Deus-Dará, de Alexandra Lucas Coelho


Deus-Dará é nos apresentado como o novo romance de Alexandra Lucas Coelho e não como o seu novo livro de viagens.
Todavia, este romance singular na disposição da sua narrativa – sete personagens principais a viver as suas vidas em sete dias dispersos por alguns dos anos vividos por Alexandra no Rio de Janeiro – mostra-nos o Rio de Janeiro em toda a sua intensidade. 
Quem conhece o Rio, seja por lá ter vivido, passado ou espreitado nas novelas brasileiras, vai-se identificar com este livro. 
Logo na página 58 a autora escreve, dando voz a uma das personagens, “Nunca aqui estive, mas estive. Porque a gente cresce com isto, estas imagens.”.
Se se for leitor das reportagens e crónicas de Alexandra, então, a identificação será ainda maior. Caso não se insira em nenhuma destas categorias, este livro vai ser também entusiasmante e todos acabaremos por aprender com ele.
Aqui cabe história, política, futebol, música, literatura, viagens interiores, vidas iguais a tantas outras, praia. Tudo é o Rio.
A natureza do Rio marca presença assídua ao longo das mais de quinhentas páginas deste livro. São nos informadas curiosidades, como a da sua página 150, acerca do nome da zona Jacarepaguá (nome indígena que significa enseada dos jacarés) e da possibilidade de um jacaré atravessar uma rua no Rio de Janeiro, “Mais que possível, com várias ocorrências, é jacaré em canal de esgoto no Rio de Janeiro. Tanto que quem lhe atirar um pedaço de pão corre o risco de ver aparecer mais dez. E a tendência vai ser para aparecerem cada vez mais, baralhando o possível, o provável e o comum, como é próprio do apocalipse. Quanto mais a cidade entrar pela natureza, mais a natureza vai entrar pela cidade, respondendo ao que os homens fazem em terra, mar, ar, do Rio de Janeiro à China”. 
Escrita comprometida, já se lê. 
E o tom apocalíptico vai dominando ao longo de todo o livro. Eis mais um cheirinho de natureza e apocalipse, “… e arrancam morro acima, aquelas curvas que de noite ficam épicas, chuva furando a terra, trazendo o cheiro do fundo” (página 381).
O clima de festa, bem expresso pela música brasileira, é outra constante. Termina em grande com as palavras cantadas de Chico Buarque, “Diz que deu, diz que dá…”, provando que quando se trata de Brasil tudo termina não em pizza mas em música. Ao longo do seu livro, Alexandra vai citando trechos de letras que não precisava de informar os seus autores para as reconhecermos imediatamente, como o “maluco-beleza” de Raul Seixas ou o meu herói que não morreu de overdose mas “meus inimigos estão no poder” – Viva Cazuza. Que prazer lembrar e cantar estas músicas intemporais.
Aqui são invocados muitos clichês, os tais que nos fazem identificar com o que está escrito, como se tivéssemos vivido algo parecido, como se fossemos também parte destas histórias. Mas clichê no sentido positivo, o qual nas palavras de Alexandra vira frase enorme: “Acontece, no entanto, que o narrador tem aquela costela não-brasileira de ser ateu, sem deixar de ter aquela costela brasileira do milagre” (página 310).
Enorme, igualmente, a forma como a autora cria histórias que à partida nada pareciam ter em comum, como a de Dirk van Hogendorp, ajudante de campo de Napoleão, que partiu para o exílio no Rio, instalando-se no Cosme Velho, onde nos dias de hoje pelas suas ruas passa uma transexual cuja história há-de ir ter a Sócrates, o doutor futebolista. Isto anda tudo ligado.
Tempo ainda para nestas páginas se discorrer uma posição que quem era leitor das crónicas semanais no Público de Alexandra Lucas Coelho já vem tendo conhecimento. A do papel histórico –  muito evitado e calado – de Portugal na escravatura. 
Faz todo o sentido que neste Deus-Dará seja abordada uma panóplia de assuntos, como se tivessem sido ali lançados e deixados fluir ao sabor do tempo que levou a escrever todas estas páginas. As histórias de vida comum e diária dos personagens prendem-nos, no final são deixados para ali, ao certeiro Deus-Dará, talvez para que as possamos compor ao nosso gosto. Mas desta obra muitos temas poderão ganhar vida própria, sujeitos a discussões autónomas, assim esteja a sociedade portuguesa – e brasileira – interessada. O tema da escravatura é um deles.
Livro inquietante, este.

