Jardim Gulbenkian

O Jardim Gulbenkian é uma obra-prima do paisagismo moderno. Não é segredo para nenhum lisboeta, mas os seus cantos e recantos continuam a surpreender pela diversidade de ambientes que permitem vivenciar.

As suas origens remontam ao século XVIII, à quinta conhecida como Quinta do Provedor dos Armazéns, propriedade de Fernando Larre, no lugar de Palhavã, então uma das portas da cidade de Lisboa. Era uma quinta de recreio típica da época, com edifício senhorial, jardim, pomar, horta, vinhas e campos de cereal. Na segunda metade do século XIX, o palácio e a quinta foram adquiridos pelo conselheiro de Estado José Maria Eugénio de Almeida e aí começaram as transformações da quinta, com a criação do Parque de Santa Gertrudes, sob a influência do desenho de jardins da escola francesa, com lago e vegetação autóctone e exótica. Em 1883, com a morte do conselheiro, o parque foi cedido para a instalação do Jardim Zoológico de Lisboa que por aí ficou por uma década. Depois disso, foi lugar de velódromo, hipódromo e feira popular, parte da vida social lisboeta.

Até que chegamos a 1957, ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian decide adquirir parte do Parque de Santa Gertrudes para aí instalar a sua sede, conforme desejo do seu fundador. Os arquitectos Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy d’Athouguia ficaram responsáveis pelo projecto dos edifícios da sede e museu e os arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto pelo projecto de concepção dos jardins, todos trabalhando de forma interdisciplinar para que o resultado fosse o que se vê hoje, o de uma brilhante integração e fruição de todos os elementos do conjunto. Em 1969 as obras ficaram concluídas e a Fundação e respectivo Jardim abriram as suas portas. Desde aí o espaço foi objecto de algumas transformações, umas radicais, como a construção do edifício do Centro de Arte Moderna (1983, arquitecto John Leslie Martin), outras de continuidade, como a remodelação do jardim (2003, arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles). O melhor que se pode dizer é que a Gulbenkian pode ir mudando, mas não perde o seu carácter, o que, acredita-se, possa continuar a acontecer com a ampliação do jardim – e edifício da colecção moderna – prevista para 2021, sob projecto do arquiteto Kengo Kuma e do paisagista Vladimir Djurovic, vencedores do concurso internacional para a remodelação dos jardins da Gulbenkian.

“Gostaria que se tornasse um grande amigo da natureza porque a criação de uma relação íntima com a natureza é motivo de profunda satisfação na vida”, Calouste Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu, por vontade do seu fundador, ter a sede em Lisboa e todos nós só o podemos agradecer ao magnata do petróleo. Com fins caritativos, artísticos, educacionais e científicos é, igualmente, senhora deste espaço que temos vindo a apresentar historicamente e que hoje é não apenas central geograficamente na cidade como também na vivência dos seus habitantes. Para aqui vimos admirar arte, escutar música, pesquisar documentos e participar em actividades educativas várias. Em todas estas viagens não prescindimos, nem por uma única vez, de um passeio pelo seu Jardim.

Jardim modernista, os elementos vegetais jogam de forma magistral ao redor dos edifícios e, mesmo sem lhes virar as costas, é possível sermos tomados apenas pela natureza.

O espaço de jardim não é um mero complemento, antes um companheiro inseparável, sendo prova maior disso a forma soberba como quando dentro do museu nos distraímos das obras de arte para admirar o jardim que é delas uma extensão. Já tínhamos avisado, o Jardim Gulbenkian é ele próprio uma obra-prima.

São caminhos, uns em clareira e outros em túnel, que se vão cruzando, criando espaços intimistas e micropaisagens, reproduzindo os momentos de descoberta e de felicidade. O contraste da luz e da sombra é perfeito, com muitos lugares onde o sol parece pedir licença para filtrar entre as folhas.

O coberto vegetal é variado e vemos até bambus. A água é uma presença constante, com o riacho a correr em grande parte dos caminhos, criando pequenas cascatas em diversos pontos. E a avi-fauna do jardim uma companhia prazerosa, fazendo-se sentir quer pela sua melodia quer pela sua figura. O mobiliário – bancos, caixas de luz ou caixotes de lixo – é todo em betão, mas nem por um momento endurece a paisagem. Sentar-mo-nos num dos bancos cinzentos de desenho simples num dos recantos do jardim, sem quase perceber se faz sol ou chuva, apenas escutando o chilrear de um pássaro ou a água a correr, é uma experiência comum no Jardim da Gulbenkian. Um convite à evasão ou à meditação, não sendo por isso de estranhar ver um praticante de ioga num qualquer ponto do jardim. Porque todo e cada espaço do jardim é ideal para alguma actividade: meditar, ler, namorar, trabalhar, piquenicar, apanhar sol. O extenso relvado junto ao lago e ao edifício sede é o mais concorrido para banhos de sol com toalha estendida e biquini vestido e tudo.

O jardim tem ainda espaço para um belo anfiteatro ao ar-livre e, depois, espalhados de forma precisa ao longo do jardim vamos tendo vários elementos escultóricos contemporâneos, mais um testemunho da ligação entre paisagismo e cultura, as duas marcas da sede da Fundação.

Talvez a mais famosa das esculturas do jardim seja aquela que todos podemos ver quando passamos na Praça de Espanha, Calouste Gulbenkian sentado de forma majestática, da autoria de Leopoldo de Almeida – a imagem foi reproduzida a partir de uma fotografia tirada durante a sua visita ao Egipto, com Gulbenkian junto à estátua do deus Hórus, no templo de Edfu.

A outra escultura, igualmente icónica, é o Monumento a Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação, obra de Pedro Cabrita Reis. Uma construção em betão com três patamares com ligação por escadas. Não há portas nem janelas, a construção prossegue e a Fundação quer-se como o betão: sólida e perene.

O Castelo de Lisboa

Numa colina sobre o Tejo ergue-se o Castelo. Lisboa é cidade antiga. Antes de sermos lisboetas, habituámo-nos a receber a visita dos fenícios, dos romanos, dos visigodos e dos muçulmanos, até que chegou D. Afonso Henriques e os seus amigos cruzados e a Alis Ubba (dos fenícios), a Olissipo (dos romanos), a Ulixbuna (dos visigodos) e a Al-Ushbuna (dos muçulmanos) tornou-se a Lisboa que hoje nomeamos.

As colinas, e em especial esta a que agora dedicamos a nossa atenção, já lá estavam todas no século VII a.C., quando o lugar começou a ser povoado. Foram, no entanto, os romanos quem no século I a.C. primeiro começaram a construir uma cidade estado murada, com uma construção primitiva no topo do que hoje conhecemos como colina do Castelo, muralhas essas que acabariam por ser aproveitadas pelos muçulmanos para, a partir do século X ou XI, erguerem a sua Cerca Moura. Da Cerca Moura, ou Cerca Velha, pouco resta hoje de visível para além do troço junto ao terraço das Portas do Sol (escadaria da Rua Norberto Araújo), donde se avista o que era então o arrabalde de Alfama encosta abaixo até desaguar no Tejo. Eram, então, cerca de 1250 metros de muralha e mais de 20 torres (são visíveis, ainda, troços de muralha dentro de vários edifícios como os da Fundação Ricardo Espírito Santo e da Casa dos Bicos) e, hoje, um circuito pedonal circular entre a Rua Chão da Feira e a Rua Milagres de Santo António, com 16 totens informativos espalhados pelo caminho, permite-nos conhecer este sistema defensivo medieval que perdurou até à construção da Muralha Fernandina, ou Cerca Nova, no século XIV, sete vezes maior do que a anterior.

