As 10 Praças e Largos mais Bonitos de Lisboa

Eleger as praças e largos mais bonitos de Lisboa não é tarefa fácil, tal a profusão de beldades neste quesito. A ideia é fugir ao mais óbvio e conhecido, e se aqui não encontramos o Terreiro do Paço (Praça do Comércio), o Rossio, a Praça do Município e a Praça Luís de Camões não é por esquecimento, é antes por estas estarem já na Liga dos Campeões deste reconhecimento.

Praça das Flores – Entre o Príncipe Real e São Bento, esta é uma das zonas mais agradáveis e carismáticas da cidade, onde a faceta residencial surge aliada à faceta mais boémia. Um pedaço de tranquilidade sob o arvoredo durante o dia, pela noite são muitas as opções de qualidade para jantar ao longo da praça.

Largo São Carlos – No final do século XVIII construiu-se aqui o neoclássico Teatro São Carlos e quase cem anos depois aqui haveria de nascer e viver, no número 4 que lhe está mesmo em frente, Fernando Pessoa, poeta maior da cidade e da língua portuguesa. Espaço cultural de excelência, em dias de récitas é ver (ainda) os visons a saírem à rua, no mesmo espaço onde já é também tradição celebrar-se o mais popular Festival ao Largo.

Largo do Carmo – Situado num dos cantos do Chiado, este é um dos lugares mais históricos da cidade. Entre vários edifícios que foram palacetes, aqui fica o antigo Convento do Carmo (uma ruína cheia de atmosfera com o seu portal gótico intacto) – com o exuberante oitocentista tardo-barroco Chafariz do Carmo diante si – e o Quartel do Carmo. Ambos testemunhos de dois dos episódios que marcaram e marcam o urbanismo e a liberdade da cidade e do país, o Terramoto de 1755 e a Revolução dos Cravos de 1974.

Praça de São Paulo – Numa das mais animadas zonas de Lisboa, perto do Cais do Sodré, fica esta praça encimada pela igreja que lhe dá nome. A Igreja de São Paulo já não é a original do século XIV, destruída pelo Terramoto, antes outra construída na sequência desta tragédia. Na placa central da Praça com calçada típica portuguesa encontramos um chafariz-obelisco e quiosques em ferro forjado, tudo elementos que conferem uma beleza harmoniosa ao conjunto.

Largo Dr. José de Figueiredo – Com o nome do primeiro director do Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes, este largo monumental é um dos mais cénicos de Lisboa. O Chafariz barroco com bicas com carrancas e uma escultura de Vénus a encimá-la e uma escadaria de ambos os lados dão o enquadramento perfeito para os edifícios todos diferentes mas cheios de coerência que ladeiam esta praça em forma de U.

Praça do edifício Sede da Edp – Junto à Avenida 24 de Julho, o novo edifício dos arquitectos Aires Mateus deu à cidade uma das suas mais recentes praças e talvez a mais não convencional. Para além dos blocos de escritórios da empresa eléctrica, o propósito foi também o de criar um espaço público que pudesse ser usufruído por todos e não apenas pelos funcionários que ali trabalham. Esta praça é uma pequena obra de arte, com uma cobertura futurista que joga magistralmente com a luz natural e que nos dá ao mesmo tempo uma sensação de recolhimento e de passagem.

Largo da Achada – Situado na Mouraria, o seu nome derivará do facto de este ser um lugar relativamente plano, ideal para recolhimento na encosta, provindo “Achada” de “terra chã”. Num dos cantos do Largo fica a Casa da Achada, Centro Mário Dionisio, que no Verão se encarrega de aqui passar cinema ao ar livre, e no outro uma fachada de arte urbana pintada por Andrea Tarli, ironicamente retratando uma velha moradora e um turista intrusivo. São dois apontamentos modernos em lugar muito antigo, onde se destaca um edifício com porta e janela ogival, diz-se que um sobrevivente do Terramoto.

Beco do Jasmim – Ziguezagueando pelas labirínticas ruas do bairro da Mouraria, esta praça com declive acentuado bem aproveitado por umas escadarias é rodeada de edifícios mas tem uma árvore no meio. Pode levar “beco” no nome mas é um espaço relativamente amplo para os padrões do bairro e aqui o privado e o público confundem-se, fazendo deste um lugar óptimo para se estar. Escusado será dizer que, à semelhança do Largo da Achada, é um dos lugares mais procurados por altura dos Santos Populares.

Praça da Viscondessa dos Olivais – Nos Olivais Velho, outrora arrabalde de Lisboa onde no século XVII a nobreza da capital começou a construir as suas quintas de recreio, esta praça ainda dá ares de tempos que já lá vão. Tanto, mas tanto, que foi possível ver um senhor sentado num dos bancos da praça com um rechonchudo porco quando lá passei para tirar esta foto. À volta da praça com o seu coreto, cruzeiro e chafariz encontramos diversos edifícios que compunham o conjunto urbano então conhecido como Rossio (e a Igreja Matriz de Santa Maria dos Olivais nas suas traseiras). Um deles é a Casa Viscondessa dos Olivais, mais tarde transformada em asilo para crianças pobres e hoje um jardim de infância.

Praça Afrânio Peixoto – Esta deve ser a praça mais desconhecida desta lista. Situada no Areeiro, é uma praça-jardim junto à linha do comboio, mas acaba por ser um lugar escondido. Os prédios à sua volta estão dispostos em forma de U invertido e todos têm vista para um lago protegido por árvores. Por um deles ser a casa da tia, conheço o lugar desde pequena e se em tempos idos era mal frequentado e perigoso depois do entardecer, hoje é um luxo podermos sentar numa das cadeiras que acompanham as mesas e aí fazer um piquenique à beira da água.

