Barcelos

Banhadas pelo rio Cávado, Barcelos de um lado e Barcelinhos do outro, os núcleos urbanos destas povoações minhotas preservam ainda algum do seu ambiente rural, com terrenos agrícolas às portas de edifícios, alguns deles históricos. O centro histórico de Barcelos é dono de alguns edifícios monumentais que testemunham ter sido esta uma povoação condal e real.

Barcelos terá talvez origem romana e o seu topónimo derivará da barca que atravessava o rio, ligando as duas margens do Cávado. Certo é que ganhou foral de D. Afonso Henriques em 1140 e, mais tarde, o condado foi atribuído por D. Dinis a D. João Afonso Meneses, que viria a desempenhar um papel decisivo na negociação do Tratado de Alcanizes. Em 1285, D. Nuno Alvares Pereira foi designado Conde de Barcelos e a urbe passou para a casa de Bragança. Já no século XVI, D. Sebastião elevou a casa de Barcelos a ducado e, no século XVIII, a futura rainha D. Maria Francisca, Duquesa de Bragança, era sua donatária. Serve esta resenha histórica para tornar evidente o porquê de ser Barcelos desde há muito uma cidade real.

Com efeito, o centro monumental de Barcelos é obra de dois filhos bastardos de dois reis, D. Pedro Afonso, filho de D. Dinis, e D. Afonso, filho de D. João I. Ao primeiro deve-se a ponte e as bases da igreja matriz, do século XIV. O Paço é do século XV, obra do segundo, à semelhança do Paço de Guimarães. D. Afonso, o oitavo Conde de Barcelos, casou com a filha de D. Nuno Álvares Pereira e, assim, uniram-se duas das famílias mais importantes do reino, o que viria a dar origem à Casa de Bragança, sendo o conde o primeiro Duque de Bragança. A vila de Barcelos era, então, muralhada e o Paço de Barcelos tinha uma torre sobre a ponte, vigiando-o e defendendo-o, de que já nada resta.

Paço dos Duques de Bragança
Paço dos Duques de Bragança
Paço dos Duques de Bragança – antes

O Paço dos Duques de Bragança, sobranceiro ao Cávado, está hoje em ruína, restando apenas parte das fachadas e algumas paredes interiores, mas domina o centro histórico de Barcelos, juntamente com a igreja matriz, o Solar dos Pinheiros e o edifício da câmara municipal. Com uma implantação privilegiada, num ponto mais elevado que lhe permitia desde logo uma defesa natural, à entrada na vila destacava-se de imediato este edifício que era então designado como “castelo” ou “paço fortaleza”. Mas não era castelo, antes, à semelhança do Paço de Guimarães, um exemplo de arquitectura residencial do final da Idade Média, de influência do norte da Europa. E um exemplo bem bonito, a ver pelo painel de azulejo que reproduz a imagem do mítico “Livro das Fortalezas”, de Duarte Darmas, publicado em 1508.

Museu Arqueológico
Museu Arqueológico
Museu Arqueológico

A sua construção teve início em 1401, de iniciativa do referido D. Afonso, e em 1425 já estaria concluído. Nos dias de hoje, o Paço dos Duques de Bragança é o Museu Arqueológico, ao ar livre, com elementos vindos de muitos outros lugares da região, em especial de igrejas e conventos, mas também de casas nobres, como símbolos heráldicos e túmulos.

Cruzeiro

O cruzeiro diante do Paço, do século XVIII, designado Cruzeiro do Senhor do Galo (vindo de Barcelinhos), possui a representação mais antiga do Galo de Barcelos. Vê-se o galo, degolado (remetendo para a lenda do peregrino que, injustamente condenado à forca, lançou a profecia de que o galo degolado cantaria; e cantou) e a figura de Santiago a sustentá-lo (sabemos que é Santiago pelo bordão e sacola que o acompanham) – Barcelos é historicamente um dos pontos mais importantes do Caminho Santiago. Mas o Galo de Barcelos, enquanto ícone de Portugal, não tem a ver com a lenda, antes com as diversas olarias da região que se dedicavam à representação de vários animais, entre eles o galo. No século XX, o galo passou a ser oferecido como presente em congressos e embaixadas e, depois, António Ferro, o ministro da propaganda do Estado Novo, usou-o como imagem de marca do país. Ou seja, foi o Estado Novo que criou a imagem do Galo de Barcelos. Esculturas da sua figura estão em vários pontos da cidade.

