Berlim é…

…para além do já referido, a Ilha dos Museus, com os seus extraordinários museus, como o Pergamon, onde podemos admirar, entre outras preciosidades, a Porta de Ishtar (o altar de Pergamon só volta a estar disponível em 2019), e o Neues Museum, casa da belíssima Nefertiti.
Deliciarmo-nos com as cores do fim de tarde na Catedral de Berlim.
 
 
Deslumbrarmo-nos com outros excelentes museus como a Gemaldegalerie, com os seus Botticelli, Rubens, Vermeer e Rembrandt, e o excêntrico Sammlung Boros, instalado num bunker da 2ª Guerra Mundial.
Irmos à Kulturforum, onde fica a Neue Nationalgalerie do Mies Van der Rohe, fechada por uns tempos, e a Berliner Philharmonie.
 
 

Avistarmos a Fernsehturm, a torre da televisão, sempre omnipresente.
 
 
 
 
Recuarmos no tempo na Alexanderplatz.
 

Tentar dizer bem Schlesische Strasse e não conseguir.
Darmos com as infraestruturas acima do solo na ex-Berlim Oriental.
 
 
 
Apreciar a arquitectura do quarteirão governamental à beira do Spree, nomeadamente os edifícios Paul-Löbe-Haus e Marie-Elisabeth-Lünders-Haus.
 

Juntarmo-nos à multidão nas Portas de Brandemburgo.
 

Admirarmos a obra de Frank Gehry que invadiu esplendorosamente o DZ Bank.

O Tiergarten, despido e castanho pelo frio do Inverno. Curioso pensar que o Inverno faz às árvores o mesmo que o Verão faz às pessoas.
 
 
Deambularmos pela belíssima praça Gendarmenmarkt.

 
Perdermo-nos com os chocolates da Fassbender & Rausch.
 
 
Percorrer a Unter den Linden.
Continuar a não conseguir dizer bem Schlesische Strasse.
Darmos inesperadamente com o Bonjour Tristesse, de Siza Vieira.
 
 
Perdermo-nos com as cores, aromas e sabores do Mercado Turco em Kreuzberg.
 

 
Comermos nos múltiplos restaurantes étnicos, desde os turcos de Kreuzberg aos vietnamitas do Mitte.
Andarmos pelas margens do rio Spree.
 

Comermos currywurst sempre que a fome aperta.

Deslumbrarmo-nos com a fachada da Neue Synagoge, em Scheunenviertel.

 

Perdermo-nos pelas lojas, galerias e cafés dos pátios interligados da Hackesche Hofe.

Deambularmos pela City West.
Entrarmos na KaDeWe e ficarmos com água na boca no interminavelmente delicioso sector da alimentação.
Percorrermos a Kurfurstendamm, Kudam para os amigos.
Darmos com a Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, a igreja bombardeada.
 
 
Irmos às compras no fantástico Bikini Berlin.
Atravessarmos as ruas na presença do Ampelmann, o bonequinho dos semáforos criados em 1961 na Alemanha Oriental.

 

Cruzarmo-nos frequentemente com arte urbana. 

 

Revivermos momentos gloriosos no Estádio Olímpico.
 

 
Continuar sem conseguir dizer Schlesische Strasse e outras palavras alemãs.
Definitivamente terei que voltar a Berlim.

Berlim, Arte Urbana Em Cada Esquina

Berlim, apesar de todas as contrariedades e dramas históricos, é actualmente uma cidade onde se respira liberdade. Há um clima de abertura e tolerância que incentiva a experimentação e é responsável pela promoção de uma subcultura artística, a qual se expressa de diversas formas, nomeadamente no desenvolvimento de arte urbana.
A arte, nas suas várias dimensões, tem a grande virtude de oferecer visões alternativas do mundo e, assim, criar utopias.
Essa efervescência artística em Berlim tem um momento fundamental quando após a queda do Muro, no início dos anos 90, artistas transformaram um edifício abandonado num marco da cena artística alternativa de Berlim e com isso salvaram o edifício da demolição. Esse é o início da história de Tacheles, um espaço cultural e de arte alternativa, que durante cerca de 20 anos foi responsável pela criação de um mundo utópico paralelo.

