Cais do Ginjal, varanda de Lisboa

É inevitável. Um passeio pelo Cais do Ginjal, em Almada, leva-nos a não tirar os olhos da vizinha Lisboa no outro lado do rio.

É sobretudo de vistas de que se trata esta viagem. Mas também de história de um pedaço de terra que até há pouco tempo foi um ponto estratégico em termos industriais e comerciais. A sua decadência e ruína são hoje evidentes e custa a crer que algo com esta localização tão fabulosa possa estar tão marginalizado.

Mas vamos à história. Espremida entre a falésia e o rio Tejo, com o Cristo-Rei à espreita, o Cais do Ginjal é uma língua de terreno que tem nas suas costas uma arriba que sobe alto e com pressa.

Sabe-se que a ocupação humana de Almada vem desde a Pré-Historia e é provável que estas terras junto ao rio também tenham sido pisadas pelo Homem desde essa época. Este porto habituou-se desde há muito a ser lugar de pesca e de embarcação de diversos produtos para além do peixe, como frutas, vinha e até ouro. A capital do reino estava mesmo diante si e o transporte fluvial era então rei.

Os tempos áureos do Cais do Ginjal aconteceram sobretudo no século XIX. Em 1845 a família de comerciantes de João Teotónio Pereira instalou-se ali e dinamizou toda a zona, criando uma indústria ligada ao abastecimento da frota pesqueira e à tanoaria e ao armazenamento de vinho, azeite e vinagre. Para além disso, construiu uma quinta de veraneio junto aos vários edifícios de armazéns ribeirinhos.

O que contribuiu decisivamente para o declínio de todas estas indústrias que empregavam uma série de trabalhadores que davam vida e alegria a esta nesga de território foi a inauguração, em 1966, da Ponte Oliveira Salazar. A ponte sobre o Tejo, hoje Ponte 25 de Abril, veio acabar definitivamente com a era em que muito do transporte de mercadorias ainda era efectuado por via fluvial. Hoje, em sua substituição, assiste-se antes à passagem dos Cacilheiros e dos veleiros e até dos grandes navios de cruzeiro. As águas do Tejo foram substituídas pelo asfalto da ponte para o transporte das mercadorias das várias indústrias que laboravam no Cais do Ginjal.

Sobram os seus edifícios decadentes, acostados na arriba também ela aos caídos. As fachadas da maior parte dos antigos armazéns foram tomadas pelos grafittis e as suas portas e janelas esventradas deixam ver a confusão de entulho lá dentro. Os avisos de “perigo de derrocada” sucedem-se, mas os caminhantes seguem no seu passo de lazer, a maior parte das vezes, já se disse inevitável, entretidos com a vista para Lisboa.

Esta pode não ser já uma localização estratégica em termos comerciais, mas continua belíssima e muito disputada. As terras do Cais do Ginjal são propriedade privada e discute-se há anos a apresentação e posterior discussão e aprovação por parte da autarquia de um plano para esta zona que prevê a sua reconversão com a construção de casas de habitação, indústrias criativas, espaços culturais, lojas, praças e passeios. E, tão importante quanto isto, um plano que garanta a estabilização da arriba.

A melhor forma de chegar ao Cais do Ginjal continua a ser por via fluvial. Aportamos no Cacilheiro laranja, símbolo do Tejo partilhado entre Lisboa e Almada, e contornamos a pitoresca Cacilhas pela sua frente ribeirinha. Os pescadores estão por todo o lado, e não sei se a vista para Lisboa os chega a distrair das mordidelas no anzol por parte das suas presas.

Vemos ao fundo o Panteão, com o já habitual barco de cruzeiro estacionado à sua porta, depois a Praça do Comércio, as torres das Amoreiras, o porto de Alcântara, a Ponte 25 de Abril e a Torre de Belém debaixo das suas asas. Esta é uma vista soberba e não cansa olhar para Lisboa, exposta por inteiro e recostada só para nós.