Se destas muralhas que acabaram por ser aglutinadas pelos espaços urbanos pouco vemos, a muralha da Alcáçova, essa, ainda lá está para recriarmos uma imagem do nosso passado medieval. Da actual Rua Chão da Feira entramos para a parte mais alta da medina de outrora, a qual era protegida, precisamente, pela Alcáçova. Era aqui, no topo da colina, que ficavam os bairros residenciais da elite administrativa, religiosa e militar e o castelo. E para sul desenvolvia-se o núcleo urbano da cidade – a medina -, com comerciantes, artesãos, banhos públicos, mercados e mesquita, tudo isso ainda no interior da cerca urbana. Só depois vinham os arrabaldes.

Em 1147 D. Afonso Henriques e o seu exército de cruzados levaram 17 semanas de cerco a Al-Ushbuna até a tomarem. A construção muçulmana não era fácil de penetrar. Para além de estar localizada no alto de uma escarpa, a cada porta seguiam-se estreitos corredores em cotovelo, o que tornava difícil a entrada mesmo depois da porta derrubada, encurralando o invasor. Aliás, quando entramos pela Rua do Chão da Feira percebemos isso mesmo, uma entrada logo seguida de uma curva apertada.

A partir daqui estende-se o castelo e o bairro do Castelo.

São 4 ruas e 1 beco, mais coisa menos coisa. Ruas sempre estreitas, como já o eram aquelas que rodeiam o bairro e a Alcáçova (é obrigatório iniciar este périplo pelo Castelo por um passeio pela Rua da Costa do Castelo e/ou pela Calçada do Menino de Deus, onde os bairros da Mouraria e de Alfama se confundem com o bairro do Castelo).

E 2 praças separadas por um pano de muralhas e 11 torres.

Na primeira praça, a Esplanada, apesar da estátua de D. Afonso Henriques marcar o momento histórico da conquista da cidade, a história é completamente ultrapassada pelo miradouro em que se transforma o Castelo. A paisagem que daqui se avista é épica, tudo se registando aos nossos pés, 360° graus de ícones lisboetas.

A segunda praça é vivida já no interior do castelo, ultrapassado o fosso e a barbacã. Subimos à muralha, por ela caminhamos, subimos a uma torre, descemos, caminhamos mais um pouco pela muralha, subimos a outra torre, e assim vamos continuando. Por cada torre que passamos acrescentamos mais uma vista fantástica para um ponto cardeal da nossa Lisboa. É o Tejo, é a Baixa, é a Graça, é São Vicente, tudo, tudinho. Como curiosidade, destaque para duas destas torres. Uma, a Torre do Tombo, foi o lugar do inicial arquivo documental do reino. Outra, a Torre de São Lourenço, a única construída num lugar baixo, ao fim de uma longa escada que nos leva quase até à actual Praça do Martim Moniz – era lá abaixo que os antigos habitantes iam buscar água em segurança, com a Torre a servir de garantia de acesso seguro a um poço situado fora do castelo.

O Castelo de São Jorge, nome pelo qual o conhecemos desde o reinado de D. João I, no século XIV, não terá sido usualmente residência de reis. Talvez D. Sebastião tenha usado o lugar como paço, mas terá sido o último a fazê-lo e com a dinastia Filipina o paço real passou definitivamente para o Paço da Ribeira, no Terreiro do Paço, tendo o Castelo a partir daí tido sobretudo uma função militar, de defesa de quem vivia na Alcáçova e suas imediações.

Foi já no decorrer do século XX que se redescobriu o Castelo de São Jorge. Nos anos 1938-40 foi objecto de obras de restauro, à semelhança de muitos castelos país fora, numa recriação nacionalista do Estado Novo (daí que se afirme que o Castelo de São Jorge é uma criação do Estado Novo). A essa época já o Castelo tinha chegado em muito mau estado, ruína mesmo, em consequência dos terramotos de 1530 e de 1755 e do descaso dos Homens que o tinham maltratado com o uso de um conjunto de quartéis. Se foram essas obras de há apenas escassos 80 anos lhe deram a imagem de fortificação com torres e ameias que vemos hoje, foi também desde aí que se tem vindo a perceber os vestígios do antigo paço real e da alcáçova islâmica e as vivências de outrora. Trabalhos arqueológicos que continuam o seu curso permitem-nos traçar 3 épocas de presença humana na colina do castelo: idade do ferro (com vestígios de estruturas habitacionais que remontam ao século VII a.C.), bairro islâmico (século XI – XII, ligado à fundação do castelo e área residencial das elites do governo da cidade) e época cristã (século XV a XVIII, com antigo paço episcopal e palácio dos Condes de Santiago, o último dos palácios da antiga alcáçova medieval que se manteve habitado até ter ruído com o terramoto). Marcas do conjunto destes vestígios podemos encontrá-los no “sítio arqueológico” que testemunham estes três períodos significativos da história de Lisboa. E na exposição permanente instalada no espaço daquele que se acredita ter sido o antigo paço real podemos ainda ver uma colecção de objectos encontrados na área arqueológica, os quais permitem traçar a evolução do povoamento desta colina que permaneceu o centro da cidade de Lisboa até ao século XVI.

No sítio arqueológico vemos a igreja da Alcáçova, a igreja Santa Cruz do Castelo, a qual já existiria quando os muçulmanos chegaram à cidade.

Invenção do Estado Novo ou não, o que é certo é que o Castelo de São Jorge é o monumento mais visitado do país e o miradouro número um da cidade de Lisboa. Assim como já o tinha sido na cidade de Alis Ubba, de Olissipo, de Ulixbuna e de Al-Ushbuna.

Jardim Botânico Tropical

O Jardim Botânico Tropical, também conhecido como Jardim do Ultramar, em Belém, é um dos mais bonitos de Lisboa. Já sei que digo isso de quase todos, mas este é mesmo um verdadeiro amor. E um daqueles amores que é para sempre, uma vez que depois de encerrado para restauro durante praticamente todo o ano de 2019 reabriu em Janeiro de 2020 mais bonito do que nunca, embora ainda com diversos trabalhos de reabilitação em curso e edifícios encerrados.

Paredes meias com o Palácio Nacional de Belém, em conjunto com quem se encontra classificado como Monumento Nacional, ao longo dos seus cerca de 6,7 ha encontramos uma colecção botânica notável, em muitos momentos exuberante e monumental, composta por mais de 600 espécies de origem tropical e subtropical.

Foi D. João V quem, em 1726, comprou as quintas dos Condes da Calheta e dos Condes de Aveiras para aí criar o Regis Hortus Suburbanus. Anos depois, a elas se juntou os jardins do Palácio dos Duques de Aveiro, formando todo o conjunto a Real Quinta e Palácio de Belém, este último hoje residência oficial do Presidente da República Portuguesa. E em 1912 o espaço passou a acolher o Museu e Jardim Colonial, que havia sido criado 6 anos antes pelo rei D. Carlos. Durante o século XX foram-lhe acrescentados diversos edifícios e estatutária que haviam sido construídos para a Exposição do Mundo Português em 1940, uma nova imagem na sua faceta científica de estudo, história e memória da flora das colónias portuguesas. Hoje é propriedade da Universidade de Lisboa, à semelhança dos outros dois jardins botânicos da cidade, o da Ajuda e o do Príncipe Real, e a sua função é não apenas científica mas também didática e de lazer.

Ao iniciar o passeio pelo Jardim Tropical é tentador seguir logo pela majestosa alameda das Washingtonias, rodeada de palmeiras altíssimas, mas resistimos e seguimos antes a direito em direcção ao Jardim Oriental.

O Jardim Oriental, com entrada pela porta de Macau – uma réplica da entrada no Pagode da Barra, em Macau, construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português -, é um exemplo da fusão de influências chinesa e portuguesa na arte dos jardins. Com uma densa vegetação, cobrindo-nos quase na totalidade, e uma forte presença da água, vemos pontes com estrutura de madeira pintada a vermelho, a lembrar o Oriente, mas também com ferro, elemento mais português. O exotismo do edificado neste jardim vê-se ainda no Pavilhão de Jardim Chinês e na Porta da Lua.

