A Vertente norte do Parque Florestal de Monsanto

A vertente norte de Monsanto possui, a noroeste, um dos primeiros miradouros do Parque.

A Luneta dos Quartéis é um dos locais mais elevados da cidade, a cerca de 178 metros de altitude, e aqui existiram algumas estruturas militares. No início da construção do Parque, nos anos 1930-1940, foi transformado em miradouro.

Do Miradouro da Luneta dos Quartéis temos praticamente a mesma vista que a do Jardim de Montes Claros. Mas na Luneta o abandono e o descaso são a nota dominante. Não falo da pouco atraente vista para a zona industrial da CRIL, mas antes do facto de terem deixado a vegetação à solta e esta ter crescido de tal forma que só nos empoleirando conseguimos apreciar a confusão da paisagem.

Se este lugar já não desempenha o papel de miradouro que foi em tempos (vêem-se ainda as caravelas nas lápides dos dois lados da sua entrada, mas nada mais), também o edifício lá no topo já viu melhores dias como restaurante e hoje está completamente grafitado e esventrado.

A uma curtíssima caminhada daqui ficam os quase escondidos Moinhos do Mocho. Até lá sentimo-nos totalmente envolvidos pela floresta, com copas das árvores altíssimas. Estes dois moinhos propõem-se a recordar o tempo em que a serra de Monsanto era uma de campos de cereais – e estas estruturas moíam a farinha que abastecia Lisboa – e entre eles existe um pequeno jardim que é o único sinal a contrariar a regra do abandono por aqui.

Este miradouro, por exemplo, simplesmente desapareceu por entre o arvoredo cerrado. Nada se vê daqui. Mas se conseguirmos abstrair-nos de um ligeiro sentimento de insegurança pelo remoto do lugar, é até um sítio tranquilo que nunca se imaginaria ser parte de uma cidade.

A nordeste do Parque Florestal de Monsanto encontramos a Mata de São Domingos de Benfica. Bem junto à Radial e com os comboios a passarem também por ali, consegue-se ao mesmo tempo ouvir os passarinhos a chilrear.

Os eucaliptos são a espécie dominante e o cheiro a orvalho acompanha-nos nas caminhadas pelos seus inúmeros trilhos após estes dias chuvosos.

A Mata de São Domingos acolhe ainda um parque infantil, uma torre de escalada e aquele que, provavelmente, será o mais bonito parque de merendas de Monsanto. Como bónus um tanque que oferece um belo reflexo na sua água.

Deixados para trás os Pupilos do Exército e o Palácio dos Marqueses de Fronteira, rapidamente chegamos ao Parque Recreativo do Calhau.

Com uma extensa área verde, daquelas em que em qualquer cidade do centro da Europa os seus cidadãos chamariam um figo ao acto de estender a toalha e deixar-se estar em biquíni aos primeiros raios de sol, este parque é ideal para nos deixarmos estar, seja a ler, namorar, brincar com crianças ou animais ou piquenicar.

Possui um miradouro na sua parte mais elevada, o Miradouro do Moinho das Três Cruzes. A vista dá para o trânsito do Eixo Norte Sul, com as Twin Towers lisboetas e as Torres das Amoreiras como testemunhas, o moinho está em ruína e um grupo de brasileiros fazia uma reza a uma deles, certamente para tirar o demónio de seu corpo.

Àqueles gritos pavorosos não pude senão descer rapidamente bosque adentro antes que me confundissem com algum parente do demo. E o bosque que envolve o prado do Calhau é bem bonito. Por entre sobreiros, azinheiras, carvalhos e pinheiros-mansos vamos descobrindo umas torres (moinhos?) cuja função original desconheço.

Atravessada a estrada da Serafina, do Parque Recreativo do Calhau passamos para o Parque Recreativo da Serafina.

Este parque, também conhecido como Parque dos Índios, deve ser um sonho para as crianças de hoje, com equipamentos que daqui a uns anos preencherão as suas memórias e os farão emocionar da mesma forma que o avião do Alvito fez e faz às das gerações de setenta e oitenta. Temos umas tendas, um farol, um labirinto. E baloiços mais convencionais para os menos aventureiros.

O restaurante Papagaio da Serafina fica aqui. Uma deliciosa pérgola também.

E o miradouro do Alto da Serafina é um ponto alto para os caçadores de grandes paisagens, mais um grande miradouro em Monsanto. Vemos a Ponte, vemos o Cristo e, como não podia deixar de ser, as Torres das Amoreiras ali estão, sempre a aparecer no postal em lugar de destaque.

Saindo do Parque Recreativo da Serafina temos, a uma curta distância, o Parque da Pedra e sua parede de escalada.

Curiosamente, o bairro da Serafina, ali mesmo em baixo do miradouro e na envolvência do Parque Recreativo, não se vislumbra – para se perceber os seus contornos nada melhor do que atravessar o Aqueduto das Águas Livres pelo alto dos seus arcos. E é de aproveitar os fins de semana deste ano de 2018, que as entradas em todos os núcleos do Museu da Água, e não apenas no seu maior ex-libris e de Monsanto, são gratuitas, em comemoração dos 150 anos da EPAL.

A vertente sul do Parque Florestal de Monsanto

Rasgado pela A5, o Parque Florestal de Monsanto tem a sul alguns dos equipamentos pioneiros na sua construção.

O Jardim e a Casa de Chá (ou restaurante) de Montes Claros é um lugar recolhido com vistas tão contraditórias como aquela que dá para o bulício da paisagem da CRIL inundada de edifícios industriais e comerciais ou aquela outra que se abre à foz do Tejo.

O edifício modernista rectangular, projecto de Keil do Amaral construído em 1949, mantém a sua fachada inalterada, embora tenha sofrido diversas obras de recuperação do seu interior por forma a receber eventos. Desde este edifico branco de dois andares estende-se pelo jardim um canal estreito de 90 metros de comprimento que no final se torna mais largo, criando um lago a cuja volta exterior se desenvolve uma pérgola. Não é só de arquitectura e de vistas de que se trata Montes Claros. O relvado do seu jardim é ideal para relaxar ou para pequenos jogos.

Não muito longe daqui fica a residência oficial do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, edifício cujo destino se discute nos nossos dias.

