5.º Dia em Lanzarote

Domingo é dia de mercado artesanal em Teguise, antiga capital de Lanzarote. Como outros milhares de turistas, seguimos para lá em romaria matinal. Um grupo pequeno de locais passa cantando, numa espécie de rancho com vestes e instrumentos musicais típicos. Mas a partir daqui é só tendinhas e mais tendinhas, umas com artesanato e roupas mais originais e autênticas do que outras, sem grandes pechinchas. Para mim duas palavras descrevem as idas a estes sítios: estafa penosa.
Como este mercado de domingo ocupa quase por inteiro as ruas de Teguise, acabamos por não conhecê-la, digamos, limpa.

Perto de Teguise fica LagOmar, também conhecida como a Casa de Omar Sharif. Conta a lenda que esta casa foi encomendada por um promotor imobiliário inglês a Jesus Soto, um discípulo de César Manrique. Omar veio filmar a Lanzarote, viu a casa, deslumbrou-se por ela e comprou-a. Pouco tempo depois perdeu-a para o mesmíssimo promotor num jogo de bridge. Depois disso a casa já teve vários proprietários, até que nos anos 80 um casal de arquitectos a comprou e decidiu acrescentar-lhe um restaurante e abri-la ao público com o objectivo de fazer do espaço um misto de ponto arquitectónico, gastronómico e artístico, acolhendo lá exposições.
Mas por quê tanto interesse numa casa privada?
Bom, se as obra de César Manrique deslumbram qualquer um, este seu discípulo, antigo electricista no cabildo local, e seu companheiro de muitas obras, não faz por menos. Esta casa LagOmar aproveita a rocha onde está encostada para nela adentrar e criar ou varandinhas ou pequenos espaços de prazer. É um puro delírio de forma e de estética que atiça todos os nossos sentidos. Por mais que tente, não consigo esquecer aquela sala de terceiro andar rasgada por uma larga janela circular com vista para alguns dos cones da ilha. Oh supremo azar ao jogo!

Com esta visita à Casa LagOmar terminamos o périplo pelo que queríamos realmente visitar nesta primeira ida a Lanzarote. E, ao 5.º dia, conseguimos acabar as visitas a meio da tarde, pelo que, agora vou dar um mergulho… na piscina. A praia fica para amanhã de manhã, sem falta, para a última oportunidade de um banho no Atlântico quase com vista para África antes de rumar de volta a Lisboa.

Entretanto, e na saída para jantar rumo ao Teleclub de Marchér, a névoa ainda deixava ver as montanhas a recortarem o céu, como uma pintura de linhas bem visíveis e perfeitas, com o sol, grande e redondo, por companhia. Não poderia haver melhor postal de Lanzarote para ficar como última memória.

4.º Dia em Lanzarote

Este dia seguimos para sudoeste rumo às praias da Punta del Papagayo, no Monumento Natural los Ajaches. A entrada de carro por aqui é paga e uma estrada de terra batida vai-nos distribuindo por várias praias, algumas delas, como a do Papagayo, pequeninas e encravadinhas numa baia.

Aí perto fica Playa Blanca, uma estância turística como Puerto del Carmen ou Costa Teguise, mas com muito melhor ar.

Subindo a norte, ao fim de uns poucos kms vamos dar às Salinas de Janubio, com rectângulos de salinas com cores para todos os gostos, e a uma praia de mesmo nome de areia preta, cortesia da lava.

Logo acima seguem-se Los Hervideros onde o mar, a lembrar a Boca do Inferno para os lados de Cascais, bate duramente nas rochas. Mas aqui o que acontece é que a água tem por oponente a lava e, principalmente, as várias covas que esta formou em terra. Visto de cima é como se fosse um labirinto de rocha de lava onde a água tem de procurar o melhor caminho para se poder aninhar ou, quando não o consegue, nele esbarrar furiosamente, como um castigo.

Mas o castigo transforma-se em idílio e encantamento poucos kms ainda mais acima. El Golfo é um daqueles milagres da natureza difíceis de acreditar e de entender. Numa praia de areia pretíssima a relação do mar com uma cratera criou uma lagoa de água amarela (ou verde). Como se já não fosse suficiente desejarmos ficar o dia todo a olhar para esta maravilha verde (ou amarela), o cenário dá-nos ainda uma montanha com formas incríveis e cores avermelhada para compormos a nossa pintura mais que perfeita.

