Por São Paulo – Parte 5

Começamos o dia na Barra Funda, um bairro na zona oeste de São Paulo.

Logo que saímos do metro da estação do Terminal Intermodal Palmeiras-Barra Funda, damos com o Memorial da América Latina, que era o nosso primeiro objectivo de visita do dia.
Tivemos uma decepção ao percebermos que resolveram instalar um circo, com a respectiva parafernália, no centro de uma das praças que alberga as várias obras arquitectónicas, tirando a perspectiva global, livre e digna do conjunto arquitectónico da autoria de Oscar Niemeyer.
O Memorial da América Latina é um reduto cultural, político e de lazer projectado pelo arquitecto Oscar Niemeyer e inaugurado em 1989, como monumento à integração cultural, política e económica e social da América Latina.
O complexo é composto por vários edifícios dispostos em duas praças unidas por uma ponte. De um lado, na Praça Cívica, estão sedeados o Salão de Atos, a Biblioteca Latino-Americana, a Galeria Marta Traba e o Centro de Recepção de Turistas. No outro lado, estão o Pavilhão da Criatividade, o Auditório Simón Bolívar, o Anexo dos Congressistas e o edifício do Parlamento Latino-Americano.
Uma das obras mais emblemáticas fica na Praça Cívica e corresponde a uma escultura, também da autoria de Niemeyer, de uma mão aberta em posição vertical com o mapa da América Latina pintado em vermelho. Esta escultura, onde o mapa está a sangrar, representa a colonização brutal e a opressão que o continente sofreu, bem como a luta pela identidade e autonomia cultural, política e sócio-económica que foi empreendida. A frase que se encontra no pedestal da escultura, da autoria de Orestes Quércia, governador de São Paulo à época e idealizador do Memorial, transmite isso mesmo ao referir “O sentimento da unidade latino-americana é o limiar de um novo tempo. O esforço da organização para eliminar a opressão dos poderosos e construir um destino maior e mais justo é o compromisso solene de todos nós”.

De seguida encaminhamo-nos para o bairro Vila Pompeia onde fica o SESC Pompeia. Antes passamos pelo novo e belo, ou não fosse verde, estádio do Palmeiras.
Os SESC (Serviço Social do Comércio) são centros culturais e de lazer, com diversas valências sociais, culturais e desportivas, localizados em diversos bairros em todos os Estados do Brasil. São mantidos pelos empresários do comércio de bens e servidos e têm como objectivo proporcionar o bem-estar e qualidade de vida aos associados. Em Portugal, o que mais se assemelha, ainda que com uma irradiação bem menor, é o INATEL.
O SESC Pompeia foi instalado, em 1977, numa antiga Fábrica de Tambores sob um projecto magnífico da arquitecta Lina Bo Bardi. Atenta à vivência anterior, em que nos fins-de-semana o espaço era ocupado de forma alegre e viva pelas famílias e crianças, a arquitecta do MASP, tomou esse aspecto como pressuposto base e assumiu que a alegria deveria ser também pertença do espaço futuro.

Basta visitar o SESC Pompeia para perceber que os fundamentos base foram concretizados e que o espaço, que foi feito, tal como o MASP também de Lina, para grandes manifestações populares, foi fortemente apropriado pela população.
A arquitecta manteve os galpões pré-existentes e de forma a comportar o programa previsto edificou duas torres no único espaço possível de efectuar novas construções. Estes edifícios verticalizados para além de conferirem um aspecto monumental ao complexo, reúnem todos os equipamentos desportivos, seja a piscina, ginásio, espaços polidesportivos. A ligação entre espaços e infraestruturas de apoio, nomeadamente balneários, faz-se pelas pontes cobertas que ligam as duas torres.

A rua interna do SESC, que faz a distribuição para os vários espaços, nomeadamente auditório, biblioteca, espaços de exposições, restaurante, lanchonete, choperia, faz-nos sentir numa cidade dentro da cidade.
Para além das vivências presentes, destaca-se ainda a incorporação de algumas técnicas artesanais e sustentáveis, nomeadamente os colectores de águas pluviais e a refrigeração, que é efectuada através de processos de circulação natural.

