Por Castro Laboreiro

Castro Laboreiro, situado bem a norte, no concelho de Melgaço, é longe, longe de tudo.

Até há menos de um século, nem uma estrada a ligava à civilização. Apenas caminhos de cabras. Isolamento, é do que se trata. Hoje tudo é diferente, mas para alguém da cidade esta continua a ser uma região perdida no meio da montanha. E a montanha aqui não é qualquer uma, é a Serra da Peneda. Os montes e pedregulhos típicos da Peneda só fazem com que o ambiente de desolação, rigor e mistério se adense. Aqui não vamos encontrar formas e recantos verdejantes como nos lugares mais frequentados do Gerês. Aqui só existem penedos rugosos e pedregosos. O caos de pedra da Peneda.

Ainda assim, tudo na região me atraí.

Cheguei noite caída a Castro Laboreiro, 5 estranhos graus. No dia seguinte, para aproveitar o dia, ainda antes do pequeno almoço tardiamente servido pelas 8:30, saí manhã cedo rumo ao Castelo.

Uns cães uivavam – eram cães mas soavam como lobos -, num contraste perfeito com o som encantatório de embalo que saia das colunas municipais como música de fundo na vila. É um retrato exacto do sentimento perante a região: receio e fascínio em doses iguais.

Iniciei, assim, a subida até ao Castelo hesitante, a medo até, pensando na imagem intimidante do cão raça Castro Laboreiro – porque os lobos há muito desapareceram. Se me aparece um pela frente aqui neste meio do nada não chego ao Castelo, pensei. É o fim, pura e simplesmente, conclui. Continuo caminho, olho adiante, para o lado direito, para o lado esquerdo, para trás. A paisagem fantástica tudo faz esquecer e o facto de estar sozinha nela só faz crescer a adrenalina. O tal caos de pedra faz com que queiramos conhecer a forma da pedra seguinte, do que está para além dela, os contornos dos vales e dos montes que nos enchem a alma. A Peneda é linda.

O Castelo está implantado num castro, o Castram Laborarum dos romanos, com o significado de “acampamento de trabalhadores”, numa colina escarpada a 1033 metros de altitude. Foram, no entanto, os mouros os que ergueram o primeiro castelo no lugar, o qual viria a ser conquistado por D. Afonso Henriques e reconstruído pelo seu sucessor, D. Sancho I. Se ainda hoje o acesso até lá cima é difícil, não consigo imaginar como fariam os nossos antepassados para lá chegar. Fácil de imaginar é, sim, a inexpugnabilidade do castelo face aos inimigos invasores.

No topo do Castro, depois de ultrapassada uma das suas duas portas de madeira, encontramos as ruínas dos dois antigos recintos, o castelo e a cerca da antiga povoação. Esta povoação intramuros terá sido abandonada logo na Idade Média, tendo os seus habitantes mudado para a vila cá em baixo, a actual Castro Laboreiro. Com o avançar dos séculos o Castelo foi perdendo a sua importância e provavelmente já na época das Guerras da Restauração apresentaria estruturas apenas rudimentares e não terá desempenhado um papel decisivo. Para piorar, no século XIX foram utilizadas pedras do Castelo para a construção de edifícios na mais recente vila.

O que temos hoje é, pois, a ruína de um castelo. Mas uma ruína perceptível e, sobretudo, uma ruína num espaço fabuloso. Para lá das pequenas muralhas altaneiras o cenário de montanha é de cortar a respiração. Avistamos até uma cascata a despenhar-se pelas fragas rochosas antes de cair no rio Laboreiro.

O percurso até ao topo do Castro e Castelo é circular. Na descida, mais uma vista especial, a da vila cá em baixo no planalto encaixada nos montes. Castro Laboreiro é pequena, e o seu centro histórico resume-se a uma reduzida praça com pelourinho e igreja matriz e umas casas típicas de granito por companhia.

Mas Castro Laboreiro fascina ainda pela sua cultura castreja. São três os tipos de ocupação na região: os povoados de ocupação permanente situados nas zonas mais abrigadas do vale abaixo do planalto, as brandas e as inverneiras. Estes dois últimos não são de ocupação permanente. Tudo depende do clima que a natureza oferece numa determinada época do ano. As brandas são a opção para as épocas do ano mais quentes, situando-se a maior altitude e em zonas mais frescas e de pastagens mais verdes e mais propícias às sementeiras, enquanto que as inverneiras ficam para o Inverno, protegidas que estão do vento a mais baixa altitude e nas encostas mais abrigadas da Peneda. O que acontece de especial em Castro Laboreiro é que esta situação, que seria típica das zonas de alta montanha, acaba por não se verificar bem assim. Na verdade, nos dias de hoje muitos dos habitantes da região acabam por fazer das brandas a sua primeira habitação, muito graças ao cada vez menor rigor dos Invernos.

O Trilho Castrejo, com cerca de 17 kms, transporta-nos por muitas destas penedias recônditas, pelos antigos caminhos que ligam as brandas às inverneiras. Segui, ao invés, de carro e, embora sem a mesma proximidade e sem chegar às brandas de outrora, pude perceber um pouco mais da ocupação da região nas duas margens do rio Laboreiro.