Os pontões enferrujados e que parecem mal se suster são pontos de vista ainda mais privilegiados suspensos no rio. Algumas praias de areia com um ar não menos desmazelado não convidam ao repouso. E a imagem graffitada do ciganito Quaresma disputa as paredes com a imagem de uns pescadores de outros tempos e com o ET. Até com Jesus Cristo. Ao Cais do Ginjal não falta uma pitada de cultura popular deste século.

Não arrisco entrar nos edifícios, levando muito a sério os avisos de perigo de derrocada. Da porta escancarada de um deles vê-se um carro em ruína, como as paredes e o tecto que (não) o abrigam.

Mas, pensando bem, talvez não estejamos todos os que aqui passamos a levar muito a sério estes avisos de perigo de derrocada, pois o passeio é tão estreito que esta caminhada não parece totalmente segura. Mas seguimos adiante.

E chegamos a uma das partes mais bonitas do Cais do Ginjal, onde ficam umas praias mais convidativas, a vista livre e total para a Ponte 25 de Abril e umas antigas casas de pasto hoje transformadas nos super concorridos restaurantes Ponto Final e Atira-te ao Rio. É difícil imaginar uma refeição mais idílica e cénica com Lisboa como panorama.

Destes restaurantes umas escadinhas sobem até Almada Velha. Mas continuando um pouco mais podemos fazê-lo igualmente através de uma viagem no Elevador da Boca do Vento. O seu jardim está muito bem cuidado e aqui, sim, temos um convite irresistível para nos deixarmos estar, sentados na relva a contemplar o Tejo e Lisboa.

Não subimos, ainda, até Almada. Em bom rigor, o solo que agora pisamos já não é mais o do Cais do Ginjal. Continuando um pouco mais junto ao rio estamos agora na Fonte da Pipa e no Olho de Boi, onde encontramos o Museu da Indústria Naval. Foi no sítio do Olho de Boi que no século XIX se instalou a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, edifício este ocupado no século seguinte pela Companhia Portuguesa de Pescas. Hoje, os seus escritórios estão, à semelhança de quase tudo por aqui, abandonados. No seu cais restam os muitos pescadores ocasionais.

Mais à frente, logo a seguir a mais uma praia, há de vir o lugar da Arealva com a sua quinta apalaçada que em tempos serviu de armazenamento de vinhos. A Ponte 25 de Abril está cada vez mais perto, mas o caminho até lá torna-se mais e mais perigoso pela possibilidade de derrocadas quer das arribas quer dos edifícios, pelo que optei por não seguir adiante.

Meia volta volver e subindo pela estrada do Olho de Boi havemos de ganhar novas vistas fantásticas no caminho. A melhor destas vistas aguarda-nos no miradouro da Boca do Vento donde se aprecia toda esta faixa ribeirinha. Os telhados destelhados e outros edifícios com a cobertura já perdida confundem-se e deixam-se perder no verde da vegetação que cobre a arriba. Daqui, o Tejo ganha outro encanto e torna-se ainda maior.

Para rematar em mais beleza a jornada, de Almada Velha levamos ainda a vista da Casa da Cerca, o Centro de Arte Contemporânea de Almada. O seu jardim é belíssimo, um daqueles lugares ao qual se faz questão de voltar sempre e que não se esquece.

A vista brutal que daqui se alcança, essa, ainda menos se esquece. E, mesmo ao longe, aqui confirmamos o dito: “quem não viu Lisboa, não viu coisa boa”.

Aldeia da Mata Pequena

Da aldeia de Anços são cerca de 2 kms de carro numa estrada de terra batida (mas acessível) até à Aldeia da Mata Pequena. Atravessamos o estreito Rio Lizandro e passamo-lo a ter ao nosso lado esquerdo. Subimos um pouco e eis que temos mesmo à nossa frente uma espécie de aldeia-museu no alto de um monte verdejante.