Lisboa em Pinturas

Lisboa é linda. Sempre o foi.

Muitos pintores a retrataram ao longo dos séculos, mas aqui fica uma viagem pela cidade e seus motivos durante o século XX, com dois bónus fora desse tempo.

Alfredo Keil, Vista de Lisboa desde o Ginjal, finais do século XIX
Francis Smith Lisboa, Alfama, 1920
Sarah Afonso, Varina, 1924
Mário Eloy, Bailarico no Bairro, 1936
João Hogan, Casario de Lisboa, 1952
Abel Manta, Praça de Camões, 1954
Nikias Skapinakis, Pátios de Lisboa, 1956
Mário Cesariny, Vista sobre Lisboa, 1958
Carlos Botelho, Colinas de Lisboa, 1969
Maria Helena Vieira da Silva, A Poesia está na Rua, 1974
Maluda, Lisboa, 1988
Rui Carruço, Bairro Alto, 2018

Jardim Amália Rodrigues

Acima do miradouro do Alto do Parque, desde 1996 temos mais um jardim na cidade, o Jardim do Alto do Parque, renomeado Jardim Amália Rodrigues após a morte da fadista.

Criação do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles, a ideia é que este jardim seja parte da ligação entre o Parque Eduardo VII e Monsanto, o célebre Corredor Verde de Lisboa. Tudo aqui é tão bem pensado e melhor executado, de uma delicadeza tal (como a que, aliás, se observa no seu vizinho Jardim Gulbenkian, igualmente projecto de Ribeiro Teles), que custa a crer que tenhamos passado tanto tempo sem ele.

À entrada do enorme anfiteatro aberto ao vale do Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, recebe-nos “Maternidade”, a escultura de Fernado Botero. A maior bandeira de Portugal por vezes também está por aqui hasteada, mas devo confessar que não fez grande falta que esvoaçasse ao vento interrompendo a vista desafogada.

Para lá desta encosta chegamos a um lago circular com a esplanada Linha de Água numa das suas margens. Enquanto uns, bem postos, se limitam a um café ou um gelado numa das cadeiras, os mais atrevidos não resistem a uma banhoca nos dias mais quentes. Ao redor do lago temos uma ampla zona relvada, quer totalmente exposta ao sol quer com zonas de sombra. Os mais conhecedores perceberão a diversidade das espécies arbóreas.

Mais acima, no ponto mais alto do Jardim, no designado miradouro, encontramos a escultura “O Segredo”, de Lagoa Henriques, duas meninas segredando ao ouvido uma da outra enquanto o mega edifício do Corte Inglês as observa. Do lado contrário, o restaurante Eleven, com estrela Michelin. E nas traseiras, o longo edifício do Palácio da Justiça, por onde segue o Corredor Verde de Lisboa. Tudo elementos de uma modernidade que continua o seu rumo nesta zona da cidade maioritariamente de bom gosto (riscar o que não interessa, por exemplo, caixote do Corte Inglês).

Parque Eduardo VII

Nós, lisboetas, habituamo-nos desde sempre a passar pelo Parque Eduardo VII, seja abaixo, girando pela rotunda do Marquês de Pombal, seja ao alto, rindo do “pirilau”, ou num sobe e desce constante por altura da Feira do Livro. Até não nos cansamos de parar frequentemente no Alto do Parque para assistir, vez após vez, à mais poderosa vista de Lisboa debruçada sobre o Tejo. Mas quantos de nós lá vamos somente para passear, fixando demoradamente o olhar na fachada do Pavilhão Carlos Lopes, de um lado, ou admirando a deliciosa entrada da Estufa Fria, do outro?

Inicialmente nomeado Parque da Liberdade, aquele que viria a ser o parque central de Lisboa começou a ser pensado em 1882, depois do fim do Passeio Público em consequência da abertura do boulevard da Avenida da Liberdade. A ideia era prolongar o espaço público, dando uma monumentalidade ainda maior à estátua do Marquês no cimo da Avenida e projectando urbanísticamente uma nova e grande Lisboa. Mas a apresentação e discussão de ideias e projectos prolongou-se por décadas, em 1903 o Parque adoptou o nome por que hoje é conhecido – Parque Eduardo VII de Inglaterra, em homenagem ao rei que havia visitado a cidade no ano anterior – e apenas nos anos 40 se deu, enfim, sequência ao projecto do arquitecto Francisco Keil do Amaral.

O terreno desnivelado foi aproveitado e daqui surgiu a longa alameda central relvada acompanhada por duas alamedas laterais em calçada portuguesa. Nestas alas há espaços para se estar em bancos de jardim, protegidos pelas árvores, e é nelas que se realiza há quase 40 anos a Feira do Livro de Lisboa. E para lá destas alas temos, a oeste, a Estufa Fria e o Lago Grande, bem como um parque infantil e um club, e, a este, o Pavilhão Carlos Lopes e mais um lago com um restaurante. Em ambos os flancos, muito arvoredo e zonas de estar, fazendo do Parque não apenas um lugar monumental, mas também um verdadeiro espaço verde de recreio.