O Palácio dos Condes da Calheta fica no final desta alameda que ladeia o Jardim Oriental. Construído no século XVII, como nota histórica diga-se que aqui decorreram alguns dos interrogatórios daquele que ficou conhecido como o Processo dos Távoras, na sequência da tentativa de assassinato (?) do rei D. José. À semelhança da Casa de Chá, da Casa dos Jardineiros e da Estufa Principal, o acesso ao Palácio dos Condes da Calheta encontra-se vedado, decorrendo ainda as obras de restauro nestes edifícios. Podemos, no entanto, apreciar a estrutura em ferro e vidro da Estufa Principal, datada de 1914, com destaque para o seu portão rodeado de vegetação.

Aqui chegados já reparámos em alguns dos bustos africanos espalhados nesta zona do jardim, parte da antiga “Galeria dos Povos do Império”, os quais pretendiam representar a diversidade de etnias presentes na Exposição de 1940, ou seja, este é mais um dos elementos adicionados nessa época. Penso conviver bem com o passado histórico português da Expansão, mas é estranho apreciar estas esculturas.

No Lago das Serpentes encontramos um painel de mesma temática, mas aqui a nossa atenção é desviada para os repuxos de água e os azulejos com cenas de animais, incluindo nos frisos do revestimento do chão. Este Lago fica junto à Casa da Direcção, antiga casa com pátio, alterada para constituir um exemplo de Casa Colonial que integrou a Exposição de 1940. Não a visitei (fechada) e pouco percebi do Pátio do Ourives (igualmente fechado na altura da minha visita).

Mas graças à renovação recente do Jardim Tropical, podemos agora aceder e conhecer o Jardim dos Cactos. Um espaço surpreendente com um ambiente incrível. Não tanto pelas espécies em si, mas antes pelo que a acção descontrolada da natureza é capaz de produzir. As copas das árvores foram crescendo e o número das espécies de cactos e outras suculentas foi reduzindo, apenas tendo sobrevivido as espécies tolerantes à sombra. O resultado é um cenário brutal na verdadeira acepção do termo, com as ruínas dos edifícios das antigas estufas tomadas pelos cactos expansionistas resistentes. Uma espécie de Angkor em ponto pequeno.

Uns passos mais e esta “selvajaria” dá lugar a um recanto delicado, uma estátua clássica de uma dama diante de um pequeno plano de agua. É o Jardim da Ninfa, por cima do qual temos o Tanque dos Leões, o antigo tanque de rega das hortas reais. Nesta zona ficam ainda dois dos mais antigos edifícios do jardim, a Casa do Veado e a Casa de São João, ambas encerrados para requalificação.

Até aqui, tudo perfeito. Não faltam sequer uns pavões fêmea a passear com as suas crias e uns pavões macho com a plumagem colorida e esplendorosa aberta ao nosso deleite. Entre os residentes do jardim encontramos ainda patos, gansos e até galinhas.

Seguimos agora pelo Arboreto do Mundo, diversos caminhos que saem de uma rotunda central cobertos com diversas espécies das quais lamento não reconhecer nem saber o nome, embora a maioria esteja etiquetada. Só guardo, e não é pouco, a imagem da beleza exuberante e altaneira de algumas delas.

O Lago Pequeno e Gruta, com uma pérgula a encimá-los, é um dos elementos românticos introduzidos na segunda metade do século XIX. O que esta última renovação do Jardim Tropical fez foi aperfeiçoar o sistema de circulação de água no jardim. Um canal, espécie de riacho, liga este Lago Pequeno ao Lago Principal, bem mais adiante. É, então, o momento de percorrermos a soberba alameda das Washingtonias, onde até o Mosteiro dos Jerónimos faz questão de aparecer na cena ao fundo. Este é um pedaço de barroco no Jardim. A sua execução foi inspirada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, obra de D. João VI, bisneto de D. João V, o criador deste nosso Jardim Botânico Tropical de Belém.

Muitos caminhos há ainda para percorrer e muito para admirar, estátuas da época de D. João V espalhadas pelo jardim, araucárias, um dragoeiro, raízes intemporais de árvores, mas chegamos, enfim, ao Lago Principal. Os patos nadam ao redor da Ilha das Fruteiras, plantada com árvores de fruto de origem tropical e subtropical, como anoneiras, abacateiros ou pitangueiras, permitindo-nos aqui descansar, literalmente, à sombra da bananeira. Mas o melhor deste lago é o cenário que o envolve, mais um daqueles que irá permanecer na nossa memória e acompanhar-nos durante muito tempo.

As aventuras de Filipe Seems por Lisboa

“Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo. Os homens necessitam de fábulas e não há destino mais nobre do que povoar o mundo com as personagens das fábulas”.

Filipe Seems é uma personagem criada pela dupla Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, argumentista e desenhador. As aventuras deste detective particular surgiram pela primeira vez nas páginas do jornal Se7e, corria o ano de 1992, e resultaram em três livros: “Ana”, de 1993, “A História do Tesouro Perdido”, de 1994, e “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, de 2003 – lançados todos juntos numa caixa ainda com um dvd em 2009.

Antes mesmo de as histórias ganharem forma, Nuno Artur Silva imaginava já a Costa do Castelo como o lugar onde Filipe Seems viveria e aí desfrutaria da luz de Lisboa e da vista do Tejo. A personagem principal mais óbvia é Seems, sim, mas estas aventuras em banda desenhada são uma ode a Lisboa, omnipresente em todas as histórias. Uma Lisboa futura com muitas referências do passado e, sobretudo, literárias. “Sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse…”. Assim é Lisboa nestas histórias, uma cidade imaginária que se baseia em muito do real.

As personagens deambulam pelo Chiado, o Campo Pequeno surge-nos sem muitos acrescentos futuristas, mas as gôndolas percorrem toda uma Baixa inundada desde o Elevador de Santa Justa até ao Terreiro do Paço, ao mesmo tempo que um teleférico sai do Castelo e um eléctrico voa sobre o casario da cidade. E que dizer da neve a cobrir os telhados de Lisboa?

O traço de António Jorge Gonçalves é, como sempre, belíssimo e diverso, com várias experiências diferentes ao longo dos três livros.

Filipe Seems é curioso e inquieto, sempre em busca de algo não conhecido. Na primeira história, “Ana”, na verdade três Anas gêmeas (Ana Lógica, Ana Bela e Ana Hera), diz-nos “primeiro queria saber o porquê da semelhança, depois, procurar na semelhança a diferença”.

Fábulas, mistérios, intriga, labirintos, esquecimento – “era contra o esquecimento que eu escrevia (é sempre contra o esquecimento que se escreve), porque não a queria perder” – e amor, claro.

Logo às primeiras páginas observamos Filipe Seems e não podemos deixar de recordar Corto Maltese, o marinheiro de Hugo Pratt. No segundo livro, “A História do Tesouro Perdido“, o que poderia não passar de uma suposição revela-se expressamente numa inspiração. Seems anda às voltas com o mar, oceanos e navegadores numa aventura que é uma caça ao tesouro onírica e a imagem de Corto Maltese vem reproduzida nos quadrinhos. Esta é uma história de desencontros onde, afinal, o tesouro que se buscava no mar se encontra no deserto. A Lisboa donde se parte é representada através de escadinhas, ruas apertadas e até uma caravela, mas há ali elementos que nos fazem viajar para o passado, com os habitantes de Alfama com vestes muçulmanas, para logo de seguida sermos transportados para o futuro através do tal eléctrico voador.

O terceiro e último volume, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, é o mais estranho e difícil. Os desenhos são amiúde baços e esbatidos e os textos tornam-se intrincados, como um sonho desorientado em que as histórias se entrecruzam. Seems vagueia em busca de Ana, anda perdido, tentando encontrar-se, com perguntas como “o que é o desejo, o que fica depois do desejo?”, em imagens hipnotizantes como a música e dança do flamengo que relata. Mas, na verdade, pelo trilho do sonho vai em busca da sua cidade, aquela que conhece como a palma da mão e à qual regressa como se a ela chegasse pela primeira vez. A nossa Lisboa, real ou imaginada.