A Aldeia da Mata Pequena é na verdade um empreendimento turístico. Alguém se propôs recuperar as edificações de um lado e do outro da pequena – e única – rua desta povoação e colocá-las à disposição de qualquer um de nós para aqui podermos passar um dia ou dias de ruralidade às portas de Lisboa.

Pode parecer algo artificial, esta ideia de alojamento turístico e não casas ocupadas pelos seus habitantes tradicionais, mas as casinhas estão todas bonitas no seu exterior, sendo fácil deixarmo-nos encantar pelas suas cores, elementos decorativos e pátios. O resultado é que a arquitectura tradicional da região saloia tem aqui um exemplo que dá gosto visitar.

A dita rua é empedrada e as suas casas caiadas com frisos ora azuis, ora amarelos, ora vermelhos. Os telhados com telhas de cor ocre protegem do céu azulíssimo e do verde dos terrenos que circundam a aldeia. Janelinhas e vasos com flores nas fachadas, uma mó, um cântaro e um regador aqui e ali, esculturas em porcelana, muitos são os apontamentos da vida rural. Não faltam burros, galinhas, coelhos e até o porco Guedes fez questão de espreitar para dar as boas-vindas.

Aqui perto da Aldeia da Mata Pequena fica o Penedo do Lexim, zona arqueológica num antigo vulcão agora extinto. E a poucos quilómetros mandou D. João V erguer o Palácio Nacional de Mafra, então bem longe de Lisboa. Hoje tudo é mais perto, mas o ambiente, esse, continua a todo um mundo de distância.

Cascata de Anços

Às portas de Lisboa existe uma sucessão de quedas de água tão incrível que custa a acreditar que não esteja toda a gente a falar dela. Parece que já foi até cenário de telenovela, mas continua e continuará escondida pela vegetação e a depender do passa palavra para ser visitada.

No vale da ribeira do Mourão, a Cascata de Anços passa totalmente despercebida a quem segue pela estrada vindo de Montelavar ou de Negrais. Há que cortar para a rua da Laranjeira, e é por isso que esta também gosta de ser conhecida como a Cascata da Laranjeira. Mais, exige ser conhecida por esse nome, assim mo afirmou o guarda-cascatas local. Por sorte o Tóino dos Bigodes serviu-me de guia para adentrar pela natureza deste pedaço precioso de propriedade particular que até há pouco tempo tinha o acesso totalmente vedado aos forasteiros. Hoje podemos percorrer o trilho pouco pisado mas fácil de identificar. Algumas ruínas de edifícios esquecidos pelo tempo, incluindo mós dos moinhos, são testemunhos da presença do Homem por aqui. Mas é a natureza a grande dominadora do lugar.

Encaixada no dito vale corre, então, a Ribeira do Mourão, afluente do Rio Lizandro. É um fio de água, mas o suficiente para no seu ponto mais exaltante cair de um desnível da rocha de uma altura considerável. Diz o Bigodes que se pode ir até lá cima e aí ficar em sossego em total isolamento. Não sou de escaladas e muitas aventuras e, para além disso, a vista desta cascata desde cá de baixo e a beleza da piscina natural que se forma ao seu redor são suficientes para encher as medidas e recordar este lugar e desejar voltar.

Um tronco no meio do caminho que o guarda-cascatas tornou transitável permite-nos atravessar a ribeira para o outro lado. Continuamos envolvidos pelo bosque e acompanhamos o percurso da ribeira sempre com o seu som como música de fundo. A água é fria, claro, bem guardada pela vegetação. Algures por aqui fica, desculpe o segredo, o frigorífico do Bigodes, um buraquinho na rocha perfeito para acondicionar uma garrafinha de tintol para se usar a qualquer altura do dia enquanto se relaxa neste recanto.

Os desníveis do vale vão-se sucedendo, formando novas quedas de água, umas mais acessíveis do que outras. Quem for aventureiro tem-nas todas para si.