Para sul do castelo segue uma estrada estreita que corta o vale e apresenta paisagens mais convidativas, com algum verde e arvoredo. As paredes rugosas das montanhas estão, no entanto, logo ali perto. Pela estrada fora vão surgindo alguns desvios para povoações. Para se atestar do quão apartadas e perdidas estão, as caixas do correio dos seus habitantes ficam à entrada, precisamente no lugar do desvio da estrada que já é ela própria uma estrada secundaríssima.

Esta estrada é ainda encantadora pelas pontes que aparecem à sua beira.

A primeira, a Ponte da Assureira fica à entrada da povoação inverneira de mesmo nome. Construída na época medieval, veio substituir uma outra da época romana, e é uma pequena ponte de pedra sobre um ribeiro afluente do rio Laboreiro. Tem um único arco e o seu tabuleiro é em cavalete suave. A vegetação é aqui intensa e junto à ponte encontramos um moinho. Um pouco mais afastada fica a Capela de São Brás, nome pelo qual é também conhecida esta ponte.

A Ponte Nova ou da Cava Velha fica uns 200 metros mais à frente na estrada. Porém, para darmos com ela temos de desviar e seguir por um pequeno trilho. Provavelmente construída no século I, na época romana, terá sido reformada na época medieval. O nome “Ponte Nova” faz presumir que não seria a única nas redondezas, talvez acompanhada da Ponte da Assureira ou de uma outra. Com dois arcos de volta perfeita mas não de mesmo tamanho, julga-se que esta ponte poderá ter tido em tempos mais um arco. O tabuleiro em cavalete e inclinado é feito de laje.

Sobre o rio Laboreiro, esta é a mais imponente e surpreendente das pontes da Peneda. A pedra domina toda a sua envolvente, marcando presença na ponte, nas paredes da serra e até no caminho da água. O lugar é lindo e selvagem, como todos na Peneda, e aqui não se vê vivalma, só natureza bruta.

A última ponte desta jornada volta a estar escancarada na estrada, sendo fácil, por isso, dar com ela. É a mais recente Ponte de Dorna, construída no século XIX. Também em arco e tabuleiro em cavalete, a sua forma e materiais não diferem das anteriores. O lugar é aqui o mais bucólico possível, com direito a arvoredo com folhagem de vários tons e belos reflexos na água do ribeiro.

Todas estas pontes estavam integradas na rede de comunicações vicinais de Castro Laboreiro, ligando até a via romana que seguia para Espanha.

Na volta o percurso segue pela outra margem do rio Laboreiro, com muitas mais inverneiras no caminho e os maciços da serra a conferirem ao cenário um típico ambiente de montanha. A branda do Curral do Gonçalo fica para lá do sol posto, não sei se se avista daqui nem sei como lá chegar. Sei é que é o lugar de mais altitude da freguesia, a 1166 metros, o que faz dele o segundo lugar habitado em Portugal com mais elevada altitude. Tudo em grande por Castro Laboreiro, está visto.

Melgaço

Melgaço é o concelho mais a norte do nosso país, situado na raia com Espanha, onde o rio Minho faz de fronteira natural entre os dois países.

Já tinha estado em Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença e Monção, mas faltava-me Melgaço.

Esta é uma vila medieval com um castelo ao redor do qual se desenvolveu um pequeno núcleo urbano histórico. A vila entretanto cresceu e estendeu-se e hoje até acolhe a Escola Superior de Desporto e Lazer do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Famosa pelas suas termas e pelo Alvarinho, na região é de visitar ainda Castro Laboreiro (o que fiz) e a Branda da Aveleira (o que ficará para uma próxima).

A minha visita à vila ficou bastante comprometida por ter sido feita a uma segunda-feira. Explique-se: o Castelo encerra às 2ªs feiras, o Museu de Cinema Jean Loup Passek encerra às 2ªs feiras e o Espaço de Memória e Fronteira encerra às 2ªs feiras. Mas como as ruas da vila nunca encerram, lá entrei pela Porta da Vila onde à entrada nos recebe Inês Negra e caminhei pela Rua Direita e pelo seu casario.

Implantada numa colina, Melgaço é feita de ruas estreitas que se vão cruzando, tipicamente medievais. Logo passamos pelo Solar do Alvarinho. Este edifício era a antiga Casa da Câmara, Tribunal e Cadeia. Distinto, na sua fachada destacam-se os arcos e o alpendre. O seu interior é reservado para as provas do vinho Alvarinho.

Pouco mais adiante surge a Igreja Matriz ou de Santa Maria da Porta, construção do século XIII. Já fora da cerca de muralhas (de que pouco resta nos nossos dias), a Praça da República tem a sua graça. Uma fonte hiper-decorada rouba a atenção, enquanto que as portas ogivais de um dos seus edifícios desviam da serenidade da Praça.

Mas é o Castelo, com a sua Torre de Menagem que se destaca na paisagem desde ao longe à aproximação de Melgaço, o ex-libris da vila. Curiosamente, quando caminhamos pelo centro histórico, do qual a Torre é parte integrante, esta não se percebe assim tanto, não porque os edifícios que a rodeiam sejam também eles altos, pelo contrário, mas porque tudo é tão compacto que não chegamos a perceber a sua forma na plenitude. Ainda para mais, como já referi, o Castelo estava encerrado.

