1 Dia no Parque das Nações

A proposta para se iniciar o dia vem em escolha múltipla, mas sempre na zona norte do bairro do Parque das Nações: que tal uma corrida junto ao rio, uma partida de ténis debaixo da Ponte Vasco da Gama ou umas braçadas na piscina ao ar livre do ginásio I Am Fit (antigo Club House)? A vista aliada ao prazer do exercício físico (para quem o tem) é imbatível por estes lados.


Para quem esta ideia causa desconforto e um arrepio de preguiça só de a imaginar, a solução é a de ver outros exercitarem-se. Dirija-se para debaixo da Ponte Vasco da Gama e deixe-se ficar a assistir aos malabarismos dos miúdos no skate park mais bonito do mundo ou, pelo menos, o skate park com a localização mais bonita do mundo. Esta área é ainda ideal para observar a fauna do Parque, nomeadamente flamingos e outras aves.


Depois da queima de umas calorias, partindo do local onde iniciámos o nosso desporto matutino, seja a praticar ou a assistir, o ideal é abastecer com umas frutas e outros alimentos no Pomar da Rosa, uma instituição incontornável do bairro para os lados do Rossio de Levante, e descansar um pouco numa das esplanadas de café na acolhedora Praça no final do Passeio dos Jacarandás. 

Reposta a energia que nos fará falta para o resto do longo dia, seguimos em direcção à Torre Vasco da Gama, em pleno Parque Tejo. 

(um aparte que se impõe: os nomes por aqui são inspirados. Já escrevemos Levante e Jacarandás. Que dizer de Rua Ilha dos Amores, Passeio das Garças, Estacada das Gaivotas, Travessa Corto Maltese, Terreiro dos Radicais ou as mais famosas Alameda dos Oceanos e Avenida da Boa Esperança? A homenagem às epopeias marítimas dos portugueses estão por todo o lado, assim como aos heróis populares da cultura mundial – para aprofundar mais sobre a toponímia do bairro é clicar aqui http://www.portaldasnacoes.pt/item/toponimia/)

Continuando o caminho junto ao rio até à Torre Vasco da Gama, com sorte com o dia podemos observar o espelho que se forma na água do Tejo.


Um pequeno desvio interior para o prédio redondo verde e branco (que inicialmente marcava a fronteira entre os concelhos de Lisboa e Loures) leva-nos a conhecer um conjunto de homens verdes que levitam sobre a água de um lago / fonte – são os “Homens de Bessines“, de Fabrice Hybert, a primeira obra de arte pública sugerida neste itinerário.



De volta ao rio, e já junto à Torre, eis-nos face a face com outra obra de arte, também verde, mas desta vez passível de ser tomada por nós – é a “Cursiva“, de Amy Yoes, e podemos subi-la e tentar caminhar sobre as suas curvas. Como seus vizinhos distintos encontramos um painel de azulejos do surrealista Roberto Matta (é tentar identificar o que os seus bonecos andam para ali a fazer) e a belíssima arquitectura do bloco de apartamentos da autoria de Manuel Aires Mateus (aquelas varandas são de fazer inveja a qualquer ser provido de emoções).




Aproxima-se o corredor onde se sucedem os restaurantes. Não é tempo ainda de almoçar e por isso exploraremos os jardins que se escondem entre estes restaurantes e o rio. São os surpreendentes Jardins Garcia d’ Orta. Os seus sendeiros serpenteiam por uma grande diversidade de plantas de todo o mundo. 



No final, já perto da quase nave espacial que parece ser o Pavilhão Atlântico (actual Meo Arena), um dos símbolos da Expo 98, encontramos o Lago das Tágides com esculturas de João Cutileiro. Uma vez mais, o nome “Tágides” e as figuras aqui representadas buscaram inspiração nas ninfas de Camões. Por ali a nadar ou simplesmente a brincar na água vemos umas belas meninas nuas em mármore quase rosa, que se torna mesmo rosa quando os raios de sol lhes dão a atenção merecida, não faltando sequer a falua, o barco tradicional do Tejo.


Uns passos para trás no caminho conduzem-nos de volta ao tal corredor de restaurantes onde logo numa das primeiras portas encontramos o The Old House. As máscaras da ópera chinesa não enganam: é mesmo um restaurante chinês. Um dos melhores e mais autênticos da cidade. É conferir pela clientela chinesa que ocupa as suas mesas e, sobretudo, pelos saborosos pratos que serve.

De barriga cheia, continuamos o passeio.

Estamos já perto do Centro Comercial Vasco da Gama, “Vasco” para os amigos, ladeado pelas suas duas torres de apartamentos de 110 metros de altura que em pouco tempo se tornaram um postal da Lisboa deste século XXI. Não entramos, porém, que não é dia de compras.



Um estreito carreiro de água com as bandeiras de (quase?) todos os países do mundo abre-nos o caminho até a este shopping e até à escultura Homem – Sol, de Jorge Vieira; à esquerda e um pouco antes, uma outra escultura icónica. É a Rizoma, de Antony Gormley, nove figuras humanas entrelaçadas umas nas outras, representando os ramos de uma árvore que por sua vez representa a união entre os homens.





Pavilhão de Portugal, do Pritzker Álvaro Siza Vieira, fica aqui mesmo. As suas linhas direitas e a sua cor branca não enganam, é mesmo do Siza. Ainda não se encontrou um destino para o interior deste pavilhão que esteja ao nível da grande obra de arquitectura que é – classificado como monumento de interesse público e Prémio Valmor em 1998. Vai recebendo eventos, uns mais distintos, outros mais vulgares. Sob a sua pala – obra monumental da engenharia de Segadães Tavares – tanto podemos assistir à gravação de um reclame de carros como de um programa de tv das manhãs, música pimba como música rock, aula de aeróbica como parque de transição de uma competição de triatlo. O melhor mesmo é apanharmos o espaço vazio e, depois de circundarmos todo o edifício para melhor percebermos os seus pormenores, deixarmo-nos ficar por ali, pela sua praça coberta, a tentar entender como é possível a sustentação daquela pala imensa, tão fina e ligeiramente curvada. 


Debruçados na espécie de varanda que dá para a Doca dos Olivais observamos os teleféricos a deslizar no horizonte por cima do rio e imaginamos a colecção de espécies marítimas que estará para além dos vidros do Oceanário (ou então, paramos de imaginar e conferimo-las numa visita a este que é um dos melhores Oceanários do mundo).



