Quinta dos Azulejos

O Paço do Lumiar está ainda, neste primeiro vinténio do século XXI, cheio de quintas centenárias, daquelas que serviam de recreio às portas de Lisboa aos bem instalados no tempo da realeza, a maior parte delas desconhecidas dos lisboetas. Também conhecida por Quinta dos Embrechados, foi fundada na primeira metade do século XVIII por António Colaço Torres e frequentada pela família real e é um bom exemplo deste património.

Quando chegamos ao largo onde está instalada percebemos de imediato o palacete, hoje transformado em Colégio Manuel Bernardes, totalmente revestido a azulejos de um tom azul convidativo. O que não imaginamos é o que o seu jardim interior esconde.

O jardim da Quinta dos Azulejos é um espaço verde pequeno. Protegido por muros altos, tem a forma quadrangular, cortado a meio por um caminho, e podemos adentrar pelo jardim de buxo e nele encontrar dois bustos escultóricos em homenagem a vultos importantes na fundação e direcção do colégio. Mas não são nem estes nem as plantas que nos chamam a atenção, antes os seus inúmeros e deliciosos painéis azulejares que dominam por completo os nossos sentidos.

O interior dos muros do jardim está quase totalmente revestido a azulejos. Houve várias campanhas de decoração da Quinta ao longo dos tempos, mas a primeira delas datará de 1745 – 1755, o que coincide com a laboração da Real Fábrica de Faianças do Rato, pelo que se tem como assente que foi nesta que se produziram as mais antigas cerâmicas que ainda nos dias de hoje podemos observar. O Grande Terramoto de Lisboa veio logo depois e alguns desses azulejos conseguiram sobreviver-lhe.

Os azulejos policromo, mas com destaque para o azul e branco, da Quinta dos Azujelos mantém-se, em grande parte, bem conservados e revestem ora os muros, ora as colunas, os bancos, os canteiros e as fontes do jardim. São de uma beleza e variedade temática ímpar. É como se nos contassem histórias com recurso a cenas quotidianas, mitológicas ou religiosas. Admirando-os, vemos um desfile de cenas de festas, galanteio, passeios, caçadas e motivos bíblicos decorados ao gosto rococó. Pessoas, animais e seres mitológicos estão representados.

Como Ícaro a cair depois das suas asas terem disso derretidas pelo sol; ou as sete irmãs plêiades; ou Narciso que morreu apaixonado pela contemplação da sua própria beleza e assim se viu transformado numa flor; ou a sua amada mas desprezada ninfa Eco.

São várias as fontes no jardim da Quinta com falsas cascatas e interior revestido a embrechados, uma logo à entrada, outras duas em cada um dos flancos e uma outra junto ao caramanchão.

O caramanchão coberto de plantas que conferem maior protecção e recato ao banco corrido com colunas sob ele é o momento mais bonito do jardim. O lago diante de si está vazio mas isso não retira um pingo de encanto a este espaço.

Há que continuar a apreciar cada figura e cada detalhe, e deixar-nos esquecer do tempo num espaço tão curto.

Bairro Grandela

O Bairro Grandela fica situado na Estrada de Benfica, mesmo defronte do Palácio Beau-Séjour. Ao contrário deste, discreto e escondido para lá dos muros e jardim, dos dois edifícios vermelhos do Grandela em forma de templo grego todos dão notícia quando passam pela Estrada.

Este é um bairro operário mandado construir por Francisco Grandela, homem dinâmico que viveu entre 1853-1935 e foi o fundador dos Armazéns Grandela, hoje Armazéns do Chiado. Nessa época, Lisboa vivia um desenvolvimento industrial que fez com que à capital acorresse um grande número de trabalhadores sem que a cidade estivesse preparada para os receber, por escassez de habitações.

Nesta zona da cidade havia um curso de água, a Ribeira de Alcântara, elemento do qual Grandela necessitava para instalar as suas fábricas do ramo que hoje conhecemos por “pronto a vestir”. Homem visionário, em 1902 começou a construir a sua fábrica e decidiu que ela seria acompanhada por uma vila operária, de forma a que os seus trabalhadores pudessem não apenas ter uma habitação mas ficassem perto do trabalho, garantindo com isso a sua assiduidade e produtividade. Num espaço próximo estes teriam, assim, o trabalho, a residência e até a creche para os seus filhos. Este exemplo de construção de vila operária não é único em Lisboa, havendo muitos outros casos de iniciativa dos industriais em substituição ao Estado em matéria de habitação, em especial na zona da Graça e de Alcântara (ver anterior post aqui https://andessemparar.com/2015/03/13/vilas-operarias).