Um pouco mais a norte encontramos uma das entradas para a muito frequentada Alameda Keil do Amaral. Uma alameda exclusivamente pedonal ou ciclável, com um circuito de manutenção em vários pontos do caminho, onde nos vemos envolvidos por uma densa vegetação. Algumas frestas nas árvores permitem-nos ir antecipando o cenário que teremos totalmente aberto à nossa frente quando chegarmos, uns metros depois, ao Anfiteatro Keil do Amaral. Esta é uma das vistas mais bonitas para a Ponte 25 de Abril.

Uns metros mais elevado, no Miradouro do Moinho do Penedo (ou do Alferes), podemos apreciar a mesma paisagem desde o campo de basquete. Aqui fica um dos mais concorridos parques de merendas de Monsanto. E, claro, o moinho que dá nome ao lugar.

Acima do Anfiteatro, outro miradouro essencial, o Miradouro Keil do Amaral, com uma vista fantástica para o Palácio da Ajuda.

Daqui podemos fazer um percurso circular por entre caminhos até ao final da Alameda, junto à outra entrada na Estrada do Alvito.

É interessante constatar que apesar de ficarmos por aqui totalmente rodeados de vegetação em caminhos estreitos, nem sempre conseguimos alcançar o silêncio, uma vez que os veículos passam na estrada mesmo ao lado. Não os vimos, mas ouvimos. É talvez a única coisa a lastimar por aqui.

No entanto, consegue-se encontrar lugares de recolhimento, como este arranjo paisagístico ao redor de um pequeno lago. De volta à Alameda, encenamos outro dos mais frequentados parques de merendas de Monsanto.

Ainda não cansados de miradouros, outra vertente da cidade se nos oferece agora no Miradouro do Alvito, antes de chegarmos ao parque recreativo de mesmo nome. São as torres das Amoreiras e Campolide em destaque.

Para terminar este passeio, passamos o Clube de Ténis sem nele entrar e seguimos directos para o último miradouro do dia: o miradouro do Bairro do Alvito, construído num descampado com uma vista directa para a Ponte sobre o Tejo, numa direcção de olhar, e para o Aqueduto e Prazeres, na outra.

Parque Florestal de Monsanto

O Parque Florestal de Monsanto é um enorme pedaço de natureza que corresponde a 10% da área total do concelho de Lisboa.

O pulmão verde da cidade não é, no entanto, uma obra natural. Pelo contrário. Instalado na Serra de Monsanto, os quase 1000 hectares que podemos hoje desfrutar em todos os sentidos foram criados por Decreto.

A Serra de Monsanto era quase desprovida de arvoredo, com excepção para a Mata de São Domingos e para a Tapada da Ajuda, sendo antes um lugar de searas, pastos de gado e pedreiras.

Embora já datassem de 1868 planos para arborizar o lugar, foi na década de 1930 que o engenheiro Duarte Pacheco, ministro do Estado Novo, determinou a criação do Parque Florestal de Monsanto. A Mocidade Portuguesa iniciou então a plantação de milhares de árvores. E o arquitecto Keil do Amaral foi o escolhido para o projectar.

O Aqueduto das Águas Livres, elemento icónico não só de Monsanto mas de toda a cidade de Lisboa, marcava já presença há séculos. Igualmente, o Palácio dos Marqueses de Fronteira, perto da Mata de São Domingos, reinava já em toda a sua monumentalidade. E o antigo Forte de Monsanto, Estabelecimento Prisional de Monsanto desde há décadas, que antes havia servido de linha defensiva, emprestou alguns dos seus reclusos para a empreitada de florestação.

A estes monumentos e equipamentos vieram a acrescentar-se outros no novo Parque.

Desde logo, diversos miradouros.

Como os miradouros dos Montes Claros, dos Moinhos do Mocho, do Penedo e da Luneta dos Quartéis, todos eles nas vertentes sul e oeste do Parque. As vistas que se obtém de Monsanto são privilegiadas, ora totalmente desafogadas ora pequenas nesgas abertas na vegetação. Daqui se avista toda a Lisboa, com o Tejo, em especial, bem perto.

A referência a “moinhos”, deve-se ao facto de este ter sido o tal local de searas e pastos. Embora nenhum deles esteja já em funcionamento, encontramos ainda alguns na paisagem.

Obras como a Casa de Chá e Jardim de Montes Claros e o Clube de Ténis são projectos de Keil do Amaral cuja preponderância persiste.

No âmbito da habitação, ao Bairro do Alvito, de 1937, veio juntar-se a construção do Bairro da Boavista, em 1943, do Bairro do Caramão, em 1945, do Bairro de Caselas, em 1947, e do Bairro da GNR, em 1958.

Apesar de o projecto inicial de Keil do Amaral não ter sido todo implementado, ao parque infantil do Alvito, cujas memórias de brincadeiras e aventuras no seu avião perdurarão pelo menos para quase todas as crianças lisboetas nascidas nos anos 70, vieram a juntar-se nos anos 90 o Parque Urbano e Recreativo do Alto da Serafina e o do Calhau, bem como a recuperação da Mata de São Domingos de Benfica.

Em resumo, o Parque Florestal de Monsanto, quase três vezes maior do que o Central Park de Nova Iorque, é um espaço de ar puro (ainda que rodeado de auto-estradas e vias rápidas), interacção com a natureza, paisagens de tirar o fôlego, trilhos para caminhadas e passeios de bicicleta, desportos e aventuras várias, parques infantis, piqueniques. Um lugar para famílias, casalinhos ou solitários. Um projecto modernista, com preocupações ecológicas e urbanísticas, em que a natureza e o recreio dão a mão e caminham lado a lado.

Ribeira do Cavalo

Este já não é um segredo para ninguém da zona de Lisboa que goste de praia, mas cá vai na mesma: agora que Setembro aí está, que tal uma escapada em sossego à Praia da Ribeira do Cavalo?
 
 
 
 
Continuando pelo Porto de Abrigo de Sesimbra fora por uma estrada de terra batida que nos deixa com uma vista privilegiada para o Oceano, talvez possamos encontrar um carro ou outro  estacionado umas centenas de metros mais à frente. É aí que temos a certeza que começa o trilho pedestre da descida para a praia dos nossos sonhos. 
 
