Medellin, cidade verde

Medellin será sempre por nós recordada como a cidade verde.
Montes com arvoredo suficiente para nos imaginarmos no campo, montes tornados parques fazendo deles recantos de natureza, diversos jardins, incluindo um fabuloso jardim botânico, mesmo no centro da cidade, é difícil passar muito tempo sem dar com uma árvore. Esta é a cidade da Eterna Primavera, com temperatura sempre aprazível, e aquela onde se comemora por estes dias a Feira das Flores.


E, depois, é a cidade do Atletico Nacional, “el equipo” verde, campeão da Copa Libertadores deste ano. Foi no dia 27 de Julho de 2016, dia em que acordamos para ver todos desfilar de verde durante todo o dia e noite. Uma loucura.


O único taxista que não estava decorado de verde, ele ou o seu carro, era provavelmente aquele que à segunda tentativa nos levou ao Cerro Nutibara. Teimoso, insistiu em dar primeiro uma volta à cidade e deixar-nos no Cerro Volador. Como não era este que desejávamos, lá voltou a atravessar a cidade para nos deixar naquilo que conhecia como Pueblito Paisa. Paisa é a designação por que são conhecidos os habitantes da região de Antioquia. E este Pueblito Paisa no Cerro Nutibara é uma recriação em miniatura dos edifícios típicos antioquenhos. O Cerro Nutibara, tal como o Cerro Volador, é uma das inúmeras elevações da cidade. Ambos foram transformados em parques onde se podem desfrutar de pacatas caminhadas apartadas do bulício da cidade. Todo um outro mundo.


Descendo do Nutibara ficamos imediatamente no centro da cidade e aí, lá está, outro tipo de verde nos invadiu, a tal loucura. Camisetas várias do Nacional, bandeiras, cornetas, um verde imenso, um barulho imenso, festa antecipada do que se iria passar no começo da noite no estádio não muito longe dali. Em El Poblado, bairro elegante onde vimos o jogo, cada praça estava transformada em mini-estádio, com écran gigante, e cada restaurante improvisou a sua bancada central. Logo aos primeiros minutos Miguel Borja e o seu golo trouxeram a primeira explosão de alegria. Ainda estou para saber como consegui adormecer, tal era a euforia sonora.

Estes são indícios claros, a juntar aos relatados no anterior post sobre a reinvenção da cidade ao nível das acessibilidades, de que Medellin é uma cidade para se desfrutar experiências.




O centro da cidade é compacto e vale pelo ambiente proporcionado pelas suas gentes. Apesar de esta ser uma cidade antiga, fundada em 1616 pelos espanhóis, não se encontram quase nenhuns edifícios históricos. 





O coração da Medellin histórica e administrativa fica entre o Centro Administrativo de Alpujarra, o Parque Berrio e a Plaza Bolívar. Destaque para a Plazoleta de las Esculturas, com 23 obras de Fernando Botero, artista da cidade, famoso por desenhar as suas personagens anafadinhas.




Para nos centrarmos ainda na arte, imperdível a visita ao Museu de Arte Moderno de Medellin (MAMM), quer pelas suas propostas culturais, quer pela arquitectura dos seus edifícios. Foi aproveitado um antigo edifício industrial na zona Parques del Rio (área que em poucos anos vai levar uma grande volta, aproveitando o Rio Medellin e integrando-o na cidade, rio que por ora está para ali sem que ninguém dê por ele) e a ele acrescentado um projecto de edifício novo fantástico. Neste espaço versátil cabe arquitectura, sim, mas também cinema, teatro e exposições (aqui ficámos a conhecer o trabalho da artista colombiana Débora Arango, pinceladas duras de uma mulher à frente do seu tempo).



Não menos imperdível, o Museu Casa de la Memoria fica na direcção contrária do MAMM, a uma curta caminhada do centro mas sempre a subir. Espera-nos um murro no estômago e muito silêncio e respeito pela história de violência e barbaridade que Medellin sofreu nos últimos 60 anos. Neste espaço multimedia e interactivo são nos apresentados exemplos reais de vidas destruídas e de terror permanente sofrido por cidadãos comuns. Depois da visita a incompreensibilidade permanece. Como foi possível?