O Castelo de Melgaço é uma construção do século XII, data também da primeira carta de foral concedida por D. Afonso Henriques. De forma oval, esta fortificação era parte da linha estratégica de defesa do rio Minho. O seu papel era, no entanto, curioso: enquanto na posse dos portugueses, desempenhava um papel de castelo de detenção contra Leão durante a Reconquista, enquanto que para os castelhanos servia de lugar de penetração em conjunto com as outras conquistas na mesma linha.

Fora do núcleo urbano, mas a ele contíguo, destaque para os vários pontos de vista que se abrem aos vales recortados e verdejantes do Minho. E destaque, igualmente, para a Igreja e Convento das Carvalhiças. A igreja deste convento franciscano estava fechada (seria por ser 2ª feira?), mas vale a pena admirar o equilíbrio da sua fachada branca em estilo maneirista e barroco.

Mais afastado do centro, o Parque Termal do Peso e a zona do Centro de Estágios com diversas infra-estruturas desportivas, uma Pousada da Juventude e o Hotel e Spa Monte Prado, representam zonas verdes de luxo. Ambas estão ligadas por um percurso pedestre de pouco mais de 3 kms que segue em grande parte marginal do rio Minho.

Depois de ter visitado as 5 principais povoações do Minho fronteiriças à Galiza, tenho assente que o que mais me encanta por aqui é, precisamente, o rio Minho. A possibilidade de vê-lo, acompanhá-lo, tocá-lo ou, tão só, senti-lo. E se em Melgaço esta presença é menos próxima do que nas outras povoações e, assim, menos evidente, nem por isso deixa de lá estar. Sentimo-lo, sempre.

Soajo e Lindoso, espigueiros e muito mais

Os espigueiros fazem parte da paisagem do norte do nosso país. Andamos por montes e vales e nem precisamos de entrar numa povoação para encontrarmos um exemplar à beira da estrada. Eles vão-se sucedendo, uns maiores do que outros, mas quase sempre elegantes.

Chamemos-lhes espigueiros ou canastros, estes elementos de arquitectura popular são na sua maioria de forma rectangular (mas também os há quadrados ou redondos), elevados no solo, de madeira ou de pedra, com cobertura de telha ou de palha e de ornamentação variada. Só a sua função parece não variar: pequenos celeiros para guardar o milho e protegê-lo das intempéries e dos roedores.

Em lugar nenhum do nosso país podemos vê-los em tão grande número e tão concentrados como no Soajo e no Lindoso, em pleno Parque Natural Peneda-Gerês.

Comecemos por uma paragem no Soajo.

Já foi vila, passou a aldeia e desde 2009 voltou a ter a distinção de vila. Instalada na Serra do Soajo, cujo cume mede 1416 metros de altitude, esta povoação feita ainda de muitos edifícios de granito, ruas estreitas e inclinadas, abre-se altaneira para o recorte dos montes que a rodeiam, onde não faltam os terrenos dispostos em socalcos. À entrada um monumento erguido ao Cão Sabujo da Serra do Soajo faz-nos saber que “daqui partiram, todos os anos, para os reis de Portugal cinco grandes e valentes cães do Soajo. Por tal, nos séculos da monarquia, os soajeiros beneficiaram da isenção de impostos e de outros admiráveis privilégios”. Igualmente, abaixo de um brasão numa das casas da vila, com elementos como o dito cão e outros animais e uma árvore, está inscrito “Serra do Soajo, Parque Natural d’ el Rei”. A vila ganhou foral em 1514 e o orgulho dos seus habitantes pelo seu papel na história do país é manifesto.

Ainda que não restem já edifícios dessa remota era, alguns dos seus edifícios mais típicos seguem de pé e são bons testemunhos de arquitectura tradicional.

A praça principal é disso exemplo. Aqui ficam a oitocentista Casa da Câmara, os antigos paços municipais, a quinhentista Casa do Largo de Eiró (o nome da dita praça principal), o seiscentista Pelourinho e a Igreja Paroquial com o seu estreito campanário a que se acede por uma escadaria.

Quase sempre em granito, as casas são normalmente de um ou dois pisos, e o superior pode conter um alpendre em madeira ou balcão em pedra a que se acede por uma escadaria. A Casa do Largo é distinta pela sua arcaria e gárgulas de canhão.

O Pelourinho é muito curioso. Não é certa nem a sua origem nem o seu significado, mas o rosto sorridente e solar lá está, a encimar a coluna.

Vale a pena passar para lá da Igreja e caminhar pelas ruelas irregulares da vila antes de seguir para a Eira Comunitária do Soajo, o lugar que lhe dá a fama e que chama a maior parte dos seus visitantes.

Sobre um afloramento de granito ergue-se um conjunto de 24 espigueiros, todos eles em pedra. Alguns destes espigueiros são ainda hoje utilizados pela população e o mais antigo deles data de 1782.

