Guimarães, não há como fugir à tão batida classificação, é o berço da nacionalidade portuguesa, a cidade onde nasceu o primeiro rei de Portugal. É certo que o seu castelo roqueiro é uma das imagens inconfundíveis e o bem preservado centro histórico medieval um lugar cheio de história, justamente distinguido pela Unesco como património da humanidade. Mas há ainda que contar com uma cidade moderna e culturalmente vibrante, que dá gosto visitar.

Na parte alta da cidade, na designada Colina Sagrada, estão alguns dos monumentos mais reconhecidos de Guimarães, como o Castelo, o Paço dos Duques de Bragança, a Igreja de São Miguel do Castelo e a estátua de D. Afonso Henriques. Esta última, pose e armadura do fundador do reino, está no imaginário de muitos de nós e é obra do escultor Soares dos Reis.



O Castelo de Guimarães tem a sua origem no século X, tendo sido construído a mando da Condessa Mumadona, que também havia instituído o mosteiro de Guimarães. Era a época em que o topónimo Vimaranes era o usado, derivando talvez de “via Maranis” (estrada do Marão) ou do guerreiro Vimara Pérez. Então modesto, este castelo terá sido levantado para defesa de ataques normandos, que nessa época andariam pela região, tendo entrado na Península Ibérica pela Galiza. Neste castelo roqueiro, destaca-se a torre de menagem ameada, acompanhada por 3 torres mais baixas, para defesa de cada um dos ângulos da fortaleza. Ao entrarmos, logo percebemos que o terreiro é surpreendentemente pequeno e ocupado por poderosos blocos de rocha que também encontramos no exterior. Neste interior estão as ruínas da antiga alcáçova, onde terá vivido o Conde D Henrique. Tudo está muito alterado desde essa época, e não nos podemos esquecer que o Castelo que agora visitamos é obra com menos de 100 anos, do Estado Novo, restaurado de acordo com o que se julgava ter sido, uma vez que à semelhança de muitos outros monumentos no nosso país estava então em muito mau estado de conservação.


Por fim, é possível subir às muralhas, de forma a percorrer parte do caminho de ronda, daí se observando umas boas panorâmicas da envolvente. Imediatamente ao redor do Castelo está um vasto campo ajardinado, com os tais blocos de rochas e diversas árvores.

Neste espaço aprazível e bem cuidado está a Igreja de São Miguel do Castelo, um templo românico de arquitectura simples. Terá sido construído pelo Conde D. Henrique e muitos gostam de acreditar que D. Afonso Henriques foi nele baptizado.




Perto está ainda o Paço Ducal, a moradia senhorial dos antigos duques de Bragança. Foi construído no século XV, uma época em que Guimarães era descrita por João de Barros como uma das 4 melhores vilas do Reino. A construção do Paço Ducal teve a iniciativa do Conde de Barcelos, D. Afonso, filho bastardo de D. João I e casado com D. Beatriz Pereira, filha única do Condestável Nuno Álvares Pereira, daí o seu prestígio e riqueza. A sua arquitectura foi inspirada nas grandes casas senhoriais de França, não lhe sendo alheio o facto do Duque de Borgonha ser cunhado de D. Afonso. Na época considerada a casa mais rica de Portugal, a sua arquitectura é única no panorama português, destacando-se no exterior uma série de chaminés de tijolo e no interior uma varanda logo abaixo do telhado, em declive. No século XVI, os Duques de Bragança mudaram-se para Vila Viçosa e, com isso, o Paço de Guimarães foi deixado ao abandono – no século XVII já estaria nessa situação. Depois de ter servido de quartel e regimento infantaria, a partir de 1933 o Paço foi reconstruído e preenchido com mobiliário vindo de diversos lugares. Hoje é um museu com belas tapeçarias (em especial, umas réplicas das Tapeçarias de Pastrana, representando o desembarque e cerco em Arzila) e peças de mobiliário português e holandês e louças do oriente. Merecem ainda atenção os tectos de madeira.

