Braga

Braga é uma cidade cheia de história. A Bracara Augusta dos romanos tornou-se, depois, sede de diocese e rival de Santiago de Compostela. Era, então, a “cidade dos arcebispos”, epíteto que até hoje acompanha a capital do Minho. A sua importância eclesiástica é visível até aos dias de hoje, tantas são as suas igrejas. Teve, no entanto, muitas outras vidas, urbanisticamente falando, com destaque para o período renascentista no século XVI e o período barroco no século XVIII e, nos dois séculos seguintes, alterações profundas que mudaram por completo o seu carácter medieval. Nos últimos anos, porém, Braga tem estado em acelerada mutação, tendo-se tornado numa cidade empreendedora, jovem e vibrante, muito por conta dos estudantes universitários e da comunidade brasileira, como que uma segunda leva dos “torna-viagem”. Recuperou o lugar de terceira cidade de Portugal, que já havia sido dela em diferentes períodos da história do nosso país.

Diz-se que após a grandeza romana da Bracara Augusta, a que se seguiram os bárbaros (suevos e visigodos) e os muçulmanos, a cidade de Braga foi propositadamente despovoada na sequência da destruição provocada pela passagem destes últimos. Só no século XI, com a Reconquista Cristã, foi a cidade restaurada. Dessa época é a Sé Catedral de Braga, aquela que nós, portugueses, nos habituámos a aludir quando referimos algo muito antigo.

Com efeito, a Sé Catedral de Santa Maria Maior começou a ser construída em 1089, antes mesmo da fundação de Portugal, bem no centro da cidade medieval, sobre as ruínas de um antigo mercado romano transformado em basílica paleo-cristã. Ao longo de todo o largo tempo que medeia desde a época da sua fundação, não surpreende, pois, que muitas tenham sido as alterações sofridas e seja hoje o resultado do gosto e estilos artísticos que vigoraram em cada período histórico que lhe foi dado viver, como o românico, manuelino e barroco. A original estrutura românica está agora limitada à porta lateral sul e às duas arquivoltas no pórtico principal. Ainda que muito alterado, este é, aliás, o único monumento românico de Braga a chegar aos nossos tempos. Fundada pelo bispo franco São Geraldo, a ele seguiu-se o período borgonhês do Condado Portucalense, dando início à arte de Cluny em Portugal, inspirada nas grandes abadias e catedrais do seu país de origem. Tem, assim, lógica o facto de tanto o Conde D. Henrique como o seu filho, D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, terem protegido a construção da Sé de Braga. E, também, como veremos mais adiante, ser este o lugar da sepultura dos Condes Portucalenses, D. Henrique e D. Teresa.

Sé – portal românico
Sé – cabeceira
Sé – capela mor

Da época do renascimento, século XVI, sendo arcebispo D. Diogo de Sousa, vem um dos elementos mais gabados da Sé: a capela mor com o seu tecto abóbadado polinervado, obra prima do tratamento em pedra do biscainho João Castilho (biscainhos é o nome pelo qual ficaram conhecidos os artistas vindos da Biscaia).

Sé – órgão

As capelas laterais, porém, são anteriores, do século XIV. Mas quer a fachada (virada à não muito larga Rua D. Paio Mendes), de 1723, quer as talhas douradas, os sumptuosos púlpitos e os magníficos órgãos são exemplos exuberantes do barroco e nada mais do que eles é tão excessivo neste complexo catedralício. O órgão, em especial, deixa-nos perdidos com tanta decoração dourada, vendo-se meninos músicos, conchas e volutas. Num interior de ambiente austero e com pouca luz, destaca-se de forma magistral.

Sé – coro alto

Acima dele está outro deslumbre, o Coro Alto, com um incrível cadeiral em pau preto, com a cadeira do arcebispo no topo e um grande relógio, mais um momento apoteótico do barroco.

Sé – claustro

A visita à Sé Catedral de Braga não fica completa sem uma espreitadela ao actual claustro, do século XVIII, e às Capelas dos Reis.

Capela da Glória
Capela da Glória

Na Capela da Glória, de 1333, destaca-se o túmulo do arcebispo D. Gonçalo Pereira, avô de D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, uma obra prima da arte tumular daquele século, com estátua jacente em pedra de Ança. Veem-se ainda frescos mudejares mais tardios, do século XVI, numa interessante mescla de culturas, ou seja, uma estrutura cristã com elementos herdados da estética muçulmana, a provar que, apesar de expulsos estes, continuaram a deixar a sua marca.

