Quem nunca ouviu falar da Quinta da Aveleda? Em Penafiel e a um pulinho do Porto, esta quinta classificada como monumento nacional esconde, para lá dos seus muros de granito, uma larga zona de vinhas, jardins e um conjunto de edifícios variados que seduzem qualquer visitante disposto a encantar-se pela aliança da natureza e mão humana.

Um dos mais bem conservados jardins românticos em Portugal, a Quinta da Aveleda dispõe de visitas guiadas diárias, passando pelas suas imponentes e seculares árvores e terminando na eira, junto à loja e vinoteca, onde se fará a prova de vinhos. A origem da Quinta da família Guedes, que mantém a propriedade há muitas gerações, remontará ao século XVI, época em que era uma propriedade agrícola composta por várias quintas. Mas a Aveleda que hoje conhecemos começou a ganhar forma em 1870, ano em que Manuel Pedro Guedes, bisavó dos actuais proprietários, decidiu deixar a sua casa no Porto e instalar-se na Quinta da Aveleda. Nome inspirado nas profetizas Velledas, as mulheres da antiguidade conhecidas pela sua sabedoria, misticismo e influência política, o antigo deputado dedicou-se à Quinta, procurou em França as melhores técnicas da vitivinícola e foi alargando a propriedade, adquirindo terrenos ao redor. Restaurou a casa e a capela, construiu uma adega com capacidade para 300 pipas e foi transformando os jardins à volta em jardins ao gosto romântico. Foi nesse ano que teve início a produção de vinho na Quinta da Aveleda e não mais parou. Mais tarde, em 1938, já com os seus filhos como proprietários da Quinta, um enólogo francês de passagem pela região viria a ser decisivo para a transformação da marca numa produtora de vinho verde de qualidade. Em sequência, tomando o nome de uma parte da Quinta, em 1939 surge o vinho Casal Garcia, o primeiro vinho verde engarrafado exportado para o Brasil, sendo as colónias africanas o outro grande mercado da Aveleda. Ao mesmo tempo, continuou a construção de edifícios na Quinta e o enriquecimento dos jardins.



Rodeada por 205 hectares de vinha – 184 na região demarcada dos Vinhos Verdes e 21 hectares na região da Bairrada -, a visita guiada a parte dos 8 hectares dos jardins da Aveleda tem início e logo nos vemos totalmente imersos num ambiente exuberante e até exótico. Há um eucalipto com 70 metros de altura e quase 300 anos de vida, sequóias trazidas da Califórnia, um cedro japonês, sobreiros, diversos fetos, umas quantas árvores centenárias e muitas espécies raras. Graças ao clima muito próprio da Quinta, as camélias estão em flor grande parte do ano, como pudemos testemunhar no Outono.



Ao longo dos caminhos que vamos percorrendo, percebemos que tudo está cuidado e tudo foi pensado para que a perfeição seja alcançada, incluindo detalhes mimosos, como as floreiras cravadas nos troncos das árvores. Aqui e ali, vemos as crianças da família a passear pelos jardins, vivendo-os de forma a prosseguirem a missão dos seus antepassados, quando chegar a sua vez.



Já se disse, a Quinta da Aveleda é um excelente exemplo do romântico no nosso país, movimento que procurava exaltar os sentimentos, como a emoção e a nostalgia, inspirando-se no passado medieval e negando a simetria tão cara aos clássicos. Para o efeito, privilegiava o uso de materiais naturais, como a madeira, e uma decoração profusa, propondo-se a misturar estilos. Neoromânico, neogótico e revivalismo são alguns dos estilos que surgiram do romantismo. Sobretudo, as suas criações / construções são extremamente apelativas aos sentidos e as da Aveleda não fogem à regra. A Casa do Porteiro é um dos primeiros exemplos do acima descrito neste percurso guiado pelos Jardins. Parece uma casa saída de um conto de fadas, de madeira, telhado de palha e com torres a irradiarem. É uma das muitas follies que veremos, as excentricidades típicas do romantismo.



Segue-se a Casa Românica, quase escondida no meio da vegetação, com planos de transformação do seu uso para receções. E, logo a seguir, a Torre das Cabras, inusitado momento na Aveleda. Ou não. Afinal, recolhendo-se nesta estrutura de 3 andares estes animais, protege-se a vegetação da Quinta e, ao mesmo tempo, pela sua altura cria-se para eles um ambiente vagamente semelhante ao de montanha. Estas cabras são, ainda, muito queridas na Aveleda, uma vez que a Quinta também se dedica à produção de queijo e as crianças adoram-nas.



O Lago da Mata é um dos momentos altos da visita, com mais follies para descobrir. É aqui que está a designada Janela da Reboleira, oferecida a Manuel Pedro Guedes e originalmente parte da casa na zona ribeirinha do Porto onde nasceu o Infante D. Henrique e onde, diz-se, terá sido aclamado rei D. João IV. Expressão do gosto revivalista, esta janela quinhentista manuelina foi colocada numa espécie de ilha no meio do lago, e nela percebe-se a decoração vegetalista, típica, precisamente, do estilo manuelino.





Também no Lago vemos a muito pitoresca Casinha de Chá, de estilo vitoriano e com paredes de madeira e telhado de palha. Para tornar o lugar ainda mais gracioso, veem-se cobras, sapos, tartarugas e águias de louça como apontamentos decorativos, assim como banquinhos e outras estruturas em madeira. Chegamos à casinha depois de atravessarmos a pequena ponte de madeira e na sua peculiar varanda deleitamo-nos sobre o lago.



Perto está o Portão da Quinta do Ferro, outra estrutura transportada para a Aveleda, desta vez vinda de uma antiga propriedade de Lisboa. Não adentramos por este portão, antes seguimos no Jardim rumo à Fonte de Nossa Senhora da Vandoma, espreitando no caminho as vinhas da Aveleda.



A Fonte de Nossa Senhora da Vandoma é uma estrutura de granito dedicada à padroeira da cidade do Porto e nela descobrimos a água a correr de um “homem verde”, também em granito. Rodeiam-na uma série de flores e duas cadeiras em ferro convidam-nos a desfrutar do lugar, resistindo a rebolar no belo manto verde que compõe este cenário muito belo.


E, assim, aproximamo-nos da casa senhorial da Aveleda, construída no século XIX e ainda residência dos seus proprietários. Inspirada nos châteauxs de Bordéus, destacam-se os telhados ocres sucessivos e de formas variadas, assim como a sua fachada coberta de hera. Mais um evidente símbolo romântico. Diante da casa está a Fonte das 4 Irmãs, mandada construir por Fernando Guedes, filho do fundador, em homenagem às suas quatro filhas. Esta fonte tem gravados os perfis das 4 irmãs em medalhões de mármore, os quais representam as quatro estações do ano. Pura poesia.

Antes de terminarmos a visita guiada, uma paragem na Adega Velha, para mais surpresas. Já se disse, esta estrutura antiga tem capacidade de acomodar centenas de pipas, mas entre estas estão barricas de carvalho francês que guardam a aguardente de mesmo nome e, surpresa, uma garrafa trazida da Rússia do tempo dos czares.



Não sendo apreciadora de vinhos, dispensámos a sua prova. Visitámos, porém, a irresistível loja da Quinta da Aveleda, com uma mostra alargada dos seus variados produtos. E, no final, repousámos na Eira, admirando as casas – e capela – à sua volta, cheias de torreões e pormenores deliciosos, não faltando no cenário um muito típico canastro.