Wadi Mujib

Wadi Mujib é chamado Petra na água. Caminhar pelos seus trilhos é uma das mais surpreendentes aventuras que se pode ter na Jordânia, até porque vem fora dos roteiros das viagens pelo país ou, quando incluída, não passa da vista da ponte à entrada desta reserva natural. Ainda assim, e comparado com os turísticos sítios de Jerash e Petra, é aqui no seu centro de visitantes que encontramos o espaço com mais dignidade para receber os ditos. Mas, tal como os dois mencionados, também aqui a entrada não é nada barata, mas também aqui o espaço vale cada tostão pago.
Aqui encontramos uma grande diversidade de flora e fauna, mas mesmo quem não ligue para isso ou não tenha tempo para dedicar às plantinhas e passarinhos terá aqui um grande momento.


Porquê o nome de “Petra na água”? Porque os seus mais populares trilhos são feitos na água e porque a paisagem é extremamente parecida com Petra. Wadi quer dizer “vale”. Percorremos, então, um vale encravado num estreito com penhascos iguais aos de Petra, com as mesmas cores e tudo. O trilho mais fácil e o único que dispensa um guia é o Siq Trail, cerca de um 1 km que termina numa queda de água fantástica e poderosa. Se se conseguir subir ou de qualquer forma atravessar esta queda de água, mais sítios fantásticos se descobrirá. Digo isto porque, para se chegar até esta queda de água, há que perseverar, aventurar, ser criança de novo e vencer os vários desníveis de terra e de água que se vão sucedendo, subir pedras e descê-las como se estivéssemos num tobogã. Eu que sempre me recusei a fazer canyoning dei comigo frente a um sem esperar. Mas foi muito divertido.

Ainda assim, esta experiência logo no começo das férias esteve à beira de as estragar. Na descida de uma das pedras maiores e que envolvia uma queda na água um pouco turbulenta aqui a míope deixou cair os óculos. Pânico… como descobri-los naquela torrente de água que ora fazia redemoinhos junto à pedra, ora a fazia correr em direcção ao próximo desnível? Vá que pelos vistos os miúdos jordanos são determinados e Ahmad não perdeu tempo em, mesmo de mão no nariz, mergulhar e achar os meus óculos. Obrigado Ahmad.

Ainda no que a reservas e parques naturais diz respeito, outra boa experiência será a Reserva da Biosfera Dana. Apenas vimos de cima este pedaço de montes e vales com rochas escarpadas e ficámos com pena de não podermos caminhar por aqui. Mas este é um problema de quem tudo quer fazer mas sabe que há escolhas a tomar. Seguimos para Petra.

Mar Morto

No Mar Morto, língua de água cheia de sal que divide a Jordânia de Israel, há praias públicas, mas para se viver em grande há que ficar num resort. Claro que a grande experiência é entrar na água, mas vale a pena gastar mais uns tostões que, feitas bem as contas, talvez não sejam assim tão mais, uma vez que mesmo nas praias públicas se paga bem para entrar.

O Mar Morto é o ponto mais baixo do planeta no que a altitude diz respeito, a cerca de 423 metros abaixo do nível médio da água. Dada a elevada salinidade, é quase impossível a vida neste mar / lago. A água parece um espelho autêntico, de um azul tão profundo que parece ter sido pintado à mão. Quando o sol se põe, então, os reflexos dos pequenos gestos das pessoas a boiar dão-nos uma imagem lindíssima.

Quando entramos na água o difícil é assumirmos qualquer coisa parecida com a posição vertical. A mãe tinha dito que era perigoso entrar aqui, que não podíamos mergulhar se não era como bater com a cabeça numa parede, e que se bebêssemos um pirolito morreríamos de imediato. Para a descansarmos prometemos que não mergulharíamos e que não abriríamos a boca ali perto. Cumprimos a promessa e não o fizemos. De qualquer das formas, se o tentássemos, não o conseguiríamos: o corpo não só não vai ao fundo como tentar nadar bruços sem que as pernas levantem é uma proeza que nem ao alcance de Michael Phelps estaria mesmo que ele nadasse o estilo de bruços. É verdadeiramente esquisito. Mas deslumbrante entrar ali com um jornal na mão e saber que não corremos o risco de o molhar porque as nossas mãos não conseguem entrar na água. O ponto negativo da história é que se tivermos um cortezinho na pele vai arder um bocado. Ui.

Um alerta, porém. Dada a necessidade de água para os vários resorts na área, bem como para o norte do país, Amman e arredores, o Mar Morto tem vindo a encolher. De lembrar ainda que a Jordânia é um dos países com graves problemas no acesso à água, o petróleo do futuro.