A Moreninha Voltou a Paquetá

Três sílabas. Pa-que-tá. Paquetá. Toda a doçura e tranquilidade concentradas em três sílabas.
Localizada no meio da Baía de Guanabara, a ilha de Paquetá pertence à metrópole do Rio de Janeiro. Na verdade a pertença é pouca, tais as diferenças de contextos.
Paquetá é um lugar perdido. Parado no tempo. Está como ficou na minha memória há mais de 20 anos, quando a visitei pela primeira e única vez, até esta nova visita.
Ter cristalizado não será um defeito. É antes um traço distintivo. Pelo menos na minha óptica.
Pouco terá mudado desde que D. João VI a frequentava. Ou desde que Joaquim Manuel de Macedo escreveu, em 1843, “A Moreninha“, romance responsável pelo baptismo de alguns locais da ilha, como a Praia da Moreninha e a Pedra da Moreninha de onde se avista, ao fundo, a cidade do Rio de Janeiro e onde o final do dia tem outro encanto.
É a sensação de estarmos noutro momento histórico, bem como o sossego, que dão todo o encanto a Paquetá.
As ruas continuam a ser em terra batida. Os carros não existem (só veículos de emergência).
A bicicleta é o transporte de excelência. Andar a pé também é boa opção.
As casas são baixas, com traça antiga e charmosas.
A vegetação e as árvores de flor laranja, que anunciam a chegada do Verão, as Flamboyant ou Flamejantes, dão uma beleza e um toque caloroso especial.

Pelas ruas ou na praia as crianças brincam tranquilamente e divertem-se com coisas simples.
Ao final do dia a população encontra-se na praça junto ao terminal das barcas que vão e vêm do Rio de Janeiro.
Nós percorremos parte da ilha de bicicleta. Absorvemos as cores, cheiros e silêncios. Sentamo-nos amiúde para sentir a atmosfera.
Deixamos as bicicletas no ponto de aluguer e, desastradamente, ao estacionar a minha bicicleta faço um dominó com todas as outras que estavam perfiladas. Ninguém se importa. Imperturbável e com toda a calma o moço repõe a ordem.
Continuamos a jornada, a pé, para o outro lado da ilha. A serenidade continua, ainda que as águas naquele lado estejam agitadas pelo vento. Voltamos a dobrar a ilha e a serenidade torna a ser total. O vento ali não afecta a tranquilidade das águas.
A tarde corre para o fim. A atmosfera está quente. O calor vem de todos os lados. Não resisto e dou um mergulho. Não que a água tenha uma cor apetecível, mas a canícula pede mesmo. Depois, sento-me no banco quente, com o calor acumulado do dia, e deixo-me secar. 
Um homem rema enquanto o sol baixa e começa a ficar atrás das nuvens. Ainda assim a luz dourada do sol está reflectida na água. Deixamo-nos ficar, no topo da Pedra Moreninha, enquanto uma trovoada está cada vez mais próxima e forte. Sintomas tropicais.
O sol continua a declinar, mas sem se dar a ver. Ainda assim o momento não deixa de ser bonito e não deixamos de agradecer por sentirmos toda esta beleza e paz. Muitas vezes bem próximo de onde não se imagina.
A moreninha voltou a Paquetá. E amou.

