As aventuras de Filipe Seems por Lisboa

“Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo. Os homens necessitam de fábulas e não há destino mais nobre do que povoar o mundo com as personagens das fábulas”.

Filipe Seems é uma personagem criada pela dupla Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, argumentista e desenhador. As aventuras deste detective particular surgiram pela primeira vez nas páginas do jornal Se7e, corria o ano de 1992, e resultaram em três livros: “Ana”, de 1993, “A História do Tesouro Perdido”, de 1994, e “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, de 2003 – lançados todos juntos numa caixa ainda com um dvd em 2009.

Antes mesmo de as histórias ganharem forma, Nuno Artur Silva imaginava já a Costa do Castelo como o lugar onde Filipe Seems viveria e aí desfrutaria da luz de Lisboa e da vista do Tejo. A personagem principal mais óbvia é Seems, sim, mas estas aventuras em banda desenhada são uma ode a Lisboa, omnipresente em todas as histórias. Uma Lisboa futura com muitas referências do passado e, sobretudo, literárias. “Sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse…”. Assim é Lisboa nestas histórias, uma cidade imaginária que se baseia em muito do real.

As personagens deambulam pelo Chiado, o Campo Pequeno surge-nos sem muitos acrescentos futuristas, mas as gôndolas percorrem toda uma Baixa inundada desde o Elevador de Santa Justa até ao Terreiro do Paço, ao mesmo tempo que um teleférico sai do Castelo e um eléctrico voa sobre o casario da cidade. E que dizer da neve a cobrir os telhados de Lisboa?

O traço de António Jorge Gonçalves é, como sempre, belíssimo e diverso, com várias experiências diferentes ao longo dos três livros.

Filipe Seems é curioso e inquieto, sempre em busca de algo não conhecido. Na primeira história, “Ana”, na verdade três Anas gêmeas (Ana Lógica, Ana Bela e Ana Hera), diz-nos “primeiro queria saber o porquê da semelhança, depois, procurar na semelhança a diferença”.

Fábulas, mistérios, intriga, labirintos, esquecimento – “era contra o esquecimento que eu escrevia (é sempre contra o esquecimento que se escreve), porque não a queria perder” – e amor, claro.

Logo às primeiras páginas observamos Filipe Seems e não podemos deixar de recordar Corto Maltese, o marinheiro de Hugo Pratt. No segundo livro, “A História do Tesouro Perdido“, o que poderia não passar de uma suposição revela-se expressamente numa inspiração. Seems anda às voltas com o mar, oceanos e navegadores numa aventura que é uma caça ao tesouro onírica e a imagem de Corto Maltese vem reproduzida nos quadrinhos. Esta é uma história de desencontros onde, afinal, o tesouro que se buscava no mar se encontra no deserto. A Lisboa donde se parte é representada através de escadinhas, ruas apertadas e até uma caravela, mas há ali elementos que nos fazem viajar para o passado, com os habitantes de Alfama com vestes muçulmanas, para logo de seguida sermos transportados para o futuro através do tal eléctrico voador.

O terceiro e último volume, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, é o mais estranho e difícil. Os desenhos são amiúde baços e esbatidos e os textos tornam-se intrincados, como um sonho desorientado em que as histórias se entrecruzam. Seems vagueia em busca de Ana, anda perdido, tentando encontrar-se, com perguntas como “o que é o desejo, o que fica depois do desejo?”, em imagens hipnotizantes como a música e dança do flamengo que relata. Mas, na verdade, pelo trilho do sonho vai em busca da sua cidade, aquela que conhece como a palma da mão e à qual regressa como se a ela chegasse pela primeira vez. A nossa Lisboa, real ou imaginada.

Jardim da Estrela

O Jardim da Estrela é um dos mais concorridos e populares jardins de Lisboa. Inaugurado em 1852 e construído ao estilo dos jardins ingleses, este espaço verde de 4,6 hectares é um convite ao desfrute e relaxe dos lisboetas.

Possui diversas entradas, mas escolhemos aquela que fica em frente à Basílica da Estrela. Portão em ferro, a tradição aqui comanda, não apenas pelo típico eléctrico amarelo que passa na Calçada da Estrela colada ao jardim e representado de forma original à entrada, mas também pelos engraxadores que mantém o seu lugar e função ali mesmo.