Estamos no eixo central do que foi a Expo 98 e no que até hoje continua a ser um espaço vivido. Há o Oceanário, há o shopping, há o Meo Arena, mas há também ainda o Pavilhão do Conhecimento, o Casino de Lisboa e muitos restaurantes. E muitas empresas que aqui têm os seus escritórios, de que é exemplo a Vodafone e o seu edifício de arquitectura característica e criativa.




mobiliário urbano feito de bancos e floreiras com listas coloridas, obra de Carrilho da Graça, é mais uma marca da Expo 98. Impossível de esquecer e de evitar os vulcões ao longo da Alameda dos Oceanos. Estes cones revestidos a azulejos de várias tonalidades jorram água de tempo a tempo, água essa que se vai juntando num canal até formar uma onda, numa erupção deliciosa cuja observação constitui um dos passatempos preferidos das pessoas de todas as idades que visitam o Parque das Nações. 



Chegados à rotunda temos à nossa direita o Cabeço das Rolas. Subimos e todo o Parque das Nações fica aos nossos pés. É provável que sejamos os únicos e que nos surpreenda o silêncio. No ponto mais elevado do bairro temos, para além da vista, mais jardins, incluindo jardins de água, e mais espaço para se estar. Como existem bancos com cobertura, o espaço é ideal para um piquenique ou, pelo menos, uma paragem para um lanche.



Lá em baixo vemos a Torre da Galp e mais uma obra de arte: as linhas de Pedro Calapez, melhor vistas ainda da plataforma elevada daquela torre. 

Voltamos para junto do rio e estamos na Marina do Parque das Nações. Ao longo dos anos tem havido dificuldades em manter os barcos aqui, por dificuldades de assoreamento, mas agora parece estar melhor. Nesta área junto à Marina encontramos uma enorme concentração de edifícios de habitação cujos arquitectos pensaram estar a desenhar barcos. Nenhum deles, porém, chega a brilhar tanto como as torres à vela que ladeiam o Centro Comercial Vasco da Gama. O piso na Marina é óptimo para se andar de patins. As esplanadas por aqui, confesso, não me cativam, pelo que passo rápido e volto no caminho.


Não sem antes, porém, apreciar a Onda. A Onda Luso Americana remete uma vez mais para a tradição marítima portuguesa e é uma escultura em aço inoxidável que pretende representar a emigração dos portugueses para os Estados Unidos da América. Foi oferecida pela Comunidade Luso-Americana a Lisboa e nela podemos encontrar inscritos os nomes dos emigrantes que quiseram participar neste projecto.


Já estamos a retornar no nosso passeio pelo Parque e passaremos à porta do Teatro Camões, sede da Companhia Nacional de Bailado, onde podemos consultar a programação. Os espectáculos oferecidos pela companhia costumam ser fantásticos, muitos deles de ballet contemporâneo. Uma excelente opção para se entreter a noite.




Mas como a noite ainda não terá caído, tempo ainda para uma deambulação pelos últimos jardins do itinerário em proposta. São o Jardim das Ondas e os Jardins d’ Água, ambos criação de Fernanda Fragateiro. A água é uma inspiração evidente, assim como o são os demais elementos da natureza.


Caso o dia tenha passado rápido e a noite já o tenha vencido, não resta muito mais do que o jantar. Opções não faltam, mas a escolha recai sobre o Butchers, restaurante de carnes maturadas com preços bem acessíveis. Fica mesmo nas traseiras do Casino de Lisboa, onde podemos terminar a noite depois de um gelado como sobremesa na Oficina do Gelado, a sua gelataria sua vizinha.


Caso o dia de luz ainda dure, a proposta é tomar a telecabine junto ao Jardim das Ondas até à Torre Vasco da Gama. Aqui, na proa do terraço do Hotel Myriad, é o lugar ideal para assistir ao fim do dia acompanhado de um chá ou de outra bebida.


De saída do bairro do Parque das Nações, tempo ainda para apreciar a arquitectura da Estação do Oriente, projecto de Santiago Calatrava, hoje já outro postal incontornável da Lisboa deste século. A sua iluminação nocturna realça ainda mais o seu desenho.

Apesar do dia longo, muito terá ficado a faltar conhecer e viver. 



Para aguçar o apetite para uma nova visita, adianto o painel de azulejos cheio de heróis da banda desenhada que decora a abrilhanta o Hotel ART’S, obra do artista plástico islandês Erró. Aqui, talvez mais do que em qualquer outro lugar, está bem evidente o espírito jovem e descontraído do bairro e, sobretudo, disposto a abraçar a modernidade expressa sob qualquer tipo arte.



Como chegar à zona norte do Parque das Nações:
Comboio – estação de comboio de Moscavide e, depois, cerca de 5 minutos a pé até ao Rossio do Levante.
Metro – estação de metro Oriente ou estação de metro Moscavide e, depois, cerca de 20 / 30 minutos a pé desde cada uma delas (distância praticamente igual) até ao Rossio do Levante.
Autocarro – números 400 ou 708 desde a estação de metro Oriente. 

Onde comer:
The Old House (chinês)
The Butchers (carnes)
Piquenique no Cabeço das Rolas
Pomar da Rosa – mini-mercado

Museus / Arquitectura
Oceanário de Lisboa
Pavilhão do Conhecimento
Pavilhão de Portugal
Arte pública urbana

Espectáculos ao vivo:
Teatro Camões
Casino de Lisboa
Meo Arena (Pavilhão Atlântico)

Da Expo 98 ao Parque das Nações


Até à decisão de acolhimento da Exposição Universal de 1998 nos terrenos do que é hoje o Parque das Nações, esta zona era dominada por um forte carácter industrial e portuário. Aqui estava a refinaria da Petrogal e outras ligadas à indústria petrolífera, o Matadouro de Lisboa, o Aterro Sanitário de Beirolas, o Depósito de Material de Guerra, a Fábrica de Pólvora e outros mais. 

Como marca desse passado não tão longínquo assim, ainda hoje subsiste a Torre da Galp, perto do Hospital CUF Descobertas. E nos poucos terrenos livres para construção deve também subsistir a dificuldade para se escavar o solo agredido por décadas e décadas de indústria pouco amiga do ambiente.

Junto ao rio desenvolveu-se em tempos uma vibrante actividade portuária e a via férrea que pela sua linha corria (e corre) era igualmente um factor de atracção de unidades de produção. Mas a decadência, degradação e poluição eram já gritantes nos anos 90. Para quem por aqui perto sempre viveu era fácil um desconhecimento da realidade. Certo que sentia por vezes um mau cheiro no ar e ouvia que a culpa era de uma tal Beirolas. O mais perto de se chegava do rio, sem nunca o vislumbrar, era do pavilhão do ginásio do Atlético de Moscavide. 

Na década de 90 as obras foram acontecendo e mesmo os vizinhos não suspeitavam a volta que levaria toda esta área de fronteira entre a região mais oriental do concelho de Lisboa e o concelho de Loures. 

Anunciava-se uma nova cidade e foi isso que das águas do Tejo emergiu, como um milagre inspirado nas epopeias dos nossos navegadores. 

