamente para o Paço da Ribeira, no Terreiro do Paço, tendo o Castelo a partir daí tido sobretudo uma função militar, de defesa de quem vivia na Alcáçova e suas imediações.

Foi já no decorrer do século XX que se redescobriu o Castelo de São Jorge. Nos anos 1938-40 foi objecto de obras de restauro, à semelhança de muitos castelos país fora, numa recriação nacionalista do Estado Novo (daí que se afirme que o Castelo de São Jorge é uma criação do Estado Novo). A essa época já o Castelo tinha chegado em muito mau estado, ruína mesmo, em consequência dos terramotos de 1530 e de 1755 e do descaso dos Homens que o tinham maltratado com o uso de um conjunto de quartéis. Se foram essas obras de há apenas escassos 80 anos lhe deram a imagem de fortificação com torres e ameias que vemos hoje, foi também desde aí que se tem vindo a perceber os vestígios do antigo paço real e da alcáçova islâmica e as vivências de outrora. Trabalhos arqueológicos que continuam o seu curso permitem-nos traçar 3 épocas de presença humana na colina do castelo: idade do ferro (com vestígios de estruturas habitacionais que remontam ao século VII a.C.), bairro islâmico (século XI – XII, ligado à fundação do castelo e área residencial das elites do governo da cidade) e época cristã (século XV a XVIII, com antigo paço episcopal e palácio dos Condes de Santiago, o último dos palácios da antiga alcáçova medieval que se manteve habitado até ter ruído com o terramoto). Marcas do conjunto destes vestígios podemos encontrá-los no “sítio arqueológico” que testemunham estes três períodos significativos da história de Lisboa. E na exposição permanente instalada no espaço daquele que se acredita ter sido o antigo paço real podemos ainda ver uma colecção de objectos encontrados na área arqueológica, os quais permitem traçar a evolução do povoamento desta colina que permaneceu o centro da cidade de Lisboa até ao século XVI.

No sítio arqueológico vemos a igreja da Alcáçova, a igreja Santa Cruz do Castelo, a qual já existiria quando os muçulmanos chegaram à cidade.

Invenção do Estado Novo ou não, o que é certo é que o Castelo de São Jorge é o monumento mais visitado do país e o miradouro número um da cidade de Lisboa. Assim como já o tinha sido na cidade de Alis Ubba, de Olissipo, de Ulixbuna e de Al-Ushbuna.

Quinta da Regaleira

A um vírus oportunista, uma resposta cheia de oportunidade. Não há turistas estrangeiros no nosso país e a maioria dos locais ainda se coíbe de passear? Então, toca de rumar a Sintra para aproveitar para ver a vila sem enchentes e, com sorte, ter um dos seus belos monumentos só para nós.

Foi isso que aconteceu na minha mais recente visita à Quinta da Regaleira, em Junho. Chegada logo à hora de abertura num dia de semana, andei pelos seus 4 hectares durante quase três horas cruzando-me apenas com meia dúzia de pessoas bem contadas. A beleza, o encanto e o misticismo da Regaleira só para mim foi um sonho tornado realidade.

A uma distância facilmente percorrida a pé desde o centro histórico de Sintra, é mesmo de sonho que se trata quando se menciona a palavra Regaleira. Quando em 1840 D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida, primeira Viscondessa da Regaleira, comprou os terrenos da quinta que existia já desde os finais do século XVII esta era conhecida como Quinta da Torre (pela torre hoje adossada à actual Casa da Renascença). Foi apenas no princípio do século XX que o lugar se transformou no Palácio e Quinta da Regaleira que hoje conhecemos. Tudo graças ao sonho do seu novo proprietário, António Augusto Carvalho Monteiro, o Monteiro Milhões, nascido no Brasil e com estudos em Coimbra, que com Luigi Manini, cenógrafo do Teatro São Carlos e arquitecto do Palácio do Buçaco, deram a Sintra uma obra-prima. A Regaleira conjuga natureza e arquitectura e condensa em si tudo o que Sintra é: romântica e artística, misteriosa e requintada. E daqui, imersos na vegetação intensa e luxuriante da Serra de Sintra, não faltam pontos de vista de excelência para os outros ex-libris de Sintra, o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena e o Palácio da Vila.

A entrada na Quinta da Regaleira é efectuada mais acima na estrada que nos há-de deixar no Palácio de Seteais. Até lá passamos por pormenores deliciosos no caminho, como uma fonte, uma estatueta em cima do muro e os contornos da Regaleira cheia de pináculos e merlões ao nosso lado esquerdo, claro.

Entramos pelo edifício que outrora serviu de Cocheiras e sem demora subimos em direcção ao Portal dos Guardiães, a primeira paragem numa viagem por jardins, grutas, lagos e edifícios majestosos. No amplo Terraço dos Mundos Celestes, as torres do Zigurate ganham destaque, apenas um dos muitos miradouros da Quinta. Ao elegante semi-circular Portal dos Guardiões não faltam igualmente as torres, mas nele há ainda os elementos decorativos da fonte na sua base central a chamar a atenção.

Ao lado fica o Poço Imperfeito, mas a nossa mente só tem espaço para pensar em chegar ao Poço Iniciático. Sem pressas, porém, adentrando pela floresta que nos cobre totalmente com a sua vegetação, um ambiente escuro e fresco, uma espécie de preparação para o que nos aguarda no Poço. A Regaleira está cheia de simbologia, diz-se que mitológica, alquímica, maçónica, esotérica, templária, enfim, tudo o que seja dado ao oculto encontrará aqui uma explicação. O Monteiro Milhões, para além de milionário, era um homem curioso e de vasta cultura e sensibilidade, atreito às questões científicas e filosóficas. No entanto, a simbologia que pretendeu expressar com a ajuda de Manini (relembremos, para além de arquitecto também cenógrafo) não é acessível a todos – a mim, por exemplo -, não sendo fácil perceber aqui uma visão cosmológica, referências ao binómio paraíso / inferno ou viagens iniciáticas. O que é fácil perceber, sim, é a aura de magia e mistério ao nosso redor.

