Por São Paulo – Parte 5

Começamos o dia na Barra Funda, um bairro na zona oeste de São Paulo.

Logo que saímos do metro da estação do Terminal Intermodal Palmeiras-Barra Funda, damos com o Memorial da América Latina, que era o nosso primeiro objectivo de visita do dia.
Tivemos uma decepção ao percebermos que resolveram instalar um circo, com a respectiva parafernália, no centro de uma das praças que alberga as várias obras arquitectónicas, tirando a perspectiva global, livre e digna do conjunto arquitectónico da autoria de Oscar Niemeyer.
O Memorial da América Latina é um reduto cultural, político e de lazer projectado pelo arquitecto Oscar Niemeyer e inaugurado em 1989, como monumento à integração cultural, política e económica e social da América Latina.
O complexo é composto por vários edifícios dispostos em duas praças unidas por uma ponte. De um lado, na Praça Cívica, estão sedeados o Salão de Atos, a Biblioteca Latino-Americana, a Galeria Marta Traba e o Centro de Recepção de Turistas. No outro lado, estão o Pavilhão da Criatividade, o Auditório Simón Bolívar, o Anexo dos Congressistas e o edifício do Parlamento Latino-Americano.
Uma das obras mais emblemáticas fica na Praça Cívica e corresponde a uma escultura, também da autoria de Niemeyer, de uma mão aberta em posição vertical com o mapa da América Latina pintado em vermelho. Esta escultura, onde o mapa está a sangrar, representa a colonização brutal e a opressão que o continente sofreu, bem como a luta pela identidade e autonomia cultural, política e sócio-económica que foi empreendida. A frase que se encontra no pedestal da escultura, da autoria de Orestes Quércia, governador de São Paulo à época e idealizador do Memorial, transmite isso mesmo ao referir “O sentimento da unidade latino-americana é o limiar de um novo tempo. O esforço da organização para eliminar a opressão dos poderosos e construir um destino maior e mais justo é o compromisso solene de todos nós”.

De seguida encaminhamo-nos para o bairro Vila Pompeia onde fica o SESC Pompeia. Antes passamos pelo novo e belo, ou não fosse verde, estádio do Palmeiras.
Os SESC (Serviço Social do Comércio) são centros culturais e de lazer, com diversas valências sociais, culturais e desportivas, localizados em diversos bairros em todos os Estados do Brasil. São mantidos pelos empresários do comércio de bens e servidos e têm como objectivo proporcionar o bem-estar e qualidade de vida aos associados. Em Portugal, o que mais se assemelha, ainda que com uma irradiação bem menor, é o INATEL.
O SESC Pompeia foi instalado, em 1977, numa antiga Fábrica de Tambores sob um projecto magnífico da arquitecta Lina Bo Bardi. Atenta à vivência anterior, em que nos fins-de-semana o espaço era ocupado de forma alegre e viva pelas famílias e crianças, a arquitecta do MASP, tomou esse aspecto como pressuposto base e assumiu que a alegria deveria ser também pertença do espaço futuro.

Basta visitar o SESC Pompeia para perceber que os fundamentos base foram concretizados e que o espaço, que foi feito, tal como o MASP também de Lina, para grandes manifestações populares, foi fortemente apropriado pela população.
A arquitecta manteve os galpões pré-existentes e de forma a comportar o programa previsto edificou duas torres no único espaço possível de efectuar novas construções. Estes edifícios verticalizados para além de conferirem um aspecto monumental ao complexo, reúnem todos os equipamentos desportivos, seja a piscina, ginásio, espaços polidesportivos. A ligação entre espaços e infraestruturas de apoio, nomeadamente balneários, faz-se pelas pontes cobertas que ligam as duas torres.

A rua interna do SESC, que faz a distribuição para os vários espaços, nomeadamente auditório, biblioteca, espaços de exposições, restaurante, lanchonete, choperia, faz-nos sentir numa cidade dentro da cidade.
Para além das vivências presentes, destaca-se ainda a incorporação de algumas técnicas artesanais e sustentáveis, nomeadamente os colectores de águas pluviais e a refrigeração, que é efectuada através de processos de circulação natural.

