Arte Urbana em Bogotá


Bogotá é a capital de um país jovem e com uma classe média em ascensão. 
No centro da cidade esbarramos amiúde com projectos novos de construção e as fundações de muitos outros estão já à mostra, incluindo prédios em altura que se aprestam a bater recordes.
Em todos os locais por onde andámos na cidade, o que inclui zonas para lá do seu centro histórico, é marcante a acção dos artistas urbanos. A chegar ao centro, nos entrelaçados viadutos, a presença dos graffitis faz-se sentir com força. 
É tal a profusão e importância desta cultura urbana que uma das actividades com mais procura entre os turistas em Bogotá é um tour pelos graffitis da Candelária. Uma equipa de artistas urbanos organiza todos os dias (um tour de manhã e outro de tarde) um ponto encontro no Parque de los Periodistas donde se sai para um passeio pelas ruas da Candelária onde a arte urbana se mostra surpreendente e vibrante. Os edifícios estão demasiado rabiscados, daquelas coisas a que pouca gente acha muita piada, mas ao mesmo tempo vemos verdadeiras obras de arte, seja pormenores esculpidos nos muros, seja figuras nas varandas que se fazem passar por cidadãos comuns, seja graffitis e stencils, muitos deles com mensagens políticas. Daí que a adesão a este Bogota Graffiti Tour seja uma forma de se conhecer e tentar compreender a cidade de um ponto de vista que não é o habitual, mais irreverente e inconformado e mais comprometido com as questões urbanas.
Alguns exemplos, iniciando com o graffiti mais bonito e expressivo que já tive oportunidade de visualizar.  














Pelos Sabores da Colômbia

E a viagem não fica completa sem a experiência de todos os sentidos.
Aqui ficam mais alguns dos sabores colombianos deliciosamente descritos na Cantina dos Sabores.

A comida pelas ruas está à nossa inteira disposição.
Iguarias colombianas para todos os gostos.
O meu amado ceviche marca presença um pouco por todo o lado.
Para acompanhar, frutas, sumos e gelados.
E, para o fim, a reportagem da nossa passagem por um dos mais aclamados restaurantes da capital, o Leo.

Bogotá

“nos meus anos de vida ninguém soube explicar-me de forma convincente, para lá de banais causas históricas, o porquê de um país escolher como capital a sua cidade mais remota e escondida. Nós, os naturais de Bogotá, não temos a culpa de sermos fechados e frios e distantes, pois assim é a nossa cidade, nem nos podem culpar de receber com desconfiança os estranhos, pois não estamos acostumados a eles.” 
Juan Gabriel Vasquez (O Barulho das Coisas ao Cair)


Iniciámos e finalizámos a nossa viagem pela Colômbia na sua capital. 
Que a sua localização é remota e escondida, num planalto envolvido pelas montanhas dos poderosos Andes, longe de tudo agora, ainda mais longe de tudo antes, quando os espanhóis lá chegaram, é uma verdade. Custa a crer o porquê de instalar uma cidade nas montanhas, a 2625 metros de altitude, longe do mar, sem grandes rios por companheiros. Mas a situação geográfica de Bogotá não deixa de ser, ainda assim, incrível e bonita. Sim, bonita. Neste planalto no regaço dos Andes não deixamos nunca de ver o verde das montanhas e nesta capital de quase oito milhões de habitantes não deixamos nunca de respirar. 

Mas… Bogotá é fechada, fria e distante? E recebe os estranhos com desconfiança?
Pois não foi nada disso que sentimos, Juan Gabriel.
A chegada a Bogotá num sábado à noite não deu mais do que para uma rápida saída para jantar a um dos mais criativos restaurantes da capital, o Mini-Mal, em Chapinero, bairro que não fossem os morros verdes por vizinhos e as ruas de subidas acentuadas poderia estar em qualquer cidade europeia.


O domingo de manhã, porém, trouxe consigo uma percepção absolutamente viva e aberta da cidade. A Carrera 7, que corta toda a cidade de uma ponta à outra, abre-se para as bicicletas e todos os bogotenhos parecem aderir a esta iniciativa promovida pelo município. Esta visão dos ciclistas em ambiente urbano foi algo inesperado tendo em conta não só o escrito por Juan Gabriel Vasquez mas também os (pré)conceitos que qualquer europeu formula das cidades sul-americanas (mesmo que conheça um punhado delas; ou talvez por as conhecer).