Estas estruturas seculares de arquitectura agrícola, dispostas desordenadamente no cimo deste penedo cheio de desníveis e com uma vista fabulosa para os montes e vales que formam a Serra do Soajo, representam ainda assim um conjunto harmonioso. Possuem uma forma rectangular, são estreitos e inteiramente de granito, incluindo a sua cobertura, e apenas a sua porta é de madeira. São elevados para permitir uma melhor secagem dos cereais e assentes numa espécie de pés também eles feitos de lajes de granito. As suas paredes têm umas fendas verticais. Estas frestas pequenas servem para arejar o cereal no interior do espigueiro, ao mesmo tempo que o poupam dos estragos quer do clima quer dos animais. As suas portas estavam fechadas e não dava para perceber o que estes espigueiros guardavam por esta altura do ano, mas o vento que soprava forte e entrava por ali adentro fazia o seu interior ganhar vida, remexido pelo ar e pelas portas a ranger. Este ambiente levemente agreste condiz com a rudeza destas construções vernáculas.

A sua ornamentação basta-se com as cruzes dispostas na frente ou na traseira, ou em ambas, do telhado do espigueiro. A cruz é o símbolo de proteção contra a maldição e, ao mesmo tempo, abençoa o milho. Ou seja, ao contrário do que um olhar menos atento poderia julgar, não se tratam de estruturas funerárias, pelo contrário, representam a vida, o sustento das famílias.

Antes de deixarmos a vila do Soajo não o podemos fazer sem uma visita – ou, se o clima o permitir, um mergulho – ao Poço das Mantas e, especialmente, ao Poço Negro, um recanto travestido de piscina natural no caminho do rio Adrão, o qual há-de desaguar no rio Lima um pouco mais adiante.

Do Soajo para Lindoso são cerca de 15 kms. Há um caminho mais directo, mas optámos por seguir pelo lugar de Ermelo, pequeno ponto no mapa mas ainda assim terra de um Monumento Nacional na figura do seu Mosteiro do tempo do Românico, à beira do rio Lima. E é também à beira deste rio que a dado passo na estrada vemos despenhar-se com surpresa uma queda de água do alto de um monte.

Porque as surpresas nesta região não param de acontecer, vale a pena estarmos atentos ao caminho para que antes da entrada em Parada do Lindoso possamos desviar à direita para o Poço da Gola. Estacionamos o carro e vemos cá de cima o rio a vencer os desníveis e a romper as pedras pelo meio da vegetação. Continuamos mais um pouco a pé, procurando acompanhar o seu curso, e aí a surpresa é total. A uma antiga casinha de pedra em ruínas segue-se uma ponte de madeira e, cereja no topo do bolo, mais uma piscina natural de água claríssima, num conjunto verde perfeito.

O Lindoso, por fim.

Diz a lenda que D. Dinis, ao ver o castelo, “tão alegre e primoroso o achou, que logo lindoso o chamou”. O Castelo do Lindoso foi, no entanto, construído pelo seu antecessor, D. Afonso III, no século XIII. A sua implantação é primorosa, no alto de um pequeno penedo rochoso sobranceiro ao rio Lima, a 468 metros de altitude, em plena Serra Amarela. Espanha está a apenas 4 kms, daí que o objectivo primeiro da sua construção tenha sido o de defesa e vigia da fronteira. Mais tarde, o Castelo do Lindoso viria a desempenhar também um papel importante nas Guerras da Restauração, mais uma vez como linha de defesa contra o vizinho espanhol. O seu uso foi sempre estritamente militar, nunca tendo servido de residência.

No século XVII, curiosamente, foi construído um forte a envolver o castelo, que ocupa a praça interior. Hoje restam a torre de menagem, baluartes e canhoneiras. Mas o ambiente é já totalmente tranquilo no que a guerras, invasões e disputas diz respeito. A rudeza queda-se pelo isolamento da região e pelo cinzento do granito que nos cerca. O granito do terreno, o granito do castelo e o granito dos espigueiros.

Mesmo junto ao castelo fica a eira comunitária com cerca de 64 espigueiros (no total da freguesia serão mais de 120, o que faz dela a possuidora do maior aglomerado de espigueiros da Península Ibérica). É também esta a beleza deste Castelo do Lindoso, o facto da sua localização ser estratégica e paisagísticamente imaculada e ter como vizinhos imediatos um dos maiores expoentes da arquitectura rural do Minho: os espigueiros.

À semelhança do que acontece no Soajo, e em muitas das povoações do distante e montanhoso norte de Portugal, o espírito comunitário tem aqui uma forte presença. E também à semelhança dos espigueiros do Soajo, os do Lindoso são estreitos e rectangulares, em pedra, com acabamentos nas cantarias muito perfeitos e, mais uma vez, ornamentados apenas com um cruz no seu telhado. Alguns deles têm inscrita a data da sua criação e o mais antigo data, tal como o do Soajo, do século XVIII.

Vale a pena circular pelo espaço da eira, com os espigueiros distribuídos ao acaso, mas quase sempre com o topo traseiro virado a sudoeste, pensando na orientação do sentido da chuva, rodeando-os e apreciando-os de perto. Eles são aqui largos e de pouca altura, quase sempre de mesmas dimensões, e estas características comuns indiciam um equilíbrio na distribuição da propriedade agrícola na região.

A atestar a importância dos espigueiros enquanto símbolo etnográfico, a Imprensa Nacional Casa da Moeda lançou em 2018 uma moeda comemorativa (Espigueiros do Noroeste) com a imagem dos espigueiros do Soajo e do Lindoso, enaltecendo o património e a cultura identitária dos seus povos.