Jardim da Estrela

O Jardim da Estrela é um dos mais concorridos e populares jardins de Lisboa. Inaugurado em 1852 e construído ao estilo dos jardins ingleses, este espaço verde de 4,6 hectares é um convite ao desfrute e relaxe dos lisboetas.

Possui diversas entradas, mas escolhemos aquela que fica em frente à Basílica da Estrela. Portão em ferro, a tradição aqui comanda, não apenas pelo típico eléctrico amarelo que passa na Calçada da Estrela colada ao jardim e representado de forma original à entrada, mas também pelos engraxadores que mantém o seu lugar e função ali mesmo.

A sua criação é de clara inspiração romântica, um jardim de recreio com lagos, vegetação exuberante, canteiros donde saem caminhos, um coreto e diversa estatutária, remetendo para uma ideia de paisagem natural. Nos lagos passeiam-se os patos e as carpas. Na vegetação encontramos espécies exóticas vindas das matas reais e dos jardins do Conde de Farrobo. (actual Jardim Zoológico).

O coreto verde de ferro forjado foi construído em 1884 e estava originalmente no Passeio Público da Avenida da Liberdade até ser transferido para a Estrela em 1936. Nos meses de Verão fazem-se aqui concertos.

E as esculturas encontram-se um pouco por todo o lado no jardim, quer a embelezar os lagos, quer num relvado verdejante, quer num dos muitos recantos do jardim, como este dedicado a Antero de Quental. Há ainda lugar para parques infantis, um café, um quiosque da Biblioteca Municipal e até um chalé destinado a creche / jardim de infância, onde chegou a funcionar a Escola Froebel ou Lactário-Creche n.º 3, a primeira creche da cidade de Lisboa, mas que hoje, apesar de envolvido numa frondosa vegetação, não esconde o seu estado de abandono. Um jardim muito diverso e animado, portanto, mas também com diversos pontos escondidos de recolhimento e refrescantes.

Uma viagem pelos caminhos do Eléctrico 28

O carro amarelo a rolar pelos carris e puxado por antenas coladas às linhas instaladas no céu é um postal de Lisboa. Já teve muitas cores, mas o amarelo será definitivo. Mais uma pitada de cor na cidade que não sofre de falta dela(s).

Os carros eram, então, puxados por animais quando em 1887 se tentou pela primeira vez substitui-los pela tracção eléctrica. Logo os lisboetas temeram que os cabos de alta tensão provocassem raios e coriscos e daí surgissem incêndios destruidores. Mas o projecto foi adiante e em 1900 instalaram-se os cabos aéreos eléctricos e no ano seguinte foi inaugurada a primeira carreira electromotorizada, ligando o Cais Sodré a Algés. Os anos 50 foram testemunhas do maior número de quilómetros da rede de eléctricos – totalizavam então 76 kms. Hoje são apenas 31 kms de rede, distribuídos por 6 carreiras activas e alguns deles por eléctricos modernos, longe do mimo típico que faz as delícias de toda a gente. Uma das minhas mais antigas memórias é, precisamente, a de no fim dos anos 70 subir a um eléctrico e ser por ele guiada lá para os lados do Alto de Santo Amaro, de mão dada ou ao colo da avó. Mas esta diminuição da rede de eléctricos a partir dos anos 50 tem uma óbvia explicação. Desde logo, pelo surgimento dos primeiros autocarros da Carris em 1944 e, depois, pela inauguração do Metro de Lisboa em 1959. De qualquer forma, a passagem dos eléctricos transportando passageiros à pendura pelas ruas de Lisboa está na memória de todos nós.

E o Eléctrico 28, em especial, é uma instituição da capital. Dizem que demasiado turístico e antro de carteiristas. Pois então, sigamos ao lado dos seus carris, numa caminhada desde o Martim Moniz aos Prazeres, pois que não há melhor forma de condensar uma visita a Lisboa. Inaugurada em 1914, no início a carreira do 28 era mais curta, ligando somente a Praça do Camões à Estrela. Felizmente que hoje temos mais para ver, pelo que ponhamo-nos a caminho pelas colinas de Lisboa, num sobe e desce constante num percurso que conta a história da cidade, passando por igrejas, conventos, palácios, jardins, largos e praças, tomando avenidas, ruas e calçadas que dão para becos e escadinhas e cruzando uma Lisboa velha com outra mais nova, misturando alfacinhas e turistas.

Do Martim Moniz, paragem inicial, avista-se ao alto o Castelo que já foi dos muçulmanos e hoje vigia os negócios dos chineses cá em baixo. Seguindo pela Rua da Palma, onde tanto podemos ver o eléctrico passar à frente de uma loja de kebabs ou outra com caracteres chineses na montra ou de um edifício preenchido de azulejos, a encosta da Mouraria reduto do fado espreita com os lisboetas mais típicos. Até subirmos à Graça, esta é a Lisboa mais cosmopolita que podemos encontrar, fazendo do alfacinha uma personagem tão abrangente que não há qualificação possível numa sua descrição.

Sapadores, Rua da Graça, Largo da Graça. E aqui fazemos uma paragem e desvio breve para uma panorâmica de Lisboa no miradouro junto ao Convento.

De volta aos carris, descemos a Rua Voz do Operário, passando pelo edifício do arquitecto Norte Júnior da sede da Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário e, quando a rua se torna Calçada de São Vicente, admiramos a mais antiga Igreja e Convento de São Vicente de Fora.

E logo adentramos Alfama. Tradição que é tradição não dispensa um moço à pendura do eléctrico e ele surge aqui, precisamente quando o carro corre as ruas estreitas de Alfama, rasando as janelas das suas casas, deixando ver becos, pátios e escadinhas. Enfim, a Lisboa castiça cuja intimidade entra sem pedir licença pela janela do eléctrico.

As curvas seguem apertadas pela Rua das Escolas Gerais e são as Portas do Sol que nos dão espaço e umas imensas vistas do rio Tejo acompanhado pelo casario antigo de Lisboa e, agora, por uma das mais recentes imagens da cidade dos barcos de cruzeiro.

Continuamos a descer, mais um miradouro, desta vez o de Santa Luzia e seus azulejos, passamos o Aljube e o Limoeiro e chegamos à Sé. A Sé é um dos ícones mais reconhecíveis da cidade e um exemplo do palimpsesto que é Lisboa: construída em 1147, logo após a tomada da cidade aos mouros, foi edificada sobre uma mesquita muçulmana que, por sua vez, havia sido erguida sobre um templo visigótico.

A partir da Sé temos uma sucessão de igrejas: a própria Sé, a Igreja de Santo António de Lisboa e a Igreja da Madalena, fora as muitas outras que desfilam nas ruas para lá dos carris.

O Eléctrico 28 atravessa, então, a Baixa Pombalina de um lado ao outro pela Rua da Conceição. E se na viagem por estas paragens admiramos a obra dos engenheiros comandados pelo Marquês de Pombal na reconstrução da Lisboa pós-terramoto de 1755, por outro lado nem imaginamos que sob nós está toda uma outra cidade, a das galerias romanas construídas no tempo da antiga Olisipo – duas vezes por ano podemos “furar” os carris da Rua da Conceição para conferirmos este pedaço da história de Lisboa.

Apesar de falharmos o enquadramento do eléctrico com o Arco da Rua Augusta – neste caso não porta aberta à cidade, mas antes porta aberta ao Terreiro do Paço e ao Tejo – não deixamos de gabar a sua formosura ao longe.

Chega a altura de subirmos ao Chiado. À direita fica o Largo da Academia das Belas Artes, mas o eléctrico não segue por aí, antes desce para logo subir a Rua Vítor Cordon antes de continuar a subida pela Rua dos Duques de Bragança e se ver espremido entre o Teatro Nacional de São Carlos e o Teatro São Luiz.

