Costa Nova

A Costa Nova é uma porção estreita de areal encravada pelo Atlântico, de um lado, e a Ria, pelo outro. Muita água como envolvente, portanto. 
Mas o que distingue esta terra pertencente ao concelho de Ílhavo são as suas casinhas listadas coloridas. À entrada vêem-se condomínios novos com desenho inspirado na imagem forte pitoresca daquelas. Mero pastiche.

O melhor é caminhar pela longa avenida que bordeja a Ria e aí descobrir as casas típicas, umas mais autênticas do que outras, certamente, quase todas belamente arranjadas e conservadas. Telhados em bico e janelas e varandas decoradas com rendas e flores, estes edifícios são chamados de palheiros e originalmente – quando a zona começou a ser ocupada na sequência da abertura da Barra, no princípio do século XIX – eram utilizados pelos pescadores como armazéns para os materiais relacionados com a pesca. Começaram por levar a cor vermelho ocre e preto, mas hoje encontramos também exemplos de verde, azul e amarelo. Estas cores e as listas terão sido introduzidas pelas famílias burguesas que, mais tarde, para aqui passaram a vir a banhos e transformaram estes palheiros de armazéns de uma só divisão em casas de veraneio capazes de comodamente acomodar toda a família.

Junto a estes palheiros é possível também admirar algumas vilas e saborear excelente peixe fresco no restaurante Tubarão, fazendo do passeio um dia ainda mais memorável.
Mas porque são os palheiros que trouxeram fama à terra, eis aqui alguns exemplos que hoje se podem observar.

Ílhavo e o seu Museu Marítimo

 
Município português que se preze tem rotundas com finalidade que não a de exclusivamente disciplinar o trânsito. Ílhavo dá-nos logo à entrada um belo exemplo, juntamente com o moderno edifício da Câmara Municipal. 
No entanto, dá-nos muito mais do que isso. O seu centro está cuidado e abundam aqui os exemplos de edifícios de arte nova e revestidos a azulejos, como também se observam em Aveiro. Existem ainda belos exemplares de solares e vilas, como aquela que hoje é ocupada pela Junta de Freguesia. Possui um Centro Cultural cuja fachada vista da rua principal é susceptível de nos confundir com um qualquer bloco em vidro de centro comercial. Como aconteceu. Infelizmente terá encantos escondidos, os quais terão de ser comprovados em nova visita.

O que ficou finalmente comprovado nesta visita foi o interior do Museu Marítimo de Ílhavo, depois de aqui há uns anos ter apreciado a sua arquitectura exterior. Só por este edifico e museu vale a pena a visita à sede deste concelho.
O projecto de arquitectura de remodelação do Museu Marítimo de Ílhavo, da autoria da ARX Portugal, foi objecto de merecidos prémios. A sua envolvente não é fantástica, mas o desenho de linhas direitas do edifício é muito interessante e remete-nos para a imagem de um barco. A cor branca domina, em harmonia com uma vivenda de esquina preenchida de azulejos.
O seu interior é amplo, com uns cortes aqui e ali deixando entrever os espaços exteriores, e cheio de luz.
Inaugurado em 2001, tem sido desde aí um sucesso museológico. No ano passado teve um total de 66500 visitantes, um dos museus municipais mais visitados do país e um número nada despiciendo no panorama de todos os museus nacionais.
O Museu Marítimo de Ílhavo dedica-se à missão de contar a história do bacalhau e da faina, bem como mostrar-nos a indissociável vida marítima do município. Provavelmente, o mais popular de todo o espaço é o recente Aquário de Bacalhaus. Para quem está habituada a vê-lo apenas desfiado ou em postas no prato é uma experiência encantadora constatar que é um peixe que também sabe nadar, com cabeça, abanicos a fazer de mãos e cauda.