 

Lembro-me de em 1998, aquando a minha primeira visita a Berlim, ficar fascinada com o ambiente artístico carregado de subversão, liberdade e experimentalismo que se vivia em Tacheles. Aquele ambiente caótico e apocalíptico era magnético. Tacheles criou uma visão criativa anarquista, plena de liberdade social. Contudo, o que aquele espaço sempre contrariou, o mainstream e a racionalidade do capital, foi responsável pelo seu fim. Tacheles sucumbiu à marcha inexorável do capitalismo alemão.

Foi, no entanto, enquanto durou, uma experimentação do poder da imaginação, que ficará na memória colectiva durante anos. Por outro lado, criou tendências em espaços abandonados e ainda a salvo da gentrificação urbana. Exemplo disso é a RAW Gemalde, em Friedrichshain, um espaço igualmente caótico, mas pleno de experimentalismo e criatividade artística. Para além da arte urbana espalhada pelos antigos edifícios industriais, há espaços informais versáteis e permeáveis a qualquer uso.

 

 

 

 

 

Aquele espaço tanto se assemelha a um local fantasma, como no momento seguinte alberga um concerto, outro espectáculo, um evento de street food (na Neueheimat) ou outra coisa qualquer que crie uma dinâmica própria.
Bem próximo do Urban Spree, contíguo à RAW, numa noite gelada, quando regressávamos do Skatehalle Berlin, um skatepark indoor, uma fila de pessoas esperava heroicamente para entrar no Astra Kulturhaus onde iria actuar Skunk Anansie. É de surpresas e situações inusitadas que são feitos estes lugares, que emanam um charme apocalíptico contagiante.

 

 

 

 

Ainda em Friedrichshain, na Boxhagener Strasse, encontramos o Diary / Guestbook. Num dos lados do cinema Intimes, encontramos uma parede com uma profusão imensa de trabalhos. O nome Diary / Guestbook deve-se ao conceito de ser um espaço em permanente mudança.

 

 

 

 

Enquanto o poder económico não se sobrepuser, estes territórios sobreviverão.

 

Contudo, ironicamente, é o lado artístico e subversivo destas áreas que, por vezes, as valoriza e as torna apetecíveis. Conscientes disso, os intervenientes directos da produção artística urbana chegam a preferir destruir a sua arte de rua do que deixá-la contribuir para o processo de valorização e especulação do lugar. Foi o que aconteceu em Schlesisches Tor, Kreuzberg, onde Blu, artista italiano de street art, pintou de preto o seu mural  Take Off That Mask & Shackled By Time, o qual era considerado um dos murais mais emblemático de Berlim.
Apesar desta perda, Kreuzberg, Friedrichshain e Neukölln continuam a congregar diversidade e criatividade artística e a serem locais onde as tendências futuras da street art são gizadas. De tal forma que Berlim é considerada a capital mundial da arte urbana e os seus mais emblemáticos artistas têm ali a sua marca.
Não esquecer que Berlim tem o maior mural do mundo, os 1,3 km do Murro de Berlim, correspondente à East Side Gallery.
Do outro lado do rio Spree, em Kreuzberg, encontramos alguns dos nomes maiores da arte urbana, como Blu, com o seu Leviathan.

 

 

 

Também damos com o Yellow Man dos manos brasileiros Os Gemeos.

 

No outro lado da mesma rua com a obra Rounded Heads de Nomad.

 

Ainda em Kreuzberg, cruzamo-nos com Two Landscapes, de Agostino Iacurci, criado pelo 25º aniversário da queda do Muro e que representa os aspectos humanos da reunificação.

 

No início da Skalitzer Strasse fica a Nature Morte de ROA.

 

 

Também na Skalitzer Strasse o Astronaut de Victor Ash.

 

 

Em Neukölln, fica uma das obras do projecto The Wrinkles of the City! do francês JR.