Antes de irmos fazer o périplo da street art por Vila Madalena, vamos até ao centro a um dos ex-libris gastronómicos de São Paulo, o Estadão. O Estadão, que foi criado em 1968 por um português, tem o sanduiche de pernil mais premiado de São Paulo. Neste estabelecimento que funciona 24 horas por dia não faltam coisas apetitosas para comer.
De barriga cheia seguimos para Vila Madalena, primeiro passamos por dois murais do Kobra, depois vamos até à galeria de arte Choque Cultural.

Quando saímos à rua percebemos que o céu não tarde a abater-se sobre nós. Ainda assimcomeçamos a percorrer o Beco do Batman, um dos pontos fortes da street art em São Paulo. Com entusiasmo vamo-nos embrenhando pela rua a absorver todas as cores e representações criativas. Ouve-se um trovão e o céu cada vez está mais negro. Começa a chover. Primeiro pingos espaçados mas muito grossos. Depois começa a chover com mais intensidade.


O périplo e a sessão fotográfica são interrompidos. Abrigamo-nos por baixo de um telheiro. Chove torrencialmente. Sentimos a água a vir de um lado e de outro em direcção aos nossos pés. Não temos hipóteses, temos que sair dali. Corremos, dobramos a esquina e abrigamo-nos no primeiro boteco que encontramos.
A próxima hora é passada dentro do boteco a ver a rua inundar e transformar-se num rio. Entretanto, passam pessoas descalças, em cuecas, com o fito de tirarem os carros prestes a ficarem submersos. Na televisão passam notícias das inundações e suas consequências na Grande São Paulo. Da mesma forma que a rua inundou, regressou à normalidade, ainda que se mantivesse a chuva, mas agora com muito menos intensidade.
Voltamos à rua e deambulámos pelos eixos boémios de Vila Madalena, onde há uma grande concentração de botecos. Antes de escolhermos um, vamos à Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho. As Livrarias da Vila (fomos também à da Alameda Lorena e à do JK Iguatemi) são projectos fantásticos, tanto pela oferta que apresentam, como pelos criativos projectos de arquitectura de interiores.
Regressamos novamente à rua e dirigimo-nos ao Bar Filial, na Rua Fidalga, para comer a, dita por muitos, melhor coxinha da cidade. Se é a melhor não sei, mas que é muito boa garanto.
Compomos com outros acepipes, nomeadamente empada de palmito, caipirinhas e chopes, ditos como os melhores tirados da cidade.
Já com o estômago forrado, seguimos para a Freguesia do Ó, região noroeste de São Paulo, com o objectivo de irmos ao ensaio da escola de samba Rosas de Ouro. Chegamos às 23h, porque há trânsito e ainda se sente as consequências das chuvas fortes que inundaram parte da cidade. Ainda sem jantar.
Está tudo ainda calmo nas imediações da escola de samba. Umas piriguetis informam-nos que afinal o ensaio só começa à meia-noite. Resolvemos abandonar este programa e ir jantar. O corpo já pede.
Depois de algumas indecisões a escolha é o Bixiga, o bairro mais italiano de São Paulo. O bairro das cantinas. Vamos à Villa Tavola. Já passa da meia-noite e a fome aperta. Todos optamos por um dos fortes da casa, massa no rechaud, que é como quem diz o processo de confecção da massa é efectuado junto à nossa mesa.
Calha-nos um empregado de mesa muito divertido, que diz, com muita verdade, também ser cozinheiro e psicólogo. Conta-nos que vai viajar até Portugal (Coimbra), uma cidade húngara que não se lembra o nome e Helsínquia. Programa improvável, tal como um brasileiro, como ele, conhecer clubes portugueses tão inexpressivos como o Gil Vicente e o Rio Ave. Mas na verdade, este entertainer culinário tem é um carinho pela Académica. Já me tinha conquistado, mas assim não restam dúvidas.

 

Por São Paulo – Parte 4

Após três dias em São Paulo fomos passar uma semana e pouco no Rio de Janeiro. De regresso a Sampa, depois de uma viagem de autocarro entre as duas cidades, iniciámos tal como tínhamos acabado a última tarde em São Paulo, novamente com uma obra do arquitecto Ruy Ohtake.
Desta vez fomos para Pinheiros, para o InstitutoTomie Ohtake.
Tomie Ohtake, de origem japonesa, para além de mãe de Ruy Ohtake é uma artista plástica renomada.