Igreja Matriz de Barcelos
Igreja Matriz de Barcelos
Igreja Matriz de Barcelos

A Igreja Matriz de Barcelos (Igreja Santa Maria Maior) foi construída no século XIV, quando o gótico já dominava, mas preserva ainda elementos românicos de uma igreja anterior, para além de azulejos joaninos do século XVIII. É, pois, uma mescla de estilos. Ponto essencial na rota dos peregrinos de Santiago, possui uma vieira numa das colunas.

Solar dos Pinheiros
Solar dos Pinheiros

Perto está o Solar dos Pinheiros, outro edifício classificado como Monumento Nacional, com duas torres em cada um dos flancos, em mau estado de conservação (na torre voltada a sul tem duas figuras talhadas na pedra, uma delas com a representação de um velho de barbas que a tradição popular gosta de afirmar ser o Barbadão, vizinho ultrajado do 1° Duque de Bragança.

Câmara Municipal de Barcelos

O edifício da Câmara Municipal de Barcelos possui uma imagem arquitectónica bem diferente do restante conjunto. Em tom amarelo torrado, a história das suas diferentes ocupações é longa e variada. No século XIV foi aqui construído um hospital e capela para servir de apoio aos peregrinos de Santiago de Compostela e no século seguinte o primitivo edifício dos paços do concelho. Depois, no século XVI, a capela passou a sede da Misericórdia, que passou a gerir o hospital e, décadas depois, construiu a sua igreja. Foi apenas em 1846 que o edifício da Misericórdia tornou-se propriedade da Câmara Municipal e, nessa sequência, foi a igreja demolida para ampliação dos paços do concelho. Então, aqui funcionavam, para além da Câmara, o quartel da polícia e o tribunal, que só na década de 1980 foi transferido para outro lugar. No início do século XX e, novamente, do XXI, obras profundas acabaram por alterar todo o conjunto. Porém, apesar de mais uma mescla de estilos – gótico, maneirista, barroco e revivalista -, a simetria é evidente. A antiga igreja maneirista está ao centro, ladeada por duas torres, e dos primitivos paços do concelho permanecem as arcadas góticas do hospital, o claustro e a arcaria, ambos barrocos. E a fachada principal da actual Câmara Municipal tem remates com ameias e elementos decorativos, ao estilo revivalista.

Ao redor, um largo com estátua de D. António Barroso (antigo bispo do Porto), a Casa de Felgueiras Gayo, uma casa manuelina, um jardim, a Casa dos Simões Duarte Lyra, um chafariz seiscentista e as Casas de D. Nuno Álvares Pereira, dos Carmonas, do Alferes Barcelence e do Atanázio, todas elas casas nobres, demonstrativas da importância de outros tempos da urbe.

Barcelos
Barcelos
Barcelos
Barcelos
Teatro Gil Vicente

No núcleo urbano imediatamente atrás da Câmara Municipal está o Teatro Gil Vicente, assim denominado em homenagem ao primeiro dramaturgo de renome em Portugal, que poderá ter nascido em Barcelos. Ao redor desenvolve-se o emaranhado de ruinhas do centro histórico, que não pode ser considerado pequeno. É, na verdade, surpreendente a quantidade de elementos de interesse que Barcelos acolhe.