A sua criação é de clara inspiração romântica, um jardim de recreio com lagos, vegetação exuberante, canteiros donde saem caminhos, um coreto e diversa estatutária, remetendo para uma ideia de paisagem natural. Nos lagos passeiam-se os patos e as carpas. Na vegetação encontramos espécies exóticas vindas das matas reais e dos jardins do Conde de Farrobo. (actual Jardim Zoológico).

O coreto verde de ferro forjado foi construído em 1884 e estava originalmente no Passeio Público da Avenida da Liberdade até ser transferido para a Estrela em 1936. Nos meses de Verão fazem-se aqui concertos.

E as esculturas encontram-se um pouco por todo o lado no jardim, quer a embelezar os lagos, quer num relvado verdejante, quer num dos muitos recantos do jardim, como este dedicado a Antero de Quental. Há ainda lugar para parques infantis, um café, um quiosque da Biblioteca Municipal e até um chalé destinado a creche / jardim de infância, onde chegou a funcionar a Escola Froebel ou Lactário-Creche n.º 3, a primeira creche da cidade de Lisboa, mas que hoje, apesar de envolvido numa frondosa vegetação, não esconde o seu estado de abandono. Um jardim muito diverso e animado, portanto, mas também com diversos pontos escondidos de recolhimento e refrescantes.

Tapada das Necessidades

A Tapada das Necessidades, na Estrela, é um lugar esquecido.

Para o bem e para o mal. Se são muitos os seus edifícios ao abandono, a Tapada preserva ainda largas zonas verdes ideais para nos abstrairmos da realidade, fazer um piquenique ou tão só passear, atravessando-a de um lado ao outro na companhia de pavões e de patos e de vistas para a Ponte 25 de Abril e para os Prazeres, enquanto nos embrenhamos pelos seus caminhos carregados de vegetação exótica.

Foi D. João V quem, no século XVIII, mandou construir a Tapada das Necessidades, Convento e Palácio (hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros) no lugar de uma antiga ermida. Um século depois, D. Fernando II, o Rei Artista, redesenhou o espaço e a zona de hortas e pomares foi transformada em jardim inglês, tendo ainda aí instalado um jardim zoológico com aves raras e macacos. Ao seu filho, D. Pedro V, deveu-se a construção da estufa circular, o apontamento edificado mais bonito da Tapada, embora a Casa do Regalo, de iniciativa do Rei D. Carlos I, tome uma designação que lhe faz forte concorrência. Ou seja, os 10 hectares da Tapada de gosto barroco foram sofrendo alterações e acrescentos ao longo da sua história até chegarem aos nossos dias. Neste que é considerado o primeiro jardim paisagista de Portugal e que foi lugar de lazer e experimentação botânica por parte da realeza, podemos hoje caminhar pelos seus vários jardins, lagos, estátuas e edifícios.

Entrando pela porta junto ao Palácio das Necessidades, iniciamos o passeio pelo jardim inglês e de buxo. Há um frondoso dragoeiro e lago e patos, sim, mas a grande atracção são os pavões que fazem questão de vir até nós, com as suas penas resplandecentes bem abertas, como se nos cumprimentassem.

Logo de seguida, estende-se diante nós um largo relvado verde com um edifício delicioso no cimo, a estufa circular em ferro e vidro.

É aqui que começa o desfile de edifícios abandonados e degradados. A Casa do Fresco, por exemplo, tem até na sua fachada uma das estatuetas decapitada. No topo tem ainda o tanque que lhe garantia um ambiente fresco, mas que servia também como elemento estético, devidamente acompanhado por uns vasos ornamentais. Por aqui segue a alameda que ladeia o que era o jardim zoológico com os seus edifícios rosas todos em muito mau estado. Mas temos uma boa opção: dirigir antes o olhar para o lado esquerdo, para umas boas vistas da Ponte 25 de Abril enquadrada na Tapada.