E antes que se pense se… Sim. Bogotá é hoje uma cidade segura. Caminhámos sempre sem desconfiança e a simpatia e disponibilidade dos seus habitantes fez com que o conforto fosse total.
A cidade é enorme e do seu centro, a Candelária, foi-se espraiando até envolver sob os seus limites áreas que outrora eram consideradas fora da cidade. Como Usaquén, lá para as Calles 118 e 119 com a Carrera 7. Pelas calles 90 e picos com a Carrera 7 fica o elegante bairro de Chicó com o seu Parque 93 e a Zona Rosa, e daí até por volta das calles 50 com a Carrera 7 tudo é Chapinero. Ficamos alojadas algures em Chapinero, lá pelas calles 60 com a Carrera 7, Rádio Caracol como referência (em Bogotá, como em muitas cidades colombianas, as ruas são conhecidas por números, ao invés de nomes; em Bogotá as vias que correm de norte para sul são carreras e as que seguem de este para oeste são calles).

Apesar de o táxi ser baratíssimo, só pela experiência fizemos questão de nos deslocarmos até à Candelária com o Transmilenio, ex-libris e orgulho de Bogotá no que respeita à sua bem sucedida política de transportes (até aqui ainda não conhecíamos nem nos tínhamos deslumbrado com os transportes e a experiência de mobilidade de Medellin). Não é mais do que um autocarro com via exclusiva, o que poupa os cidadãos a infinitas horas no trânsito. Tem mais de uma centena de quilómetros de linha e parece funcionar bem e servir as pessoas, colocando-nos no destino em pouco mais de um “minutico”.

Voltamos a Juan Gabriel Vasquez na sua obra citada:
“A Candelária profunda é um lugar fora do tempo: em toda a Bogotá, apenas em certas ruas dessa zona é possível imaginar como era a vida um século antes.”







A Candelária é o coração histórico de Bogotá. Aqui foi fundada Santa Fé de Bogotá em 1538 pelo espanhol Gonzalo Jimenez de Quesada e até hoje conserva alguns edifícios coloniais. O ambiente que vivemos ao percorrer as suas ruas irregulares empedradas, subida aqui subida ali, não é o de uma cidade sofisticada. Parece, em muitos momentos parada no tempo. E isso é bom. Ao mesmo tempo, a Candelária que tem a vigiá-la de forma próxima os cerros Monserrate e Guadalupe tem uma vida muito própria, seja pelos miúdos que tomam as suas praças e as rodam em skates e bikes, talvez da mesma tribo urbana que enche as paredes dos edifícios de grafittis, seja os artistas de rua que em pleno ano de 2016 tentam imitações de Michael Jackson ou os andinos que trazem as suas lamas para, enfeitadas, darem uma cor diferente à cidade vista pelos turistas.






Esta é uma cidade de contrastes. Chapinero pode não ser o mesmo que a Candelária, mas esta também não consegue ser uniforme no seu carácter. Veja-se a Plaza de Bolívar, por exemplo. Esperava-se que a maior e principal praça da cidade fosse uma unidade integra e que remetesse para o passado histórico e colonial de Bogotá. Mas não. Com excepção da Capela do Sagrario, todos os seus edifícios são relativamente recentes, incluindo a Catedral Primada (objecto de grandes alterações já no século XIX) e, sobretudo, os dissonantes Palácio da Justiça e Capitólio Nacional, estilo neoclássico mas bruto, escapando-se apenas o edifício Liévano, a câmara municipal.



É, no entanto, um prazer caminhar pelas suas ruas e descobrir como se mantêm alguns dos seus discretos edifícios. Muitos deles coloridos, demasiados deles rabiscados mas outros com grafittis que representam verdadeiras obras de arte, aqui um em art deco, ali outro em estilo neoclássico, acolá um painel de azulejos com uma caravela. Quê? Pois, parecia tão familiar que é mesmo uma oferta portuguesa o que estava frente à entrada do elegante Teatro Colón. 



