Padre Cruz

O Bairro Padre Cruz, na freguesia de Carnide, quase a deixar Lisboa para adentrar a ruralidade de Odivelas, é considerado pela própria Câmara Municipal de Lisboa como o maior bairro de habitação social da Península Ibérica. 
Assim designado como homenagem ao padre de mesmo nome, este bairro data dos anos 60, quando a Câmara começou a urbanizar a área para alojar os seus funcionários. No início as habitações eram precárias, com construções em lusalite, e queriam-se provisórias. O provisório tornou-se definitivo por muito tempo, apenas nos anos 70 surgiram os primeiros prédios, e os realojamentos tardaram. De tal forma que ainda no início do ano passado foi notícia a construção de mais dois novos edifícios para realojar mais algumas das famílias que ainda viviam em casas de alvenaria no bairro.
Hoje são cerca de 8000 os habitantes do Bairro Padre Cruz e já não exclusivamente funcionários da Câmara. A construção do chamado “bairro novo” nos anos 90 trouxe consigo o realojamento de muitos novos habitantes vindos de diversos bairros de Lisboa – e entre estes vieram indivíduos originários de várias zonas do país e de vários países de língua oficial portuguesa. 
Como consequência, a mistura de culturas no bairro. É aqui que o trabalho com a comunidade tem de ser decisivo, quer ao nível dos poderes públicos quer de iniciativas privadas. Existem diversas colectividades no bairro e a Paróquia de Carnide tem também um papel social importante. Ao nível dos equipamentos, decisiva foi igualmente a iniciativa de se instalar aqui infraestruturas como creches, centros culturais, bibliotecas e pavilhões desportivos, todas estas existentes no Bairro.
Mas uma das melhores formas – e também uma das mais na moda – é a que procura colocar estes bairros no mapa da cidade através da arte urbana.
O Bairro Padre Cruz foi pioneiro em receber o Festival Muro no Verão de 2016, acolhendo dezenas de artistas portugueses e estrangeiros que se propuseram mudar a cara do Bairro oferecendo um novo colorido ao amarelo desmaiado dos seus edifícios. A urbanização do bairro mostra algumas contradições. Os edifícios respiram e não vivem encafuados. Porém, registe-se as magras janelas e a ausência de varandas.
O que estas iniciativas fazem é trazer os lisboetas – e outros – a conhecer zonas da cidade que de outra forma não conheceriam. Aproximam os bairros e, sobretudo, aproximam os concidadãos. Até o Presidente Marcelo dos Afectos lá esteve, embora esse seja omnipresente. Mas disse-o bem na altura, ao afirmar que o bairro está vivo e aponta para o futuro.
No fundo, Festivais como o Muro, que enquanto ocorrem têm na sua programação intervenções, debates e diversas iniciativas artísticas que procuram envolver os moradores, deixam para sempre uma galeria a céu aberto visitável por qualquer um que o deseje. E isso faz com que os moradores se sintam, precisamente, desejados. Um sentimento de orgulho e de pertença invade os moradores destes bairros sociais ao realizarem que podem ter algo de belo, uma fachada mais bonita que a do seu vizinho até, e que isso possa ser motivo de admiração de tal forma que venha gente de fora. Que o seu bairro possa ser visitado como se visitam os monumentos do centro da capital.
Em seguida, alguns exemplos das dezenas de murais espalhados pelo Bairro Padre Cruz sob o âmbito do projecto “Criar mudança através da arte urbana”, começando por esta obra de Skran, paradigmática do objectivo de beleza, sim, mas sobretudo de integração deste projecto: velho, adolescente, criança, todos eles com futuro no Bairro.

Mosteiro de Alcobaça

Alcobaça fica a cerca de uma hora e meia de viagem de Lisboa. 
A zona oeste é marcada por diversos pontos de interesse para qualquer viajante, como Óbidos e Caldas da Rainha, São Martinho do Porto e Nazaré, Serras de Aire e Candeeiros, mas desta vez foi o Mosteiro de Alcobaça que nos levou à estrada.


Também conhecido como Abadia de Santa Maria de Alcobaça, este monumento distinguido pela Unesco como Património da Humanidade foi obra dos monges da Ordem de Cister. Lutava ainda D. Afonso Henriques pelo reconhecimento da independência do Reino de Portugal quando, em 1153, interessado numa política de expansão e povoamento, doou àquela Ordem os terrenos (e muitas mais áreas) onde está hoje implantado o Mosteiro. 

Lugar de terras férteis e de passagem de rios, entre 1178 e 1253 os monges de Cister viriam a construir uma obra monumental em todos os aspectos. 

Arquitectonicamente, o Mosteiro é considerado o maior exemplo do gótico no nosso país. Esteticamente parece-se uma igreja-fortaleza. A sua igreja é a maior de Portugal. As abadias e os monges cistercienses prezavam a sua auto-suficiência, dai que empreendessem esforços no sentido do melhor conhecimento e administração dos terrenos onde estavam implantados. Em Alcobaça, por exemplo, é notável a utilização pelo Mosteiro do rio Alcoa, demonstrando toda a excelência por parte dos monges na criação de um sistema hidráulico único. Os monges tiravam frutos, ainda, dos seus campos, pomares e estábulos. No que respeita à cultura, registe-se que foi aqui que em 1269 se leccionaram as primeiras aulas públicas em Portugal, no caso de Gramática, Lógica e Teologia.

Em tempos recentes a zona envolvente ao Mosteiro foi objecto de uma obra de requalificação por parte do arquitecto Goncalo Byrne que lhe confere hoje uma amplidão à sua medida, livre de elementos, como veículos automóveis, que perturbem a sua leitura.


A fachada do Mosteiro de Alcobaça apresenta-se-nos com vários estilos: românico, barroco e gótico. Daquela que foi a fachada original restam o portal gótico e a rosácea. No século XVIII foi remodelada ao estilo barroco tendo sido acrescentados os dois campanários. 


Logo à entrada percebemos o título de maior igreja de Portugal: o interior estende-se ao longo da enorme nave central – enorme em comprimento e em altura – seguindo-se duas naves laterais, todas elas abobadadas. A magnificência é evidente mas ao mesmo tempo este é um monumento despojado, seguindo os preceitos de sobriedade e austeridade da Ordem fundada por São Bernardo. Os elementos decorativos ou são inexistentes ou são muito simples, de que é exemplo o recurso à opção de decoração dos capitéis com motivos vegetalistas. 



A iluminação da igreja é proporcionada na sua maior parte pela luz natural que entra pela rosácea na fachada. Existem, ainda, outras rosáceas mais pequenas e algumas frestas altas e janelões ao longo do espaço que contribuem também para a luz natural do seu interior.


Esta austeridade é quebrada de forma grandiosa com os Túmulos de D. Inês de Castro e de D. Pedro I, cada um deles numa das naves laterais, um espreitando o outro, enfim juntos na eternidade, eles que foram personagens de uma das maiores histórias de amor da nossa História. Estes dois túmulos são considerados os melhores exemplares escultóricos da tumulária medieval portuguesa. Verdadeiras obras-primas. Um hino à perfeição. 



Na cabeceira do túmulo de D. Pedro, por exemplo, pode observar-se uma imagem tantas vezes difundida do nosso país, a rosácea representando a Roda da Vida e a Roda da Fortuna. 