No topo do Parque temos o miradouro que nos dá a tal vista poderosa que mostra toda a Baixa de Lisboa, o rio Tejo e a margem sul. Apesar da vista ser uma daquelas que tudo distrai, não há forma de não perceber as enormes colunatas imperiais que se estendem rumo ao céu, símbolo característico do Parque. Foi entre estas colunatas do Estado Novo que, em 1997, foi inaugurado o monumento ao 25 de Abril, obra de João Cutileiro que muita polémica criou pela forma fálica da sua escultura, carinhosamente apodada de “pirilau”. A forma desta escultura em mármore é, precisamente, uma homenagem à virilidade da Revolução e à coragem dos capitães de Abril.

Descemos rumo aos jardins da Estufa Fria, sob o cacarejar das galinhas, e a sua recepção é incrível. O Lago Grande é belíssimo, com uma ilha e estatutária vária por onde nadam patos e carpas. A Estufa Fria foi criada na primeira década do século XX, ou seja, antes mesmo da execução do Parque, e aqui se conservam e podem conhecer diversas espécies botânicas, vindas de todo os lados do mundo, incluindo as da estufa quente, para plantas (e aves) tropicais, e as da estufa doce, para plantas carnudas. Aqui se realizam também eventos culturais no pequeno teatro do conjunto. Visitando a Estufa seguimos por trilhos que nos levam por plantas exóticas, riachos, grutas e cascatas, todo um cenário riquíssimo e luxuriante naquele que já foi considerado como um dos lugares mais aprazíveis da cidade. E é o mesmo.

No lado contrário do Parque o elemento que mais se destaca é o do edifício do Pavilhão Carlos Lopes (renomeado após a conquista da primeira medalha de ouro em Jogos Olímpicos por Carlos Lopes, em 1984, na maratona), destinado a eventos desportivos e culturais. Originalmente construído para ser o Pavilhão das Indústrias Portuguesas durante a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922, foi desmontado e transportado de volta para Portugal para ser reconstruído no Parque entre 1929-1931. Toma um gosto revivalista com inspiração no decorativismo barroco joanino e a sua fachada profusamente decorada – estátuas e brasão – é ainda revestida de painéis de azulejos, em azul e branco, da Fábrica de Sacavém, com a representação de canas da história de Portugal.

Subindo o Parque de volta ao miradouro monumental passamos ainda por mais um lago, estátuas e zonas de relva com sombras que são um autêntico convite para um momento de descanso. Quem sabe se não para uma leitura de uma das obras adquiridas numa das muitas Feiras do Livro que se celebram ali mesmo ao pé.

Duna da Cresmina, Guincho

A Duna da Cresmina é parte do sistema dunar Guincho-Oitavos, em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. Um passadiço circular com menos de 2 kms, meia-hora a andar sobre madeira a espaços invadida pela areia, sai desde o Núcleo de Interpretação da Duna da Cresmina, no alto da Praia do Guincho. Já sabemos que o Guincho é uma bela praia de areia branca que tinha tudo para ser o lugar indicado para estender a toalha na areia e nos deixarmos ficar por ali a apanhar sol. Mas daí vem o vento, e ele vem grande parte do tempo, e a praia transforma-se no lugar ideal para o windsurf, uma caminhada na areia, uma refeição num dos seus restaurantes ou… um passeio ao longo da duna, sem sair do trilho previamente definido para o efeito.

O que este sistema dunar tem de curioso é precisamente a condição climatérica adversa de vento forte carregado de sal. As areias das praias da Cresmina e do Guincho são por ele empurradas e retornam ao mar mais a sul, entre os Oitavos e a Guia, depois de migrarem sobre a plataforma rochosa aplanada do Cabo Raso.

Este é um sistema dinâmico, acreditando-se que a Duna da Cresmina esteja a avançar cerca de 10 metros por ano. Ou seja, embora a duna desempenhe um papel muito importante na protecção do terreno em caso de subida do nível do mar, ao mesmo tempo teme-se que a longo prazo este avanço possa vir a representar a perda de solos aráveis, infraestruturas e habitações.

Ao longo do trilho podemos observar o habitat diverso que nos rodeia, quer na sua flora quer fauna. As areias permitem alguma vegetação, embora rasteira, como o feno e o estorno da areia e pinheiro bravo. Surpreende que algumas flores consigam romper a areia. E vemos borboletas, melros e, sobretudo, lagartixas.

Mas a grande atracção são as dunas e as formas que são capazes de tomar. Num lugar de paisagem superior, Serra de Sintra nas costas e Oceano Atlântico por diante, é um agradável passatempo tentar observá-los num enquadramento especial dado pelas dunas.

Jardim Botânico da Ajuda

O Jardim Botânico da Ajuda está instalado numa encosta ao lado do Palácio Nacional da Ajuda, o palácio nunca concluído que agora, mais de dois séculos depois, parece que vai deixar de o ser. Embora não tão conhecido e visível, o Jardim Botânico da Ajuda é anterior à construção do Palácio. Na verdade, este é o mais antigo jardim de Lisboa, inaugurado em 1768.

O Alto da Ajuda era já nessa época uma zona de presença da realeza, a qual na sequência da destruição do medonho Terramoto de Lisboa de 1755 para aqui fugiu e construiu a sua Real Barraca neste ponto alto da cidade. E foi precisamente aqui, afastado do centro da cidade, então como agora, que o Marquês de Pombal mandou construir este Jardim Botânico numa encosta da Serra de Monsanto, com solos férteis e abundância de água.