O pretexto foi a Expo 98, dedicada aos Oceanos (embora o móbil tivesse sido os Descobrimentos Portugueses – repare-se que em 1998 comemorava-se os 500 anos da viagem de Vasco da Gama à Índia). Muito cepticismo rodeou o pretexto, mas creio que nem mesmo o mais pessimista então não pode deixar de reconhecer uma real revalorização e revitalização de uma parte da cidade de Lisboa que pura e simplesmente não existia para os cidadãos. Mais, terá começado aqui a ideia de devolução do rio à cidade, que hoje se reivindica – e vai manifestando – em toda a extensão de frente de Tejo por Lisboa.


Assente num planeamento urbanístico rigoroso (embora muito do previamente planeado tenha ficado pelo caminho), a Parque Expo, entidade encarregada desta empreitada, reconverteu usos e procurando respeitar o ambiente e a paisagem criou uma nova centralidade na cidade. 

A Expo 98, numa época de euforia no nosso país, pretendia mostrar ao mundo um Portugal moderno e virado para o futuro. Não desconheço que as festanças se pagam e que esta se terá feito pagar muito bem. Mas do ponto de vista urbanístico o legado da Expo 98 é um sucesso. Trouxe a tal nova centralidade à capital do país, novas infra-estruturas e novos equipamentos, novas áreas residenciais, comércio e serviços e novas zonas verdes.

Quase vinte anos depois, do ponto de vista de residente faço um balanço simples e curto: a qualidade de vida é muito boa, sendo o Parque das Nações praticamente auto-suficiente em termos de serviços e comércio, com destaque para a qualidade ambiental e paisagística superiores que oferece; as acessibilidades, quer de transportes públicos quer de transporte privado, deixa a desejar – o metro fica apenas no centro empresarial do Parque e esquece os residentes das zonas limítrofes e as filas de carros chegam a ser insuportáveis às horas de ponta. Este último aspecto, o das acessibilidades, mostra, creio, que a realidade da “cidade imaginada” do pós-Expo 98 superou a ambição dos seus criadores. A nova cidade não morreu com a Expo 98 e aí está bem viva e aberta ao mundo.

Eis as mais emblemáticas obras que a Expo 98 nos legou, espalhadas ao longo de cerca de 5 km de frente de rio:

    Ponte Vasco da Gama

    Gare do Oriente

    Torre Vasco da Gama 

    Pavilhão de Portugal

    Pavilhão Atlântico

    Oceanário 

    Pavilhão do Conhecimento

    Teatro Camões

    Mobiliário urbano 

Gares Marítimas de Lisboa

As Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, são dois exemplos do modernismo na capital onde a arquitectura e a pintura têm uma relação umbilical. O arquitecto Pardal Monteiro e o pintor (e muito mais) Almada Negreiros são os responsáveis pela obra-prima, numa parceria que se repete em outros pontos de Lisboa, como são exemplos a Igreja de Nossa Senhora de Fátima e a sede do Diário de Notícias (bem como a colaboração de ambos na Exposição do Mundo Português).


Abertas ao Tejo, a primeira a ser inaugurada foi a Gare Marítima de Alcântara, em 1943, depois a da Rocha, em 1948, tendo ficado a faltar a do Cais do Sodré, projecto que nunca chegou a avançar. De qualquer forma, as duas Gares existentes, para além da sua relevância patrimonial, são igualmente testemunhas e difusoras de lendas e de um período da história portuguesa.


O transporte marítimo sempre existiu no Tejo e a cidade de Lisboa sempre dependeu do comércio que por ele chegava e que nele se fazia. Com a epopeia dos descobrimentos e as possessões além mar, não era só o embarque de mercadorias que dominava. No século XX, com Salazar no comando e Duarte Pacheco nas Obras, foi decidido que Lisboa e o Tejo mereciam um lugar digno para as partidas e chegadas de passageiros. É nesse sentido que nos anos 30 se entrega ao arquitecto Pardal Monteiro o projecto dos edifícios de transporte e que nos anos 40 esses edifícios são construídos. Os passageiros passaram a embarcar e desembarcar em terra e como elementos comuns aos dois projectos temos, para além do modernismo bem visível nas suas linhas rectas e nas janelas rasgadas na vertical na fachada, o facto de ambos os edifícios possuírem dois andares e umas enormes varandas debruçadas sobre Tejo. A vista é um elemento essencial nestas Gares – à qual cerca de 20 anos mais tarde foi acrescentada a Ponte sobre o Tejo.


É, porém, a decoração das salas de espera dos segundos pisos das Gares Marítimas o seu elemento mais atrativo e valioso: os painéis murais de Almada Negreiros. 

Contextualizando um pouco mais, a construção destas Gares Marítimas decorreu em plena II Guerra Mundial. A encomenda a Almada Negreiros pretendia mostrar a quem chegava a Lisboa (a metrópole) um país moderno e pujante, no fundo, pretendia o Estado Novo afirmar-se no panorama internacional e ao mesmo tempo calar a contestação interna ao regime por parte de artistas e intelectuais. Como resultado temos este conjunto de frescos vivos, plenos de cores, traços geométricos e influências do cubismo, dois trípticos e dois isolados na Gare Marítima de Alcântara (pintados em 1945) e dois trípticos na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (pintados em 1949).

A cor que testemunhamos ainda hoje nestas obras é um contraste evidente com os tempos cinzentos do Estado Novo de Salazar. E se na Gare Marítima de Alcântara Almada Negreiros parece “conformado” com a encomenda de representar um Portugal de lendas e mitos da História, a paisagem de Lisboa e a vida das gentes trabalhadoras junto rio, já na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos Almada Negreiros rompe definitivamente com o cinzentismo do regime e apresenta-nos ainda com mais cor e sem receio um Portugal feito de emigração, de despedidas, de muita saudade.

Os temas dos frescos que decoram os salões das Gares Marítimas – lendas e a história heróica dos portugueses, a paisagem e as gentes de Lisboa, a emigração – contam-nos cada um deles uma história.

Gare Marítima de Alcântara 

O interior dá-nos através da sua varanda / esplanada e das suas janelas panorâmicas, por um lado, uma vista soberba do Tejo e, por outro, uma vista não menos marcante do vale de Alcântara, com os Prazeres e as Necessidades lá em cima.



Um primeiro tríptico dos painéis de Almada Negreiros é dedicado à Lenda da Nau Catrineta, poema popular português reproduzido por variadas vezes, incluindo por Almeida Garrett no seu Cancioneiro Geral. Encimado com o dizer “Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar”, ao longo dos três painéis vamos vendo, sucessivamente, os marinheiros famintos à volta da mesa, ao mesmo tempo que o capitão procura avidamente terra para fugir à sorte de ser comido pelos seus subordinados, enquanto a morte e o diabo espreitam; no segundo painel as três donzelas, filhas do capitão e por ele avistadas desde o mar; por último, a chegada a terra e a reunião familiar, enquanto a morte e o diabo aguardam por receber a sua parte do pacto feito com o capitão.