 
A Praia da Ribeira do Cavalo, também conhecida como da Pedreira do Cavalo, fica num vale montanhoso que se abre para o mar, numa paisagem fantástica de cortar o fôlego.
 
 
Para descermos até às suas águas de uma cor azul-turquesa irreal temos um corte diferente pela vegetação rasteira. É provável que nos enganemos no trilho. Este é um local selvagem e para além do acesso pedestre só conseguimos chegar lá abaixo por barco. Não existem quaisquer facilidades ao nível de restauração, pelo que temos de levar a nossa comida, o que só torna o dia mais prazeroso. 
 
 
Um piquenique numa enseada idílica, não tão pequena assim, com diversos recantos como abrigo, um areal extenso e com várias rochas a decorar a paisagem. Não soa nada mal, pois não?
 
 

 



 
 
Aliás, é precisamente um destes rochedos o responsável pelo nome da Praia pela sua parecença com a cabeça de um cavalo.  
Dizem que as águas por aqui são frias, mas são apenas o suficientemente refrescantes para umas retemperadoras braçadas num dos lugares mais bonitos para se nadar. E se são claras, estas águas.
Chegar de manhã bem cedo à Ribeira do Cavalo garante sossego e tranquilidade totais.
À saída não esquecer de transportar o lixo de volta connosco. Para o ano queremos voltar e encontrar a Ribeira intacta e belíssima como só ela sabe ser.
 
 

A Lisboa que Teria Sido

A exposição sobre uma Lisboa passada, talvez imaginada, que dominou os media nos últimos meses foi aquela que esteve patente até há pouco tempo no Museu Nacional de Arte Antiga, “A Cidade Global, Lisboa no Renascimento”. Lisboa como o centro do comércio do mundo, a Rua dos Mercadores como coração dessa Lisboa, a 5.ª Avenida da época. Deixando esta reconstituição da Lisboa do renascimento para trás, bem como a muita polémica que a envolveu, à boleia da autenticidade ou não de duas pinturas, dedicarei as próximas linhas a uma outra exposição sobre uma outra Lisboa, esta seguramente imaginada.

Até 18 de Junho podemos visitar a exposição “A Lisboa que Teria Sido” no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa (também conhecido como Palácio Pimenta, no Campo Grande).


Para todos os que gostam de Lisboa ou tão somente apreciam exercícios de futurologia, esta é uma exposição a não perder. Poderia ter levado o epíteto de “A Lisboa Sonhada”, que também não ficaria mal atribuído.


Aqui estão cerca de 200 objectos referentes a projectos urbanísticos e arquitectónicos que apesar de pensados, por uma razão ou outra, nunca chegaram a ver a luz do dia. Estes objectos, como desenhos, maquetas, fotografias, artigos de jornais e projectos, pertencem aos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa e vêm desde o século XVI, embora predominem os do século XX.

Lisboa teve, na sequência do terramoto de 1755 que a arrasou, oportunidade para ser uma cidade pensada e planeada. A “Lisboa pombalina” é até hoje reconhecida como possuidora de um valor urbanístico e arquitectónico superior, sendo candidatada a constar da lista do património mundial da Unesco. Todavia, a arquitectura pombalina era, no princípio do século XX, considerada por vários pensadores como “monótona e triste”, de uma “monotonia que desagrada a pessoas inteligentes”, tendo a Baixa sido designada como cidade “sonsa, pesada e pombalesca”.

A Lisboa cosmopolita do século XVI carecia no século XX de monumentalidade e modernidade.
As propostas agora em exposição, da autoria dos maiores urbanistas e arquitectos da época, tinham assim como objectivo conferir-lhe essas duas características. 


Um dos primeiros objectos com que nos deparamos é o de uma maqueta para um alpendre-reclame a construir nas zonas de estacionamento das Praças D. Pedro IV e Restauradores. Da autoria de Cassiano Branco, datada de 1937, este é um elemento que ainda hoje poderíamos considerar possuidor de modernidade, uma peça de mobiliário urbano como haveríamos de ver poucas.


Entre maquetas várias, foco absoluto para as relativas a projectos de ordenamento urbanístico na Praça do Martim Moniz, datadas de meados dos anos 60 do século passado. Lugar difícil, entre colinas e vales, é muito divertido tentar identificar naqueles projectos alguma correspondência com a realidade actual. São túneis, estradas sobre-elevadas, um sem fim de desvarios. Bem sei que o “homem sonha, a obra nasce” e que estes projectos perto daquele mais recente para a Margueira, na outra banda, são “peaners”. Melhor do que isso só mesmo conseguir citar Fernando Pessoa e Jorge Jesus numa mesma frase. A verdade é que também o projecto da Cidade Sonhada para o pós Expo 98 seria do foro da irrealidade, certo? António Mega Ferreira acreditou e a Expo / Parque das Nações não consta desta exposição “A Lisboa que Teria Sido”. 

Prosseguindo na tentativa de achar as diferenças entre o que teria sido e o que é, destaque ainda para imagens de projectos para a primeira ponte sobre o Tejo tão diferentes do que vemos hoje.

Olha se não são as portas de Brandenburgo.


Num eixo absolutamente central, a Avenida da Liberdade e suas imediações foi igualmente alvo de uma série de estudos. Mais uma vez, as críticas dirigiam-se à excessiva modéstia dos seus quarteirões. Já Eça de Queirós escrevia sobre ela em “Os Maias” “curto rompante de luxo barato”. Estes estudos estendiam-se ao seu prolongamento até ao Parque Eduardo VII, tentativa de lhe conferir a tão almejada monumentalidade, tão ao gosto de Estado Novo. 

E eis que aqui chegámos e estes projectos todos ficaram na gaveta décadas e décadas para hoje, curiosos, nos perguntarmos: como teria sido?

Duas novas aquisições na paisagem de Lisboa

Lisboa tem desde 2016 dois novos símbolos arquitectónicos, ambos cortesia da eléctrica nacional.
O edifício Sede da EDP e o MAAT vieram ocupar espaços na frente ribeirinha da capital e são já obras incontornáveis e marcantes na nossa paisagem.


Começando pela mais antiga, a Sede da EDP, lugar onde se pretende acolher e juntar os mais de setecentos funcionários da empresa espalhados por vários espaços na cidade.