A vila operária do Bairro Grandela é uma vila exposta à rua, embora nunca tenha tido portas porque se considerava ser um espaço privado. À entrada, à beira da Estrada de Benfica, as tais duas casas vermelhas com escadaria e colunas em estilo neoclássico encimadas por frontão com a insígnia de Grandela e pela divisa “sempre por bom caminho e segue”. Uma delas servia originalmente de creche e é hoje a Casa da Cidadania, a outra o Fórum Grandela e serviços da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica. Para lá destes dois edifícios quase monumentais distribuem-se três ruas de casinhas mais pequenas, uma para os encarregados, as outras duas para os operários.

A rua das moradias dos encarregados da fábrica possui as casas mais distintas, com entradas cobertas sustentadas por duas colunas e com elementos decorativos na fachada.

Nos dois quarteirões destinados aos operários as casas estão pintadas de vermelho e perfazem o número de 70 habitações, divididas em edifícios de dois pisos, com o piso superior a possuir igualmente acesso directo à rua através de uma escada com alpendre. Hoje os carros inundam grande parte do espaço da rua em calçada portuguesa, mas vemos alguns bancos para se estar e as estruturas em ferro para estender a roupa, dois indícios de que a vida de bairro continuará a ser mantida, embora a fábrica tenha passado o seu tempo.

Palácio do Beau Séjour

A Estrada de Benfica é nos dias de hoje uma artéria que não hesitamos considerar parte integrante de Lisboa. Mas nem sempre foi assim. Em 1849, quando D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida, a 1ª Baronesa e 1ª Viscondessa da Regaleira adquiriu a Quinta das Loureiras na Estrada de Benfica o lugar estava implantado nos arrabaldes da capital. Não se sabe com certeza o porquê dessa escolha, mas provavelmente ter-se-á ficado a dever ao facto de esta quinta se situar a meio caminho do palacete da família no Largo de São Domingos, em Lisboa, e da quinta da família em Sintra, Palacete da Regaleira e Quinta da Regaleira, respectivamente.

A Estrada de Benfica era, então, uma via que ligava o centro de Lisboa à sua periferia. Com o passar dos anos e o desenvolvimento e crescimento da cidade no século XIX acabou por ser por ela aglutinada.

Benfica foi uma das últimas freguesias rurais de Lisboa e nos dias de hoje a Estrada de Benfica e seus arredores mantêm, ou mantiveram até há poucos anos, algumas das suas quintas e palacetes. Nos arredores, por exemplo, o Palácio Fronteira continua como um dos mais soberbos palacetes e jardins da cidade, só que agora separado do bairro pela via rápida Radial de Benfica, e o Estádio da Luz teve origem na Quinta Montalegre. No que respeita ao que resiste na Estrada de Benfica propriamente dita, esta tem início com parte dos jardins do Conde de Farrobo (onde está instalado o Jardim Zoológico), com o Convento de Santo António da Convalescença logo à espreita, segue com o Palácio Beau-Séjour (antiga Quinta das Loureiras), tem espaço ainda para o Palacete do número 382 (virado para a Avenida Barjona de Freitas), terminando definitivamente com as Portas de Benfica, as quais assinalaram até ao fim do século XIX o limite fiscal da cidade de Lisboa. Pelo meio, muitos outros elementos de interesse como chafarizes monumentais, pastelarias míticas (com a Califa à cabeça) e um bairro operário de fachada neoclássica (o Bairro Grandela).

Continuemos, então, com a história do Palácio Beau-Séjour, personagem principal deste texto. Já sabemos que estava situado no caminho Lisboa – Sintra, entre propriedades da nobreza da Regaleira, que adquiriu a então Quinta das Loureiras em 1849.