E por falar em crateras, voltemos ao castigo com um desvio para o interior da ilha rumo ao que muitos comparam ao diabo: as Montanas del Fuego Timanfaya, a maior atracção de Lanzarote e o segundo Parque Nacional mais visitado de Espanha (atrás do P.N. do Teide, na vizinha Tenerife).
O símbolo do Timanfaya é o diabinho criado por César Manrique, que foi também o responsável pela criação da Ruta de los Volcanes e do restaurante El Diablo, edifício em circulo que faz também as vezes de mirador. Todavia, nunca pensei neste cenário e nesta paisagem como um inferno. Talvez porque nunca me tenha colocado na posição dos habitantes da ilha que, entre 1730 e 1736, testemunharam e sentiram na pele os efeitos e consequências da enorme erupção vulcânica que deixou um quarto da ilha sob lava e cinza. Talvez uma boa tentativa para entender melhor o horror seja ler a crónica que nos deixou o padre de Yaiza, vilarejo próximo. Mas, para mim, este deserto de lava interrompido insistentemente por montanhas formosas e coloridas e uma milagrosa vegetação aqui e ali, onde a vida humana perseverou e ganhou, é encarado como uma beleza impar que me deixa em paz absoluta.
A visita ao parque é efectuada num circuito circular de 14 kms, a tal Ruta de los Volcanes, com a estrada plenamente enquadrada no meio ambiente, utilizada em exclusivo por um autocarro do Parque. Infelizmente, ainda que para melhor preservação, não nos é permitido descer do autocarro e gastarmos o tempo a nosso belo prazer nas montanhas e, eventualmente, caminhar por dentro das crateras ou subir a um vulcão. Mas dentro do autocarro fazemos tudo isso e a paisagem acaba por ser quase tudo (quase, porque, ainda assim, não me conformo).
A lava assume várias formas, umas tão altas que parecem uma torre com uma janela no topo, outras que mais parecem raízes ou longos dedos que se vão arrastando pelo terreno.
Mas as montanhas são o que deslumbram. Enquanto a lava foi tomando tudo à volta, vemos muitas montanhas / crateras com uma terra de várias cores que parece tão macia e fina que quase as confundiríamos revestidas com um tapete. Algumas estão decoradas com vegetação rasteira que se vai sobrepondo ao poder da lava, outras com uma espécie de bolhinhas vermelhas que mais parecem escamas na sua pele.

Aqui perto ficam os povoados de Yaiza e Tinajo, com casas brancas, como sempre, e sempre cuidados. Os arranjos exteriores, pode já concluir-se depois de uma volta a grande parte da ilha, nunca são descurados e as aldeias, vilas ou cidades possuem sempre encanto, seja por uma praça, um jardim, uma igrejinha, uma ermida ou tão só pelo seu bom ordenamento.

Ainda perto do Timanfaya fica outra das surpresas de Lanzarote: os campos de vinha do Vale de la Geria. A terra preta é envolvida em círculos de pedra basáltica recheados de vinha, dando um efeito lindíssimo o contraste do verde desta com o preto da areia. No entanto, apesar de esteticamente resultar na perfeição, esta técnica tem motivos mais práticos como o de proteger a vinha do vento e do forte sol, servindo a cinza para impedir a evaporação da água.

Antes da Geira, porém, ainda tivemos tempo de voltar à costa, desta vez para uma ida até La Santa, terra sem grande graça a não ser pelas condições para o surf e pelo centro desportivo que lá está instalado. A mana ficou roidinha por não se atirar às ondas com uma prancha e eu não fiquei melhor a ver o pessoal a pedalar as suas bicicletas, certamente em treino para a prova de triatlo do dia seguinte em Arrecife. Tivesse tido o cuidado de ver o calendário das provas e ainda tinha ido conhecer a capital de uma outra forma. A ver se pelo menos amanhã temos tempo para um mergulho em qualquer zona da costa.