Jerash, Ajloun, Monte Nebo, Madaba, Karak e Shobak


A cerca de uma hora de Amman fica Jerash, a antiga Gerasa romana. É enorme, está bem conservada e, mais uma vez, não precisamos de muita imaginação para entender a função da maioria dos edifícios que sobrevivem. O que é muito bom, especialmente quando o sol inclemente nos mói a cabeça e não nos deixa pensar muito. Mas logo à entrada, ainda frescas, ficamos banzadas com o preço da entrada: 8 euros por um sitio arqueológico com uma entrada reles e com o preço emendado à mão numa placa, onde nem uma brochura estava disponível? Isso não é nada depois de ver o contentor que serve de bilheteira para cobrar os 50 euros diários de entrada em Petra. Mas deixemo-nos de conversa que ambos valem cada tostão. Ou, apenas um pouco mais de conversa: os meus 1000 euros de ordenado de um emprego em Portugal são nada quer para o taxista do norte da Jordânia, quer para o beduíno do sul do país. Fiquei de rastos. Mas prossegui viagem.



Jerash atingiu o apogeu enquanto cidade romana por volta do século III, tendo chegado a albergar cerca de 20 mil habitantes. É fácil de visitar, não tem muitas subidas, a não ser aos degraus dos seus belos teatros. Tecnicamente, a dificuldade está em passar pelos bodes que por lá pastam, entre uma coluna de uma antiga porta ou igreja romana e um pedaço de um templo.

Não muito longe, a cerca de 40 minutos, fica o castelo de Ajloun, envolto na paisagem mais verde que se pode encontrar na Jordânia. E, acreditem, o jardim do meu prédio, quando o Sr Diamantino vai de férias em Agosto e não há ninguém para regar a relva, é muito mais verde do que isto.

Aqui no norte da Jordânia estamos perto da Síria e de Israel, dois amigalhaços, e do vale do Rio Jordão. Um pouco mais a sul, mas perto de Amman e à beira do Mar Morto, fica o Monte Nebo e Madaba e mais uma série de locais bíblicos que não visitámos. O Monte Nebo, no entanto, não pudemos evitar, pese embora toda a nossa ignorância acerca da Bíblia. Mas foi aqui que, crê-se, Moisés viu a terra prometida e morreu descansado. A paisagem, se houver a sorte de apanhar um dia sem nuvens – o que não foi o nosso caso – deve mesmo assemelhar-se a um paraíso ou algo de ideal: é capaz de se ver o Mar Morto (esse é garantido porque o vimos), Jerusalém, Jerico e Belém.



A poucos quilómetros daí fica Madaba, a terra dos mosaicos. Esta é uma cidade pacata onde 1/3 dos seus habitantes são católicos. Quando esta comunidade começou a vir para cá, fugida de Karak, no sul, no século XIX, à medida que iam construindo as suas casas iam dando com uma série de mosaicos bizantinos. O mais importante dos quais é o mapa da Igreja de São Jorge com a terra prometida, considerado o mais antigo mapa da palestina. Existem várias igrejas ao lado de mesquitas, mas uma das que se deve visitar é a Igreja de São João Batista. Aí somos bem recebidos, a igreja é bonita, tem uma sala ao lado onde se pode ver um pouco da história de Madaba e podemos subir à sua torre para termos uma melhor percepção desta cidade encravada no deserto, como é quase toda a Jordânia.

Por falar em Karak, de onde os tais cristãos vieram, mais a sul na Jordânia, a sua visita é obrigatória pelo seu castelo. Dá para nos perdermos pelas suas muitas alas, em vários pisos, e muitas covinhas. Nesta cidade passei um dos maiores constrangimentos da minha vida. Como umas horas antes tínhamos estado em Wadi Mujib e tinha ficado com a roupa completamente encharcada, acabei por vestir o que saiu em primeiro lugar da mochila: uns calçõezinhos não muito curtos, mas curtos o suficiente para toda a gente olhar para mim, na sua maioria mulheres que cochichavam à minha passagem. Não, não foi apenas minha impressão. Até aí tínhamos andado muito bem comportadas no que a roupa diz respeito – calças por baixo do joelho e nada de camisolas de alças. A partir daí serviu de lição. Não há nada pior do que o incómodo de se sentir que se está a incomodar.

Voltando a castelos, em Shobak tem outro que se pode passar e visitar. É também um castelo dos Cruzados construído por volta do século XII.
Em seguida, alguns outros lugares a que daremos destaque individual e que perduraram na nossa memória como sítios e experiências fantásticas.