Está a fazer agora um ano que ficou a descoberto a obra da dupla Aires Mateus. Instalado no aterro da Boavista, entre as ruas D. Luís e a 24 de Julho, numa zona histórica que tem vindo a ganhar uma nova dinâmica, enriquecendo-a, este edifício rompe com a tradição e acrescenta qualidade – antecipo já. 

Dependendo do local onde estejamos na cidade, a visão que teremos sobre este edifício irá mudando. Do Alto de Santa Catarina, no seu miradouro, parece-nos uma massa branca enorme e algo deslocada. Aliás, à medida que a obra se ia desenrolando, daqui foram surgindo críticas ao novo acrescento na silhueta de Lisboa. No entanto, desde cá de baixo, da D. Luís ou da 24 de Julho, não nos chegamos a aperceber da verdadeira dimensão da referida massa branca. Apresentam-se-nos duas torres bem definidas, é certo, mas a sua escala parece bem acomodada ao existente (um dos lotes vizinhos ainda está por ocupar e de futuro também ficará afecto a serviços da EDP).



É aqui que nos apercebemos dos inúmeros detalhes desta obra; e muitos mais nos escapam – por exemplo, não temos muita noção de quantos andares possui este edifício. Um dos aspectos verdadeiramente interessantes neste projecto é o corredor entre as duas torres que liga a Rua D. Luís à Avenida 24 de Julho, criando um pátio ou praça interior. É aqui que se sente que esta não é apenas a sede de uma empresa, fechada sobre si mesma e sobre os seus funcionários, antes aberta à cidade (aqui se prevê a abertura de lojas e restaurantes). E aqui o mérito é do projecto arquitectónico, máxime dos seus autores, em procurarem essa integração que se espera que venha a ser alcançada através da vivência que lhe darão também os habitantes de Lisboa.



A solução arquitectónica usada para cobertura desta praça é única e brilhante, quer a nível estético quer funcional. Uma espécie de cortinas em ripas deixam-nos na dúvida se a praça será mesmo fechada. O jogo de sombras / luz é aqui mais visível e conseguido. Certeiro quem usou as palavras “enigma”, “quebra cabeças” e “puzzle” para descrever este projecto. 


Se é fácil de prever que acima de nós, nos pisos superiores, estarão os escritórios, mais difícil de prever é o que encontraremos nos pisos inferiores enterrados. Um jardim (quase) zen, por exemplo. Sereno (por agora?).





Serenidade foi algo que não existiu no dia da abertura ao público do MAAT. 5 de Outubro de 2016, feriado reposto, milhares junto ao Tejo para ver a espécie de nave espacial que aterrou em Lisboa. De tal forma que a ponte pedonal que liga o MAAT ao Museu dos Coches, para lá da linha férrea, teve de ser encerrada.


O MAAT é o mais novo museu de Lisboa e veio fazer companhia ao formosíssimo e quase centenário edifício da Central Tejo, Museu da Electricidade. Os dois juntos formam hoje o Campus Fundação Edp e receberam a nova designação – MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia).

A zona ribeirinha de Belém é rica em história e mantém-se no imaginário português há séculos. Por aqui ficam alguns dos edifícios mais icónicos da capital. Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Padrão dos Descobrimentos, CCB, Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei de vigia na outra banda. E, agora, mais um: o futurista e ondulante MAAT, mais uma cortesia da EDP, projecto da inglesa Amanda Levete.



O aproveitamento da área onde está implantado e o elemento natural maior que é o rio foram soberbamente manejados. Sem o rio este edifício não seria o mesmo. E sem a luz que ele e Lisboa oferecem também não. A ideia da arquitecta foi a de possibilitar o reflexo da luz do sol e da água no edifício, como se de uma onda se tratasse. Nem seria necessário este jogo, uma vez que a cobertura ondulante é óbvia. 


A dificuldade da implantação do então futuro MAAT era difícil de ultrapassar numa ideia imediata. Temos o rio, lugar privilegiado, mas logo colado a ele temos a linha de comboio e só depois a cidade. Essa barreira foi magistralmente superada. Não pela ponte pedonal que se espera venha a abrir em breve, mas sobretudo pela dita cobertura. Pela belíssima cobertura, melhor dito.



A solução criada foi a de fazer desta cobertura um espaço público, um lugar de encontro entre as pessoas, por onde elas possam caminhar, atravessando o edifício, ou aproveitá-la como miradouro. Sim, este é o mais novo miradouro da cidade e daqui temos uma perspectiva nunca vista da Ajuda. Basta, por uma só vez, virar as costas ao rio.

Depois temos os pormenores na escolha dos materiais. O revestimento do edifício, quase parecendo as escamas de um peixe, é em azulejo e remete para a calçada portuguesa.
Ainda acerca da relação deste edifício com o rio, é curioso como uma estrutura que não é pequena instalada na primeiríssima linha do rio não perturba a leitura do existente na cidade. Aliás, da cidade não é possível obter uma visão deste edifício. Isso só é alcançado do lado do rio. E que bem que este desenho de curvas cativantes aqui fica. 

Voltando ao início, ao dia da abertura do MAAT ao público, se o sucesso de um edifício pode ser medido pela forma como as gentes o vivem, então este é sucesso absoluto.

Amadeo de Souza-Cardozo / Porto Lisboa / 2016-1916

Até dia 26 deste mês ainda podemos ver em Lisboa, no novo espaço do Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, a exposição de Amadeo que pretende recriar uma outra do mesmo Amadeo que aconteceu há 100 anos, no Jardim Passos Manuel, no Porto, e na Liga Naval Portuguesa, em Lisboa. Na época esta exposição foi apresentada por Almada Negreiros como “mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia”.
Modernista e vanguardista, as obras de Amadeo são encaixadas à vez no cubismo, futurismo e expressionismo, numa mostra da sua clara versatilidade.
O que mais me agrada na sua pintura são as cores e a geometria do seu desenho.
O nosso primeiro modernista pode ter andado por Paris, mas o resultado das suas pinceladas remete directamente para a paisagem portuguesa, como é evidente nestas duas obras.



As casinhas, portas e janelas, e Manhufe, arredores de Amarante, como aperitivo de uma futura viagem ao norte para (re)descobrir o Portugal de Amadeo.