As quintas oitocentistas possuíam uma parte rural e outra urbana e a Viscondessa mudou o nome desta para “Beau Séjour”, tradução “boa estadia”, e mandou construir um edifício ao gosto inglês, de fachada simétrica e estreita com dois torreões, rés-do-chão e 1° piso, com um pequeno terraço a toda a volta. No jardim, ao gosto romântico, foram plantadas espécies exóticas como a figueira da Austrália, araucária e jacarandá, algumas destas ainda de pé, logo, centenárias.

Os azulejos que revestem a fachada já não são da época da Viscondessa. Com a morte desta, a sobrinha que herdou vendeu a Quinta em 1859 a António José Leite Guimarães, o Barão da Glória. Este havia emigrado para o Brasil, donde voltou rico com o negócio de tecidos e fazendas. Benemérito da comunidade emigrante, ele e seu irmão, o que ganharam quiseram dar em troca, investindo na Quinta do Beau-Séjour. Tirou o muro que dava para a Estrada de Benfica, de forma a que da rua se visse para o interior da quinta, aumentou o lago, espalhou estátuas pelo jardim, realçou as portas e janelas em arco com cor e, já se disse, forrou o edifício a azulejos. Ficou uma casa ao estilo daquelas que ainda hoje se veem no norte do país, a “Casa dos Brasileiros”. Terá sido por esta altura que a quinta ganhou o outro nome por que é também conhecida, a Quinta das Campainhas, alusão às campainhas de vidro colocadas na cobertura do coreto do lago que teimavam em tilintar ao vento.

Nenhum dos irmãos Barões teve filhos e foram os sobrinhos a herdar a Quinta. E estes, prosseguindo o espírito mecenático dos tios, mandaram proceder a alterações de monta no interior, trazendo os melhores artistas do reino para que, entre 1887-1892, executassem um programa decorativo. Os trabalhos foram coordenados pelo decorador Francisco Vilaça e este é o único lugar onde sob um mesmo tecto podemos observar obras dos três irmãos Bordalo Pinheiro (Columbano, Rafael e Maria Augusta). Admiramos os tectos das várias salas, mas também o chão.

No Salão Dourado, então a divisão mais nobre e hoje transformado em sala de leitura, Columbano pintou “O Carnaval de Veneza” no tecto – é uma tela e não pintura directa e aqui vê-se representada a sua irmã.

Na sala seguinte, a Sala da Música, hoje também sala de leitura, foi Vilaça quem executou a obra “A Pintura e a Escultura”, com estuques nas paredes e pinturas do tecto com motivos alusivos à música.

No vestíbulo à entrada para a Sala de Jantar podemos admirar o painel cerâmico da autoria de Rafael, executado na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, o qual integra um lavatório.

E na Sala de Jantar, hoje sala de conferências e exposições, é onde podemos encontrar a obra conjunta dos três irmãos. Sobressai o candeeiro em cerâmica, obra de Rafael, bem como motivos vegetalistas no tecto – os de cerâmica obra do mesmo Rafael, as pinturas obra de Maria Augusta. A cargo de Columbano ficaram as telas da parede, entretanto dispersas por leilão.

De realçar ainda o facto de todas as divisões do palacete possuírem ligação para o exterior e jardins, uma criação da Viscondessa e mais uma manifestação do gosto inglês.

Até à década de 1970 a quinta mantinha a sua dimensão original, estendendo-se quase até ao Alto dos Moinhos. A urbanização levou esta zona de pomar, vinha e horta, restando hoje o antigo palacete e seu jardim. É este jardim que nos dá a primeira (grande) impressão do lugar, com árvores frondosas, caminhos sob as suas copas, um lago, duas deliciosas coberturas em ferro a lembrar um coreto e elementos decorativos como uma fonte em pedra. Em resumo, um espaço belo e intimista que uma passagem pela Estrada de Benfica não deixa perceber de imediato.

O Palácio do Beau-Séjour é hoje propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, funcionando aqui o Gabinete de Estudos Olisiponenses. Como serviço público que é, no horário de expediente podemos visitar não apenas os jardins e fachada do edifício como também algumas das suas salas interiores.

Cais do Ginjal, varanda de Lisboa

É inevitável. Um passeio pelo Cais do Ginjal, em Almada, leva-nos a não tirar os olhos da vizinha Lisboa no outro lado do rio.

