Pormenores de Cartagena

Cartagena é uma cidade absolutamente fotogénica.

Os edifícios da cidade muralhada estão quase todos reabilitados e bem conservados.
Um passeio pelas suas ruas implica um olhar atento. 
Atento aos edifícios e às suas portas e puxadores, às suas janelas de várias formas mas sempre coerentes, aos seus balcões floridos. Atento, sobretudo, à diversidade de cores, como se de uma colecção se tratasse.
Alguns exemplos de pormenores nas casonas e portones de Cartagena:












Cartagena de Indias


Cartagena, a maior e mais emblemática cidade das Caraíbas colombianas, é uma experiência diferente de toda a “outra” Colômbia que visitámos. Ao contrário do restante país, o turismo por aqui está em alta há muitos anos. O que quer dizer que a espontaneidade das suas gentes é mais rara e a simpatia não rola solta.

Ainda assim, a chegada à cidade ofereceu-nos logo um extrovertido taxista cartaginês que nos indicou o ritmo local, cantando e bailando ao mesmo tempo que conduzia. Cumbia? Rumba? Salsa? Vallenato? Não sabemos. Estas portuguesas têm pés de chumbo. Cartagena está mais para os muitos brasileiros que a invadem e não devem ter problemas em entrar no ritmo certo. O ritmo do Caribe, feito de negros, com muita cor.



Um esclarecimento, primeiro. 
Cartagena hoje é uma cidade enorme que se estende bem para além da cidade histórica muralhada. Fora dela parece uma Miami cheia de prédios altos à beira mar e casas sem graça de maior fora dela. Os turistas, normalmente, não passam da cidade muralhada, da vizinha Getsemani e de uma jornada de barco até à Playa Blanca e às Ilhas del Rosário. Foi o quem fizemos, também.


Esta cidade colonial foi fundada em 1533 por Pedro de Heredia, o qual tem direito a estátua na Plaza de los Coches. A maior parte de nós entrará na Cartagena muralhada pela entrada / porta da Torre del Reloj, que dá acesso à referida praça. E porquê a necessidade de construção de uma cidade muralhada? Não foi certamente para fazer as delícias dos muitos turistas que a visitariam uns quantos séculos mais tarde. A verdade é que desde logo a chegada dos espanhóis, Cartagena tornou-se rapidamente no maior porto do norte da América do Sul e das Caraíbas e, igualmente, na cidade mais importante do império espanhol. Aqui eram armazenadas as riquezas acumuladas no Novo Mundo pelos espanhóis, até que estes as enviassem pelos galeões para a sua terra mãe. Não admira, pois, que os piratas desejassem essas riquezas e lançassem ataques vários à cidade (entre esses piratas, o famoso Francis Drake deixou também a sua marca). Foram, assim, construídos vários fortes, no que constitui ainda hoje uma arquitectura marcante na paisagem cartaginesa (visitámos apenas o enorme Castillo de San Felipe, junto a Getsemani). 

Mais marcante e impossível de evitar são as muralhas de protecção da antiga cidade, bem preservadas, e os diversos baluartes, devidamente acompanhados de canhões. Para a história, ainda, fica o facto de Cartagena ter sido uma das primeiras cidades a declarar a independência de Espanha, logo em 1810. Daí nasceu o epíteto de La Heroica.





La Heroica foi florescendo ao longo dos tempos, embora tenha tido épocas de decadência, e hoje é a maior estrela da região. Caminhar pelas suas ruas estreitas empedradas, observando os edifícios coloniais de andares coloridos com balcões deliciosos e puxadores nas portas curiosos (las casonas e seus portones, símbolo de riqueza das famílias), igrejas e conventos de arquitectura alegre, praças com esplanadas e arcadas elegantes, vendedores de rua com frutos (e charutos) coloridos nos seus carrinhos, a que não falta sequer o postal turístico das ainda mais coloridas palenqueras (as crioulas que se deixam fotografar a troco de dinheiro ou então fazem cara feia), tudo isso faz-nos acreditar que estamos mesmo num livro de Gabriel Garcia Marquez, simplesmente Gabo, cujo realismo mágico foi em grande parte inspirado por este ambiente.



Há por aqui um charme e uma sensualidade evidentes. A maior parte dos turistas encanta-se pela atmosfera caribenha, alegre e divertida. O fim do dia pode ser passado a andar numa das muitas charretes puxadas pelos cavalos que percorrem as ruas castiças cheias de lojas modernas, a recriar o ambiente colonial de outrora, ou no Baluarte de São Domingo com o seu Café del Mar (a recriar a distante Ibiza?).