 

 

Muitos outros artistas de street art têm a sua obra espalhada pela cidade. Talentos locais, como El Bocho, podem ser encontrados em Friedrichshain e em Hackesche Höfe.
Até espaços aparentemente mais arrumadinhos como a Hackesche Höfe, no Mitte, têm um recanto em que a liberdade de expressão artística tem todo o espaço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Berlim é o lugar. Para quem quer fazer obra artística e para quem, como eu, quer e adora admirar este  tipo de arte.
Não pensem mais.
Vamos voar até lá.
E dançar com a liberdade artística que ali se vive.

 

 

Potzdamer Platz – O Renascer do Centro Antigo

Nas Asas do Desejo (Wings of Desire), filme de Wim Wenders, vemos um grande baldio junto ao Muro de Berlim. É a Potsdamer Platz. Melhor, era a Potsdamer Platz dos anos 80, altura em que foi rodado o filme. Melhor ainda, foi a Potsdamer Platz do período entre a 2ª Guerra Mundial e os anos 90 do século XX.
 
 
Outrora, até à 2ª Guerra Mundial, esta parte da cidade foi uma área histórica cheia de vitalidade. Correspondia ao centro de Berlim e era ali que se concentrava o comércio e entretenimento. 
Com a 2ª Guerra Mundial, Berlim foi fortemente bombardeada e a Potsdamer Platz foi destruída em 80%. 
A partir de 1961, com a construção do Muro de Berlim, em que um troço passava mesmo ali, e durante 28 anos, até à sua queda, tornou-se ainda mais uma área abandonada e esquecida, por se localizar na faixa “morta” ou terra de ninguém entre Berlim Ocidental e Oriental.
Nos anos 90 iniciou-se a sua reconstrução (em 1998, quando visitei pela primeira vez Berlim, esta área estava um verdadeiro estaleiro), que culminou, no início do segundo milénio, com o aparecimento de uma nova paisagem urbana pós-moderna. Inclusivamente, a Potsdamer Platz, passou a ser a área que melhor reflecte a dinâmica da Berlim reunificada.
Este novo território congrega praças, escritórios, museus, cinemas, teatros, hotéis, apartamentos e concentra o talento de arquitectos como Renzo Piano, Rafael Moneo, Richard Rogers, Helmut Jahn, entre outros.
Foi neste território renascido, no restaurante Facil (2 estrelas Michelin), inserido no The Mandala Hotel, que tivemos recentemente o prazer de fazer uma óptima refeição com Meryl Streep. O hotel e restaurante estão inseridos numa das três secções da Potsdamer Platz, a DaimlerCity, que congrega hotéis, centros comerciais, entretenimento, nomeadamente a gala da Berlinale, que decorreu durante a nossa estadia, daí a presença da Meryl.
 
 
 
Nesta secção podemos encontrar também arte pública, designadamente esculturas de Keith Haring, Robert Rauschenberg e Mark Di Suvero.
 
‘Boxers’ de Keith Haring
 
“Galileo” de Mark Di Suvero
 
É no sector da DaimlerCity que fica o Grand-Hyatt Hotel da autoria de Rafael Moneo e o edifício de comércio, escritórios e habitação desenhado por Richard Rogers.
 
 
 
Na DaimlerCity fica ainda o número 1 da Potsdamer Platz, a Kollhoff Tower do arquitecto Hans Kollhoff.
 

 
Para além de ser a sede de inúmeros e prestigiados escritórios de advogados, alberga a Panoramapunkt, um miradouro a 100 metros de altura, de onde se tem óptimas vistas sobre a cidade. Para aí se aceder sobe-se no elevador mais rápido da Europa.
Ainda a repormos o equilíbrio perdido com a velocidade estonteante do elevador, avistamos do topo a Casa das Culturas do Mundo, de Hugh Stubbins, no Tiergarten. 
 
 
A cúpula do Sony Center e o edifício dourado da Filarmónica de Berlim.
 
 
O edifício da Deutschen Banh e o Reichtag.
 
 
O Memorial do Holocausto.
 
 
A Leipzig Platz.
 
 
A Berliner Ferbsehturm, ou Torre da Televisão, e a área da Alexander Platz e da Ilha dos Museus, com a cúpula da Catedral de Berlim.
 