Sistelo, o outro Tibete e os outros passadiços

A primeira vez que ouvi falar dos passadiços do Sistelo foi enquanto caminhava pelos passadiços do Paiva. Alguém, então, dizia que os outros, os do Sistelo, eram ainda mais incríveis. Curiosa, mas sem querer entrar em comparações, fui investigar.

Sistelo é uma aldeia do concelho de Arcos de Valdevez e para se chegar lá há que subir a bom subir, curvar pelas estradas, descer a bom descer. O vento não assobiava, antes gritava, assustador, e só me vinha à mente que estas é que deviam ser as Terras do Demo. Mas é isso, o demo, tal como o seu rival, está em toda a parte.

Antes de entrar na aldeia do Sistelo tentei ir até lá acima, à Bandra do Alhal, mas o meu carrito derrapou na subida íngreme e pensei que antes de investir num bólide decente me devia ficar apenas pelo miradouro dos Socalcos.

Brandas e socalcos, eis dois elementos que marcam a paisagem e a vida das gentes desta região e que moldaram o seu carácter, essencial para vencer as agruras e dificuldades do lugar em que nasceram e cresceram.

As bandras são os terrenos que serviam de apoio à pastorícia no Verão e onde foram construídas habitações rústicas para se passar essa época do ano. Assim como que uma segunda habitação, não de veraneio, mas de trabalho árduo. Abrigos sazonais para pastores e seu gado.

E os socalcos são a forma como o Homem vem aqui moldando a natureza em seu benefício desde há séculos com o objectivo de aumentar a área de cultivo, criando diversos terraços e patamares no terreno ao mesmo tempo que se vence os seus declives. As águas alimentam os campos de cultivo através de um sistema de regadio que as conduz pelas levadas. Milho, feijão e pecuária fazem parte da economia do lugar.

É a construção destes socalcos que dá forma e fama ao epíteto de “pequeno Tibete português” desta região.

Coube, aliás, à Paisagem Cultural da Aldeia do Sistelo o privilégio de ser a primeira a merecer a distinção entre nós enquanto tal e de ser classificada como monumento nacional, por ser “composta por um espaço natural de superior qualidade paisagística, natural e ambiental, ao qual se soma um notável património etnográfico e histórico cuja preservação e autenticidade é fundamental garantir”.

A aldeia do Sistelo é pequenina mas bem pitoresca. Não apenas pelo belo enquadramento do seu parco casario no vale íngreme rodeado de socalcos onde ao fundo corre o rio Vez. Mas também pelos vários elementos de arquitectura popular que a compõem. O distinto castelo – na verdade um palacete do século XIX que pertenceu ao Visconde do Sistelo -, a igreja, o chafariz e diversas casas em granito, quase todas elas restauradas e bem recuperadas. Não falta um ajuntamento de espigueiros, presença constante nesta região nos limites do Parque Peneda Gerês.

Mas porque o objectivo da visita ao Sistelo era caminhar, ponhamo-nos, então, ao caminho.

Na praça principal da aldeia, junto ao cruzeiro, estão colocadas uma série de placas com a indicação de múltiplos trilhos. Uma confusão. Se não soubéssemos ao que íamos ainda agora lá estaríamos a decidir que direcção tomar.

Era pela Ecovia do Vez que queríamos seguir. Mas porque na sua totalidade o trilho ao longo do rio Vez tem mais de 30 kms, a melhor ideia é percorrer “apenas” os cerca de 11 kms que ligam a aldeia do Sistelo à ponte romana de Vilela (e daqui esperar por boleia ou ligar para um dos números de táxi que vamos vendo inscritos no caminho para nos levar de volta ao nosso ponto inicial). Caso estes 11 kms sejam demais, há sempre a óptima possibilidade de se condensar esta caminhada épica nos 2 kms circulares que descem a aldeia até ao rio, atravessam-no, percorrem parte dos passadiços e voltam a subir à aldeia.

A primeira parte da Ecovia do Vez saindo do Sistelo é feita numa descida sobre um desagradável amontoado de pedras, mas na verdade este é um contacto autêntico com a paisagem cultural materializada numa calçada medieval. Assim como medieval é a ponte sobre o Vez que atravessamos logo em seguida. À nossa volta campos cultivados, vinhas, socalcos, vacas e uma densa vegetação. A paisagem ao nosso redor é grandiosa.

Logo surge a zona fluvial e de lazer do Sistelo, o primeiro dos lugares onde podemos banhar-nos e merendar. Na outra margem avista-se a Capela do Senhor dos Aflitos. E logo chegam os passadiços, elevando-nos sobre o Vez e tornando o nosso passeio mais encantador.

Caminhado sobre a madeira clara, umas vezes por passadeira outras por degraus, ficamos completamente envolvidos pela natureza, rio ao nosso lado esquerdo e abaixo, vegetação por todo o lado. De surpresa, surge a primeira cascata no nosso caminho. As quedas de água vão-se sucedendo ao longo percurso, muitas vezes anunciadas pelo barulho do jorrar das suas águas.

Mesmo o Vez, umas vezes corre sereno, águas em espelho perturbadas apenas por umas pedras formosas, outras em redemoinho procurando ultrapassar os empecilhos que se lhe atravessam.

O trilho é feito de vários pisos: a pedra, a madeira, a terra e por vezes até água que inunda o caminho. E quase 1 km em asfalto, num desvio para a estrada um pouco mais afastada do Vez, enquanto não se completam os passadiços ainda em construção.

