No Minho, entre a margem esquerda do Rio Cávado e a margem direita do Rio Ave, está instalada Póvoa de Lanhoso. Vila antiga, a ocupação na região remonta ao Calcolítico, havendo disso diversos testemunhos. Da época medieval resiste o castelo, implantado num lugar improvável e com papel importante na fundação de Portugal. E, depois, Póvoa de Lanhoso é a terra da Maria da Fonte, a revolta popular iniciada pelas mulheres do Minho que obrigou à mudança de governo e a uma nova ordem liberal.

O Castelo de Lanhoso dá-nos uma imagem singular, implantado num enorme maciço rochoso, considerado o maior monólito de granito da Península Ibérica. Castelo românico, reconstruído no século XI, época da Reconquista Cristã, sobre uma estrutura defensiva pré-românica, acabou por se revelar importante na fundação da nacionalidade, designadamente, na defesa e ampliação das fronteiras do Condado Portucalense. D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, refugiou-se nele aquando do ataque do exército de sua irmã, D. Urraca, que apesar de o ter cercado, não conseguiu tomar este castelo de acesso difícil. De qualquer modo, em resultado foi assinado o Tratado de Lanhoso, em 1121, entre o Condado Portucalense e o Reino de Leão, tendo o primeiro voltado a ser vassalo do segundo. Depois, em 1128, derrotada por seu filho na Batalha de São Mamede, D. Teresa voltou ao Castelo de Lanhoso, presa a mando do seu filho, antes de tomar o caminho do exílio na Galiza.




Terá sido depois destes acontecimentos que foi construída a torre de menagem do castelo num dos seus extremos, entretanto transformada em pequeno núcleo museológico. No alto da torre, à qual acedemos por uma escadaria deste o pátio, vemos um belo panorama, ainda melhor do que aquele que podemos observar desde o adarve e merlões: montes e vales dos rios Cávado e Ave a toda a volta e a vila abaixo, rodeada de um pequeno vale fértil, cortesia das ribeiras da Póvoa, Pereira e Pregal, todas elas pertencentes à bacia do Ave.





Este Castelo de Lanhoso tem ainda a particularidade de ser o primeiro dos castelos portugueses a ter gravada uma epígrafe. Ao seu lado está o Santuário de Nossa Senhora do Pilar, construído em 1680 com pedras da muralha – as Memórias Paroquiais de 1758 referem que, nesse ano, restava apenas a torre de menagem do antigo castelo, o qual, à semelhança de tantos outros no nosso país, foi reconstruído durante o Estado Novo.

A meia encosta, na subida do rochedo do Castelo, estão vestígios de um povoado pré e proto-histórico romanizado. Já se disse, o povoamento na região é muito antigo e no Calcolítico já havia ocupação humana no sopé do monte. A sua localização estratégica permitiu o assentamento e desenvolvimento de uma comunidade castreja cerca de 3.000 a.C., durante a Idade do Cobre, a qual perdurou até à época romana. Foi em 1938, ao construir-se a estrada de acesso ao Santuário da Senhora do Pilar e ao Castelo, que se deu com a existência dos vestígios do Castro de Lanhoso, designadamente, alicerces das casas e fragmentos de tegulae e imbrex. Este era fortificado e seria constituído por casas com planta circular dispostas em pequenos socalcos. Entretanto, a câmara edificou três casas modelo, no sentido do visitante perceber melhor as características das habitações deste castro.





A primeira referência ao topónimo Povoa de Lanhoso é de 1086 e a sua origem é ibérica, em alusão às características geológicas do lugar, com muitas e grandes lages graníticas, de que aquela onde assenta o Castelo de Lanhoso é exemplo maior. E, depois, Póvoa, é bem sabido, vem de povoação. É de 1292 o primeiro foral concedido à Póvoa de Lanhoso, por D. Dinis, mais tarde confirmado por D. Manuel, em 1514. A vila é compacta, com o seu centro a desenrolar-se numa linha recta desde a Av. da República, onde estão o edifício da câmara municipal, tribunal e igreja matriz, até à Rua da Misericórdia. Pelo meio, uma rotunda com a estátua de Maria da Fonte e duas agradáveis praças-jardins, em especial, o conjunto ao redor do Jardim do Largo António Ferreira Lopes. Grande benemérito da vila, aqui tinha a sua residência – no Palacete das Casa Novas / Lar de São José, uma casa de brasileiro -, e na mesma praça mandou ainda construir o Theatro Club, em 1904, de fachada totalmente revestida por azulejos monocromáticos e com elementos arte nova. Mais adiante está o Hospital da Misericórdia, também de sua iniciativa, inaugurado em 1917.


Para além da visita ao Centro Interpretativo Maria da Fonte e à Sala de Interpretação da Filigrana (a vila é conhecida por ser um centro de produção de excelência da filigrana, ourivesaria tradicional minhota), não se deve perder um passeio pelo Parque do Pontido. Logo abaixo do rochedo do Castelo, este parque urbano da vila é um espaço verde bonito e agradável que percorre as margens da ribeira do Pontido, com caminhos e pontos de descanso sob as árvores, algumas de grande porte.





Não visitámos o monumental carvalho de Calvos, considerado o maior carvalho do mundo, e seguimos para Fontearcada, a terra da Maria da Fonte. Foi aqui que em 1846 começou a revolta popular de mesmo nome, em reacção a uma lei que proibia enterrar os mortos dentro das igrejas. E foi pela sua igreja que viemos até esta povoação vizinha da sede de concelho, que D. Afonso Henriques havia tornado couto. A Igreja Românica de São Salvador de Fonte Arcada teve origem no mosteiro beneditino de mesmo nome fundado em 1067. A actual igreja, porém, é do século XIII, integrada no românico tardio do Minho. De nave única e capela-mor redonda abobadada, destaca-se a rosácea na fachada principal, já gótica, e o pórtico com três arquivoltas e capitéis decorados com motivos vegetalistas e tímpano com a representação do Agnus Dei (Cordeiro de Deus).

Despedimo-nos da Póvoa de Lanhoso com uma espreitada ao rio Ave para os lados de Brunhais. A Ponte Mem Gutierres, construída no século XIV ou XV, também conhecida como Ponte da Esperança, está classificada como monumento nacional e é uma estrutura em cavalete assente sobre um arco de volta quebrada. Está-lhe associada uma lenda que lhe atribui poder em fertilizar o ventre das mulheres. Pouco mais adiante, o Pontão do Ave não precisa de lendas para garantir que este rio é poderoso, pelo menos visualmente, tendo neste ponto um momento de serenidade absoluta.