1 Dia no Parque das Nações

A proposta para se iniciar o dia vem em escolha múltipla, mas sempre na zona norte do bairro do Parque das Nações: que tal uma corrida junto ao rio, uma partida de ténis debaixo da Ponte Vasco da Gama ou umas braçadas na piscina ao ar livre do ginásio I Am Fit (antigo Club House)? A vista aliada ao prazer do exercício físico (para quem o tem) é imbatível por estes lados.


Para quem esta ideia causa desconforto e um arrepio de preguiça só de a imaginar, a solução é a de ver outros exercitarem-se. Dirija-se para debaixo da Ponte Vasco da Gama e deixe-se ficar a assistir aos malabarismos dos miúdos no skate park mais bonito do mundo ou, pelo menos, o skate park com a localização mais bonita do mundo. Esta área é ainda ideal para observar a fauna do Parque, nomeadamente flamingos e outras aves.


Depois da queima de umas calorias, partindo do local onde iniciámos o nosso desporto matutino, seja a praticar ou a assistir, o ideal é abastecer com umas frutas e outros alimentos no Pomar da Rosa, uma instituição incontornável do bairro para os lados do Rossio de Levante, e descansar um pouco numa das esplanadas de café na acolhedora Praça no final do Passeio dos Jacarandás. 

Reposta a energia que nos fará falta para o resto do longo dia, seguimos em direcção à Torre Vasco da Gama, em pleno Parque Tejo. 

(um aparte que se impõe: os nomes por aqui são inspirados. Já escrevemos Levante e Jacarandás. Que dizer de Rua Ilha dos Amores, Passeio das Garças, Estacada das Gaivotas, Travessa Corto Maltese, Terreiro dos Radicais ou as mais famosas Alameda dos Oceanos e Avenida da Boa Esperança? A homenagem às epopeias marítimas dos portugueses estão por todo o lado, assim como aos heróis populares da cultura mundial – para aprofundar mais sobre a toponímia do bairro é clicar aqui http://www.portaldasnacoes.pt/item/toponimia/)

Continuando o caminho junto ao rio até à Torre Vasco da Gama, com sorte com o dia podemos observar o espelho que se forma na água do Tejo.


Um pequeno desvio interior para o prédio redondo verde e branco (que inicialmente marcava a fronteira entre os concelhos de Lisboa e Loures) leva-nos a conhecer um conjunto de homens verdes que levitam sobre a água de um lago / fonte – são os “Homens de Bessines“, de Fabrice Hybert, a primeira obra de arte pública sugerida neste itinerário.



De volta ao rio, e já junto à Torre, eis-nos face a face com outra obra de arte, também verde, mas desta vez passível de ser tomada por nós – é a “Cursiva“, de Amy Yoes, e podemos subi-la e tentar caminhar sobre as suas curvas. Como seus vizinhos distintos encontramos um painel de azulejos do surrealista Roberto Matta (é tentar identificar o que os seus bonecos andam para ali a fazer) e a belíssima arquitectura do bloco de apartamentos da autoria de Manuel Aires Mateus (aquelas varandas são de fazer inveja a qualquer ser provido de emoções).




Aproxima-se o corredor onde se sucedem os restaurantes. Não é tempo ainda de almoçar e por isso exploraremos os jardins que se escondem entre estes restaurantes e o rio. São os surpreendentes Jardins Garcia d’ Orta. Os seus sendeiros serpenteiam por uma grande diversidade de plantas de todo o mundo. 



No final, já perto da quase nave espacial que parece ser o Pavilhão Atlântico (actual Meo Arena), um dos símbolos da Expo 98, encontramos o Lago das Tágides com esculturas de João Cutileiro. Uma vez mais, o nome “Tágides” e as figuras aqui representadas buscaram inspiração nas ninfas de Camões. Por ali a nadar ou simplesmente a brincar na água vemos umas belas meninas nuas em mármore quase rosa, que se torna mesmo rosa quando os raios de sol lhes dão a atenção merecida, não faltando sequer a falua, o barco tradicional do Tejo.


Uns passos para trás no caminho conduzem-nos de volta ao tal corredor de restaurantes onde logo numa das primeiras portas encontramos o The Old House. As máscaras da ópera chinesa não enganam: é mesmo um restaurante chinês. Um dos melhores e mais autênticos da cidade. É conferir pela clientela chinesa que ocupa as suas mesas e, sobretudo, pelos saborosos pratos que serve.

De barriga cheia, continuamos o passeio.

Estamos já perto do Centro Comercial Vasco da Gama, “Vasco” para os amigos, ladeado pelas suas duas torres de apartamentos de 110 metros de altura que em pouco tempo se tornaram um postal da Lisboa deste século XXI. Não entramos, porém, que não é dia de compras.



Um estreito carreiro de água com as bandeiras de (quase?) todos os países do mundo abre-nos o caminho até a este shopping e até à escultura Homem – Sol, de Jorge Vieira; à esquerda e um pouco antes, uma outra escultura icónica. É a Rizoma, de Antony Gormley, nove figuras humanas entrelaçadas umas nas outras, representando os ramos de uma árvore que por sua vez representa a união entre os homens.





Pavilhão de Portugal, do Pritzker Álvaro Siza Vieira, fica aqui mesmo. As suas linhas direitas e a sua cor branca não enganam, é mesmo do Siza. Ainda não se encontrou um destino para o interior deste pavilhão que esteja ao nível da grande obra de arquitectura que é – classificado como monumento de interesse público e Prémio Valmor em 1998. Vai recebendo eventos, uns mais distintos, outros mais vulgares. Sob a sua pala – obra monumental da engenharia de Segadães Tavares – tanto podemos assistir à gravação de um reclame de carros como de um programa de tv das manhãs, música pimba como música rock, aula de aeróbica como parque de transição de uma competição de triatlo. O melhor mesmo é apanharmos o espaço vazio e, depois de circundarmos todo o edifício para melhor percebermos os seus pormenores, deixarmo-nos ficar por ali, pela sua praça coberta, a tentar entender como é possível a sustentação daquela pala imensa, tão fina e ligeiramente curvada. 


Debruçados na espécie de varanda que dá para a Doca dos Olivais observamos os teleféricos a deslizar no horizonte por cima do rio e imaginamos a colecção de espécies marítimas que estará para além dos vidros do Oceanário (ou então, paramos de imaginar e conferimo-las numa visita a este que é um dos melhores Oceanários do mundo).



