A Casa

Pertinho dos apartamentos onde ficamos em Matagorda, Puerto del Carmen, fica Tias, a terra que José Saramago escolheu viver no seu exílio voluntário de Portugal. Há pouco tempo abriu a visitas ao público “A Casa”, integrada na sua fundação. Quando nos anos 90 para lá foi viver havia apenas duas casas e das traseiras da sua podia caminhar até à Montanha Blanca sempre a direito. Hoje, e certamente desde há já uns anos, teria de contornar umas quantas casas para poder sequer ficar face a face com a dita montanha. Não deixa, no entanto, de ser um lugar aprazível, num ponto alto da ilha, e a Casa, ainda que não muito grande, é cómoda e agradável, com um jardim muito simpático, com flores e alguns cactos.

À entrada, no hall, vemos uma série de livros, sobre cozinha, ervas aromáticas, provérbios chineses, um pouco de tudo. Até 2005, data em que foi criada a Biblioteca de Saramago, num edifício do outro lado da rua, os livros estavam espalhados por toda a casa. Agora também, mas não aos magotes, nem no chão nem no tecto. Ainda no hall, referência da guia que nos conduziu na visita para as muitas peças sacras visíveis – o escritor não era um homem religioso, mas era interessado nas religiões – e para a colecção de cavalos deste ribatejano que em pequeno, sem posses, não pode nunca montar.
E eis que, de repente, entra em casa Pilar del Rio com um ramo de antúrios; dando os bons dias, passou rapidamente para a cozinha onde, momentos depois, já sem ela, nos iria ser oferecido um café portuguesíssimo – Delta. No escritório de Saramago pudemos observar algumas fotografias de outros escritores e da sua família, bem como quadros, livros, cds, vídeos e alguns objectos pessoais. Aí a guia, depois de referir Almeida Garrett como uma influência de Saramago, deu o livro Levantado do Chão para a mana ler a passagem de Garrett que aí consta. Como esta, tímida e com receio que todos descobrissem o seu segredo de que não sabe juntar as palavrinhas, pelo menos em público, passou-me de imediato o livro e coube-me a mim a emoção de ler para mais 11 pessoas na casa de um Nobel da literatura. Chuinc, até me vem uma lágrima ao olho.

Vista a casa que faz parelha com outra pertencente à irmã de Pilar, atravessamos a rua e entramos na Biblioteca, onde funcionam os serviços da Fundação e existem milhares de livros divididos por secções escolhidas por Saramago, incluindo uma secção dedicada a livros escritos por mulheres. Foi uma visita deveras interessante, e não só por ser uma leitora de Saramago, que leu com entusiasmo Levantado do Chão, despachou com gosto Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, achou que o filme Ensaio Sobre a Cegueira já é uma bosta mas ao lado do livro nem sequer merece viver, e que se emociona à simples referência a Josefa, sua avó, numa carta. O homem José Saramago não me despertava nem mais nem menos do que um sorriso: exagerado em algumas opiniões, actualíssimo e justo noutras. Quanto à sua mulher Pilar, a mesma não me desperta qualquer inveja, antes simpatia, mas nela não me agrada a ausência de esforço em falar português, mesmo quando comenta na televisão portuguesa. Em resumo, estaria, ou estou, mais para fã do casal do que para sua opositora, dai que seria quase um crime vir a Lanzarote e não conhecer parte da vida e obra de um dos dois únicos portugueses premiados com o Nobel.

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