Já no túmulo de D. Inês são as cenas da Paixão de Cristo e do Juízo Final que ganham maior relevo e nos fazem admirar a excelência do trabalho efectuado.


Visitados estes túmulos, poder-se-ia pensar que a sala do Panteão Real, ali mesmo ao lado onde repousa D. Pedro I, onde são apresentados outros túmulos, não merece uma visita. Nada mais errado. Estes são bem mais modestos, mas ainda assim obras escultóricas cativantes. 


De caminho, uma olhada à capela barroca de São Bernardo com um conjunto de imagens em terracota representando a sua morte. 



Outra ruptura à austeridade original do fundador de Cister encontramos na porta da sacristia, num inconfundível estilo manuelino. Para lá da sacristia – fechada – fica a também nada austera capela-relicário, repleta de talha dourada (que não tive oportunidade de conhecer).  

Visitada a igreja, é agora altura de seguirmos para o lado esquerdo do Mosteiro, que dará acesso ao claustro. Antes, porém, passamos pela Sala dos Reis, quase toda revestida a azulejo, com estátuas dos reis elaboradas pelos monges e com uma representação de D. Afonso Henriques a ser coroado por São Bernardo e pelo Papa.





O Claustro de D. Dinis ou do Silêncio, do século XIV,  era a área central do Mosteiro que dava acesso a todas as dependências e para onde estas confluíam. Os monges circulavam por aqui em silêncio e este era um espaço de leitura e meditação. Este claustro é todo ele abobadado e os seus arcos formam voltas perfeitas. 


No pátio umas laranjeiras trazem cor e sorrisos e a austeridade fica em causa. Um olhar para o piso superior faz-nos avistar umas gárgulas e as certezas de que essa tal de austeridade já era tornam-se cada vez mais fortes. 





A Sala do Capítulo é magnífica, plena de abobadas, colunas e capitéis, devendo também mostrar-se atenção ao chão.



No piso superior o dormitório dos monges (ou Claustro dos Noviços) deslumbra pela sua amplidão e, mais uma vez, pela sequência de abobadas. Nas suas traseiras fica o Claustro da Levada, construção do século XVI na sequência de uma remodelação do Mosteiro.


Mas são a Cozinha e o Refeitório as divisões onde os nossos sentidos são definitivamente conquistados. E nem é necessário que se cozinhe já lá qualquer iguaria ou doce conventual. 


Destaque imediato para as enormes chaminés da cozinha, onde diz a cultura popular que aqui se podiam assar bois inteiros. 





Vêem-se ainda os tanques e as levadas por onde vão passando as águas do Rio Alcoa. Recorrendo uma vez mais à sabedoria popular, ficamos a saber que os monges aqui pescavam. Mas nesta cozinha fica evidente toda a excelência no aproveitamento do sistema hidráulico por parte dos monges de Cister. Neste ambiente monumental ouve-se ainda o correr da água pelas levadas, dando uma carga mais profunda e mística a este espaço.



Ali ao lado fica o não menos monumental Refeitório. Em estilo gótico manuelino, tem cerca de 620 metros quadrados, tão amplo tão amplo, onde apenas umas frestas e rosácea deixam entrar uma luz natural escassa (acompanhada de uma luz artificial e sombria vinda de uns capitéis), sendo fácil imaginar o ambiente misterioso em que os monges faziam as suas refeições.


Cá fora destaque ainda para um mimoso Lavabo, com o elemento harmonioso da água a marcar mais uma vez presença.


Finda a visita ao Mosteiro, vale a pena percorrer a curta promenade à beira do Rio Alcoa e admirar alguma da cerâmica local ali em exposição pública.

Mais adiante os rios Alcoa e Baça juntam-se. A tradição popular, sempre ela, diz-nos que dois apaixonados viram o seu amor contrariado em vida e só depois de mortos puderam unir-se para a eternidade, como o rio que aqui se junta.

Ainda, dois palacetes impossíveis de perder e de admirar em Alcobaça: 


o Palacete Gafa, edifício oitocentista de influência brasileira onde está hoje instalada a Câmara Municipal; 


e o Palacete Casa da Família Rino, do século XIX, actualmente um jardim infantil.

Fim de Semana na Serra da Estrela

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Perdi a conta às vezes que terei ido até à Serra da Estrela, mas pouco mais guardo na memória do que o ambiente de feira ambulante da Torre.

Em tempos idos as caminhadas não estavam na moda e o passeio até ao ponto mais alto de Portugal continental servia para ir ver a neve e eles – o ponto mais alto e a neve – até estavam ali perto, a uma relativamente curta distância da terra da avó, Aldeia das Dez. Hoje a distância parece ainda menor, será menos de 1 hora de carro desde Aldeia, menos de 3 horas de carro desde Lisboa.

E os atrativos para se visitar o Parque Natural da Serra da Estrela, a maior área protegida de Portugal, não estão só no Inverno, deixando-nos a sonhar com as cores do Outono, a vida a raiar na Primavera, os banhos nos seus rios no Verão.
Ainda assim, foi neste Inverno que lá voltámos.

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Da Covilhã até às Penhas da Saúde são meros 10 km de subida onde se vai ganhando uma vista cada vez maior. O tempo nublado que se fazia sentir não deixou apreciar a paisagem fantástica que se nos oferece durante todo o caminho e em diversos miradouros.

Passamos pelo antigo sanatório da autoria do arquitecto Cottinelli Telmo, construído nas décadas 20-30 do século passado a 950 de altitude para aproveitar os bons ares da Serra no tratamento dos doentes. Hoje este edifício está finalmente restaurado e desde 2014 é a Pousada da Serra da Estrela, após projecto do arquitecto Souto Moura.

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A Pedra do Urso fica logo a seguir e um pouco antes de se chegar às Penhas da Saúde. Não haverá para aqui ursos de verdade, pelo que não há que temer por ataques, antes largar um imenso sorriso de felicidade por este elemento simbólico que a natureza moldou e nos deixou.

As Penhas da Saúde é uma povoação com alojamento e restaurantes, certamente a mais alta de Portugal, instalada a 1500 metros de altitude. É famoso o seu hotel, assim como famosas são as iguarias que por aqui se podem provar, com o queijo Serra da Estrela à cabeça, sim, mas também enchidos e a carne de javali e o arroz de zimbro – o restaurante Varanda da Estrela é uma boa opção.

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A Torre e a estância de ski ficam aqui perto. Os nevões que de quando em vez caem costumam, porém, deixá-las muito longe. À falta de veículos de tracção total ou de correntes de neve, há que nos entretermos com os caminhos vizinhos.

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E foi isso que fizemos no sábado – dia de vento e nevão – e no domingo de manhã – dia de céu incrivelmente azul e terreno branco -, até que o acesso ao topo de Portugal fosse finalmente aberto.

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A estrada das Penhas da Saúde até Manteigas (cerca de 17 kms) é belíssima.
Passamos pelo Lago Viriato, cuja água abastece a Covilhã, por estradas com as árvores tão próximas que podemos sentir os flocos de neve a cair das suas copas, pelo desvio que em dias de clima menos severo nos leva até à Cascata Poço do Inferno e pelo imenso Vale Glaciar do Zêzere.