É sobretudo de vistas de que se trata esta viagem. Mas também de história de um pedaço de terra que até há pouco tempo foi um ponto estratégico em termos industriais e comerciais. A sua decadência e ruína são hoje evidentes e custa a crer que algo com esta localização tão fabulosa possa estar tão marginalizado.

Mas vamos à história. Espremida entre a falésia e o rio Tejo, com o Cristo-Rei à espreita, o Cais do Ginjal é uma língua de terreno que tem nas suas costas uma arriba que sobe alto e com pressa.

Sabe-se que a ocupação humana de Almada vem desde a Pré-Historia e é provável que estas terras junto ao rio também tenham sido pisadas pelo Homem desde essa época. Este porto habituou-se desde há muito a ser lugar de pesca e de embarcação de diversos produtos para além do peixe, como frutas, vinha e até ouro. A capital do reino estava mesmo diante si e o transporte fluvial era então rei.

Os tempos áureos do Cais do Ginjal aconteceram sobretudo no século XIX. Em 1845 a família de comerciantes de João Teotónio Pereira instalou-se ali e dinamizou toda a zona, criando uma indústria ligada ao abastecimento da frota pesqueira e à tanoaria e ao armazenamento de vinho, azeite e vinagre. Para além disso, construiu uma quinta de veraneio junto aos vários edifícios de armazéns ribeirinhos.

O que contribuiu decisivamente para o declínio de todas estas indústrias que empregavam uma série de trabalhadores que davam vida e alegria a esta nesga de território foi a inauguração, em 1966, da Ponte Oliveira Salazar. A ponte sobre o Tejo, hoje Ponte 25 de Abril, veio acabar definitivamente com a era em que muito do transporte de mercadorias ainda era efectuado por via fluvial. Hoje, em sua substituição, assiste-se antes à passagem dos Cacilheiros e dos veleiros e até dos grandes navios de cruzeiro. As águas do Tejo foram substituídas pelo asfalto da ponte para o transporte das mercadorias das várias indústrias que laboravam no Cais do Ginjal.

Sobram os seus edifícios decadentes, acostados na arriba também ela aos caídos. As fachadas da maior parte dos antigos armazéns foram tomadas pelos grafittis e as suas portas e janelas esventradas deixam ver a confusão de entulho lá dentro. Os avisos de “perigo de derrocada” sucedem-se, mas os caminhantes seguem no seu passo de lazer, a maior parte das vezes, já se disse inevitável, entretidos com a vista para Lisboa.

Esta pode não ser já uma localização estratégica em termos comerciais, mas continua belíssima e muito disputada. As terras do Cais do Ginjal são propriedade privada e discute-se há anos a apresentação e posterior discussão e aprovação por parte da autarquia de um plano para esta zona que prevê a sua reconversão com a construção de casas de habitação, indústrias criativas, espaços culturais, lojas, praças e passeios. E, tão importante quanto isto, um plano que garanta a estabilização da arriba.

A melhor forma de chegar ao Cais do Ginjal continua a ser por via fluvial. Aportamos no Cacilheiro laranja, símbolo do Tejo partilhado entre Lisboa e Almada, e contornamos a pitoresca Cacilhas pela sua frente ribeirinha. Os pescadores estão por todo o lado, e não sei se a vista para Lisboa os chega a distrair das mordidelas no anzol por parte das suas presas.

Vemos ao fundo o Panteão, com o já habitual barco de cruzeiro estacionado à sua porta, depois a Praça do Comércio, as torres das Amoreiras, o porto de Alcântara, a Ponte 25 de Abril e a Torre de Belém debaixo das suas asas. Esta é uma vista soberba e não cansa olhar para Lisboa, exposta por inteiro e recostada só para nós.

Os pontões enferrujados e que parecem mal se suster são pontos de vista ainda mais privilegiados suspensos no rio. Algumas praias de areia com um ar não menos desmazelado não convidam ao repouso. E a imagem graffitada do ciganito Quaresma disputa as paredes com a imagem de uns pescadores de outros tempos e com o ET. Até com Jesus Cristo. Ao Cais do Ginjal não falta uma pitada de cultura popular deste século.

Não arrisco entrar nos edifícios, levando muito a sério os avisos de perigo de derrocada. Da porta escancarada de um deles vê-se um carro em ruína, como as paredes e o tecto que (não) o abrigam.