Cândido Portinari

A propósito da visita da mana a São Paulo e ao Rio de Janeiro, e já que tocou no assunto Portinari  – pintor por mim adorado -, seguem mais detalhes.
Cândido Portinari nasceu em Brodowski, São Paulo, em 1903, filho de imigrantes italianos tornados camponeses. Colocou esta cidadezinha do interior do estado no mapa. A sua infância na região, terra do café, influenciaria a sua obra, uma vez que desde cedo testemunhou o trabalho nas plantações que o rodeavam, vida difícil de brancos, negros e mestiços.
Começou por estudar pintura e desenho no Rio de Janeiro, mas logo partiu para a Europa, onde frequentou os museus e tomou contacto com a pintura moderna. No entanto, não esquecia o Brasil e a sua Brodowski, confessando que “Daqui fiquei vendo melhor a minha terra – fiquei vendo Brodowski como ela é. Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor. Quando comecei a pintar, senti que devia fazer a minha gente e cheguei a fazer o “Baile na Roça”… A paisagem onde a gente brincou a primeira vez não sai mais da gente, e eu quando voltar vou ver se consigo fazer a minha terra.”.
De regresso, iria utilizar a sua arte como expressão daquilo que o rodeava, num processo reflectido. Sentia a necessidade de mostrar a realidade, não se mostrando alheado do que se encontrava à sua volta. Para isso, era central a utilização da figura humana de forma a melhor expressar essa realidade feita de vidas sofridas.
O seu filho, João Cândido, responsável pelo Projecto Portinari (http://www.portinari.org.br), afirmou em entrevista à agência FAPESP “O excluído é um personagem absolutamente central. Ele vivia em uma região cafeeira do interior paulista que era passagem de retirantes que vinham do Nordeste. Isso impressionou de forma indelével as retinas daquele menino que presenciou a tragédia das famílias que viajavam em condições desumanas. Essa experiência despertou nele, de forma muito precoce, um sentimento de solidariedade incondicional com o excluído.”.
A temática das suas obras possuía, claramente, uma preocupação social (Portinari era assumidamente comunista, ainda que fizesse questão de não seguir cegamente a cartilha), mostrando o negro, o trabalho, a infância. Dizia que sua obra era dedicada ao povo.
Mas, facto nem sempre conhecido, parte da sua obra foi dedicada ainda à arte sacra, ao que não será alheia a forte religiosidade dos seus pais italianos.
Ao longo da sua vida Portinari procurou de forma constante inovar na sua obra. Poderá considerar-se surrealista, cubista, neo-realista. Talvez seja esta a fase que mais me agrada e que o faz juntar aos vários portugueses que por este caminho seguiram, não esquecendo a oportunidade que a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, volta e meia, dá aos lisboetas para poderem observar ao vivo uma das suas obras. 
Apesar da sua obra estar espalhada um pouco por todo o mundo, quer em colecções públicas quer privadas, será obviamente no Brasil que se poderá visitar o maior número das suas obras. Desde logo no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, o qual possui o maior acervo público de Portinaris. Ainda no Rio, o Museu Chácara do Céu é também uma boa opção. Em São Paulo, visita incontornável aos inevitáveis Museu de Arte de São Paulo e à Pinacoteca.
Algumas das suas obras mais marcantes:

– “Despejados” (1934) é uma das suas primeiras obras de temática social, mostrando os retirantes que pouco mais têm para além da morte.

– “O Mestiço” (1934) foi adquirida pela Pinacoteca de São Paulo, a primeira instituição pública brasileira a incluir uma obra de Portinari no seu acervo. Aqui é representado o trabalhador, de mãos fortes e corpo pujante.

– “Café” (1935) (obra apresentada em Lisboa em 1940 por ocasião da Exposição do Mundo Português) mostra os trabalhadores com pés e mãos descomunais para suportarem a submissão ao peso dos sacos que trazem aos ombros.

– “O Lavrador de Café” (1939) mostra uma vez mais o trabalhador negro forte, capaz de adaptar-se às duras condições quer de trabalho quer geográficas e climáticas.

