Playa Blanca e Islas del Rosario

Um dia de passagem pelas Ilhas do Rosário e um almoço e mergulho na Playa Blanca é uma daquelas coisas a que é difícil escapar uma vez passando por Cartagena. 


A capacidade do barco que leva os magotes de turistas diários é espremida até à última até que não caiba mais ninguém e, depois de esperarmos demais para que ele se lance às águas caribenhas, lá vamos apreciando a pouca beleza dos prédios que envolvem a baía de Cartagena. 


Em menos de uma hora chegamos ao arquipélago das Ilhas del Rosário, uma série de ilhotas, algumas delas não comportando mais do que apenas uma mansão pequenina. As ilhas não são privadas, antes concessionadas aos ricaços. Se estivermos apenas de passagem e não ficarmos num hotel numa delas, podemos fazer uma de duas actividades: a terrestre, numa visita ao aquário local, ou a marítima, num snorkelling a um dos bancos de corais que por ali existem. Esta última foi a nossa escolha e assim pudemos confirmar a transparência da água, ao mesmo tempo possuidora de diversas tonalidades, sendo a cor esmeralda a que melhor a representa. De óculos e tubinho para respirar deixámo-nos estar de barriga para baixo, quase sem mexer, e fomos vendo desfilar os corais e os peixinhos. 
Simples e lindo. 
Isto é o Caribe.







O almoço foi na Playa Blanca, extensa linha de areia clara, mesa partilhada com demasiada gente, água para lá de quente também partilhada com demasiada gente. 
Isto é Caribe.

Pormenores de Cartagena

Cartagena é uma cidade absolutamente fotogénica.

Os edifícios da cidade muralhada estão quase todos reabilitados e bem conservados.
Um passeio pelas suas ruas implica um olhar atento. 
Atento aos edifícios e às suas portas e puxadores, às suas janelas de várias formas mas sempre coerentes, aos seus balcões floridos. Atento, sobretudo, à diversidade de cores, como se de uma colecção se tratasse.
Alguns exemplos de pormenores nas casonas e portones de Cartagena:












Cartagena de Indias


Cartagena, a maior e mais emblemática cidade das Caraíbas colombianas, é uma experiência diferente de toda a “outra” Colômbia que visitámos. Ao contrário do restante país, o turismo por aqui está em alta há muitos anos. O que quer dizer que a espontaneidade das suas gentes é mais rara e a simpatia não rola solta.

Ainda assim, a chegada à cidade ofereceu-nos logo um extrovertido taxista cartaginês que nos indicou o ritmo local, cantando e bailando ao mesmo tempo que conduzia. Cumbia? Rumba? Salsa? Vallenato? Não sabemos. Estas portuguesas têm pés de chumbo. Cartagena está mais para os muitos brasileiros que a invadem e não devem ter problemas em entrar no ritmo certo. O ritmo do Caribe, feito de negros, com muita cor.



Um esclarecimento, primeiro. 
Cartagena hoje é uma cidade enorme que se estende bem para além da cidade histórica muralhada. Fora dela parece uma Miami cheia de prédios altos à beira mar e casas sem graça de maior fora dela. Os turistas, normalmente, não passam da cidade muralhada, da vizinha Getsemani e de uma jornada de barco até à Playa Blanca e às Ilhas del Rosário. Foi o quem fizemos, também.


Esta cidade colonial foi fundada em 1533 por Pedro de Heredia, o qual tem direito a estátua na Plaza de los Coches. A maior parte de nós entrará na Cartagena muralhada pela entrada / porta da Torre del Reloj, que dá acesso à referida praça. E porquê a necessidade de construção de uma cidade muralhada? Não foi certamente para fazer as delícias dos muitos turistas que a visitariam uns quantos séculos mais tarde. A verdade é que desde logo a chegada dos espanhóis, Cartagena tornou-se rapidamente no maior porto do norte da América do Sul e das Caraíbas e, igualmente, na cidade mais importante do império espanhol. Aqui eram armazenadas as riquezas acumuladas no Novo Mundo pelos espanhóis, até que estes as enviassem pelos galeões para a sua terra mãe. Não admira, pois, que os piratas desejassem essas riquezas e lançassem ataques vários à cidade (entre esses piratas, o famoso Francis Drake deixou também a sua marca). Foram, assim, construídos vários fortes, no que constitui ainda hoje uma arquitectura marcante na paisagem cartaginesa (visitámos apenas o enorme Castillo de San Felipe, junto a Getsemani). 