E estamos no coração do Chiado, o coração de Lisboa. O bairro leva o nome do poeta António Ribeiro Chiado, mas é a estátua de Fernado Pessoa à frente do Café A Brasileira que chama a atenção dos turistas e são as personagens de Eça de Queiroz que recordamos enquanto passeamos pelo Chiado. Uma mão cheia de igrejas depois, espreitamos o Tejo Rua do Alecrim abaixo e fazemos uma vénia a Camões no largo que leva o seu nome.

Contornamos meio Camões e, mesmo sabendo que para dentro fica o Bairro Alto, seguimos adiante pela Rua do Loreto, prometendo que numa próxima vez pararemos mais demoradamente para assistir a um filme no Cinema Ideal, mas não prescindindo de imediato de nos lambuzar de pastéis de nata da Manteigaria.

Espreitamos a Bica e o primo mais famoso do Eléctrico 28 e começamos a descer a Calçada do Combro. Mais palácios, com destaque para o de Olhão, igrejas, como a dos Paulistas, e travessas depois entramos pela Rua Poiais de São Bento (o sentido inverso faz-se pela Rua Poço dos Negros). Aqui, à semelhança do que acontece em Alfama, o eléctrico rasa o casario fazendo do seu percurso uma viagem alucinante e do mais típica que há na proximidade com os seus habitantes.

E, se antes descemos, agora temos que subir. O topo do bairro de São Bento traz-nos o Palácio de mesmo nome, um antigo mosteiro beneditino transformado no século XIX na casa da democracia portuguesa. É a Assembleia da República com a sua inconfundível fachada neoclássica com colunas ao cimo de uma longa escadaria. Dica imperdível: saborear um gelado da Nanarella nos jardins do largo da Assembleia.

Só então podemos aventurar subir a inclinada Calçada da Estrela, com o bairro da Lapa na encosta à esquerda. A Basílica da Estrela é outra que merece uma visita antes de continuarmos a subir para Campo de Ourique, o bairro do nosso destino. Na Rua Domingos Sequeira passamos pelo antigo Cinema Paris e tomamos a esquerda na Rua Saraiva de Carvalho sem deixar de observar a sua esquina com edifícios de azulejos e arte nova. A Igreja de Santo Condestável e as inúmeras lojas de tecidos não nos distraem do nosso fim: os Prazeres, nome do cemitério mais bonito de Lisboa.

Os Conventos e Palácios da Zona Ribeirinha do Beato e Xabregas

O Beato fica logo a seguir a Marvila (ou o contrário, se viermos do centro de Lisboa), tão juntos que as suas fronteiras passam despercebidas. O Vale de Chelas continua uma dominante, o carácter industrial mantém-se e o abandono, a degradação e a regeneração urbana são também uma evidência.

Se a Marvila arrabalde histórico de Lisboa era o lugar das quintas, agora no Beato e Xabregas são os conventos que marcaram e continuam a marcar a paisagem.

Desde logo, o Convento de Chelas. Mas, faz sentido, num texto dedicado à zona ribeirinha, falar de algo situado a 2 kms do Tejo? Sim, faz. O Convento de Chelas, também conhecido por Mosteiro de São Félix dos Mártires, fica na muito antiga Estrada de Chelas, em tempos um esteiro do mar que rompia pelo vale acima. Também muito antigo é este convento, embora o edifício actual nada tenha a ver com o primitivo. Crê-se que aqui existiu um templo dedicado a Vesta, a deusa do fogo dos romanos, e Aquiles teria por aqui passado. Aliás, alguns historiadores aventam a possibilidade de o topónimo “Chelas” derivar de “Achilles” e eu, claro, apesar das muitas dúvidas gosto de acreditar na ideia – já se vê que também adoro a hipótese de “Olissipo” derivar de “Ulisses”. Bom, as origens do Convento de Chelas podem não ser tão antigas assim, mas seguro é que no século III recebeu as relíquias de São Félix e outros mártires. No século VIII a igreja foi destruída pelos mouros, mas os monges continuaram a habitá-lo. Quanto em 1147 D. Afonso Henriques conquista Lisboa aos mouros, o Convento estava em ruínas, tendo sido então restaurado e povoado de novo de frades e freiras. Em 1834, ano da extinção das ordens religiosas, aqui habitavam as freiras Regrantes de Santo Agostinho e também por isso é que este é conhecido como Convento de Santo Agostinho. Muitas mudanças ao longo dos séculos, já se vê. O mar já não está à porta e agora é o Arquivo Geral do Exército que guarda os segredos do antigo espaço conventual. A arquitectura exterior do edifício é desengraçada, um imenso bloco amarelo, mas conseguimos espreitar e descobrir no seu interior um portal manuelino delicioso, deixando-nos a sonhar como serão os seus claustros.

O que não mudou com a passagem do tempo foi a ruralidade da zona, com muitas hortas e azinhagas pelo meio. Vimos por aí abaixo, pela Estrada de Chelas, e percebemos as muitas fábricas desactivadas, abandonadas e em ruínas. Aqui chegaram a existir fábricas de licores, malhas, estamparia, tinturaria, tecidos, tabaco, moagem, tanoaria, cortiça, até cocheiras. E muitas vilas e bairros operários, como a Vila Flamiano e a Vila Dias (recentemente comprada pela câmara). Não entramos no Bairro da Madre de Deus e passamos sem parar pelo antigo Mercado de Xabregas, que desde 2017 acolhe a ArCo – Centro de Arte e Comunicação Visual. Uma baralhação esta zona de Lisboa. “Cidades Jardim” que mantém a sua integridade lado a lado com vilas operárias degradadas. Residências artísticas e espaços de co-work lado a lado com a mais miserável vida de rua.

Chegamos, então, à zona ribeirinha do Beato e Xabregas. O fim das ordens militares e a Revolução Industrial levou à reconversão de antigos conventos em unidades fabris, e com as fábricas e o comboio a paisagem alterou-se – uma das imagens da Xabregas de hoje é, precisamente, a da ponte do comboio com as chaminés das fábricas atrás. No entanto, esta zona de Lisboa retém ainda diversos testemunhos do seu rico passado histórico. Os nossos dois primeiros exemplos são, não apenas testemunho de um passado, mas também uma projecção do futuro, o Convento do Beato e o Convento das Agostinhas.

O Convento do Beato, também conhecido por Convento de São Bento de Xabregas, foi mandado construir no século XV pelo Rei D. Afonso V como disposição testamentária da sua mulher, que pretendia que aí se edificasse um hospício. Mas acabou por ser Frei António da Conceição que levou a cabo a construção do convento – e com poucos recursos financeiros, o que aumentou a sua fama de milagreiro. Daí que o Convento de São Bento de Xabregas acabasse por ficar mais conhecido como o Convento do Beato António. Após a extinção das ordens militares, foi Real Hospital Militar, foi destruído por um incêndio, comprado pelo industrial da marca “Nacional” (que até hoje vemos anunciada) para aí instalar a sua fábrica de moagem de cereais, panificação, malte e armazém de vinhos. E, hoje, o Convento é usado para eventos diversos e segue curso o projecto de urbanização de parte do espaço.

Já o Convento das Agostinhas (ou das Grilas) é hoje mais (re)conhecido como o Hub Criativo do Beato. Ex-Convento, ex-Manutenção Militar, mais uma enorme transfiguração se aguarda, desta vez com a transformação do seu imenso espaço (35 mil metros quadrados e duas dezenas de edifícios degradados) num pólo de empreendedorismo, indústrias criativas e inovação. Aguardemos para ver se o projecto megalómano se concretizará.

Quase em frente encontramos o Palácio do Duque de Lafões (ou Palácio do Grilo). Construído após o Grande Terramoto de Lisboa de 1755, a pequena quinta de veraneio foi transformada em residência permanente dos duques. Lá se mantém, embora agora sem a alameda que ligava o palácio ao cais privativo da família no Tejo.