– “Guerra e Paz” (1952-56) – painéis efectuados para a sede da ONU em Nova Iorque onde o enfoque na exclusão dos homens provocada pela guerra é visível. Mas a guerra é representada pelo povo em sofrimento, não pelos soldados em luta. Notam-se aqui influências do Guernica de Pablo Picasso. Na sequência da feitura desta obra, devido à intoxicação pelas tintas utilizadas, Cândido Portinari viria a morrer em 1962. Ficou a que, para muitos, é a sua maior obra, síntese de todas as outras.

Niterói | No Encalço de Niemeyer

Programámos o dia para fazer, como os brasileiros dizem, um bate-volta a Niterói. É como quem diz, ir e vir no mesmo dia ao outro lado, o nascente, da Baía de Guanabara.
Niterói é para o Rio de Janeiro o equivalente a Almada para Lisboa. É uma cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, está também ligada por uma ponte, a Ponte de Rio-Niterói, e por carreiras regulares de barco e ferrys, aqui chamados Barcas. Têm também vistas magníficas para o outro lado da Baia de Guanabara, para a cidade do Rio de Janeiro, mas tem igualmente muitos outros motivos de visita.
Aproveitámos a ida ao outro lado da Baía para fazer uma manhã de praia num dos locais de melhores ondas da região do Rio de Janeiro, Itacoatiara. Como costume nas minhas incursões às praias mais famosas do mundo para a prática de surf o mar estava completamente piscina. Nem uma onda para contar história. Contudo, o visual da praia valeu a deslocação até Itacoatiara. Ainda que o meu imaginário deste beach break poderoso vá continuar ligado às reportagens da revista Fluir.
Como um dos grandes objectivos do dia era ir até ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, obra de Oscar Niemeyer, prosseguimos de Itacoatiara para Niterói, nomeadamente para a ponta norte da praia da Icaraí, junto ao Mirante de Boa Viagem.
É aqui, numa localização excepcional, com vistas magníficas para Icaraí, Charitas, Pão de Açúcar e outros locais do Rio de Janeiro, que se situa o MAC e as suas linhas futuristicas.

O edifício parece um ovni acabado de aterrar, mais ainda pela sua localização, na extremidade de um promontório.

O edifício, com as suas linhas sinuosas e os seus pormenores, seduz.

Contudo, não deixo de lamentar a pouca dignidade de alguns aspectos, nomeadamente no interior, como a área de recepção e bilheteira, que é demasiado acanhada e improvisada. Destaque negativo também para, no dia que visitámos, grande parte do espaço expositivo estar inacessível para montagem de uma nova exposição, fazendo com que não tenha sido possível fruir praticamente nada do interior do edifício, já que a área disponível, com uma exposição, de Lígia Clark, que não ficará na memória, era muito diminuta. Um projecto desta envergadura merece ser substanciado com uma programação mais cuidada.
Ainda no interior, num nível abaixo, foi possível aceder ao restaurante. Pormenores como a altura das janelas à medida de quem está sentado lembram-nos da genialidade do arquitecto.
 
