4.º Dia em Lanzarote

Este dia seguimos para sudoeste rumo às praias da Punta del Papagayo, no Monumento Natural los Ajaches. A entrada de carro por aqui é paga e uma estrada de terra batida vai-nos distribuindo por várias praias, algumas delas, como a do Papagayo, pequeninas e encravadinhas numa baia.

Aí perto fica Playa Blanca, uma estância turística como Puerto del Carmen ou Costa Teguise, mas com muito melhor ar.

Subindo a norte, ao fim de uns poucos kms vamos dar às Salinas de Janubio, com rectângulos de salinas com cores para todos os gostos, e a uma praia de mesmo nome de areia preta, cortesia da lava.

Logo acima seguem-se Los Hervideros onde o mar, a lembrar a Boca do Inferno para os lados de Cascais, bate duramente nas rochas. Mas aqui o que acontece é que a água tem por oponente a lava e, principalmente, as várias covas que esta formou em terra. Visto de cima é como se fosse um labirinto de rocha de lava onde a água tem de procurar o melhor caminho para se poder aninhar ou, quando não o consegue, nele esbarrar furiosamente, como um castigo.

Mas o castigo transforma-se em idílio e encantamento poucos kms ainda mais acima. El Golfo é um daqueles milagres da natureza difíceis de acreditar e de entender. Numa praia de areia pretíssima a relação do mar com uma cratera criou uma lagoa de água amarela (ou verde). Como se já não fosse suficiente desejarmos ficar o dia todo a olhar para esta maravilha verde (ou amarela), o cenário dá-nos ainda uma montanha com formas incríveis e cores avermelhada para compormos a nossa pintura mais que perfeita.

E por falar em crateras, voltemos ao castigo com um desvio para o interior da ilha rumo ao que muitos comparam ao diabo: as Montanas del Fuego Timanfaya, a maior atracção de Lanzarote e o segundo Parque Nacional mais visitado de Espanha (atrás do P.N. do Teide, na vizinha Tenerife).
O símbolo do Timanfaya é o diabinho criado por César Manrique, que foi também o responsável pela criação da Ruta de los Volcanes e do restaurante El Diablo, edifício em circulo que faz também as vezes de mirador. Todavia, nunca pensei neste cenário e nesta paisagem como um inferno. Talvez porque nunca me tenha colocado na posição dos habitantes da ilha que, entre 1730 e 1736, testemunharam e sentiram na pele os efeitos e consequências da enorme erupção vulcânica que deixou um quarto da ilha sob lava e cinza. Talvez uma boa tentativa para entender melhor o horror seja ler a crónica que nos deixou o padre de Yaiza, vilarejo próximo. Mas, para mim, este deserto de lava interrompido insistentemente por montanhas formosas e coloridas e uma milagrosa vegetação aqui e ali, onde a vida humana perseverou e ganhou, é encarado como uma beleza impar que me deixa em paz absoluta.
A visita ao parque é efectuada num circuito circular de 14 kms, a tal Ruta de los Volcanes, com a estrada plenamente enquadrada no meio ambiente, utilizada em exclusivo por um autocarro do Parque. Infelizmente, ainda que para melhor preservação, não nos é permitido descer do autocarro e gastarmos o tempo a nosso belo prazer nas montanhas e, eventualmente, caminhar por dentro das crateras ou subir a um vulcão. Mas dentro do autocarro fazemos tudo isso e a paisagem acaba por ser quase tudo (quase, porque, ainda assim, não me conformo).
A lava assume várias formas, umas tão altas que parecem uma torre com uma janela no topo, outras que mais parecem raízes ou longos dedos que se vão arrastando pelo terreno.
Mas as montanhas são o que deslumbram. Enquanto a lava foi tomando tudo à volta, vemos muitas montanhas / crateras com uma terra de várias cores que parece tão macia e fina que quase as confundiríamos revestidas com um tapete. Algumas estão decoradas com vegetação rasteira que se vai sobrepondo ao poder da lava, outras com uma espécie de bolhinhas vermelhas que mais parecem escamas na sua pele.

Aqui perto ficam os povoados de Yaiza e Tinajo, com casas brancas, como sempre, e sempre cuidados. Os arranjos exteriores, pode já concluir-se depois de uma volta a grande parte da ilha, nunca são descurados e as aldeias, vilas ou cidades possuem sempre encanto, seja por uma praça, um jardim, uma igrejinha, uma ermida ou tão só pelo seu bom ordenamento.

Ainda perto do Timanfaya fica outra das surpresas de Lanzarote: os campos de vinha do Vale de la Geria. A terra preta é envolvida em círculos de pedra basáltica recheados de vinha, dando um efeito lindíssimo o contraste do verde desta com o preto da areia. No entanto, apesar de esteticamente resultar na perfeição, esta técnica tem motivos mais práticos como o de proteger a vinha do vento e do forte sol, servindo a cinza para impedir a evaporação da água.

Antes da Geira, porém, ainda tivemos tempo de voltar à costa, desta vez para uma ida até La Santa, terra sem grande graça a não ser pelas condições para o surf e pelo centro desportivo que lá está instalado. A mana ficou roidinha por não se atirar às ondas com uma prancha e eu não fiquei melhor a ver o pessoal a pedalar as suas bicicletas, certamente em treino para a prova de triatlo do dia seguinte em Arrecife. Tivesse tido o cuidado de ver o calendário das provas e ainda tinha ido conhecer a capital de uma outra forma. A ver se pelo menos amanhã temos tempo para um mergulho em qualquer zona da costa.

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