O Instituto está inserido num complexo maior, onde a cultura, trabalho e lazer estão integrados. Para além do centro cultural, na expressão do Instituto Tomie Ohtake, existe um centro de convenções e dois edifícios de escritórios. Todo o complexo apresenta uma arquitectura de vanguarda com formas futuristas.
O Instituto costuma ser palco de grandes exposições e procura difundir a vertente artística. Tivemos a sorte de estar patente uma exposição retrospectiva do mestre do surrealismo, Salvador Dali. Encontrava-se também em cartaz a, agora, Novo Banco Photo (ex-BESphoto).

Nas imediações do Instituto Tomie Ohtake, na fachada lateral da loja Fnac de Pinheiros, tivemos ainda oportunidade de nos maravilharmos uma vez mais com uma das obras mais recentes do artista de street art Kobra, desta vez em homenagem ao cantor Chico Buarque e escritor Ariano Suassuna.

O jantar de regresso a São Paulo acabou por estar em conformidade com a origem da artista que deu nome ao Instituto que visitamos nesse dia. Fomos a um restaurante japonês. Em sistema de rodízio comemos deliciosamente bem. Em qualidade e quantidade.

Por São Paulo – Parte 3

O dia começa no Copan, edifício gigante projectado, em 1951, pelo nome maior da arquitectura brasileira, Oscar Niemeyer. Apesar do projecto inicial ser de Niemeyer, este, por insatisfação quanto ao rumo da execução do projecto e por estar a caminho do grande projecto de Brasília, entregou a execução do Copan ao arquitecto Carlos Lemos.
Copan marca pela sua configuração sinuosa e pelos números. Com 115 metros de altura e 35 andares, congrega 1160 apartamentos distribuídos por seis blocos, acolhendo milhares de residentes, o que o transforma no maior edifício residencial da América Latina. Para além da componente residencial, acolhe também no piso térreo a vertente comercial.
Vamos até à sala do síndico, vulgo condomínio na nossa terra, fazemos o registo de entrada deixando os nossos nomes num caderninho (todos os visitantes do edifício têm que passar por este procedimento) e esperamos que o Jorge, deduzo que um dos vários zeladores, nos acompanhe até ao terraço. Dali avistamos mais uma vez a cidade de cima. Grande. Muito grande. Sem fim. Mesmo ao lado o Circolo Itália, que visitámos na véspera.
Em baixo um edifício com pista de atletismo. Em cima helicópteros. Vários helicópteros. Parece excêntrico, mas nesta cidade, onde o trânsito impera, acredito que seja prático.
Ainda tentamos visitar um apartamento, mas aquela hora a maioria das pessoas estão fora. Se conseguíssemos podíamos conhecer tanto um apartamento mínimo como outro maior. Cujo morador podia ser uma manicure ou um arquitecto, pois a diversidade social dos residentes é grande.
Descemos. Já no asfalto, descemos mais um pouco, ao subsolo e seguimos de metro para a Paulista, para a estação MASP-Trianon. Damos de cara com uma das obras mais emblemáticas da arquitecta Lina Bo Bardi, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), de 1968. A arquitecta de origem italiana procurou transformar este museu num espaço popular, longe, como a própria criadora referiu do “esnobismo cultural tão querido pelos intelectuais”.
Com um vão enorme (70 metros), apoiado em duas grandes vigas e quadro pilares com um pé direito livre de 8 metros, o museu impressiona pelo seu estado bruto e pela forte presença na paisagem urbana.
Visitamos a bela exposição Passagens por Paris, que propõe um passeio pela arte moderna, com obras feitas entre 1866 e 1948 por artistas icónicos do período como Manet, Degas, Cézanne, Gauguin, Van Gogh, Matisse, Renoir, Toulose-Lautrec, Picasso, Modigliani, Portinari. Em comum todos eles viveram, produziram e passaram por Paris.
Ainda na Avenida Paulista visitamos a interessante exposição Cidade Gráfica, patente no Itáu Cultural.
Mais à frente deslumbramo-nos com a magia e arte do muralista e artista plástico Kobra, que homenageou Oscar Niemeyer com uma grande pintura (52 metros de altura e 16 metros de largura) na empena do edifício Ragi.
Aproveitamos também para visitar uma das poucas reminiscências que ainda sobram da fase inicial da Avenida Paulista, a Casa das Rosas.
A outrora mansão em estilo clássico francês (de 1935) que reunia os barões do café na época da prosperidade agrária, sobreviveu às diversas transformações assistidas na história económica da cidade, que se foram plasmando nas transformações da Avenida Paulista, nomeadamente quando deixou de ser a avenida ligada à agricultura, para passar a ser a via dos casarões dos industriais e depois a avenida do mundo financeiro, com os seus arranha-céusTudo em menos de um século. Actualmente, a Casa das Rosas, perpetua a memória histórica da evolução da cidade, mas transformou-se num espaço cultural ligado à poesia e literatura.
Tempo de pausa e reconforto gastronómico. Almoçamos, na área dos Jardins, no restaurante Epice, do chef Alberto Landgraf, considerado pelo S. Pellegrino World´s 50 Best Restaurants como o 36º melhor restaurante da América Latina.
A tarde foi passada no coração verde da cidade, o parque Ibirapuera, cujo projecto arquitectónico foi da responsabilidade de Oscar Niemeyer.
Deambulamos pelo parque, assistimos à dinâmica de quem ali pratica exercício ou simplesmente passeia, deliciamo-nos com as obras arquitectónicas ali presentes.
Logo de início cruzamo-nos com o Monumento às Bandeiras, homenagem aos bandeirantes, esculpido por Victor Brecheret.
Depois de entrarmos no parque confrontamo-nos com diversas obras arquitectónicas, a maioria de Oscar Niemeyer, nomeadamente o Planetário, o Museu Afro Brasil, a Grande Marquise, o Oca, o Museu de Arte Moderna (MAM), o Pavilhão Ciccilo Matarazzo, conhecido também como Pavilhão da Bienal, por ser actualmente sede da Bienal de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea (MAC), o Auditório do Ibirapuera.