E talvez em nenhum lugar da Regaleira como no Poço Iniciático se sinta esse poder. As rochas dispostas de forma quase artística não fazem prever o cenário que está para lá delas. Ou, melhor, abaixo delas. É um poço fundo, em espiral, com diversos patamares cénicamente preenchidos com janelas em arco. Este mundo é verde, estamos nas entranhas da terra, apenas uma nesga de luz natural acima de nós que se vai tornando cada vez mais ténue à medida que descemos. O silêncio apenas é perturbado pelas gotículas que teimam em cair num ritmo lento e cadenciado. Embora as muitas interpretações (ou até nenhuma), é aqui que melhor percebemos a presença de três mundos que se complementam: o céu, a terra e o mundo subterrâneo. Do Poço sai um percurso subterrâneo (encerrado) que o liga quer ao Portal dos Guardiões quer à Cascata (antes de deixarmos o Poço Iniciático há que referir que não existe qualquer prova de que este ou qualquer outro espaço da Regaleira tenha sido utilizado para práticas rituais).

Saindo desta viagem subterrânea quase transcendente, continuamos a subir, agora já na superfície a céu aberto, mas com a vegetação como protectora. Passamos pela Gruta da Virgem, uma de muitas, mas todas especiais. Seguimos junto ao muro, com o Castelo dos Mouros a deixar-se ver, sem mistério, no cimo da Serra.

O Lago da Cascata, o tal com ligação subterrânea ao Poço Iniciático, bem como ao Poço Imperfeito e a diversas grutas, é um dos momentos altos da decoração natural da Regaleira. Desenvolve-se por vários níveis ligados por escadas, permitindo-nos uma vez mais uma imersão na abundante vegetação. E faz-nos recordar como a água sempre foi importante deste os primórdios da Quinta, ainda ela não levava o nome actual. A água entrava aqui a partir dos aquedutos dos Anjos e da Serra e o actual sistema hidráulico é distribuído por uma série de minas, depósitos e diferentes espaços de água, como lagos, cascatas, fontes e charcas, para além de uma cisterna.

A água é, sabe-mo-lo, um elemento que confere romantismo ao cenário. E as fontes adensam-no. A Fonte da Abundância, por exemplo, está decorada com embrechados e figuras escultóricas. Igualmente, no espaço de recato que a envolve, com um banco e mesa, vêem-se elementos decorativos como uns vasos com a figura de veados. Mais uma vez, deste espaço pode retirar-se uma série de interpretações da simbologia que apresenta, como as letras inscritas, o altar e a figura da concha e do peixe. Não o querendo interpretar, aprecie-mo-lo, que já enche bem as medidas.

Também a Gruta da Leda, abaixo da Torre da Regaleira e sua varanda-galeria miradouro, tem um ambiente único. Este espaço interior com uma acústica e ambiente incríveis (parece que ainda estou a ouvir e sentir a água a cair) não é bem uma fonte, antes um tanque para onde cai uma cascata adornada pela figura de uma dama com cisne ao lado e pomba na mão – mais uma dose de simbologia para ser interpretada.

Aproximamo-nos cada vez mais do coração da Regaleira. Passamos a estufa com o painel de azulejos azul e branco na sua fachada e eis-nos logo acima da Capela da Santíssima Trindade e do Palácio da Regaleira.

É aqui, com estes dois edifícios, que o estilos manuelino e romântico revivalista atingem o seu apogeu, mas também os estilos gótico e renascentista. Ambos foram construídos com o recurso a materiais nobres, como o calcário, ao contrário dos demais edifícios da Quinta que empregam o granito local, incluindo a vizinha Casa da Renascença, sede da Fundação CulturSintra (a Câmara Municipal de Sintra é a proprietária da Quinta da Regaleira, que após obras de restauro abriu as portas aos visitantes em 1997).

A Capela da Santíssima Trindade é exuberante na sua fachada. As portas e janelas são super decoradas e os merlões e pináculos inundam a cobertura, incluindo a torre alta e esguia. Mas o espaço do seu “adro” é tão exíguo que não cabe na minha foto. Segue este banco como exemplo da sua hiper-decoração.

Estes elementos decoram igualmente a cobertura do Palácio. E aqui vemos a profusão dos estilos arquitectónicos referidos anteriormente – neo-românico, neo-manuelino, neo-renascentista e neo-gótico – em alegre comunhão, num equilíbrio perfeito. O que António Augusto Carvalho Monteiro pretendeu e Luigi Manini e sua equipa executaram foi uma mescla dos mais representativos estilos em território nacional, uma homenagem à história e à epopeia vivida pelos portugueses, daí o revivalismo arquitectónico. No interior do palácio visitamos diversas das suas salas. Bem decoradas, o que mais impressiona, todavia, são os estratégicos pontos de vista para desde o interior se contemplar as panorâmicas majestáticas da Serra de Sintra no exterior, incluindo o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena.

Ao redor da Capela e do Palácio apreciamos um jardim formal carregado de deliciosas espécies arbóreas, sendo que na altura da minha visita eram as hortênsias que tomavam todo o protagonismo.

Não deixamos a Regaleira sem conhecer mais umas grutas e lago, sendo que a Gruta do Labirinto é os dois na mesma medida. Tempo ainda para visitar a Loggia dos Pisões, a qual se vê da estrada que passa junto aos muros da Regaleira. Mas agora, cá dentro, podemos apreciar em detalhe os seus painéis de azulejo ao longo e ao fundo da escada que dá para o pequeno portão lateral da Quinta.

Em direcção à saída da Quinta percorremos, então, o Patamar dos Deuses, uma longa alameda ladeada por espécies exóticas e nove estátuas representando deuses mitológicos que desembocam no jardim e Palácio da Regaleira.

Nesta visita não houve nevoeiro que adensasse o ambiente de mistério da Regaleira e de Sintra. Não foi necessário para que o percebêssemos, e o céu azul e os jardins floridos realçaram ainda mais o esplendor de todos os elementos da Quinta.

Pela Serra de Sintra, com início e fim na Barragem da Mula

Outro lugar onde vamos querer voltar rapidamente em tempos de desconfinamento é a Sintra. Sintra é infinita. Não nos cansamos nunca de a correr porque ela é imensa no que há para descobrir (e já a registámos diversas vezes aqui no blog). Desta vez vamos pelos trilhos da Serra de Sintra desde a Barragem da Mula em direcção aos Capuchos, ainda a aguardar que o “novo” Convento reabra depois dos tempos de restauro, com volta larga até ao ponto inicial.

A Barragem da Mula, ponto de partida para muitos caminhos, retém por momentos a água do Rio da Mula, rio que nasce na Serra de Sintra e que após uns breves 10 kms de curso desagua no Atlântico. Esta barragem envolta pela natureza não está disponível para actividades aquáticas, mas as caminhadas junto a ela servem bem qualquer propósito de evasão.