A muralha que rodeava Guimarães foi mandada construir por D. Dinis e seria imponente: diz-se que teria 9 metros de altura e um perímetro total de 2000 metros. Há ainda vestígios dela e pode mesmo caminhar-se por um troço, que desemboca junto ao Museu de Alberto Sampaio.



Da Colina Sagrada seguimos até à cidade medieval, descendo pelo Jardim do Carmo, com Convento de mesmo nome diante si, e atravessando a pedonal Rua de Santa Maria, onde estão alguns dos edifícios mais importantes e ricos da cidade, como palácios, solares e conventos, outrora ocupados por elementos da nobreza e do clero. São vários os brasões nas fachadas, testemunho de tempos que já lá vão. Depois de apreciarmos a fachada barroca do edifício hoje ocupado pela Câmara Municipal local, não podemos deixar de entrar pelos serviços públicos afora e, assim, surpreendermo-nos com os claustros do antigo Convento de Santa Clara, em tempos um dos mais ricos da cidade.


Na Rua de Santa Maria viveram diversos personagens ilustres que aqui e ali ajudaram a construir a história de Guimarães, desde membros da realeza até artistas, como Auguste Roquemont, um dos percursores do romantismo no nosso país. E esta artéria central tem na Casa do Arco, de finais do século XVIII, um dos seus momentos mais simbólicos e pitorescos, sendo uma das mais fotografadas.





A estrutura medieval do centro histórico de Guimarães mantém-se, apesar de possuir edifícios de várias épocas. As ruas são estreitas e as casas também pouco largas, pequenas e coladas umas às outras. De pedra, as varandas são, porém, de madeira e, as mais recentes, de ferro forjado, sobressaindo as portadas e janelas de molduras coloridas. Ao contrário de tantas outras cidades portuguesas, os edifícios do centro histórico de Guimarães estão reabilitados e habitados, vividos, em resumo. Há roupa estendida à janela, mas é uma delícia constatar que mais presente ainda é a bandeira do Vitória, orgulho de uma cidade.




A Praça de São Tiago é um bom exemplo do atrás referido. Cheia de esplanadas e com casinhas coloridas ao redor, é extremamente pitoresca. Uma arcada gótica alpendrada – correspondente à antiga casa da câmara – divide-a do Largo da Oliveira, fazendo com que os dois lugares mais típicos da cidade sejam na verdade como que uma só praça / largo.

O Largo da Oliveira é, a par do Castelo, a imagem mais reconhecida de Guimarães. Nele está o padrão comemorativo da Batalha do Salado, momento decisivo da Reconquista Cristã, em 1340, que juntou as tropas dos reinos de Portugal e Castela em oposição aos muçulmanos. Após essa Batalha, D. Afonso IV visitou a vila e mandou erguer o cruzeiro gótico alpendrado que ainda hoje aqui está, diante da Igreja de Santa Maria da Oliveira.


No século X, a Condessa Mumadona fundou aqui um mosteiro (onde passou os seus últimos anos de vida), ao redor do qual foi crescendo o burgo medieval. Este mosteiro deu, depois, lugar à colegiada instituída por D. Afonso Henriques sob a invocação de Santa Maria, em decorrência da sua vitória na Batalha de Ourique, em 1139, passo decisivo para a formação do Reino de Portugal. Apesar de, depois disso, o primeiro rei ter dirigido as suas conquistas para sul, mudando a corte de Guimarães para Coimbra, o burgo não foi esquecido pelos reis que o sucederam, tendo nele reunido diversas cortes durante a dinastia Afonsina. Até que, nas vésperas da Batalha de Aljubarrota, acontecida em 1385, D. João, então Mestre de Avis, veio a Guimarães e fez voto à padroeira Nossa Senhora da Oliveira. Vencidos os castelhanos nessa Batalha, com a ajuda do Condestável Nuno Álvares Pereira, e posto fim à crise dinástica que a vinha precedendo, o Mestre de Avis, agora já D. João I, fundador da Dinastia de Avis, voltou a Guimarães a pé e dirigiu-se à Igreja de Santa Maria, no sentido de agradecer à virgem e cumprir o seu voto, tendo determinado a ampliação do templo original, refundado em 1387. E, assim, a Igreja de Santa Maria / Colegiada transformou-se na Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, primeiro monumento gótico do Minho. Todavia, dessa época restam apenas o portal gótico com 3 arquivoltas e a moldura em calcário da antiga janela ogival. Colada à igreja, e dela fazendo parte, está a torre com merlões, reedificada no século XVI.