Mais uns passos adiante na Rua do Grilo trazem-nos o Convento e Igreja do Grilo (de outros nomes Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo ou Convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete e Igreja de São Bartolomeu ou Igreja Paroquial do Beato). À semelhança do anterior Convento das Agostinhas, também este foi mandado construir por Dona Luísa de Gusmão, no século XVII, para os Irmãos Descalços de Santo Agostinho (este para os frades e o outro para as freiras). Com a extinção das ordens religiosas o antigo convento foi transformado no Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo ou do Grilo.

Entrando na Calçada de Dom Gastão, a antiga Quinta Leite de Sousa, também do século XVII, foi depois transformada na operária Vila Maria Luísa e, já neste século, o seu edifício principal passou a ser ocupado pelo Eka Palace, um centro de artes.

E, com mais um pulinho, estamos já na Rua de Xabregas. Mais uma vez, não se sabe com certeza a origem deste topónimo. Mas conta-se uma estória curiosa a ele associada: as lavadeiras que paravam numa das muitas fontes da zona eram muito dadas a guerrear entre si, o que levava a que lhes atirassem muitas vezes a expressão “leixa bregas!”, ou seja, “deixa brigas”. De “leixa bregas” a Enxobregas e, depois, a Xabregas não custa acreditar no caminho. Embora, diga-se, talvez possa fazer mais sentido buscar a origem do seu nome no rio ali mesmo ao pé, onde se praticava o modo de pescar da “arte xávega”, sendo a derivação do topónimo semelhante: Exabregas ou Enxobregas.

Por aqui fica o Palácio de Xabregas ou dos Marqueses de Olhão (ou dos Melo e Cunha), longo na sua fachada simples de 14 janelas, onde encimando uma delas se veem as armas dos Cunhas. Foi construído no século XVI para residência do fidalgo navegador Tristão da Cunha, o primeiro vice-rei da Índia e quem deu o nome ao arquipélago do Oceano Atlântico sul. Propriedade da mesma família desde a sua origem, aqui se conspirou para levar Portugal à Restauração, em 1640. O edifício resistiu ao terramoto, segue conservado, foi classificado como Monumento Nacional e hoje está disponível para acolher eventos.

A cem metros fica o Convento de São Francisco de Xabregas (ou Convento de Santa Maria de Jesus). Construído no século XV, antes terá aqui existido um paço real. Na época tínhamos o Tejo à sua porta. Era a praia de Xabregas, conhecida como a Praia da Marabana, a qual manteve o seu extenso areal até 1939, data das obras do porto de Lisboa e abertura da Avenida Infante Dom Henrique, junto ao rio, que levou ao adeus à praia. Totalmente destruído pelo Terramoto, o Convento foi reconstruído e, depois da extinção das ordens religiosas, foi o primeiro a ser reconvertido em fábrica, logo em 1838. Foi, então, o lugar da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, depois fábrica de Tabacos Lisbonense e hoje Teatro Ibérico e IEFP.

Do outro lado da rua, praticamente à sua frente, um apontamento dos nossos dias, materializado no pátio do atelier do artista Bordalo II.

Atravessando o largo onde fica a Ponte Ferroviária de Xabregas com os seus característicos arcos em pedra, entramos na Rua da Madre de Deus. Aqui temos, desde logo, o Palácio dos Marqueses de Nisa. Fundado em 1543 pelo segundo conde da Vidigueira, filho de Vasco da Gama, mais tarde a família receberia o título de Marqueses de Nisa. A sua estrutura já não tem nada a ver com a original e hoje o edifício é propriedade da Misericórdia de Lisboa, onde funciona uma dependência da Casa Pia.

Paredes meias encontramos aquele que é o mais visitado dos conventos da zona: o Convento da Madre de Deus, hoje Museu Nacional do Azulejo. Foi D. Leonor de Lencastre, mulher do rei D. João II, quem fundou as Misericórdias e este Convento em 1509. Já viúva, após a morte do filho retirou-se para aqui e viveu entre as freiras clarissas (o conjunto do Convento da Madre Deus, do hoje Asilo D. Maria Pia e do Palácio Marqueses de Nisa formava, então, o Paço de Enxobregas). Na fachada do edifício, destaque imediato para o seu portal manuelino encimado pelas armas de D. João II e D. Leonor, à esquerda com a figura do pelicano, alimentando os filhotes, e à direita a divisa da rainha com uma rede de camaroeiro, em memória do trágico acidente que vitimou seu filho. O Convento foi sendo objecto de ampliações e restauros vários e em 1965 surge o projecto de criação de um museu do azulejo, concretizado em 1980. E é por isso que este é o Convento que mais facilmente podemos visitar.

A sua colecção de azulejos é deliciosa, com exemplares desde a sua origem até aos dias de hoje, mas com esta visita ficamos a conhecer também os seus claustros e a igreja, uma conjugação belíssima de painéis de azulejo azul com o dourado da talha. Riquíssimo. No último piso, uma vista panorâmica de Lisboa muito especial: um mega painel de azulejo da cidade pré-terramoto, abarcando desde o Convento da Madre de Deus até à Cruz Quebrada.

E, por fim, mas já não em Xabregas ou Beato, eis o Convento de Santos-o-Novo, na Calçada da Cruz de Pedra, em direcção a Santa Apolónia. À semelhança do edifício do primeiro convento deste nosso texto, o Convento de Chelas, também por ele passamos e senti-mo-lo pouco apelativo na sua arquitectura monolítica. Construído no século XVII, o antigo convento das Comendadoras da Ordem de Santiago passa, pois, despercebido, ali junto à linha do comboio. Acontece que estes edifícios escondem muitas histórias e muitos segredos no seu interior. No caso do Convento de Santos-o-Novo, um dos mais fantásticos claustros, diz-se que o maior em área coberta da Península Ibérica.

Foi à boleia da 1ª edição do Open Conventos, no ano passado, que pude visitar este edifício que hoje acolhe quer um lar dos Recolhimentos da Capital quer uma residência estudantil do Iscte. Esta iniciativa tinha como objectivo não apenas dar a conhecer vários conventos espalhados um pouco por toda a Lisboa, mas também fazer pensar e confrontar-nos com o futuro destes espaços. Como mantê-los, como dignificá-los, como legá-los às gerações que hão de vir? Já vimos que após a extinção das ordens religiosas, em 1834, muitos e diferentes usos lhes foram dados: hospitais, fábricas, lares. Hoje temos pudor em transformá-los em hotéis, urbanizações, espaços de empreendedorismo. Se está certo ou errado, daqui a umas décadas veremos, mas que a face de Lisboa continuará a mudar, aí isso continuará.

Marvila

Marvila é uma freguesia de Lisboa situada na zona oriental. A 4ª maior em área e a 2ª em número habitantes, não basta dizer que Marvila é uma freguesia muito diversa. É quase missão impossível tentar referir tudo o que cabe neste pedaço de território que abriga lado a lado terrenos agrícolas, industriais e habitacionais. Que tem um rio como uma das suas fronteiras naturais e que é recortada por um longo vale. O vale de Chelas e o rio Tejo definiram desde sempre a sua personalidade, dando-lhe, um, o carácter rural que nunca perdeu e, outro, os bons ares que aqui fizeram estabelecer uma série de fidalgos.