Seguimos por uma curta subida por entre pinheiros e eucaliptos com a água desta espécie de lago ao nosso lado. E haveremos de a contornar até meio, de forma a melhor observarmos a barragem de outro ângulo.

O fio de água do Rio da Mula é bem estreito, a maior parte das vezes até nem damos por ele, mas as pequenas pontes de madeira sucedem-se. Algumas delas num estado tal que é um convite descarado a meter o pé na poça.

Só que muitas destas pontes até estarão aqui colocadas não para se atravessar algo, mas para tornar o trilho mais atraente e desafiante para o pessoal do BTT. Estes trilhos não são propriamente o lugar ideal para se caminhar confortavelmente apartado do mundo. Porque são difíceis de vencer a pé sem recurso à ajuda de bastões, por exemplo, e porque pode vir de lá lançada uma bicicleta a voar e aterrar mesmo em cima de nós. Mas enfim… fui lá parar não sei como, talvez por falta de sinalização ou por falta de atenção à sinalização, e por aí segui com sorte de não me cruzar assim com tantos radicais da bicla.

A melhor alternativa, embora não tão bonita como o intenso mergulho na floresta de trilhos, é seguir pelo estradão de terra aberto propositadamente para os caminhantes e para os ciclistas menos afoitos.

Mas depois de uns quantos metros pelo estradão com arvoredo de ambos os lados, logo voltamos à imersão na floresta. Uma relativamente extenuante subida num ambiente incrível leva-nos na direcção do Monge. Aqui ficam os Tholos do Monge, um monumento megalítico a 490 metros de altitude. Não há vistas, porém, uma vez que estamos mais uma vez rodeados de vegetação.

As vistas aparecerão mais adiante. Depois de percorremos mais um estradão com os troncos das árvores cobertas de hera, uma nesga deixa-nos vislumbrar a Costa de Sintra, com a forte ondulação a tornar branco o azul da água.

Após uma boa estirada por tapadas, num percurso circular que nos levará de volta ao ponto inicial, subimos até à Pedra Amarela. Aqui sim, as vistas são desimpedidas e soberbas. Para o Atlântico, para a Peninha, para a Pena, para tudo. O ambiente é incrível e as próprias rochas deste alto a 408 metros ajudam ao cenário.

Do Monte da Pedra Amarela até à Barragem da Mula é sempre a descer. Aqui a floresta está neste momento tristonha. Muito terá ardido em incêndios recentes e muitas espécies invasoras ajudaram à desolação. Um exemplo: após o grande incêndio de 1966 na Serra, foram aqui introduzidas espécies exóticas que se expandiram de forma agressiva, sobretudo a acácia, rivalizando e destruindo a vegetação prévia. Nos últimos anos tem estado em andamento um projecto de reflorestação desta parte da Serra de Sintra, para que possamos usufruir da exuberância e equilíbrio pela qual é conhecida. Outro aspecto menos agradável é o barulho intenso e constante produzido pelos carros no autódromo. Não tem piada nenhuma este outro tipo de espécie invasora do ambiente, impossibilitando melodias mais condizentes.

O Parque da Pedra Amarela e seu Campo Base é um parque aventura com muitas actividades, como slide, pista de arborismo, escalada, rappel e orientação, entre outras. Não nos aventurámos em nenhuma delas e subimos antes até à elevação directamente acima da barragem. São as vistas, sempre elas, que nos movem. E aqui nós deixámos ficar a apreciar o esplendor natural da Serra de Sintra, até que, saciados de beleza, iniciámos então a descida dos últimos metros dos cerca de 11 kms deste passeio com início e fim na Barragem da Mula.

Briant Barrett – Relato da Minha Viagem aos Açores 1812-14

“As montanhas circundantes estavam arborizadas, até aos cumes. Tudo era silêncio, só se ouviam as canções dos pássaros ao entardecer, o vento a soprar com uma ligeira brisa através das árvores e o murmúrio das águas dos riachos que corriam, deitando pequenas gotas no imenso Atlântico.”

Não se sabe ao certo quem foi este Brian Barrett que andou pelo arquipélago dos Açores no princípio do século XIX. Mas sabe-se que deixou um manuscrito sobre o relato dessa viagem, manuscrito esse que esteve na posse de um coleccionador alemão proprietário de uma loja de antiguidades de Ponta Delgada antes de ser depositado na Biblioteca Pública da cidade. No ano de 2017 acabou por ser publicado em livro pela editora Letras Lavadas.

Brian Barrett seria um oficial britânico que terá procurado as ilhas para convalescer de alguma doença, o que não era raro na época. No manuscrito agora transformado em livro dá-nos uma impressão histórica, cénica, política e económica do arquipélago. Começa com uma elegia ao génio do Infante D. Henrique, O Navegador, pelo planeamento e invenção de meios para concluir a empreitada da descoberta de novas terras e pelo seu “temperamento forte e activo” o terem convencido de que as primeiras ilhas descobertas – Porto Santo e companhia, em 1419 – “não eram as únicas no vasto Oceano Ocidental e que a Atlântida de Platão poderia não ser considerada, apenas, fábula ou que o Oriente pudesse, talvez, ser alcançado por uma rota contrária”.

Ao escrever sobre a descoberta dos Açores – Formigas em 1431 e Santa Maria no ano seguinte, tendo um escravo negro avistado daqui São Miguel uns anos depois -, percebe-se que Barrett havia lido Gaspar Frutuoso, o pioneiro da historiografia dos Açores e ele próprio autor da obra a que dedicámos o post anterior, “Saudades da Terra”.

Barrett escreve sobre episódios curiosos, como aquele em que a natureza teria lançado a montanha para o mar e que os mouros que por ali andavam imploraram para ser retirados daquela boca do inferno. Refere os ataques espanhóis, “invejosos que eram pelas descobertas navais de Portugal”, bem como ingleses e franceses (não esquecer que à data em que Barrett passou pelo arquipélago vivia-se as Guerras Napoleónicas). Percorrendo a história, lembra que por morte de D. Sebastião a sucessão espanhola por parte dos Filipes não foi bem recebida nas ilhas, com lutas em especial na ilha Terceira. Escreve sobre ataques e saques e sobre o cerco de Angra após a proclamação de D. João IV como rei de Portugal em 1640. Também dos ataques dos mouros. No século XIX, aquele em que visitou as ilhas, finalmente a acalmia.