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Na Serra da Estrela nascem o Zêzere e o Mondego, dois dos maiores rios que correm por inteiro no nosso país. O Vale Glaciar do Zêzere é magnífico na sua forma em U, cerca de 13 km de comprimento desde a sua nascente até Manteigas. Esta forma característica deve-se à erosão do glaciar que levou à constituição deste vale, crê-se que há 19 000 anos, sendo estas as evidências glaciares mais a sul na Europa.

É aqui no vale que encontramos o Covão d’ Ametade, logo a seguir a uma curta descida da vista totalmente aberta para o vale glaciar. E é precisamente no Covão d’ Ametade que o Zêzere se vai formando e iniciando o seu rumo de mais de 200 km até desaguar no Tejo, em Constância. O Covão d’ Ametade é uma área deprimida e mal drenada onde se acumularam sedimentos que deram origem à vegetação que o circunda. Típico de áreas de montanha de origem glaciar, nestas figuras geológicas encontramos normalmente pequenos lagos nos vales.

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Este é um lugar surpreendente e certamente lindíssimo em qualquer época do ano. Calhou-nos um cenário que poucos imaginariam ser português, um estreito curso de água acompanhado por árvores e montanhas – os Cântaros – nevadas quase por completo, uma imagem invernosa mais habitual no centro da Europa. Em forma de anfiteatro, com uma zona de lazer que inclui mesas para piquenique e até assadores, este é um lugar plácido. À sua volta rompem majestosos o Cântaro Magro, o Cântaro Raso e o Cântaro Gordo.

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À medida que vamos descendo para Manteigas, sempre com o vale glaciar por companhia, a neve vai ficando menos presente e o verde sobressai no terreno. A floresta está aqui mais presente do que em qualquer outro ponto da Serra.

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Um vislumbre de água e rochas leva-nos a estacionar o carro à beira da estrada e descer para inspeccionar. A água é absolutamente transparente, só não convidando a um mergulho pela temperatura do ar abaixo de zero que se fazia sentir. É certo que temos que cá voltar para umas quantas caminhadas e banhocas quando o clima o permitir.

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Manteigas é uma vila sossegada com o enquadramento natural como o seu encanto maior.

Como a estrada de Manteigas para o Sabugueiro, com passagem pela albufeira de Vale Rossim, estava encerrada devido ao gelo, repetimos com agrado o caminho em direcção à Torre, agora em versão subida.

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A aproximação à Torre traz consigo uma série de miradouros soberbos, ou não estivéssemos nos mais altos poisos de Portugal. O trânsito por vezes tem pontos positivos e neste caso foi deixar-nos parados mesmo junto ao formoso Cântaro Magro, desta vez em versão granito nevado.

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Um pouco antes fica o miradouro Nossa Senhora da Boa Estrela. Pleno de rochas com formas diferentes e até irreais, numa delas encontramos esculpida a padroeira dos pastores.

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E eis que chegamos à Torre.
Estamos precisamente a 1993 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal continental. Diz-se que daqui se pode observar metade do território português e parte do espanhol.
Foi D. João VI que no século XIX mandou construir uma torre para que pudéssemos dizer que o lugar alcançava os 2000 metros. Entretanto foram ainda construídas duas estruturas – os radares abobadados de cabeça amarela – que são hoje uma das imagens de marca da Serra da Estrela.
Isso e o centro comercial mais alto do país, onde cada espécie de loja vende exactamente os mesmos produtos da sua vizinha. Queijo, presunto, pão regueifa, roupa. Tudo produtos da região.

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Da Torre saem umas pistas da Estância de Ski da Serra da Estrela (entrada cá em baixo), a única no país. Pequeninas, quer a estância quer as pistas, mas ainda assim razoáveis para matar o bicho em terra lusa aos aficionados.

Dizendo adeus à Torre, ainda antes que a luz dos diminutos dias de Inverno se fosse, houve tempo para descer a Serra pelo lado de outra das suas mais importantes povoações: Seia. Tudo ao redor estava nevado, cortesia do forte nevão da véspera, e as cores do fim do dia não eram perturbadas nem pelas nuvens quase à nossa altura.

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É neste caminho que encontramos a Lagoa Comprida, umas das 25 lagoas do Parque e, provavelmente, a mais famosa. A 1580 metros de altitude, este é um glaciar tornado barragem. A sua estrutura em granito é poderosa. Podemos, e devemos, subi-la para apreciar o espelho de água onde se avista ao longe no cimo de uma elevação uma casinha branca. Este pequeno monte faz lembrar as cavacas, doce típico de algumas regiões, em particular de Aldeia das Dez, não muito distante daqui.

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Mais lagoas se seguem até entrarmos no Sabugueiro, conhecida como a aldeia mais alta de Portugal, instalada a 1050 metros de altitude (este título não será, porém, correcto, uma vez que em Montalegre existem aldeias a maior altitude). Esta aldeia já no concelho de Seia é uma das portas de entrada no coração da Serra da Estrela, mas confesso que não lhe acho grande piada pelo ar de feira das suas lojas e mais lojas. Mas esta é também a vertente da Serra mais agrícola e virada para a pastorícia, lugar por excelência da feitura do Queijo da Serra.
Muito ficou a faltar conhecer, não fosse este o maior Parque Natural do país.
Mais planos para o futuro, portanto: percorrer a estrada que segue pelas Penhas Douradas, dita por um local como o pedaço mais bonito da Serra, e aquela que nos leva a Loriga, zona de vales rodeados de montanhas.

A montanha, sempre ela.

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Terceiro dia pelo Alentejo Central

“Ó minha terra na planície rasa
Branca de sol e cal e de luar
Minha terra que nunca viste o mar”

Minha Terra – Florbela Espanca


O amanhecer do terceiro dia pelo Alentejo Central deu-se no tranquilo e bem restaurado Solar dos Mascarenhas, em Vila Viçosa. 

Vila Viçosa deve o seu nome à fertilidade das suas terras, não apenas em termos agrícolas, mas também ao mármore que dai brota.



Terra de Florbela Espanca e Henrique Pousão, esta vila graciosa teima em recordar estes dois artistas superiores um pouco por cada canto, seja em placas anunciando “aqui viveu” seja em estátuas na praça central.








São muitas as igrejas e conventos de Vila Viçosa, mas ela é feita sobretudo de ruas estreitas com casario imaculadamente branco, onde as características listas alentejanas estão igualmente presentes. O amarelo domina, mas o azul também faz questão de aparecer.





Os pormenores pitorescos são inúmeros e alguns edifícios possuem fachadas mais ricas, recordando a nobreza que se estabeleceu ao redor do Paço Ducal.




As laranjas de Dezembro são, porém, as rainhas na decoração da vila. Estão por todo o lado, mas é na Praça da República e pela sua Avenida Bento de Jesus Caraça que realizamos que Vila Viçosa é um laranjal.




Esta sua praça principal é melhor compreendida desde as muralhas do castelo. 
Foi com a construção de um ermitério por parte dos monges Agostinhos e posterior construção do castelo, no século XIII, no reinado de D. Dinis, que Vila Viçosa deixou de ser um lugar dependente de Estremoz. 


O castelo, lugar intra-muralhas de umas poucas casas e da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (fundada por D. Nuno Álvares Pereira, outra das figuras maiores da vila – casou a sua filha com o rei D. João I -, e onde encontramos a imagem da padroeira de Portugal), foi residência dos Bragança, a família nobre mais importante do reino – “depois de vós, nós” -, que viria ela própria a reinar séculos mais tarde, até à inauguração do Palácio Ducal.

