Braga é uma cidade antiga e histórica, com marcas no seu rico património de um passado vivido por vários povos que por lá passaram. Porém, os seus arredores próximos abrigam igualmente uma série de lugares e monumentos que são de visita obrigatória, incluindo o Bom Jesus, o único monumento bracarense distinguido pela Unesco como património da humanidade.

Braga possui 87 igrejas, 76 capelas, 2 santuários, 1 basílica e 1 catedral. O Bom Jesus é talvez a sua imagem mais poderosa e marcante e, juntamente com o Sameiro e a Falperra, constitui os sacro-montes de Braga, replicação de uma peregrinação à Terra Santa. Nas encostas do Monte Espinho, com vista privilegiada para a cidade de Braga (“ver Braga por um canudo”, em alusão ao telescópio oitocentista, entretanto substituído), o Bom Jesus é a representação artística do monte sagrado, uma nova Jerusalém, uma das mais elaboradas e bem conseguidas do mundo católico. Possui um grande valor arquitectónico, artístico e paisagístico, caracterizado por uma arquitectura religiosa barroca italiana onde se destaca a via sacra iniciada em escadório e uma série de capelas, fontes, esculturas alegóricas, lagos e jardins formais. Há ainda hotéis, um salão de chá que funcionou em tempos como casino e um elevador-funicular que é reconhecido como o mais antigo do mundo ao serviço a utilizar sistema de contrapeso de água (hidráulico) – foi inaugurado em 1882 e é obra de Raul Mesnier du Ponsard. O Santuário do Bom Jesus do Monte é, em resumo, um lugar aprazível e de repouso rodeado por uma vegetação frondosa.


Em 1373 haveria já no lugar uma ermida, ao qual foram sendo acrescentadas novas ermidas nos séculos seguintes, incluindo a constituição da Confraria do Bom Jesus em 1629 e a construção do escadório em 1690. Até que, em 1722, o então Arcebispo de Braga, lançou as bases do projecto donde resultou o actual Santuário do Bom Jesus do Monte. É, pois, uma história com mais de 600 anos.


A maior imagem do Bom Jesus de Braga, que influenciou e inspirou a construção de muitos outros (como o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego), é o seu enorme escadório, a representação da Via Sacra, o caminho da Paixão de Cristo. Sucessivos lanços de escada, na verdade, 3 escadórios (Pórtico, Cinco Sentidos e Virtudes) e 573 degraus vencem um desnível de 140 metros. A subida remete para o sofrimento e a dureza da morte de Cristo a caminho da crucificação. No caminho, várias capelas mostram os passos da Paixão de Cristo. A presença da água é marcante, e no escadório com a representação dos cinco sentidos veem-se as fontes mitológicas rococó a jorrar água dos cinco sentidos das suas esculturas, como está da foto (dos olhos). À semelhança das ermidas, também as estátuas nos patamares do escadório são de períodos diferentes, como barroco ou joanino, mas, o conjunto, para além de configurar uma obra de arte, revela harmonia.


Os últimos lanços são conhecidos como o escadório das virtudes e, depois, no topo surge o terreiro e o templo do santuário, concluída em 1811. A basílica, em estilo neoclássico, possui uma fachada harmónica, com duas torres sineiras. De planta em cruz latina, no interior veem-se, igualmente, elementos neoclássicos, como os retábulos de talha, embora o da capela-mor esteja sustentado por um enorme baldaquino de influência barroca. Há ainda o pormenor da luz, com o templo a deixar iluminar naturalmente através da entrada dela pelas janelas e pela torre lanterna em forma de cúpula.


No Terreiro de Moisés, também conhecido por Terreiro do Pelicano, em alusão à figura decorativa numa das cascatas, está uma gruta artificial, com estrutura e elementos de cortiça, tendo no interior um lago e em cima um miradouro.

A pouca distância, já a entrar no bosque, vemos parte da casa de fresco que estava no Paço dos Arcebispos, em Braga, obra rococó de André Soares, que veio para a Mata do Bom Jesus em 1919. Tem a forma de um baldaquino, com decoração exuberante e motivos florais e concheados. Ora, o que faz do Bom Jesus património da Unesco é, precisamente, o resultado do seu conjunto, aliando o património monumental à paisagem natural, sendo o seu parque parte do cenário e teatralidade tão caras ao barroco. Por isso mesmo, a Unesco distinguiu o Bom Jesus como paisagem cultural.