Todas as obras arquitectónicas são fantásticas, mas destaco o Auditório e a sua língua.

Aproveitamos para visitar a exposição do MAM e a Bienal de São Paulo, que se realiza a cada dois anos e é um dos eventos mais importantes das artes plásticas no mundo.
No Ibirapuera há marcas de alguns dos nomes maiores da street art, dos Gémeos e de Kobra. Os Gémeos têm um belíssimo painel à entrada do MAM, já Kobra apresenta três obras debaixo da elegante Grande Marquise, que foram feitas no âmbito da comemoração dos 60 anos da obra de Niemeyer.
À saída o sol começa a pôr-se e deliciamo-nos com as cores do final do dia.
 
Terminamos o dia no Skye Bar, na cobertura do Hotel Uniqueprojecto do arquitecto Ruy Ohtake, o mesmo do Instituto Tomie Ohtake. Aqui, num ambiente de festividade, vimos a noite chegar e a grande cidade iluminar-se. Uma delícia.

Por São Paulo – Parte 2

Segunda-feira. Início de semana. O vazio em que o centro da cidade se transforma no fim-de-semana volta a desaparecer. O centro da cidade torna a encher-se, com as pessoas que aí trabalham e lhe dão vida. É para esta área que vamos.
Primeiro, passamos rapidamente pelo mosteiro de S. Bento e atravessamos a ponte pedestre de Santa Ifigénia, em estilo art noveau, que passa por cima do Vale de Anhangabaú, para vislumbrarmos o centro e observarmos o edifício mais alto da cidade, o Vale do Mirante.
De seguida, como prólogo para o resto do dia, subimos ao Edifício Altino Arantes, mais conhecido por Banespão, por ser a sede do Banespa, o Banco de São Paulo. Este edifício inspirado no Empire State Building, foi durante anos o mais alto fora dos EUA. Vamos até ao 35º andar. Temos a cidade aos nossos pés e uma vista de 360º. Lá em baixo a cidade vibra, as pessoas fazem-se à vida. Para um lado avistamos a Avenida Paulista, no outro lado temos o Mercadão, ao fundo avistamos a Serra do Mar, logo em baixo vislumbramos a Sé.
Voltamos à base, quase literalmente, pois entramos numa casa muito portuguesa. A Casa Mathilde que apresenta doçaria tradicional portuguesa. Um dos sócios desta Casa adquiriu a marca histórica de Sintra. Experimentamos o pastel de nata. Massa perfeita, recheio bom.