Este evento foi decisivo na vida da Vila.

Em 1501 foi dado início à construção do Paço Ducal, cuja obra continuou por mais de um século até ser concluída, e a fixação da Casa dos Duques de Bragança acabou por criar uma nova urbe, com a consequente construção de igrejas e conventos e muita animação e presença de figuras ilustres à volta da família ducal.
Foi D. Jaime, o quarto duque de Bragança, o grande impulsionador do Paço, mas viria a ser o oitavo duque desta casa aquele que ganharia maior projecção na história de Portugal quando a 3 de dezembro de 1649 daqui saiu para ser aclamado rei em Lisboa e fundar a quarta dinastia portuguesa. 

D. João IV e seu cavalo está hoje imortalizado em estátua no centro do imenso Terreiro do Paço de Vila Viçosa. Assim como imensa é a fachada tardo-renascentista do Palácio Ducal, a maior da arquitectura civil portuguesa. São 110 metros de comprimento de mármore preto e branco da região, uma frontaria em estilo italiano que respira elegância e delicadeza em cada centímetro. 



A visita ao Palácio é obrigatória. Por mais palácios que estejamos habituados a visitar, em Portugal ou no estrangeiro, este Palácio não deixa de nos surpreender pela beleza dos seus tectos, frescos, mobiliário, tapeçarias e pinturas. A escadaria que parece suspensa é encantadora. A capela é magnífica. E a cozinha, então, é um deslumbre de cor pelos mais de 600 utensílios em cobre da sua colecção.


Do Paço Ducal de Vila Viçosa saiu, em 1 de Fevereiro de 1908, o rei D. Carlos para morrer no Terreiro do Paço de Lisboa. O regicídio viria a trazer, dois anos mais tarde, o fim da monarquia e subsequente implantação da República. O Palácio Ducal de Vila Viçosa entraria então num período de ocaso até reabrir as suas portas nos anos 40, já propriedade da Fundação Casa de Bragança. 




Se entrarmos pela porta principal do Palácio no início da visita, esta terminará após uma delicada passagem pelo claustro e por alguns dos seus jardins que nos fará sair pela curiosa Porta dos Nós. Do outro lado da estrada fica a Tapada Real, a qual se estende para lá dos limites do concelho de Vila Viçosa. 

Voltando ao Terreiro do Paço, outros dois edifícios merecem aqui destaque. 


Um, o barroco Convento e Igreja dos Agostinhos, panteão dos duques de Bragança. 



Outro, o Convento e Igreja das Chagas, construído para ser panteão das duquesas de Bragança que acabou por ser ocupado pelas clarissas de Beja e hoje é a Pousada D. João IV. O claustro deste convento é imperdível e transmite uma tranquilidade imensa. 

Deixada Vila Viçosa seguimos para Redondo, com passagem pela bonita Bencatel, uma das freguesias da primeira destas terras conhecida pela extracção de mármore e agricultura. 

Redondo estende-se hoje no sopé de uma rocha onde se ergue a Torre de Menagem e restos da muralha. É aqui que podemos conhecer a Porta da Ravessa, nome que nos faz recordar ser esta uma das principais regiões vitivinícolas, e a curiosa entrada principal no castelo com relógio de sol, na chamada Porta do Postigo. 





De Redondo até Estremoz todo um novo mundo se nos apresenta. A monotonia da planície alentejana que nos habituámos a ter por companhia nestes três dias dá lugar de forma abrupta à ondulação da Serra de Ossa


Pela estrada vamos rodando com o carro por subidas e curvas, uma novidade. O seu ponto mais alto fica a 653 de altitude, mas toda a paisagem da Serra foi ideal para refúgio dos muitos monges eremitas que por aqui passaram ao longo de quase o último milénio. Construíram inúmeras grutas, antas e mosteiros, mas o Convento de São Paulo, do século XV, é destaque absoluto por estas paragens. D. Sebastião passou por aqui antes de morrer em Alcácer Quibir e Catarina de Bragança veio para aqui depois de enviuvar de Carlos II de Inglaterra. Hoje um hotel, abriga uma das maiores e melhores colecções de painéis de azulejo.


A Serra de Ossa é, pois, um lugar sagrado. Mas é o verde e as suas muitas espécies arbóreas (sobreiros, azinhos, pinheiros, oliveiras, laranjeiras e medronheiros) que fazem dela o pulmão da região.  

A majestática Torre de Menagem de Estremoz, no cimo de um outeiro, é o grande destaque na planície à medida que nos aproximamos da nossa última paragem. Iniciamos, porém, a visita a esta histórica vila branca e do mármore pela zona baixa por onde se estendeu esta urbe medieval. 


O Rossio de São João é monumental na sua dimensão. Pena que sirva de parque de estacionamento. À sua volta foram surgindo casas nobres e monásticas. 



Alguns exemplos, o Convento das Maltesas, antigo hospital, com a sua fachada com frontão manuelino, Escudo Real encimado pela Cruz de Malta e pela Cruz de Cristo e duas esferas armilares a ladearem-no. Tudo isto esculpido em mármore.


O Convento dos Congregados


E o antigo convento e Igreja de São Francisco


O Café Águias d’ Ouro, construção de 1909, é um elemento que rompe com o equilíbrio de todos estes edifícios anteriores. Com fachada com azulejos arroxeados, cinco varandins e duas janelas geminadas, esta é uma fantasiosa e imaginativa criação do seu original proprietário, com inspiração na Arte Nova.


Ainda no centro, um pequeno lago com a alcáçova lá em cima como protectora possui uma escultura no centro a simbolizar Saturno, o deus romano das colheitas. Mas este é popularmente conhecido como Gadanha devido à alfaia que traz na mão direita e que, diz-se, tanto simboliza o acto da colheita como a morte ceifando a vida. 

O restaurante e mercearia Gadanha é uma boa opção para almoçar, numa interpretação contemporânea da cozinha regional.



Subimos, então, até à cidade amuralhada de Estremoz. E apreciamos de perto, enfim, a elegância dos 27 metros da Torre de Menagem, toda em mármore. No seu terraço estão esculpidas as três coroas dos reinados que viram a sua construção: os de D. Afonso III, D. Dinis e D. Afonso IV. No entanto, devido ao mau tempo que se fazia sentir, foi impossível a subida ao seu topo, com entrada pela Pousada Rainha Santa Isabel. 




Mas do Terreiro onde está implantada a Torre, a vista para a vasta planície alentejana faz do local um miradouro fantástico, com a Rainha Santa Isabel como guardiã. D. Dinis passava por aqui amiúde e a Rainha Santa aqui acabou por falecer.




Dentro das muralhas desta fortaleza encontramos ainda a Casa da Câmara ou da Audiência e a Igreja de Santa Maria, bem como várias portas e janelas manuelinas. 

O Museu Municipal de Estremoz também fica no bairro do castelo. Aqui se apresenta a reconstituição de divisões das casas alentejanas, como quartos e cozinhas, com mobiliário e utensílios regionais, com destaque para um oratório que seduziu até José Saramago. 