Das 9 ilhas do arquipélago apenas não passou pelas Flores e Corvo, por dificuldades e insegurança no transporte. Adverte que, “para se entender a narrativa descrita por um viajante, que tenha passado por estas ilhas, é extremamente útil ter-se alguns conhecimentos da própria língua portuguesa. Os nomes de quase todos os lugares, destas ilhas, derivam das suas características físicas ou de algum aspecto acidental que sensibilizou, fortemente, os seus primeiros povoadores”.

A ilha Terceira foi a que mais o seduziu, “metade composta por montanhas e a outra parte por boas planícies”, acreditaria que “não existisse uma ilha mais bela do que esta”. Apesar da Terceira ser para o autor “a rainha de todas as ilhas”, o Faial “tem mais beleza do que qualquer das outras ilhas dos Açores”. Parece confuso ou contraditório? Não faz mal, duzentos anos depois também ainda poucos de nós conseguimos produzir uma afirmação definitiva sobre qual a ilha mais bela. O que todos acabamos por concordar é que, sim, a “passagem do canal oferece paisagem mais encantadora que se possa imaginar”. As gentes do Faial eram para ele as mais sociáveis e o Pico “o pomar do Faial”, a ilha depois da Terceira com a melhor fruta. Ocupada pelos do Faial no Verão por o tempo ser aqui mais fresco e para prepararem as vindimas, no Pico Barrett aproveitou para subir à montanha mais alta de Portugal. E a descrição da jornada, curiosamente, possui semelhanças com a que Raul Brandão haveria de fazer à volta de um século depois, com pernoita numa gruta a que chamam Cabeço das Cabras. No Pico gaba ainda, para além da fruta, o gado de “superior qualidade” em relação às outras ilhas, assim como as pastagens. E o vinho, seu principal produto. Foi ver os vinhedos “só por curiosidade porque eu não conheço vista mais triste do que estes vinhedos”, “lava negra como carvão”. Mas, conclui, “com excepção da magnífica montanha, a ilha do Pico tem pouca atração turística.”

Sobre a caldeira do Faial escreve que “no fundo formou-se uma planície, parecendo um mundo em miniatura que é frequentado por lenhadores, pastores e o seu gado. Existe, também, ali, uma lagoa com vários acres, com uma grande planície revestida de camomila silvestre, pastagens, colinas, bosques e vulcões”.

De São Jorge e suas fajãs, “uma pessoa que não viva nestas ilhas acharia impossível que alguém pudesse chegar aos terrenos cultivados de inhames. Qual não seria o seu espanto ao vê-los trepar imensos precipícios perpendiculares, com grandes cestos cheios de inhames à cabeça! Se lhes faltar o pé ou a mão, por qualquer motivo, não tinham salvação possível. É impressionante vê-los trepar e chegar a lugares impossíveis de alcançar que nem mesmo um gato se seguraria com as suas garras. Porém, a necessidade, a coragem e a força de vontade é tanta que, onde quer que haja uma fenda para introduzirem um dedo do pé e um dedo da mão mais acima, não há obstáculo”.

Foi, no entanto, na ilha de São Miguel que passou a maior parte do seu tempo no arquipélago. Encantou-se pelo panorama do vale-cratera das Sete Cidades, “sítio mais romântico e isolado que eu jamais vi”, e pelo “belo e majestoso” Vale das Furnas. Na volta à ilha encontrou matas, laranjais, vinhedos, montanhas, colinas cónicas, crateras cobertas ora de verdura ora de terrenos cultivados, formosas baias, vistas encantadoras e amplas, singulares crateras vulcânicas, ravinas, enfim, tudo aquilo que ainda hoje nos deixa completamente extasiados e a bendizer a natureza deste recanto do nosso país. Mas, ao contrário de nós que vivemos agora, o principal meio de transporte de outrora era o burro (se bem que então como hoje a melhor forma de se conhecer as ilhas continue a ser “a la pata”).

De Ponta Delgada, uma desilusão (para ele e para mim enquanto o lia): “aquilo que achei mais desagradável à vista, no aspecto de Ponta Delgada, foi a cor negra da pedra lavrada que formava os cantos e alicerces das casas, os lintéis e os batentes das portas e janelas que contrastava com a cal branca que cobria as paredes, dando-lhe uma aparência muito pesada” – pelo contrário, acho belo este contraste. Da Igreja Matriz vem um elogio às suas portadas, mas a opinião de que os bustos estavam pobremente retratados e o interior pintado e dourado com pouco gosto.

Ainda de Ponta Delgada, descreve o ambiente das ruas, lojas que a compunham e indivíduos que a ocupavam “a praça é estreita e está cheia de barqueiros, pescadores, burros e burriqueiros; uma multidão colorida nas suas carapuças, chapéus cobrindo os rostos e ombros, fazendo-os parecer, à distância, gado com chifres. Não calçam sapatos nem meias, mas alguns por vezes usam um par de botas velhas. Outros só usam uma bota por não terem conseguido pedir ou roubar o par.”.

Este texto do inglês Brian Barrett é também muito interessante pela apreciação crítica que faz do povo açoriano, seus modos e maneiras, e do governo português. Enquanto lemos as descrições, a que não custa acreditar e aderir, não podemos esquecer que o viajante tornado escritor era inglês e que hoje, dois séculos depois, todos nós, povo português, muito evoluímos. Escreve sobre a falta de botas ou meias, barbas por fazer, cuspideiras para o chão, colarinho da camisa desabotoado, saguão das casas cheio de gente do campo acompanhada de seus burros, maus cheiros. “As cavalariças ficam situadas por debaixo da sala de estar e servem de aquecimento, no Inverno. Nunca pude encontrar outra explicação, nem mesmo ver a necessidade delas, no Verão. O seu forte cheiro é, na verdade, nauseabundo. Todos estes factores fazem com que a visita ao morgado não seja muito prolongada”. E é muito crítico da situação das mulheres na sociedade açoriana de então: “Se se for apresentado às damas da família, o que é muito raro, por serem rigorosamente vigiadas com todo o ciúme de um mouro, encontrá-las-emos sentadas no chão, em cima de uma esteira”. “Usam um xaile sujo sobre os ombros para ocultar o pescoço e o seio” e “ toda esta cena imunda, mais parece a tenda de um árabe do que um ambiente digno das filhas de Portugal”. Mais crítico ainda, tece considerandos sobre a liberdade muito condicionada das moças das famílias – irmãs ou filhas dos morgados -, que só saíam para ir à igreja, mas até capelas privativas havia nos próprios morgados. Pior ainda, o destino das filhas era o de serem enviadas para os conventos de forma forçada, “uma crueldade”, ou casadas com um homem que nunca conheceram, e às esposas designa-as como “escravas da família”.