Seguimos viagem até ao Páteo do Colégio, sítio onde em 1554 foi fundada a cidade.

Continuamos  para a Catedral Metropolitana de São Paulo, também conhecida como Catedral da Sé. Este edifício neogótico de grande escala foi construído em 1591 numa das extremidades da praça da Sé, onde se cruzam pessoas a caminho do trabalho ou outro local e permanecem indigentes e oportunistas das fraquezas dos outros, que dão pistas com base nos pressupostos bíblicos.
Do sagrado encaminhamo-nos para o profano. Para a 25 de Março, a rua das compras de tudo em versão económica. Antes subimos ao último piso do edifício Niazi, na esquina da ladeira Porto Geral com a Rua 25 de Março, uma espécie de Pollux mas do têxtil, para sentir toda a vibração térrea.

Horas de almoço e vamos até ao árabe Raful. O mundo das esfihas, kaftas, quibis, doces árabes e outras iguarias da cozinha árabe. Um mundo de delícias.

Voltamos à 25 de Março para logo seguirmos para a Avenida Ipiranga, onde mais à frente cruzamos com a S. João. Nada acontece, ao contrário da música do Caetano.

A não ser mais à frente, depois de passarmos a República, praça, e quando a Avenida Ipiranga cruza com a São Luís e damos com o Edifício Itália ou Circolo Italiano. Subimos ao topo do segundo edifício mais alto de São Paulo (o Mirante do Vale é o mais alto) e o terceiro do Brasil (o mais alto é no estado de Santa Catarina), onde fica o restaurante Terraço Itália.

Mais uma vez voltamos a ter a cidade aos nossos pés e o edifício Copan, do génio Niemeyer, ao nosso lado. Pena que o edifício ondulante esteja entaipado para obras.

Mas a vista do Circolo Italiano tem um impacto grande. Confirmamos a designação Selva de Pedra. Para onde olhamos avistamos construção, densidade urbana, edifícios altos.

Voltamos ao asfalto e continuamos para a praça Roosevelt. Aqui os skaters são donos. Mesmo ao lado passa um troço do polêmico Minhocão, artéria sobrelevada que foi construída, em 1970, com o intuito de desanuviar o trânsito e que liga a zona central à zona oeste da cidade. Esta infraestrutura tem um forte impacto na paisagem urbana e na vida das pessoas, já que o intenso tráfego passa mesmo junto aos apartamentos residenciais, razão porque nunca foi bem visto pela população. Ao longo do tempo foram sendo tomadas decisões para diminuir o impacto desta via, nomeadamente interditar à noite e aos Domingos, dia em que se transforma numa via destinada a pedestres e ciclistas.
Recentemente foi aprovada a demolição do Minhocão e a transformação do mesmo em um jardim linear e suspenso. Acredito que trará maior humanidade à cidade.
Voltamos para a área mais central, onde os edifícios pichados nos envolvem, para passarmos pela Praça das Artes, o mais novo núcleo cultural da cidade, com uma bonita arquitectura, faltando só um pouco de verde.
Passamos também pelo bonito edifício do Teatro Municipal, cruzamos o vale do Anhangabaú, para entrarmos no bar Salve Jorge e bebermos a famosa caipirinha com picolé, acompanhada de bolinho de carne-seca e mandioca.

