2.º Dia em Lanzarote

No segundo dia, já com o carro alugado na véspera, saímos rumo a norte para conhecer a ilha. Fomos em direcção aos Jameos del Agua, talvez a maior atracção de Lanzarote juntamente com o Timanfaya.

Os Jameos são consequência da erupção do Vulcão de la Corona, a qual criou um túnel que formou várias aberturas na terra – os Jameos, aberturas derivadas do desprendimento parcial do tecto deste túnel. O nome Jameos del Agua deve-se a um inesperado lago que se encontra dentro do túnel. Depois de ao nível da terra descermos para uma espécie de cova onde se encontra instalado um restaurante, descemos mais um pouco e aparece-nos uma massa de água numa outra espécie de cova com aberturas no tecto. A cor da água já é fantástica, mas com a luz do céu a entrar pelas estreitas fissuras, então, incandesce-nos de tão sobrenatural que se torna o cenário.

Luminoso é talvez a palavra mais acertada para descrever o fenómeno que toma este lago pejado de pequeníssimos caranguejos cegos e albinos. Depois de o atravessarmos por um caminho lateral, subimos até à superfície e ficamos frente a frente com uma piscina azul, pintada de um branco vivíssimo a toda a volta e rodeada de um jardim luxuriante de cactos, palmeiras – com destaque para a palmeira deitada – e outra vegetação, num projecto arquitectónico e paisagístico de César Manrique. Falta dizer que esta piscina e esta floresta estão encravadas na rocha escura vulcânica, o que, uma vez mais, trás ao de cima os contrastes na paisagem de que Lanzarote é pródiga, ou não estivesse ainda o mar do Atlântico mesmo ali à espreita.
Para além deste plateau da piscina há um auditório deslumbrante no interior de uma gruta, onde graças à sua especial acústica se apresentam concertos e peças de teatro e ballet. Não é fácil deixar este local, onde a natureza e a arte humana andam de mãos dadas.

Mesmo ali ao lado fica a Cueva de los Verdes, também consequência da erupção do La Corona e do túnel então formado. São seis kms que correm em direcção ao mar, mas a visita ao sítio resume-se a uma caminhada de cerca de um km pelas entranhas da terra. Ao contrário das outras grutas de lava, esta não é húmida nem aqui se formaram estalactites ou estalagmites. Apesar das várias cores que a rocha aqui toma, o verde é uma das que não encontramos. O nome da cova deriva de uma família de pastores que para ali costumava ir pastar o seu rebanho, família esta que era conhecida por “os verdes”. E assim ficou o nome da cova, que já foi em tempos refúgio dos habitantes de Lanzarote para se protegerem dos piratas no século XVII. Mas o mais surpreendente aqui é quando nos acercamos do que só pode ser um altíssimo buraco / precipício, onde discernimos claramente lá para baixo as várias formas e tonalidades das rochas; até que o guia lança uma pedra em sua direcção e, em vez de esperarmos uma eternidade até que a dita pedra caia no fundo imenso do dito buraco, ela esbarra imediatamente na água de um, afinal, laguinho. Uma ilusão óptica perfeita que é uma surpresa perfeita para terminar esta aventura pelo interior da terra.

O almoço aconteceu tardiamente no vilarejo de Orzola, onde se come bom peixe. Antes desta terriola fica a praia Charca de la Laja, mais uma surpresa pela água de um azul claríssimo a contrastar com os pedaços escuros de rocha que ali substituem a areia.

De Orzola saem os barcos para a pequena ilha da Graciosa, a tão curta distância de Lanzarote que me pus logo a imaginar que seria um bom lugar para se tentar alcançar a nado.

Não fomos à ilha mas vimo-la cá de cima desde o Mirador del Rio, que deve o nome ao braço de água que separa Lanzarote da Graciosa e outras ilhotas – o El Rio. Para além destas ilhas este miradouro permite vistas fantásticas do Risco de Famara a 475 metros de altitude. O interessante é apercebermo-nos que a uma praia com areia escuríssima e pedra de lava segue-se de imediato uma praia com areia clara. Este miradouro fabuloso tem ainda uma vista a pique da montanha em que está instalado e um restaurante com janelas largas com uma vista panorâmica soberba. Como não podia deixar de ser, este local é também um projecto de César Manrique.

Daqui seguimos calmamente, primeiro pela estrada junto à costa, com uns pontos panorâmicos muito bonitos para a costa ocidental, depois pela estrada interior, onde observamos os terrenos agrícolas de terra preta de lava com plantações verdejantes, como vinha. A ilha na sua parte norte é estreitíssima e, ora num momento se admira a costa ocidental, ora logo em seguida damos de caras com a costa oriental, com Arrieta mesmo à nossa frente.

Neste dia de muitas voltas arranjamos ainda tempo para, mesmo à justa, conseguir entrar para conhecer o Jardin de Cactus. Esta é outra intervenção de César Manrique, com uma diversificada, luxuosa e exuberante colecção de cactos originários um pouco de todo o mundo. Mais uma vez os elementos da natureza conseguem aqui uma plena integração, com a aridez e desolação dos cactos a jogarem um mano a mano com a paisagem escura e dura.

Mas para atenuar quaisquer efeitos mais pesados, Manrique criou uns laguinhos com nenúfares e um idílico moinho, que fazem companhia aos cactos de todas as formas e feitios distribuídos por um caminho intrincado e em vários níveis. Observamos cactos altíssimos e outros tão pequenos que quase nos arriscaríamos a pisá-los. Uns com flores pretas, outros brancas, outros vermelhas, outros ainda sem flor. Uns com espinhos que nos atemorizam e outros que parecem tão fofos que quase nos convidam a neles sentar para descansar da jornada e melhor realizar o quão diversa acaba por ser esta ilha de contrastes e surpresas.

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