Projectado pelo botânico italiano Domingos Vandelli, escolhido pelo Rei D. José para o ensino dos seus filhos, os lisboetas passaram a poder admirar espécies vegetais até então suas desconhecidas. A colecção dessas espécies que aqui eram mantidas para pesquisa e estudo chegou a acolher cerca de 5000, vindas de todo o lado do mundo, formando um conjunto de grande valor documental e científico. Hoje o espaço já não pertence à Casa Real – a administração está atribuída à Faculdade de Agronomia – e as espécies já não serão tantas – cerca de 1500 -, mas a integridade e beleza do lugar mantém-se.

São cerca de 3,5 ha distribuídos de forma rectangular por dois tabuleiros, o superior dedicado à colecção botânica e o inferior ao jardim de recreio e ornamental de buxo.

À entrada, imediatamente antes do chalet transformado em recepção, dois lagos barrocos, um de cada lado, dão-nos as boas-vindas.

A influência barroca há-de continuar e em dois passos torna-se monumental. O jardim de recreio, igualmente com toque renascentista, preenchido com caminhos moldados pelas formas do buxo, plantado sobre o Tejo é de uma enorme beleza, fazendo desta uma vista privilegiada em Lisboa.

A fonte central e a escadaria são elementos decorativos inesquecíveis. A Fonte das 40 Bicas, ou Fonte das Serpentes, não tem apenas serpentes a adorná-la. Estão também lá presentes rãs, patos, cavalos-marinhos, figuras mitológicas e plantas aquáticas, formando uma deliciosa exuberância directamente defronte da escadaria com estátua do infante D. José.

Este jardim possui diversas árvores e também delicioso, mas talvez não tão saboroso, é encontrar uma bananeira com um cacho de bananas verdinhas.

Prosseguimos pelo jardim de buxo em todo o seu comprimento e subimos para o tabuleiro superior. A Estufa Real, restaurante e lugar para eventos, fica num dos cantos. É por aqui que encontramos um enorme dragoeiro que se estima que tenha mais de 400 anos, ou seja, anterior ao Jardim Botânico. Tão velhinho que se mantém erguido, mas sempre belo, com ajuda.

Neste patamar superior mesmo de frente para o rio Tejo as vistas são ainda mais fabulosas.

Vistas essas apenas agradavelmente perturbadas pela descoberta de dois pavões, um azul e outro branco. Sempre exuberantes e majestosos, o seu colorido entre os azuis e verdes é um deleite, mas que dizer da fixação que também estes indivíduos inteiramente brancos produzem em nós? Símbolos de pureza e eternidade, ao contrário do que acreditam alguns, os pavões brancos não são albinos, antes o resultado de uma variação genética. E este duo da foto não será um macho e uma fêmea a contemplar pacatamente o Tejo em cima de um ramo de uma árvore, mas antes dois amigos machos – a ver pelo comprimento de cada cauda, aquela que pela sua dimensão se torna mais vistosa e atractiva no momento de chamar a fêmea para o acasalamento.

Muitos mais pavões se passeiam nesta zona diversa com jacarandás, árvores pé de elefante, canteiros com a colecção botânica de espécies de várias regiões do globo divididos por áreas geográficas, estufas e lagos.

No Jardim Botânico da Ajuda há mais para além de ver. Há que estar tranquilamente no meio da beleza. E há que sentir o Jardim de Aromas, tocando e cheirando as suas plantas aromáticas e medicinais, especialmente criado para os invisuais. Para que a visita ao mais antigo jardim de Lisboa possa ser plena em todos os sentidos.

Jardim Gulbenkian

O Jardim Gulbenkian é uma obra-prima do paisagismo moderno. Não é segredo para nenhum lisboeta, mas os seus cantos e recantos continuam a surpreender pela diversidade de ambientes que permitem vivenciar.

As suas origens remontam ao século XVIII, à quinta conhecida como Quinta do Provedor dos Armazéns, propriedade de Fernando Larre, no lugar de Palhavã, então uma das portas da cidade de Lisboa. Era uma quinta de recreio típica da época, com edifício senhorial, jardim, pomar, horta, vinhas e campos de cereal. Na segunda metade do século XIX, o palácio e a quinta foram adquiridos pelo conselheiro de Estado José Maria Eugénio de Almeida e aí começaram as transformações da quinta, com a criação do Parque de Santa Gertrudes, sob a influência do desenho de jardins da escola francesa, com lago e vegetação autóctone e exótica. Em 1883, com a morte do conselheiro, o parque foi cedido para a instalação do Jardim Zoológico de Lisboa que por aí ficou por uma década. Depois disso, foi lugar de velódromo, hipódromo e feira popular, parte da vida social lisboeta.

Até que chegamos a 1957, ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian decide adquirir parte do Parque de Santa Gertrudes para aí instalar a sua sede, conforme desejo do seu fundador. Os arquitectos Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy d’Athouguia ficaram responsáveis pelo projecto dos edifícios da sede e museu e os arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto pelo projecto de concepção dos jardins, todos trabalhando de forma interdisciplinar para que o resultado fosse o que se vê hoje, o de uma brilhante integração e fruição de todos os elementos do conjunto. Em 1969 as obras ficaram concluídas e a Fundação e respectivo Jardim abriram as suas portas. Desde aí o espaço foi objecto de algumas transformações, umas radicais, como a construção do edifício do Centro de Arte Moderna (1983, arquitecto John Leslie Martin), outras de continuidade, como a remodelação do jardim (2003, arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles). O melhor que se pode dizer é que a Gulbenkian pode ir mudando, mas não perde o seu carácter, o que, acredita-se, possa continuar a acontecer com a ampliação do jardim – e edifício da colecção moderna – prevista para 2021, sob projecto do arquiteto Kengo Kuma e do paisagista Vladimir Djurovic, vencedores do concurso internacional para a remodelação dos jardins da Gulbenkian.