Depois de se dar de caras com umas quantas igrejas, lá para cima fica a Plazoleta del Chorro de Quevedo, onde se diz que foi fundada a cidade. Esta é um mimo e imediatamente se percebe porque gostam os jovens e os menos jovens de se juntar por aqui.


Bogotá é conhecida ainda por possuir um punhado de bons museus. Como o tempo nunca dá para tudo, optámos por visitar o Museu de Arte Moderno (MAMBO) e o Museu Botero – tendo em conta o nosso interesse pela arte contemporânea – e o Museu del Oro. 


O MAMBO está instalado num edifício de arquitectura interessante, quer a sua fachada quer os espaços interiores modernistas, estes últimos com rasgos que nos dão pontos de vista para o exterior fantásticos. Aqui são apresentadas exposições temporárias de pintura, vídeo e instalações. 



O Museu Botero, parte da extensa colecção do Banco de la República, é surpreendente. Instalado num edifício colonial donde se obtêm vistas belíssimas para o Cerro Monserrate, a sua colecção foi doada pelo artista colombiano Fernando Botero. E essa colecção é riquíssima: encontramos aqui muitos nomes da pintura mundial por ele reunidos ao longo dos anos (isto inclui, por exemplo, Picasso, Dali, Chagall, Bacon), para além da maior concentração de pinturas de Botero num mesmo espaço. As suas famosas gordinhas em diversas situações do dia a dia, incluindo as cenas desnudas e uma preciosa Mona Lisa, estão por aqui em força.



Quanto ao Museu del Oro, este é obrigatório e com isso diz-se quase tudo. Recordando que a Colômbia era a terra do El Dorado na imaginação dos conquistadores (o aeroporto de Bogotá leva mesmo o nome de El Dorado), e que estes acharam efectivamente ouro por aqui, embora não tanto como o desejado, faz todo o sentido este museu nesta cidade. E a verdade é que o Museu del Oro é riquíssimo e muito interessante. Percorremos a história do ouro e das sociedade pré-hispânicas que habitaram o território colombiano e ficamos com uma ideia de como o ouro era trabalhado, como eram as gentes de então, qual a cosmologia e o simbolismo que lhe estavam associados e quais os rituais que praticavam. Do Lago Guatavita, por exemplo, diz-se ser o lugar exacto do El Dorado e a lenda conta que aqui se praticavam oferendas de ouro e esmeraldas. Outra lenda conta que os príncipes tinham o hábito de banhar o corpo todo em ouro. Melhor só a explicação para os europeus acreditarem em ouro por estas paragens. É que associavam a cor do sol nos trópicos ao ouro e acreditavam que este crescia melhor aqui. Este Museu del Oro não se fica pelas histórias e lendas, obviamente, e apresenta uma colecção riquíssima de objectos de que o mítico peixe voador em ouro é o mais distinto e delicado símbolo. 


Em Bogotá há, ainda, que fazer esticar o tempo. Se não dá para visitar mais museus, há que não perder vistas incríveis da cidade. 


Como a do Cerro Monserrate, a 3150 metros de altitude depois de uma viagem de funicular (o caminho pedonal estava encerrado por risco de desabamento), donde se obtém uma panorâmica de perder de vista de toda a Savana de Bogotá. 


Ou como a do final de tarde do topo da Torre Colpatria, depois de uma rápida subida de elevador, para apreciar uma mudança de cores, umas a deixar a cidade, outras a aparecer nela. 


E, para o final, uma visita a Bogotá não ficará completa sem se confirmar com todos os sentidos a enorme diversidade de frutas existentes neste país, tantas que, diz-se, nem o colombiano comum conhece metade delas. O Mercado Paloquemao é o local ideal para pelo menos mais um delírio da vista – é confirmá-lo na Cantina.

Fernando Botero

Fernando Botero será o artista mais famoso da Colômbia e tirando Gabriel Garcia Marquez o grande nome da cultura colombiana.