Mas, pensando bem, talvez não estejamos todos os que aqui passamos a levar muito a sério estes avisos de perigo de derrocada, pois o passeio é tão estreito que esta caminhada não parece totalmente segura. Mas seguimos adiante.

E chegamos a uma das partes mais bonitas do Cais do Ginjal, onde ficam umas praias mais convidativas, a vista livre e total para a Ponte 25 de Abril e umas antigas casas de pasto hoje transformadas nos super concorridos restaurantes Ponto Final e Atira-te ao Rio. É difícil imaginar uma refeição mais idílica e cénica com Lisboa como panorama.

Destes restaurantes umas escadinhas sobem até Almada Velha. Mas continuando um pouco mais podemos fazê-lo igualmente através de uma viagem no Elevador da Boca do Vento. O seu jardim está muito bem cuidado e aqui, sim, temos um convite irresistível para nos deixarmos estar, sentados na relva a contemplar o Tejo e Lisboa.

Não subimos, ainda, até Almada. Em bom rigor, o solo que agora pisamos já não é mais o do Cais do Ginjal. Continuando um pouco mais junto ao rio estamos agora na Fonte da Pipa e no Olho de Boi, onde encontramos o Museu da Indústria Naval. Foi no sítio do Olho de Boi que no século XIX se instalou a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, edifício este ocupado no século seguinte pela Companhia Portuguesa de Pescas. Hoje, os seus escritórios estão, à semelhança de quase tudo por aqui, abandonados. No seu cais restam os muitos pescadores ocasionais.

Mais à frente, logo a seguir a mais uma praia, há de vir o lugar da Arealva com a sua quinta apalaçada que em tempos serviu de armazenamento de vinhos. A Ponte 25 de Abril está cada vez mais perto, mas o caminho até lá torna-se mais e mais perigoso pela possibilidade de derrocadas quer das arribas quer dos edifícios, pelo que optei por não seguir adiante.

Meia volta volver e subindo pela estrada do Olho de Boi havemos de ganhar novas vistas fantásticas no caminho. A melhor destas vistas aguarda-nos no miradouro da Boca do Vento donde se aprecia toda esta faixa ribeirinha. Os telhados destelhados e outros edifícios com a cobertura já perdida confundem-se e deixam-se perder no verde da vegetação que cobre a arriba. Daqui, o Tejo ganha outro encanto e torna-se ainda maior.

Para rematar em mais beleza a jornada, de Almada Velha levamos ainda a vista da Casa da Cerca, o Centro de Arte Contemporânea de Almada. O seu jardim é belíssimo, um daqueles lugares ao qual se faz questão de voltar sempre e que não se esquece.

A vista brutal que daqui se alcança, essa, ainda menos se esquece. E, mesmo ao longe, aqui confirmamos o dito: “quem não viu Lisboa, não viu coisa boa”.

Aldeia da Mata Pequena

Da aldeia de Anços são cerca de 2 kms de carro numa estrada de terra batida (mas acessível) até à Aldeia da Mata Pequena. Atravessamos o estreito Rio Lizandro e passamo-lo a ter ao nosso lado esquerdo. Subimos um pouco e eis que temos mesmo à nossa frente uma espécie de aldeia-museu no alto de um monte verdejante.

A Aldeia da Mata Pequena é na verdade um empreendimento turístico. Alguém se propôs recuperar as edificações de um lado e do outro da pequena – e única – rua desta povoação e colocá-las à disposição de qualquer um de nós para aqui podermos passar um dia ou dias de ruralidade às portas de Lisboa.

Pode parecer algo artificial, esta ideia de alojamento turístico e não casas ocupadas pelos seus habitantes tradicionais, mas as casinhas estão todas bonitas no seu exterior, sendo fácil deixarmo-nos encantar pelas suas cores, elementos decorativos e pátios. O resultado é que a arquitectura tradicional da região saloia tem aqui um exemplo que dá gosto visitar.

A dita rua é empedrada e as suas casas caiadas com frisos ora azuis, ora amarelos, ora vermelhos. Os telhados com telhas de cor ocre protegem do céu azulíssimo e do verde dos terrenos que circundam a aldeia. Janelinhas e vasos com flores nas fachadas, uma mó, um cântaro e um regador aqui e ali, esculturas em porcelana, muitos são os apontamentos da vida rural. Não faltam burros, galinhas, coelhos e até o porco Guedes fez questão de espreitar para dar as boas-vindas.