Mais adiante passamos pela Casa do Regalo, tão intensamente rodeada de vegetação que pode passar despercebida. De fachada amarela e com brasão, foi mandada construir por D. Carlos I para servir de estúdio de pintura para ele e para D. Amélia. Este edifício, sim, está bem conservado, uma vez que, afecto à Secretaria-Geral da Presidência da República, foi restaurado para nele ser instalado o gabinete de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.

Foi a tentar perceber um pouco melhor a fachada escondida da Casa do Regalo que escutei, surpreendida, o grasnar estridente de um papagaio (na verdade, um periquito-de-colar). Tão louro, tão louro que também ele se confundia com o arvoredo. Esta é uma zona de mata mediterrânea, talvez não muito domada, e é logo a seguir que encontramos o Jardim dos Cactos. É uma colecção bastante generosa, exótica e exuberante, imperdível na visita.

E aqui ficamos num dos pontos mais elevados da Tapada, ela que está já implantada numa encosta de Lisboa. As vistas para o Tejo são emolduradas pela vegetação, uma perspectiva bem diferente daquela a que estamos acostumados.

Quando ao futuro da Tapada, designadamente no que respeita à recuperação dos seus espaços degradados, espera-se que em breve possa arrancar um projecto que prevê a instalação de quiosques, esplanadas e equipamentos expositivos e para eventos. Mas que, ao mesmo tempo que a permita ser fruída por todos, possa continuar com o recato que a fez chegar até nós.

Quinta dos Azulejos

O Paço do Lumiar está ainda, neste primeiro vinténio do século XXI, cheio de quintas centenárias, daquelas que serviam de recreio às portas de Lisboa aos bem instalados no tempo da realeza, a maior parte delas desconhecidas dos lisboetas. Também conhecida por Quinta dos Embrechados, foi fundada na primeira metade do século XVIII por António Colaço Torres e frequentada pela família real e é um bom exemplo deste património.

Quando chegamos ao largo onde está instalada percebemos de imediato o palacete, hoje transformado em Colégio Manuel Bernardes, totalmente revestido a azulejos de um tom azul convidativo. O que não imaginamos é o que o seu jardim interior esconde.

O jardim da Quinta dos Azulejos é um espaço verde pequeno. Protegido por muros altos, tem a forma quadrangular, cortado a meio por um caminho, e podemos adentrar pelo jardim de buxo e nele encontrar dois bustos escultóricos em homenagem a vultos importantes na fundação e direcção do colégio. Mas não são nem estes nem as plantas que nos chamam a atenção, antes os seus inúmeros e deliciosos painéis azulejares que dominam por completo os nossos sentidos.

O interior dos muros do jardim está quase totalmente revestido a azulejos. Houve várias campanhas de decoração da Quinta ao longo dos tempos, mas a primeira delas datará de 1745 – 1755, o que coincide com a laboração da Real Fábrica de Faianças do Rato, pelo que se tem como assente que foi nesta que se produziram as mais antigas cerâmicas que ainda nos dias de hoje podemos observar. O Grande Terramoto de Lisboa veio logo depois e alguns desses azulejos conseguiram sobreviver-lhe.

Os azulejos policromo, mas com destaque para o azul e branco, da Quinta dos Azujelos mantém-se, em grande parte, bem conservados e revestem ora os muros, ora as colunas, os bancos, os canteiros e as fontes do jardim. São de uma beleza e variedade temática ímpar. É como se nos contassem histórias com recurso a cenas quotidianas, mitológicas ou religiosas. Admirando-os, vemos um desfile de cenas de festas, galanteio, passeios, caçadas e motivos bíblicos decorados ao gosto rococó. Pessoas, animais e seres mitológicos estão representados.

Como Ícaro a cair depois das suas asas terem disso derretidas pelo sol; ou as sete irmãs plêiades; ou Narciso que morreu apaixonado pela contemplação da sua própria beleza e assim se viu transformado numa flor; ou a sua amada mas desprezada ninfa Eco.

São várias as fontes no jardim da Quinta com falsas cascatas e interior revestido a embrechados, uma logo à entrada, outras duas em cada um dos flancos e uma outra junto ao caramanchão.

O caramanchão coberto de plantas que conferem maior protecção e recato ao banco corrido com colunas sob ele é o momento mais bonito do jardim. O lago diante de si está vazio mas isso não retira um pingo de encanto a este espaço.