Talvez que não buscasse esta animação e preferisse notar que ao lado das lojas modernas e para turista ver e comprar nos bairros da Cartagena muralhada, quer El Centro quer San Diego, perduram ainda outras lojas históricas onde se vendem produtos do dia a dia, seja lingerie fora de moda, seja cacarecos práticos mas inestéticos. Ou preferisse apontar o olhar em sossego ao mar das Caraíbas que está para além das muralhas e que se contempla tão bem do cimo delas, sobretudo ao fim do dia, onde as cores do céu e da cidade são ainda mais irreais, para lá de encantadoras, quase que encandeadoras (pena a “falta de aproveitamento” desta parte da costa, separada das muralhas da cidade por uma avenida pouco larga, mas que na prática parece um muro distante).



Apesar de todo este tom, desconfiado do excesso de turismo e do excesso de animação, se conseguirmos ficar dentro dos cerca de 13 km de muralhas e percorrermo-los a outra altura do dia para além do (também) obrigatório final da tarde, teremos à disposição praças como as maravilhosas Plaza de la Aduana e suas arcadas. 


Ou a Plaza de San Domingo (onde se diz que está a mais antiga igreja de Cartagena, com uma gorda nua de Botero espraiada bem à sua porta). 


Ou a praça que dá para o Convento de San Pedro Claver. 


Ou, melhor e mais saboroso, talvez consigamos ter as arcadas do Portal de los Dulces quase só para nós, embora apesar de tantos doces à disposição eu vá preferir sempre a oblea de arequipe.


Se nos quisermos refrescar para além de beber um dos inúmeros saborosos sumos, podemos optar por um gelado numa das paleterias. Comida de rua também não falta, sendo as omnipresentes arepas as rainhas (a mim basta um qualquer ceviche). 


Para livros, já que de uma cidade palco de tantos retratos literários que pululam no imaginário dos amantes das letras se trata (51 anos, 9 meses, 4 dias é o tempo de espera de Florentino pelo amor de Fermina), não se pode perder a Livraria Ábaco, na continuação da rua da Catedral (fechada para restauro na altura da nossa visita), metade café metade livraria, pura atmosfera por inteiro.


Localização, história, arquitectura, cultura, comida, dificilmente Cartagena deixará de agradar e encantar um único simples mortal.

Parque Natural Tayrona

O Parque Tayrona fica às portas de Santa Marta, estendendo-se por cerca de 35km junto ao mar, e a sua entrada principal – a mais distante da cidade – encontramo-la a uma hora de carro de distância.




Optámos por dormir fora do Parque, a uns 15 minutos da sua entrada, em Guachaca, nuns eco-lodges em cima da areia e debaixo dos coqueiros. 
A natureza comanda e o barulho é intenso. 
Barulho do mar revolto, barulho dos pássaros e bichos comunicativos. Nem quero saber que bichos eram, ainda em sentido pelo rosto e sorriso afável do senhor que nos disse que por cá havia crocodilos. 
A vida aqui segue tranquila, espreguiçadeira junto à água acompanhada de um livro, passeio pela a areia tentando definir o contorno das montanhas que estão para lá dos altos coqueirais, evitando o choque com os troncos elegantes que a natureza em alguma fúria ali deixou.
Indolência pura. Nada mais. 
Sem surpresa, a noite traz um céu repleto de pontinhos brancos, todas as estrelas possíveis e imaginárias.

(obviamente, nem o mar nem os bichos se calaram de noite; quem não suporta o som da natureza terá dificuldades em dormir por aqui)


O dia seguinte passámo-lo no Parque Tayrona, um dos parques naturais mais populares entre os colombianos e também entre os estrangeiros que visitam o país. 

Os Tayrona foram o primeiro povo indígena com quem os espanhóis se depararam no Novo Mundo, precisamente na Sierra Nevada de Santa Marta, e vendo o seu ouro logo aqui se criou o mito do El Dorado. Este povo pré-hispânico era uma sociedade culturalmente avançada que, não obstante, viria a ser dizimada pelos espanhóis em poucas décadas, ainda no século XVI. No Parque Tayrona existe ainda hoje uma povoação – Pueblito (caminhada de ida e volta de cerca de 8 horas que, com pena, não fizemos) – com alguns vestígios arqueológicos e algumas famílias da tribo kogi, descendentes dos Tayrona. A par de Ciudad Perdida (caminhada em tours de 4 dias desde Santa Marta), capital achada apenas nos anos 1970, Pueblito era um dos povoados mais importantes dos Tayrona.