 
À frente da Kollhoff Tower, fica uma réplica do semáforo mais antigo da Europa, que teve como primeira morada este local.
 
 
As outras secções da Potsdamer Platz são o Beisheim Center e o Sony Center.
 

 
À frente do Beisheim Center fica a entrada principal da estação de comboio Bahnhof Potsdamer Platz e alguns segmentos do Muro de Berlim.
 

 
 
Mais segmentos do Muro são possíveis de encontrar junto ao Sony Center e à Liepzig Platz.
 
 
A cúpula da praça central do Sony Center, desenhada por Helmut Jahn, é provavelmente o elemento mais icónico da Potsdamer Platz. Inspirada no Monte Fuji, é feita de vidro e aço e rompe céu acima, pelo que é visualmente muito forte.
 
 
 
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Na secção do Sony Center localiza-se também, entre outros elementos, o edifício dos escritórios da Deutsche Bahn.
 
 
 
Apesar do conjunto de constelações do mundo da arquitectura parece-me que este território não é tão extraordinário como poderia ser. Apesar de um espaço público de qualidade, a área não respira de tanta concentração e densidade de edifícios. Tirando um ou outro edifício, quase que é impossível apreciar as obras de arquitectura aqui instaladas. 
Contudo, não restam dúvidas que esta nova Potsdamer Platz voltou a dar muita vitalidade a esta área da cidade, que, tal como no passado, voltou a ser uma das centralidades de Berlim.

Reichstag – O Símbolo da Alemanha Reunificada

O Reichstag é atualmente um dos maiores ícones de Berlim.
Porém, para chegar aos dias de hoje já passou por muito. Foi alvo de um incêndio, bombardeado, deixado ao abandono, reconstruído, envolto em tecido, renasceu como símbolo maior da reunificação e, por fim, transformou-se na morada principal do Parlamento Alemão (Bundestag). Tudo por ordem cronológica.
 
 
O edifício foi construído no final do século XIX, quando a Alemanha ainda era uma monarquia constitucional conhecida como Deutsches Reich. Foi a sede do Parlamento Alemão entre 1894 e 1933 , ano que a cúpula original feita de aço e vidro – considerada muito avançada à época – foi destruída por um incêndio.
Os nazis instrumentalizaram o incêndio para destruir as garantias de um Estado de direito e reforçaram o seu poder ditatorial. 
Entretanto durante a 2ª Guerra Mundial o edifício foi bombardeado. Mais tarde, em 1945, os soviéticos hastearam a bandeira vermelha numa cornija no alto do Reichstag. A fotografia desse momento histórico, captada por Yevgeny Khaldei, ficou famosa e simbolizou a derrota nazi.
 
 
Em 1960 o edifício foi reconstruído, para um ano depois, com a construção do Muro de Berlim, ficar numa posição peculiar, mesmo junto à fronteira entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental. Apesar de se situar no lado ocidental, até à queda do Muro ficou sem nenhuma função e apenas como símbolo da fractura política e da falta de perspectivas.
No final dos anos 80, quando se começava a denunciar o fim da Guerra Fria, artistas de renome como David Bowie, Pink Floyd, Michael Jackson tocaram ali.
Já depois da queda do Muro e da reunificação, os artistas Christo e Jeanne-Claude ,em 1995,  embrulharam o edifício com um pano prateado. Esta estrondosa intervenção pretendeu simbolizar o arranque da nova Alemanha, já que após o término desta obra artística, começaram os trabalhos de renovação do Reichstag como a nova sede do Parlamento Alemão, na sequência de Berlim ter novamente voltado a ser capital.
Assim, em 1999, o Reichstag volta a ser de novo a sede do Parlamento, agora com outra imagem, e âncora do novo bairro do Governo Federal construído depois da reunificação.
É a partir dessa data que no skyline de Berlim passa a existir um novo símbolo, a cúpula de vidro do Reichstag, desenhada pelo britânico Norman Foster. Foster preservou o edifício do século XIX, mas fez uma intervenção arquitectónica futuristica na forma e na essência. Um conjunto de preocupações de eficiência energética estão por trás deste magnífico projecto.
 