No bosque / mata do Parque, com muitos caminhos e uma vegetação frondosa, plantada pelo seu carácter visual, há carvalhos, castanheiros, loureiros, sobreiros, pinheiros e medronheiros, entre muitas outras, não faltando espécies exóticas. Tornado lugar de vilegiatura e de lazer – sendo este carácter hoje mais vincado do que o de outrora, mais religioso e de peregrinação – não se poupou no recurso aos materiais artificiais para recriar um ambiente natural. Já vimos a gruta, em baixo, e agora temos o lago com barquinhos, em cima.

Não esgotando todos os pormenores e pontos da Mata, terminamos a visita ao Bom Jesus no Terreiro dos Evangelistas, o lugar final da peregrinação, precisamente no ponto mais alto do monte. Este Terreiro tem dispostas de forma encantadora 3 capelas e 4 fontes, e o granito e a água concluem aqui de forma exemplar o seu papel de elementos primordiais ao conjunto. Satisfeitos pela viagem representativa, dedicamo-nos, então, a observar a vista que este Terreiro nos oferece, a Peneda e o Gerês, até Pitões das Júnias.

A pouca distância, o Monte Sameiro, a 572 metros de altitude, é outro sacro-monte e Santuário, igualmente com uma vista panorâmica privilegiada sobre envolvente de Braga. A luz de final de tarde, explosiva como estava, não permitia já apreciar os pormenores das serras e vales (Gerês, Cabreira, Penha, Ave e Cávado), mas percebiam-se os seus contornos, cheios do ambiente típico do pôr-do-sol.

O Santuário de Nossa Senhora da Conceição do Sameiro, o maior santuário mariano do país depois de Fátima, foi construído no século XIX e também possui uma escadaria impressiva, mas não é monumental como o Bom Jesus. O mesmo para a sua igreja. De qualquer forma, este lugar de romaria com todas as valências para os peregrinos e rodeado de um parque arborizado, merece a visita. Na fachada do templo, em estilo neoclássico e todo em granito, destacam-se as duas torres sineiras e a cúpula coroada por lanternim, numa harmonia simples. A cripta do santuário possui painéis de azulejo de Querubim Lapa, obra de 1988, com a representação da obra evangelizadora dos portugueses pelo mundo.

A Igreja da Falperra é um dos maiores exemplos da arte de André Soares, considerada uma obra prima da arquitectura rocaille. No Monte das Cortiças, a 450 metros de altitude, num ponto do mapa partilhado entre Braga e Guimarães, este foi em tempos um lugar de emboscadas, onde os salteadores praticavam o seu ofício. Perto desta igreja, também conhecida por Igreja de Santa Maria Madalena existem vestígios de um povoado castrense, assim como a Capela de Santa Marta das Cortiças, lugar de uma concorrida romaria em homenagem a esta padroeira. O seu culto é muito antigo e crê-se que esta capela do século XVI, mandada construir pelo arcebispo D. Diogo de Sousa, o tenha sido sobre outro templo dos beneditinos que viria pelo menos do século XII.

Viemos até aqui, porém, pela tão gabada Falperra. Lê-se no Guia de Portugal ser a sua fachada “sumptuosa, densa e carnuda, rica de íntimo dinamismo”. Assim é. De arquitectura barroca e rococó, observando-se a fachada principal, com duas torres simétricas e rebocada e pintada de branco, perdemo-nos com a sua profusa decoração sobre a cantaria. O pórtico e suas molduras, então, são de uma riqueza decorativa impressionante. Construída no princípio do século XVIII, a Igreja ficou muito danificada pelo Terramoto de 1755, pelo que o arquitecto André Soares ficou encarregue de projectar uma nova fachada. A este, a quem foi também atribuído o desenho do altar-mor e dos retábulos no interior da igreja, assim como da escadaria, pareceu-lhe viável trabalhar a pedra granito como se estivesse a trabalhar a madeira, traçando curvas e pormenores ornamentais improváveis. Resultado deste enorme trabalho sobre a pedra? A maravilha artística da Falperra, distinguida como monumento nacional.