Capela de São Geraldo
Capela de São Geraldo

Na Capela de São Geraldo, por sua vez, estão os túmulos em estátuas jacentes dos Condes Portucalenses D. Henrique e D. Teresa.

Sé – Museu do Tesouro
Sé – Museu do Tesouro
Sé – Museu do Tesouro

Para o fim ficou a visita ao Museu do Tesouro da Sé, que apesar do muito perdido em consequência das Invasões Francesas e da Guerra Civil, ambas no século XIX, mantém ainda uma bela colecção de pratas e peças em ouro.

Falámos atrás de duas personagens históricas que deixaram uma forte marca no urbanismo de Braga. Na época medieval, para defesa da cidade, o arcebispo D. Gonçalo Pereira levantou a cidadela, com cerca murada. Depois, imbuído do espírito renascentista da época, o arcebispo D. Diogo de Sousa transformou a cidade medieval, tendo aberto ruas e portas, construído o hospital, plantado vinhas e introduzindo diversos elementos decorativos, como esculturas e fontes, embelezando Braga e elevando-a a centro de arte e cultura. O seu objectivo declarado foi o de “fazer de uma aldeia cidade”, aludindo ao facto de, na época, Braga ser uma pequena urbe, desmerecida por não estar junto ao mar, ao contrário de outras que foram mais valorizadas em virtude da sua localização geográfica marítima no tempo dos Descobrimentos. Nos séculos seguintes, mais igrejas e seminários foram construídos, incluindo o Bom Jesus, com o barroco a substituir as igrejas românicas. Foi já depois da vitória dos liberais, na Guerra Civil, que Braga foi adaptada ao gosto moderno, abrindo-se novamente ruas e avenidas e demolindo-se edifícios e o burgo medieval e quinhentista. Não obstante, Braga mantém o traço medieval de ruas estreitas e curtas, hoje ocupadas por restaurantes da moda. Aliás, a própria Sé aparece quase como que encravada quer entre ruelas quer entre outros templos para além da Capela de São Geraldo, como a Igreja da Misericórdia (em estilo renascentista, do século XVI), não lhe permitindo uma fácil visão por inteiro.

Porta Nova
Porta Nova
Rua do Souto

A Rua do Souto, vinda dos tempos medievais, é a rua pedonal por excelência, ligando a Porta Nova (já não da primitiva cerca, antes construída no século XVIII no lugar de uma das mais antigas portas da muralha, levando brasão episcopal no cimo) à Praça da República, o centro da cidade. Nela encontramos ainda algum comércio tradicional em edifícios setecentistas.

E Braga permanece carinhosamente a cidade dos arcebispos. Administrada por eles desde 1112, o arcebispo de Braga era o primeiro representante da igreja católica em Portugal, o que lhe permitia, ao mesmo tempo, uma relação próxima e privilegiada com a corte.

Paço Episcopal
Paço Episcopal e Jardim de Santa Bárbara

O Paço Medieval de Braga, outrora casa dos arcebispos, é, à semelhança da Sé, um testemunho da antiga cidade medieval. É o elemento mais antigo do conjunto conhecido por Paço Episcopal e a sua construção teve lugar no século XIV, por iniciativa do arcebispo D. Gonçalo Pereira, para sua residência. Esta arquitectura é muito característica, ao jeito de uma fortaleza a que não faltam sequer as ameias. Diante si tem um dos jardins mais bonitos da cidade, e certamente o mais florido, o Jardim de Santa Bárbara.

Largo do Paço

O Paço Episcopal Bracarense tem uma forma tão irregular que, para além do lado do jardim, os vários edifícios que o compõem dão, ainda, para o Largo do Paço – caso da Reitoria da Universidade do Minho – e para a Praça do Município – caso da Biblioteca Pública de Braga. O Largo do Paço é uma praça alpendrada com arcada e tem a Fonte dos Sete Castelos no meio, uma obra barroca.

Biblioteca Pública
Biblioteca Pública

Já o edifício onde está instalada a Biblioteca Pública foi construído no século XVIII, sob traço barroco de André Soares. Criada em 1842 por D. Maria II, foi restaurada na década de 1930, na sequência de um incêndio, e a sua fachada harmoniosa tem para lá dela belos salões (apenas visitámos a sala de leitura), painéis de azulejo e o busto de Alexandre Herculano nos patamares e uma pintura de Columbano com a representação do escritor e arqueólogo Manuel Monteiro, figura central à cultura bracarense.