“Gostaria que se tornasse um grande amigo da natureza porque a criação de uma relação íntima com a natureza é motivo de profunda satisfação na vida”, Calouste Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu, por vontade do seu fundador, ter a sede em Lisboa e todos nós só o podemos agradecer ao magnata do petróleo. Com fins caritativos, artísticos, educacionais e científicos é, igualmente, senhora deste espaço que temos vindo a apresentar historicamente e que hoje é não apenas central geograficamente na cidade como também na vivência dos seus habitantes. Para aqui vimos admirar arte, escutar música, pesquisar documentos e participar em actividades educativas várias. Em todas estas viagens não prescindimos, nem por uma única vez, de um passeio pelo seu Jardim.

Jardim modernista, os elementos vegetais jogam de forma magistral ao redor dos edifícios e, mesmo sem lhes virar as costas, é possível sermos tomados apenas pela natureza.

O espaço de jardim não é um mero complemento, antes um companheiro inseparável, sendo prova maior disso a forma soberba como quando dentro do museu nos distraímos das obras de arte para admirar o jardim que é delas uma extensão. Já tínhamos avisado, o Jardim Gulbenkian é ele próprio uma obra-prima.

São caminhos, uns em clareira e outros em túnel, que se vão cruzando, criando espaços intimistas e micropaisagens, reproduzindo os momentos de descoberta e de felicidade. O contraste da luz e da sombra é perfeito, com muitos lugares onde o sol parece pedir licença para filtrar entre as folhas.

O coberto vegetal é variado e vemos até bambus. A água é uma presença constante, com o riacho a correr em grande parte dos caminhos, criando pequenas cascatas em diversos pontos. E a avi-fauna do jardim uma companhia prazerosa, fazendo-se sentir quer pela sua melodia quer pela sua figura. O mobiliário – bancos, caixas de luz ou caixotes de lixo – é todo em betão, mas nem por um momento endurece a paisagem. Sentar-mo-nos num dos bancos cinzentos de desenho simples num dos recantos do jardim, sem quase perceber se faz sol ou chuva, apenas escutando o chilrear de um pássaro ou a água a correr, é uma experiência comum no Jardim da Gulbenkian. Um convite à evasão ou à meditação, não sendo por isso de estranhar ver um praticante de ioga num qualquer ponto do jardim. Porque todo e cada espaço do jardim é ideal para alguma actividade: meditar, ler, namorar, trabalhar, piquenicar, apanhar sol. O extenso relvado junto ao lago e ao edifício sede é o mais concorrido para banhos de sol com toalha estendida e biquini vestido e tudo.

O jardim tem ainda espaço para um belo anfiteatro ao ar-livre e, depois, espalhados de forma precisa ao longo do jardim vamos tendo vários elementos escultóricos contemporâneos, mais um testemunho da ligação entre paisagismo e cultura, as duas marcas da sede da Fundação.

Talvez a mais famosa das esculturas do jardim seja aquela que todos podemos ver quando passamos na Praça de Espanha, Calouste Gulbenkian sentado de forma majestática, da autoria de Leopoldo de Almeida – a imagem foi reproduzida a partir de uma fotografia tirada durante a sua visita ao Egipto, com Gulbenkian junto à estátua do deus Hórus, no templo de Edfu.

A outra escultura, igualmente icónica, é o Monumento a Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação, obra de Pedro Cabrita Reis. Uma construção em betão com três patamares com ligação por escadas. Não há portas nem janelas, a construção prossegue e a Fundação quer-se como o betão: sólida e perene.

O Castelo de Lisboa

Numa colina sobre o Tejo ergue-se o Castelo. Lisboa é cidade antiga. Antes de sermos lisboetas, habituámo-nos a receber a visita dos fenícios, dos romanos, dos visigodos e dos muçulmanos, até que chegou D. Afonso Henriques e os seus amigos cruzados e a Alis Ubba (dos fenícios), a Olissipo (dos romanos), a Ulixbuna (dos visigodos) e a Al-Ushbuna (dos muçulmanos) tornou-se a Lisboa que hoje nomeamos.

As colinas, e em especial esta a que agora dedicamos a nossa atenção, já lá estavam todas no século VII a.C., quando o lugar começou a ser povoado. Foram, no entanto, os romanos quem no século I a.C. primeiro começaram a construir uma cidade estado murada, com uma construção primitiva no topo do que hoje conhecemos como colina do Castelo, muralhas essas que acabariam por ser aproveitadas pelos muçulmanos para, a partir do século X ou XI, erguerem a sua Cerca Moura. Da Cerca Moura, ou Cerca Velha, pouco resta hoje de visível para além do troço junto ao terraço das Portas do Sol (escadaria da Rua Norberto Araújo), donde se avista o que era então o arrabalde de Alfama encosta abaixo até desaguar no Tejo. Eram, então, cerca de 1250 metros de muralha e mais de 20 torres (são visíveis, ainda, troços de muralha dentro de vários edifícios como os da Fundação Ricardo Espírito Santo e da Casa dos Bicos) e, hoje, um circuito pedonal circular entre a Rua Chão da Feira e a Rua Milagres de Santo António, com 16 totens informativos espalhados pelo caminho, permite-nos conhecer este sistema defensivo medieval que perdurou até à construção da Muralha Fernandina, ou Cerca Nova, no século XIV, sete vezes maior do que a anterior.