Torre da Porta Nova
Torre da Porta Nova – miradouro
Torre da Porta Nova – miradouro
Torre da Porta Nova – miradouro

O conjunto composto pela Torre da Porta Nova, a Igreja do Senhor da Cruz e o Jardim das Barrocas é talvez o mais bonito de Barcelos. A Torre da Porta Nova, do século XV, é também conhecida pela Torre do Alcaide, por ter sido esta a antiga residência do alcaide. Mas foi também torre de menagem e cadeia e hoje acolhe um pequeno núcleo museológico e uma loja, dedicados à olaria da região. O último piso é um miradouro, com uma vista privilegiada para a cidade e sua envolvente e, em especial, para o Jardim das Barrocas, logo abaixo.

Jardim das Barrocas
Jardim das Barrocas
Jardim das Barrocas

No Largo da Porta Nova está o Jardim das Barrocas ou Passeio dos Assentos. É um muito bonito jardim público barroco e neoclássico, com origem no século XVIII. Desenvolvido em dois patamares, subsiste o primitivo muro barroco em cantaria, mas tudo o mais é uma criação do século XX, designadamente, as duas fontes e a escadaria monumental, ladeada de obeliscos. A muita cor do jardim é dada pela ornamentação das topiárias, dispostas geometricamente.

Igreja do Senhor da Cruz
Igreja do Senhor da Cruz

Já a Igreja do Senhor da Cruz é um dos bons exemplos de arquitectura barroca de inspiração italiana no norte de Portugal. Construída no século XVIII, elegante e de forma redonda, dá ares da Igreja da Serra do Pilar, em Gaia.

Rio Cávado
Rio Cávado
Rio Cávado
Concha
Barcelinhos
Barcelinhos

Voltando às margens do rio Cávado, agora reconvertidas de forma a poderem ser percorridas e usufruídas, atravessamos a ponte gótica em arcos e na margem sul do Cávado está Barcelinhos. Logo somos recebidos pela sua icónica capela alpendrada, a Capela da Nossa Senhora da Ponte, desde há tempos na estrada medieval do Caminho de Santiago, daí a sua importância.

Monte da Franqueira – santuário
Monte da Franqueira – miradouro
Monte da Franqueira – castro
Monte da Franqueira – castro

A sul de Barcelos, a cerca de 6 quilómetros do centro histórico, estão as ruínas do Castelo de Faria, no cimo do Monte da Franqueira, onde está igualmente instalado o Santuário de Nossa Senhora da Franqueira e um miradouro para todo o vale do Cávado. Escondido num bosque de carvalhos, sobreiros e castanheiros-bravos e de uns impressionantes rochedos, tem a companhia de uma estação arqueológica. Numa posição estratégica sobre o Cávado e não muito distante do mar, aqui foram descobertos vestígios importantes de ocupação humana, em especial fragmentos de cerâmica da Idade do Ferro 2500 anos (embora se creia que o lugar tenha sido ocupado desde o Período Calcolítico, há 5500 anos, e Idade do Bronze, há 3200). Restam as curiosas construções circulares do castro, isto é, do povoado fortificado da Idade do Ferro.

Monte da Franqueira
Monte da Franqueira – Castelo de Faria
Monte da Franqueira – Castelo de Faria

Depois disso, durante a Idade Média, o povoado ganhou importância e essa época viu a construção de um castelo, muralha e torre de menagem. Então, a Terra de Faria era um centro militar e político. No entanto, em 1450 o castelo já estava em ruína, sabemo-lo pela Crónica de D. João I, escrita por Fernão Lopes. De qualquer forma, a fama deste Castelo de Faria era tal que, séculos mais tarde, Alexandre Herculano relatou o episódio de grande resistência do Alcaide de Faria em 1373, aquando do ataque das tropas de Castela. Por fim, cientes desta grandiosa história, em 1929 um grupo de barcelenses subiram ao Monte da Franqueira para tentar descobrir as ruínas do castelo. Acabaram por reconstruir os muros e parte da torre de menagem, que é o que podemos hoje visitar, envolvidos por um ambiente natural superior e misterioso.

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