Antes de irmos fazer o périplo da street art por Vila Madalena, vamos até ao centro a um dos ex-libris gastronómicos de São Paulo, o Estadão. O Estadão, que foi criado em 1968 por um português, tem o sanduiche de pernil mais premiado de São Paulo. Neste estabelecimento que funciona 24 horas por dia não faltam coisas apetitosas para comer.
De barriga cheia seguimos para Vila Madalena, primeiro passamos por dois murais do Kobra, depois vamos até à galeria de arte Choque Cultural.

Quando saímos à rua percebemos que o céu não tarde a abater-se sobre nós. Ainda assimcomeçamos a percorrer o Beco do Batman, um dos pontos fortes da street art em São Paulo. Com entusiasmo vamo-nos embrenhando pela rua a absorver todas as cores e representações criativas. Ouve-se um trovão e o céu cada vez está mais negro. Começa a chover. Primeiro pingos espaçados mas muito grossos. Depois começa a chover com mais intensidade.


O périplo e a sessão fotográfica são interrompidos. Abrigamo-nos por baixo de um telheiro. Chove torrencialmente. Sentimos a água a vir de um lado e de outro em direcção aos nossos pés. Não temos hipóteses, temos que sair dali. Corremos, dobramos a esquina e abrigamo-nos no primeiro boteco que encontramos.
A próxima hora é passada dentro do boteco a ver a rua inundar e transformar-se num rio. Entretanto, passam pessoas descalças, em cuecas, com o fito de tirarem os carros prestes a ficarem submersos. Na televisão passam notícias das inundações e suas consequências na Grande São Paulo. Da mesma forma que a rua inundou, regressou à normalidade, ainda que se mantivesse a chuva, mas agora com muito menos intensidade.
Voltamos à rua e deambulámos pelos eixos boémios de Vila Madalena, onde há uma grande concentração de botecos. Antes de escolhermos um, vamos à Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho. As Livrarias da Vila (fomos também à da Alameda Lorena e à do JK Iguatemi) são projectos fantásticos, tanto pela oferta que apresentam, como pelos criativos projectos de arquitectura de interiores.
Regressamos novamente à rua e dirigimo-nos ao Bar Filial, na Rua Fidalga, para comer a, dita por muitos, melhor coxinha da cidade. Se é a melhor não sei, mas que é muito boa garanto.
Compomos com outros acepipes, nomeadamente empada de palmito, caipirinhas e chopes, ditos como os melhores tirados da cidade.
Já com o estômago forrado, seguimos para a Freguesia do Ó, região noroeste de São Paulo, com o objectivo de irmos ao ensaio da escola de samba Rosas de Ouro. Chegamos às 23h, porque há trânsito e ainda se sente as consequências das chuvas fortes que inundaram parte da cidade. Ainda sem jantar.
Está tudo ainda calmo nas imediações da escola de samba. Umas piriguetis informam-nos que afinal o ensaio só começa à meia-noite. Resolvemos abandonar este programa e ir jantar. O corpo já pede.
Depois de algumas indecisões a escolha é o Bixiga, o bairro mais italiano de São Paulo. O bairro das cantinas. Vamos à Villa Tavola. Já passa da meia-noite e a fome aperta. Todos optamos por um dos fortes da casa, massa no rechaud, que é como quem diz o processo de confecção da massa é efectuado junto à nossa mesa.
Calha-nos um empregado de mesa muito divertido, que diz, com muita verdade, também ser cozinheiro e psicólogo. Conta-nos que vai viajar até Portugal (Coimbra), uma cidade húngara que não se lembra o nome e Helsínquia. Programa improvável, tal como um brasileiro, como ele, conhecer clubes portugueses tão inexpressivos como o Gil Vicente e o Rio Ave. Mas na verdade, este entertainer culinário tem é um carinho pela Académica. Já me tinha conquistado, mas assim não restam dúvidas.

 

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