Porém, não culpa os morgados por esta situação, antes o governo de Portugal, a “mãe-pátria”, como lhe chama, pela falta de um plano de educação e por os ter votado ao esquecimento, fazendo com que permanecessem com os mesmos costumes e modo de viver, vivendo fechados sobre si próprios. Mais especificamente, “os filhos dos morgados, como não vão estudar para o continente, adquirem uma cultura muito reduzida, nos Açores. Em São Miguel, a instrução não é moda e muitos morgados não sabem escrever. São criados juntamente com os serviçais da família, até mesmo, nas suas próprias diversões. É chocante a forma como os mancebos ocupam o seu tempo, reunidos nos cantos das ruas. São habituados na ociosidade e, também, inadaptados ao serviço militar. Mesmo o pouco trabalho da condição eclesiástica envolveria demasiado trabalho e sacrifício. Não fazem grandes esforços e tornam-se uns ignorantes orgulhosos, sem terem um objectivo na vida.”.

A ignorância das classes era para Barrett a verdadeira causa da sua degradação moral e vícios. No entanto, faz questão de rematar o seu texto afirmando-se grato ao povo açoriano pela sua civilidade e gentileza.

Gaspar Frutuoso, “Saudades da Terra”

“Costumam dizer os ignorantes, ouvindo alguma coisa dos segredos de filosofia e efeitos da poderosa natureza, que lhe não cabe em seu entendimento: – ó grande mentira de filósofos; ao que eu não sei dar outra mais certa resposta, senão dizendo: – ó grande parvoíce de néscios, pois não alcançam que há muitas coisas sobre seu baixo entendimento que lhe ficam tão altas, que nem com altíssimas escadas, de ordenados e compassados degraus de razões e claras demonstrações, podem lá subir, para descobrir do alto, empinados, o que do chão, rasteiros, ver não alcançam. […] Digo isto para refrear as línguas de alguns que em algum tempo ouvirem algumas coisas que agora contar quero, que terão por impossíveis porque as não viram. Aos quais responderei que quem as viu era de tão boa consciência e tão verdadeiro como eles, e se não houvéssemos de crer senão o que se vê com os olhos, muito tempo há que fora já destruída a república humana.”

Gaspar Frutuoso (1522 – 1591), nascido em São Miguel, foi o pioneiro da historiografia açoreana. Fez-se padre, mas foi a sua faceta de historiador e a sua obra “Saudades da Terra” que nos faz hoje lembrá-lo.

Saudades da Terra é um texto dividido em 6 Livros que comporta uma descrição aprofundada da história e geografia dos arquipélagos da Macaronésia: Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde. O Atlântico que nos é mais próximo, pois. O livro I é dedicado à história geral e do Atlântico, com ênfase nos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde e nas ilhas de Castela; o II à Madeira; o III à ilha de Santa Maria; o IV a São Miguel; o V, conhecido como a «História de Dois Amigos da Ilha de São Miguel», é um texto ficcional; e o VI às ilhas dos grupos central e ocidental.

O Livro IV, dedicado a São Miguel, é o mais pormenorizado na caracterização da ilha e suas gentes. E sobre esta ilha neste “tão comprido e largo mar oceano”, tem Frutuoso uma descrição fantástica em todos os sentidos:

“A cabeça deste gigante, que da parte do oriente está encostada, é o morro do Nordeste, e Água Retorta uma orelha que tem para cima, porque, como está como encostado, a outra não aparece; da freguesia de São Pedro, da parte do norte, e do Faial, da do sul, começa o pescoço que se vai estendendo até à Povoação, ficando da outra banda encolhido. A comprida e reverenda barba é Achada Grande estendida até Achada Pequena, que é o cabo dela, que se tornou cã e calva pouco tempo há, quando no segundo terramoto se cobriu de pedra pomes e cinzeiro; os Fenais da Maia, da parte do septentrião, e a Ponta da Garça, da banda do sul, são seus ombros. A Maia e Vila-Franca, os cotovelos de seus braços, e neste esquerdo tem o ilhéu de Vila-Franca, como seu escudo, embaraçado; além dos cotovelos, Porto Formoso e o lugar de S. Lázaro são suas ulnas ou seus braços, cujo fim, encolhido para dentro, são os portos de Santa Iria e de Vale de Cabaços, onde saem para fora suas forçosas mãos, a ponta do pico de Santa Iria com sua Ribeira Grande, da banda do norte, e Água do Pau com sua ponta da Galé, da outra parte do sul. Logo está a delicada cintura cingida com um rico cinto, de Rabo de Peixe até à Alagoa, por onde a ilha é mais estreita. A faldra de sua malha é os Fanais e o lugar de Rosto de Cão, ambos termos da cidade, onde o cinto, com que se cinge, acaba de chegar, dando um nó cego da forca, como artificial, com uma figura de rosto de cão, no cabo assentado, com o focinho para o mar e o rabo para a terra, na ponta de guarnição com que filha, prende, açoita e castiga os malfeitores. Do lugar de Santo António à Bretanha, coxa do pé direito, da banda do norte, e da outra parte do sul, a cidade da Ponta Delgada, Relva e Feteiras, polpa grossa e forte coxa do seu esquerdo. A Ponta da Bretanha e o lugar de Candelária seus giolhos, e a grota de João Bom e o lugar de São Sebastião, suas pernas; o esquerdo, dizem os antigos que era um sítio que agora chamam as Sete-Cidades, que antigamente tinha muito alevantado no ar, mas com o grande peso, dando um grande coice, sacudindo-o, se sumira e estendera pelo mar, tomando posse dele, fazendo a fajã do lugar que se chama Mosteiros, aparecendo-lhe ainda agora as pontas dos dedos daquele pé, feitas ilhéus e penedos, sobre as águas do mar que ali está pisando; o direito é o Pico das Camarinhas, que também tinha mui alevantado e depois abaixou e estendendo-o pelo mar e mostrando-o armado com armas de fortes penedos é duro ferro que ali forjou Vulcano, pelo que o povo, de então para cá, chama àquele lugar Pico das Ferrarias; e no meio destes feros e horrendos pés se estende o comprido rabo da opa roçagante que tem vestida sobre as armas, abotoada em algumas partes, do pescoço até aos pés, com botões de altos e grandes montes. Mas por haver andado longos caminhos d’antes e dado muitos passeios, está o rabo desta vestidura tão safado que não tem lustros, nem verdura, sendo ela toda verde, pelo que esta parte desta opa, que é o cabo ocidental desta ilha, de todos é chamada comummente, por ser safada e calva, os Escalvados.”