Mais marcante e impossível de evitar são as muralhas de protecção da antiga cidade, bem preservadas, e os diversos baluartes, devidamente acompanhados de canhões. Para a história, ainda, fica o facto de Cartagena ter sido uma das primeiras cidades a declarar a independência de Espanha, logo em 1810. Daí nasceu o epíteto de La Heroica.





La Heroica foi florescendo ao longo dos tempos, embora tenha tido épocas de decadência, e hoje é a maior estrela da região. Caminhar pelas suas ruas estreitas empedradas, observando os edifícios coloniais de andares coloridos com balcões deliciosos e puxadores nas portas curiosos (las casonas e seus portones, símbolo de riqueza das famílias), igrejas e conventos de arquitectura alegre, praças com esplanadas e arcadas elegantes, vendedores de rua com frutos (e charutos) coloridos nos seus carrinhos, a que não falta sequer o postal turístico das ainda mais coloridas palenqueras (as crioulas que se deixam fotografar a troco de dinheiro ou então fazem cara feia), tudo isso faz-nos acreditar que estamos mesmo num livro de Gabriel Garcia Marquez, simplesmente Gabo, cujo realismo mágico foi em grande parte inspirado por este ambiente.



Há por aqui um charme e uma sensualidade evidentes. A maior parte dos turistas encanta-se pela atmosfera caribenha, alegre e divertida. O fim do dia pode ser passado a andar numa das muitas charretes puxadas pelos cavalos que percorrem as ruas castiças cheias de lojas modernas, a recriar o ambiente colonial de outrora, ou no Baluarte de São Domingo com o seu Café del Mar (a recriar a distante Ibiza?).



Talvez que não buscasse esta animação e preferisse notar que ao lado das lojas modernas e para turista ver e comprar nos bairros da Cartagena muralhada, quer El Centro quer San Diego, perduram ainda outras lojas históricas onde se vendem produtos do dia a dia, seja lingerie fora de moda, seja cacarecos práticos mas inestéticos. Ou preferisse apontar o olhar em sossego ao mar das Caraíbas que está para além das muralhas e que se contempla tão bem do cimo delas, sobretudo ao fim do dia, onde as cores do céu e da cidade são ainda mais irreais, para lá de encantadoras, quase que encandeadoras (pena a “falta de aproveitamento” desta parte da costa, separada das muralhas da cidade por uma avenida pouco larga, mas que na prática parece um muro distante).



Apesar de todo este tom, desconfiado do excesso de turismo e do excesso de animação, se conseguirmos ficar dentro dos cerca de 13 km de muralhas e percorrermo-los a outra altura do dia para além do (também) obrigatório final da tarde, teremos à disposição praças como as maravilhosas Plaza de la Aduana e suas arcadas. 


Ou a Plaza de San Domingo (onde se diz que está a mais antiga igreja de Cartagena, com uma gorda nua de Botero espraiada bem à sua porta). 


Ou a praça que dá para o Convento de San Pedro Claver. 


Ou, melhor e mais saboroso, talvez consigamos ter as arcadas do Portal de los Dulces quase só para nós, embora apesar de tantos doces à disposição eu vá preferir sempre a oblea de arequipe.


Se nos quisermos refrescar para além de beber um dos inúmeros saborosos sumos, podemos optar por um gelado numa das paleterias. Comida de rua também não falta, sendo as omnipresentes arepas as rainhas (a mim basta um qualquer ceviche). 


Para livros, já que de uma cidade palco de tantos retratos literários que pululam no imaginário dos amantes das letras se trata (51 anos, 9 meses, 4 dias é o tempo de espera de Florentino pelo amor de Fermina), não se pode perder a Livraria Ábaco, na continuação da rua da Catedral (fechada para restauro na altura da nossa visita), metade café metade livraria, pura atmosfera por inteiro.


Localização, história, arquitectura, cultura, comida, dificilmente Cartagena deixará de agradar e encantar um único simples mortal.