 
É possível visitar a cúpula, assim como a sala do Parlamento mediante marcação prévia e, no caso desta última, com visita guiada.
Visitámos só a cúpula. Que já dá para encher as medidas. Esta visita permite admirar as vistas sobre a cidade, aprender sobre o edifício e sobre os elementos marcantes da envolvente.
 
 
Ainda assim, adicionalmente, passamos por algumas partes do edifício e deslumbrado-nos com a qualidade arquitectónica e artística que contém. 
Logo à entrada damos com uma obra de Gerhard Richter. Trata-se de uma composição multicromática de 21 metros de altura por três metros de largura, com as três cores da bandeira da Alemanha. Obra muito elegante e denunciadora do que viria a seguir.

Subimos de elevador e chegamos à base da cúpula. Acompanhados do autoguia, iniciamos a subida de 230 m da rampa em espiral, que se desenvolve à volta de um cone envidraçado que foi criado para desviar a luz natural para a sala do plenário, que fica abaixo da cúpula. Como metáfora da transparência e abertura política, da cúpula é possível ver as actividades que se desenrolam na sala do plenário.
 
 
 
 
Enquanto subimos a rampa, e nos maravilhamos com a arquitectura da cúpula, vamos recebendo informação sobre o edifício e a envolvente urbana. Aproveitamos também para ver as vistas. De um lado avista-se o elegante edifício da Casa das Culturas do Mundo e o amplo Tiergarten, despido e em tons secos por aqueles dias invernosos.
 
 
Doutra perspectiva vê-se também o Tiergarten e a Potsdamer Platz com a cúpula do Sony Center e o edifício do Deutsch Bank.
 
 
Mais ao lado os vários edifícios do bairro governamental.
 
 
Também logo ali ao lado vê-se as Portas de Brandemburgo e o Memorial ao Holocausto.
 
 
Para leste a Catedral de Berlim, junto à Ilha dos Museus, e a Torre da Televisão, com o rio Spree a serpentear.
 
 
 
Apesar do dia chuvoso as vistas são contagiantes.
Chegando ao topo percebemos que a cúpula é aberta, tudo por questões de eficiência energética, já que, por exemplo, a água da chuva é aproveitada para a refrigeração do edifício e o ar viciado sai pela cúpula.
 
 
 
Sentimos que o rigor alemão só poderia ter como casa governamental uma obra arquitectónica tão rigorosa e completa como esta.
 
 
 
Enquanto lá fora o frio marca presença com temperaturas seguramente abaixo dos 0 graus, mesmo por baixo da cúpula uma senhora asiática joga com os graus ao colocar o seu corpo em ângulos impossíveis, tudo em nome de uma fotografia.
 
 
Desço a pensar que a natureza humana é extraordinária. É capaz de enfrentar os maiores desafios e de alcançar os melhores feitos e criações. 
Bravo Sir Foster. 
Bravo Senhora Asiática.