Mas é a colecção dos tradicionais bonecos de barro de Estremoz o ex-libris deste espaço museológico. Recentemente distinguidos pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade, esta colecção foi reunida por Júlio Reis Pereira, tendo sido adquirida pelo município. Estes bonecos, com mais de trezentos anos de história, sempre mantendo as mesmas técnicas artesanais, representam cenas do quotidiano, presépios, procissões, o que calhar. A oficina Ginja, na rua à frente da entrada do castelo, é uma das que ainda se dedica a esta arte popular


Para terminar este périplo pelo Alentejo Central, uma informação acerca do nome Estremoz: diz a lenda que no outeiro onde hoje encontramos a Torre de Menagem existiu em tempos um tremoceiro onde se abrigavam famílias expulsas de Castelo Branco por delitos graves. “Não tendo encontrado mais do que sol, lua, estrelas e a sombra de um tremoceiro” decidiram, então, que a terra se chamasse Estremoços. D. Afonso III aceitou e concedeu-lhe foral em 1258, tendo o brasão de Estremoz acolhido estes três elementos: o tremoceiro, o sol e a lua.

Segundo dia pelo Alentejo Central


O segundo dia deste passeio pelo Alentejo Central começou com uma curta visita por Reguengos. A sua igreja de Santo António destaca-se, imediatamente, pelo seu estilo neo-gótico, mas sobretudo por ser um estilo pouco comum de se encontrar no nosso país. O edifício da Câmara Municipal, branco com frisos em azul, e uma arcaria mimosa, já é mais fácil de identificar com a paisagem urbana alentejana.



De Reguengos saímos com destino à Amieira, ainda em terras do Alqueva. Nesta época do ano não nos cruzamos com praticamente ninguém nas estradas. A chegada ao Miradouro do Monte, uns poucos quilómetros antes da entrada na povoação da Amieira, mostra-nos algum descuido, ou até descaso, na conservação das infraestruturas – as madeiras das plataformas de observação estavam partidas. No resto, a vista para o lago é fantástica. 



A uns minutos da povoação da Amieira fica a Marina da Amieira, donde saem os cruzeiros turísticos pelo Alqueva. A paisagem continua em alta, mas aqui o cuidado é outro, mais em conformidade com ela.



De volta a Reguengos, esta é uma zona com algumas quintas – os montes alentejanos – e com cenas rurais.




As povoações de São Marcos do Campo e Campinho valem uma visita. Curioso observar que para além das obrigatórias igreja e jardim público de qualquer povoação portuguesa, por aqui há que lhes juntar a praça de touros. Seja singela ou mais imponente, ela não pode faltar numa terra alentejana. E curioso, também, recordar costumes que julgava pertencerem apenas a memórias distantes de aldeia, como observar em Campinho aquelas carrinhas tipo Hiace cuja porta traseira deixa ver para dentro uma autêntica loja, cheia de roupa e tecidos que chegam às populações mais remotas em venda directa.



A próxima passagem foi num dos principais centros oleiros do país, em São Pedro do Corval. São 32 olarias oficialmente reconhecidas, uma delícia para quem gosta desta arte. 


Aqui perto fica a Rocha dos Namorados, um menir no meio de campos de oliveiras que, diz-se, é capaz de medir o número de anos que cada um terá de casamento.




Do Corval a Terena é uma bonita jornada por uma estrada que faz jus ao dito “é sempre em frente, não tem nada que enganar”. A paisagem continua pontuada com campos cultivados de oliveiras, com as cores do Outono majestosas.


Terena é uma das mais bonitas povoações da região. Com castelo que se destaca na paisagem desde longe, o burgo que se foi desenvolvendo à sua porta é extremamente pitoresco. 





Lá estão as casas brancas com listas azuis e amarelas à vez. Para compor o cenário multimedia, de uma delas saiam de um rádio (gosto de pensar que talvez de um gira-discos) os versos de Florbela Espanca cantados na voz de Luís Represas, “E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma, e sangue, e vida em mim. E dizê-lo cantando a toda a gente!”. Que exactidão e que emoção poder ouvir e ser tomada por este sentimento precisamente aqui.





Do castelo, para além da vista privilegiada para o casario temos igualmente uma vista soberba, livre e imensa para a planície pejada de oliveiras.


Terena é ainda conhecida e reconhecida por ser o lugar da Ermida da Boa Nova, já fora da povoação. O seu exterior parece uma fortaleza apalaçada. Possui ameias, escudo de Portugal e uma torre sineira. O interior é igualmente surpreendente, quase todo preenchido com frescos ainda bem conservados.  Elemento peculiar e singular desta Ermida é a sua cobertura em forma de cruz grega – aspecto só visível através de fotografias aéreas -, único no nosso país. 

A história da construção desta Ermida vale a pena ser contada. Em 1340 o imperador de Marrocos invadiu a Península Ibérica para a reconquistar. D. Maria, filha de D. Afonso IV, era casada com Afonso XI, rei de Castela, e tinha vindo a Portugal pedir por socorro ao rei seu pai. Quando chegou perto de Terena, de regresso a Castela, recebeu a notícia por parte de um cavaleiro de que seu pai iria preparar um exército em auxílio às suas preces. O marroquino acabou por ser derrotado, naquela que ficou conhecida como a Batalha do Salado, e D. Maria resolveu mandar construir esta igreja, dando-lhe o nome “Boa Nova” como homenagem à notícia que lhe foi trazida precisamente naquele lugar.
Junto a esta ermida fica o Vale Sagrado de Lucefecit (do deus pré-romano Endovélico) e, no sentido contrário, a Albufeira de mesmo nome.

A hora de almoço coincidiu com à chegada ao Alandroal. O restaurante típico A Maria é uma escolha óbvia. Não se espere simpatia em demasia, insista-se na auto escolha dos pratos e invista-se nas entradas.




Alandroal possui… adivinhe-se? um castelo. E umas muralhas. E uma torre de menagem que hoje está transformada em torre sineira. E uma fonte (das Bicas): “Linda cidade de Elvas, Tem Badajoz defronte, Mais bonito é Landroal, Que tem seis bicas na fonte”. Tem ainda umas casas distintas com adornos em azulejo que faz pensar o Alandroal como uma povoação com alguma importância.


Não é preciso ser apaixonado de castelos e fortalezas para compensar um desvio até à Juromenha. Mesmo na fronteira com Espanha, com o Guadiana a separar os dois países, Juromenha é também conhecida como Nossa Senhora do Loreto. A sentinela do Guadiana foi uma antiga vila e praça-forte dos árabes. Era a então Chelmena. Foi conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques e posteriormente doada à Ordem de Avis. A sua localização é privilegiada quer em termos estratégicos quer paisagísticos. Aqui se viveram episódios históricos na época das guerras da Restauração e Peninsular e aqui se celebraram casamentos reais. No princípio do século XX a sua população abandonou definitivamente o interior das muralhas, estabelecendo-se no arrabalde que constitui hoje a povoação. 






A Fortaleza da Juromenha é, pois, nos nosso dias um lugar abandonado. Desolado, até. Mas, depois, temos aquelas ruínas e aquela paisagem fenomenal que, em conjunto, fazem do espaço um pedaço encantado e misterioso, soberbo, enfim. 
Lugar de contrastes, no meio da imponência militar de outrora, mas ainda sentida, com o rio a correr sereno por debaixo dos seus baluartes, um rebanho passeia-se junto às muralhas, fazendo ecoar os seus “mé, mé” naquela imensa paisagem.


