São Vicente – Mindelo

A ilha de São Vicente é a mais musical e urbana de todo o arquipélago de Cabo Verde, lugar da baía do Mindelo, enquadrada pelo Monte Cara, uma das mais bonitas do mundo sem quaisquer favores. Das mais áridas e menos montanhosas, foi a última a ser povoada, mas quando o foi abraçou o mundo, tornando-se cosmopolita e com uma cultura vibrante.

Baía do Mindelo e Monte Cara

A terra de Cesária Évora, mas também de Bana, B. Leza e Tito Paris, foi descoberta no dia de São Vicente, a 22 de Janeiro de 1462. Apesar das determinações régias e dos esforços, não foi povoada durante muito tempo depois da chegada do navegador Diogo Gomes. A falta de água foi a grande razão para que as várias tentativas de povoamento não tivessem tido sucesso, tendo a ilha sido destinada a campo de pastagem, apenas ocupada por alguns pastores e pescadores que nela aportavam ocasionalmente. Foi por volta de 1795 que o seu povoamento teve início, na baía do Porto Novo, com a vinda de 20 casais da ilha do Fogo e 50 escravos, mas apenas em 1838 se fundou a cidade do Mindelo. O nome, atribuído pelo Marquês Sá da Bandeira, então primeiro-ministro de Portugal, foi uma homenagem ao desembarque das tropas liberais de D. Pedro IV na praia do Mindelo, em Vila do Conde, durante a Guerra Civil Portuguesa, que opôs liberais a absolutistas. Foi também o Marquês Sá da Bandeira quem assinou o decreto régio para que a escravatura fosse extinta em Cabo Verde, tendo São Vicente sido a primeira ilha onde tal aconteceu, em 1856, o que, juntamente com os seus planos para edificação da cidade do Mindelo, fez com que vejamos hoje um busto seu na capital de São Vicente. Mais decisiva, porém, foi a decisão, igualmente em 1838, da criação de um posto de depósito de carvão no Porto Grande, por parte dos ingleses.

Mindelo

Já se disse, a ilha é árida e escassa em água, tendo como único recurso natural o seu porto, o Porto Grande, hoje Mindelo. Vivia-se a era da industrialização e, dada a posição estratégica de São Vicente e do seu porto, os navios que atravessavam o Atlântico habituaram-se a parar, em escala, na ilha, de forma a abastecerem e, depois, prosseguirem viagem. Os ingleses instalaram diversas companhias carvoeiras e, à boleia disso, a partir da década de 1850 o Mindelo desenvolveu-se. As companhias carvoeiras multiplicaram-se e construíram-se diversas infra-estruturas para apoio dos depósitos de combustível dos muitos navios que por aqui passavam, como cais de embarque e desembarque, forte, alfândega, casa do governo e lojas de comércio. Aliás, ainda hoje, a ilha de São Vicente e o Mindelo, em especial, são muito diferentes das demais ilhas e cidades e vilas do arquipélago, onde os serviços sobressaem em relação à agricultura. Com o desenvolvimento veio o aumento da população, quer de cabo-verdianos quer de estrangeiros, e novos hábitos culturais e sociais e ideias, assim como novos serviços e profissões: comerciantes e negociantes, mas também trabalho precário, prostituição e doenças. Em 1875, o Mindelo era considerado o maior porto carvoeiro do médio Atlântico. Ainda, em 1874, chegou o telégrafo, na sequência da instalação do cabo submarino, ligando primeiro a Madeira e, depois, Lisboa e, assim, a Europa. Todavia, no final do século 19, o primeiro centro urbano do arquipélago de Cabo Verde entraria em decadência: a substituição do carvão por óleos combustíveis foi a grande causadora, desviando muitos navios, assim como a concorrência da abertura do Canal de Suez e do arquipélago das Canárias e do porto de Dakar, tudo isto acentuado pela emergência da I Grande Guerra Mundial.

Baía do Mindelo e Monte Cara
Mindelo

O Mindelo permanece o principal porto do país. Sobretudo, para quem visita a cidade, é a enorme beleza da baía aos seus pés, com o Monte Cara – uma das 7 Maravilhas de Cabo Verde – como parceiro. É um postal perfeito, seja admirado da beira de água ou de um ponto mais elevado. Inclusivamente, temos todo este grandioso cenário desde o Monte Verde, o ponto mais alto da ilha, a 774 metros de altitude, embora não o tenhamos contemplado na sua plenitude, uma vez que a luz natural não estava no seu melhor. Diante da baía do Mindelo de São Vicente, ainda parte deste postal, está a parede de Santo Antão, do outro lado do canal, com o ilhéu dos Pássaros no caminho.

Mindelo
Mindelo
Mindelo
Mindelo
Mindelo
Mindelo

A cidade é agradável, com um ambiente relaxado, expoente da morabeza. Com edifícios e casas coloridas, os seus mercados são lugares vivos e espontâneos – há, pelo menos, o mercado do peixe, o mercado dos legumes e frutas e o mercado de artesanato.

Mercado da Praça Estrela
Mercado Municipal
Mercado Municipal
Mercado do Peixe – chegada do peixe
Mercado do Peixe – chegada do peixe
Venda de peixe
Venda de peixe

No do peixe, em especial, podemos assistir à chegada dos barcos de pesca no cais mesmo ao lado, sendo a pescaria retirada directamente desses barcos para as mãos dos destinatários: seja para o mercado, para os donos de restaurantes ou para as peixeiras que os vão amanhar ali mesmo ou nas redondezas – é comum observarmos essa arte e a venda do peixe nas bermas das ruas do Mindelo.