Mas, depois disso, a volta até à margem próxima do Vez faz-se em grande estilo descendo até à Praia Fluvial do Poço das Caldeiras. O lugar ideal para um descanso relaxado à beira Vez.

A partir daqui são mais as povoações perto do trilho, daí que a rotina agrícola e pecuária esteja mais próxima. As ovelhas sucedem-se, as medeiras idem. A palha disposta em forma de cone é característica da região, de forma a protegê-la dos elementos.

E na parte final do percurso, quase a chegar à ponte de Vilela, os exemplares de azenhas e moinhos instalados na margem do rio tornam-se mais frequentes. A maior parte em ruína, vêem-se ainda as mós que testemunham esta tradição de moagem de cereal que tirava partido da força da água do rio para funcionar. A zona da Azenha e Poldra da Chã mostra-nos e ensina-nos ainda o que é uma poldra – as pedras dispostas no rio como forma de o atravessar pedonalmente.

Este percurso pela Ecovia é na sua maioria plano, com uma descida aqui e uma subida ali feita sobretudo pelos passadiços. Daí que seja relativamente fácil. A ponte medieval de Vilela, fim do caminho, é o remate certeiro para esta jornada. Elegante na forma, antiga na história, este é mais um elemento nesta justaposição de paisagem cultural e natural, feita de tradições e evasões.

Pelo Rio Coura

O rio Coura nasce na Serra do Corno de Bico, a quase 900 metros de altitude, e segue por cerca de 50 kms até desaguar no rio Minho, em Caminha. A Estrada Nacional 301 acompanha-o em grande parte nesse percurso e foi por ela que seguimos.

Antes de sair de Caminha, subimos ao miradouro de Santo Antão para poder observar a foz do Coura como só os pássaros o fazem. O nevoeiro cerrado, porém, não o permitiu.

A primeira paragem deu-se em Vilar de Mouros. Esta povoação é pouco mais do que um ponto no mapa com muitas igrejas e capelas, uma ponte românica de granito em estilo gótico e uma praia fluvial idílica.

Só que este ponto saiu definitivamente do mapa em 1971 com a realização do 1° Festival de Vilar de Mouros. Custa a crer que um sítio tão pacato possa ser invadido numa determinada época do ano por milhares de festivaleiros. Mas o extenso manto verde à beira Coura e com a silhueta dos montes a emoldurá-lo que se transforma no recinto do festival no Verão parece ter lugar para toda a gente. No resto do ano, a aldeia não é invadida por mais do que pescadores recreativos de truta ou raros curiosos, como eu.

Meio quilómetro para além da ponte de Vilar de Mouros encontramos a praia fluvial das Azenhas, um pouso lindo com uma pequena língua de areia de frente para uma azenha e com um açude que quebra a monotonia.

O topónimo “Vilar de Mouros” dever-se-á ao facto de por volta do século VIII aqui se ter instalado um núcleo de mouros, sendo que a palavra “vilar” é a palavra árabe para aldeia. Mas antes disso ter-se-ão aqui instalado também os romanos, os celtas e os suevos, todos eles encontrando refúgio nesta terra recolhida.

De Vilar de Mouros até Covas a estrada acompanha sempre o Coura de perto. Nem sempre o vemos mas vamos sentindo a sua presença e o seu odor. Algumas abertas por entre o arvoredo denso deixam ver pedaços do rio com tons de azul cobalto.

Antes da chegada à aldeia de Covas aparece-nos uma barragem de águas calmas, com o Coura a tornar-se mais largo. A estrada que corta para a direita sobe até às antigas minas de volfrâmio e tungsténio de Vilares, hoje desactivadas, e é uma das portas de entrada da Serra de Arga. Cortando para a esquerda atravessamos a moderna ponte sobre o Coura e com pouca demora entramos em Covas. Subindo pela serra abre-se o miradouro do Canal do Coura e ganhamos uma outra visão da paisagem.

Junto a Covas existem uns lugares para se tomar banho no Coura. A Zona de Lazer de Covas representa dois mundos opostos. A água vem tranquila para, ao cair sobre o açude e as pedras, logo se tornar rebelde. O barulho é ensurdecedor. A Azenha de Pagade, logo adiante, é mais um recanto do Coura e mais um testemunho dos moinhos de água implantados à beira deste rio.

Até Paredes de Coura não seguimos sempre junto ao rio. Uma placa aponta o desvio para Romarigães, a Casa Grande de Aquilino, mas seguimos o objectivo de acompanhar o Coura até quase à sua nascente.

Paredes de Coura é a outra povoação do Coura mundialmente famosa por receber mais um festival de verão. A Praia Fluvial do Taboão possui, à semelhança da de Vilar de Mouros, um extenso relvado. Mas nesta é mais fácil aceder ao rio em muitas das suas zonas e está mais preparada para receber os candidatos a mergulhadores ou nadadores.

O rio é aqui um pouco mais largo, as suas águas calmas e a vegetação intensa. Mesmo Paredes de Coura, sede de concelho, é já uma povoação mais crescida, mas o montão de igrejas continua. Destas, vale a pena conhecer (por fora, porque por dentro já se sabe que as igrejas do nosso país estão sempre fechadas) a Capela Ecce Homo e a sua formosa fachada rococó.