Depois da Juromenha queria passar por Vila Boim, mas evitar Elvas. Segui por Ciladas de São Romão e foi mais ou menos isso, uma cilada por estradas que se transformaram em caminhos rurais. Nada a apontar à paisagem, mas o resultado de caminhos que afinal pareceram não ter saída foi a obrigatoriedade de passar por Elvas. Oportunidade óptima para rever o seu sempre majestoso aqueduto.
Vila Boim é uma típica povoação alentejana, casario branco pontuado com cores várias, jardim público, igreja e praça de touros.

Para o final do dia ficou a visita a Borba.






Terra de mármore, vinhas e olivais, o burgo é interessante. Com alguns solares e palacetes, um pequeno núcleo muralhado com castelo, merecem uma visita mais atenta a Igreja das Servas e o Chafariz de Três Bicas (em mármore, diz a lenda que as três bicas correspondem cada uma a um dos estados civis: casados, solteiros e viúvos). 


A pernoita foi na vizinha Vila Viçosa, a uma curta distância por uma estrada que deixa ver a céu aberto as pedreiras donde se extrai o mármore que dá fama à região. Ainda farta do almoço, a escolha do breve jantar não pôde senão recair no Núcleo Sportinguista de Vila Viçosa, engalanado pela nossa vitória no Bessa. Final de dia perfeito.

Primeiro dia pelo Alentejo Central

3 dias de Inverno pelos caminhos mais a leste do Alentejo Central significam dias mais curtos de luz, mas não necessariamente de frio. 

Saindo de Lisboa em direcção a Monsaraz, primeira paragem, são pouco mais de 90 minutos de viagem de carro sempre por autoestrada ou estradas rectas, uma constante por esta região.


Contraindo, no entanto, a ideia de planície alentejana, à aproximação de Monsaraz vamos avistando esta aldeia histórica desde longe, num destaque absoluto instalada no alto de um outeiro, como se fosse a campeã que ocupa o lugar cimeiro de um pódio. E é como se o fosse, ou não estivesse Monsaraz sempre nas listas das aldeias mais bonitas do nosso país.


Antes de entrarmos por uma das quatro portas das muralhas que irão oferecer-nos este burgo medieval feito de casas brancas e xisto, um presente à sua altura é a vista fabulosa para a Barragem do Alqueva e planície alentejana que a rodeia. Pura serenidade. 


E porque o Alentejo não é só paisagem, à entrada da aldeia encontramos uma bonita escultura a celebrar o Cante Alentejano.


Já estamos convencidos da grandeza do lugar e ainda nem entrámos em Monsaraz.

Este era o lugar de um primitivo castro. Ocupado por visigodos e mouros, em 1252 D. Sancho II conquista-a para Portugal, com a ajuda dos Templários, tendo-lhe sido concedido foral poucos anos depois. As guerras com Castela, porém, seguiram-se, com frequentes cercos e pilhagens, nesta que é uma terra de fronteira. 

Sabendo, então, que este foi um lugar de muitos povos, e até de ocupação que remonta a tempos pré-históricos (como o testemunham os diversos monumentos megalíticos presentes nas redondezas), adentramos a aldeia pela Porta de Alcoba, em arco, e após uma breve subida logo se nos abre um grande largo, onde encontramos a igreja matriz, o pelourinho, o edifício do antigo Hospital da Misericórdia e os Paços da Audiência. 


As ruas em pedra, duas mais longas e inúmeras outras que lhe são perpendiculares, todas elas estreitas, são em xisto. 


O casario, branco. 


A pedra teima em subir pelas casas acima. 


Os pormenores são deliciosos, como portas, janelas, bancos, chaminés ou uma árvore que parece concorrer com o telhado. 


Pela altura do Natal a aldeia transforma-se num presépio, com figuras em tamanho real espalhadas um pouco por todo o lado.



A Porta da Vila, virada para o Arrabalde (onde se situa a Igreja de São João Baptista, o mais antigo monumento de Monsaraz), é a principal entrada, com a sua torre sineira alva. 


Daqui saímos para logo entrarmos novamente e percorrermos a outra rua longa que irá dar à outra ponta da aldeia, onde fica o Castelo. A caminho, mais vistas fantásticas e inspiradoras se nos abrem, o Guadiana ao fundo e a planície lá em baixo pingada de oliveiras.


Do Castelo alcançam-se vistas ainda maiores, Guadiana e Barragem do Alqueva de um lado, aldeia de Monsaraz a nossos pés do outro. Daqui conseguimos perceber definitivamente a forma da aldeia e o lugar estratégico e encantado que é.
No século XVIII a população começou a abandonar Monsaraz, sobretudo pela escassez de água. As guerras da Restauração estavam terminadas e a gente de intra-muralhas e do Arrabalde optou por se instalar em Reguengos, na planície, a cerca de 16 km de distância, atraídos pelas vinhas e pelas colheitas de trigo, a par da água. 

Monsaraz viu-se abandonada e decaiu. Hoje está totalmente recuperada e bem viva, fazendo parecer distante a sentença de Vergílio Ferreira, na Aparição,  “Monsaraz-terra, esqueleto de velhice e de ruína, com crianças solitárias que riem como sobre uma sepultura”.

Já fora de Monsaraz, um bom local para almoçar é a Herdade de São Lourenço do Barrocal.

Para a tarde, um passeio pelas margens do Alqueva, com paragem obrigatória na nova Aldeia da Luz

O Alqueva é hoje o maior lago artificial da Europa. Possui 250 km2, 1200 km de margem, e entre 226 a 427 ilhas (este número varia consoante a cota da água, entre 130 e 152 metros). O projecto de construção da Barragem implicou a submersão da antiga aldeia da Luz em 2002 e sua correspondente relocalização, dando origem à referida nova aldeia da Luz, a cerca de 3 km da anterior. 


Reerguida de raíz, observamos a suas casas de planta baixa, corridas, de cores variadas, obedecendo à arquitectura típica das povoações alentejanas. Embora não seja uma réplica original da anterior aldeia, foram respeitadas a posição relativa aos arruamentos e as relações de vizinhança. Foram construídas 212 habitações, edifícios públicos, equipamentos colectivos vários, espaços verdes. 


Mais delicado, até a construção do novo cemitério implicou a manutenção da memória da antiga aldeia, transladando-se todos corpos do cemitério da velha Luz.
A nova Igreja de Nossa Senhora da Luz é, essa sim, uma réplica fiel da que encontrávamos na antiga aldeia. Hoje fica no fundo da povoação, quase à beira das águas do Alqueva e junto ao Museu da Luz, ambos com vista imaginária para a entretanto submersa velha aldeia.


O Museu da Luz é etnograficamente e arquitectonicamente imperdível. Na sua visita ficamos a compreender todo o processo de transferência da aldeia, interpretando a paisagem quer na sua vertente natural quer cultural, sempre com referências à vida na região e na antiga aldeia.


A sua arquitectura é belíssima e perfeitamente integrada no ambiente tranquilo onde se insere. O edifício está parcialmente enterrado, deixando para lá dele a planície e a água, elementos aqui recorrentes. Em xisto no seu exterior, do interior do museu são rasgadas janelas que deixam observar o grande lago mesmo ali à beira e o lugar exacto da antiga aldeia.