Réplica da Torre de Belém – Museu do Mar
Réplica da Torre de Belém – Museu do Mar
Réplica da Torre de Belém – Museu do Mar – observatório
Réplica da Torre de Belém – Museu do Mar – observatório

Junto ao mercado do peixe está a Réplica da Torre de Belém ou Torre do Mindelo, onde está hoje instalado o Museu do Mar. Este edifício foi construído entre 1918 e 1921 para funcionar como Capitania do Porto Grande, o que aconteceu até 1937, tendo depois servido de instalação de uma empresa pesqueira pública. É um modelo algo kitsch, diga-se, a que não faltam as torres de vigia nos cantos e as ameias. Restaurado em 2001, foi transformado em museu em 2010 e nele pode conhecer-se da história do Porto Grande até ao lugar do arquipélago enquanto parte da rota do comércio transatlântico, incluindo naufrágios e objectos encontrados. Não se perca o observatório, no último andar da Torre.

Núcleo Museológico Cesária Évora
Núcleo Museológico Cesária Évora
Casa de Cesária Évora

Voltemos à música e à cultura, elementos que fazem do Mindelo um lugar carismático. Lugar de tantos músicos e cantores talentosos, a morna é rainha, mas também outros ritmos que durante tantos anos foram silenciados, como o funána e o batuque. Diariamente, à noite, são muitos os restaurante e bares com música ao vivo, mas também, sobretudo ao fim de semana, a música irreverente surge informalmente em cada canto, em cada quintal. Impossível adormecer enquanto os ritmos de Cabo-Verde ecoam por todo o Mindelo. Como homenagem, visite-se os lugares de Cesária, o Núcleo Museológico de Cesária Évora e a sua Casa.

CNAD – Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design
CNAD – Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design
CNAD – Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design
CNAD – Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design

Na velha Alfândega na Avenida Marginal, edifício colonial, está instalado o Centro Cultural do Mindelo, ainda (dezembro de 2025) encerrado após as chuvas intensas de agosto, que provocaram pelo menos 9 mortes. Mas já estava reaberto o CNAD – Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design, o maior espaço cultural das ilhas. O edifício onde está instalado é um dos mais antigos da cidade, construído por volta de 1890, como residência do senador Vera-Cruz e conta-nos uma interessante história de um bom período da cidade, sabendo adaptar-se às necessidades que foram surgindo. Depois da sua função original, funcionou, depois, como liceu na própria residência do senador, enquanto o novo edifício de ensino não ficou concluído, e, depois da sua morte, foi Grémio Recreativo. Durante 1938 a 1974 era este o ponto de encontro da alta sociedade mindelense, lugar de recepções e festas, apenas interrompido nos anos da II GGM, onde funcionou como quartel. E foi ainda sede da Rádio Barlavento e o lugar onde Cesária Évora gravou o seu primeiro disco, “Mornas de Cabo Verde”, tendo em 1974 passado a acolher a Rádio Voz de São Vicente, encerrado o Grémio e dedicada em exclusivo à transmissão da mensagem independentista veiculada pelo PAIGC. Finalmente, em 1983 entrou em cena o Centro Nacional de Artesanato, mais tarde reconvertido e renomeado, assim como restaurado e requalificado o edifício original para as funções actuais, com exposições e actividades culturais. Apresenta-nos obras do acervo do Centro, entre elas estatuetas e objectos em cerâmica e panos, assim como exposições temporárias. Mas a imagem de marca do CNAD é a sua arquitectura, designadamente, o revestimento da fachada, feito com uma série de bidons de várias cores, símbolo da diáspora cabo-verdiana, por nesses bidons chegarem às ilhas os bens enviados pelos emigrantes aos seus familiares, uma forma de conexão do cabo-verdiano com o mundo.

Quintal das Artes
Quintal das Artes
Cesária Évora – Vhils

As artes não se ficam por aqui. Para além da arte urbana, de que a obra de Vhils retratando Cesária Évora será o maior exemplo, o Mindelo têm ainda a mostrar o Quintal das Artes. Numa antiga prisão colonial, as celas que rodeiam o pátio deste Quintal estão agora ocupadas por diversos ateliers, cujos artistas e artesãos podem expressar a sua criatividade, incluindo nos preparativos para o Carnaval, festa forte no Mindelo.

E, para fechar o capítulo da centralidade do Mindelo enquanto pólo cultural, não poderíamos deixar de falar da sua literatura. Apesar de para além da Livraria Semente não haver muitos mais locais para adquirir livros, foi na cidade que em 1936 surgiu o movimento literário Claridade, com a revista de mesmo nome, decisivo no despertar da consciência entre os cabo-verdianos de uma identidade cultural autónoma em termos culturais, sociais e políticos, obra dos “claridosos” Manuel Lopes (nascido no Mindelo), Baltazar Lopes da Silva (São Nicolau) e Jorge Barbosa (Santiago).

Porto
Praia da Laginha

Parte da urbanidade do Mindelo, na vertente nordeste da baía encontramos a Praia da Laginha, óptima para um mergulho plenamente integrado na cidade. Porém, como ilha que é, São Vicente presta-se a oferecer muitas mais praias aos seus visitantes. Partamos, então, rumo à descoberta dessas praias e do muito mais que a ilha tem para encantar, a descobrir no post seguinte.

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