Do interior da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira pouco resta do tempo de D. João I. O ambiente é austero e a subida ao coro-alto permite-nos uma boa perspectiva das 3 naves da igreja.

Hoje, parte do antigo mosteiro / colegiada está ocupado pelo Museu de Alberto Sampaio, criado em 1928 para acolher o seu espólio artístico e de outras igrejas e conventos da região. Infelizmente, um dos seus espaços mais gabados, o antigo claustro da Colegiada, estava encerrado para restauro à data da nossa visita. Pudemos, ainda assim, conhecer algumas peças distintas, como a inscrição comemorativa da sagração da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em 1421, o raro altar portátil em prata que teria pertencido ao rei de Castela (que se fazia dele acompanhar nas batalhas), a imagem de Nossa Senhora da Oliveira a quem rezou D. João I de Portugal, pinturas com a recriação da Batalha de Aljubarrota: o mesmo D. João a depositar as suas armas no altar de Nossa Senhora da Oliveira e D. João I a rezar à mesma Nossa Senhora da Oliveira (esta, veja-se só, acabei por vê-la dias depois numa exposição na minha cidade, Lisboa); e até o laudel que este terá usado nessa batalha. Vê-se ainda uma colecção de pinturas a fresco / murais provenientes de algumas igrejas do norte do país, como o mural “Martírio de São Sebastião”, vindo da igreja de São Salvador de Bravães, em Ponte da Barca, do século XVI.



Outro dos espaços museológicos a visitar, o que não fizemos, é a Sociedade Martins Sarmento, um dos museus arqueológicos mais antigos do nosso país, instituído em 1885, que acolhe o espólio dos achados vindos da Citânia de Briteiros, Castro de Sabroso e outros da região. Da Sociedade ao Largo do Toural é um passinho e assim chegamos à principal praça da cidade. Vindo já do século XVII, o Toural era o lugar onde eram realizadas as feiras de gado e touradas (daí o seu nome) e estava perto mas para lá da muralha e da Porta da Vila, a principal entrada de Guimarães, demolida ainda no final do século 18. Foi nessa sequência que se construiu a longa correnteza de edifícios de arquitectura homogénea – parecendo um só edifício – ao estilo do que havia sido feito há pouco na Baixa Pombalina de Lisboa e hoje tão característica do Largo do Toural. Nele estão também o chafariz renascentista e a Igreja de São Pedro.


E, no seu prolongamento, está outra imagem incontornável de Guimarães, a antiga Torre da Alfândega, parte da muralha, com a inscrição “Aqui Nasceu Portugal”. Esta marca o início do Jardim Público / Alameda de São Dâmaso, um espaço central com coreto e bancos de jardim sob diversas árvores de grande porte que, por sua vez, desemboca no que é conhecido localmente por Campo da Feira, o Jardim de São Gualter. Este último é como que uma longa avenida que nos transporta até à igreja de mesmo nome, ou Igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, num momento absolutamente fotogénico, cortesia do intenso colorido dos canteiros de flores que o preenchem. Falta referir que esta igreja é uma das últimas obras do grande mestre do barroco da região, André Soares, o mesmo da Falperra e de tantos monumentos bracarenses.


Igualmente fora da antiga vila muralhada, por trás da Igreja e Convento de São Francisco fica a Zona de Couros, uma área que parece pertença de todo um mundo estranho, caso não saibamos ao que vamos. Atravessada pela Ribeira de Couros, vinda do Monte da Penha, aqui estavam instaladas as antigas fábricas de curtumes, sendo o elemento água essencial para o desenvolvimento desta actividade milenar na cidade. Como testemunho dessa época passada, restam as quadrículas no solo e os tanques de granito, onde as peles eram deixadas por meses antes de saírem para secar. Os curtumes eram uma das várias indústrias que fizeram a fama de Guimarães, ao lado da cutelaria e das fábricas de fiação e tecelagem.