A partir do MAC seguimos para o centro da cidade. Com o objectivo de ver mais obras de Niemeyer, ou não fosse Niterói a segunda cidade do mundo, a seguir a Brasília, com mais obras arquitectónicas do maior nome da arquitectura brasileira.
Ao longo da orla da Baía de Guanabara encontram-se um conjunto de obras, que no global formam o Caminho de Niemeyer.
O caminho é composto por sete equipamentos. A seguir ao MAC, na orla, cruzámo-nos com o Museu Petrobras de Cinema. Mais uma vez a dignidade do projecto, aqui de uma forma mais gravosa, é posta em causa. Depois de concluídas as obras em 2012, por um litígio quanto à gestão, a prefeitura abandonou o projecto cultural e o edifício está abandonado e com sinais claros de degradação. Lamentável.
Continuando, passamos pela Praça JK, também projecto de Niemeyer. Aqui deparámo-nos com uma grande marquise, semelhante na forma à do Ibirapuera, que liga os dois extremos da praça, localizada na enseada adjacente à estação das barcas, shopping center e terminal de ônibus.
Chegamos ao Aterro da Praia Grande. Mais precisamente a uma grande praça, conhecida como a Praça Popular de Niterói, localizada a norte da estação fluvial do centro de Niterói e do Terminal Rodoviário e pontilhada por diversos edifícios projectos de Niemeyer. Encontramos o Centro de Memória Roberto Silveira, que abriga um importante acervo histórico e iconográfico de Niterói.
No Aterro encontramos também o Teatro Popular Oscar Niemeyer. O acesso ao edifício é efectuado por uma rampa sinuosa, tal como a estrutura do edifício, características do arquitecto.
O edifício tem um palco reversível, que dá para o exterior, semelhante ao Auditório de Ibirapuera, que permite espectáculos ao ar livre.
A fachada do lado poente é envidraçada, permitindo a partir do interior do auditório fruir da vista para a Baía da Guanabara.
A face oposta do edifício é composto azulejos amarelos e pinturas do arquitecto. No piso superior o túnel que faz a transição entre as duas fachadas apresenta também uma composição de azulejos, brancos, com pinturas também de Niemeyer.
No vazado do edifício encontra-se um painel com a cronologia das principais obras de Niemeyer e existe um café com esplanada.
A Fundação Oscar Niemeyer é outra obra arquitectónica que se encontra no Aterro da Praia Grande. Trata-se de um centro de informação e pesquisa ligado à arquitectura, urbanismo, design e artes plásticas.
Para a praça foram projectados mais edifícios, que até à data ainda não chegaram a ser concluídos.
Podíamos, de regresso ao Rio, ter atravessado a Baía de Guanabara a partir do Terminal de Barcas de Charitas. Não o fizemos. Fomos antes pela estação da Praça Arariboia. Perdemos assim outra obra de Niemeyer.
Mas como ficar triste depois de todo o desfrute arquitectónico das outras obras e deste visual à despedida?

Rio de Janeiro | O Menos Clássico

O documentário Santiago tem como pano de fundo uma casa fantástica. É possível visitar a que outrora foi a casa da família de Walter Moreira Salles, banqueiro e embaixador, e onde Santiago foi mordomo.
O filme de João Moreira Salles – simultaneamente director do filme, irmão de Walter Salles (realizador de filmes lindíssimos, tais como Central do Brasil) e filho de Walter Moreira Salles, mostra a casa, localizada no Alto Gávea, que desde 1999 é a sede do Instituto Moreira Salles, um centro cultural de referência para a fotografia e música.
A casa, projecto de arquitectura de Olavo Redig de Campos e projecto paisagístico de Roberto Burle Marx, é um marco da arquitectura moderna de meados do século XX.  
Elegante, foi feita para alojar uma família numerosa e com uma intensa vida social, como mostra o documentário. A casa é organizada em torno de um pátio central, que se abre para a piscina, a qual é marginada por uma ondulante e elegante marquise e por um mural sinuoso de azulejos da autoria de Burle Marx. A vista de fundo é uma montanha de um verde exuberante. No interior há sempre uma exposição interessante para ver.
No videoclip Beautiful de Snoop Dog em determinado momento surge uma composição arquitectónica misteriosa e exótica, rodeada por uma envolvente com os mesmos atributos. Do que se trata? Do Parque Lage.
A história deste espaço começa no inicio do século XIX. Actualmente é um parque público com um palacete que abriga a Escola de Artes Visuais e um café com uma charmosa esplanada nas arcadas pátio central, junto à piscina.
Está inserido no Parque Nacional da Tijuca, pelo que os seus jardins apresentam uma deslumbrante e exuberante natureza e uma vista  fabulosa para o morro do Corcovado.
Próximo do Parque Lage fica o Jardim Botânico, que apesar de não ser o espaço mais turístico do Rio de Janeiro, a imagem da entrada, com a correnteza de palmeiras, é um dos ex-librisda cidade. Este espaço fantástico, inserido na Mata Atlântica, apresenta uma grande diversidade de flora brasileira e estrangeira.
São Conrado enquadra-se, tal como o Jardim Botânico, nos locais que não sendo desconhecidos não são também incontornáveis no turismo mais clássico.  
É na praia deste bairro de classe alta que aterram as asas deltas que saltam da Pedra Bonita. Um dia de praia aqui, para além de mais tranquilo do que nas outras praias da zona sul (Copacabana, Ipanema e Leblon), tem sempre o atractivo de ter algo colorido a sobrevoar, bem como a Pedra da Gávea, o maior monolítico costeiro do mundo, como companhia.