Câmara Municipal de Braga

Diante desta, partilhando o espaço da Praça do Município, está o edifício da Câmara Municipal de Braga. Construído em 1753, uma vez mais de autoria de André Soares, possui igualmente uma fachada harmoniosa, com portadas do andar nobre com molduras lavradas, e é considerado uma obra-prima da arquitectura civil barroca.

Palácio do Raio

Já se viu, André Soares é o nome maior do barroco bracarense, e os seus projectos não se ficam pelos atrás referidos. Também a arquitectura do Palácio do Raio (Casa do Mexicano) ficou a seu cargo, construído entre 1754-55, destinado a servir de habitação à família de João Duarte Faria. A sua porta e o varandim costumam ser destacados como outro dos melhores exemplos da arquitectura civil bracarense e o edifício no seu global como o maior exemplo de moradia minhota da época de D. João V. É o barroco joanino em grande forma.

Torre de Santiago

Mais atrás no tempo, também a Torre de Santiago é testemunho antigo. Tem Oratório de Nossa Senhora da Torre nela integrado, nesta que era parte da antiga muralha medieval, e na origem da sua construção esteve a crença de Braga ter sido poupada ao Terramoto de 1755. O seu desenho terá sido de autoria de André Soares.

Casa dos Crivos

Mas há mais com que nos surpreendermos, no que aos edifícios diz respeito. Para algo totalmente diferente, na pedonal Rua de São Marcos está a Casa dos Crivos, um exemplo raro de arquitectura civil da Braga dos séculos XVII e XVIII. Terá havido muitos mais, mas só este chegou até nós, interessantíssimo no recurso a gelosias na fachada, talvez influência das muitas edificações conventuais na cidade, em que as monjas eram “escondidas” dos olhares da sociedade, permitindo-lhes preservar a intimidade doméstica, observando sem ser observadas, ao mesmo tempo que as finas tábuas cruzadas permitiam a ventilação do interior da casa. Na actual Casa dos Crivos esteve até há relativamente pouco tempo uma das cestarias que faziam deste comércio uma imagem de marca desta típica Rua de São Marcos, ao lado de outras actividades comerciais tradicionais que hoje estão muito esquecidas.

Café a Brasileira
Praça da República
Arcadas
Arcada – Café Vianna
Torre de Menagem

E, assim, chegamos bem ao centro de Braga. Café A Brasileira na esquina, desde 1907, Praça da República logo à espreita, a estender-se Avenida Central afora, e mais dois cafés míticos da cidade sob a Arcada, o Vianna e o Astória. Aqui estava a muralha da Braga medieval e a Torre de Menagem levanta-se imediatamente sobre eles, 30 metros de altura com ameias e matacães no topo, neste que é mais um dos elementos que restam da desaparecida cidadela, construída no tempo de D. Dinis.

Avenida Central
Casa Rolão
Igreja dos Congregados

À Praça da República cola-se a Avenida Central, amplo espaço ajardinado e ladeado por alguns edifícios interessantes, como a barroca Igreja dos Congregados e a imperdível livraria Centésima Página, instalada na antiga Casa Rolão, mais um edifício de André Soares construído por volta de 1758. Este Jardim corresponde ao antigo Campo de Santana, aberto no século XVI no tempo de D. Diogo de Sousa, no sentido de criar espaço para lá das muralhas de Braga, e desde então centro da vida social da cidade.

Avenida da Liberdade – Theatro Circo
Theatro Circo
Theatro Circo
Theatro Circo
Theatro Circo

O Theatro Circo, na muito florida Avenida da Liberdade, é um dos pólos culturais mais importante da cidade. Inaugurado em 1915, a sua fachada plena de harmonia esconde um belo salão nobre, onde vários elementos decorativos deslumbram, com destaque para o candelabro, o tecto e o muito dourado, incluindo nas duas máscara, uma dramática e outra ridente. Torcíamos para que alguma peça estivesse em cena, o que aconteceu, tendo assim o prazer de assistir a O Estrangeiro, de Camus, encenada pela Companhia de Teatro de Braga, pelo que tivemos a oportunidade de a bom teatro juntar uma visita à acolhedora e vibrante sala principal do Theatro Circo.