Os kogi possuem um imenso respeito pela Natureza. Para eles, terra e água são sagrados. Estes guardiães da Natureza que habitam ainda hoje o Parque Tayrona e a Sierra Nevada mantém algumas tradições, como a das mulheres darem à luz de pé e dormirem no chão para estarem junto à mãe terra, enquanto os homens podem dormir em redes.




Após a entrada principal do Parque, a de El Zaino, há que caminhar bastante e não raro encontramo-nos com alguns kogi. Aqui temos selva e mar – a terra e a água, os elementos sagrados dos Tayrona. 
Não admira que os primeiros colonos tenham tido dificuldade em penetrar neste ambiente de densa floresta. Nesta que é a montanha costeira mais alta do mundo, chegando aos 4000 metros de altitude num sopro, vemos desfilar pelos nossos sentidos um microcosmos feito de uma variedade enorme de fauna e flora, sendo muito provável que quase todas as espécies se possam adaptar a este pedaço de terra e mar que é senhor de uma diversidade de condições climatéricas. 




A nós, que andámos pela parte mais oriental do Parque, tocou-nos experimentar da sua inclemente humidade. Os senderos podem ser classificados de fáceis (com excepção do que segue até Pueblito), estão bem marcados e o piso não é empecilho, mas a humidade faz-nos suspirar pela chegada em breve da água das suas praias. O que acontece é que a maior parte delas está vedada a um singelo mergulho, como a extensa e lindíssima Arrecifes, uma vez que a costa é brava, sendo inúmeros os avisos de que por aqui as mortes já superaram as centenas. A excepção são as praias de La Piscina e de Cabo San Juan del Guia, este último a duas horas de caminhada desde a entrada de El Zaino.
Todas as praias são lindíssimas, com um enquadramento perfeito de vegetação massiva e pedras esteticamente modeladas. Não raro, estas praias de areia branca possuem umas baías acolhedoras que logo arrancam em subida para constituírem uma montanha. 




Paisagem, pura paisagem, é do que se trata.

Santa Marta e Minca


Santa Marta leva o título de mais antiga cidade da América do Sul. Os espanhóis começaram a construir aqui uma cidade em 1525 e hoje esta é a segunda mais importante das Caraíbas colombianas. Porém, hoje, também, na rota dos turistas não é muito mais do que um ponto de passagem. De passagem para a Sierra Nevada, a mais alta cordilheira junto ao mar do mundo, ou de passagem para o Parque Nacional Natural Tayora, nome de um dos povos indígenas que contribuiu para que os espanhóis ficassem loucos pelas riquezas da região.



De Santa Marta, terra onde Simon Bolívar, o libertador, viveu os seus últimos dias, reteremos o seu concentrado e pequeno centro histórico, com casas coloridas e que parecem apenas conservadas as que servem para hotéis ou restaurantes. E reteremos a enorme chuvada que deixou todas as ruas da cidade completamente alagadas, de tal forma que foi impossível não meter a pata na poça (parece que isto é habitual, o alagamento). Para o final do dia foi-nos concedido um por do sol com cores irreais sobre o Mar das Caraíbas com a Sierra Nevada a assistir na primeira fila. 


Antes, no entanto, acertámos na escolha de uma breve visita a Minca, a cerca de 40 minutos de Santa Marta e situada a 600 metros de altitude na Sierra Nevada. A viagem faz-nos entrar num mundo completamente diferente da costa caribenha mesmo ali vizinha. A vegetação é intensa e profunda, a paisagem cheia de recortes e artisticamente moldada pelo contorno dos montes. Minca é conhecida pela sua natureza – visitámos os Pozos Azules, umas piscinas artificiais com cascatas a adorná-las – e pelo café orgânico – visitámos uma finca de café, a Hacienda la Victoria. 



O tour foi sofrível e para além de nos apercebermos dos meios mecânicos utilizados na produção do café, que não terão alterado muito desde 1892, data do início de laboração desta fábrica, não 
aprendemos e comprovámos muito mais do que o facto de que aqui o grão de café tem sabor a cacau. O clima ao redor de Minca, bastante mais ameno e agradável do que o calor húmido de Santa Marta, leva a que a produção de café reúna aqui as condições ideais. Curiosamente, parece que não é fácil apreciar bom café na Colômbia, uma vez que os melhores lotes são exportados. 

De Barichara a Guane

Seríamos felizes só por nos deixar estar em Barichara, descobrindo mais um pormenor aqui e outro ali, juntando cores para a nossa colocação de arco íris.