A cultura do mar é aqui rainha e para um país como o nosso a visita a este museu devia fazer parte do plano de estudos obrigatório.
“Há uma espécie de céu no mar, onde as raias voam como pássaros, as estrelas dormem na areia e as nuvem de espuma enfeitam o espaço azul” – estas são as palavras retiradas do livro “Mar”, de Afonso Cruz, que nos dão as boas-vindas à entrada da exposição.
A primeira sala é dedicada à Faina Maior, com a reconstrução de um iate de pesca do bacalhau, onde é possível termos uma pequena ideia do ambiente (duro) em que eram eram vividos os dias passados pelos pescadores em mar alto e os artefatos de que se faziam acompanhar. Terrível ver o barquinho (dóri), “frágil e esguio”, onde eram deixados sós e praticamente indefesos na sua labuta de nos trazer os bacalhaus.
Pelo caminho vamos vendo alguns vídeos e lendo citações retiradas do livro “A Campanha do Argus”, de Allan Villiers.
Da Pesca: “Pouco depois das quatro da madrugada, o capitão lança ao mar os seus cinquenta e cinco dóris. Arriados os botes, não há meio de comunicar com os pescadores para lhes dizer onde está o peixe. É cada um por si. É preciso muito tempo, doze horas ou mais, para que cada pescador lance e recolha o trol, a fim de encher o dóri e voltar ao navio. Se o primeiro lance não rende, o pescador parte à procura de outro sítio, às vezes a milhas de distância do primeiro. Quando há peixe, o pescador obriga-se a sobrecarregar o dóri. Mas nunca tem por certo o regresso ao navio”.
Sobre a Viagem: “Quando se afastam da Costa, homens e navios sentem o vento a soprar mais forte. O mar invade a parte baixa do convés e as ondas quase esmagam as pilhas de dóris. Assim que o mar acalma, distribuem-se os botes. Cada pescador prepara o seu dóri. O navio e a tripulação acomodam-se bem à vida no mar. Aos poucos, adapta-se o navio para acolher e preparar o bacalhau: afastam-se as pilhas de dóris para desimpedir o convés para os trabalhos de limpeza e escala do peixe. A tripulação prepara-se para lidar com grandes quantidades de bacalhau. O navio dirige-se aos banco da Terra Nova.”
A pesca do bacalhau pelos portugueses terá tido início no século XVI, precisamente com destino à distante Terra Nova. A aventura real destes homens fez com que se criasse um mito.
Ílhavo forneceu muita mão de obra para estas viagens, para além de aqui terem também surgido algumas companhias de construção dos navios. Não só para a pesca do bacalhau saíram estes homens. Também para o Algarve imigraram em busca da pesca da sardinha. 
Uma homenagem a eles nas palavras de Allan Villiers “Os homens de Ílhavo sempre seguiram o mar. Navios, navios, navios, marinheiros, marinheiros, marinheiros – a história de Ílhavo é a história deles.”

Neste museu encontramos ainda uma belíssima colecção de conchas de todos os mares do nosso planeta, uma boa colecção de pintura ligada à temática dos mares e alguns exemplares em tamanho real dos barcos típicos da ria – que não se limitam ao moliceiro.
Mas porque o bacalhau é personagem principal deste museu, fecharemos com mais uma muito curiosa citação: “Já se calculou que, se nenhum acidente impedisse a incubação dos ovos de bacalhau e se cada ovo atingisse a maturidade, só seriam precisos três anos para encher o mar. Assim, seria possível atravessar o Atlântico a pé, caminhando sobre o dorso dos bacalhaus” – Alexandre Dumas, Le Grande Dictionnaire de Cuisine, 1873.

Campus Universitário de Aveiro

Não tendo estudado lá, não sei se o Campus Universitário de Santiago, em Aveiro, resulta.
Mas que parece um espaço arejado e de qualidade arquitectónica, ai isso parece.
Junto ao centro da cidade, iniciado em 1973, e com projectos de expansão desde então, quase todos os maiores arquitetos portugueses têm deixado aqui a sua marca, nomeadamente, Siza Vieira (biblioteca), Goncalo Byrne (Reitoria), Adalberto Dias, irmãos Aires Mateus, Alcino Soutinho, Souto Moura, Carrilho da Graça (Ponte). 
Entrando na biblioteca e vendo o mobiliário arquitectado por Siza Vieira lembro do que este afirmou em tempos, de que uma cadeira era para ser sentada e que a mesa tinha outra função, e finalmente entendo o porquê.
Neste campus encontramos uma série de edifícios, todos em tijolo ocre cerâmico, respeitando a tradição local. Edifícios comuns a quase todas as universidades, como salas de ensino e investigação, refeitórios, bibliotecas, auditórios, mas também outros como residências, equipamentos desportivos e serviços (banco, correio, lojas). 
Diz-se que serão 65 os edifícios no campus e que na sua área caberão cerca de 92 campos de futebol.
Algumas fotos.