Bem menos procurado pelos turistas é o centro do Rio de Janeiro, nomeadamente o Museu Nacional de Belas Artes, a Praça XV, o Mosteiro de São Bento, o Teatro Municipal, a Catedral Metropolitana, entre outros.

A Urca é outro espaço que apesar de ser a ante-câmara para um dos locais mais visitados do Rio, o Pão de Açúcar, acaba por não ser vivenciado como merece. É uma maravilha percorrer as ruas tranquilas deste bairro, observar os vários pontos de vista que se tem daqui, admirar as suas praias e comer nalguns dos locais emblemáticos, como o Bar da Urca e o Belmonte.
Próximo do acesso ao maior ponto turístico do Rio de Janeiro, o Corcovado, eleito como uma das novas Sete Maravilhas do Mundo, ficam outras maravilhas.
O Museu de Arte Naif, com um acervo entusiasmante, e o Largo do Boticário.
Este último, um largo delicioso no Cosme Velho, envolto por casarões em estilo neocolonial e pela vegetação da Mata Atlântica, teve o seu momento cinematográfico no filme 007 – Aventura no Espaço (Moonraker no original).
O nome do largo deve-se a Joaquim Luiz da Silva Souto que foi farmacêutico da família real. O acesso ao largo faz-se por uma pequena ponte sobre o Rio Carioca, que aqui tem dos poucos troços a céu aberto. No dia que estivemos no Largo cruzámo-nos com um grupo de pessoas que iam iniciar uma manifestação contra a situação de aterro do rio. Ainda nos tentaram mobilizar, contudo, decidimos ficar a contemplar o ambiente decadente-charmoso daquele pedacinho do Rio de Janeiro, que seguramente não está no imaginário da maioria dos turistas que visitam ou pensam visitar a cidade. 

Rio de Janeiro | O Clássico

Quando se fala em Rio de Janeiro inevitavelmente surge-nos a imagem do Pão de Açúcar, Corcovado, Copacabana e Ipanema.
São ícones demasiado fortes. Por isso, numa primeira visita são incontornáveis.
Como haviam estreantes na Cidade Maravilha subimos no teleférico desde a Urca até, primeiro, ao Morro da Urca e, depois, ao Pão de Açúcar, para nos deliciarmos com as vistas que dali se alcançam.
Também subímos de bondinho desde o Cosme Velho até ao Corcovado. A vista é soberba, mas a multidão e o folclore junto ao Cristo, com direito a missa ao ar livre (alguém consegue encontra paz por ali?), torna o local menos atractivo.
Dali avistamos praticamente a cidade toda e o outro lado da Baía de Guanabara, Niterói. Não deixamos de sentir que no Mirante de Dona Marta, mais abaixo, conseguiríamos quase a mesma vista com outra tranquilidade. Mas ícones são ícones e, pelo menos uma vez na vida, não devemos fugir deles.
Outro clássico na paisagem do Rio é Copacabana, a “Princesinha do Mar”. Apesar de o seu auge ter ficado lá pelos meados do século XX, a sua aura continua no imaginário de quem visita a cidade ou não fosse uma das praias mais famosas do mundo.
A sua orla, com cerca de 5 km, que vai do Morro do Leme ao Forte de Copacabana, é marginada pelo Copacabana Palace, um dos hotéis mais conhecidos do mundo, e pela famosa calçada, com um padrão a simular ondas do mar em calçada portuguesa.
Já neste século, a orla de Copacabana ganhou um novo ícone, a estátua de bronze do poeta Carlos Drummond de Andrade.
Ipanema é outro local incontornável. Cantada e celebrada, entre outros, por Tom Jobim (que foi homenageado com uma estátua junto do Arpoador) e Vinícius de Morais, com a famosa “Garota de Ipanema”, este bairro nobre é imperdível. A dinâmica da sua orla, com uns a jogarem futevolei, outros volei, outros apenas a bronzearem-se é contagiante.