Enquanto isso o dilúvio abate-se sobre a cidade. Esperamos tranquilamente pelo término deste desaguar a saborear a caipirinha e os bolinhos.
A chuva dá paz e voltamos a fazermo-nos à rua, via Augusta, onde nos cruzamos com um amigo paulistano e comprovamos que mesmo numa cidade grande há momentos que sentimos que afinal o mundo é uma aldeia.
Cruzamos a Avenida Paulista, descemos para os Jardins e acabamos no D.O.M, o restaurante do chef ex-punk Alex Atala. O considerado pelo S. Pellegrino World´s 50 Best Restaurants como o sétimo melhor restaurante do mundo e o terceiro da América Latina. No meio da refeição comemos uma formiga saúva que os índios utilizam para temperar as suas refeições na Amazónia. Na maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo tudo é possível.

Mais de duas horas depois de termos iniciado o menu de degustação do reino vegetal saímos em estado inebriante pela colossal e majestosa porta do D.O.M. Arrebatador. Tudo, por estes lados.

Por São Paulo – Parte 1

A caminho do Paraíso encontrámos Jesus Cristo. O número 1. O legítimo. Ele falava para o mundo. Anunciava as desgraças e profecias.
É de fragmentos destes que se fazem as grandes cidades. No caso São Paulo.
Paraíso é um bairro de São Paulo e Jesus Cristo era uma das muitas pessoas que ia no metro, metrô naquelas paragens, naquele final de tarde de regresso para casa ou para algum outro lugar.
Nós íamos a caminho do jantar em Higienópolis. Era Domingo. O jantar, segundo a tradição paulistana, e ainda mais com paulistanos, só podia ser um. Pizza.
E assim foi, na belíssima pizzaria Veridiana pedimos uma pizza familiar. Um terço com cogumelos, outro com palmito e outro com presunto parma. Antes veio uma caipirinha de mexerica, isto é, tangerina em português do Brasil, e depois uma pizza doce de nutella e morango e nutella e banana.
Retemperou a intensidade do dia, que se iniciou na Luz, zona norte da cidade, com uma espera de duas horas para entrarmos na Pinacoteca, cujo edifício foi intervencionado pelo arquitecto Paulo Mendes da Rocha.
Apesar do belíssimo acervo deste espaço, a responsabilidade da elevada procura deveu-se à exposição temporária do artista australiano hiper-realista Ron Mueck, também genro da pintora portuguesa Paula Rego. Para além desta exposição e da colecção permanente, que faz uma retrospectiva da arte brasileira desde o século XVIII até ao final século XX, aproveitámos para ver a outra exposição temporária em presença, as pinturas e desenhos do maior arquitecto paisagístico brasileiro, Burle Marx.
Durante a espera, numa fila que dava a volta ao edifício e se espraiava, aproveitámos para absorver a envolvente, nomeadamente o parque da Luz, os edifícios coloridos de apenas dois pisos, que contrastam com os edifícios mais altos, um dos quais se destaca pela empena grafitada em estilo pop art à la Roy Lichtenstein, pelo artista Daniel Melim.
Após a visita à Pinacoteca, atravessámos a rua e fomos ao Museu da Língua Portuguesa.
Este museu fica inserido na estação da Luz, que apresenta uma bela estrutura em ferro fundido e que apontam que seja similar a uma estação existente em Melbourne (Austrália) e outros que a sua torre é uma réplica do Big Ben de Londres.
O Museu da Língua Portuguesa trata-se de um núcleo museológico diferente e delicioso, que recorre de uma forma muito imaginativa e comovente à tecnologia. Vale uma visita pela viagem que se faz à nossa “pátria”, como Fernando Pessoa designou a língua portuguesa. Emocionante.

De alma cheia e barriga vazia, continuámos a nossa viagem rumo ao Mercadão. No enlace do pastel de bacalhau e da sandes de mortadela, dois ex-libris paulistanos. Comemos ambos no Hocca Bar, um barzinho que existe desde 1952 e é um dos espaços mais recomendados para comer estas duas delícias, que têm tanto de gostosas como de excessivas.

Em condições de prosseguirmos viagem seguimos para a Liberdade, o bairro que acolhe a maior comunidade japonesa do mundo fora do Japão. Aqui, desde a chegada dos primeiros japoneses na década 10 do século XX, foram ficando diversas marcas nipónicas.

Apesar de actualmente o bairro ser também ocupado por chineses e coreanos, as reminiscências japonesas estão lá, seja pelos produtos à venda, comida, restaurantes, lojas, designações de edifícios e estabelecimentos (Nagoya, Fuji, Ginza, cerejeira) como pela fisionomia das pessoas.