A Marvila que até meados do século XIX era apenas um arrabalde da capital Lisboa, da qual restam alguns exemplos de quintas e palácios, transformou-se desde aí num dos pólos industriais da cidade, com consequências na paisagem urbana visíveis até hoje. Os gasómetros da Matinha são uma das suas imagens mais fortes e, também, exemplo paradigmático do que as estruturas agora desactivadas e / ou abandonadas podem representar num determinado território: uma memória ou um novo uso? Marvila e sua vizinha Beato são talvez as zonas de Lisboa onde estas perguntas mais se colocam. Mas a transformação de Marvila não terminou com a chegada das fábricas. A decadência deste sector acabou por coincidir com a chegada dos novos núcleos habitacionais que se foram criando no âmbito do Plano de Urbanização de Chelas e que, embora à partida não tivessem esse sentido, nos anos 70 acabaram por se tornar praticamente por inteiro em bairros de habitação social. Casos de estudo como o Pantera Cor-de-Rosa e o Cinco Dedos, no Bairro dos Loios (da autoria dos arquitectos Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita e Vítor Figueiredo, respectivamente) ou a Zona J, no Bairro do Condado (do arquitecto Tomás Taveira). Mas se parte da antiga Quinta do Palácio dos Marqueses de Abrantes foi transformada em mais um bairro de habitação social, já a sua vizinha Quinta dos Alfinetes foi reconvertida em biblioteca municipal, numa propositada intenção de dotar um lugar socialmente desqualificado e carente de equipamentos culturais de infra-estruturas que sirvam como um suporte educativo que contribua para um futuro de novas e melhores oportunidades aos seus habitantes.

A piada de Marvila está, precisamente, em poder observar uma série de realidades inesperadas a conviver lado a lado. Uma biblioteca num bairro de habitação social carregado de empenas pintadas pelos maiores artistas de arte urbana, enquanto as ovelhas se arrastam pela rua devidamente guiadas pelo seu pastor.

Mais abaixo, do outro lado da linha do comboio, surge a Marvila mais típica, protegida do rio por uma longa linha de armazéns. É nesta faixa que tudo parece estar a acontecer, mudando não apenas o rosto da freguesia, mas também o de Lisboa, fazendo com que Marvila esteja em alta como a zona mais trendy da capital.

A enorme escultura de José de Guimarães, inaugurada a 25 e Abril de 1999, exactos 25 anos após a Revolução dos Cravos, uma homenagem aos construtores de Lisboa, recebe-nos de braços abertos à entrada desta nova cidade. Aqui na Matinha segue em construção um dos maiores projectos residenciais de Lisboa, o empreendimento de luxo Jardins de Braço de Prata, da autoria do arquitecto Renzo Piano, nos terrenos da antiga Fábrica de Material de Guerra. Ao lado, permanecendo ao abandono e ruína, o edifício ocre da antiga fábrica A Tabaqueira. Atrás, muitos armazéns, um dos quais serve de casa à Galeria Underdogs, de Vhils. À frente, o mais recente jardim de Lisboa, o Parque Ribeirinho Oriental, a devolução aos lisboetas de um espaço de Tejo desimpedido.

A Doca do Poço de Bispo segue vigilante. Não apenas do Tejo, mas de toda a transformação da zona. No entanto, as memórias dos tempos áureos de Marvila estão mesmo ali do outro lado da rua, protegidas no interior. A Praça David Leandro da Silva é o centro histórico e acomoda dois dos seus edifícios mais emblemáticos, a Casa José Domingos Barreiro e os Armazéns Abel Pereira da Fonseca (projecto do arquitecto Norte Júnior). As suas fachadas art deco têm elementos decorativos suficientes para nos deixar especados a olhar para cima, em especial os dois enormes olhos de vidro do Abel Pereira da Fonseca. Ambos antigos armazéns onde se produzia, comercializava e distribuía produtos vinícolas, um construído em 1896 e o outro em 1917, aproveitando a verdadeira auto-estrada que são as águas do Tejo à sua porta para transportar as mercadorias. Observe-se o barquinho assente no rio no emblema do Abel Pereira da Fonseca nas duas fachadas. Este empreendimento era tão grande e importante que chegou mesmo a ter nas suas instalações uma vila para habitação dos funcionários. Aliás, para além das fábricas, a memória histórica de Marvila é também feita de vilas e de pátios operários. A Vila Pereira, com a sua fachada encimada por inúmeras chaminés, e o Pátio Beirão são dois exemplos, ali mesmo na Rua do Açúcar. Rua do Açúcar, não deve haver nome de rua mais doce em Lisboa e, pelos vistos, no lugar onde houve em tempos indústrias de material de guerra, sabão, curtumes, cortiça, fósforos, entre muitos outros, havia também uma refinaria de açúcar.

E a Marvila não falta, é claro, um convento. Construído no século XVII, o Convento de Nossa Senhora da Conceição foi entregue à Ordem das Brígida. Muito destruído com o terramoto de 1775, com a extinção das ordens religiosas no século seguinte o espaço conventual acabou por ser transformado em asilo, mantendo-se a sua igreja – Igreja de Santo Agostinho de Marvila – aberta ao culto até hoje. Não conheço o seu interior, mas a ver pelos azulejos na fachada, o espectáculo deve prolongar-se lá para dentro.

Marvila tem, ainda, mais quintas e palácios para além dos já referidos anteriormente. O Palácio da Mitra, bem conservado, apesar das várias vidas que teve desde a sua construção no século XVII (residência de prelados, fábrica de metalurgia e fundição, fábrica de licores, asilo, Museu da Cidade e, hoje, serviços da Câmara Municipal de Lisboa onde, entre outros, é usado para recepções oficiais. O Palácio dos Marqueses de Abrantes, igualmente propriedade municipal, hoje lugar popular ocupado por diversas colectividades – é aqui que se ensaia a marcha de Marvila – e pelo Pátio do Colégio. E a Quinta do Marquês de Marialva, de que resta apenas a sua formosa torre, conhecida como mirante. Conta-se que foi deste mirante, colado à linha férrea, que em 1856 D. Pedro V assistiu à passagem do primeiro comboio. Mas a partir de 1919 parte dos seus enormes terrenos passaram a ser ocupados pela Fábrica Nacional de Sabões e o restante da Quinta foi votado ao abandono. Parece que em Marvila nada é perene, tudo se transforma e tudo se reconverte e, está visto, nos anos 90 já a Sociedade Nacional dos Sabões tinha deixado de ser uma das maiores empresas do país, falindo e deixando consigo um rasto de abandono e terrenos expectantes.

A questão é mesmo essa, o dos terrenos e edifícios abandonados e, logo, à espera de novos negócios e oportunidades. E, nisso, Marvila é rainha. O quarteirão da Casa José Domingos Barreiro, na praça principal de Marvila – Poço Bispo, foi vendido recentemente e não se conhece ainda o projecto para a sua reconversão urbanística. Já o edifício dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca foi reconvertido no Lisbon WorkHub e dispõe de vários espaços criativos, de coworking e restaurante.

A ideia de espaços multifacetados chegou à zona em 2007, com a abertura da nova vida (de parte) da antiga Fábrica de Material de Guerra como Fábrica de Braço de Prata, uns 200 metros mais adiante. Um centro cultural com livrarias, cafés, galerias, ateliers e escritórios que teria, à partida, uma vida breve, até ao loteamento e urbanização dos terrenos onde está instalada. Desde aí, não pararam de chegar novidades. Armazéns reconvertidos em galerias de arte, ateliers, cafés, restaurantes, lojas com ideias fora da caixa, ginásios, escalada indoor, salas de música ao vivo, empresas tecnológicas e teatro (o Teatro Meriodinal, um dos meus preferidos). Até fábricas de cerveja artesanal, logo três de seguida, a Dois Corvos, a Lince e a Musa, tendo sido muito a propósito criado o Lisbon Beer District. Quanto a restaurantes, só a Rua do Açúcar tem duas mãos cheias deles. Fica aqui a indicação de alguns: Dinastia Chang, o meu preferido, El Bulo Social Club, o mais mediático, Aquele Lugar que Não Existe, o mais excêntrico, e Entra, o mais surpreendente.