O historiador fala das famílias que vieram povoar a ilha, da vegetação original, das colheitas e até preços que atingiram (como a valia do trigo entre 1513 a 1589), do gado e do pescado. “Havia nesta ilha, logo no princípio do seu descobrimento, tão grandes malvas como árvores, nas quais se dependuravam também os bois e vacas que tomavam, e dali repartiam a carne dela pela maneira sobredita, o que queriam e a quem a queria, e assim se proviam de carne sem haver mais açougue, senão o que cada um tinha à sua porta; de modo que não tinha preço a carne de toda a sorte, e de graça a comiam, e pouco era isto, se aproveitaram o que sobejava, mas deixavam apodrecer e perder muita por razão da grande multidão do gado, cuidando que nunca faltaria, e também por haver pouco sal na terra.” “Depois, era o pescado tanto e tão barato, que ninguém o queria comer salgado, do qual mandavam deitar fora as gamelas cheias, quando vinha outro fresco”.

Dá conta da infinidade de aves e da abundância de tudo, até de vinho de fora e da terra. Tão fértil era a ilha que lhe parecia uma mina de ouro. Relata ainda da força, valentia, esforço, manhas e destrezas de algumas pessoas da ilha “porque de todas não pude saber”.

Conta da destruição de Vila Franca do Campo, então a mais populosa, pelo tremor de terra em 1522 (também conhecido por “subversão”), um castigo divino de que houve avisos mas, ainda assim, “em uma só triste noite foram acabadas muitas vidas e ficou tudo tão coberto, que nem nobres casas, nem altos edifícios, nem sumptuosos templos, nem nobres e vulgares pessoas pela manhã apareceram, ficando tudo tão raso e chão, sem sinal nem mostra onde vila estivesse, porque com o tremor caíram os mais dos edifícios primeiro e a casaria, que acolheu a mais da gente debaixo, depois, sobrevindo a terra correndo, arrasou tudo, como raio ligeiro que desbarata quando acha mais forte e duro”.

Não refere apenas este tremor, mas também outros terramotos acontecidos na ilha, falando da origem dos biscoitos, a terra tornada preta e com jeitos pela lava.

Dá, igualmente, conta da explicação de nomes de terras curiosos, como o de Fenais por ali haver muito feno ou como a descida Pé de Porco, junto à lagoa das Furnas, por aí, no início do descobrimento da ilha, terem os homens comido um pé de porco cozido. Ou como o de Rabo de Peixe, “chamado assim por estar situado em uma ponta de terra e penedia, que sai ao mar, parecendo rabo de peixe; ou, como outros, porque se achou ali no princípio, junto ao mar, um peixe muito grande, sem se poder saber que peixe fosse, se era baleia ou de outro nome, e pelos mouros, que naquele tempo ali guardavam gado, foi dependurado o rabo dele em um pau e dali a dias perguntando a um de donde vinha, respondeu que do rabo de peixe”.

E relata pormenores dos amores privados, como o daquele que “se afeiçoou nela um homem com uma mulher casada que lhe matou o marido, pelo que se pôs a monte com a mulher”.

Fala das cracas que ainda hoje existem para os lados de Mosteiros, a fajã que “é uma terra corrida do Pico das Sete Cidades que antigamente rebentou, descendo pela Rocha, fez abaixo dela (tomando posse do mar) esta grande fajã de até dez moios de terra boa, que dá o melhor trigo da ilha, e faz pão sem tufo, como o de Portugal, e bom pastel e melões”.

Nesta obra encontram-se descrições das Furnas, Ribeira Grande, Rabo de Peixe, Ponta Delgada de outrora, bem como da curiosa constituição da paisagem que hoje admiramos na Lagoa Sete Cidades, que não era a mesma que encontraram os primeiros descobridores da ilha.

A própria vegetação da ilha não era a mesma que hoje presenciamos aquando do momento da chegada dos primeiros descobridores, claro.

O primeiro desembarque foi no lugar de Povoação Velha, “antre duas frescas ribeiras de claras, doces e frias águas, antre rochas e terras altas, todas cobertas de alto e espesso arvoredo de cedros, louros, ginjas e faias, e outras diversas árvores”. Andavam mais pelo mar no barco de seu navio e “pouco pela terra, porque muito não podiam, por lho impedir o espesso mato. Uma solitária ilha acompanhada de uns altos montes e baixo os vales, povoados de arvoredo, com cuja verdura vestida estava toda a terra, dando grandes esperanças de ser mui fértil e proveitosa a seus moradores, que nela viessem a fazer sua colónias”.

Um engano, porém: “vendo muitos açores e bons, lhe puseram o nome ilhas dos Açores, mas outros têm por mais verdade que fossem milhafres que são parecidos”.

Marvila por San Spiga

Também em Marvila, no âmbito do Festival Muro 2017, algumas fotos da arte do argentino San Spiga. Esta bem mais efémera do que as pinturas nas empenas, pelo recurso a colagem. Hoje já não se veem estas imagens por inteiro, mas aqui ficam testemunhos desta tentativa de integração da arte urbana com as vivências do bairro, mesmo se recorrendo a ícones que a uma primeira vista nos podem parecer alheios (não tanto Maradona, mas mais Evita e as Madres da Praça de Maio).