Algumas das esculturas das suas características gorditas estiveram há uns anos na Praça do Comércio da minha Lisboa e há menos anos ainda uma exposição de pinturas suas esteve patente no Palácio da Ajuda da mesma Lisboa. Não é, pois, um artista desconhecido no nosso país.
Na Colômbia, porém, temos à nossa disposição permanente um grande número de obras de Botero. Na sua Medellin natal encontramos numa praça só mais de uma vintena de esculturas e mais umas noutros locais da cidade.
Em Bogotá temos um Museu que leva o seu nome e aí podemos observar obras de diferentes fases da sua obra, embora nenhuma do início da sua longa carreira (estarão em posse desconhecida). Muitas delas icónicas. Eis alguns exemplos reunidos num post delicioso onde se alia arte e gastronomia no Cantina dos Sabores.

Medellin, cidade verde

Medellin será sempre por nós recordada como a cidade verde.
Montes com arvoredo suficiente para nos imaginarmos no campo, montes tornados parques fazendo deles recantos de natureza, diversos jardins, incluindo um fabuloso jardim botânico, mesmo no centro da cidade, é difícil passar muito tempo sem dar com uma árvore. Esta é a cidade da Eterna Primavera, com temperatura sempre aprazível, e aquela onde se comemora por estes dias a Feira das Flores.


E, depois, é a cidade do Atletico Nacional, “el equipo” verde, campeão da Copa Libertadores deste ano. Foi no dia 27 de Julho de 2016, dia em que acordamos para ver todos desfilar de verde durante todo o dia e noite. Uma loucura.


O único taxista que não estava decorado de verde, ele ou o seu carro, era provavelmente aquele que à segunda tentativa nos levou ao Cerro Nutibara. Teimoso, insistiu em dar primeiro uma volta à cidade e deixar-nos no Cerro Volador. Como não era este que desejávamos, lá voltou a atravessar a cidade para nos deixar naquilo que conhecia como Pueblito Paisa. Paisa é a designação por que são conhecidos os habitantes da região de Antioquia. E este Pueblito Paisa no Cerro Nutibara é uma recriação em miniatura dos edifícios típicos antioquenhos. O Cerro Nutibara, tal como o Cerro Volador, é uma das inúmeras elevações da cidade. Ambos foram transformados em parques onde se podem desfrutar de pacatas caminhadas apartadas do bulício da cidade. Todo um outro mundo.


Descendo do Nutibara ficamos imediatamente no centro da cidade e aí, lá está, outro tipo de verde nos invadiu, a tal loucura. Camisetas várias do Nacional, bandeiras, cornetas, um verde imenso, um barulho imenso, festa antecipada do que se iria passar no começo da noite no estádio não muito longe dali. Em El Poblado, bairro elegante onde vimos o jogo, cada praça estava transformada em mini-estádio, com écran gigante, e cada restaurante improvisou a sua bancada central. Logo aos primeiros minutos Miguel Borja e o seu golo trouxeram a primeira explosão de alegria. Ainda estou para saber como consegui adormecer, tal era a euforia sonora.

Estes são indícios claros, a juntar aos relatados no anterior post sobre a reinvenção da cidade ao nível das acessibilidades, de que Medellin é uma cidade para se desfrutar experiências.




O centro da cidade é compacto e vale pelo ambiente proporcionado pelas suas gentes. Apesar de esta ser uma cidade antiga, fundada em 1616 pelos espanhóis, não se encontram quase nenhuns edifícios históricos. 





O coração da Medellin histórica e administrativa fica entre o Centro Administrativo de Alpujarra, o Parque Berrio e a Plaza Bolívar. Destaque para a Plazoleta de las Esculturas, com 23 obras de Fernando Botero, artista da cidade, famoso por desenhar as suas personagens anafadinhas.




Para nos centrarmos ainda na arte, imperdível a visita ao Museu de Arte Moderno de Medellin (MAMM), quer pelas suas propostas culturais, quer pela arquitectura dos seus edifícios. Foi aproveitado um antigo edifício industrial na zona Parques del Rio (área que em poucos anos vai levar uma grande volta, aproveitando o Rio Medellin e integrando-o na cidade, rio que por ora está para ali sem que ninguém dê por ele) e a ele acrescentado um projecto de edifício novo fantástico. Neste espaço versátil cabe arquitectura, sim, mas também cinema, teatro e exposições (aqui ficámos a conhecer o trabalho da artista colombiana Débora Arango, pinceladas duras de uma mulher à frente do seu tempo).