E, para algo totalmente diferente, o Palácio Vila Flor já não anda longe. Mandado construir, no século XVIII, pelo fidalgo vimaranense Tadeu Luís António Lopes de Carvalho de Fonseca e Camões, passou depois para a propriedade do primeiro Conde de Arrochela. Foi este que recebeu e hospedou D. Maria II aquando da sua visita à cidade, em 1852, visita essa que levou à determinação da elevação de Guimarães a cidade. De arquitectura de influência aristocrática e joanina, todas as fachada do palácio apresentam de forma uniforme janelas nos dois pisos do longo edifício. Porém, as fachadas norte e este estão magnificamente decoradas com esculturas com a representação dos primeiros reis portugueses. A fachada norte, traseira mas virada à cidade, dá para os jardins, usualmente descritos como uns dos mais bonitos de casas nobres do nosso país. Com efeito, foi construído em terraços e patamares e, para além da cenográfica escadaria, vamos encontrando pelos três espaços elementos como tanques e chafarizes, estátuas, canteiros de buxo e árvores como camélias.




O Palácio Vila Flor estava em mau estado de conservação quando a Câmara Municipal local o adquiriu, em 1976, com a intenção de nele instalar o Polo de Guimarães da Universidade do Minho, o que não veio a acontecer. Ao invés foi academia de música, oficina de teatro e espaço para formação profissional, até que entrados na década de 2000, a Câmara procedeu ao seu restauro no sentido de aí instalar um Centro Cultural. É nesta nova vida, a de Centro Cultural Vila Flor, já com um novo e moderno edifício construído ao lado do palácio oitocentista, que o espaço entrou nas bocas do mundo e é hoje um equipamento cultural de excelência no nosso país, aí sendo realizados espetáculos e concertos.




Também o Centro Internacional das Artes José de Guimarães é um lugar incontornável na cidade, no que à cultura diz respeito. Inaugurado em 2012, a propósito da “Guimarães Capital Europeia da Cultura”, está inserido na Plataforma das Artes e da Criatividade, projecto que levou à total transformação do antigo Mercado de Guimarães e que foi distinguido com diversos prémios de arquitectura. Toma o nome do artista nascido na cidade e dedica-se à arte contemporânea, designadamente, do ponto vista da sua relação com artes de diferentes épocas e géneros. Nesse sentido, costumam estar patentes exposições temporárias e, sobretudo, as coleções que José de Guimarães tem vindo a reunir ao longo da sua vida – são inúmeras as peças expostas, numa hiper ocupação do espaço, com destaque para o colorido das suas obras e para as máscaras africanas, daqui resultando uma variedade e um cruzamento de culturas e identidades.


Para o final deixámos a panorâmica altaneira de Guimarães e zona envolvente, bem larga em dias claros, por sinal. “uma espécie de visão do mundo”, como resumiu o Guia de Portugal no seu volume dedicado ao Minho. Com efeito, da Penha, um miradouro natural a 617 metros de altitude, vê-se desde a Serra do Marão ao Oceano Atlântico e até se vislumbra o Gerês. Habitada desde a pré-história, o Monte da Penha é hoje um lugar muito concorrido e popular, seja pelo seu santuário seja pela sua bonita natureza, podendo chegar-se até lá de eléctrico desde a cidade. No entanto, seguimos de carro até este refúgio arborizado (pelo Homem, à semelhança de Sintra) com grandes e formosos penedos graníticos. Tem uma série de caminhos que podemos percorrer, aí descobrindo diversas grutas, o que lhe confere uma aura de misticismo (mais um paralelo com Sintra) e até uma capela cravada na rocha. Um pretexto irrecusável para permanecer mais tempo por Guimarães.



