Deus-Dará, de Alexandra Lucas Coelho


Deus-Dará é nos apresentado como o novo romance de Alexandra Lucas Coelho e não como o seu novo livro de viagens.
Todavia, este romance singular na disposição da sua narrativa – sete personagens principais a viver as suas vidas em sete dias dispersos por alguns dos anos vividos por Alexandra no Rio de Janeiro – mostra-nos o Rio de Janeiro em toda a sua intensidade. 
Quem conhece o Rio, seja por lá ter vivido, passado ou espreitado nas novelas brasileiras, vai-se identificar com este livro. 
Logo na página 58 a autora escreve, dando voz a uma das personagens, “Nunca aqui estive, mas estive. Porque a gente cresce com isto, estas imagens.”.
Se se for leitor das reportagens e crónicas de Alexandra, então, a identificação será ainda maior. Caso não se insira em nenhuma destas categorias, este livro vai ser também entusiasmante e todos acabaremos por aprender com ele.
Aqui cabe história, política, futebol, música, literatura, viagens interiores, vidas iguais a tantas outras, praia. Tudo é o Rio.
A natureza do Rio marca presença assídua ao longo das mais de quinhentas páginas deste livro. São nos informadas curiosidades, como a da sua página 150, acerca do nome da zona Jacarepaguá (nome indígena que significa enseada dos jacarés) e da possibilidade de um jacaré atravessar uma rua no Rio de Janeiro, “Mais que possível, com várias ocorrências, é jacaré em canal de esgoto no Rio de Janeiro. Tanto que quem lhe atirar um pedaço de pão corre o risco de ver aparecer mais dez. E a tendência vai ser para aparecerem cada vez mais, baralhando o possível, o provável e o comum, como é próprio do apocalipse. Quanto mais a cidade entrar pela natureza, mais a natureza vai entrar pela cidade, respondendo ao que os homens fazem em terra, mar, ar, do Rio de Janeiro à China”. 
Escrita comprometida, já se lê. 
E o tom apocalíptico vai dominando ao longo de todo o livro. Eis mais um cheirinho de natureza e apocalipse, “… e arrancam morro acima, aquelas curvas que de noite ficam épicas, chuva furando a terra, trazendo o cheiro do fundo” (página 381).
O clima de festa, bem expresso pela música brasileira, é outra constante. Termina em grande com as palavras cantadas de Chico Buarque, “Diz que deu, diz que dá…”, provando que quando se trata de Brasil tudo termina não em pizza mas em música. Ao longo do seu livro, Alexandra vai citando trechos de letras que não precisava de informar os seus autores para as reconhecermos imediatamente, como o “maluco-beleza” de Raul Seixas ou o meu herói que não morreu de overdose mas “meus inimigos estão no poder” – Viva Cazuza. Que prazer lembrar e cantar estas músicas intemporais.
Aqui são invocados muitos clichês, os tais que nos fazem identificar com o que está escrito, como se tivéssemos vivido algo parecido, como se fossemos também parte destas histórias. Mas clichê no sentido positivo, o qual nas palavras de Alexandra vira frase enorme: “Acontece, no entanto, que o narrador tem aquela costela não-brasileira de ser ateu, sem deixar de ter aquela costela brasileira do milagre” (página 310).
Enorme, igualmente, a forma como a autora cria histórias que à partida nada pareciam ter em comum, como a de Dirk van Hogendorp, ajudante de campo de Napoleão, que partiu para o exílio no Rio, instalando-se no Cosme Velho, onde nos dias de hoje pelas suas ruas passa uma transexual cuja história há-de ir ter a Sócrates, o doutor futebolista. Isto anda tudo ligado.
Tempo ainda para nestas páginas se discorrer uma posição que quem era leitor das crónicas semanais no Público de Alexandra Lucas Coelho já vem tendo conhecimento. A do papel histórico –  muito evitado e calado – de Portugal na escravatura. 
Faz todo o sentido que neste Deus-Dará seja abordada uma panóplia de assuntos, como se tivessem sido ali lançados e deixados fluir ao sabor do tempo que levou a escrever todas estas páginas. As histórias de vida comum e diária dos personagens prendem-nos, no final são deixados para ali, ao certeiro Deus-Dará, talvez para que as possamos compor ao nosso gosto. Mas desta obra muitos temas poderão ganhar vida própria, sujeitos a discussões autónomas, assim esteja a sociedade portuguesa – e brasileira – interessada. O tema da escravatura é um deles.
Livro inquietante, este.

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