Museu Judaico

O Museu Judaico de Berlim, aberto em 2001, mostra na sua exposição permanente dois milénios de história judaico-alemã.
O Museu é composto por dois edifícios, um antigo, que alberga a área de recepção do museu, salas de exposições temporárias, a loja e o restaurante, e uma construção recente, onde se encontra a exposição permanente.
O edifício mais recente é uma obra de Daniel Libeskind, arquitecto de origem polaca e filho de judeus sobreviventes do holocausto. Trata-se de uma obra arquitectónica impressionante. Não só o exterior, mas sobretudo o interior, um espaço repleto de significados e simbolismos, onde a arquitectura recria atmosferas em ligação directa com a temática patente no museu.
Foi a história dos judeus na Alemanha, a perseguição e o holocausto que inspiraram Libeskind.
O edifício revestido em chapas de zinco expõe a dureza e rigidez do metal. Caracteriza-se por poucas aberturas para o exterior, sendo que as existentes constituem cortes estreitos em formatos diferentes. Essas aberturas representam a Estrela de David estilhaçada, isto é, Libeskind transformou o signo maior da cultura judaica num símbolo de fracturação e sentimento de revolta em relação à barbárie sofrida pelos judeus.
O edifício de Libeskind, apesar de só de uma perspectiva aérea se perceber, tem uma forma em ziguezague.
No interior após descermos as escadas que ligam o edifício antigo ao novo deparamo-nos com três eixos que se cruzam. Estes eixos correspondem a três momentos da história dos judeus na Alemanha: o “Eixo do Exílio”, o “Eixo do Holocausto” e o “Eixo da Continuidade”.
O “Eixo do Exílio” é um percurso inclinado, com paredes também inclinadas, que se vai estreitando e que tem expresso nas paredes as várias cidades do mundo que serviram de exílio aos judeus. Esse eixo culmina numa porta pesada que conduz ao “Jardim do Exílio”, que é um jardim externo caracterizado por um espaço inclinado, composto por 49 blocos de cimento ponteados no topo por árvores Elaeagnus, as quais pretendem representar as oliveiras, as quais por causa do frio não podem ser cultivadas na Alemanha.
Nesse espaço não é possível ver o que se passa ao redor, apenas sentir os barulhos e  movimentos da rua. No conjunto o espaço procura provocar instabilidade e desorientação, sentimentos que os judeus sentiram com a expulsão. As árvores no topo dos blocos aumentam a sensação de um espaço inatingível, mas simultaneamente deixam alguma esperança, até porque segundo a tradição judaica as oliveiras simbolizam paz e esperança.
O número 49 homenageia o ano de fundação de Israel, 1948, que somado ao último pilar do meio, que representa Berlim, totaliza aquele número.
O “Eixo do Holocausto” é um caminho que também se vai tornando cada vez mais estreito, acentuado, escuro e conduz igualmente a uma pesada porta, onde do outro lado está a “Torre do Holocausto”. Trata-se de um espaço com cerca de 20 metros de altura, fechado, vazio, frio, escuro, com apenas uma pequena abertura no tecto por onde entra uma ténue fresta de luz. Quando a porta se fecha fica a sensação de solidão, desconforto, medo e abandono, sentimentos representativos da existência dos judeus na vida e na história de Berlim.

 

O recurso a corredores estreitos, entre paredes cegas, no “Eixo do Exílio” e no “Eixo do Holocausto” pretende transmitir a sensação de repressão e opressão sofrida pelos judeus. Por outro lado, a força contida nas paredes transmite a ausência de liberdade de seguir outro caminho e a incógnita do futuro.
Ao longo destes dois Eixos cruzamo-nos com elementos expositivos que contam a história de quem foi tanto para o exílio como para campos de concentração.
O “Eixo da Continuidade” começa como os outros dois, mas é mais longo e na parte final transforma-se completamente, pois o tecto torna-se muito alto e desemboca numa escadaria enorme, que à medida que o visitante a sobe apercebe-se das vigas de betão que se cruzam. Este eixo simboliza a continuação da história e o caminho da superação dos outros eixos, mas com consequências, feridas e cicatrizes, expressas pelas diversas vigas que rasgam de forma assimétrica.
A escadaria conduz à exposição permanente e a uma das instalações com mais impacto no museu.
No interior do museu existem cinco corredores lineares, que são chamados de voids (vazios) pois são marcados pela ausência e ladeados de paredes despidas. Estes vazios são uma analogia aos vazios criados pela destruição da vida dos judeus na Europa, onde muitos sucumbiram no holocausto.
Num desses vazios, o único acessível, chamado “Memory Void”, situa-se a instalação “Shalekhet” (“Folhas Caídas”) do artista israelita Menashe Kadishman. Trata-se de um chão coberto por 10 mil rostos de metal, todos diferentes, que quando pisados por quem percorre este espaço chocam uns contra os outros e provocam um barulho sinistro que se propaga pelo espaço. Pisar os rostos é angustiante e coloca-nos também como parte responsável pelas atrocidades provocadas pela sociedade.