A Capela de São Frutuoso, em Montélios, uma igreja pré-românica do período visigótico, cerca do ano de 665, é um exemplo raro em Portugal a chegar até aos nossos dias e fica em Real, a menos de 2 kms do centro de Braga. Foi São Frutuoso, o então bispo godo de Dume e de Braga, quem mandou levantar o Mosteiro de São Salvador de Montélios, bem sabendo que o seu antecessor São Martinho de Dume, conhecido pelo “Apóstolo dos Suevos”, havia mandado construir uma igreja na vizinhança em 558 (de que subsistem apenas ruínas, agora transformadas em Núcleo Museológico de São Martinho de Dume). Mais tarde, em 1728, foi construído o Convento de São Francisco, no lugar do anterior Mosteiro de Montélios. Mas preservou-se, no entanto, a sua capela funerária, construída para acolher o túmulo de São Frutuoso, com planta em forma de cruz grega e influências arquitectónicas do Mediterrâneo Oriental (bizantinas), um misto de arquitectura visigótica e moçarabe, o tal exemplar raro, único mesmo. Depois da sua construção no século VII, a Capela terá sido reconstruída no século IX ou X, mas foi no século XII, após a Reconquista, que o culto a São Frutuoso terá tido início, apesar dos restos mortais do bispo godo terem, já então, sido transladados para Compostela (entretanto, em 1966 São Frutuoso voltou à capela). Foi apenas em 1931 que terá começado a emergir a tese de que a Capela teria sido mandada construir por São Frutuoso para sua sepultura, obedecendo a sua arquitectura aos modelos de mausoléus paleocristãos, designadamente o de Gala Placídia de Ravena, em Itália. Infelizmente, à semelhança de tantos outros monumentos no nosso país, é uma pena que não possam ser mais fáceis e frequentes as visitas, pelo que não chegámos a conhecer o seu interior. Resta a felicidade de estar no local de um tão antigo testemunho de que a nossa história é feita de muitas e variadas camadas.


Aproveitámos, ainda assim, para apreciar a bonita fachada da Igreja do Convento de São Francisco, à qual está adossada a Capela de São Frutuoso. É antecedida por um largo adro, onde está igualmente um cruzeiro e a Fonte de Santo António, um conjunto barroco e rococó. Percebem-se ainda os restos da antiga calçada e aqueduto que transportava a água até ao convento.



Para algo totalmente diferente, um salto gigante para o século XXI e a arte e arquitectura contemporânea. Em Parada de Tibães, a 4 kms da cidade de Braga, num ambiente já rural, está a Galeria Mário Sequeira. Com visitas livres, vamos entrando, estranhando estar a invadir quinta privada, onde o proprietário da Galeria tem também a sua residência, e damos com uma bela surpresa. O edifício da galeria, alvo e de linhas rectas, projecto do arquitecto Carvalho Araújo, integra-se na perfeição na ruralidade do lugar, de tal forma que chegamos a pensar que a igreja da povoação, que vemos ao fundo, faz parte do terreno que envolve o novo e moderno elemento. Tudo parece simples. Entramos na Galeria e percebemos que ela se desenvolve também no subterrâneo para, depois de uma viagem pela arte, logo voltarmos aos jardins, dando conta de uma luz totalmente diferentes, proporcionada por um jogo dos vários elementos em presença.




No exterior da Galeria e da residência da quinta percorremos, então, os vastos jardins, num igualmente muito bem conseguido trabalho paisagístico, descobrindo as várias obras de arte. Há esculturas de grandes nomes, como Rui Chafes, Fernanda Fragateiro, Julian Opie e tantos outros.



De volta a Braga, a despedida com a vista desde o Miradouro do Picoto, o monte imediatamente acima da cidade. Oferece uma panorâmica de 360.° sobre toda a cidade e envolvente, com destaque privilegiado para o elegante e carismático Estádio 1.° de Maio, a nossos pés. Mas distinguem-se também na perfeição a longa Avenida da Liberdade, eixo central da cidade, todo o seu centro histórico e todos os sacro-montes com que iniciámos este texto pelos arredores da cidade instalada no vale do Cávado.