Este pedaço oriental de São Paulo é também um dos vários locais com marcas de street art, tão presente em São Paulo.

Deixámos a noite cair neste recanto nipónico, enquanto as luzes dos candeeiros ao estilo oriental se iam acendendo e os semáforos, com o símbolo dos templos japoneses, alternavam a espaços entre o verde e o vermelho.
Depois foi quando encontrámos Jesus.
Após esta epifania só nos restou ir desgustar as óptimas pizzas da Veridiana. A seguir vagueámos de carro pela noite dentro, pelo vazio nocturno do centro da cidade. Da grande cidade.  

As Livrarias do Rio

Quando saio à rua, seja onde for, dificilmente consigo escapar a olhar para as bancas de jornais. Tenho a certeza de que esse meu hábito surgiu no Rio de Janeiro, onde esquina sim esquina sim há sempre jornais e revistas para olhar.
Claro que decisivo para este meu gosto por publicações foi o facto de o meu pai comprar sempre vários jornais por dia (a Capital era vespertino, por isso havia que comprar mais qualquer outro para entreter as manhãs, e ainda havia os desportivos), fora os semanários.
E depois existe a paixão pelos livros. E pelas livrarias. Não que as livrarias do Rio sejam as melhores do mundo. Não o sei. Mas têm livros em português, muitos livros em português mesmo.
Como tinha poucos dias no Rio, acabei por deixar ao acaso a entrada numas quantas, fosse no centro ou na zona sul. Já sabia que a livraria da Travessa era uma das que valia a pena ter em conta. O bom foi ter calhado de ir à sua loja original, a da Travessa do Ouvidor, no Centro, rua a quem deve precisamente o seu nome.
E depois calhou também ter passado na livraria Letra Livre, para os lados do Real Gabinete Português de Leitura, muito acolhedora e com livros em primeira e em segunda mão.
Mas a que mais gostei foi a livraria Argumento do Leblon. Fui jantar ao Sushi Leblon e a Argumento estava a uns poucos metros dali, mesmo do outro lado da rua. Esta é a livraria que aparece sempre nas novelas da Globo do Manoel Carlos. Apesar de não ver novelas há mais de uma mão cheia de anos, ainda me lembro de algumas das suas histórias passadas no bairro do Leblon e lembrava-me da cara dele. Dai que o tenha reconhecido logo quando entrou velhinho e curvado para mais uma noitada de tertúlia na sua livraria. O agradável, mas não inédito, da Argumento do Leblon é o espaço de barzinho mesmo junto aos livros. E porque é disso que se trata comprei uns quantos e logo me arrependi de não comprar uns quantos mais (não que os preços sejam uma oportunidade). Um deles foi o “Lavoura Arcaica” de Raduan Nassar e a moça da caixa logo me disse, emocionada, que este era o seu livro de cabeceira. Não podia deixar de o ler logo. Não é uma obra fácil, fez-me lembrar a escrita de Clarice Lispector, também complicada. Mas gostei e voltei para casa mais feliz.

O Rio Está Podendo

É curioso que num mesmo dia tenha calhado de meter conversa, ou vive-versa, com dois brasileiros e os dois tenham acabado por falar do mesmo: aquilo lá por Portugal está mau, né não?
À pujança do Brasil, que até foi convidado para emprestar dinheiro ao FMI para acudir aos países europeus, corresponde a crise destes. Pujante como o Rio haverá poucos, em crise como Portugal também poucos haverá. No nosso não foi descoberto uns poços de petróleo ao largo, os tempos do Europeu de Futebol também já passaram e os de Jogos Olímpicos provavelmente nunca virão. Claro que os cariocas mais realistas estão cientes de que este momento de euforia pelos grandes eventos e grandes obras é também uma oportunidade para mais marosca e corrupção. Mas enquanto isso os cariocas vão enchendo aos restaurantes e as lojas com preços de grandes cidades europeias. E, curiosidade maior, brasileiros de todo o país estão vindo visitar o Rio.
É, o Rio está podendo.
(uma adenda: vai ter que melhorar muito a recepção aos turistas quer no aeroporto – oh esperas atrozes, seja pela imigração, seja para receber as bagagens, seja para chegar ao centro ou zona sul com aquele trânsito infecto – quer nas brochuras para os ditos em museus ou qualquer outra atracção)