A Casa

Pertinho dos apartamentos onde ficamos em Matagorda, Puerto del Carmen, fica Tias, a terra que José Saramago escolheu viver no seu exílio voluntário de Portugal. Há pouco tempo abriu a visitas ao público “A Casa”, integrada na sua fundação. Quando nos anos 90 para lá foi viver havia apenas duas casas e das traseiras da sua podia caminhar até à Montanha Blanca sempre a direito. Hoje, e certamente desde há já uns anos, teria de contornar umas quantas casas para poder sequer ficar face a face com a dita montanha. Não deixa, no entanto, de ser um lugar aprazível, num ponto alto da ilha, e a Casa, ainda que não muito grande, é cómoda e agradável, com um jardim muito simpático, com flores e alguns cactos.

À entrada, no hall, vemos uma série de livros, sobre cozinha, ervas aromáticas, provérbios chineses, um pouco de tudo. Até 2005, data em que foi criada a Biblioteca de Saramago, num edifício do outro lado da rua, os livros estavam espalhados por toda a casa. Agora também, mas não aos magotes, nem no chão nem no tecto. Ainda no hall, referência da guia que nos conduziu na visita para as muitas peças sacras visíveis – o escritor não era um homem religioso, mas era interessado nas religiões – e para a colecção de cavalos deste ribatejano que em pequeno, sem posses, não pode nunca montar.
E eis que, de repente, entra em casa Pilar del Rio com um ramo de antúrios; dando os bons dias, passou rapidamente para a cozinha onde, momentos depois, já sem ela, nos iria ser oferecido um café portuguesíssimo – Delta. No escritório de Saramago pudemos observar algumas fotografias de outros escritores e da sua família, bem como quadros, livros, cds, vídeos e alguns objectos pessoais. Aí a guia, depois de referir Almeida Garrett como uma influência de Saramago, deu o livro Levantado do Chão para a mana ler a passagem de Garrett que aí consta. Como esta, tímida e com receio que todos descobrissem o seu segredo de que não sabe juntar as palavrinhas, pelo menos em público, passou-me de imediato o livro e coube-me a mim a emoção de ler para mais 11 pessoas na casa de um Nobel da literatura. Chuinc, até me vem uma lágrima ao olho.

Vista a casa que faz parelha com outra pertencente à irmã de Pilar, atravessamos a rua e entramos na Biblioteca, onde funcionam os serviços da Fundação e existem milhares de livros divididos por secções escolhidas por Saramago, incluindo uma secção dedicada a livros escritos por mulheres. Foi uma visita deveras interessante, e não só por ser uma leitora de Saramago, que leu com entusiasmo Levantado do Chão, despachou com gosto Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, achou que o filme Ensaio Sobre a Cegueira já é uma bosta mas ao lado do livro nem sequer merece viver, e que se emociona à simples referência a Josefa, sua avó, numa carta. O homem José Saramago não me despertava nem mais nem menos do que um sorriso: exagerado em algumas opiniões, actualíssimo e justo noutras. Quanto à sua mulher Pilar, a mesma não me desperta qualquer inveja, antes simpatia, mas nela não me agrada a ausência de esforço em falar português, mesmo quando comenta na televisão portuguesa. Em resumo, estaria, ou estou, mais para fã do casal do que para sua opositora, dai que seria quase um crime vir a Lanzarote e não conhecer parte da vida e obra de um dos dois únicos portugueses premiados com o Nobel.

3.º Dia em Lanzarote

Iniciamos o dia na “Casa” de José Saramago, cujo relato da visita deixo para post autónomo. Depois de sairmos de Tias seguimos para a Fundação de César Manrique em Taro Tahíche. Curiosamente, quando Saramago chegou a Lanzarote para lá se instalar, o grande nome da ilha havia falecido há pouco e, por isso, não se chegaram a cruzar. Saramago como que veio assim a preencher o lugar vazio de guardião do bom urbanismo e equilíbrio com a natureza no desenvolvimento da ilha, sucedendo de alguma forma a Manrique (e na “Casa” de Saramago podemos mesmo ver um quadro de Manrique).