Estamos no eixo central do que foi a Expo 98 e no que até hoje continua a ser um espaço vivido. Há o Oceanário, há o shopping, há o Meo Arena, mas há também ainda o Pavilhão do Conhecimento, o Casino de Lisboa e muitos restaurantes. E muitas empresas que aqui têm os seus escritórios, de que é exemplo a Vodafone e o seu edifício de arquitectura característica e criativa.




mobiliário urbano feito de bancos e floreiras com listas coloridas, obra de Carrilho da Graça, é mais uma marca da Expo 98. Impossível de esquecer e de evitar os vulcões ao longo da Alameda dos Oceanos. Estes cones revestidos a azulejos de várias tonalidades jorram água de tempo a tempo, água essa que se vai juntando num canal até formar uma onda, numa erupção deliciosa cuja observação constitui um dos passatempos preferidos das pessoas de todas as idades que visitam o Parque das Nações. 



Chegados à rotunda temos à nossa direita o Cabeço das Rolas. Subimos e todo o Parque das Nações fica aos nossos pés. É provável que sejamos os únicos e que nos surpreenda o silêncio. No ponto mais elevado do bairro temos, para além da vista, mais jardins, incluindo jardins de água, e mais espaço para se estar. Como existem bancos com cobertura, o espaço é ideal para um piquenique ou, pelo menos, uma paragem para um lanche.



Lá em baixo vemos a Torre da Galp e mais uma obra de arte: as linhas de Pedro Calapez, melhor vistas ainda da plataforma elevada daquela torre. 

Voltamos para junto do rio e estamos na Marina do Parque das Nações. Ao longo dos anos tem havido dificuldades em manter os barcos aqui, por dificuldades de assoreamento, mas agora parece estar melhor. Nesta área junto à Marina encontramos uma enorme concentração de edifícios de habitação cujos arquitectos pensaram estar a desenhar barcos. Nenhum deles, porém, chega a brilhar tanto como as torres à vela que ladeiam o Centro Comercial Vasco da Gama. O piso na Marina é óptimo para se andar de patins. As esplanadas por aqui, confesso, não me cativam, pelo que passo rápido e volto no caminho.


Não sem antes, porém, apreciar a Onda. A Onda Luso Americana remete uma vez mais para a tradição marítima portuguesa e é uma escultura em aço inoxidável que pretende representar a emigração dos portugueses para os Estados Unidos da América. Foi oferecida pela Comunidade Luso-Americana a Lisboa e nela podemos encontrar inscritos os nomes dos emigrantes que quiseram participar neste projecto.


Já estamos a retornar no nosso passeio pelo Parque e passaremos à porta do Teatro Camões, sede da Companhia Nacional de Bailado, onde podemos consultar a programação. Os espectáculos oferecidos pela companhia costumam ser fantásticos, muitos deles de ballet contemporâneo. Uma excelente opção para se entreter a noite.




Mas como a noite ainda não terá caído, tempo ainda para uma deambulação pelos últimos jardins do itinerário em proposta. São o Jardim das Ondas e os Jardins d’ Água, ambos criação de Fernanda Fragateiro. A água é uma inspiração evidente, assim como o são os demais elementos da natureza.


Caso o dia tenha passado rápido e a noite já o tenha vencido, não resta muito mais do que o jantar. Opções não faltam, mas a escolha recai sobre o Butchers, restaurante de carnes maturadas com preços bem acessíveis. Fica mesmo nas traseiras do Casino de Lisboa, onde podemos terminar a noite depois de um gelado como sobremesa na Oficina do Gelado, a sua gelataria sua vizinha.


Caso o dia de luz ainda dure, a proposta é tomar a telecabine junto ao Jardim das Ondas até à Torre Vasco da Gama. Aqui, na proa do terraço do Hotel Myriad, é o lugar ideal para assistir ao fim do dia acompanhado de um chá ou de outra bebida.


De saída do bairro do Parque das Nações, tempo ainda para apreciar a arquitectura da Estação do Oriente, projecto de Santiago Calatrava, hoje já outro postal incontornável da Lisboa deste século. A sua iluminação nocturna realça ainda mais o seu desenho.

Apesar do dia longo, muito terá ficado a faltar conhecer e viver. 



Para aguçar o apetite para uma nova visita, adianto o painel de azulejos cheio de heróis da banda desenhada que decora a abrilhanta o Hotel ART’S, obra do artista plástico islandês Erró. Aqui, talvez mais do que em qualquer outro lugar, está bem evidente o espírito jovem e descontraído do bairro e, sobretudo, disposto a abraçar a modernidade expressa sob qualquer tipo arte.



Como chegar à zona norte do Parque das Nações:
Comboio – estação de comboio de Moscavide e, depois, cerca de 5 minutos a pé até ao Rossio do Levante.
Metro – estação de metro Oriente ou estação de metro Moscavide e, depois, cerca de 20 / 30 minutos a pé desde cada uma delas (distância praticamente igual) até ao Rossio do Levante.
Autocarro – números 400 ou 708 desde a estação de metro Oriente. 

Onde comer:
The Old House (chinês)
The Butchers (carnes)
Piquenique no Cabeço das Rolas
Pomar da Rosa – mini-mercado

Museus / Arquitectura
Oceanário de Lisboa
Pavilhão do Conhecimento
Pavilhão de Portugal
Arte pública urbana

Espectáculos ao vivo:
Teatro Camões
Casino de Lisboa
Meo Arena (Pavilhão Atlântico)

Da Expo 98 ao Parque das Nações


Até à decisão de acolhimento da Exposição Universal de 1998 nos terrenos do que é hoje o Parque das Nações, esta zona era dominada por um forte carácter industrial e portuário. Aqui estava a refinaria da Petrogal e outras ligadas à indústria petrolífera, o Matadouro de Lisboa, o Aterro Sanitário de Beirolas, o Depósito de Material de Guerra, a Fábrica de Pólvora e outros mais. 

Como marca desse passado não tão longínquo assim, ainda hoje subsiste a Torre da Galp, perto do Hospital CUF Descobertas. E nos poucos terrenos livres para construção deve também subsistir a dificuldade para se escavar o solo agredido por décadas e décadas de indústria pouco amiga do ambiente.

