Ílhavo e o seu Museu Marítimo

 
Município português que se preze tem rotundas com finalidade que não a de exclusivamente disciplinar o trânsito. Ílhavo dá-nos logo à entrada um belo exemplo, juntamente com o moderno edifício da Câmara Municipal. 
No entanto, dá-nos muito mais do que isso. O seu centro está cuidado e abundam aqui os exemplos de edifícios de arte nova e revestidos a azulejos, como também se observam em Aveiro. Existem ainda belos exemplares de solares e vilas, como aquela que hoje é ocupada pela Junta de Freguesia. Possui um Centro Cultural cuja fachada vista da rua principal é susceptível de nos confundir com um qualquer bloco em vidro de centro comercial. Como aconteceu. Infelizmente terá encantos escondidos, os quais terão de ser comprovados em nova visita.

O que ficou finalmente comprovado nesta visita foi o interior do Museu Marítimo de Ílhavo, depois de aqui há uns anos ter apreciado a sua arquitectura exterior. Só por este edifico e museu vale a pena a visita à sede deste concelho.
O projecto de arquitectura de remodelação do Museu Marítimo de Ílhavo, da autoria da ARX Portugal, foi objecto de merecidos prémios. A sua envolvente não é fantástica, mas o desenho de linhas direitas do edifício é muito interessante e remete-nos para a imagem de um barco. A cor branca domina, em harmonia com uma vivenda de esquina preenchida de azulejos.
O seu interior é amplo, com uns cortes aqui e ali deixando entrever os espaços exteriores, e cheio de luz.
Inaugurado em 2001, tem sido desde aí um sucesso museológico. No ano passado teve um total de 66500 visitantes, um dos museus municipais mais visitados do país e um número nada despiciendo no panorama de todos os museus nacionais.
O Museu Marítimo de Ílhavo dedica-se à missão de contar a história do bacalhau e da faina, bem como mostrar-nos a indissociável vida marítima do município. Provavelmente, o mais popular de todo o espaço é o recente Aquário de Bacalhaus. Para quem está habituada a vê-lo apenas desfiado ou em postas no prato é uma experiência encantadora constatar que é um peixe que também sabe nadar, com cabeça, abanicos a fazer de mãos e cauda.

A cultura do mar é aqui rainha e para um país como o nosso a visita a este museu devia fazer parte do plano de estudos obrigatório.
“Há uma espécie de céu no mar, onde as raias voam como pássaros, as estrelas dormem na areia e as nuvem de espuma enfeitam o espaço azul” – estas são as palavras retiradas do livro “Mar”, de Afonso Cruz, que nos dão as boas-vindas à entrada da exposição.
A primeira sala é dedicada à Faina Maior, com a reconstrução de um iate de pesca do bacalhau, onde é possível termos uma pequena ideia do ambiente (duro) em que eram eram vividos os dias passados pelos pescadores em mar alto e os artefatos de que se faziam acompanhar. Terrível ver o barquinho (dóri), “frágil e esguio”, onde eram deixados sós e praticamente indefesos na sua labuta de nos trazer os bacalhaus.
Pelo caminho vamos vendo alguns vídeos e lendo citações retiradas do livro “A Campanha do Argus”, de Allan Villiers.
Da Pesca: “Pouco depois das quatro da madrugada, o capitão lança ao mar os seus cinquenta e cinco dóris. Arriados os botes, não há meio de comunicar com os pescadores para lhes dizer onde está o peixe. É cada um por si. É preciso muito tempo, doze horas ou mais, para que cada pescador lance e recolha o trol, a fim de encher o dóri e voltar ao navio. Se o primeiro lance não rende, o pescador parte à procura de outro sítio, às vezes a milhas de distância do primeiro. Quando há peixe, o pescador obriga-se a sobrecarregar o dóri. Mas nunca tem por certo o regresso ao navio”.
Sobre a Viagem: “Quando se afastam da Costa, homens e navios sentem o vento a soprar mais forte. O mar invade a parte baixa do convés e as ondas quase esmagam as pilhas de dóris. Assim que o mar acalma, distribuem-se os botes. Cada pescador prepara o seu dóri. O navio e a tripulação acomodam-se bem à vida no mar. Aos poucos, adapta-se o navio para acolher e preparar o bacalhau: afastam-se as pilhas de dóris para desimpedir o convés para os trabalhos de limpeza e escala do peixe. A tripulação prepara-se para lidar com grandes quantidades de bacalhau. O navio dirige-se aos banco da Terra Nova.”
A pesca do bacalhau pelos portugueses terá tido início no século XVI, precisamente com destino à distante Terra Nova. A aventura real destes homens fez com que se criasse um mito.
Ílhavo forneceu muita mão de obra para estas viagens, para além de aqui terem também surgido algumas companhias de construção dos navios. Não só para a pesca do bacalhau saíram estes homens. Também para o Algarve imigraram em busca da pesca da sardinha. 
Uma homenagem a eles nas palavras de Allan Villiers “Os homens de Ílhavo sempre seguiram o mar. Navios, navios, navios, marinheiros, marinheiros, marinheiros – a história de Ílhavo é a história deles.”

Neste museu encontramos ainda uma belíssima colecção de conchas de todos os mares do nosso planeta, uma boa colecção de pintura ligada à temática dos mares e alguns exemplares em tamanho real dos barcos típicos da ria – que não se limitam ao moliceiro.
Mas porque o bacalhau é personagem principal deste museu, fecharemos com mais uma muito curiosa citação: “Já se calculou que, se nenhum acidente impedisse a incubação dos ovos de bacalhau e se cada ovo atingisse a maturidade, só seriam precisos três anos para encher o mar. Assim, seria possível atravessar o Atlântico a pé, caminhando sobre o dorso dos bacalhaus” – Alexandre Dumas, Le Grande Dictionnaire de Cuisine, 1873.

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