Esta Fundação está instalada no que foi a própria casa do artista e abriu portas em 1992, meses antes da sua morte. O lugar, no seguimento das anteriores obras que lhe vimos, é pleno de aproveitamento dos contrastes da ilha. Construída num campo de lava, o edifício branco é muitas vezes invadido pela lava, com as janelas a mediarem o combate. Se o houvesse, porque tudo aqui é extremamente pacífico e equilibrado.

No piso inferior vemos o aproveitamento dos buracos criados na terra pela lava, as “borbulhas”, umas decoradas com mobiliário, designadamente sofás e mesas, brancos, outros vermelhos, outro ainda com as paredes em preto. Tudo espaços para serem vividos, seja a confraternizar com amigos, seja sozinhos com nós mesmos (ou Manrique sozinho, que parece que já estou a fazer da sua casa minha), com um buraco natural no tecto que deixa entrar a luz suficiente mas, incrivelmente, mantém a área fresca.

Ainda neste piso baixo encontramos um espaço para o barbecue e uma piscina luminosa, aproveitando o contraste do branco branquíssimo e do azul azulíssimo. Nas demais salas, uma no piso inferior e outras no superior (onde ficava a sala, dormitório e cozinha) encontramos pinturas de Manrique e outros artistas pertencentes à sua colecção privada. À parte os quadros, impossível não nos deixarmos deslumbrar com os cortes nas paredes com a introdução de janelas que criam um prolongamento do espaço rumo à montanha e à terra de lava.

Se não tivéssemos tido já provas bastantes de que a arte do homem e a arte da natureza podem conviver lado a lado nesta ilha, teria-mo-la na costa de Famara, a poucos minutos de carro desde a obra arquitectónica do grande artista da terra.
Aqui nesta praia no lado noroeste existe um montão de lojas e escolas de surf, mesmo se as condições neste dia não estavam grande coisa. Mas existe também uma simpática pequena vila, Caleta de Famara, com casas de pescadores ou de veraneio mesmo junto ao mar, onde se come umas boas lapas e mexilhões. Tivesse um dia de sol sem nuvens e a vista para o Risco de Famara, uma espécie de montanha em precipício, e para o braço El Rio seriam soberbas.

De volta para o centro da ilha passamos pelo Museu do Campesino e seguimos para as praia da muito sem graça turistica Costa Teguise, a não ser pelas boas condições para o windsurf.

Para o fim da tarde ficou a visita a Arrecife, capital de Lanzarote. Para ver, o Forte de San José, onde está instalado o Centro Internacional de Arte Contemporáneo, com poucos quadros em exposição, mas com um bar / restaurante com mobiliário e vistas bonitas para o porto. Mais uma vez, o impulso desta adaptação do forte a museu foi de César Manrique.

Arrecife é pequena e a zona central fica junto ao Charco de San Ginés, reentrância do mar na cidade, com os barquinhos pequeninos dos pescadores a colorirem esta espécie de baia. Existe ainda um outro forte, o de San Gabriel e, um pouco mais à frente, a praia citadina de Reducto.

César Manrique

Apenas dia e meio em Lanzarote e é já imediata a conclusão da importância de um homem para o equilíbrio que se vê e sente aqui entre a natureza e a arte.
César Manrique nasceu e viveu em Lanzarote, com um interregno em Nova Iorque, até ao final da sua vida, o que aconteceu em 1992, com 73 anos. Este pintor, escultor, arquitecto, urbanista e ecologista foi o grande impulsionador do desenvolvimento sustentável e equilibrado da ilha, não se vendo os tamanhos disparates e atentados que existem em tantos outros pedaços virados maioritariamente para o turismo. Para além disso deixou a sua arte um pouco por todos os cantos e faz com que seja mais fácil encantarmo-nos por Lanzarote.
Exemplos de intervenções arquitectónicas e urbanísticas de César Manrique em Lanzarote:
1968 – Jameos del Agua
1968 – Taro de Tahíche
1969 – Casa del Campesino
1970 – Restaurante el Diablo (Parque Nacional Timanfaya)
1973 – Mirador del Rio
1974 – Castillo San José – Museo Internacional de Arte Contemporáneo
1990 – Jardin de Cactus

Para além disso criou ainda uma imagem marcante para estas atracções turisticas