Mas este era o cenário até à entrada do ano 2020. Nada a ver com Covid-19, portanto. O que acontece é que tudo o que mexe dá nas vistas e atrai a voragem de outros. A maioria dos barracões das antigas fábricas de Marvila há décadas que ali estavam esquecidos, alguns deles alugados há poucos anos por uns trocos a uns então visionários. Mas, agora, tudo parece ter mudado novamente. De repente os terrenos e imóveis tornaram-se apetecíveis e valorizaram exponencialmente, pedindo-se rendas insuportáveis a quem havia vindo para aqui precisamente em busca de preços mais acessíveis. Ou seja, o Dinastia Tang já encerrou definitivamente e outros se seguirão e dirão adeus a Marvila.

Ao mesmo tempo que aguardo com expectativa e apreensão o futuro da Marvila minha vizinha, não posso deixá-la sem acrescentar mais duas das suas instituições: o Clube Oriental de Lisboa, um dos históricos de Lisboa, do qual até já fui atleta, e o Parque da Belavista, um reduto verde numa encosta que nos permite, precisamente, belas vistas de uma outra Lisboa.

Tapada das Necessidades

A Tapada das Necessidades, na Estrela, é um lugar esquecido.

Para o bem e para o mal. Se são muitos os seus edifícios ao abandono, a Tapada preserva ainda largas zonas verdes ideais para nos abstrairmos da realidade, fazer um piquenique ou tão só passear, atravessando-a de um lado ao outro na companhia de pavões e de patos e de vistas para a Ponte 25 de Abril e para os Prazeres, enquanto nos embrenhamos pelos seus caminhos carregados de vegetação exótica.

Foi D. João V quem, no século XVIII, mandou construir a Tapada das Necessidades, Convento e Palácio (hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros) no lugar de uma antiga ermida. Um século depois, D. Fernando II, o Rei Artista, redesenhou o espaço e a zona de hortas e pomares foi transformada em jardim inglês, tendo ainda aí instalado um jardim zoológico com aves raras e macacos. Ao seu filho, D. Pedro V, deveu-se a construção da estufa circular, o apontamento edificado mais bonito da Tapada, embora a Casa do Regalo, de iniciativa do Rei D. Carlos I, tome uma designação que lhe faz forte concorrência. Ou seja, os 10 hectares da Tapada de gosto barroco foram sofrendo alterações e acrescentos ao longo da sua história até chegarem aos nossos dias. Neste que é considerado o primeiro jardim paisagista de Portugal e que foi lugar de lazer e experimentação botânica por parte da realeza, podemos hoje caminhar pelos seus vários jardins, lagos, estátuas e edifícios.

Entrando pela porta junto ao Palácio das Necessidades, iniciamos o passeio pelo jardim inglês e de buxo. Há um frondoso dragoeiro e lago e patos, sim, mas a grande atracção são os pavões que fazem questão de vir até nós, com as suas penas resplandecentes bem abertas, como se nos cumprimentassem.

Logo de seguida, estende-se diante nós um largo relvado verde com um edifício delicioso no cimo, a estufa circular em ferro e vidro.

É aqui que começa o desfile de edifícios abandonados e degradados. A Casa do Fresco, por exemplo, tem até na sua fachada uma das estatuetas decapitada. No topo tem ainda o tanque que lhe garantia um ambiente fresco, mas que servia também como elemento estético, devidamente acompanhado por uns vasos ornamentais. Por aqui segue a alameda que ladeia o que era o jardim zoológico com os seus edifícios rosas todos em muito mau estado. Mas temos uma boa opção: dirigir antes o olhar para o lado esquerdo, para umas boas vistas da Ponte 25 de Abril enquadrada na Tapada.

Mais adiante passamos pela Casa do Regalo, tão intensamente rodeada de vegetação que pode passar despercebida. De fachada amarela e com brasão, foi mandada construir por D. Carlos I para servir de estúdio de pintura para ele e para D. Amélia. Este edifício, sim, está bem conservado, uma vez que, afecto à Secretaria-Geral da Presidência da República, foi restaurado para nele ser instalado o gabinete de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.

Foi a tentar perceber um pouco melhor a fachada escondida da Casa do Regalo que escutei, surpreendida, o grasnar estridente de um papagaio (na verdade, um periquito-de-colar). Tão louro, tão louro que também ele se confundia com o arvoredo. Esta é uma zona de mata mediterrânea, talvez não muito domada, e é logo a seguir que encontramos o Jardim dos Cactos. É uma colecção bastante generosa, exótica e exuberante, imperdível na visita.

E aqui ficamos num dos pontos mais elevados da Tapada, ela que está já implantada numa encosta de Lisboa. As vistas para o Tejo são emolduradas pela vegetação, uma perspectiva bem diferente daquela a que estamos acostumados.

Quando ao futuro da Tapada, designadamente no que respeita à recuperação dos seus espaços degradados, espera-se que em breve possa arrancar um projecto que prevê a instalação de quiosques, esplanadas e equipamentos expositivos e para eventos. Mas que, ao mesmo tempo que a permita ser fruída por todos, possa continuar com o recato que a fez chegar até nós.

Quinta dos Azulejos

O Paço do Lumiar está ainda, neste primeiro vinténio do século XXI, cheio de quintas centenárias, daquelas que serviam de recreio às portas de Lisboa aos bem instalados no tempo da realeza, a maior parte delas desconhecidas dos lisboetas. Também conhecida por Quinta dos Embrechados, foi fundada na primeira metade do século XVIII por António Colaço Torres e frequentada pela família real e é um bom exemplo deste património.

Quando chegamos ao largo onde está instalada percebemos de imediato o palacete, hoje transformado em Colégio Manuel Bernardes, totalmente revestido a azulejos de um tom azul convidativo. O que não imaginamos é o que o seu jardim interior esconde.

O jardim da Quinta dos Azulejos é um espaço verde pequeno. Protegido por muros altos, tem a forma quadrangular, cortado a meio por um caminho, e podemos adentrar pelo jardim de buxo e nele encontrar dois bustos escultóricos em homenagem a vultos importantes na fundação e direcção do colégio. Mas não são nem estes nem as plantas que nos chamam a atenção, antes os seus inúmeros e deliciosos painéis azulejares que dominam por completo os nossos sentidos.

O interior dos muros do jardim está quase totalmente revestido a azulejos. Houve várias campanhas de decoração da Quinta ao longo dos tempos, mas a primeira delas datará de 1745 – 1755, o que coincide com a laboração da Real Fábrica de Faianças do Rato, pelo que se tem como assente que foi nesta que se produziram as mais antigas cerâmicas que ainda nos dias de hoje podemos observar. O Grande Terramoto de Lisboa veio logo depois e alguns desses azulejos conseguiram sobreviver-lhe.

Os azulejos policromo, mas com destaque para o azul e branco, da Quinta dos Azujelos mantém-se, em grande parte, bem conservados e revestem ora os muros, ora as colunas, os bancos, os canteiros e as fontes do jardim. São de uma beleza e variedade temática ímpar. É como se nos contassem histórias com recurso a cenas quotidianas, mitológicas ou religiosas. Admirando-os, vemos um desfile de cenas de festas, galanteio, passeios, caçadas e motivos bíblicos decorados ao gosto rococó. Pessoas, animais e seres mitológicos estão representados.

Como Ícaro a cair depois das suas asas terem disso derretidas pelo sol; ou as sete irmãs plêiades; ou Narciso que morreu apaixonado pela contemplação da sua própria beleza e assim se viu transformado numa flor; ou a sua amada mas desprezada ninfa Eco.

São várias as fontes no jardim da Quinta com falsas cascatas e interior revestido a embrechados, uma logo à entrada, outras duas em cada um dos flancos e uma outra junto ao caramanchão.

O caramanchão coberto de plantas que conferem maior protecção e recato ao banco corrido com colunas sob ele é o momento mais bonito do jardim. O lago diante de si está vazio mas isso não retira um pingo de encanto a este espaço.

Há que continuar a apreciar cada figura e cada detalhe, e deixar-nos esquecer do tempo num espaço tão curto.