Medellin, cidade reinventada


No ano de 2016, para certamente mais de metade daqueles que já ouviram falar da cidade de Medellin, não é arriscado ou sequer injusto dizer que a questão da insegurança, seja dos cartéis de droga, seja dos grupos paramilitares, será o tópico primeiro que lhes vem à ideia.

No entanto, com a chegada à cidade vindos do seu aeroporto mais importante (e mais afastado), qualquer ideia desse género só pode ser colocada imediatamente de lado ao vermos tanta gente a pedalar pelas ruas, seja de dia ou de noite. O uso da bicicleta será apenas um indício de que a vida na cidade correrá pacata, sem sobressaltos de maior. 


Medellin tem vindo a sofrer na última década uma completa reconversão ao nível das políticas urbanísticas e de mobilidade.

A sua implantação é fantástica e as estradas que seguem pela montanha dão nos como que plataformas de observação e aproximação à cidade, mas esta implantação é, ao mesmo tempo, quase inimiga de um planeamento urbano, com todas as implicações sociais que isso acarreta. 

Medellin foi criada num vale rodeado de montanhas – de noite é uma maravilha poder assistir a tantos pontinhos de luz, como se de pirilampos se tratasse; de dia distingue-se claramente o que são esses pontinhos de luz: casas precárias que foram tomando as paredes do vale. A estes bairros precários, por aqui chamam-se “comunas”.

Pelos anos 40, 50 e 60 do último século, Medellin sofreu a pressão dos milhares de migrantes que vieram em busca de melhores condições de vida e de trabalho na então indústria em crescimento. O resultado foi uma ocupação descontrolada da cidade. 

Mas esse seria o menor dos males que a cidade atravessaria nas restantes décadas desse século. A droga e os cartéis a ela associados, com Pablo Escobar como nome maior, e os vários grupos paramilitares e de guerrilha urbana, trouxeram violência num estado tal, roubos, atentados e sequestros, que levaram a que Medellin fosse considerada a cidade mais perigosa do planeta. 

Mas, depois de bater no fundo nos anos 90, deu-se como que um renascimento que só nos pode fazer acreditar no Homem e, a final, na política (embora tenha sido um presidente da câmara vindo fora do meio político a iniciar a transfiguração da cidade). A chave do sucesso esteve no recurso ao planeamento urbano e à tecnologia, nomeadamente no domínio das políticas de transporte público, aliadas também à visão / decisão de promover a educação e a cultura junto das camadas mais desfavorecidas da sociedade. 

A experiência de Medellin fez com que o meu entusiasmo e optimismo com a possibilidade de reverter o que de mau pode existir numa cidade sejam hoje ilimitados. Há esperança no mundo.

Para não ficar apenas pelas ideias vagas, passarei a explicar brevemente e de forma simples o que sucedeu na prática na cidade. Porque a coisa é mesmo simples. 



Primeiro olha-se para as encostas e veem-se as casas ali encavalitadas e assume-se que os seus habitantes têm imensas dificuldades no acesso ao trabalho (ou outra qualquer actividade) na cidade cá em baixo. A solução passa por dotar esses habitantes de melhores e mais eficazes acessibilidades, ou seja, transportes que combatam o isolamento e não os façam perder horas em deslocações. No caso de Medellin, optou-se por um sistema integrado de transportes versáteis, práticos e surpreendentes – com um mesmo bilhete percorrermos a cidade de um lado ao outro de metro e, depois, para aceder às comunas nos montes mudamos para o eléctrico ou para o teleférico (Metrocable). Sim, teleférico. Mas teleférico útil, não turístico. Para além do Metrocable, temos também o exemplo, gratuito, das Escaleras Eléctricas, troços de escadas rolantes como alternativa à subida a pé (Comuna 13).



Segundo, para além das acessibilidades há que munir estas camadas mais periféricas da sociedade de ferramentas que lhes permitam ter acesso a mais educação e cultura. Para tal, mobilizam-se os jovens e as mulheres, os quais são objecto directo das campanhas de sensibilização, porque são eles os mais aptos à mudança de mentalidade, porque são elas as mais capazes de influenciar os demais, formando-os. 

Terceiro, que tal dotar estas comunidades de equipamentos sociais, uma obra como a Biblioteca de Espanha, por exemplo, reconhecido novo marco arquitectónico da cidade (cujo edifício para nosso azar estava em reabilitação e totalmente entaipado)?

Em resumo, colocada a política ao interesse das camadas mais marginalizadas e desfavorecidas da sociedade foi possível chegar a partes da cidade e a indivíduos que antes dificilmente o seriam, promovendo uma maior integração e acabando com alguma divisão. Estas políticas urbanas, com destaque para o grande princípio da mobilidade que a elas esteve subjacente, ao contemplarem a participação dos seus destinatários, tiveram como consequência ligar de forma natural indivíduos que à partida não se juntariam a interagir. Tão importante é verificar que o investimento na melhoria das acessibilidades, atendendo à especificidade do contexto urbano de Medellin, acabou por trazer consigo uma maior segurança e no futuro trará, certamente, melhores índices ao nível da educação.
Por outro lado, observa-se à vista desarmada que Medellin possui um cuidado espaço público, em especial o metro, porque as pessoas o sentem como seu e da sua comunidade.

Para o turista “comum” talvez Medellin não tenha grandes atrativos, como monumentos ou uma paisagem natural deslumbrante. Mas para quem gosta de política, urbanismo e deposita esperança na reinvenção das cidades, de que haverá sempre uma solução quando se bate no fundo, então aí aquela que foi considerada em 2013 a “cidade mais inovadora do planeta” permanecerá na memória como um dos lugares mais interessantes e enriquecedores a visitar.

(Uma ironia. Há quem defenda que o planeamento urbanístico e a participação dos cidadãos neste âmbito que se tem verificado em Medellin na última década deve-se também a Pablo Escobar e demais cartéis. Ao mesmo tempo que plantavam o terror e a decadência, lançavam programas que visavam acabar com as favelas (comunas) e más condições de vida na cidade. Com isso deram visibilidade e voz aos cidadãos mais desfavorecidos, tornado-os mais reivindicativos e conscientes da sua marginalização por parte dos poderes públicos. A mudança terá tido as suas sementes aí.)

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