Para além da surpresa das várias cascatas, este vale em Anços é especial também pela enorme e formosa parede rochosa do penedo que o ladeia. Diz o Bigodes que esta é terra de ouro e titânio. Pode até ser, mas hoje a busca deste lugar faz-se por outros motivos mais simples mas também valiosos: o de ali se passar um bom momento, em plena tranquilidade e comunhão com a natureza.

Percurso Ribeirinho de Loures, primeiros metros

Loures possui uma pequena língua de rio na união de freguesias de Santa Iria, São João da Talha e Bobadela. Enquanto não sai do papel o tão ansiado projecto de usufruto pelos cidadãos de grande parte desta frente ribeirinha do concelho de Loures, podemos ir contentando-nos com uma pequeníssima amostra do que virá.

Partindo de uma ponte junto à estação ferroviária de Santa Iria, uns 700 metros de caminho transportam-nos até a um pontão que nos deixa à beira do Tejo. Antes utilizado quase em exclusivo por pescadores, este é agora o primeiro trecho oficial do Percurso Ribeirinho de Loures, o qual se espera venha a ligar esta zona à foz do Trancão num caminho elevado sobre passadiços de forma a preservar o ecossistema local.

Uma zona húmida vizinha da Reserva Natural Estuário do Tejo, aqui encontramos sapais, caniçais e esteiros, para além de ser um posto privilegiado de observação de aves e de pesca.

Para além da paisagem, claro.

A frente ribeirinha de Vila Franca de Xira – de Vila Franca de Xira à Póvoa de Santa Iria

O percurso que se segue tem cerca de 22 kms e pode ser efectuado de bicicleta. A sugestão é chegar a Vila Franca de Xira de comboio e daí seguir a pedalar até à Póvoa de Santa Iria.

Eis então que à chegada à estação de Vila Franca logo nos dirigimos para o Jardim Municipal Constantino Palha, pedaço de verde junto ao Porto de Recreio e Cais da cidade.

À saída da estação já tínhamos dado de caras com o “Monumento ao Toureiro” e agora temos à nossa disposição o “Monumento ao Avieiro”, de um lado, e o “Monumento de Homenagem ao Cais da Jorna”, do outro. Vila Franca de Xira é terra de fortes tradições e heranças sociais e culturais e isso sente-se a cada passo.

Seguindo junto ao rio em direcção a Lisboa, deixado o Cais para trás logo um poderoso edifício se apresenta. É a Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, uma aquisição recente da zona ribeirinha do Tejo.

No lugar anteriormente ocupado por uma fábrica de descasque de arroz, a “Fábrica das Palavras”, designação oficial da biblioteca, fica espremida entre a linha de comboio e o rio Tejo. Parte integrante (e marcante) da requalificação da zona ribeirinha, o edifício da autoria do arquitecto Miguel Arruda que viu a luz em 2014 tem uma forma singular, um enorme trapézio ou um enorme quase triângulo, conforme o ângulo donde o observamos.

A fachada branca toma uma série de cortes, conferindo uma dinâmica interessante ao edifício, ao mesmo tempo que permite que do seu interior se desfrute da paisagem natural. Uma espécie de ponte liga de forma elevada o edifício da biblioteca à cidade para lá da linha do comboio, vencendo esta barreira construída e aproximando os elementos.

A praça de entrada é um novo espaço de encontro. Para se deixar estar sob o céu ou, mais activamente, a deslizar num skate. Muito bem conseguida a parelha do edifício contemporâneo com o antigo edificado.

Daqui seguimos pelo Caminho Pedonal Ribeirinho até Alhandra, sempre lado a lado com o Tejo.

Inaugurada em 2005 e estendida em 2008, esta obra foi construída ao abrigo do Programa Polis. São 3 gratificantes kms onde se pode caminhar, pedalar, descansar ou piquenicar sempre com a companhia do Tejo para contemplar. A paisagem é belíssima. O rio, a Lezíria e o Estuário, um conjunto ambiental de absoluta tranquilidade.

Avistamos a Praça de Touros mesmo ali, ainda que do outro lado da linha de comboios, e vamos vendo desfilar muita arte urbana a céu aberto junto à natureza em estado puro.