Se destas muralhas que acabaram por ser aglutinadas pelos espaços urbanos pouco vemos, a muralha da Alcáçova, essa, ainda lá está para recriarmos uma imagem do nosso passado medieval. Da actual Rua Chão da Feira entramos para a parte mais alta da medina de outrora, a qual era protegida, precisamente, pela Alcáçova. Era aqui, no topo da colina, que ficavam os bairros residenciais da elite administrativa, religiosa e militar e o castelo. E para sul desenvolvia-se o núcleo urbano da cidade – a medina -, com comerciantes, artesãos, banhos públicos, mercados e mesquita, tudo isso ainda no interior da cerca urbana. Só depois vinham os arrabaldes.

Em 1147 D. Afonso Henriques e o seu exército de cruzados levaram 17 semanas de cerco a Al-Ushbuna até a tomarem. A construção muçulmana não era fácil de penetrar. Para além de estar localizada no alto de uma escarpa, a cada porta seguiam-se estreitos corredores em cotovelo, o que tornava difícil a entrada mesmo depois da porta derrubada, encurralando o invasor. Aliás, quando entramos pela Rua do Chão da Feira percebemos isso mesmo, uma entrada logo seguida de uma curva apertada.

A partir daqui estende-se o castelo e o bairro do Castelo.

São 4 ruas e 1 beco, mais coisa menos coisa. Ruas sempre estreitas, como já o eram aquelas que rodeiam o bairro e a Alcáçova (é obrigatório iniciar este périplo pelo Castelo por um passeio pela Rua da Costa do Castelo e/ou pela Calçada do Menino de Deus, onde os bairros da Mouraria e de Alfama se confundem com o bairro do Castelo).

E 2 praças separadas por um pano de muralhas e 11 torres.

Na primeira praça, a Esplanada, apesar da estátua de D. Afonso Henriques marcar o momento histórico da conquista da cidade, a história é completamente ultrapassada pelo miradouro em que se transforma o Castelo. A paisagem que daqui se avista é épica, tudo se registando aos nossos pés, 360° graus de ícones lisboetas.

A segunda praça é vivida já no interior do castelo, ultrapassado o fosso e a barbacã. Subimos à muralha, por ela caminhamos, subimos a uma torre, descemos, caminhamos mais um pouco pela muralha, subimos a outra torre, e assim vamos continuando. Por cada torre que passamos acrescentamos mais uma vista fantástica para um ponto cardeal da nossa Lisboa. É o Tejo, é a Baixa, é a Graça, é São Vicente, tudo, tudinho. Como curiosidade, destaque para duas destas torres. Uma, a Torre do Tombo, foi o lugar do inicial arquivo documental do reino. Outra, a Torre de São Lourenço, a única construída num lugar baixo, ao fim de uma longa escada que nos leva quase até à actual Praça do Martim Moniz – era lá abaixo que os antigos habitantes iam buscar água em segurança, com a Torre a servir de garantia de acesso seguro a um poço situado fora do castelo.

O Castelo de São Jorge, nome pelo qual o conhecemos desde o reinado de D. João I, no século XIV, não terá sido usualmente residência de reis. Talvez D. Sebastião tenha usado o lugar como paço, mas terá sido o último a fazê-lo e com a dinastia Filipina o paço real passou definitivamente para o Paço da Ribeira, no Terreiro do Paço, tendo o Castelo a partir daí tido sobretudo uma função militar, de defesa de quem vivia na Alcáçova e suas imediações.

Foi já no decorrer do século XX que se redescobriu o Castelo de São Jorge. Nos anos 1938-40 foi objecto de obras de restauro, à semelhança de muitos castelos país fora, numa recriação nacionalista do Estado Novo (daí que se afirme que o Castelo de São Jorge é uma criação do Estado Novo). A essa época já o Castelo tinha chegado em muito mau estado, ruína mesmo, em consequência dos terramotos de 1530 e de 1755 e do descaso dos Homens que o tinham maltratado com o uso de um conjunto de quartéis. Se foram essas obras de há apenas escassos 80 anos lhe deram a imagem de fortificação com torres e ameias que vemos hoje, foi também desde aí que se tem vindo a perceber os vestígios do antigo paço real e da alcáçova islâmica e as vivências de outrora. Trabalhos arqueológicos que continuam o seu curso permitem-nos traçar 3 épocas de presença humana na colina do castelo: idade do ferro (com vestígios de estruturas habitacionais que remontam ao século VII a.C.), bairro islâmico (século XI – XII, ligado à fundação do castelo e área residencial das elites do governo da cidade) e época cristã (século XV a XVIII, com antigo paço episcopal e palácio dos Condes de Santiago, o último dos palácios da antiga alcáçova medieval que se manteve habitado até ter ruído com o terramoto). Marcas do conjunto destes vestígios podemos encontrá-los no “sítio arqueológico” que testemunham estes três períodos significativos da história de Lisboa. E na exposição permanente instalada no espaço daquele que se acredita ter sido o antigo paço real podemos ainda ver uma colecção de objectos encontrados na área arqueológica, os quais permitem traçar a evolução do povoamento desta colina que permaneceu o centro da cidade de Lisboa até ao século XVI.

No sítio arqueológico vemos a igreja da Alcáçova, a igreja Santa Cruz do Castelo, a qual já existiria quando os muçulmanos chegaram à cidade.