 

Nesta obra o artista procurou homenagear não só os judeus mas todas as pessoas que já sofreram por causa da violência.
No piso de cima, a área de exposição permanente apresenta um formato tradicional e o edifício deixa de ser o protagonista. Esta área é vasta e apresenta a vida dos judeus na Alemanha desde  tempos remotos à actualidade, bem como a sua contribuição intelectual, económica e cultural. Cartas, fotografias, documentos variados, vídeos, dispositivos interactivos, peças de roupa, mobiliário, tudo serve para transmitir as tradições e cultura judaica.
No conjunto, edifício e exposição, é oferecido uma sucessão de sensações que oscilam entre a opressão, desconforto e desconcerto. Contudo, é sobretudo o edifício, pela experiência sensorial que permite, a obra mais significativa do Museu.

Memorial do Holocausto

Desde 2004, as Portas de Brandeburgo passaram a ter como vizinho o impressionante Denkmal für die ermordeten Juden Europe (Memorial dos Judeus Assassinados na Europa), convencionalmente conhecido por Memorial do Holocausto.
Este memorial aos judeus vítimas do Holocausto, concluído em 2004 e inaugurado em 2005, pelos 60 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, foi desenhado pelo arquitecto americano Peter Eisenman.

 

Corresponde a 19 000 m2 de um terreno coberto com 2711 blocos de cimento – semelhantes a sarcófagos, com as mesmas dimensões horizontais mas com alturas diferentes, distribuídos por uma grelha rectilínea, mas ainda assim labiríntica.
 

Para além desta parte escultórica, o memorial inclui também um centro de informação. 
A intenção de Eisenman, na minha opinião muito conseguida, foi criar uma atmosfera que provocasse um sentimento de confusão, desorientação e inquietude.
 
 
 
O conjunto, austero e frio, visa assim representar um sistema supostamente ordenado mas que perdeu o contacto com a razão humana.
O memorial foi alvo de várias críticas durante todo o processo. Desde a rejeição do projecto original ao escândalo da contratação da empresa de pintura anti-graffiti utilizada nos blocos de pedra, a qual está relacionada com uma empresa envolvida nas intenções nacionais-socialistas de perseguição aos judeus, nomeadamente na produção do gás utilizado para o extermínio dos judeus.
Algumas das críticas ao projecto apontam que o mesmo devia incluir o nome das vítimas, assim como o número dos mortos, os autores nazis e o lugar onde ocorreram as mortes, de forma a não encobrir o crime dos visitantes (alguma desta informação encontra-se no centro de informação).
Outros, como o crítico de arquitectura Nicolai Ouroussoff, consideram antes que o memorial consegue transmitir os horrores do Holocausto sem recorrer a sentimentalismos, mostrando como a abstração pode ser uma ferramenta mais poderosa para transmitir as complexidades da emoção humana.
Parece-me que o memorial, sem palavras, consegue transmitir isso mesmo.

O Muro de Berlim

A presença do Muro marcou Berlim de forma inegável. Actualmente parte das áreas por onde passava o Muro são alguns dos principais pontos turísticos da cidade.
Porém, a presença do Muro e a sua história é oferecida de formas diferentes. Se a East Side Gallery, em Friedrichshain, com o muro pintado por artistas, nos dá uma leitura leve, artística e mesmo divertida, não nos remetendo para o drama das quase três décadas de encarceramento da população da Berlim Oriental, já o Memorial da Bernauer Strasse, no bairro de Prenzlauer Berg, transporta-nos para o sofrimento e a barbárie daqueles tempos.
Na East Side Gallery, um troço de muro de 1,3 Km paralelo ao rio Spree, podemos ver a arte urbana desenvolvida por diversos artistas do mundo na sequência da queda do Muro.
A cor está presente e a temática expressa está intimamente relacionada com a história.
Um dos murais mais famosos é o beijo do líder soviético Brezhnev ao líder da RDA, Honecker, obra, de 1990, de Dmitri Vrubel designada My God, Help Me To Survive This Deadly Love.
Este graffiti reproduz o beijo icónico entre os dois líderes em 1979, aquando da celebração dos 30 anos da criação da RDA.
O mural do francês Thierry Noir é também considerado um dos mais icónicos. Noir foi, em 1984, o primeiro artista a pintar o Muro e aparece, inclusivamente, no filme de Wim Wenders Asas do Desejo, de 1987.
O Trabant, carro icónico da formação comunista da Alemanha Oriental, a rebentar pelo muro, obra de Birgit Kinder, é outra das pinturas mais conhecidas.
Mas muitas outras são fascinantes. Pena o estado de conservação que já obrigou a novas repinturas, processo polémico na medida em que nalguns casos não foram os artistas originais que as refizeram. Após esse restauro, algumas das pinturas estão actualmente protegidas por gradeamentos, o que retira muito do encantamento do espaço.
Noutras partes da cidade é também possível ver vestígios do Muro, como na área envolvente à Potzdamer Platz.
Mas é na Bernauer Strasse onde mais se sente o Muro como ele foi.
A Bernauer Strasse foi uma das ruas em que um lado fazia parte de Berlim Ocidental e o outro de Berlim Oriental.