Há que continuar a apreciar cada figura e cada detalhe, e deixar-nos esquecer do tempo num espaço tão curto.

Marvila por San Spiga

Também em Marvila, no âmbito do Festival Muro 2017, algumas fotos da arte do argentino San Spiga. Esta bem mais efémera do que as pinturas nas empenas, pelo recurso a colagem. Hoje já não se veem estas imagens por inteiro, mas aqui ficam testemunhos desta tentativa de integração da arte urbana com as vivências do bairro, mesmo se recorrendo a ícones que a uma primeira vista nos podem parecer alheios (não tanto Maradona, mas mais Evita e as Madres da Praça de Maio).

Marvila

O Festival Muro 2017 teve lugar em Marvila jáem Maio do ano passado, mas deixou as suas marcas na arte urbana que espalhou pelos seus bairros. Aproveitando que nesse ano se celebrava Lisboa, Capital Ibero-Americana de Cultura, foram convidados diversos artistas ibero-americanos que entre workshops, concertos, palestras se dedicaram ainda à pintura de empenas, enormes obras de arte a céu aberto que a cidade de Lisboa acabou por ganhar.
Sob o mote da inclusão, a arte andou – e anda – à solta nos bairros da Quinta do Marquês de Abrantes, da Quinta do Chalé e da Quinta das Salgadas.
Em Novembro de 2016 havia sido inaugurada a Bibilioteca Municipal de Marvila, a maior biblioteca municipal da cidade e uma das meninas dos olhos da vereação da cultura do município. Não é para menos. O projecto de arquitectura está muito bem conseguido, numa bela recuperação e adaptação do antigo edifício da Quinta das Fontes pelo arquitecto Hestnes Ferreira. 
Lugar de realojamentos, Marvila era ao mesmo tempo um lugar de quintas, com uma vista altaneira privilegiada para o rio Tejo. É fácil ainda hoje caminhar-se por aqui e ficarmos perdidos entre o sentido campo / cidade. As ovelhas convivem com os graffitis; o hip hop com os livros. Não têm de ser contraditórios. A noção de que a integração é necessária e desejável e de que a Biblioteca deve ser já não apenas um espaço de cultura mas sobretudo um espaço de comunidade foi o que levou a que este seja hoje um equipamento central a estes bairros, projectando o futuro, mas sem deixar de preservar as memórias do lugar.
Sugere-se, assim, que a partir do espaço da Biblioteca se parta à descoberta destes novos bairros e comunidades mais esquecidas de Marvila à boleia da arte urbana. 
Algumas fotos:
A estrela da companhia, o brasileiro Eduardo Kobra e o índio Raoni:
Outras cores:
E uma mensagem:

Padre Cruz

O Bairro Padre Cruz, na freguesia de Carnide, quase a deixar Lisboa para adentrar a ruralidade de Odivelas, é considerado pela própria Câmara Municipal de Lisboa como o maior bairro de habitação social da Península Ibérica. 
Assim designado como homenagem ao padre de mesmo nome, este bairro data dos anos 60, quando a Câmara começou a urbanizar a área para alojar os seus funcionários. No início as habitações eram precárias, com construções em lusalite, e queriam-se provisórias. O provisório tornou-se definitivo por muito tempo, apenas nos anos 70 surgiram os primeiros prédios, e os realojamentos tardaram. De tal forma que ainda no início do ano passado foi notícia a construção de mais dois novos edifícios para realojar mais algumas das famílias que ainda viviam em casas de alvenaria no bairro.
Hoje são cerca de 8000 os habitantes do Bairro Padre Cruz e já não exclusivamente funcionários da Câmara. A construção do chamado “bairro novo” nos anos 90 trouxe consigo o realojamento de muitos novos habitantes vindos de diversos bairros de Lisboa – e entre estes vieram indivíduos originários de várias zonas do país e de vários países de língua oficial portuguesa. 
Como consequência, a mistura de culturas no bairro. É aqui que o trabalho com a comunidade tem de ser decisivo, quer ao nível dos poderes públicos quer de iniciativas privadas. Existem diversas colectividades no bairro e a Paróquia de Carnide tem também um papel social importante. Ao nível dos equipamentos, decisiva foi igualmente a iniciativa de se instalar aqui infraestruturas como creches, centros culturais, bibliotecas e pavilhões desportivos, todas estas existentes no Bairro.
Mas uma das melhores formas – e também uma das mais na moda – é a que procura colocar estes bairros no mapa da cidade através da arte urbana.
O Bairro Padre Cruz foi pioneiro em receber o Festival Muro no Verão de 2016, acolhendo dezenas de artistas portugueses e estrangeiros que se propuseram mudar a cara do Bairro oferecendo um novo colorido ao amarelo desmaiado dos seus edifícios. A urbanização do bairro mostra algumas contradições. Os edifícios respiram e não vivem encafuados. Porém, registe-se as magras janelas e a ausência de varandas.
O que estas iniciativas fazem é trazer os lisboetas – e outros – a conhecer zonas da cidade que de outra forma não conheceriam. Aproximam os bairros e, sobretudo, aproximam os concidadãos. Até o Presidente Marcelo dos Afectos lá esteve, embora esse seja omnipresente. Mas disse-o bem na altura, ao afirmar que o bairro está vivo e aponta para o futuro.
No fundo, Festivais como o Muro, que enquanto ocorrem têm na sua programação intervenções, debates e diversas iniciativas artísticas que procuram envolver os moradores, deixam para sempre uma galeria a céu aberto visitável por qualquer um que o deseje. E isso faz com que os moradores se sintam, precisamente, desejados. Um sentimento de orgulho e de pertença invade os moradores destes bairros sociais ao realizarem que podem ter algo de belo, uma fachada mais bonita que a do seu vizinho até, e que isso possa ser motivo de admiração de tal forma que venha gente de fora. Que o seu bairro possa ser visitado como se visitam os monumentos do centro da capital.
Em seguida, alguns exemplos das dezenas de murais espalhados pelo Bairro Padre Cruz sob o âmbito do projecto “Criar mudança através da arte urbana”, começando por esta obra de Skran, paradigmática do objectivo de beleza, sim, mas sobretudo de integração deste projecto: velho, adolescente, criança, todos eles com futuro no Bairro.

Panorâmico de Monsanto

O Panorâmico de Monsanto é desde Setembro de 2017 o mais novo miradouro oficial da cidade. E entrou logo para o lugar cimeiro no campeonato da melhor vista de Lisboa. Não que a sua vista fosse desconhecida até esta data. O que acontece é que o lugar estava abandonado e algo inseguro.

Aberto em 1968 como Restaurante Panorâmico de Monsanto, no centro do Parque de Monsanto, desde o Alto da Serafina, a 205 metros de altitude, este edifício circular enorme que mais parece um ovni logo se tornou um sucesso. No início restaurante de luxo frequentado por figuras do Estado Novo e famosos portugueses e estrangeiros de visita à cidade, os seus 7000 m2 acabariam por servir de discoteca, depois de bingo e até de armazém. A decadência e o abandono a que esteve sujeito desde 2001 não lhe levou, porém, qualquer milímetro da sua vista absolutamente soberba.

Daqui de cima tudo se avista. Uma vista totalmente desafogada para todos os lados da cidade. Avistamos ao longe a nova cidade junto à Ponte Vasco da Gama, o Aqueduto ali bem próximo, a Lisboa dos anos oitenta revisitada pelas Torres das Amoreiras, o Panteão a erguer-se do rio e a Ponte 25 de Abril a abrir-se para a outra banda, onde se destacam claramente na paisagem o Cristo-Rei e o pórtico da Lisnave. A Linha perde-se na densa vegetação do Parque de Monsanto.

Se aqui se obtém uma percepção exacta de Lisboa sob a óptica dos pássaros, é aqui também que ficamos com a noção real da imensidão do coração verde da cidade que é Monsanto. A vista do Aqueduto envolvido por este manto verde é impressionante.

