A Rota do Românico

A Rota do Românico, um projecto que une 12 municípios do norte de Portugal ao redor de 58 monumentos, tem tudo a ver com história, cultura e paisagem. Estes monumentos, na sua maioria mosteiros e igrejas, mas também castelos, torres, pontes e memoriais, foram erguidos entre os séculos XI a XIII, época da Reconquista Cristã, num território – a região dos vales do Sousa, Douro e Tâmega – que era, então, palco de disputas entre mouros e cristãos. Isto numa época que antecedeu, ou foi contemporânea, da formação do nosso país, tendo as ordens religiosas sido decisivas na formação do reino. Considerado o primeiro estilo europeu, o Românico assumiu características diversas a nível regional, as quais foram alterando de forma ao longo das épocas de construção, no caso português entre o século XI e o XV, já com o gótico como expressão dominante. A Rota do Românico, ou, melhor, as rotas do românico, são, pois, um óptimo pretexto para se partir à descoberta do nosso território e do nosso património.

Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa

Alexandre Herculano, o historiador que estudou a Idade Média e as origens de Portugal, realçou o papel das instituições monásticas na formação do país, tendo escrito que fundar mosteiros era um dos grandes meios de povoar lugares desertos, uma vez que em volta destas residências monástico-militares a população e a cultura cresciam rapidamente. Com efeito, após a invasão árabe da Península Ibérica, os vários reinos cristãos a norte da península empreenderam a Reconquista, com vista à recuperação de territórios ocupados pelos muçulmanos. Com isso, cerca do ano 1000, passou a verificar-se a presença de cavaleiros e altos dignitários do clero no norte da Península Ibérica e, em especial, no norte do que é hoje Portugal. Vieram das terras para lá dos Pirinéus, sobretudo da Borgonha (da Abadia de Cluny) e da Gasconha. E foram, décadas depois, secundados pelo apoio de diversas ordens militares, como a Ordem dos Hospitalários e a Ordem dos Templários, ordens de cavalaria militar e religiosa originárias de Jerusalém e instituídas com o propósito da cristianização, as quais introduziram no nosso território o até aí ausente espírito de cruzada. A Reconquista no norte de Portugal, então Condado Portucalense, estendeu-se até meados do século XII e, nessa época, os frades guerreiros e seus descendentes desempenharam um papel decisivo na tomada de povoações, expansão do território, fixação de novos habitantes e na fundação do próprio Reino de Portugal. É nessa medida que os mosteiros se revelaram decisivos no estabelecimento das populações, ao mesmo tempo que se dedicavam à difusão dos valores e dos ideais da Reconquista.

Mosteiro de São Pedro Cete
Mosteiro do Salvador de Travanca

Se o Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, veio da Borgonha, acabando a re-erguer o Condado Portucalense em 1096, Monio Viegas, ascendente de Egas Moniz, o Aio de D. Afonso Henriques, terá vindo da Gasconha por volta do ano 1000 e deu início à reconquista do Ribadouro ocidental. Ficou para a história como o fundador de uma das cinco primeiras famílias nobres portuguesas mais poderosas do seu tempo, precisamente, a Casa de Ribadouro. Dessas cinco, três estavam nesta região: para além da Casa de Ribadouro, os senhores de Baião e os Sousa.

Igreja de São Vicente de Sousa
Mosteiro de São Pedro Cete

Como isto anda tudo ligado, a Rota do Românico serve hoje de memória e de parceiro para se partir à descoberta das origens de Portugal. Mas, à boleia da história, recebemos também uma aula de arte, e percebemos como os mosteiros e as igrejas tiveram, igualmente, um papel importante no domínio artístico. Erguidos em pedra granítica num estilo vernacular, a sua estrutura é robusta e resistente. Não raro, veem-se nestes edifícios torres, mais uma evidência do carácter religioso-militar dos seus fundadores.

Mosteiro de São Pedro Ferreira
Mosteiro de São Pedro Ferreira
Igreja de São Gens de Boelhe
Igreja de São Gens de Boelhe
Mosteiro de São Pedro Cete
Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa

As decorações ornamentais do românico, em especial dos seus capitéis e cachorros, são o que mais encanto despertam. Com motivos variados – vegetalistas e geométricos, mas também animalistas (reais ou do fantástico) e, em menor escala, figuração humana -, possuem quase sempre uma fantasia capaz de surpreender até o mais insensível. A escultura decorativa era o meio privilegiado usado pela Igreja para transmitir à sociedade a sua mensagem, daí o recurso muitas das vezes a elementos e símbolos moralizantes, com cenas onde o bem e o mal se enfrentam, uma forma directa de impressionar e educar. São, por isso, comuns tímpanos dos portais das igrejas com a cena do Dia do Juízo Final, onde Jesus Cristo se encarregaria de separar as almas – o bem e o mal – enviando-as para o paraíso ou para o inferno. Para se perceber todo o glossário e simbologia associada ao Românico, é indispensável uma visita quer ao Centro de Interpretação do Românico, em Lousada, quer ao Centro de Interpretação da Escultura Românica, em Abragão.

Mosteiro de São Pedro Ferreira
Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa – Túmulo de Egas Moniz

A visita ao interior das igrejas nem sempre é fácil de garantir, estando na maior parte dos casos dependente de marcação prévia – e paga -, sendo a estratégia de visita à hora da missa uma excelente oportunidade para se conhecer a beleza simples e austera das igrejas do românico. Até porque algumas delas escondem autênticas obras primas, como é o caso da Igreja do Mosteiro do Paço de Sousa, guardiã do incrível túmulo de Egas Moniz, o Aio.

Torre de Vilar
Vale do Sousa

E, claro, não deixamos de apreciar as belas paisagens no caminho. Uma paisagem definida pelos rios que aqui marcam presença e possibilitaram a vida humana nos seus férteis vales. É, sobretudo, um cenário ainda rural, tranquilo e bucólico, com vales suaves, baixas altitudes e solos graníticos que forneceram o material para levantar os monumentos que tantos séculos depois se mantém de pé e prontos a serem (re)descobertos.

Ponte de Vilela

Por fim, importa perceber que o projecto turístico-cultural “Rota do Românico” é, na verdade, um conjunto de rotas pela região dos vales do Sousa, Douro e Tâmega, apoiado por diversas entidades públicas. Embora a maioria dos exemplos da arquitectura e arte do Românico estejam a norte, existem, no entanto, outras regiões do nosso país onde o românico está presente, como em Coimbra, Lamego, Viseu e Tomar, embora esta última numa fase de transição para o gótico. A sul são raros os exemplos, com a Sé de Lisboa a ser uma das (muito boas) excepções. Ou seja, há muito território para palmilhar para partir à descoberta do românico e das memórias de Portugal.

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