E, para algo totalmente diferente, rumamos agora a uma das marcas que tem feito Medellin correr mundo: o seu Jardim Botânico, uma área enorme de verde (mais uma) encravada na cidade. Aqui vivem centenas de espécies botânicas e também animais. As iguanas andavam por ali, mesmo juntinhas aos namorados, mais do que parte da paisagem. O grande postal deste Jardim Botânico é o seu Orquideorama, peça brilhante de arquitectura sob a qual são acomodadas diversas espécies de orquídeas. Graças à Festa das Flores que se ia realizar dai a uma semana tivemos o espaço fechado, grande frustração do turista / viajante. Visto o Orquideorama apenas de soslaio, deliciámo-nos com o bonito lago e com o original anfiteatro e sua parede florida.


Medellin, oferece-nos ainda mais lugares de sossego onde é possível alcançar uma distância com o mundo real. O Parque Arví, por exemplo, a uma vintena de quilómetros da cidade, acessível em cerca de 40 minutos com o metro e o Metrocable, numa viagem panorâmica como haverá poucas no mundo. Este Metrocable é turístico, o único, mas antes de se alcançar o Parque Arví e as suas inúmeras possibilidades de horas de caminhadas, passamos obrigatoriamente pela Comuna 1. Melhor. Sobrevoamos a Comuna 1. 


O Cerro de Santo Domingo Sávio era mais um dos lugares de difícil acessibilidade em Medellin, até que em 2004 a inauguração das estações do Metrocable, linha K, aproximou-o irremediavelmente do centro. Da central Estação de San Antonio à Acevedo são menos de vinte minutos de metro, num percurso elevado que rasga a cidade e nos permite um passeio bem bonito observando de forma privilegiada os seus maiores ex-libris. Depois, com o mesmo bilhete, com um custo de cerca de 70 cêntimos de euro, mudamos na Acevedo em direcção a uma das três estações que nos levarão até Santo Domingo (onde, por sua vez, podemos transferir para o Parque Arví). 



A viagem é fantástica, com toda a Medellin aos nossos pés. Do teleférico, forma única de transporte público com motivações sociais, vemos a favela lá em baixo, espaços arrancados e reconfigurados para deixar passar a caixa que percorre o horizonte, e vamos sentido de alguma forma a vida que corre no bairro. Ouve-se música saída das casas e dos parques, vê-se uma bola perdida num telhado, uma cadeira abandonada num terraço improvisado, flores a decorar as casas, placas desenhadas a fazer de telhado. Do lado esquerdo os blocos imensos do edifício da Biblioteca de Espanha, tão entaipado que nem dá para perceber se são 3 os seus volumes ou apenas dois. De qualquer forma, o orgulho dos habitantes desta comunidade por estas obras públicas é evidente.

Na direcção oposta do vale de Medellin, voltando à Estação de San Antonio transferimos desta vez para San Javier, linha B. O percurso do metro, também à vista, deixa-nos ver uma área de classe média, com equipamentos vários, com destaque para o complexo desportivo (talvez só aqui haja tantas piscinas como em Lisboa inteira). Chegadas a San Javier há que tomar um mini autocarro que nos levará ao Bairro La Independência, conhecido como Comuna 13. 




Outrora um bairro absolutamente perigoso, o perigo por aqui não terá desaparecido por inteiro, mas não há porque não arriscar uma visita diurna ao projecto que colocou o bairro nas melhores bocas do mundo: as Escaleras Eléctricas de San Javier. São 6 troços de escadas rolantes, com uma estrutra alaranjada como cobertura a fazer companhia às casas coloridas à sua volta, com vigilantes a cada troço, uma ideia que mudou para melhor a vida de quem tem de subir a bom subir para chegar à sua habitação. Serão cerca de 12000 os habitantes da comunidade e estima-se que 1500 deles utilizem diariamente as escadas eléctricas em substituição dos degraus de concreto que persistem ao seu lado. 

Mais uma pequena ideia que faz a diferença nesta Medellin entusiasmante.

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