Isolado surge-nos o painel dedicado a outra lenda, desta vez a de “D. Fuas Roupinho, 1.° Almirante da Esquadra do Tejo”, com a representação do milagre da praia da Nazaré. Quem conhece a Nazaré e já esteve no Sítio ou leu os Lusíadas de Camões reconhece a lenda e o personagem. Este painel reproduz todos os pormenores, como Dom Fuas (nobre cavaleiro companheiro de Dom Afonso Henriques) no seu cavalo perseguindo o veado, a montanha donde se prepara para cair ao mar, a virgem da Nazaré atenta e, depois, detalhes como a caravela e os pescadores a chegarem da faina enquanto as suas mulheres trabalham as redes em terra e, pormenor maior, um outro pescador descansa na sombra do seu barco. 


Na outra lateral do Salão encontramos um segundo tríptico nomeado “Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa”, dedicado à representação de cenas da Lisboa ribeirinha. No primeiro destes painéis vemos as mulheres fortes que carregam o carvão à cabeça através de um passadiço que liga os barcos a terra; no segundo painel o Tejo está presente pelos barcos, mas Almada fez questão de deixar o nome do rio escrito num desses barcos – observe-se ainda o pormenor da matrícula de um dos barcos inscrita na sua vela; o terceiro painel mostra-nos a Sé de Lisboa e o casario ao seu redor, enquanto que em primeiro plano estão uma vez mais as gentes trabalhadoras de Lisboa, neste caso as mulheres que tratam do peixe.


Isoladamente temos ainda o painel “Ó terra onde eu nasci”, dedicado ao Portugal rural. Aqui Almada pretende representar um domingo típico português, talvez nos arredores de Lisboa, onde a tranquilidade grita. Vemos um grupo de jovens debaixo de uma árvore, uma pequena igreja e uma casa de aldeia decorada com motivos de festa, a senhora a vender o capilé na sua banquinha, enquanto um casal enamorado conversa – ele marinheiro vestido de azul mar, ela varina vestida de vermelho terra.

Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos


A Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, por sua vez, para além de mais uma longa varanda / esplanada para o Tejo, possui dois conjuntos de trípticos. A diferença entre estes painéis e os de Alcântara é visível. Mais cor, o cubismo como estilo evidente (a recordar Picasso) e apesar de o rio Tejo e Lisboa continuarem presentes agora são-no enquanto local de partida, retratando Almada de forma corajosa e dura a temática da emigração. 


O primeiro tríptico é dedicado à Lisboa ribeirinha. No primeiro painel, talvez a representação de mais um domingo, em que a gente do povo trabalhador se veste com as suas melhores roupas e usa desta vez o barco para um passeio e em que, divertida, tenta não deixar cair o chapéu ao rio. Ainda neste painel vemos mais um barco em segundo plano e, sobretudo, uma varanda e uma janela com uma mesa – pormenor tipicamente cubista. A sensação que se tem quando se observa demoradamente este painel é a de que daqui se poderiam extrair vários quadros isoladamente, tal é a profusão de temas e pormenores. 


Num segundo painel temos a representação de um barco decorado com olhos, cores sempre vivas, tão intenso que mais parece que é a pintura que nos espreita. As varinas robustas contrastam com os miúdos que descansam no barco. O terceiro painel é dedicado ao ócio, ao circo e seus saltimbancos (tema recorrente nas representações por parte dos cubistas), com um pormenor maior do rapaz que descansa o seu rosto ao ombro de uma mulher negra.



No tríptico do lado contrário do Salão a temática torna-se mais dura – podemos ter também representado um domingo, mas este não é mais um domingo de descanso, de ócio, de evasão, é antes um momento de despedida daqueles que partem para a emigração. O navio prepara-se para partir e entre os passageiros leva muitos que abandonam a sua família para buscar uma vida melhor noutro canto do mundo. Cá fora, em terra, os que ficam para se despedir estão bem vestidos e bem calçados e não esqueceram os chapéus para proteger do sol; dentro do navio, debruçados na amurada, os que partem preparam-se para dizer adeus. Espaço ainda para vermos um operário carregar cimento para dentro do barco, porque não só de passageiros se ocupavam os navios.


Em conclusão, este é mais um dos segredos bem guardados de Lisboa (cuja visita é possível mediante marcação junto do Porto de Lisboa) que merece ser visto por todos aqueles que apreciam história, arquitetura e arte e Lisboa. Da “obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século”, nas palavras de José Augusto França, disse o multifacetado artista Almada Negreiros, autor destes painéis, que “creio não haver antes cumprido melhor, nem feito obra que fosse mais minha”.

Cascais Artística


Cascais fica a uma trintena de quilómetros de Lisboa.
É tão perto, tão perto, que podemos ir sempre que quisermos. 
Se não for de comboio, usando veículo próprio mais rapidamente pela autoestrada ou mais delicadamente, levando todo o tempo do mundo, pela marginal. Vamos vendo o Rio Tejo a transformar-se em Oceano Atlântico, fortaleza aqui fortaleza ali, umas em terra e outra até em mar (Bugio), e muitas casas que parecem de brincar.
Também temos uma riviera e a nossa está às portas de Lisboa, embora nós, os alfacinhas, gostemos mais de se lhe referir como “a Linha”.
Cascais é sede de concelho mas faz questão de continuar vila. 
Está bem assim e esta antiga vila de pescadores tem tudo o que uma cidade tem mas tem algo que muitas cidades não têm: um carácter e ambiente exclusivos que nos fazem sentir bem e não querer de lá sair. 



Terra de reis de cá e de outros de lá que aqui escolheram fazer a sua casa, Cascais tem um punhado de palacetes e casas apalaçadas que fazem a delícia do nosso olhar. Tudo isto com a água azul intenso do mar adornada pelos raios de sol como companheiros inseparáveis. É um privilégio (que não tenho) poder mergulhar naquele mar à porta de casa.

O centro da vila de Cascais está extremamente bem conservado. As pinturas e obras de arte urbana mostram-nos que, apesar de ter sido eleita como um dos 10 melhores locais do mundo para se viver a reforma, Cascais é lugar de gente jovem também. Temos campos de golfe, sim, mas também praias para surf e windsurf.

Berço do turismo em Portugal desde há séculos, a vila não se tem limitado nos últimos anos a viver dos rendimentos. Exporta marcas como a gelataria Santini e o restaurante de sushi Confraria para a capital, acolhe construções de um Pritzker como a Casa das Histórias e restaura a Cidadela.
Pegando nestes dois últimos exemplos.