Aqui perto da Aldeia da Mata Pequena fica o Penedo do Lexim, zona arqueológica num antigo vulcão agora extinto. E a poucos quilómetros mandou D. João V erguer o Palácio Nacional de Mafra, então bem longe de Lisboa. Hoje tudo é mais perto, mas o ambiente, esse, continua a todo um mundo de distância.

Cascata de Anços

Às portas de Lisboa existe uma sucessão de quedas de água tão incrível que custa a acreditar que não esteja toda a gente a falar dela. Parece que já foi até cenário de telenovela, mas continua e continuará escondida pela vegetação e a depender do passa palavra para ser visitada.

No vale da ribeira do Mourão, a Cascata de Anços passa totalmente despercebida a quem segue pela estrada vindo de Montelavar ou de Negrais. Há que cortar para a rua da Laranjeira, e é por isso que esta também gosta de ser conhecida como a Cascata da Laranjeira. Mais, exige ser conhecida por esse nome, assim mo afirmou o guarda-cascatas local. Por sorte o Tóino dos Bigodes serviu-me de guia para adentrar pela natureza deste pedaço precioso de propriedade particular que até há pouco tempo tinha o acesso totalmente vedado aos forasteiros. Hoje podemos percorrer o trilho pouco pisado mas fácil de identificar. Algumas ruínas de edifícios esquecidos pelo tempo, incluindo mós dos moinhos, são testemunhos da presença do Homem por aqui. Mas é a natureza a grande dominadora do lugar.

Encaixada no dito vale corre, então, a Ribeira do Mourão, afluente do Rio Lizandro. É um fio de água, mas o suficiente para no seu ponto mais exaltante cair de um desnível da rocha de uma altura considerável. Diz o Bigodes que se pode ir até lá cima e aí ficar em sossego em total isolamento. Não sou de escaladas e muitas aventuras e, para além disso, a vista desta cascata desde cá de baixo e a beleza da piscina natural que se forma ao seu redor são suficientes para encher as medidas e recordar este lugar e desejar voltar.

Um tronco no meio do caminho que o guarda-cascatas tornou transitável permite-nos atravessar a ribeira para o outro lado. Continuamos envolvidos pelo bosque e acompanhamos o percurso da ribeira sempre com o seu som como música de fundo. A água é fria, claro, bem guardada pela vegetação. Algures por aqui fica, desculpe o segredo, o frigorífico do Bigodes, um buraquinho na rocha perfeito para acondicionar uma garrafinha de tintol para se usar a qualquer altura do dia enquanto se relaxa neste recanto.

Os desníveis do vale vão-se sucedendo, formando novas quedas de água, umas mais acessíveis do que outras. Quem for aventureiro tem-nas todas para si.

Para além da surpresa das várias cascatas, este vale em Anços é especial também pela enorme e formosa parede rochosa do penedo que o ladeia. Diz o Bigodes que esta é terra de ouro e titânio. Pode até ser, mas hoje a busca deste lugar faz-se por outros motivos mais simples mas também valiosos: o de ali se passar um bom momento, em plena tranquilidade e comunhão com a natureza.

Percurso Ribeirinho de Loures, primeiros metros

Loures possui uma pequena língua de rio na união de freguesias de Santa Iria, São João da Talha e Bobadela. Enquanto não sai do papel o tão ansiado projecto de usufruto pelos cidadãos de grande parte desta frente ribeirinha do concelho de Loures, podemos ir contentando-nos com uma pequeníssima amostra do que virá.

Partindo de uma ponte junto à estação ferroviária de Santa Iria, uns 700 metros de caminho transportam-nos até a um pontão que nos deixa à beira do Tejo. Antes utilizado quase em exclusivo por pescadores, este é agora o primeiro trecho oficial do Percurso Ribeirinho de Loures, o qual se espera venha a ligar esta zona à foz do Trancão num caminho elevado sobre passadiços de forma a preservar o ecossistema local.

Uma zona húmida vizinha da Reserva Natural Estuário do Tejo, aqui encontramos sapais, caniçais e esteiros, para além de ser um posto privilegiado de observação de aves e de pesca.

Para além da paisagem, claro.