Não menos imperdível, o Museu Casa de la Memoria fica na direcção contrária do MAMM, a uma curta caminhada do centro mas sempre a subir. Espera-nos um murro no estômago e muito silêncio e respeito pela história de violência e barbaridade que Medellin sofreu nos últimos 60 anos. Neste espaço multimedia e interactivo são nos apresentados exemplos reais de vidas destruídas e de terror permanente sofrido por cidadãos comuns. Depois da visita a incompreensibilidade permanece. Como foi possível?



E, para algo totalmente diferente, rumamos agora a uma das marcas que tem feito Medellin correr mundo: o seu Jardim Botânico, uma área enorme de verde (mais uma) encravada na cidade. Aqui vivem centenas de espécies botânicas e também animais. As iguanas andavam por ali, mesmo juntinhas aos namorados, mais do que parte da paisagem. O grande postal deste Jardim Botânico é o seu Orquideorama, peça brilhante de arquitectura sob a qual são acomodadas diversas espécies de orquídeas. Graças à Festa das Flores que se ia realizar dai a uma semana tivemos o espaço fechado, grande frustração do turista / viajante. Visto o Orquideorama apenas de soslaio, deliciámo-nos com o bonito lago e com o original anfiteatro e sua parede florida.


Medellin, oferece-nos ainda mais lugares de sossego onde é possível alcançar uma distância com o mundo real. O Parque Arví, por exemplo, a uma vintena de quilómetros da cidade, acessível em cerca de 40 minutos com o metro e o Metrocable, numa viagem panorâmica como haverá poucas no mundo. Este Metrocable é turístico, o único, mas antes de se alcançar o Parque Arví e as suas inúmeras possibilidades de horas de caminhadas, passamos obrigatoriamente pela Comuna 1. Melhor. Sobrevoamos a Comuna 1. 


O Cerro de Santo Domingo Sávio era mais um dos lugares de difícil acessibilidade em Medellin, até que em 2004 a inauguração das estações do Metrocable, linha K, aproximou-o irremediavelmente do centro. Da central Estação de San Antonio à Acevedo são menos de vinte minutos de metro, num percurso elevado que rasga a cidade e nos permite um passeio bem bonito observando de forma privilegiada os seus maiores ex-libris. Depois, com o mesmo bilhete, com um custo de cerca de 70 cêntimos de euro, mudamos na Acevedo em direcção a uma das três estações que nos levarão até Santo Domingo (onde, por sua vez, podemos transferir para o Parque Arví). 



A viagem é fantástica, com toda a Medellin aos nossos pés. Do teleférico, forma única de transporte público com motivações sociais, vemos a favela lá em baixo, espaços arrancados e reconfigurados para deixar passar a caixa que percorre o horizonte, e vamos sentido de alguma forma a vida que corre no bairro. Ouve-se música saída das casas e dos parques, vê-se uma bola perdida num telhado, uma cadeira abandonada num terraço improvisado, flores a decorar as casas, placas desenhadas a fazer de telhado. Do lado esquerdo os blocos imensos do edifício da Biblioteca de Espanha, tão entaipado que nem dá para perceber se são 3 os seus volumes ou apenas dois. De qualquer forma, o orgulho dos habitantes desta comunidade por estas obras públicas é evidente.

Na direcção oposta do vale de Medellin, voltando à Estação de San Antonio transferimos desta vez para San Javier, linha B. O percurso do metro, também à vista, deixa-nos ver uma área de classe média, com equipamentos vários, com destaque para o complexo desportivo (talvez só aqui haja tantas piscinas como em Lisboa inteira). Chegadas a San Javier há que tomar um mini autocarro que nos levará ao Bairro La Independência, conhecido como Comuna 13. 