Marvila

O Festival Muro 2017 teve lugar em Marvila jáem Maio do ano passado, mas deixou as suas marcas na arte urbana que espalhou pelos seus bairros. Aproveitando que nesse ano se celebrava Lisboa, Capital Ibero-Americana de Cultura, foram convidados diversos artistas ibero-americanos que entre workshops, concertos, palestras se dedicaram ainda à pintura de empenas, enormes obras de arte a céu aberto que a cidade de Lisboa acabou por ganhar.
Sob o mote da inclusão, a arte andou – e anda – à solta nos bairros da Quinta do Marquês de Abrantes, da Quinta do Chalé e da Quinta das Salgadas.
Em Novembro de 2016 havia sido inaugurada a Bibilioteca Municipal de Marvila, a maior biblioteca municipal da cidade e uma das meninas dos olhos da vereação da cultura do município. Não é para menos. O projecto de arquitectura está muito bem conseguido, numa bela recuperação e adaptação do antigo edifício da Quinta das Fontes pelo arquitecto Hestnes Ferreira. 
Lugar de realojamentos, Marvila era ao mesmo tempo um lugar de quintas, com uma vista altaneira privilegiada para o rio Tejo. É fácil ainda hoje caminhar-se por aqui e ficarmos perdidos entre o sentido campo / cidade. As ovelhas convivem com os graffitis; o hip hop com os livros. Não têm de ser contraditórios. A noção de que a integração é necessária e desejável e de que a Biblioteca deve ser já não apenas um espaço de cultura mas sobretudo um espaço de comunidade foi o que levou a que este seja hoje um equipamento central a estes bairros, projectando o futuro, mas sem deixar de preservar as memórias do lugar.
Sugere-se, assim, que a partir do espaço da Biblioteca se parta à descoberta destes novos bairros e comunidades mais esquecidas de Marvila à boleia da arte urbana. 
Algumas fotos:
A estrela da companhia, o brasileiro Eduardo Kobra e o índio Raoni:
Outras cores:
E uma mensagem:

Padre Cruz

O Bairro Padre Cruz, na freguesia de Carnide, quase a deixar Lisboa para adentrar a ruralidade de Odivelas, é considerado pela própria Câmara Municipal de Lisboa como o maior bairro de habitação social da Península Ibérica. 
Assim designado como homenagem ao padre de mesmo nome, este bairro data dos anos 60, quando a Câmara começou a urbanizar a área para alojar os seus funcionários. No início as habitações eram precárias, com construções em lusalite, e queriam-se provisórias. O provisório tornou-se definitivo por muito tempo, apenas nos anos 70 surgiram os primeiros prédios, e os realojamentos tardaram. De tal forma que ainda no início do ano passado foi notícia a construção de mais dois novos edifícios para realojar mais algumas das famílias que ainda viviam em casas de alvenaria no bairro.
Hoje são cerca de 8000 os habitantes do Bairro Padre Cruz e já não exclusivamente funcionários da Câmara. A construção do chamado “bairro novo” nos anos 90 trouxe consigo o realojamento de muitos novos habitantes vindos de diversos bairros de Lisboa – e entre estes vieram indivíduos originários de várias zonas do país e de vários países de língua oficial portuguesa. 
Como consequência, a mistura de culturas no bairro. É aqui que o trabalho com a comunidade tem de ser decisivo, quer ao nível dos poderes públicos quer de iniciativas privadas. Existem diversas colectividades no bairro e a Paróquia de Carnide tem também um papel social importante. Ao nível dos equipamentos, decisiva foi igualmente a iniciativa de se instalar aqui infraestruturas como creches, centros culturais, bibliotecas e pavilhões desportivos, todas estas existentes no Bairro.
Mas uma das melhores formas – e também uma das mais na moda – é a que procura colocar estes bairros no mapa da cidade através da arte urbana.
O Bairro Padre Cruz foi pioneiro em receber o Festival Muro no Verão de 2016, acolhendo dezenas de artistas portugueses e estrangeiros que se propuseram mudar a cara do Bairro oferecendo um novo colorido ao amarelo desmaiado dos seus edifícios. A urbanização do bairro mostra algumas contradições. Os edifícios respiram e não vivem encafuados. Porém, registe-se as magras janelas e a ausência de varandas.
O que estas iniciativas fazem é trazer os lisboetas – e outros – a conhecer zonas da cidade que de outra forma não conheceriam. Aproximam os bairros e, sobretudo, aproximam os concidadãos. Até o Presidente Marcelo dos Afectos lá esteve, embora esse seja omnipresente. Mas disse-o bem na altura, ao afirmar que o bairro está vivo e aponta para o futuro.
No fundo, Festivais como o Muro, que enquanto ocorrem têm na sua programação intervenções, debates e diversas iniciativas artísticas que procuram envolver os moradores, deixam para sempre uma galeria a céu aberto visitável por qualquer um que o deseje. E isso faz com que os moradores se sintam, precisamente, desejados. Um sentimento de orgulho e de pertença invade os moradores destes bairros sociais ao realizarem que podem ter algo de belo, uma fachada mais bonita que a do seu vizinho até, e que isso possa ser motivo de admiração de tal forma que venha gente de fora. Que o seu bairro possa ser visitado como se visitam os monumentos do centro da capital.
Em seguida, alguns exemplos das dezenas de murais espalhados pelo Bairro Padre Cruz sob o âmbito do projecto “Criar mudança através da arte urbana”, começando por esta obra de Skran, paradigmática do objectivo de beleza, sim, mas sobretudo de integração deste projecto: velho, adolescente, criança, todos eles com futuro no Bairro.

Mosteiro de Alcobaça

Alcobaça fica a cerca de uma hora e meia de viagem de Lisboa. 
A zona oeste é marcada por diversos pontos de interesse para qualquer viajante, como Óbidos e Caldas da Rainha, São Martinho do Porto e Nazaré, Serras de Aire e Candeeiros, mas desta vez foi o Mosteiro de Alcobaça que nos levou à estrada.


Também conhecido como Abadia de Santa Maria de Alcobaça, este monumento distinguido pela Unesco como Património da Humanidade foi obra dos monges da Ordem de Cister. Lutava ainda D. Afonso Henriques pelo reconhecimento da independência do Reino de Portugal quando, em 1153, interessado numa política de expansão e povoamento, doou àquela Ordem os terrenos (e muitas mais áreas) onde está hoje implantado o Mosteiro. 

Lugar de terras férteis e de passagem de rios, entre 1178 e 1253 os monges de Cister viriam a construir uma obra monumental em todos os aspectos. 

Arquitectonicamente, o Mosteiro é considerado o maior exemplo do gótico no nosso país. Esteticamente parece-se uma igreja-fortaleza. A sua igreja é a maior de Portugal. As abadias e os monges cistercienses prezavam a sua auto-suficiência, dai que empreendessem esforços no sentido do melhor conhecimento e administração dos terrenos onde estavam implantados. Em Alcobaça, por exemplo, é notável a utilização pelo Mosteiro do rio Alcoa, demonstrando toda a excelência por parte dos monges na criação de um sistema hidráulico único. Os monges tiravam frutos, ainda, dos seus campos, pomares e estábulos. No que respeita à cultura, registe-se que foi aqui que em 1269 se leccionaram as primeiras aulas públicas em Portugal, no caso de Gramática, Lógica e Teologia.