Em poucas povoações a tradição tauromáquica é tão popular como em Vila Franca de Xira e os grafittis neste caminho ribeirinho relembram-na, assim como se integram de forma perfeita na paisagem local.

Temos ainda espaços onde podemos desfrutar do rio numa proximidade intensa e em quase exclusividade.

A chegada a Alhandra vai-se percebendo à medida que vamos vendo aproximar as enormes torres das suas indústrias e a sua pitoresca igreja que nos acostumámos a ver desde a A1.

Alhandra é uma povoação muito ligada ao rio e os desportos náuticos são uma tradição. Não falta a homenagem a Batista Pereira pelas suas travessias a nadar e na água do rio vêem-se deslizar as muitas canoas do clube local.

Passado o Cais de Alhandra temos de adentrar e seguir uns kms pela Estrada Nacional. A razão? O percurso ribeirinho é aqui impossível, seja pela presença da linha do comboio, das indústrias, dos terrenos militares ou até da zona de sapal. Só voltamos para perto do Tejo em Alverca, depois do Museu do Ar (aqui fica o Complexo Militar de Alverca, o qual ocupa um enorme terreno junto ao rio).

E assim chegamos ao Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo.

Para chegar à sua zona de cafeteria na entrada principal há que percorrer 3 trilhos: o Trilho da Estação, o Trilho da Verdelha e o Trilho do Tejo.

O Trilho da Estação possui cerca de 1,5 km e segue junto à linha de comboio e ainda afastado do rio.

O Trilho da Verdelha, com cerca de 2 km em terra batida, começa por ser um caminho estreito ladeado de vegetação alta que segue junto à Ribeira da Verdelha. Até que depois a paisagem se abre na foz e um misto de elementos se juntam. O imenso Tejo, a esmagadora concentração de urbanização do Forte da Casa e a Ponte Vasco da Gama, já em Lisboa, bem lá ao fundo. Mas o caminho segue tranquilo e com muita natureza para desfrutar e contemplar. Os ecossistemas de sapal e de aves são um ex-libris desta zona.

O Trilho do Tejo são 700 metros sobre um passadiço onde a natureza continua a deslumbrar. O rio, o sapal, antigas salinas e terrenos agrícolas fazem-nos companhia.

Até que chegamos à Praia dos Pescadores. Até aí uma enorme diversidade de espaços foram atravessados. Espaços industriais, urbanos, agrícolas, naturais, numa diversidade infinita. Acerca desta Praia dos Pescadores, no Parque Linear Ribeirinho, e do Parque Urbano da Póvoa, que se lhe segue, falei em tempos aqui.

Entretanto, agora em Julho foi inaugurado um novo troço e um novo parque, o Parque Ribeirinho Moinhos da Póvoa, mais 1800 metros até ao limite do concelho de Vila Franca de Xira, à espera que Loures continue o trabalho até se aproximar de Lisboa. Rio de um lado, com o grasnar insistente das aves, mais fábricas – como a Solvay – e armazéns – como a FedEx – do outro.

Uns 600 metros numa linha exterior ao Tejo ligam estes dois parques, passando por antigas fábricas hoje esventradas e graffitadas. Um ambiente de mistério a acrescer a todos os anteriormente vivenciados e expressão inequívoca da decadência de uma das economia outrora centrais no concelho.

Eis algumas fotos mais destes Parques que possuem uma série de valências expressas em infra-estruturas como cafetarias, parques de merendas, zonas de recreio e espaços científicos e de conhecimento, como o são o Centro de Interpretação Ambiental e da Paisagem e o núcleo museológico “A Póvoa e o Rio”, anteriormente melhor explicado no post acima referido. Vila Franca de Xira, terra rica em tradições que tenta preservar, é também uma terra que se orgulha dos seus escritores. Entre os seus nomes maiores encontram-se Soeiro Pereira Gomes, Álvaro Guerra e Alves Redol. Este último, com a sua obra Avieiros, dá-nos a conhecer a vida destes pescadores migrantes do Ribatejo que hoje são aqui lembrados e homenageados.