Outrora um bairro absolutamente perigoso, o perigo por aqui não terá desaparecido por inteiro, mas não há porque não arriscar uma visita diurna ao projecto que colocou o bairro nas melhores bocas do mundo: as Escaleras Eléctricas de San Javier. São 6 troços de escadas rolantes, com uma estrutra alaranjada como cobertura a fazer companhia às casas coloridas à sua volta, com vigilantes a cada troço, uma ideia que mudou para melhor a vida de quem tem de subir a bom subir para chegar à sua habitação. Serão cerca de 12000 os habitantes da comunidade e estima-se que 1500 deles utilizem diariamente as escadas eléctricas em substituição dos degraus de concreto que persistem ao seu lado. 

Mais uma pequena ideia que faz a diferença nesta Medellin entusiasmante.

Medellin, cidade reinventada


No ano de 2016, para certamente mais de metade daqueles que já ouviram falar da cidade de Medellin, não é arriscado ou sequer injusto dizer que a questão da insegurança, seja dos cartéis de droga, seja dos grupos paramilitares, será o tópico primeiro que lhes vem à ideia.

No entanto, com a chegada à cidade vindos do seu aeroporto mais importante (e mais afastado), qualquer ideia desse género só pode ser colocada imediatamente de lado ao vermos tanta gente a pedalar pelas ruas, seja de dia ou de noite. O uso da bicicleta será apenas um indício de que a vida na cidade correrá pacata, sem sobressaltos de maior. 


Medellin tem vindo a sofrer na última década uma completa reconversão ao nível das políticas urbanísticas e de mobilidade.

A sua implantação é fantástica e as estradas que seguem pela montanha dão nos como que plataformas de observação e aproximação à cidade, mas esta implantação é, ao mesmo tempo, quase inimiga de um planeamento urbano, com todas as implicações sociais que isso acarreta. 

Medellin foi criada num vale rodeado de montanhas – de noite é uma maravilha poder assistir a tantos pontinhos de luz, como se de pirilampos se tratasse; de dia distingue-se claramente o que são esses pontinhos de luz: casas precárias que foram tomando as paredes do vale. A estes bairros precários, por aqui chamam-se “comunas”.

Pelos anos 40, 50 e 60 do último século, Medellin sofreu a pressão dos milhares de migrantes que vieram em busca de melhores condições de vida e de trabalho na então indústria em crescimento. O resultado foi uma ocupação descontrolada da cidade. 

Mas esse seria o menor dos males que a cidade atravessaria nas restantes décadas desse século. A droga e os cartéis a ela associados, com Pablo Escobar como nome maior, e os vários grupos paramilitares e de guerrilha urbana, trouxeram violência num estado tal, roubos, atentados e sequestros, que levaram a que Medellin fosse considerada a cidade mais perigosa do planeta. 

Mas, depois de bater no fundo nos anos 90, deu-se como que um renascimento que só nos pode fazer acreditar no Homem e, a final, na política (embora tenha sido um presidente da câmara vindo fora do meio político a iniciar a transfiguração da cidade). A chave do sucesso esteve no recurso ao planeamento urbano e à tecnologia, nomeadamente no domínio das políticas de transporte público, aliadas também à visão / decisão de promover a educação e a cultura junto das camadas mais desfavorecidas da sociedade. 

A experiência de Medellin fez com que o meu entusiasmo e optimismo com a possibilidade de reverter o que de mau pode existir numa cidade sejam hoje ilimitados. Há esperança no mundo.

Para não ficar apenas pelas ideias vagas, passarei a explicar brevemente e de forma simples o que sucedeu na prática na cidade. Porque a coisa é mesmo simples. 



Primeiro olha-se para as encostas e veem-se as casas ali encavalitadas e assume-se que os seus habitantes têm imensas dificuldades no acesso ao trabalho (ou outra qualquer actividade) na cidade cá em baixo. A solução passa por dotar esses habitantes de melhores e mais eficazes acessibilidades, ou seja, transportes que combatam o isolamento e não os façam perder horas em deslocações. No caso de Medellin, optou-se por um sistema integrado de transportes versáteis, práticos e surpreendentes – com um mesmo bilhete percorrermos a cidade de um lado ao outro de metro e, depois, para aceder às comunas nos montes mudamos para o eléctrico ou para o teleférico (Metrocable). Sim, teleférico. Mas teleférico útil, não turístico. Para além do Metrocable, temos também o exemplo, gratuito, das Escaleras Eléctricas, troços de escadas rolantes como alternativa à subida a pé (Comuna 13).