Até porque o rio passa aqui perto e a Praia Fluvial de Casaldate é um dos últimos pontos para se experimentar da água do Coura antes de chegarmos à sua nascente. Neste vale vacas pastam, insensíveis ao rio e ao cenário de montanha que as rodeiam. Aliás, vacas são com quem mais nos cruzamos nas estradas neste final de viagem pelo Coura. Os espigueiros são um dos poucos testemunhos da vida humana por aqui. Bem como as medeiras, forma típica da região de empilhar a palha.

A Paisagem Protegida Regional de Corno de Bico, com aldeias como Cristelo, Bico, Vascões e Lamas, é todo um mundo à parte daquele em que nos habituámos a viver. Um mundo natural e rural profundo e distante. Reduto de uma fauna e flora bem conservadas, nesta zona montanhosa, com o Corno de Bico a 833 metros de altitude, abundam os grandes blocos de granito. Chega a ser um lugar inóspito, até porque não nos cruzamos com ninguém. Só nós e a natureza. E, algures, o Coura a tornar-se rio e a preparar o seu caminho.

Caminha

Caminha é a última povoação na linha de defesa do rio Minho. Ou a primeira, para quem entra desde o Atlântico.

É aqui que o Minho desagua no Oceano Atlântico e é aqui que o Coura desagua no Minho. Um estuário largo onde a água impera, mas também o Monte de Santa Tecla já em terras de Espanha, mas apenas à distância de um breve olhar.

Lugar apetecível, este.

Da antiga fortaleza de Caminha, que juntamente com a de Vila Nova de Cerveira, de Valença e de Monção, bem como outros pontos fortificados por esta linha fluvial do Minho, faziam de guardiões da fronteira noroeste de Portugal restam panos de muralha e alguns baluartes e guaritas.

As muralhas datam de diversos momentos ao longo da nossa história: as mais antigas do século XIII, uma segunda linha de muralhas do século XIV e os baluartes e torreões do século XVII. As muralhas que restam estão sobretudo na cabeça de terra de Caminha que vê o Coura a encontrar-se com o Minho. Para lá das muralhas, um espaço de lazer com passeios largos e áreas verdes com vistas privilegiadas abre-se generoso.

A par de Monção, Caminha é a maior das povoações à beira Minho. E, infelizmente, à semelhança de Monção são muitos os edifícios no centro histórico de Caminha a necessitar de reabilitação. As ruas direitas do antigo burgo medieval da terra que viu Sidónio Pais nascer e que numa das suas paredes ostenta hoje um grafitti do ex-cabeleireiro mais famoso do país, António Variações, são fáceis de percorrer mas não deixamos de nos questionar o porquê de tanto abandono.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, pelo contrário, mantém toda a sua beleza e formosura após as obras de requalificação já neste século. Datada do século XV, são visíveis os vários estilos na sua fachada. Gótico, renascentista e os rendilhados que denunciam o manuelino. Destaque para a sua rosácea e logo acima a figura de um carneiro que sustenta a cruz desta igreja.

Do lado contrário do centro histórico fica a Torre do Relógio, antiga Torre de Menagem e porta de saída ou entrada da velha Caminha, conforme a direcção que tomemos. Parte da antiga e primeira muralha, a torre antes designada Porta de Viana, por ser daqui que se saia em direcção a Viana do Castelo, resiste ao tempo como o único torreão do Castelo de Caminha. O relógio que hoje lhe dá nome foi acrescentado em 1673 e por baixo do escudo de Portugal vemos uma imagem em pedra da Virgem da Conceicao mandada lá colocar por D. João IV após a Restauração. Hoje a Torre do Relógio é o Núcleo Museológico do Centro Histórico de Caminha, onde se pode testemunhar a história da vila ao longo dos séculos.

Da Porta abre-se um largo terreiro, hoje o coração de Caminha. Pitoresco e acolhedor, no centro encontramos o Chafariz em estilo renascentista do século XVI da autoria do mestre vienense João Lopes, o Velho, uma combinação de elementos geométricos e figuras mitológicas.

Voltando à água, elemento dominante em Caminha, a Mata Nacional do Camarido serve de transição do rio ao mar. Espaço extenso e denso, depois de atravessado este pinhal mandado plantar por D. Dinis, damos de caras com o Forte da Ínsua, um dos símbolos de Caminha.

Instalado numa ilhota perto da costa já no Atlântico e à entrada do Rio Minho, é possível a ida de barco até às ruínas do Forte para visita ou, para os locais, para a apanha do mexilhão e caranguejo. Inicialmente foi ocupado pelos franciscanos que aí construíram o Convento de Santa Maria da Ínsua no século XIV. Mais tarde, no século XVII, diz-se que com a própria colaboração dos franciscanos foi construída a fortaleza, hoje em ruínas, num lugar que não precisa de justificação do porquê de ser estratégico.

E Caminha é ainda o lugar ideal para se vir por aí abaixo, percorrendo a Costa Atlântica portuguesa, desde esta Ínsua, no Moledo, até ao Cabo de São Vicente, no Algarve. Projecto ambicioso para se ir fazendo aos passinhos.

Vila Nova de Cerveira

Este texto irá começar pelas conclusões.