Paisagem, tradição e cultura é o que encontraremos neste passeio ribeirinho de Vila Franca de Xira à Póvoa de Santa Iria.

Palácio dos Marqueses de Fronteira

O Palácio dos Marqueses de Fronteira está situado às portas de Monsanto, o pulmão verde de Lisboa, sítio privilegiado para tantas caminhadas e vistas largas.

Quando foi construído, em 1670, por ordem do 1.° Marquês de Fronteira, D. João de Mascarenhas, ficava fora da cidade e era utilizado como pavilhão de caça e casa de campo juntamente com os seus jardins.

Hoje o lugar está plenamente integrado na cidade e, se fica no sopé deste pedaço de natureza, fica igualmente colado a uma via rápida.

A sua situação geográfica pode ser surpreendente, mas mais surpreendente é a excelência deste Palácio e Jardins.

Após o Terramoto de 1755, a residência dos Marqueses no centro de Lisboa ficou totalmente destruída, pelo que o Palácio em Monsanto passou a constituir a sua habituação, para o que lhe foi acrescentado uma nova ala e refeitos muitos detalhes. E detalhes são o que não falta a este conjunto fabuloso. Os azulejos são riquíssimos e as esculturas belíssimas.

Mas muito mais há para apreciar.

A arquitectura do corpo principal da casa possui influência italiana, mas revela também características da arquitectura civil portuguesa. No pátio com estrelas desenhadas na calçada portuguesa encontramos em cada um dos lados da casa uma fonte com carranca no meio de duas janelas. Ainda antes da entrada, um indício do trabalho de tectos que nos esperará depois.

Passada a porta da residência (acabam-se as fotos), uma fonte nos aguarda. Originalmente este espaço não era fechado, estando hoje para lá da entrada do Palácio. Nessa época, um ribeiro passava por baixo do edifício e a sua água era aproveitada para beber, tendo este sido um lugar de repouso, com um banco a permitir o desfrute do som da água e da frescura do ambiente.

Uma escadaria dupla transporta-nos ao piso superior e a ante-câmara, apesar de algo austera, começa de imediato a maravilhar-nos com o seu ambiente renascentista com paredes em estuque onde as janelas mais parecem portas.

A sala correspondente à biblioteca privada da família possui objectos interessantes, mas é a vista fabulosa para o jardim que rouba toda a nossa atenção – já haveremos de o visitar mais próximo.

Seguem-se duas salas absolutamente deliciosas na decoração das suas paredes e tectos.

A primeira, a Sala das Batalhas, a principal sala da casa, cujas paredes estão carregadas de azulejos (os azulejos são uma das grandes riquezas do Palácio e Jardins, quer pela sua qualidade, diversidade temática e quantidade – estão por todo o lado). Estes azulejos mais parecem a história das batalhas das guerras da Restauração contada em banda desenhada. Foi o próprio D. João de Mascarenhas que encomendou estes painéis de azulejos. Participante de relevo nas guerras da Restauração, o seu esforço valeu-lhe então, precisamente, o título de 1.° Marquês de Fronteira. Quer isto dizer que estes painéis de azulejos não se limitam a representar algo; antes documentam a história contada por quem a viveu directamente. Para além do busto do fundador, nesta sala podemos observar ainda bustos dos seus familiares. O tecto é em estilo barroco.

A Sala dos Painéis é a mais bonita. Altamente decorada, o trabalho em estuque em estilo rocaile é soberbo. As pinturas que aqui vemos, cuja temática vai desde cenas das colónias (Brasil? África?) a cenas marítimas e de caça, estão emolduradas com o dito estuque. Para completar a riqueza desta sala, uns azulejos a azul e branco importados da Holanda e, no tecto, uma espécie de pintura do rei sol.