Ainda assim, tirámos uma manhã para percorrer o Caminho Real até ao povoado de Guane, cerca de 5 km que começam no miradouro que fica no final da enorme subida da rua da Catedral de Barichara. Daqui a nossa vista alcança o imenso vale com o canyon do Rio Suarez, afluente do Rio Magdalena, lá bem baixo. 




Caminhámos como muitos outros têm feito ao longo de séculos, num sendero construído pelos indígenas guane, utilizado pelos espanhóis e reconstruído ao longo dos tempos. Sempre a descer, a caminhada é agradável e deslumbrante. Levámos duas horas numa análise cuidada aos diversos cactos, à imensa variedade de borboletas e aos voos das enormes aves que rompiam o céu.






Guane é uma mini Barichara parada no tempo. Ideal para deixarmo-nos ficar um pouco na sua praça e pensar que ainda há lugares perfeitos.

Barichara

De Villa de Leyva para Barichara é um dia de viagem. Com sorte, como a que apanhámos, dá para chegar a meio da tarde. Em geral, tem de se ir a Tunja (45 minutos), daqui a San Gil (4 a 5 horas) e por fim Barichara (mais 40 minutos). Para além da longa jornada que implica diversos transbordos, havia alguma possibilidade de sermos ainda afectadas com o “paro” de transportes que dura(va) na Colômbia há mais de um mês no momento em que escrevo estas linhas. À chegada à estação de Villa de Leyva logo nos disseram que a coisa para Tunja estava má e que a alternativa era ir até Chiquinquira (?), mas que o autocarro para lá tinha acabado de sair. Ui. Nada que os simpáticos colombianos não tenham resolvido com um telefonema para o motorista desse autocarro para que nos esperasse um pouco na estrada. Uma hora e meia de viagem depois a sorte continuou quando à chegada à dita Chiquinquira tivemos logo ligação para San Gil. E daqui com pouca demora para Barichara. A duração total da viagem foi praticamente o indicado a princípio, como se tivéssemos ido por Tunja, mas tudo interligado. Resultado: Barichara era nossa pelas 4 da tarde.

Se Villa de Leyva é um encanto, Barichara surpreende e faz-nos ainda mais felizes. 
A distância para aqui não traz muitos turistas e os que vêm são convictos na sorte que é poder visitá-la. Em relação a Villa de Leyva, em Barichara encontramos os mesmos edifícios brancos de telhas vermelhas e ruas de pedra e um enquadramento natural especial. As duas vilas não se confundem, porém. 




Fundada em 1705 pelo capitão espanhol Francisco Pradilla y Ayerbe, este atribuiu-lhe o nome de Villa de San Lorenzo de Barichara. Barichara derivou da palavra guane (o povo indígena que historicamente aqui habitava) Barachalá, ou seja, “lugar de relaxamento”. Se era assim antes, é assim agora. 




Em Barichara as casas brancas possuem listas de diversas cores, com destaque para o verde, várias tonalidades de azul e o amarelo. As janelas e portas revelam-se de imediato e cativam o nosso olhar. Tudo está perfeitamente preservado. O chão de pedra da vila – ruas geométricas totalmente empedradas – é bem mais amigo do caminhante do que o de Villa de Leyva. 



E, depois, temos a paisagem fantástica que envolve a vila, verde por todo o lado, em (mais) um contraste perfeito com o edificado. Tudo se conjuga, pois, para nos impelir à deambulação e nem as ruas com subidas acentuadas nos fazem hesitar por um momento em seguir caminho, pisar mais um quarteirão empedrado, descobrir mais uma cor a destacar no branco das casas, espreitar mais uma janela, entrar em mais uma loja. 



Temos lojas de artesanato, temos restaurantes, temos dulcerias, mas temos sobretudo umas lojas de aldeia que tudo vendem, prateleiras empilhadas de produtos até ao tecto. Não faltam sequer os frasquinhos a vender as famosas e típicas “hormigas culonas”, em bom português, formigas rabudas. As formigas em tamanho xxl são uma tradição guane, que as achavam afrodisíacas e com propriedades medicinais. Não as provei aqui, mas tinha provado uma outra espécie de formigas em Bogotá, tendo sido a única do grupo a aprovar o seu sabor.



Uma palavra mais para as igrejas de Barichara, começando pela sua principal, a enorme Catedral da Imaculada Conceição. Dominando a praça principal da vila, a sua cor e material – arenito – são diferentes dos edifícios civis e o seu interior é surpreendente, linda nos seus vitrais e chão em mosaico. 