Parque Natural Tayrona

O Parque Tayrona fica às portas de Santa Marta, estendendo-se por cerca de 35km junto ao mar, e a sua entrada principal – a mais distante da cidade – encontramo-la a uma hora de carro de distância.




Optámos por dormir fora do Parque, a uns 15 minutos da sua entrada, em Guachaca, nuns eco-lodges em cima da areia e debaixo dos coqueiros. 
A natureza comanda e o barulho é intenso. 
Barulho do mar revolto, barulho dos pássaros e bichos comunicativos. Nem quero saber que bichos eram, ainda em sentido pelo rosto e sorriso afável do senhor que nos disse que por cá havia crocodilos. 
A vida aqui segue tranquila, espreguiçadeira junto à água acompanhada de um livro, passeio pela a areia tentando definir o contorno das montanhas que estão para lá dos altos coqueirais, evitando o choque com os troncos elegantes que a natureza em alguma fúria ali deixou.
Indolência pura. Nada mais. 
Sem surpresa, a noite traz um céu repleto de pontinhos brancos, todas as estrelas possíveis e imaginárias.

(obviamente, nem o mar nem os bichos se calaram de noite; quem não suporta o som da natureza terá dificuldades em dormir por aqui)


O dia seguinte passámo-lo no Parque Tayrona, um dos parques naturais mais populares entre os colombianos e também entre os estrangeiros que visitam o país. 

Os Tayrona foram o primeiro povo indígena com quem os espanhóis se depararam no Novo Mundo, precisamente na Sierra Nevada de Santa Marta, e vendo o seu ouro logo aqui se criou o mito do El Dorado. Este povo pré-hispânico era uma sociedade culturalmente avançada que, não obstante, viria a ser dizimada pelos espanhóis em poucas décadas, ainda no século XVI. No Parque Tayrona existe ainda hoje uma povoação – Pueblito (caminhada de ida e volta de cerca de 8 horas que, com pena, não fizemos) – com alguns vestígios arqueológicos e algumas famílias da tribo kogi, descendentes dos Tayrona. A par de Ciudad Perdida (caminhada em tours de 4 dias desde Santa Marta), capital achada apenas nos anos 1970, Pueblito era um dos povoados mais importantes dos Tayrona.

Os kogi possuem um imenso respeito pela Natureza. Para eles, terra e água são sagrados. Estes guardiães da Natureza que habitam ainda hoje o Parque Tayrona e a Sierra Nevada mantém algumas tradições, como a das mulheres darem à luz de pé e dormirem no chão para estarem junto à mãe terra, enquanto os homens podem dormir em redes.




Após a entrada principal do Parque, a de El Zaino, há que caminhar bastante e não raro encontramo-nos com alguns kogi. Aqui temos selva e mar – a terra e a água, os elementos sagrados dos Tayrona. 
Não admira que os primeiros colonos tenham tido dificuldade em penetrar neste ambiente de densa floresta. Nesta que é a montanha costeira mais alta do mundo, chegando aos 4000 metros de altitude num sopro, vemos desfilar pelos nossos sentidos um microcosmos feito de uma variedade enorme de fauna e flora, sendo muito provável que quase todas as espécies se possam adaptar a este pedaço de terra e mar que é senhor de uma diversidade de condições climatéricas. 




A nós, que andámos pela parte mais oriental do Parque, tocou-nos experimentar da sua inclemente humidade. Os senderos podem ser classificados de fáceis (com excepção do que segue até Pueblito), estão bem marcados e o piso não é empecilho, mas a humidade faz-nos suspirar pela chegada em breve da água das suas praias. O que acontece é que a maior parte delas está vedada a um singelo mergulho, como a extensa e lindíssima Arrecifes, uma vez que a costa é brava, sendo inúmeros os avisos de que por aqui as mortes já superaram as centenas. A excepção são as praias de La Piscina e de Cabo San Juan del Guia, este último a duas horas de caminhada desde a entrada de El Zaino.
Todas as praias são lindíssimas, com um enquadramento perfeito de vegetação massiva e pedras esteticamente modeladas. Não raro, estas praias de areia branca possuem umas baías acolhedoras que logo arrancam em subida para constituírem uma montanha. 




Paisagem, pura paisagem, é do que se trata.