Mesmo ao lado, fica provavelmente o pôr-do-sol mais aplaudido do mundo, o do Arpoador.

Melhor, o sol põe-se no lado oposto, junto ao Morro dos Dois Irmãos, cantado por Chico Buarque, mas a multidão dispõem-se na Pedra do Arpoador para todos os dias de sol aplaudirem esta dádiva da natureza.
Outra imagem de marca do Rio é a Lagoa Rodrigo de Freitas, marginada pelo Jockey Club Brasileiro e o Jardim de Alá e onde, todos os anos, desde 1996, por Dezembro, é inaugurada a mega árvore de Natal.

O Rio Mudou Muito?

No espaço de pouco mais de uma década não se notam grandes alterações na paisagem urbana. Não é notória uma transformação como ocorreu, por exemplo, a partir do final dos anos noventa em Lisboa, em que a cidade ganhou um novo espaço urbano a Oriente e requalificou e revitalizou espaços centrais.
Contudo, há aspectos que mudaram e que, em parte, contribuem para que a visita actualmente ao Rio possa ser diferente.
Saliento três aspectos relevantes, o custo de vida, agora muito mais elevado; a pacificação, a partir de 2008, de muitas favelas, através das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e, muito por isto, a maior segurança que se sente actualmente.
A presença das UPP, através da permanência de polícias comunitárias nas favelas, como forma de desmantelar os grupos de crime organizado e tráfico de droga que, anteriormente, controlavam estes territórios, os quais funcionavam como estados paralelos, permite, actualmente, que a cidade visitável não seja apenas a do asfalto, mas também a do morro.
Anteriormente, praticamente, só o morro do Pão do Açúcar / Urca e do Corcovado eram visitáveis. Hoje para além destes, que confirmámos que continuam com vistas lindas e com preços caros, podemos subir a outros morros e ter outros pontos de vista surpreendentes, praticamente a custo zero.
Foi o que fizemos, procurámos outras perspectivas da cidade maravilhosa.
Subimos ao Vidigal, comunidade da Zona Sul, localizada entre o Leblon e São Conrado. A ideia inicial era fazer a trilha dos Dois Irmãos, mas devido à hora adiantada optámos por subir apenas à parte mais alta do Vidigal, o Avrão, onde se inicia a trilha.
O “apenas” é, no entanto, relativo porque a experiência de subir de kombi pelas ruas íngremes e estreitas da comunidade, observando as dinâmicas dos residentes – onde uns sobem as ladeiras íngremes, outros juntam-se à beber um chope à frente dos bares, que debitam sons altos, animados e ritmados, as crianças lançam pipas -, é suficientemente gratificante. E torna-se ainda mais quando chegamos ao topo, nos sentamos descontraidamente numa esplanada de um bar, em festa, de um hostel, e somos brindados com uma vista magnífica.

Dali avista-se o Leblon, Ipanema, Arpoador, Lagoa, as praias de Niterói, as ilhas Cagarras.  Arrebatador.