Invenção do Estado Novo ou não, o que é certo é que o Castelo de São Jorge é o monumento mais visitado do país e o miradouro número um da cidade de Lisboa. Assim como já o tinha sido na cidade de Alis Ubba, de Olissipo, de Ulixbuna e de Al-Ushbuna.

Jardim Botânico Tropical

O Jardim Botânico Tropical, também conhecido como Jardim do Ultramar, em Belém, é um dos mais bonitos de Lisboa. Já sei que digo isso de quase todos, mas este é mesmo um verdadeiro amor. E um daqueles amores que é para sempre, uma vez que depois de encerrado para restauro durante praticamente todo o ano de 2019 reabriu em Janeiro de 2020 mais bonito do que nunca, embora ainda com diversos trabalhos de reabilitação em curso e edifícios encerrados.

Paredes meias com o Palácio Nacional de Belém, em conjunto com quem se encontra classificado como Monumento Nacional, ao longo dos seus cerca de 6,7 ha encontramos uma colecção botânica notável, em muitos momentos exuberante e monumental, composta por mais de 600 espécies de origem tropical e subtropical.

Foi D. João V quem, em 1726, comprou as quintas dos Condes da Calheta e dos Condes de Aveiras para aí criar o Regis Hortus Suburbanus. Anos depois, a elas se juntou os jardins do Palácio dos Duques de Aveiro, formando todo o conjunto a Real Quinta e Palácio de Belém, este último hoje residência oficial do Presidente da República Portuguesa. E em 1912 o espaço passou a acolher o Museu e Jardim Colonial, que havia sido criado 6 anos antes pelo rei D. Carlos. Durante o século XX foram-lhe acrescentados diversos edifícios e estatutária que haviam sido construídos para a Exposição do Mundo Português em 1940, uma nova imagem na sua faceta científica de estudo, história e memória da flora das colónias portuguesas. Hoje é propriedade da Universidade de Lisboa, à semelhança dos outros dois jardins botânicos da cidade, o da Ajuda e o do Príncipe Real, e a sua função é não apenas científica mas também didática e de lazer.

Ao iniciar o passeio pelo Jardim Tropical é tentador seguir logo pela majestosa alameda das Washingtonias, rodeada de palmeiras altíssimas, mas resistimos e seguimos antes a direito em direcção ao Jardim Oriental.

O Jardim Oriental, com entrada pela porta de Macau – uma réplica da entrada no Pagode da Barra, em Macau, construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português -, é um exemplo da fusão de influências chinesa e portuguesa na arte dos jardins. Com uma densa vegetação, cobrindo-nos quase na totalidade, e uma forte presença da água, vemos pontes com estrutura de madeira pintada a vermelho, a lembrar o Oriente, mas também com ferro, elemento mais português. O exotismo do edificado neste jardim vê-se ainda no Pavilhão de Jardim Chinês e na Porta da Lua.

O Palácio dos Condes da Calheta fica no final desta alameda que ladeia o Jardim Oriental. Construído no século XVII, como nota histórica diga-se que aqui decorreram alguns dos interrogatórios daquele que ficou conhecido como o Processo dos Távoras, na sequência da tentativa de assassinato (?) do rei D. José. À semelhança da Casa de Chá, da Casa dos Jardineiros e da Estufa Principal, o acesso ao Palácio dos Condes da Calheta encontra-se vedado, decorrendo ainda as obras de restauro nestes edifícios. Podemos, no entanto, apreciar a estrutura em ferro e vidro da Estufa Principal, datada de 1914, com destaque para o seu portão rodeado de vegetação.

Aqui chegados já reparámos em alguns dos bustos africanos espalhados nesta zona do jardim, parte da antiga “Galeria dos Povos do Império”, os quais pretendiam representar a diversidade de etnias presentes na Exposição de 1940, ou seja, este é mais um dos elementos adicionados nessa época. Penso conviver bem com o passado histórico português da Expansão, mas é estranho apreciar estas esculturas.

No Lago das Serpentes encontramos um painel de mesma temática, mas aqui a nossa atenção é desviada para os repuxos de água e os azulejos com cenas de animais, incluindo nos frisos do revestimento do chão. Este Lago fica junto à Casa da Direcção, antiga casa com pátio, alterada para constituir um exemplo de Casa Colonial que integrou a Exposição de 1940. Não a visitei (fechada) e pouco percebi do Pátio do Ourives (igualmente fechado na altura da minha visita).

Mas graças à renovação recente do Jardim Tropical, podemos agora aceder e conhecer o Jardim dos Cactos. Um espaço surpreendente com um ambiente incrível. Não tanto pelas espécies em si, mas antes pelo que a acção descontrolada da natureza é capaz de produzir. As copas das árvores foram crescendo e o número das espécies de cactos e outras suculentas foi reduzindo, apenas tendo sobrevivido as espécies tolerantes à sombra. O resultado é um cenário brutal na verdadeira acepção do termo, com as ruínas dos edifícios das antigas estufas tomadas pelos cactos expansionistas resistentes. Uma espécie de Angkor em ponto pequeno.

Uns passos mais e esta “selvajaria” dá lugar a um recanto delicado, uma estátua clássica de uma dama diante de um pequeno plano de agua. É o Jardim da Ninfa, por cima do qual temos o Tanque dos Leões, o antigo tanque de rega das hortas reais. Nesta zona ficam ainda dois dos mais antigos edifícios do jardim, a Casa do Veado e a Casa de São João, ambas encerrados para requalificação.