Vila Nova de Cerveira é provavelmente a mais encantadora povoação à beira Minho e o Forte de Lovelhe o lugar mais incrível para se visitar.

Começando pelo Forte, instalado à beira rio antes de entrarmos em Vila Nova de Cerveira. Construído entre 1660 e 1662, um período em que se vivia a Guerra da Restauração, o seu propósito era o de reforçar a defesa de Vila Nova de Cerveira e impedir a passagem do inimigo nesta parte do rio. Do outro lado do rio está Espanha, já se sabe, com quem travávamos na época a dita guerra. Acontece que o Forte de Lovelhe acabou por desempenhar um papel mais decisivo num outro episódio da história de Portugal, ao impedir o avanço das tropas do General Soult aquando da Segunda Invasão Francesa em 1809.

Não é no entanto o seu papel na história que causou o meu arrebatamento por este Forte, antes a sua situação de abandono. Sim, o abandono pode deslumbrar e entusiasmar. Esta fortaleza abaluartada com a forma de um trapézio está inteiramente tomada pela vegetação. Mais uns tempos sem limpeza do terreno e os baluartes deixarão de se perceber. Nunca a expressão “envolvido pela natureza” foi tão literal e certeira. De um lado o rio e do outro a montanha. Pelo meio um pequeno forte abandonado e tomado pela vegetação indomável. É o ambiente de aventura, como se explorássemos um lugar histórico mas esquecido pelo Homem, que nos faz render. Julgava-me sozinha por aqui, circundando os muros da fortaleza rodeada de verde por todo o lado, quando avisto dois cães. Susto. Mas logo percebi que estavam acompanhados do seu dono e que este sentiu o mesmo que eu: como se a sua fortaleza, o seu lugar de recato, estivesse a ser invadido. O ambiente sublime chegou, todavia, para os dois.

O que faz do Forte de Lovelhe um lugar tão especial, já se viu, é o seu estado de abandono e as paisagens que o secundam.

O Monte Cristo, o ponto mais alto do concelho, começa a ganhar altura desde aqui e não apenas do Forte de Lovelhe podemos distinguir a figura do cervo que é símbolo da vila quase a tocar o céu. O nome de Vila Nova de Cerveira tem a sua origem, pois, nos cervos que pastavam nas encostas férteis da região.

Fundada por D. Dinis em 1320, este rei logo mandou construir um castelo junto ao rio, mais uma das fortalezas ao longo do rio Minho que constituía a linha de defesa dos ataques espanhóis.

O pequeno Castelo com a forma oval tem dentro das suas muralhas algumas infra-estruturas em estado de abandono. A pousada que ocupava o seu espaço na quase totalidade está definitivamente encerrada e planos para a reconversão e utilização do Castelo aguardam financiamento no âmbito do projecto Revive.

É extra-muralhas que a povoação de Vila Nova de Cerveira se mostra hoje viva. Desde logo, aos sábados é montada uma feira enorme junto às muralhas e sobranceira ao rio. O aglomerado de abarracamento não suscitou nem a minha simpatia estética nem curiosidade pelos seus produtos em venda.

Mas logo à entrada do largo que é o coração de Vila Nova de Cerveira – e onde encontramos a Porta da Vila de entrada no Castelo – vemos alguns elementos interessantes que nos dão as boas vindas.

A Fonte da Vila era onde os habitantes da vila vinham abastecer de água até esta ter passado a ser canalizada. Provavelmente datada do século XVII, veem-se no topo desta fonte as armas reais encimadas por uma coroa e uma cruz e em baixo três bicas em forma de carranca. A Casa verde com a fachada preenchida de azulejos dessa cor fica nas suas traseiras.

E assim entramos no centro do movimentado terreiro de Vila Nova de Cerveira. Aí se ergue uma pirâmide, a Memória, homenagem aos defensores do Minho durante a Guerra Peninsular. Lugar para se deixar estar, aqui fica também a Igreja Matriz e sua fachada barroca.

Uma rua estreita que cerca as muralhas do castelo, sem que o percebamos de imediato, mostra-nos o Solar dos Castros (hoje Biblioteca Municipal), edifício do século XVII com brasão distinto com dois leões a fazer de tenentes, lojas de comércio e uns edifícios restaurados onde se destacam as suas varandas e decoração mimosa.

Antes de atravessarmos a também estreita linha do comboio observamos o panorama desde o Largo de São Sebastião, onde fica a outra porta do Castelo, a chamada Porta da Traição.

A zona ribeirinha de lazer que nos deixa junto ao Minho é um dos ex-libris de Vila Nova de Cerveira. Os pequenos barcos ancorados transmitem todo o sentimento de tranquilidade que aqui se vive.

Mas é do alto da Serra da Gávea que se percebe em absoluto toda a grandeza desta tranquilidade. Não chegámos até ao topo do Monte do Crasto onde fica a famosa escultura do Cervo, da autoria de José Rodrigues. Ficámo-nos pelo lugar da Capela da Senhora da Encarnação, logo abaixo. Daqui contemplamos o rio Minho a rasgar o verde infinito, deixando umas ilhas pelo meio – a Ilha da Boega, maior, e a Ilha dos Amores, mais pequena – numa paisagem recortada por umas erupções de montes na planura junto à água que corre tranquila alheia a toda esta majestade.