Casa da Histórias, inaugurado em 2009, é o museu que o arquitecto Souto Moura inventou para acomodar algumas das pinturas que Paula Rego magicou. Se as obras da pintora são características, a arquitectura do edifício não o é menos. Os dois cones em forma de pirâmide no edifício todo ele em concreto vermelho são uma imagem que não sai facilmente da memória. Tudo isto envolvido num espaço com um jardim onde o verde contrasta de forma brilhante com o ocre do edifício. Com esta arquitectura Souto Moura quis integrar a construção na paisagem edificada regional, nomeadamente na sua relação com os palacetes de Cascais e Sintra.





Cidadela de Cascais, por sua vez, é uma construção histórica cujas reminiscências datam do século XV (com construções posteriores) com o propósito de defesa daquela área da costa portuguesa. Aberta à baía de Cascais, a Cidadela foi residência de reis e hoje é a residência oficial de verão do Presidente da República. 
Quando falamos em Cidadela referimo-nos a três realidades distintas: à Torre de Santo António, construção mais antiga (1488), ao Forte de Nossa Senhora da Luz (no período em que os filipes de Espanha governaram Portugal tinha sido construída uma fortaleza, mas esta é posterior, do século XVII), ao Palácio (Museu da Presidência, aberto ao público em 2011 após 50 anos encerrado e em estado de degradação) e ao pátio interior que os liga.
No seu todo, a Cidadela é hoje um espaço turístico e cultural. 


A Fortaleza de Nossa Senhora da Luz é desde 2012 uma Pousada do grupo Pestana e o seu projecto de transformação e reabilitação esteve a cargo do arquitecto Gonçalo Byrne. Os seus espaços exteriores – alguns deles públicos – estão muito bem conseguidos. Aliado à criação da Pousada tivemos a criação em 2014 do Art District. A arte contemporânea está por todo o lado da Cidadela, seja no exterior seja no interior, com galerias e ateliers dos artistas. A intenção é trazer a arte para o nosso quotidiano, sem preocupação de a contextualizar.




Casa das Histórias, Art District da Cidadela… e acabámos por nem sequer explorar o Centro Cultural de Cascais. Caminhado pela vila, muitos postais nos vão aparecendo, seja uma nova vista para o mar, seja mais um edifício apalaçado carregado de pormenores (como os omnipresentes azulejos). A arte está por todo o lado.

Hospital Miguel Bombarda

O Hospital Miguel Bombarda ocupa um largo quarteirão da cidade de Lisboa junto ao Campo Mártires da Pátria, ainda hoje também conhecido como Campo de Santana. Hospital encerrado, zona nobre da capital, sinónimo de pressão imobiliária e muita especulação acerca do futuro destes terrenos. Virá a existir aqui um hotel de charme? Emergirá mais um condomínio? 

O Hospital Miguel Bombarda está classificado como imóvel de interesse público pelo que, aguentem-se, terão que negociar um pouco a bem da preservação do património cultural do nosso país.
Para lá dos muros do antigo Hospital existem duas jóias arquitectónicas que constituem exemplos bem originais. O Balneário D. Maria II e o Pavilhão de Segurança (Enfermaria n.º 8) são dois segredos bem guardados de Lisboa.



Antes, porém, dizer que o próprio edifício onde veio a ser fundado o primeiro hospital psiquiátrico de Portugal (Hospital de Rilhafoles), em 1848, também não é de desprezar. A antiga quinta e convento de Rilhafoles, construída no século XVIII, teve várias funções, foi convento de padres de São Vicente de Paula, foi lugar da Missão de Portugal da Companhia de Jesus, viu aí funcionar o Colégio Militar após a extinção das ordens religiosas até ser transformado pelo marechal Duque de Saldanha em hospital de doentes mentais, os alienados, como se dizia na época. O retrato do Duque de Saldanha é presença assídua ainda hoje nas poucas salas decoradas do edifício principal do Hospital. Uma delas, logo à entrada, mantém o seu retrato numa tela grande com um buraco de bala, uma das balas disparadas para assassinar o então director do Hospital, Dr. Miguel Bombarda, a 3 de Outubro de 1910, na antevéspera do regicídio que levou à implantação da República – diz-se que foi um dos doentes mentais a assinar Miguel Bombarda, mas há também quem defenda que o acto possui relação com o movimento anti-monárquico, uma vez que o médico lutava por ele. 

Neste edifício principal, de fachada neoclássica, temos ainda relativamente conservadas a sua elegante escadaria, a capela e o salão nobre e sua arte azulejar. À entrada podemos testemunhar uma fonte de arquitectura simples mas delicada, a lembrar aquela que os monges construíram no Buçaco.



Um dos pontos altos da visita ao Miguel Bombarda é o Balneário D. Maria II, onde foram em tempos experimentados banhos terapêuticos inovadores ao serviço dos doentes mentais. Construção oitocentista, inaugurada por D. Maria II em 1853, está por agora totalmente coberta com uma lona e preenchida com andaimes para escoramento do edifício. Se espreitarmos podemos constatar ao mesmo tempo a lástima que é o seu estado de degradação e o esplendor arquitectónico de que terá sido portador. Em estilo romântico, a elegância da obra é nos ainda assim passada, nomeadamente através da decoração esfuziante dos seus azulejos.


O outro ponto alto do antigo Hospital é o seu Pavilhão de Segurança, ou 8ª Enfermaria, este sim com a sua arquitectura totalmente preservada. Este Pavilhão de Segurança teve como arquitecto José Maria Nepomuceno que inovadoramente nos deixou o único exemplo do género no país e um dos poucos no mundo. Falo, concretamente, do estilo conhecido como Panóptico, donde de um determinado ponto se consegue observar todo o edifício (as mais das vezes penitenciárias) – “o olho que tudo via” -, neste caso um edifício circular cuja inauguração em 1896 viria a antecipar em algumas décadas os princípios da arquitectura modernista do início do século XX. 




O Pavilhão, uma enfermaria-prisão, um pouco afastado do edifício principal do Hospital, destinava-se ao acolhimento de reclusos com problemas mentais vindos da Penitenciária ou doentes considerados perigosos, os quais eram aqui totalmente vigiados. O edifício branco em betão de um piso é um círculo com pequenas divisões – dormitórios, lavabos, refeitórios e uma sala de reuniões – à volta de um pátio interior a céu aberto relvado. Esta arquitectura circular, com pequenas janelinhas rasgadas na fachada, parece simples mas não foi de fácil execução para a época. Assim como não foi fácil a solução do telheiro curvo circular em zinco que rodeia o pátio interior. Pormenores interessantes ao nível arquitectónico e social não faltam por aqui. Por exemplo, a ideia do pátio interior a céu aberto – onde os doentes podiam passar parte do seu dia – vinha ao encontro do que se entendia possibilitar uma melhoria do estado de saúde dos doentes mentais, para além de evitar a transmissão de doenças. Os bancos e os vãos das portas e janelas, todos os cantos do espaço enfim, por seu lado, são arredondados para evitar que os doentes mais agitados se pudessem ferir. Ou seja, esta arquitectura é uma arquitectura funcional.