Em tempos recentes a zona envolvente ao Mosteiro foi objecto de uma obra de requalificação por parte do arquitecto Goncalo Byrne que lhe confere hoje uma amplidão à sua medida, livre de elementos, como veículos automóveis, que perturbem a sua leitura.


A fachada do Mosteiro de Alcobaça apresenta-se-nos com vários estilos: românico, barroco e gótico. Daquela que foi a fachada original restam o portal gótico e a rosácea. No século XVIII foi remodelada ao estilo barroco tendo sido acrescentados os dois campanários. 


Logo à entrada percebemos o título de maior igreja de Portugal: o interior estende-se ao longo da enorme nave central – enorme em comprimento e em altura – seguindo-se duas naves laterais, todas elas abobadadas. A magnificência é evidente mas ao mesmo tempo este é um monumento despojado, seguindo os preceitos de sobriedade e austeridade da Ordem fundada por São Bernardo. Os elementos decorativos ou são inexistentes ou são muito simples, de que é exemplo o recurso à opção de decoração dos capitéis com motivos vegetalistas. 



A iluminação da igreja é proporcionada na sua maior parte pela luz natural que entra pela rosácea na fachada. Existem, ainda, outras rosáceas mais pequenas e algumas frestas altas e janelões ao longo do espaço que contribuem também para a luz natural do seu interior.


Esta austeridade é quebrada de forma grandiosa com os Túmulos de D. Inês de Castro e de D. Pedro I, cada um deles numa das naves laterais, um espreitando o outro, enfim juntos na eternidade, eles que foram personagens de uma das maiores histórias de amor da nossa História. Estes dois túmulos são considerados os melhores exemplares escultóricos da tumulária medieval portuguesa. Verdadeiras obras-primas. Um hino à perfeição. 



Na cabeceira do túmulo de D. Pedro, por exemplo, pode observar-se uma imagem tantas vezes difundida do nosso país, a rosácea representando a Roda da Vida e a Roda da Fortuna. 



Já no túmulo de D. Inês são as cenas da Paixão de Cristo e do Juízo Final que ganham maior relevo e nos fazem admirar a excelência do trabalho efectuado.


Visitados estes túmulos, poder-se-ia pensar que a sala do Panteão Real, ali mesmo ao lado onde repousa D. Pedro I, onde são apresentados outros túmulos, não merece uma visita. Nada mais errado. Estes são bem mais modestos, mas ainda assim obras escultóricas cativantes. 


De caminho, uma olhada à capela barroca de São Bernardo com um conjunto de imagens em terracota representando a sua morte. 



Outra ruptura à austeridade original do fundador de Cister encontramos na porta da sacristia, num inconfundível estilo manuelino. Para lá da sacristia – fechada – fica a também nada austera capela-relicário, repleta de talha dourada (que não tive oportunidade de conhecer).  

Visitada a igreja, é agora altura de seguirmos para o lado esquerdo do Mosteiro, que dará acesso ao claustro. Antes, porém, passamos pela Sala dos Reis, quase toda revestida a azulejo, com estátuas dos reis elaboradas pelos monges e com uma representação de D. Afonso Henriques a ser coroado por São Bernardo e pelo Papa.





O Claustro de D. Dinis ou do Silêncio, do século XIV,  era a área central do Mosteiro que dava acesso a todas as dependências e para onde estas confluíam. Os monges circulavam por aqui em silêncio e este era um espaço de leitura e meditação. Este claustro é todo ele abobadado e os seus arcos formam voltas perfeitas. 


No pátio umas laranjeiras trazem cor e sorrisos e a austeridade fica em causa. Um olhar para o piso superior faz-nos avistar umas gárgulas e as certezas de que essa tal de austeridade já era tornam-se cada vez mais fortes. 





A Sala do Capítulo é magnífica, plena de abobadas, colunas e capitéis, devendo também mostrar-se atenção ao chão.



No piso superior o dormitório dos monges (ou Claustro dos Noviços) deslumbra pela sua amplidão e, mais uma vez, pela sequência de abobadas. Nas suas traseiras fica o Claustro da Levada, construção do século XVI na sequência de uma remodelação do Mosteiro.


Mas são a Cozinha e o Refeitório as divisões onde os nossos sentidos são definitivamente conquistados. E nem é necessário que se cozinhe já lá qualquer iguaria ou doce conventual. 


Destaque imediato para as enormes chaminés da cozinha, onde diz a cultura popular que aqui se podiam assar bois inteiros. 





Vêem-se ainda os tanques e as levadas por onde vão passando as águas do Rio Alcoa. Recorrendo uma vez mais à sabedoria popular, ficamos a saber que os monges aqui pescavam. Mas nesta cozinha fica evidente toda a excelência no aproveitamento do sistema hidráulico por parte dos monges de Cister. Neste ambiente monumental ouve-se ainda o correr da água pelas levadas, dando uma carga mais profunda e mística a este espaço.



Ali ao lado fica o não menos monumental Refeitório. Em estilo gótico manuelino, tem cerca de 620 metros quadrados, tão amplo tão amplo, onde apenas umas frestas e rosácea deixam entrar uma luz natural escassa (acompanhada de uma luz artificial e sombria vinda de uns capitéis), sendo fácil imaginar o ambiente misterioso em que os monges faziam as suas refeições.


Cá fora destaque ainda para um mimoso Lavabo, com o elemento harmonioso da água a marcar mais uma vez presença.


Finda a visita ao Mosteiro, vale a pena percorrer a curta promenade à beira do Rio Alcoa e admirar alguma da cerâmica local ali em exposição pública.

Mais adiante os rios Alcoa e Baça juntam-se. A tradição popular, sempre ela, diz-nos que dois apaixonados viram o seu amor contrariado em vida e só depois de mortos puderam unir-se para a eternidade, como o rio que aqui se junta.

Ainda, dois palacetes impossíveis de perder e de admirar em Alcobaça: 


o Palacete Gafa, edifício oitocentista de influência brasileira onde está hoje instalada a Câmara Municipal; 


e o Palacete Casa da Família Rino, do século XIX, actualmente um jardim infantil.