Da Luz partimos rumo à Estrela, também situada junto às águas do Alqueva. O Alqueva estende-se por 20 concelhos e o seu projecto, que já vinha desde os anos 50, pretendeu trazer novas áreas de agricultura de regadio, garantir o abastecimento público e industrial, a produção de energia eléctrica e a criação de novas valências turísticas. 

Este é um habitat natural e rodando pelas estradas ao redor do Lago vemos desfilar rebanhos de ovelhas e cabras, porcos, vacas, para além de aves que infelizmente não sei identificar, como a águia pesqueira, a águia real e o abutre preto.


A aldeia da Estrela, em si, não tem grandes argumentos. São antes as margens do Alqueva que por aqui que nos preenchem os sentimentos, cheias tranquilidade exacerbada pelos reflexos que a paisagem natural e umas pequenas casinhas vão deixando na água. 

Retornando a Monsaraz, impõe-se uma paragem em Mourão
Situado na fronteira com Espanha, esta povoação é conhecida pelas suas características chaminés. 


E também por ser a terra de Marco Paulo. Mas, para mim, aqui não houve dois amores em disputa. O seu castelo, ou melhor, a localização do seu castelo rouba o coração de qualquer um, não deixando espaço para mais nada. 


Erguido num lugar mais elevado em relação ao casario, o Castelo da Lousa, por referência à antiga Villa da Lousa, é um excelente exemplo de arquitectura militar. A igreja matriz de Mourão fica por aqui e está conservada. As muralhas do castelo e algumas torres e ameias também restam de pé, mas muito não se tem, dando as ruínas um ambiente de mistério ao sítio. 




Caminhar sobre a sua muralha é um ponto altíssimo da visita ao castelo e, uma vez mais, o Guadiana transformado em Alqueva oferece-nos paisagens soberbas, bem como a planície alentejana.



Com a noite já a cair prematuramente sobre a tarde neste dia de Dezembro, restou tempo apenas para uma visita ao Cromeleque do Xerez, junto ao Convento da Orada, no sopé de Monsaraz. 


Foi o único monumento megalítico a ser relocalizado por força da construção da barragem do Alqueva, mas também já teria sido artificialmente composto no século XX. Supõe-se que um grande menir de 4 metros tivesse existido, sendo que o que hoje vemos é um menir ao centro de configuração fálica, de 5,60 de altura, rodeado por fragmentos menores. A paisagem em redor é, uma vez mais superior, e o fim do dia, com a luz natural a fugir e as luzes artificiais a surgir em sua substituição, dá ao sítio um encanto singular.

Para pernoitar, a escolha recaiu em Reguengos de Monsaraz, na Casa Monsaraz, e o jantar no restaurante Barril. Ambas escolhas a repetir, com a maciez daquelas bochechas de porco preto ainda na memória.

Poço da Broca

Banhava-me junto à nora do rio em São Sebastião da Feira num daqueles fins de tarde incrivelmente quentes de Julho quanto um parceiro de relax me dá a dica para visitar a Barriosa, um lugar fantástico não muito distante dali. Como podia um tripeiro de passagem pela Beira saber de um lugar fantástico a 15 minutos da terra da minha avó e eu nunca ter ouvido falar dele? 
O certo é que esta alfacinha tinha de voltar no dia seguinte para a capital, mas ficou os próximos meses a matutar na ideia. Até que em Setembro cheguei finalmente ao Poço da Broca – assim se chama o lugar fantástico na Barriosa, Vide, já concelho da Guarda. 
 
É uma parede extensa de cascatas que caem de uma falha (ou talvez de um terreno manipulado pelo Homem para melhor servir os seus propósitos agrícolas) para a Ribeira de Alvôco. 
 

O lugar é lindíssimo e mesmo numa época prolongada sem chuva a água que jorra lá de cima é suficiente para nos encantar. Não consigo imaginar o quão poderoso será o cenário após uma forte chuvada.   
Este espaço é também uma praia fluvial. Podemos mergulhar, estender a toalha, sentar na esplanada ou comer uma refeição completa no elogiado restaurante Guarda Rios ali mesmo à beira. 



Ou podemos sair para uma curta caminhada circundando o rio e cascata. 

Vistas privilegiadas é o que ganharemos.

Vemos a pitoresca nora de um antigo moinho, a brutal sucessão de cascatas, as águas ainda assim plácidas, a paisagem serrana. 


 

Subindo chegaremos a um outro patamar onde o rio corre calmo e um barco estacionado parece ter sido ali colocado para conferir maior dramatismo ao postal. 

Tudo belíssimo. 
No fim, por curiosidade descubro que em linha recta estamos apenas a 15 km da Torre, o ponto mais alto de Portugal continental. 

Tudo tão perto.

Piodão – Chãs d’ Égua – Foz de Égua – Piodão

Este é o maior e mais completo percurso pedestre que se pode fazer ao redor do Piodão. 
 
Em tempos havia percorrido o trilho de ida e volta até Foz de Égua, aqui descrito).
 
Agora, do Piodão até Chãs d’ Égua, passando pela praia fluvial de Foz de Égua e retornando ao Piodão são cerca de 10 intensos quilómetros, mais de quatro horas de uma soberba caminhada, pelo que é aconselhável sair bem cedo de manhã.
 
 
 
 
Logo pela manhã o Piodão recebe-nos vazio, sem as enchentes de turistas, ideal para deambularmos pelas suas sinuosas e declivosas ruazinhas conquistadas ao terreno em sossego. Os materiais usados nas suas típicas e pitorescas casas, já se sabe, são o xisto e a madeira, aqueles de que a região é pródiga. A tinta azul para pincelar as portas e os detalhes das frestas das janelas diz-se que era a única cor à disposição na povoação depois de lá ter sido deixada um lata de tinta dessa mesma cor. Lendas não faltam. 
 
 
 
Percorremos, então, o Piodão em direcção ao cemitério onde iniciamos o trilho até Chãs d’ Égua. 
 
 
 
 
 
 
A paisagem entusiasma desde o primeiro minuto. A Serra do Açor abre-se-nos em todo o seu esplendor e inunda-nos de felicidade. Enquanto que no topo vamos vendo os seus picos elevados recortando a paisagem e desenhando vales no horizonte, em baixo vemos desfilar os socalcos e as casinhas em xisto, forma artística do Homem adaptar esta natureza magnífica mas adversa às suas necessidades. 
 
 
 
 
Esta primeira parte do percurso é fácil. Quando descemos para a estrada e começamos a seguir no asfalto até à povoação com o curioso nome de Pés Escaldados e daí até Chãs d’ Égua é que tudo se torna mais cansativo por causa da subida e do calor. 
 
 
Pés Escaldados é um pequeno ponto na paisagem com as típicas casas de xisto da região e uma fonte branca a marcar a diferença. Já Chãs d’ Égua é um povoado maior de casas brancas encravado num vale  onde não faltam também as ditas casas de xisto com as telhas de lousa. 
 
 
 
 
Por esta zona foram encontradas algumas rochas com gravuras de arte rupestre, daí que há poucos anos tenha sido criado o Centro Interpretativo de Arte Rupestre de Chãs d’ Égua no edifício da antiga escola primária.
 
 
 
Deixando esta povoação para trás e todo este imenso e soberbo vale, iniciamos então a descida em direcção a Foz de Égua. Os ribeiros começam a acompanhar-nos e agora já não são apenas as casas e degraus em xisto a compor a paisagem: também as pontes de xisto a marcam para deixar as águas correr leve sob os seus arcos.
 