Mais Um Dia Feliz no Rio

Segunda feira nunca seria a confusão de domingo para subir ao Pão de Açúcar. Mas escaldada com a multidão do dia anterior no Corcovado, eram 9 horas e já estava à beira da Praia Vermelha, no bairro da Urca, com o meu bilhete comprado e com pouco mais de uma dezena de pessoas por companhia.
Pude assim escolher o lado que me deu vontade dentro do bondinho e tirar as fotos na subida à larga e sem atropelos. Por sorte o dia esteve novamente claro e com a visibilidade a mil.

Na primeira paragem, no topo do Morro da Urca, vê-mos logo o Cristo lá em cima com a Baia da Guanabara cá em baixo, com os seus barquinhos estacionados nas águas plácidas, como diz o hino brasileiro ainda que se refira a outras águas.
Praticamente sozinha, deu para puxar a cadeira e esticar as pernas em direcção ao outro lado da Guanabara, com a praia de Flamengo e o centro do rio por trás, procurando identificar alguns edifícios; a piramidal catedral metropolitana é fácil, a torre com o relógio da Central do Brasil, idem. Puxei a cadeira para o outro lado e deixei-me ficar a olhar, já cheia de saudades, para o delicado e fino recorte da paisagem da capital carioca. Morros e mar, umas vezes escondendo-se uns dos outros, outras abraçando-se e envolvendo-se, até se tornarem o inevitável cliché: a cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. Palmas.

Do que não me lembrava é que aqui em cima, já na ultima paragem no Morro do Pão de Açúcar, para além da paisagem continuar soberba, podemos perder-nos num pequeno trilho com vista para Niterói por entre os ramos da intensa vegetação, ao mesmo tempo que a tentação de descansar ou piquenicar nos vários banquinhos e mesinhas nos vai tomando.

Descendo, junto à Praia Vermelha tem inicio outro dos “must’s” do Rio, a pista Cláudio Coutinho, também conhecida por “Caminho do Bem Te Vi”. Sao cerca de 2,5 km ida e volta num trilho absolutamente sossegado e seguro que serpenteia o Morro da Urca e o Oceano Atlântico. Daqui partem também aqueles que querem atingir o morro escalando-o.
Antes coragem para voar sobre o Rio de asa-delta, o que, infelizmente, também não tenho. Esta actividade parte da Pedra Bonita e cai nas areias da Praia de São Conrado. Como para mim já me basta ver aterrar os passarinhos improvisados e esta é, ainda por cima, uma das praias mais bonitas do Rio, anda pensei dar uma saltada até lá. Mas à tarde voltaria para Lisboa e com medo de me atrasar neste transito caótico, decidi-me por uma volta no pacato e acolhedor bairro da Urca.

Este é um dos mais nobres e carismáticos bairros do Rio, único por aqui. Nos anos 40 do século passado o Casino da Urca trazia animação nacional e internacional e Carmen Miranda morava por lá. Hoje, muitos anos depois da proibição do jogo, ficaram as suas moradias elegantes encravadas entre os morros verdejante da Urca, Pão de Açúcar e Cara de Cão e a baia da Guanabara, com direito a uma pequena praia mesmo ali à porta. Um luxo.

E tive ainda direito a 60 minutos de praia em Copacabana (os únicos da viagem). Não vi o fiscal da natureza, mas fui muito bem tratada, com direito a cadeirinha por poucos reais.

Poucos lamentos desta rápida estirada ao Rio de Janeiro. O principal tem que ver com isso mesmo: a rapidez da viagem que ainda por cima ficou atrasada por um dia por causa do avião. Muito haveria para visitar, mas do que me propus inicialmente apenas não fui ao Museu de Arte Contemporânea de Oscar Niemeyer, em Niterói, nunca por mim visitado, e ao Bairro de Santa Teresa. Não é pouca coisa, mas espero não demorar outros dez anos para os ver.