Junto ao rio desenvolveu-se em tempos uma vibrante actividade portuária e a via férrea que pela sua linha corria (e corre) era igualmente um factor de atracção de unidades de produção. Mas a decadência, degradação e poluição eram já gritantes nos anos 90. Para quem por aqui perto sempre viveu era fácil um desconhecimento da realidade. Certo que sentia por vezes um mau cheiro no ar e ouvia que a culpa era de uma tal Beirolas. O mais perto de se chegava do rio, sem nunca o vislumbrar, era do pavilhão do ginásio do Atlético de Moscavide. 

Na década de 90 as obras foram acontecendo e mesmo os vizinhos não suspeitavam a volta que levaria toda esta área de fronteira entre a região mais oriental do concelho de Lisboa e o concelho de Loures. 

Anunciava-se uma nova cidade e foi isso que das águas do Tejo emergiu, como um milagre inspirado nas epopeias dos nossos navegadores. 

O pretexto foi a Expo 98, dedicada aos Oceanos (embora o móbil tivesse sido os Descobrimentos Portugueses – repare-se que em 1998 comemorava-se os 500 anos da viagem de Vasco da Gama à Índia). Muito cepticismo rodeou o pretexto, mas creio que nem mesmo o mais pessimista então não pode deixar de reconhecer uma real revalorização e revitalização de uma parte da cidade de Lisboa que pura e simplesmente não existia para os cidadãos. Mais, terá começado aqui a ideia de devolução do rio à cidade, que hoje se reivindica – e vai manifestando – em toda a extensão de frente de Tejo por Lisboa.


Assente num planeamento urbanístico rigoroso (embora muito do previamente planeado tenha ficado pelo caminho), a Parque Expo, entidade encarregada desta empreitada, reconverteu usos e procurando respeitar o ambiente e a paisagem criou uma nova centralidade na cidade. 

A Expo 98, numa época de euforia no nosso país, pretendia mostrar ao mundo um Portugal moderno e virado para o futuro. Não desconheço que as festanças se pagam e que esta se terá feito pagar muito bem. Mas do ponto de vista urbanístico o legado da Expo 98 é um sucesso. Trouxe a tal nova centralidade à capital do país, novas infra-estruturas e novos equipamentos, novas áreas residenciais, comércio e serviços e novas zonas verdes.

Quase vinte anos depois, do ponto de vista de residente faço um balanço simples e curto: a qualidade de vida é muito boa, sendo o Parque das Nações praticamente auto-suficiente em termos de serviços e comércio, com destaque para a qualidade ambiental e paisagística superiores que oferece; as acessibilidades, quer de transportes públicos quer de transporte privado, deixa a desejar – o metro fica apenas no centro empresarial do Parque e esquece os residentes das zonas limítrofes e as filas de carros chegam a ser insuportáveis às horas de ponta. Este último aspecto, o das acessibilidades, mostra, creio, que a realidade da “cidade imaginada” do pós-Expo 98 superou a ambição dos seus criadores. A nova cidade não morreu com a Expo 98 e aí está bem viva e aberta ao mundo.

Eis as mais emblemáticas obras que a Expo 98 nos legou, espalhadas ao longo de cerca de 5 km de frente de rio:

    Ponte Vasco da Gama

    Gare do Oriente

    Torre Vasco da Gama 

    Pavilhão de Portugal

    Pavilhão Atlântico

    Oceanário 

    Pavilhão do Conhecimento

    Teatro Camões

    Mobiliário urbano 

Gares Marítimas de Lisboa

As Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, são dois exemplos do modernismo na capital onde a arquitectura e a pintura têm uma relação umbilical. O arquitecto Pardal Monteiro e o pintor (e muito mais) Almada Negreiros são os responsáveis pela obra-prima, numa parceria que se repete em outros pontos de Lisboa, como são exemplos a Igreja de Nossa Senhora de Fátima e a sede do Diário de Notícias (bem como a colaboração de ambos na Exposição do Mundo Português).


Abertas ao Tejo, a primeira a ser inaugurada foi a Gare Marítima de Alcântara, em 1943, depois a da Rocha, em 1948, tendo ficado a faltar a do Cais do Sodré, projecto que nunca chegou a avançar. De qualquer forma, as duas Gares existentes, para além da sua relevância patrimonial, são igualmente testemunhas e difusoras de lendas e de um período da história portuguesa.


O transporte marítimo sempre existiu no Tejo e a cidade de Lisboa sempre dependeu do comércio que por ele chegava e que nele se fazia. Com a epopeia dos descobrimentos e as possessões além mar, não era só o embarque de mercadorias que dominava. No século XX, com Salazar no comando e Duarte Pacheco nas Obras, foi decidido que Lisboa e o Tejo mereciam um lugar digno para as partidas e chegadas de passageiros. É nesse sentido que nos anos 30 se entrega ao arquitecto Pardal Monteiro o projecto dos edifícios de transporte e que nos anos 40 esses edifícios são construídos. Os passageiros passaram a embarcar e desembarcar em terra e como elementos comuns aos dois projectos temos, para além do modernismo bem visível nas suas linhas rectas e nas janelas rasgadas na vertical na fachada, o facto de ambos os edifícios possuírem dois andares e umas enormes varandas debruçadas sobre Tejo. A vista é um elemento essencial nestas Gares – à qual cerca de 20 anos mais tarde foi acrescentada a Ponte sobre o Tejo.


É, porém, a decoração das salas de espera dos segundos pisos das Gares Marítimas o seu elemento mais atrativo e valioso: os painéis murais de Almada Negreiros. 

Contextualizando um pouco mais, a construção destas Gares Marítimas decorreu em plena II Guerra Mundial. A encomenda a Almada Negreiros pretendia mostrar a quem chegava a Lisboa (a metrópole) um país moderno e pujante, no fundo, pretendia o Estado Novo afirmar-se no panorama internacional e ao mesmo tempo calar a contestação interna ao regime por parte de artistas e intelectuais. Como resultado temos este conjunto de frescos vivos, plenos de cores, traços geométricos e influências do cubismo, dois trípticos e dois isolados na Gare Marítima de Alcântara (pintados em 1945) e dois trípticos na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (pintados em 1949).