Até aqui, tudo perfeito. Não faltam sequer uns pavões fêmea a passear com as suas crias e uns pavões macho com a plumagem colorida e esplendorosa aberta ao nosso deleite. Entre os residentes do jardim encontramos ainda patos, gansos e até galinhas.

Seguimos agora pelo Arboreto do Mundo, diversos caminhos que saem de uma rotunda central cobertos com diversas espécies das quais lamento não reconhecer nem saber o nome, embora a maioria esteja etiquetada. Só guardo, e não é pouco, a imagem da beleza exuberante e altaneira de algumas delas.

O Lago Pequeno e Gruta, com uma pérgula a encimá-los, é um dos elementos românticos introduzidos na segunda metade do século XIX. O que esta última renovação do Jardim Tropical fez foi aperfeiçoar o sistema de circulação de água no jardim. Um canal, espécie de riacho, liga este Lago Pequeno ao Lago Principal, bem mais adiante. É, então, o momento de percorrermos a soberba alameda das Washingtonias, onde até o Mosteiro dos Jerónimos faz questão de aparecer na cena ao fundo. Este é um pedaço de barroco no Jardim. A sua execução foi inspirada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, obra de D. João VI, bisneto de D. João V, o criador deste nosso Jardim Botânico Tropical de Belém.

Muitos caminhos há ainda para percorrer e muito para admirar, estátuas da época de D. João V espalhadas pelo jardim, araucárias, um dragoeiro, raízes intemporais de árvores, mas chegamos, enfim, ao Lago Principal. Os patos nadam ao redor da Ilha das Fruteiras, plantada com árvores de fruto de origem tropical e subtropical, como anoneiras, abacateiros ou pitangueiras, permitindo-nos aqui descansar, literalmente, à sombra da bananeira. Mas o melhor deste lago é o cenário que o envolve, mais um daqueles que irá permanecer na nossa memória e acompanhar-nos durante muito tempo.

As aventuras de Filipe Seems por Lisboa

“Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo. Os homens necessitam de fábulas e não há destino mais nobre do que povoar o mundo com as personagens das fábulas”.

Filipe Seems é uma personagem criada pela dupla Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, argumentista e desenhador. As aventuras deste detective particular surgiram pela primeira vez nas páginas do jornal Se7e, corria o ano de 1992, e resultaram em três livros: “Ana”, de 1993, “A História do Tesouro Perdido”, de 1994, e “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, de 2003 – lançados todos juntos numa caixa ainda com um dvd em 2009.

Antes mesmo de as histórias ganharem forma, Nuno Artur Silva imaginava já a Costa do Castelo como o lugar onde Filipe Seems viveria e aí desfrutaria da luz de Lisboa e da vista do Tejo. A personagem principal mais óbvia é Seems, sim, mas estas aventuras em banda desenhada são uma ode a Lisboa, omnipresente em todas as histórias. Uma Lisboa futura com muitas referências do passado e, sobretudo, literárias. “Sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse…”. Assim é Lisboa nestas histórias, uma cidade imaginária que se baseia em muito do real.

As personagens deambulam pelo Chiado, o Campo Pequeno surge-nos sem muitos acrescentos futuristas, mas as gôndolas percorrem toda uma Baixa inundada desde o Elevador de Santa Justa até ao Terreiro do Paço, ao mesmo tempo que um teleférico sai do Castelo e um eléctrico voa sobre o casario da cidade. E que dizer da neve a cobrir os telhados de Lisboa?

O traço de António Jorge Gonçalves é, como sempre, belíssimo e diverso, com várias experiências diferentes ao longo dos três livros.

Filipe Seems é curioso e inquieto, sempre em busca de algo não conhecido. Na primeira história, “Ana”, na verdade três Anas gêmeas (Ana Lógica, Ana Bela e Ana Hera), diz-nos “primeiro queria saber o porquê da semelhança, depois, procurar na semelhança a diferença”.

Fábulas, mistérios, intriga, labirintos, esquecimento – “era contra o esquecimento que eu escrevia (é sempre contra o esquecimento que se escreve), porque não a queria perder” – e amor, claro.

Logo às primeiras páginas observamos Filipe Seems e não podemos deixar de recordar Corto Maltese, o marinheiro de Hugo Pratt. No segundo livro, “A História do Tesouro Perdido“, o que poderia não passar de uma suposição revela-se expressamente numa inspiração. Seems anda às voltas com o mar, oceanos e navegadores numa aventura que é uma caça ao tesouro onírica e a imagem de Corto Maltese vem reproduzida nos quadrinhos. Esta é uma história de desencontros onde, afinal, o tesouro que se buscava no mar se encontra no deserto. A Lisboa donde se parte é representada através de escadinhas, ruas apertadas e até uma caravela, mas há ali elementos que nos fazem viajar para o passado, com os habitantes de Alfama com vestes muçulmanas, para logo de seguida sermos transportados para o futuro através do tal eléctrico voador.

O terceiro e último volume, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, é o mais estranho e difícil. Os desenhos são amiúde baços e esbatidos e os textos tornam-se intrincados, como um sonho desorientado em que as histórias se entrecruzam. Seems vagueia em busca de Ana, anda perdido, tentando encontrar-se, com perguntas como “o que é o desejo, o que fica depois do desejo?”, em imagens hipnotizantes como a música e dança do flamengo que relata. Mas, na verdade, pelo trilho do sonho vai em busca da sua cidade, aquela que conhece como a palma da mão e à qual regressa como se a ela chegasse pela primeira vez. A nossa Lisboa, real ou imaginada.