 
 
 
 
O caminho de Chãs d’ Égua até Foz de Égua não é especialmente difícil ou técnico, mas requer atenção e cuidados e bom calçado. Algo acidentado, tanto sobe como logo de seguida volta a descer, sendo estreito e escorregadio em alguns momentos. Sempre bem marcado, porém.
 
 
 
 
 
A chegada a Foz de Égua não engana. Avista-se ao longe o seu casario e, em especial, a sua ponte suspensa de estacas. Lá em baixo a praia fluvial boa para lavar os joelhos. Mas, também, sem chuva não se pode pedir muito mais.
 
Após uma breve banhoca e um curto descanso há que voltar ao Piodão, percurso fácil e belíssimo de uns meros 40 minutos.
 
 
 
Acontece que o acumulado e, sobretudo, o dia escolhido para esta caminhada tornaram a volta num quase tormento. Dia 17 de Junho de 2017, viríamos todos a saber nos dias seguintes, um dos dias mais trágicos no nosso país, dia de clima atípico, dia de calor extremo, dia sem humidade, dia irrespirável nas Beiras. 
 
Ainda a manhã não tinha chegado ao fim e já tinha bebido quase três litros de água e guardava ainda mais meio litro para o que desse e viesse (ia preparada). A uma meia-hora do Piodão vejo no caminho uma rapariga estendida no chão e o seu namorado pede-me algo com açúcar como ajuda. Dou e sigo o meu caminho pensando que tenho de chegar o mais rápido possível ao Piodão pois estou sozinha, algo que não apenas o cansaço começa a apoderar-se de mim e desato a imaginar coisas. Já não consigo aproveitar a paisagem do vale que cai para a minha direita e que sei que é belíssimo, já só penso em chegar.
 
 
E chego. Ainda com força para tirar a última foto. 
O silêncio impera. Como se antecipasse o que estaria para vir nas próximas horas.

Fraga da Pena

Da Fraga da Pena já havia falado em tempos aqui.
Mas é lugar tão bonito, tranquilo e luxuriante que vale sempre a pena nova visita.





Localizado na Mata da Margaraça, na Área Protegida da Serra do Açor, a cerca de meia-hora do Piodão e cinco minutos da Benfeita, outra aldeia de xisto que merece uma visita, aqui vemo-nos envolvidos pela natureza em estado puro.






No meio de uma vegetação profunda descobre-se  escondida num desvio da estrada uma sucessão de quedas de água irreal, cortesia de um acidente geológico.
A maior cascata cai de cerca de 20 metros de altura para uma piscina de água transparente e fria. É difícil o sol penetrar por entre o intenso arvoredo, feito na maioria de carvalhos, castanheiros e medronheiros, pelo que este é o lugar perfeito para fugir do calor.






E avançando pelo terreno acima vários patamares se nos abrem e vamos encontramos recantos e mais recantos, lugares perfeitos para o que sonharmos, onde o silêncio apenas é interrompido pelo som da água a correr ou o ruído dos bichos que por ali habitam. 




Para enfeitar ainda mais o lugar não faltam sequer umas casinhas em xisto.
De volta à base, cá em baixo existe um parque de merendas, pelo que para além do fato de banho é obrigatório não esquecer a lancheira.

Subida ao Monte do Colcurinho

O Monte do Colcurinho é o ponto mais elevado do concelho de Oliveira do Hospital, erguendo-se a 1242 metros de altitude. 
 
Parte integrante da freguesia de Aldeia das Dez, por aqui habituamo-nos a referir-se-lhe apenas por “o Cabeço”.
 
O Cabeço funciona quase como um guardião. De quase qualquer canto do concelho de Oliveira do Hospital ou de Arganil o vimos ou, pelo menos, sentimos.
 
Subi-lo é uma experiência arrebatadora.
 
Podemos fazê-lo de carro ou a pé. 
 
De carro, a viagem é assustadora, numa estrada absolutamente inclinada e estreitíssima cheia de curvas. Não a faço há décadas, mas tenho o medo marcado até hoje.
 
A pé, a viagem assemelha-se mais à Via Sacra em sentido literal, que não no sentido figurado que nos é apresentada no Vale de Maceira, onde começa o percurso que agora proponho de caminhada até ao Monte do Colcurinho.
 
Vale de Maceira é o lugar do Santuário de Nossa Senhora das Preces, um conjunto de 13 capelas. A 13ª capela, a de Santa Eufémia, fica um pouco mais afastada das demais e é depois dela, junto à antiga casa do guarda florestal, que se inicia o percurso pedestre de subida para o Colcurinho. 
 
Daqui até ao Cabeço são cerca 4 ou 5 quilómetros numa penitência de uma hora e meia sempre a subir. Soa terrível mas a paisagem é redentora. 
 
 
O início deste caminho aberto no pinhal é um bom exemplo do que nos espera durante todo o percurso, subidas muito inclinadas. Mas aqui temos sombra, o que deixará de acontecer em breve.
 
 
Quando ficamos acima dos pinheiros começamos a perceber, enfim, o cenário que nos espera mais acima no Cabeço: uma paisagem ampla e totalmente aberta em todas as frentes. 
 
 
Num só olhar conseguimos abarcar Aldeia das Dez, Cimo da Ribeira, Goulinho e Vale de Maceira; 
 
 
num outro olhar Chão Sobral e Alvôco; 
 
 
num outro olhar ainda Gramaça, Porto Silvado e Vale do Torno.
 
 
 
O Colcurinho faz parte da Serra do Açor e embora não seja o seu ponto mais elevado é talvez o seu cerro mais mítico e celebrado. No seu alto se construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora das Necessidades. Conta-se que aqui apareceu a Virgem no ano de 1371 e até hoje este é local de peregrinação. 
 
 
 
Na região qualquer comemoração ou festa serve de pretexto para se subir ao Cabeço e lembro que há décadas até para cá viemos em romaria de madrugada à anunciação de uma passagem de um cometa ou chuva de estrelas. Não recordo o evento, mas recordo a noite gelada de verão que passámos enroladas em cobertores. E provavelmente também ventosa. Não é à toa que a paisagem é polvilhada por antenas eólicas. Por isso que à medida que vamos subindo a vegetação torna-se mais rasteira e vai escasseando e a aridez toma conta do lugar. 
 
 
 
 
 
 
 
Região de xisto, a urze e o medronheiro fazem-lhe companhia.
 
 
 
A aproximação ao Cabeço é um momento de alegria e a chegada ao topo uma verdadeira conquista. Feito com esforço, distinguido com um panorama superior. 
 
 
Para além das vistas que já vínhamos alcançando ganhamos agora a vista para a encosta onde está localizado o Piodão e o círculo fica completo.
 
Aqui já não interessa o que é o quê. Tudo se mistura num abraço infinito. Serra do Açor, Serra da Estrela, Serra de Montemuro, Serra do Caramulo. Ainda para mais, desta vez estou sozinha a 1242 metros de altitude e não vejo ninguém a quilómetros de distância. O mundo é o que eu quiser que seja. 
 
Contemplo a paisagem imensa e descanso no topo do meu mundo.
 
A descida é fácil. Se na subida vim pela frente debruçada para o Chão Sobral, na descida aproveito para me debruçar sobre a Gramaça, ambas também povoações distantes da freguesia de Aldeia das Dez.