Mais duas salas, a Sala dos Quatro Elementos e a Sala de Juno, de ambiente mais intimista e decoradas com mobiliário indo português, porcelana chinesa e tapeçaria, há ainda para visitar antes de sairmos do Palácio e nos depararmos com o deslumbrante terraço – varanda virado para o jardim superior.

Este terraço, também conhecido como Galeria da Artes, está carregado de azulejos azul e brancos e oferece-nos uma sequência de estátuas, cada uma delas com uma concha a seus pés, e bustos esculpidos na parede e envoltos em materiais naturalistas, num trabalho minucioso. Estes painéis em azulejo representam as sete artes liberais e as estátuas correspondem a divindades gregas. Os bustos são de imperadores romanos.

Todo este conjunto de elementos é apelativo esteticamente e soberbo na sua qualidade. Soa algo austero, mas é claramente um lugar acolhedor a que não falta uns bancos decorados com azulejos representando cenas mais corriqueiras do dia-a-dia e muita vegetação exótica a envolver-nos. Para além disso, podemos ainda observar uns painéis satíricos, com figuras de gatos e macacos e pássaros com cabeça de mulher.

No final deste terraço fica a Capela da casa. Igualmente lindíssima na sua decoração, com pequenas estátuas de santos no seu interior, mas sobretudo pelos seus azulejos e embrechados (conchas). A este propósito, diz a lenda que, aquando da inauguração do Palácio, foi D. Pedro convidado e o 1.º Marquês de Fronteira mandou depois partir toda a loiça usada no banquete. Os restos de porcelana, bem como pedrinhas e conchas, serviram assim para a ornamentação da capela por meio do recurso ao revestimento por embrechados.

Da Capela descemos por umas escadas que nos deixam no jardim superior ou Jardim de Vênus. Um pavilhão se destaca, a Casa de Fresco, também decorado com embrechados. E azulejos, claro. É riquíssima a sua beleza. À entrada, o Lago dos S, rodeado de bancos com painéis em azulejo representando, entre outras, cenas de pesca.

Daqui percebem-se as cores azul e vermelho fortes do Palácio, um contraste poderoso que lhe confere ainda mais luz e vida. A rematar, a vegetação intensa.

Este jardim superior é um jardim de carácter mais privado do que o jardim inferior, mais formal e monumental e escancarado a todos os visitantes. Antes de descermos, porém, um passeio ao redor da fonte com a estátua de Vênus com golfinho e tartaruga.

O jardim formal é impressionante. Os seus enormes canteiros de buxo e o tanque que mais parece um lago formam um conjunto superior. O tanque monumental tem 48 por 18 metros e de cada lado adorna-o duas escadarias encimadas por torres que ligadas formam uma varanda com esculturas com bustos de reis portugueses – a Galeria dos Reis. Tudo perfeito. Incluindo a vista.

Cá em baixo, o muro do lago, onde vemos cisnes e peixes a nadar, é revestido de azulejos representando diversos cavaleiros – o Tanque dos Cavaleiros. Três grutas se deixam ver para lá da água onde flutuam umas estátuas.

Depois de toda esta fantasia, resta-nos perder-nos com agrado por entre os desenhos do jardim de buxo, descobrindo aqui e ali uma fonte ou uma esbelta estátua.

Apesar de no início deste texto ter referido que o Palácio dos Marqueses de Fronteira está hoje dentro de Lisboa, a verdade é que neste pedaço de São Domingos de Benfica conseguimos ainda sentir-nos apartados do frenesim da cidade.

A visita a esta residência privada que é ao mesmo tempo monumento nacional é, pois, essencial para a compreensão da nossa cidade ainda hoje.

Nos anos 1980, o 12.º Marquês de Fronteira, Fernando Mascarenhas, aristocrata de esquerda e mecenas cultural activo na cena lisboeta até há sua morte, em 2014, instituiu a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. É nesse contexto que podemos visitar o Palácio e os Jardins, bem como vê-los ser palco de iniciativas culturais, científicas e educativas várias.