Existem mais igrejas e capelas em Barichara, todas de mesmo estilo, interior sóbrio, tectos com ripas pretas e, curiosamente, piso inclinado até ao altar.


Tudo em Barichara convida à errância indolente pelas suas ruas.

Villa de Leyva

Villa de Leyva fica a mais de três horas e meia de autocarro desde Bogotá. O tempo de viagem até Tunja divide-se mais ou menos assim: uma hora para nos livrarmos do trânsito da capital, meia-hora a esperar que o autocarro encha e duas horas de viagem. O dito do autocarro “sai quando sai” não é, pois, eufemismo nestes lados. Depois de Tunja é só apanhar um dos mini colectivos que saem com frequência para mais 45 minutos de viagem até ao destino desejado: Villa de Leyva.

Com tanto tempo de viagem, não espanta que a tenhamos feito em grande parte já sem a luz do dia, sem que pudéssemos à chegada confirmar as palavras do escritor Juan Gabriel Vasquez acerca da “cor escura e rugosa e áspera como o deserto de Villa de Leyva”.

Nunca é boa ideia idealizar-se muito um postal que nos aprestamos a visitar. A praça central de Villa de Leyva vem referida como umas das maiores da América do Sul e não pude evitar colocar um livro na mochila só para ter o prazer de me sentar e o abrir numa das esplanadas da praça e deixar-me ficar ali a sentir a sua enormidade.




Não podia, assim, ser maior a desilusão por encontrar a Plaza Mayor de Villa de Leyva ocupada com barracas de vendas de chapéus, ponchos, cuecas, shampoos e doces, lado a lado com palcos, carrosséis, molas de pular rumo ao céu e casas de banho móveis à frente da igreja, numa miscelânea de festa de aldeia com comemoração em honra da Virgem del Carmen.

Com o passar dos (três) dias fomos vendo a praça esvaziar, mas não totalmente que pudesse cumprir o imaginado.



E o imaginado é a vastidão e o vazio transformados em perfeição graças a um chão de pedras enormes, uma igreja num dos topos, edifícios com arcadas e com balcões a ladearem-na, tudo numa cor branca, tão branca que provoca o contraste perfeito com a paisagem, por vezes verde, por vezes “escura e rugosa”, como escreveu o citado autor colombiano.

Cidade colonial fundada em 1572 e extremamente bem preservada, encontramos nela ainda alguns edifícios que fazem jus ao título, bem conservados e com os seus pátios adaptados a restaurantes e lojas de artesanato. A não perder: provar os saborosos chocolates caseiros de uma das lojinhas da Villa.




O sentido de passado e autenticidade são presenças marcantes e neste ambiente tranquilo o melhor que se há a fazer por aqui é deambular pelas ruas (ainda que o seu empedrado não seja das coisas mais confortáveis para se caminhar). As casas são brancas, bem como os muros, e os telhados de telha vermelha. Os balcões e as janelas pintadas de verde são também actores principais. Como coadjuvantes, encontramos ainda o cuidado que é colocado na decoração das flores, sobretudo buganvílias e gerânios, o que torna o cenário ainda mais mimoso.







As praças de Villa de Leyva são recantos ainda mais recolhidos, lugares onde a placidez é a palavra de ordem.




Um excelente miradouro deste povoado branco e vermelho que é um destino de fim-de-semana recorrente para os habitantes de Bogotá obtém-se desde o cerro onde está instalada uma pequena estátua, branca, pois claro, de Jesus de braços abertos para a cidade. A subida não é fácil, até porque estamos a mais de 2000 metros de altitude, mas a recompensa é a percepção exacta da implantação desta singular cidade num vale montanhoso.



(Em Villa de Leyva visitámos ainda os Pozos Azules, mas o lugar e experiência são tão esquecíveis que fica o aviso: não vale a pena perder tempo; melhor seria ter-me juntado ao carrossel da Plaza Mayor)

Villa de Leyva e Barichara


Duas das mais bonitas cidades coloniais das Américas e, em especial, da Colômbia, ficam a norte de Bogotá, quase que perdidas no meio do nada mas em terras que os espanhóis acreditaram e desejaram ser o El Dorado, abundância de ouro e esmeraldas, mito que ficou por cumprir.
Villa de Leyva, no estado de Boyacá, terra dos Muiscas, e Barichara, ainda mais a norte, no estado de Santander, terra dos Guanes, foram das primeiras cidades coloniais fundadas pelos espanhóis em território colombiano. E são dois exemplos lindos e perfeitos de cidades em que uma visita pode fazer-nos voltar no tempo ou, pelo menos, desejar que este possa parar.