Amman

Amman é ao mesmo tempo uma cidade nova e uma cidade antiga, com vestígios de civilização já desde o neolítico, depois ocupada pelos Assírios, pelos Persas, pelos Gregos – que lhe deram o nome de Filadélfia –, pelos Nabateus, pelos Romanos, pelos califados dos Omíadas e dos Abássidas… ufa!
Então porquê dizer que é uma cidade nova? Porque até 1887 era quase que apenas um ponto no mapa. Foi quando os otomanos decidiram construir o comboio que ligaria Damasco a Medina que Amman passou a ser um ponto importante de passagem para os peregrinos e para os comerciantes. E, depois, com a criação do estado de Israel em 1947, iniciou-se a primeira grande vaga de imigrantes palestinianos, seguida de uma segunda vaga em 1963 na sequência da Guerra dos 6 Dias, mais outra com o regresso a casa de muitos jordanos e mais pessoal que trabalhava no Kuwait depois da Guerra do Golfo em 1991 e, até ver, uma última de iraquianos com a invasão do Iraque em 2003.
Com isto tudo, não espanta que cerca de 60% dos jordanos sejam de origem palestiniana. Voltando a Amman, essa tem hoje quase 3 milhões de habitantes e espera-se que em 20 anos dobre a sua população.
A Jordânia, ao contrário de alguns dos seus vizinhos, não tem petróleo nem gás. Com excepção de uma parte relativamente pequena junto ao vale do Rio Jordão, o resto do país é praticamente deserto e impróprio para o cultivo. Mas esforços têm sido postos em marcha para tornar a capital um importante centro de negócios da região. O skyline tem vindo a mudar e, a ver pelos muitos guindastes, gruas e estaleiros vistos nas suas ruas, muito mais mudará em breve.
Não passamos lá muito tempo. Pareceu-me uma cidade difícil de entender, mas segura, com muitas colinas – dizem que são 7, como dizem de Lisboa – ocupadas por casas e mais casas. Não fosse por tudo o resto, só a contingência da constante recepção de refugiados imigrados nunca permitiria que fosse aqui possível qualquer tipo de ordenamento do território, em especial um urbanismo pensado e com lógica.
À parte disso, é perfeitamente perceptível a existência de duas Ammans. A do centro, com os souks e mulheres cobertas nas ruas. E a localizada mais a ocidente, em bairros como Abdoun e Shmeisani, também com mulheres cobertas nas ruas, mas com edifícios mais bonitos e modernos. E também Jabel Amman, bem juntinho ao downtown, uma mudança radical que pode ser percorrida a pé sem sequer ter que passar por um dos famosos circles que dominam o tráfego em Amman.
Aqui, no meio do caos das casas construídas nas colinas da cidade, que com a cor da terra se confundem, vamos encontrando umas ilhas que nos lembram que esta é uma cidade no século XXI. Exemplos?


– Darat al-Funum, uma espécie de centro de arte contemporânea, com um encantador café que ainda por cima tem uma vista que nos ajuda a esquecer do mundo, assim como o faz a sua escultura


– a esplanada empoleirada dos gelados Movenpick


– o restaurante lounge Living Room. Fica uns pisos acima de um dos restaurants mais chiques da cidade, daí talvez o pretensiosismo deste ponto da moda. Mas a cor que o cair do sol aplica no monte de casas ali mesmo à mão supera tudo.

Voltando ao centro de Amman, é mesmo imprescindível almoçar no Hashem. O quê? Falafel e húmus, pois claro. O melhor mesmo é ir deixando que nos ponham a comida na mesa, na certeza de que o preço não passará dos 5 euros por pessoa. ~

E, depois, um mergulho na antiguidade com a visita ao teatro e cidadela. A antiga Filadélfia tinha um teatro que comportava 6000 pessoas. Lá em cima, no mais alto monte da cidade, ficava a Citadela – Jebel al-Qala´a, com ruínas dos períodos romano, bizantino e omíada que permitem mais do que imaginar o que havia por ali. Com estas duas “atracções” é interessante verificar o corte no tempo que existiu em Amman.
Uma das cidades do mundo a ser habitada de forma continua há mais tempo, teve história, foi quase que abandonada e decresceu em população até que desde há um século tem vindo a crescer astronomicamente neste item. Conserva umas ilhas de edifícios históricos interessantes e aqui e ali outros edifícios mais recentes que dificilmente perdurarão no tempo. Na sua maioria não são agradáveis à vista, mais pelo contexto histórico em que acabaram por ser construídos e a função de servirem de abrigo a um fluxo enorme de refugiados.
Cenário negro e cidade a passar rapidamente? Não, de todo. Não é certamente a cidade que mais gostei de conhecer, eu que facilmente me deixo fascinar por cidades caóticas e do “3.º mundo” (tipo La Paz e Phnom Penh).
Mas é uma cidade. Com gente, com vida, a crescer necessariamente. E nas cidades, se caminharmos por elas, se perseverarmos, somos sempre brindados com uma surpresa aqui e outra ali.