Em 2000 o Pavilhão de Segurança foi desactivado e os últimos doentes foram saindo. Deste lugar considerado maldito que a administração dos novos psicofármacos veio substituir resta hoje a memória. O espaço foi convertido em museu em 2004 e na enfermaria-museu, para além de artefactos e documentos do foro, podemos visitar uma exposição de Arte Outsider, um conjunto de pinturas de autoria de doentes do hospital. 

Teatro Thalia

O Teatro Thalia é uma das novas aquisições na paisagem da cidade de Lisboa. 
Melhor dito, o renovado Teatro Thalia, na Estrada das Laranjeiras, paredes meias com o Jardim Zoológico, voltou a fazer parte da paisagem e itinerário dos lisboetas.

As Laranjeiras nem sempre fizeram parte da cidade. No momento da construção do antigo Teatro Thalia, em 1820, as Laranjeiras ficavam fora dos seus limites, nos arrabaldes, e o primeiro Conde de Farrobo tinha lá o seu palácio. Joaquim Pedro Quintela, segundo Barão de Quintela, primeiro Conde de Farrobo, cresceu no palácio da família, o Palácio de Quintela, na Rua do Alecrim, bem perto do Teatro de São Carlos. Para o Palácio das Laranjeiras, ou Palácio de Farrobo (não confundir com outro de mesmo nome, e então de mesmo proprietário, em Vila Franca de Xira), construído em 1779 e posteriormente herdado de seu pai, o Conde de Farrobo criou a divisa Otia Tuta – “para todos os prazeres / ócios”. Aqui se organizavam grandes festas e a vida cultural de Lisboa no século XIX passava por aqui. O primeiro lugar com iluminação a gás na cidade começou por existir aqui. E para aqui mandou o Conde vir leões, tigres e pandas que depois exibia nos jardins anexos da quinta (hoje Jardim Zoológico, aqui instalado em 1905).

Amante das artes, em especial da música, já que nas Laranjeiras não podia ter o São Carlos à porta, decidiu criar o seu próprio teatro e para aí trazer os maiores cantores de ópera da época. As festas seguiam, assim, do Palácio das Laranjeiras para o Teatro Thalia, mesmo à sua frente. Diz-se que a estas festas vinha até a família real. O fausto era tanto que o Conde acabou na falência. Mas deixou um legado para o vocabulário português: a expressão “farrobodó” para caracterizar a loucura e o excesso associados a uma determinada acção.

O Teatro Thalia – musa da comédia na mitologia grega – foi construído em 1820. Nos tempos áureos, até um fogo o consumir em 1862, a sua sala tinha lugar para cerca de 560 pessoas e o luxo imperava, quer nos camarins, quer no salão de baile ou até mesmo nos espelhos de Veneza que revestiam as suas paredes. Várias óperas foram aqui apresentadas. Depois do desastre do fogo não mais foi possível a recuperação do edifício, uma vez que o Conde de Farrobo havia entrado em falência, tendo acabado por falecer em 1869.

Até que a partir de 2009 a obra anteriormente projectada por Fortunato Lodi começou a ser recuperada e restaurada de forma brilhante segundo projecto do ano anterior dos arquitectos Gonçalo Byrne e da dupla Barbas Lopes (encomenda do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, sendo o Estado o proprietário do imóvel).

A Estrada das Laranjeiras continua a delimitar o espaço de um lado, mas agora já não passam por lá carroças, antes carros, muitos carros. Do outro lado o limite é o Jardim Zoológico e à entrada do novo Teatro Thalia a vizinhança constitui-se de uns animados macaquinhos nos jardins. Pese embora a enorme estrutura e a sua forma de caixote em cor castanha clara, não é fácil apercebermo-nos da sua presença à passagem na Estrada das Laranjeiras.




A obra que hoje nos é oferecida combina as partes antigas do antigo teatro neoclássico, como a sua fachada com colunas de mármore branco e frontão triangular (encimado com a inscrição em latim “Hic Mores Hominum Castigantur”, qualquer coisa como “aqui serão castigados os costumes dos homens”), esculturas e foyer, com partes novas, como a estrutura de apoio de vidro em forma de L, (um pavilhão que serve de passarela, no qual de dentro é possível observar-se o movimento da Estrada, mas desta nada se verá para dentro do Teatro), e, sobretudo, a tal estrutura “caixote” que embrulha as ruínas preexistentes. 





A grande e brilhante opção foi a de manter o espaço interior na sua forma original, consolidando-se e reforçando-se o exterior através da construção de uma pele em betão armado colorido envolvendo a estrutura primitiva. 



O espaço interior foi mantido tal como estava, como se de uma ruína ainda se tratasse, paredes de alvenaria com buracos, plateia e palco confundidos. Pormenores como deixar no tecto um pequeno buraco aberto para que a luz natural penetre no edifício são um mimo que atesta a superior qualidade do novo projecto de arquitectura.

O espaço interior presta-se à adaptação a vários usos como conferências, recepções, exposições, concertos, numa multidisciplinaridade de fins culturais e científicos. A Orquestra Metropolitana de Lisboa, por exemplo, tem feito bom uso do lugar.