A cor que testemunhamos ainda hoje nestas obras é um contraste evidente com os tempos cinzentos do Estado Novo de Salazar. E se na Gare Marítima de Alcântara Almada Negreiros parece “conformado” com a encomenda de representar um Portugal de lendas e mitos da História, a paisagem de Lisboa e a vida das gentes trabalhadoras junto rio, já na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos Almada Negreiros rompe definitivamente com o cinzentismo do regime e apresenta-nos ainda com mais cor e sem receio um Portugal feito de emigração, de despedidas, de muita saudade.

Os temas dos frescos que decoram os salões das Gares Marítimas – lendas e a história heróica dos portugueses, a paisagem e as gentes de Lisboa, a emigração – contam-nos cada um deles uma história.

Gare Marítima de Alcântara 

O interior dá-nos através da sua varanda / esplanada e das suas janelas panorâmicas, por um lado, uma vista soberba do Tejo e, por outro, uma vista não menos marcante do vale de Alcântara, com os Prazeres e as Necessidades lá em cima.



Um primeiro tríptico dos painéis de Almada Negreiros é dedicado à Lenda da Nau Catrineta, poema popular português reproduzido por variadas vezes, incluindo por Almeida Garrett no seu Cancioneiro Geral. Encimado com o dizer “Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar”, ao longo dos três painéis vamos vendo, sucessivamente, os marinheiros famintos à volta da mesa, ao mesmo tempo que o capitão procura avidamente terra para fugir à sorte de ser comido pelos seus subordinados, enquanto a morte e o diabo espreitam; no segundo painel as três donzelas, filhas do capitão e por ele avistadas desde o mar; por último, a chegada a terra e a reunião familiar, enquanto a morte e o diabo aguardam por receber a sua parte do pacto feito com o capitão.


Isolado surge-nos o painel dedicado a outra lenda, desta vez a de “D. Fuas Roupinho, 1.° Almirante da Esquadra do Tejo”, com a representação do milagre da praia da Nazaré. Quem conhece a Nazaré e já esteve no Sítio ou leu os Lusíadas de Camões reconhece a lenda e o personagem. Este painel reproduz todos os pormenores, como Dom Fuas (nobre cavaleiro companheiro de Dom Afonso Henriques) no seu cavalo perseguindo o veado, a montanha donde se prepara para cair ao mar, a virgem da Nazaré atenta e, depois, detalhes como a caravela e os pescadores a chegarem da faina enquanto as suas mulheres trabalham as redes em terra e, pormenor maior, um outro pescador descansa na sombra do seu barco. 


Na outra lateral do Salão encontramos um segundo tríptico nomeado “Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa”, dedicado à representação de cenas da Lisboa ribeirinha. No primeiro destes painéis vemos as mulheres fortes que carregam o carvão à cabeça através de um passadiço que liga os barcos a terra; no segundo painel o Tejo está presente pelos barcos, mas Almada fez questão de deixar o nome do rio escrito num desses barcos – observe-se ainda o pormenor da matrícula de um dos barcos inscrita na sua vela; o terceiro painel mostra-nos a Sé de Lisboa e o casario ao seu redor, enquanto que em primeiro plano estão uma vez mais as gentes trabalhadoras de Lisboa, neste caso as mulheres que tratam do peixe.


Isoladamente temos ainda o painel “Ó terra onde eu nasci”, dedicado ao Portugal rural. Aqui Almada pretende representar um domingo típico português, talvez nos arredores de Lisboa, onde a tranquilidade grita. Vemos um grupo de jovens debaixo de uma árvore, uma pequena igreja e uma casa de aldeia decorada com motivos de festa, a senhora a vender o capilé na sua banquinha, enquanto um casal enamorado conversa – ele marinheiro vestido de azul mar, ela varina vestida de vermelho terra.

Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos


A Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, por sua vez, para além de mais uma longa varanda / esplanada para o Tejo, possui dois conjuntos de trípticos. A diferença entre estes painéis e os de Alcântara é visível. Mais cor, o cubismo como estilo evidente (a recordar Picasso) e apesar de o rio Tejo e Lisboa continuarem presentes agora são-no enquanto local de partida, retratando Almada de forma corajosa e dura a temática da emigração. 


O primeiro tríptico é dedicado à Lisboa ribeirinha. No primeiro painel, talvez a representação de mais um domingo, em que a gente do povo trabalhador se veste com as suas melhores roupas e usa desta vez o barco para um passeio e em que, divertida, tenta não deixar cair o chapéu ao rio. Ainda neste painel vemos mais um barco em segundo plano e, sobretudo, uma varanda e uma janela com uma mesa – pormenor tipicamente cubista. A sensação que se tem quando se observa demoradamente este painel é a de que daqui se poderiam extrair vários quadros isoladamente, tal é a profusão de temas e pormenores. 


Num segundo painel temos a representação de um barco decorado com olhos, cores sempre vivas, tão intenso que mais parece que é a pintura que nos espreita. As varinas robustas contrastam com os miúdos que descansam no barco. O terceiro painel é dedicado ao ócio, ao circo e seus saltimbancos (tema recorrente nas representações por parte dos cubistas), com um pormenor maior do rapaz que descansa o seu rosto ao ombro de uma mulher negra.



No tríptico do lado contrário do Salão a temática torna-se mais dura – podemos ter também representado um domingo, mas este não é mais um domingo de descanso, de ócio, de evasão, é antes um momento de despedida daqueles que partem para a emigração. O navio prepara-se para partir e entre os passageiros leva muitos que abandonam a sua família para buscar uma vida melhor noutro canto do mundo. Cá fora, em terra, os que ficam para se despedir estão bem vestidos e bem calçados e não esqueceram os chapéus para proteger do sol; dentro do navio, debruçados na amurada, os que partem preparam-se para dizer adeus. Espaço ainda para vermos um operário carregar cimento para dentro do barco, porque não só de passageiros se ocupavam os navios.


Em conclusão, este é mais um dos segredos bem guardados de Lisboa (cuja visita é possível mediante marcação junto do Porto de Lisboa) que merece ser visto por todos aqueles que apreciam história, arquitetura e arte e Lisboa. Da “obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século”, nas palavras de José Augusto França, disse o multifacetado artista Almada Negreiros, autor destes painéis, que “creio não haver antes cumprido melhor, nem feito obra que fosse mais minha”.