A paisagem é rainha, mas o ambiente de ruína deste edifício abandonado desempenha pelo menos o papel de príncipe nesta história. Projectado pelo arquitecto Chaves da Costa e com murais de Luis Dourdil, azulejos de Manuela Madureira e painéis de Querubim Lapa, hoje são os grafittis que ornamentam os vários pisos deste Panorâmico. A Câmara Municipal limpou alguns deles, bem como o muito lixo e vidros acumulados. O espaço está agora seguro (existe até um segurança à entrada), mas seguimos com a sensação de expectativa pelo que vamos encontrar neste deserto escuro de paredes esventradas que vão deixando aqui e ali espreitar a paisagem lá fora.

O Panorâmico continua situado num local isolado e o acesso não é dos mais fáceis. Vale, todavia, todo o esforço da caminhada ou as voltas de bicicleta ou carro que se tenham de dar para aqui chegar.

Palácio dos Marqueses de Fronteira

O Palácio dos Marqueses de Fronteira está situado às portas de Monsanto, o pulmão verde de Lisboa, sítio privilegiado para tantas caminhadas e vistas largas.

Quando foi construído, em 1670, por ordem do 1.° Marquês de Fronteira, D. João de Mascarenhas, ficava fora da cidade e era utilizado como pavilhão de caça e casa de campo juntamente com os seus jardins.

Hoje o lugar está plenamente integrado na cidade e, se fica no sopé deste pedaço de natureza, fica igualmente colado a uma via rápida.

A sua situação geográfica pode ser surpreendente, mas mais surpreendente é a excelência deste Palácio e Jardins.

Após o Terramoto de 1755, a residência dos Marqueses no centro de Lisboa ficou totalmente destruída, pelo que o Palácio em Monsanto passou a constituir a sua habituação, para o que lhe foi acrescentado uma nova ala e refeitos muitos detalhes. E detalhes são o que não falta a este conjunto fabuloso. Os azulejos são riquíssimos e as esculturas belíssimas.

Mas muito mais há para apreciar.

A arquitectura do corpo principal da casa possui influência italiana, mas revela também características da arquitectura civil portuguesa. No pátio com estrelas desenhadas na calçada portuguesa encontramos em cada um dos lados da casa uma fonte com carranca no meio de duas janelas. Ainda antes da entrada, um indício do trabalho de tectos que nos esperará depois.

Passada a porta da residência (acabam-se as fotos), uma fonte nos aguarda. Originalmente este espaço não era fechado, estando hoje para lá da entrada do Palácio. Nessa época, um ribeiro passava por baixo do edifício e a sua água era aproveitada para beber, tendo este sido um lugar de repouso, com um banco a permitir o desfrute do som da água e da frescura do ambiente.

Uma escadaria dupla transporta-nos ao piso superior e a ante-câmara, apesar de algo austera, começa de imediato a maravilhar-nos com o seu ambiente renascentista com paredes em estuque onde as janelas mais parecem portas.

A sala correspondente à biblioteca privada da família possui objectos interessantes, mas é a vista fabulosa para o jardim que rouba toda a nossa atenção – já haveremos de o visitar mais próximo.

Seguem-se duas salas absolutamente deliciosas na decoração das suas paredes e tectos.

A primeira, a Sala das Batalhas, a principal sala da casa, cujas paredes estão carregadas de azulejos (os azulejos são uma das grandes riquezas do Palácio e Jardins, quer pela sua qualidade, diversidade temática e quantidade – estão por todo o lado). Estes azulejos mais parecem a história das batalhas das guerras da Restauração contada em banda desenhada. Foi o próprio D. João de Mascarenhas que encomendou estes painéis de azulejos. Participante de relevo nas guerras da Restauração, o seu esforço valeu-lhe então, precisamente, o título de 1.° Marquês de Fronteira. Quer isto dizer que estes painéis de azulejos não se limitam a representar algo; antes documentam a história contada por quem a viveu directamente. Para além do busto do fundador, nesta sala podemos observar ainda bustos dos seus familiares. O tecto é em estilo barroco.

A Sala dos Painéis é a mais bonita. Altamente decorada, o trabalho em estuque em estilo rocaile é soberbo. As pinturas que aqui vemos, cuja temática vai desde cenas das colónias (Brasil? África?) a cenas marítimas e de caça, estão emolduradas com o dito estuque. Para completar a riqueza desta sala, uns azulejos a azul e branco importados da Holanda e, no tecto, uma espécie de pintura do rei sol.