Um passeio por Aveiro

Aveiro não é uma cidade muito grande. 
Desde o Canal Central, lugar onde todos os turistas se encontram, e saindo do belo edifício da Capitania, a cidade é rasgada pela Avenida Doutor Lourenço Peixinho, única digna desse título, a qual segue até à Estação Ferroviária. Ao longo desta Avenida encontramos todo o tipo de edifícios, desde aqueles prédios construídos já no nosso tempo até aquelas vilas de gente de posses e gosto. Impossível não esboçar um sorriso ao dar com a sede local do Partido Comunista num edifício apalaçado e a sede local do Partido Social Democrata num andar de um prédio que podia estar em qualquer centro de cidade portuguesa. Uma de um lado da avenida e a outra do outro lado, como convém. 

O comércio nesta Avenida, ainda feito de muitas pastelarias e algumas ourivesarias e lojas de roupa e calçado, é cada vez mais objecto da feroz concorrência do Fórum Aveiro. 
Tirando esta Avenida e o Fórum, existem duas centralidades distintas na cidade, divididas pelo Canal Central. Uma onde encontrarmos um núcleo onde estão instalados os equipamentos públicos, como a Câmara Municipal, o Teatro Aveirense, o Museu de Aveiro e a Sé, com ruas com comércio tradicional e edifícios antigos onde é possível distinguir as varandas em ferro; e uma outra, que diria mais vivida, onde do Rossio partimos para a Praça do Peixe e Cais dos Botirões. 

Pelos canais que saem do Rossio – e não é de todo de excluir um passeio no típico barco Moliceiro, que historicamente se dedicava ao transporte do moliço, juntando-nos às hordas de espanhóis – vemos os barcos típicos da Ria, com destaque imperial para o moliceiro. Os desenhos na proa e popa destes barcos são sempre muito coloridos e alternam na representação de elementos da cultura popular, sejam heróis como o nosso Cristiano, Cristo ou sentenças cheias de classe com alusões a figos, pitos, montadas e pacotes. Um hino ao mau / bom gosto (favor riscar o que não interessa). 
Se os moliceiros em Aveiro hoje se dedicam ao transporte de turistas, é bom de ver que os canais da cidade servem também para os atletas remadores treinarem, daí que não seja descabido nomear uma rua de Rua dos Remadores Olímpicos. Aveiro será uma cidade que acolhe jovens, não fosse ter uma Universidade no seu centro. 

Ao longo do Canal de São Roque, onde estão ainda instalados alguns edifícios para o depósito do sal, e em especial no Cais dos Botirões e Praça do Peixe, a animação é muita. Muitos restaurantes, bares e esplanadas. Muita cor nas casinhas à beira do canal. Até graffitis. 

Deixando-nos perder pelas ruas estreitas que estão para além do Rossio – onde encontramos dos melhores exemplos de edifícios de Arte Nova -, logo vemos que os azulejos são uma marca poderosa no edificado da cidade, sejam igrejas ou prédios de habitação / comércio, a juntar à obra prima da Estação Ferroviária.

Cidade agradável de se percorrer sem pressa, sempre com a água da Ria ou dos canais por companhia, a Aveiro não faltam zonas para se deixar estar. Dois bons exemplos são os do Lago da Fonte Nova, para onde “desagua” o Canal do Cojo, e o Parque da Cidade, provavelmente o lugar mais romântico de Aveiro. 

E para o fim ficam os omnipresentes ovos-moles. Impossível escapar deles, porque estão por todo o lado nas diversas pastelarias e confeitarias e porque são mesmo deliciosos.

Pela História de Aveiro

Aveiro é cidade antiga, mas quem por ela caminha irá encontrar um passeio pela história de ontem até à história de hoje.
Já no século X encontra-se referência ao topónimo que hoje conhecemos por Aveiro: no testamento da Condessa Mumadona Dias ao Mosteiro de Guimarães esta doou-lhe as “terras in Alauario et Salinas”. Ou seja, Aveiro era então Alauario e já nela havia salinas, uma das actividades que ainda hoje, embora em muitíssimo menor escala, dominam a vida económica da cidade feita capital de distrito.
A palavra Aveiro terá derivado do latim “aviarium”. Haveria lá assim tantas aves? 