A Avenida da Liberdade à boleia do Mexefest

Treinada desde a infância no escada acima escada abaixo da casa da avó, o avenida acima avenida abaixo dos últimos anos não passa de uma brincadeira de criança. O festival de música Vodafone Mexefest (antes Super Bock em Stock) alia a minha música preferida (indie) a umas valentes caminhadas pela minha cidade. Ou antes, por um espaço determinado da cidade de Lisboa, no caso a Avenida da Liberdade, desde o Marquês de Pombal até ao Rossio. 
Em edições anteriores (este festival teve a sua primeira edição em 2008, creio) já pudemos ouvir música no parque de estacionamento do Marquês, no átrio do ex-Bes, no terraço-bar do Hotel Tivoli, no Cabaré Maxime, no Ritz Clube, no Palácio da Independência. Espaços como este último são uma descoberta da cidade pelo que não são só a música e as caminhadas os pontos altos deste festival. É também a possibilidade de ouvirmos música em ambientes inesperados que são parte integrante do nosso património arquitectónico e cultural numa zona definida da cidade de Lisboa – a Avenida da Liberdade e sua envolvente. 
Aqui ficam as salas de espectáculo mais históricas e intemporais para quem nasceu ou viveu em Lisboa no século passado: o Coliseu dos Recreios, o Teatro Tivoli e o Cinema São Jorge.
Uma breve descrição destes espaços impõe-se: 
O Coliseu dos Recreios, na Rua das Portas de Santo Antão, foi inaugurado em 1890, fruto da ambição de um grupo de pessoas que desejava erigir a maior sala de espectáculos coberta do mundo. Os custos seriam, obviamente, altos pelo que tanto o rei como o povo teve ocasião de subscrever a colecta para esta empreitada. Polivalente como é, nesta sala já tivemos oportunidade de assistir a espectáculos de ópera, teatro, música de todos os géneros, galas e todo o tipo de eventos que se possa imaginar. É impossível para mim dizer qual a primeira vez e primeiro espectáculo a que aqui assisti. Não corro muitos riscos de errar se avançar com uma sessão de circo. Embora hoje suporte com muita dificuldade o circo, nem por isso fiquei traumatizada e é ainda mais difícil deixar passar um ano sem que haja um concerto que me entusiasme e me mova a voltar mais uma vez ao Coliseu. 2015 ficará marcado pela sublime actuação de Benjamim Clementine, integrada neste festival Vodafone Mexefest, público que encheu a sala por inteiro extasiado com a presença, voz e compassos do inglês, a tal ponto que a meio do espectáculo não conseguia deixar de patear o chão. Depois de tantos concertos a que aqui assisti, não lembro de nenhum assim.
A sala em si é bonita. A enorme cúpula em ferro é o seu ex-libris. Aliás, a introdução da arquitectura do ferro no Coliseu foi uma das pioneiras no nosso país. Os camarotes divididos por dois andares dão graciosidade à sala. A sua lotação chega aos 4000 quando a plateia recolhe as cadeiras e nos deixamos todos estar por ali, em pé.
O Cinema São Jorge, no número 175 da Avenida da Liberdade, é outro que me impossibilita imaginar qual a minha primeira presença por ali, tantos foram os filmes e concertos que lá me levaram. Estreou em 1950 e durante muitos anos foi uma sala de cinema incontornável para muitos lisboetas. A sua sala principal tem capacidade para quase 1000 pessoas. Hoje, depois de passar por um processo de recuperação, o São Jorge, sob a gestão da Egeac (empresa municipal de Lisboa) soube adaptar-se e permanece ponto obrigatório no domínio da cultura da capital (e não só, pois o Bloco de Esquerda já fez dele poiso em noite eleitoral). Ciclos de cinema decorrem lá, mas também espectáculos de música, dança e teatro. No total são três as suas salas e um café com varanda para a Avenida. Neste Vodafone Mexefest foi possível inovar e surpreender uma vez mais com a ideia do Black Room (sala escura), quinze minutos de música totalmente às escuras, ideal para nos deixarmos estar ainda mais relaxados e seguirmos o conselho de fechar os olhos para uma experiência mais plena.
O Teatro Tivoli é outro que, não querendo ser repetitiva, é parte da infância, juventude e idade adulta da maioria dos lisboetas. Continuo sem saber o primeiro espectáculo que aqui vi, mas recordo a euforia por Tom Cruise no filme Cocktail, para além de muitas peças de teatro. Situado em frente ao Cinema São Jorge, do outro lado da Avenida da Liberdade, foi criado em 1924 para ser a melhor sala de espectáculos de Portugal, tendo lá passado os maiores filmes da história do cinema (categoria onde não se inclui certamente o Cocktail), para além de teatro, música e dança.  O seu edifício está classificado como imóvel de interesse público e a sua fachada é distinta e elegante, projecto de Raul Lino. Em estilo neo-clássico, ainda que integrado no movimento modernista da época, passaria bem por um edifício de um boulevard francês. A cúpula encimada por uma pequena torre dá-lhe ainda mais graciosidade. O seu interior não é menos elegante. A sala acomoda pouco mais de 1000 pessoas e na zona do palco é possível admirar as decorações laterais e cimeiras.
Em seguida, passaremos a descrever com mais atenção aqueles espaços muito menos visitados, ou nunca visitados, que o Mexefest improvisou:
O Palácio Foz (http://www.gmcs.pt/palaciofoz/) (ou Palácio de Castelo Melhor, pertencentes originalmente aos marqueses de mesmo nome) fica nos Restauradores. Edifício de arquitectura residencial setecentista, embora objecto de grandes alterações nos séculos posteriores, em estilo neoclássico, a sua fachada é longa e aí se destacam três espaços distintos: o primeiro piso branco, o segundo piso cor de rosa e o telhado preto em mansarda com janelas de sacada. No seu interior o estilo francês é evidente, com preocupação de recriar a estética dos Luíses. Possui uma deliciosa escadaria e vários salões com ricos motivos decorativos e elementos e materiais nobres como pedra, talha, pintura, estuques, dourados, espelhos e cristais. Os tectos trabalhados são igualmente um regalo. Um verdadeiro palácio a que não falta sequer um jardim interior. Por todo lado convivemos com mobiliário e porcelana únicos e belíssimos, com o devido “favor não mexer” como aviso. Não é à toa que a nata da sociedade lisboeta de outros tempos vinha pavonear-se nos recitais e bailes que aqui frequentemente tinham lugar. Muito se perdeu quando o proprietário original deixou de poder sustentar o seu palácio no princípio do século XX. O edifício foi então espaço de clubes, salas de espectáculo, ginásio, oficina e leitaria. Hoje é património do Estado Português e vários organismos públicos estão lá instalados. O Palácio Foz é, pois, de fácil acesso e visita e já tem sido palco de algumas exposições e recitais. Desta vez foi palco do zouk bass tarraxo dos Bison e outros artistas focados na música electrónica. Não deve haver maior contraste com o mobiliário e decoração austera do Palácio. 
Inspirador, Parte I.