Mais duas salas, a Sala dos Quatro Elementos e a Sala de Juno, de ambiente mais intimista e decoradas com mobiliário indo português, porcelana chinesa e tapeçaria, há ainda para visitar antes de sairmos do Palácio e nos depararmos com o deslumbrante terraço – varanda virado para o jardim superior.

Este terraço, também conhecido como Galeria da Artes, está carregado de azulejos azul e brancos e oferece-nos uma sequência de estátuas, cada uma delas com uma concha a seus pés, e bustos esculpidos na parede e envoltos em materiais naturalistas, num trabalho minucioso. Estes painéis em azulejo representam as sete artes liberais e as estátuas correspondem a divindades gregas. Os bustos são de imperadores romanos.

Todo este conjunto de elementos é apelativo esteticamente e soberbo na sua qualidade. Soa algo austero, mas é claramente um lugar acolhedor a que não falta uns bancos decorados com azulejos representando cenas mais corriqueiras do dia-a-dia e muita vegetação exótica a envolver-nos. Para além disso, podemos ainda observar uns painéis satíricos, com figuras de gatos e macacos e pássaros com cabeça de mulher.

No final deste terraço fica a Capela da casa. Igualmente lindíssima na sua decoração, com pequenas estátuas de santos no seu interior, mas sobretudo pelos seus azulejos e embrechados (conchas). A este propósito, diz a lenda que, aquando da inauguração do Palácio, foi D. Pedro convidado e o 1.º Marquês de Fronteira mandou depois partir toda a loiça usada no banquete. Os restos de porcelana, bem como pedrinhas e conchas, serviram assim para a ornamentação da capela por meio do recurso ao revestimento por embrechados.

Da Capela descemos por umas escadas que nos deixam no jardim superior ou Jardim de Vênus. Um pavilhão se destaca, a Casa de Fresco, também decorado com embrechados. E azulejos, claro. É riquíssima a sua beleza. À entrada, o Lago dos S, rodeado de bancos com painéis em azulejo representando, entre outras, cenas de pesca.

Daqui percebem-se as cores azul e vermelho fortes do Palácio, um contraste poderoso que lhe confere ainda mais luz e vida. A rematar, a vegetação intensa.

Este jardim superior é um jardim de carácter mais privado do que o jardim inferior, mais formal e monumental e escancarado a todos os visitantes. Antes de descermos, porém, um passeio ao redor da fonte com a estátua de Vênus com golfinho e tartaruga.

O jardim formal é impressionante. Os seus enormes canteiros de buxo e o tanque que mais parece um lago formam um conjunto superior. O tanque monumental tem 48 por 18 metros e de cada lado adorna-o duas escadarias encimadas por torres que ligadas formam uma varanda com esculturas com bustos de reis portugueses – a Galeria dos Reis. Tudo perfeito. Incluindo a vista.

Cá em baixo, o muro do lago, onde vemos cisnes e peixes a nadar, é revestido de azulejos representando diversos cavaleiros – o Tanque dos Cavaleiros. Três grutas se deixam ver para lá da água onde flutuam umas estátuas.

Depois de toda esta fantasia, resta-nos perder-nos com agrado por entre os desenhos do jardim de buxo, descobrindo aqui e ali uma fonte ou uma esbelta estátua.

Apesar de no início deste texto ter referido que o Palácio dos Marqueses de Fronteira está hoje dentro de Lisboa, a verdade é que neste pedaço de São Domingos de Benfica conseguimos ainda sentir-nos apartados do frenesim da cidade.

A visita a esta residência privada que é ao mesmo tempo monumento nacional é, pois, essencial para a compreensão da nossa cidade ainda hoje.

Nos anos 1980, o 12.º Marquês de Fronteira, Fernando Mascarenhas, aristocrata de esquerda e mecenas cultural activo na cena lisboeta até há sua morte, em 2014, instituiu a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. É nesse contexto que podemos visitar o Palácio e os Jardins, bem como vê-los ser palco de iniciativas culturais, científicas e educativas várias.