Éramos para subir, mas optámos antes por descer o morro da Urca, desde o primeiro nível do teleférico para o Pão de Açúcar até à pista Cláudio Coutinho, na Urca. Pelo meio cruzámo-nos com uma flora diversa e com saguis, os pequenos e encantadores macacos que nos fazem companhia ao longo da trilha.
Subimos também ao Forte do Leme, no topo do Morro do Leme, um espaço outrora vedado aos visitantes. A vista é igualmente estonteante. Niterói de um lado, morro do Pão de Açúcar de outro, zona sul para outro, com Copacabana, Morro do Cantagalo, Morro do Pavão e Pavãozinho, Morro dos Dois Irmãos, e Pedra da Gávea.
Mesmo ao lado, subimos pela Ladeira Ary Barroso, a via principal de acesso ao Morro Chapéu da Mangueira e ao Morro da Babilónia. A intenção principal era comer no galardoado Bar do David, no Morro Chapéu da Mangueira, mas havia também uma vontade muito grande de ver a vista do mirante da Babilónia. De alguma forma foi frustrante não termos conseguido fazer este último desígnio, pois estávamos mesmo próximo, mas Paquetá chamava por nós e como o tempo não dá para tudo e a vida é feita de escolhas resolvemos seguir para a ilha da “Moreninha”.
Ficou a faltar, por não haver tempo, em relação ao pré-programa ambicioso, analisar as sinuosas montanhas através do topo do Morro do Pasmado, do Mirante Dona Marta e do mirante Sacopã, no Parque da Catacumba, na Lagoa.
Deixaremos a surpresa de novas possibilidades de enquadramento menos convencionais e mais sossegadas (o Corcovado estava impossível dado a multidão) para uma próxima vez, que talvez seja em 2016, pelos Jogos Olímpicos.
Fizemos ainda outros programas que anteriormente não seriam tão confortáveis por questões de segurança, nomeadamente andar pelo charmoso bairro de Santa Teresa e deliciarmo-nos com as suas pérolas e deambularr pela Lapa, dia e noite.
Em Santa Teresa, depois de subirmos ladeira acima via escadaria Selarón – o bonde contínua sem estar em funcionamento-, visitámos o delicioso Museu Chácara do Céu, que alberga a óptima coleção privada de Raymundo Ottinu de Castro Maya, que inclui arte brasileira (o maior acervo público do artista Portinari) e europeia, numa das suas antigas residências.
Ainda em Santa Teresa, mesmo ao lado da Chácara do Céu, deixámo-nos estar pelo Parque das Ruínas. Que lugar. O sossego, a vista de 360º.  Ali a perfeição existe.
Actualmente é um pólo cultural, no dia que por lá estivemos uma banda ensaiava para dar um concerto no dia seguinte, nos resquícios do Palacete Murtinho Nobre, do final do século XIX , local de residência da grande mecenas carioca Laurinda Santos Lobo.
Ao final da tarde deambulámos pelas ruas do bairro, fizemos uma parte do trajecto do bonde a pé, entrámos nas galerias de arte, sentámo-nos para beber algo fresco enquanto a noite caia, para de seguida jantarmos comida amazónica no Espírito Santa.
Andámos também no sopé do morro de Santa Teresa, onde fica a Lapa, bairro historicamente da boémia carioca. Em tempos idos era aqui o epicentro da malandragem, cujos malandros tinham paixão pela noite, música, jogo, boémia e pelas mulheres (sobretudo prostitutas). Como a novela Kananga do Japão mostrou, passavam as noites nas gafieiras, a dançar, vestiam-se a rigor com fato e chapéu branco estilo Panamá e frequentemente brigavam.
Depois de anos em que o bairro dos Arcos da Lapa era um território perigoso e pouco recomendável, sobretudo à noite, actualmente é um dos sítios mais animados para sair à noite, com inúmeros bares e salas de espectáculos, com músicas de todo o estilo. Onde a diversão é garantida.
Diversão garantida é também uma roda de samba. Fomos a uma das mais badaladas do momento. Não é sítio turístico, é antes para locais. E dos de carteirinha pelo samba. Chama-se Samba do Trabalhador e fica em Andaraí, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Ocorre às segundas-feiras, no Clube Renascença, desde meio da tarde até à noite.
Arrisco-me a afirmar que a maioria dos que visitam o Rio de Janeiro apenas vão aos sítios mais turísticos e mantém-se pela zona sul. É um programa sedutor. Não há dúvidas. Contudo, para entender o Rio, cidade plural e de extremos, uma visita nunca ficará completa se não compreendermos as várias células urbanas que fazem o maravilhoso e diverso universo carioca.