A par do Palácio Foz (e do Palácio da Independência, no Largo de São Domingos, numa outra edição do Mexefest), a Sociedade de Geografia de Lisboa será dos melhores locais para se descobrir na cidade. A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa (http://www.socgeografialisboa.pt) em 1875 é facilmente explicável pelo contexto histórico da época, uma época em que o interesse das potências europeias pelo continente africano vinha em crescendo. Criada em Portugal décadas mais tarde do que nas capitais das “rivais” Inglaterra e França, ainda assim a ideologia imperialista e o ideal expansionista era o mesmo. A exploração do continente africano impunha-se, numa altura em que a implantação portuguesa no terreno não era abundante, com uma presença apenas em algumas das suas regiões litorais (portos de escala e plataforma de embarque das riquezas do continente), e a opinião pública europeia ia mostrando interesse por África. Exploração geográfica e científica cuja informação daí resultante serviria – e serve – para um melhor conhecimento do território e suas gentes. O acervo museológico da Sociedade nos domínios da etnologia e da história é composto de mapas, planisférios, globos, fotografias, manuscritos e outros documentos com descrição exacta das expedições, artefactos vários, mobiliário, pintura, escultura e diversos instrumentos científicos, trazendo ao conhecimento europeu, e neste caso português, também o exotismo da fauna e flora do continente. O espólio da sua Biblioteca é importantíssimo para o estudo e compreensão da História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa. 
Desde 1897 a Sociedade de Geografia de Lisboa está situada num edifício da Rua das Portas de Santo Antão, bem junto ao Coliseu dos Recreios. A sua fachada discreta é bem bonita. Ao entrar seguimos por uma escadaria com vitrais, pinturas e estátuas de nomes incontornáveis da história da expansão do nosso país (realeza, navegadores, cronistas, todos lá estão representados). No segundo andar vem o deslumbre que quase nos aparta da performance que os artistas musicais nos irão oferecer. É a Sala Portugal, lugar das grandes recepções e sessões solenes e, neste caso, lugar dos concertos do Mexefest na Sociedade de Geografia de Lisboa (o brasileiro Castello Branco com a sua música intimista sentiu-se de tal forma em casa que tornou o seu público como confidente). Esta sala acompanha toda a extensão da fachada, cerca de 50 metros de comprimento por 16 de largura, rodeada a toda a volta de galerias em dois pisos superiores (o museu). O ferro intrincado das galerias e escadaria, com destaque para esta última em ziguezague tomando a forma de um losango, é de uma beleza ímpar. 
Inspirador, parte II. 
Também nas Rua das Portas de Santo Antão fica a Casa do Alentejo. Mais popular e acessível, muito por conta do seu restaurante, o que talvez não se saiba é que a Casa do Alentejo fica instalada num edifício classificado como Imóvel de Interesse Público, também designado Palácio Alverca (por ter pertencido à família País do Amaral, Viscondes de Alverca) e que antes da sua construção o terreno estava ocupado por um curral de porcos. Construído no século XVII como palácio residencial da família, não terá sofrido muito com o terramoto de 1755. No entanto, o que hoje se observa no local é muito diferente da sua arquitectura original. Com efeito, depois de ter sido ocupado por um liceu e um armazém de mobiliário, em 1919 tornou-se num dos primeiros casinos de Lisboa (o Majestic, depois Monumental Club), até que em 1932 o Grémio Alentejano (hoje Casa do Alentejo) instalou-se aqui, tendo adquirido o imóvel em 1981. Apesar de ainda conservar o brasão da família originalmente proprietária na fachada, o interior foi muito transformado para instalação do dito casino, tomando uma decoração revivalista. Destaque para os seus pátios e painéis de azulejos, bem como elementos neo-góticos, neo-árabes, neo-renascentistas e neo-rococós. É o revivalismo, já se disse. É a exuberância, tornada ainda maior quando se vê e ouve Capicua (convidada especial dos They’re Moving West) num dos salões deste Palácio. Nos salões há que observar atentamente todos os seus elementos, como o mobiliário e os candeeiros, mas há que não esquecer de olhar para as pinturas do tecto. Mas a surpresa maior é o pátio central, aberto. Num claro estilo mourisco, a que não faltam os azulejos, os arcos e a pequena fonte no centro, para além de deixar ver as janelas com varandins trabalhados no piso superior.
Ainda na mesma Rua das Portas de Santo Antão, no número 110, encontramos o Ateneu Comercial de Lisboa. Fundado em 1880 por um grupo de empregados do comércio, a data escolhida está ligada à celebração dos 300 anos da morte de Luís de Camões, o patrono do Ateneu. Para símbolo da entidade foi ainda escolhido o deus Mercúrio, presente no seu estandarte. A missão original focava-se em proporcionar educação e cultura para as classes menos abastadas da cidade, nomeadamente, aulas para os seus sócios e familiares, bem como crianças pobres, organização uma biblioteca e realização de conferências científicas e tertúlias literárias. Também a prática do desporto, em especial a ginástica, era um dos propósitos do Ateneu, o qual subsiste até hoje. Ao longo dos tempos foram várias as iniciativas em prol da sociedade por parte desta associação profissional. Em 1885 a sede do Ateneu Comercial de Lisboa fixou-se definitivamente na Rua das Portas de Santo Antão, naquele que era conhecido como Palácio Povolide ou Palácio da Anunciada (nome da rua anteriormente ao terramoto, ao qual sobreviveu). Depois do Palácio ter pertencido ao Conde de Burnay, o Ateneu viria a adquiri-lo em 1926. As suas salas não estão num excelente estado de conservação, e nem poderiam estar, pois as dificuldades que a associação tem vindo a sofrer, com processos de insolvência pelo meio ainda não resolvidos, não o permitem. No entanto, este é mais um dos espaços a (re)descobrir em Lisboa.
E a surpresa que o Mexefest nos trouxe nesta edição foi a integração de um novo espaço recém-inagurado no seu cartaz: o Tanque. O Tanque não é mais do que a piscina do Ateneu, entretanto fechada e hoje devidamente esvaziada para que possamos lá cair sem correr o risco de beber uns pirolitos. Os tempos da natação já lá vão e agora é tempo de proporcionar experiências diferentes e originais. Aqui passarão a organizar-se concertos, festas e o que mais vier à ideia dos seus novos responsáveis. Ver o funk nova-iorquino dos portuguesissímos Da Chick na pista 3 da piscina do Ateneu foi uma experiência para lá de divertida e entusiasmante. No local há também um bar.
Não muito longe daqui fica um dos espaços mais inesperados para se ouvir música não coral. É a Igreja de São Luís dos Franceses. Construção quase dois séculos anterior ao terramoto, ficou destruída à sua passagem, sendo reconstruído o seu interior na quase totalidade. É a residência religiosa e espiritual dos franceses em Portugal. Não tive oportunidade de lá entrar e assistir a um concerto, mas em ano anterior deu para sentir da porta de entrada que o ambiente será certamente especial.
Não sei se na Avenida da Liberdade morarão mais de uma vintena de pessoas. Da minha infância recordo ainda que para além dos espaços acima descritos aqui frequentava sobretudo os consultórios médicos. Da cadeira do meu dentista esforçava-me por me distrair a olhar da janela os mega-cartazes dos filmes que ocupavam quase por inteiro a fachada do Cinema Condes, hoje o Hard-Rock Lisboa. Para além deste há que recordar ainda o Éden, o Odeon, o Olimpia, o Parque Mayer, o Politeama e o Dona Maria II. Uns já eram, outros ainda cá estão para nos entreter e cultivar. E que dizer dos elevadores do Lavra, de um lado, e da Glória, do outro? As lojas das melhores marcas mundiais estão aqui presentes, mesmo que só possamos mirar as suas montras, e os quiosques no meio da Avenida, debaixo das árvores, só vêm tornar ainda mais agradável e obrigatória uma caminhada pela Avenida. Está cá tudo