Casa dos Biscainhos

A Casa dos Biscainhos é uma antiga residência senhorial barroca, um exemplo da arquitectura portuguesa dos séculos XVII e XVIII, transformada em museu e jardim. O seu nome advirá de ter sido nesta rua onde se instalaram os artistas vindos da Biscaia, chamados por D. Diogo de Sousa para executarem obras na cabeceira da Sé. O museu esteve fechado durante alguns anos e o jardim assim permanece. Visitámos, por isso, apenas o museu, que mais do que a sua colecção vale pelos seus espaços.

Casa dos Biscainhos
Casa dos Biscainhos

Desde logo, o pátio de honra coberto – 5 esculturas representando escudeiros e músicos negros e uma escadaria monumental recebiam os visitantes, que aqui chegavam de carruagem. O barroco no seu esplendor, com os painéis azulejares a darem um efeito cenográfico acrescido à cena.

Casa dos Biscainhos – Salão Nobre
Casa dos Biscainhos – Sala de Jantar
Casa dos Biscainhos – pátio interior

O palácio tem ainda como ponto alto o Salão Nobre, com mais painéis de azulejo e um tecto com uma pintura que representa o martírio no Japão do Padre Jesuíta Miguel de Carvalho, antepassado da família proprietária da casa – era nesta sala onde decorriam as recepções e festas. Noutras salas, outros tectos em destaque, desta vez decorados com estuques ornamentais clássicos, assim como paredes com pintura a fresco e lambris azulejares, caso da sala de jantar neoclássica. Ainda, um bonito pátio interior rectângular com dois pisos, onde domina o granito e um chafariz ao centro com cabeças de querubins donde jorra água.

Mas um dos grandes prazeres quando em Braga é deixarmo-nos levar pelas suas ruas e ir descobrindo o tanto que há para conhecer.

Braga
Braga
Largo de Santa Cruz, com Igreja do Hospital de São Marcos
Igreja Santa Cruz
Praça Conde de Agrolongo com Igreja do Pópulo
Capela dos Coimbras
Casa dos Coimbras

A Capela da Casa dos Coimbras vem desde 1525, um dos poucos exemplos do manuelino que restam na cidade, depois de quase todos eles terem sido destruídos e substituídos. Na Capela, sobre o pequeno alpendre veem-se as esculturas de São Pedro e Santo Antão com um centauro mitológico pelo meio. Mais acima, na torre ameada, estão várias figuras elegantes, esculpidas por artistas biscainhos, entre elas a Virgem do Leite. Na Casa, um palácio, são as suas janelas que mais deslumbram, com molduras em granito superiormente decoradas.

Frigideiras do Cantinho

Junto aos Coimbras está uma instituição de Braga, as “Frigideiras do Cantinho”, no Largo de São João do Souto, onde parámos para degustar o seu tradicional e saboroso pastel de massa folhada recheado de carne (e, depois, rematámos a refeição com uma típica tíbia, desta vez nas Tíbias de Braga, junto ao Arco da Porta Nova). A pastelaria “Frigideiras do Cantinho” vem desde 1796 e o edifício mantém estruturas do que se crê ter sido uma domus, uma casa romana do século III ou IV.

Museu de Arque Dom Diogo Sousa
Museu de Arque Dom Diogo Sousa
Museu de Arque Dom Diogo Sousa

Já se disse, e logo no início deste texto, Braga foi uma importante cidade romana e muitas são as evidências desse passado, sobretudo ao redor do Alto da Cividade, lugar do primitivo núcleo fortificado da primeira fase de ocupação romana. Aqui fica o Museu de Arqueologia Dom Diogo de Sousa, com artefactos e reconstituições históricas desse passado, incluindo um grande mosaico do século V entretanto posto a descoberto. Possui, ainda, uma boa colecção doada pelo casal Bühler-Brockhaus, com objectos de arte etrusca, grega e também romana.

Fonte do Ídolo

Para o final, novamente algo surpreendente, a Fonte do Ídolo. Passa discreta, numa entrada perto da Casa do Raio, e este seria um santuário rupestre dedicado a um Deus lusitano, Tongenabiago. Em resultado, chegou até nós esta fonte pré-histórica com inscrições e com escultura de um busto feminino em alto relevo. É apenas mais um exemplo das muitas histórias que Braga tem para mostrar e contar.

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