O Convento do Carmo, em Lisboa, foi fundado no século 14 por D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável. À época, impressionava pela sua incrível monumentalidade, então só comparável com a da Sé e a do já desaparecido Convento de São Francisco. Ainda hoje impressiona a sua escala, melhor admirada desde a Praça do Rossio ou até do Castelo de São Jorge, de onde se percebe claramente a ruína instalada quase no alto de uma das colinas de Lisboa. Porque a sua igreja é de uma ruína que se trata, legado do Terramoto de 1755 – ficou célebre e intemporal o dito “caiu o Carmo e a Trindade”. A fachada principal, porém, está virada para o Largo do Carmo, outro lugar incontornável da cidade por ter sido palco principal do acontecimento mais importante do século 20 em Portugal, o 25 de Abril de 1974, quando diante do Quartel do Carmo, parte das antigas dependências do Convento, as tropas de Salgueiro Maia levaram à queda de 48 anos de ditadura no país.


Fundado em 1389, do antigo Convento do Carmo resta hoje, pois, a Igreja e o Quartel do Carmo. Um, Museu Arqueológico, o outro, Museu da GNR, logo, espaços visitáveis. Um, uma ruína propositada, o outro, um edifício muito adulterado por diversas obras.

Construído o Convento, foi o mesmo ocupado por frades Carmelitas de Moura e em 1423 doado à Ordem do Carmo, braço espiritual dos Hospitalários. D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, havia sido o protagonista maior da Batalha de Aljubarrota, que garantiu a independência do reino de Portugal durante a crise dinástica de 1383-85, apoiando o Mestre de Avis, futuro rei D. João I. Com a edificação do Convento do Carmo pretendia como que rivalizar com o rei, não surpreendendo, pois, a imponência da arquitectura gótica do novo edifício, o qual se queria afirmar também enquanto centro de poder, de estudo e de espiritualidade. Todavia, a morte da filha do Contestável, em 1414, levou-a à decisão de entrar para o Convento, despojando-se de todos os seus bens e tornando-se monge, adoptando o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Morreu em 1431, numa pequena cela do Carmo, e foi sepultado em campa rasa na Igreja do Convento (desde 1953 jaz na Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, que lhe é dedicada – o Santo Condestável haveria de ser beatificado em 1918 e canonizado em 2009). Depois disso, o Convento do Carmo foi tendo, sucessivamente, a protecção dos reis. O Terramoto de 1531 trouxe uma primeira derrocada, mas logo foi reconstruído. Mas a partir de 1580 surgiria novo desafio, com a perda da independência de Portugal para os Filipes de Espanha, dinastia que não demostrou o mesmo interesse que a anterior para com o Convento do Carmo. Mais, nessa sequência, os primeiros carmelitas partiram para o Brasil para fundar colónias como Olinda, Baía, Rio de Janeiro e Maranhão. A Restauração da Independência, em 1640, trouxe novos e bons ares, com a ampliação do Convento, mas o Terramoto de 1755 acabou por ser decisivo para o seu fim. Então, a 1 de Novembro desse ano, “caiu o Carmo e a Trindade”. Literalmente. O Convento ficou gravemente danificado, destruindo a biblioteca, então constituída por 5000 volumes, e desabando a cobertura da capela-mor, o transepto e parte da nave. Os seus mais de 100 religiosos foram forçados a abandoná-lo. Em 1758, os frades ainda tentaram a reconstrução, imitando a traça gótica original, numa época em que o barroco era já dominante. Conseguiram-no de alguma forma, as obras prolongaram-se no tempo, mas não chegaram a ser finalizadas e a extinção das ordens religiosas, em 1834, ditou o seu abandono, terminando definitivamente com a função religiosa do convento. Como resultado, ficou uma igreja em ruína, um espaço a céu aberto que passou a constituir um poderoso exemplo arquitectónico-cenográfico. Esta imagem assentava bem com o espírito romântico que então se estava a instalar, provocando a ruína um encanto especial. E, assim, temos hoje em Lisboa um dos poucos edifícios de estrutura gótica.




Entretanto, em 1864 as ruínas da Igreja do Carmo foram cedidas à Real Associação dos Arquitetos e Arqueólogos Portugueses – a primeira associação do país preocupada com o património e dedicada à sua salvaguarda – que, com o contributo determinante de Possidónio da Silva, aqui instalou a sua sede e o primeiro museu do país dedicado às artes e à arqueologia. Foi reunindo um espólio vindo de diferentes lugares do país e instituições, constituído por diversos objectos de interesse histórico-artístico e arqueológico, como fragmentos de arquitectura e escultura, monumentos funerários, painéis de azulejo, pedras de armas, escultura, cerâmica e muitos outros. Cada um deles conta uma história, seguindo a matriz da época, de acordo com a qual a preservação do património tinha como fito a de contar a história do país.




E, assim, a ruína da Igreja do Convento do Carmo confunde-se com o Museu Arqueológico do Carmo. Deambulamos pelas três naves da igreja, ladeadas por arquivoltas onde se escondiam as capelas laterais, e sob o que resta do transepto arruinado – um ambiente deveras incrível – e vamos conhecendo e apreciando inúmeras peças que nos ajudam a entender que o património é uma construção e que, ao refazer o tempo, nos dá igualmente uma consciência desse mesmo tempo / história.



Destaque especial para a janela manuelina (vinda do Mosteiro dos Jerónimos), para o acervo originário da escavação do Castro de Vila Nova de S. Pedro (Azambuja) e para o Túmulo de D. Fernando I (enorme e pejado de esculturas e pormenores fantásticos, incluindo seres malignos em baixos relevos).

No Largo do Carmo, ao lado da igreja em ruína está o Quartel do Carmo e Museu da GNR. Em 1801 foi criada a Guarda Real da Polícia de Lisboa e desde o início o Quartel do Carmo esteve ao serviço desta que foi a primeira força de segurança, criada na sequência da crise social que se instalou depois do Terramoto. Foi a primeira guarda profissional uniformizada e armada, percursora da GNR e das forças de segurança nacionais – foi tendo vários nomes ao longo dos tempos, permanecendo Guarda Nacional Republicana desde 1911, e para todo o território nacional. A partir de 1845 passou a funcionar exclusivamente como quartel e comando-geral das guardas em Portugal, aqui continuando a funcionar o Comando-Geral da GNR. Muitas histórias e acontecimentos viveu o Quartel do Carmo. Foi o último reduto monárquico depois da sublevação nos principais quartéis e a bandeira republicana acabou por ser hasteada na varanda do quartel. No dia 25 de Abril de 1974, nele se refugiou Marcelo Caetano, o último Presidente do Conselho do Estado Novo, tendo as tropas revolucionárias do Movimento das Forças Armadas, lideradas por Salgueiro Maia, levado à sua rendição e derrubado a ditadura de 48 anos.


Não surpreende, pois, que a imagem deste Capitão de Abril nos receba à entrada, bem como a imagem de uma espingarda com cravos. São momentos que ainda hoje, volvidos 50 anos de liberdade e democracia, celebramos com emoção. O Museu dá-nos ainda um breve contexto histórico da fundação do Convento do Carmo (e mostra uma réplica da bandeira usada pelo Condestável na Batalha de Aljubarrota), assim como recria diversos ambientes militares, como um quarto de caserna de um posto da GNR e uma trincheira da II GGM, por entre variados objectos, desde botas a chapéus e até um motociclo.