Outro marco histórico na cidade deu-se em 1472 com a entrada da Infanta Dona Joana, filha de Dom Afonso V, no Convento de Jesus. Esta decisão da Princesa, não muito bem recebida pelo seu pai e pelo seu irmão, irá como que colocar Aveiro no mapa do reino. Joana, que não é verdadeiramente santa, mas foi beatificada em 1693, é a padroeira da cidade.
No Convento de Jesus está hoje instalado o Museu de Aveiro (ou Museu Santa Joana Princesa). Este é um dos locais de visita que não se deve perder – este mosteiro dominicano feminino tem uma capela-mor fabulosa revestida a talha dourada. Para além disso, os claustros possuem um ambiente singular, com a sua fonte sem água de quarto cabeças. Das várias salas ao longo dos claustros a do refeitório é aquela que mais facilmente nos transporta para os tempos em que as dominicanas em clausura se reuniam para a refeição nos lugares marcados. Se não podiam falar, ao consolo da comida juntava-se o consolo da bela decoração azulejar.
Este museu possuiu ainda, no segundo piso, uma boa colecção de pintura, estatutária e mobiliário. O maior exemplo será a pintura de Santa Joana atribuída à escola de Nuno Gonçalves.

Voltando à história de Aveiro, a sua situação geográfica permitiu que desde muito cedo a população aí se fixasse. As salinas, a pesca e o comércio marítimo eram as actividades principais. 
No tempo dos romanos o lugar de Aveiro estaria ocupado pelas águas do mar. A Ria – elemento incontornável quando nos ocupamos de Aveiro – iria formar-se mais tarde. Um cordão arenoso foi surgindo ao longo da costa formando a Ria. Na época dos descobrimentos Aveiro possuía já cerca de 14000 habitantes e muitos conventos. A exploração das salinas continuava e era então acompanhada de viagens anuais à Terra Nova para a pesca do bacalhau. Também a agricultura e a caça de patos ocupavam as suas gentes e o moliço (daí o nome dos barcos moliceiros que o transportavam), como adubo natural, permitia que os solos tivessem uma melhor produtividade agrícola. 
Acontece que com o tempo a separação da Ria e do mar tornou-se cada vez maior e o cordão de areia passou a impedir o Vouga de desaguar no Atlântico. A Ria deixou de ter acesso ao mar e a vida das suas gentes alterar-se-ia. Aveiro deixa de ser um porto marítimo. Para piorar, o nível da Ria ia subindo cada vez mais e as suas águas cobriam as salinas e os arrozais, transformando-se em pântanos de águas paradas que se tornaram focos de doenças. A mortandade fez com que a população descesse para os 4000 habitantes entre os séculos XVII e XVIII.
O problema da Ria só seria resolvido em 1808 com a abertura da Barra Nova em São Jacinto, passando, assim, as águas da Ria a correr para o mar. Este novo canal navegável ligava ao mar e permitia finalmente o labor dos navios de comércio do centro da cidade até ao Atlântico.
A cidade de Aveiro abria-se ao mundo no século XIX. A actividade das salinas voltou e surgiram estaleiros navais e novas indústrias. A fábrica da Vista Alegre, que abriu em 1824 com o fabrico do vidro, é um exemplo.

Os industriais e a burguesia iriam dominar a vida da cidade no século XIX e XX e isso é bem visível no património edificado da cidade, sendo fácil para o visitante esbarrar com vários exemplos de Arte Nova e construções em tijolo ocre ou com as omnipresentes fachadas de azulejo. Hoje, exemplo maior da actualização arquitectónica da cidade encontramo-lo no campus universitário, onde intervieram quase todos os maiores nomes da arquitectura portuguesa do nosso tempo.

O futebol, com o Euro 2004, foi também ele um elemento que contribuiu para a introdução de uma alteração significativa na paisagem. Não falo do deserto Estádio de Aveiro, mas antes da zona da Fábrica de Cerâmica Campos. Para este imenso edifício foram transferidos muitos dos serviços camarários e junto ao lago artificial – Lago da Fonte Nova – encontramos ainda o interessante edifício do Hotel Melia e uma nova urbanização de cujas varandas invejo as vistas.

Uma palavra mais para a estação de comboios de Aveiro. A chegada do caminho de ferro (e, mais tarde, do IP5) foi igualmente um factor que contribuiu para uma maior abertura e desenvolvimento da cidade, mas o seu edifício principal em Aveiro trouxe-nos e dá-nos ainda hoje muito mais do que isso. A sua decoração em azulejos que remetem para a vida natural, económica e cultural na região é lindíssima. Aqui estão representadas cenas de vindima, marinhas de sal, chegada dos barcos de pesca, a tricana, a peixeira, o pescador, a ria.
Como sempre, vamos dar à Ria – elemento ao qual a natureza e o desenvolvimento de Aveiro está intimamente ligado.