Segundo, para além das acessibilidades há que munir estas camadas mais periféricas da sociedade de ferramentas que lhes permitam ter acesso a mais educação e cultura. Para tal, mobilizam-se os jovens e as mulheres, os quais são objecto directo das campanhas de sensibilização, porque são eles os mais aptos à mudança de mentalidade, porque são elas as mais capazes de influenciar os demais, formando-os. 

Terceiro, que tal dotar estas comunidades de equipamentos sociais, uma obra como a Biblioteca de Espanha, por exemplo, reconhecido novo marco arquitectónico da cidade (cujo edifício para nosso azar estava em reabilitação e totalmente entaipado)?

Em resumo, colocada a política ao interesse das camadas mais marginalizadas e desfavorecidas da sociedade foi possível chegar a partes da cidade e a indivíduos que antes dificilmente o seriam, promovendo uma maior integração e acabando com alguma divisão. Estas políticas urbanas, com destaque para o grande princípio da mobilidade que a elas esteve subjacente, ao contemplarem a participação dos seus destinatários, tiveram como consequência ligar de forma natural indivíduos que à partida não se juntariam a interagir. Tão importante é verificar que o investimento na melhoria das acessibilidades, atendendo à especificidade do contexto urbano de Medellin, acabou por trazer consigo uma maior segurança e no futuro trará, certamente, melhores índices ao nível da educação.
Por outro lado, observa-se à vista desarmada que Medellin possui um cuidado espaço público, em especial o metro, porque as pessoas o sentem como seu e da sua comunidade.

Para o turista “comum” talvez Medellin não tenha grandes atrativos, como monumentos ou uma paisagem natural deslumbrante. Mas para quem gosta de política, urbanismo e deposita esperança na reinvenção das cidades, de que haverá sempre uma solução quando se bate no fundo, então aí aquela que foi considerada em 2013 a “cidade mais inovadora do planeta” permanecerá na memória como um dos lugares mais interessantes e enriquecedores a visitar.

(Uma ironia. Há quem defenda que o planeamento urbanístico e a participação dos cidadãos neste âmbito que se tem verificado em Medellin na última década deve-se também a Pablo Escobar e demais cartéis. Ao mesmo tempo que plantavam o terror e a decadência, lançavam programas que visavam acabar com as favelas (comunas) e más condições de vida na cidade. Com isso deram visibilidade e voz aos cidadãos mais desfavorecidos, tornado-os mais reivindicativos e conscientes da sua marginalização por parte dos poderes públicos. A mudança terá tido as suas sementes aí.)

Getsemani

                                                     “En este pueblo nunca pasaba nada diferente
                                                      a velaciones de santos y bautizos de ángeles. 
                                                      La noche se nos iba fumando tabaco, tomando 
                                                      café y cantando versos de alma.”
                                                    Alonso Sánchez Baute (Líbranos del bien), acerca de Valledupar 





Escolhemos hotel para pernoitar em Getsemani, bairro vizinho fora das muralhas, antigo lugar de escravos, que conserva ainda a sua identidade e cuja arquitectura é parecida com a da Cartagena muralhada (ainda que o edificado esteja menos preservado). O turista clássico não vem tanto para aqui. Este é antes o poiso de um visitante mais jovem, mais relaxado, talvez mais urbano, que não precisa que tudo seja perfeito e bonito, que aprecia uns grafittis quase tanto como umas janelas e balcões bem decorados. Os restaurante aqui são trendy, existem associações culturais e, sobretudo, o mítico Café Havana, infelizmente fechado nos dias que aqui estivemos. 




O que mais marcou, todavia, foi sentir o pulsar leve dos fins de dia dos seus habitantes. Caminhando pelas ruas vamos assistindo às casas abertas ao exterior, portas abertas e hall de entrada disposto de tal forma que é um convite explícito ao nosso olhar invasivo, quase como que um “entrem, façam parte do nosso convívio”. Há ainda a outra versão do fim de dia, aquele em que as cadeiras e sofás são puxados para fora e instalados nos passeios e as pessoas se vão deixando estar, à brisa mais fresca da noite. Isto é o Caribe.