 

A intervenção museológica ali feita é extraordinária. O Gedenkstätte Berliner Mauer, para além de um centro de documentação, de um fantástico centro interpretativo, inclui um percurso interpretativo ao longo de toda a rua (cerca de 1,4km) com elementos explicativos que nos permitem perceber a evolução da construção do Muro, a transformação ao longo dos anos daquela parte da cidade com a construção de um muro ainda mais intransponível devido à cegueira crescente de quem mandava, assim como entrar em algumas histórias pessoais de quem tentou atravessar o Muro.
Por vezes percorrendo Berlim damos por nós a questionar a que Berlim pertencia aquele território. Marcas subtis no pavimento ajudam a responder.
Porém, na Bernauer Strasse, através de uma instalação extraordinária e de grande sensibilidade é perceptível com nitidez como era feita a divisão do território. Ao mesmo tempo em que em alguns troços permanece a presença do Muro, na maioria da extensão da rua foi colocada uma instalação semelhante às cofragens dos muros no lugar onde este passava. Estes elementos dão-nos a noção de barreira, mas simultaneamente oferecem a transparência e possibilidade de atravessamento que o Muro durante décadas não permitiu.
Não há como não nos revoltarmos, chocarmos e emocionarmos ao termos acesso aos relatos de quem viveu esta situação na primeira pessoa. Seja por estar impedidos da natural liberdade, por familiares estarem impedidos ou por os vizinhos do outro lado da rua estarem.
Choca saber que de um lado da rua alguém tomasse livremente banhos de sol no seu jardim ladeado pelo muro e no outro uma multidão estivesse na fila para aquisição do racionamento definido nas lojas do povo, como mostram os registos fotográficos do centro de interpretação.
Impressiona também que o Muro tenha dividido o sistema de transportes, contribuindo para que algumas estações de metro tenham virado estações fantasmas, porque remetiam para território oriental. É o caso da estação Nord-bahnhof S-Bahn, que dá acesso à Bernauer Strasse. O metro passava, mas não parava nestas estações altamente patrulhavas por guardas de fronteira da RDA.
Mas não há como não nos emocionarmos com imagens, algumas implantadas nas empenas dos edifícios, como a do soldado a saltar a barreira de arame farpado ou também com os registos da queda do Muro e termos vontade de ter estado naquele momento histórico junto das pessoas que sofreram e lutaram anos pela queda daquela vergonha da humanidade.

 

 

Como não compreender que após a declaração da queda do Muro, muitos insistissem saltar o mesmo em vez de passarem por partes já derrubadas. Provavelmente naquele momento, para muitos, foi a concretização do acto de transgressão desejado durante anos a fio.
Por outro lado, como não fazer um sorriso irónico e pensar que quem lidera o mundo é patético. Sobretudo,  quando nos primeiros metros após o Checkpoint Charlie (que virou uma palhaçada turística), onde antes, de 1961 a 1989, a partir daquele ponto até Vladivostok o controlo era totalmente soviético e hoje está instalado um McDonald’s, um dos maiores símbolos do mundo capitalista.

 

 

É nesse momento que me questiono, porque razão a humanidade não aprende com os erros do passado.