Amman

Amman é ao mesmo tempo uma cidade nova e uma cidade antiga, com vestígios de civilização já desde o neolítico, depois ocupada pelos Assírios, pelos Persas, pelos Gregos – que lhe deram o nome de Filadélfia –, pelos Nabateus, pelos Romanos, pelos califados dos Omíadas e dos Abássidas… ufa!
Então porquê dizer que é uma cidade nova? Porque até 1887 era quase que apenas um ponto no mapa. Foi quando os otomanos decidiram construir o comboio que ligaria Damasco a Medina que Amman passou a ser um ponto importante de passagem para os peregrinos e para os comerciantes. E, depois, com a criação do estado de Israel em 1947, iniciou-se a primeira grande vaga de imigrantes palestinianos, seguida de uma segunda vaga em 1963 na sequência da Guerra dos 6 Dias, mais outra com o regresso a casa de muitos jordanos e mais pessoal que trabalhava no Kuwait depois da Guerra do Golfo em 1991 e, até ver, uma última de iraquianos com a invasão do Iraque em 2003.
Com isto tudo, não espanta que cerca de 60% dos jordanos sejam de origem palestiniana. Voltando a Amman, essa tem hoje quase 3 milhões de habitantes e espera-se que em 20 anos dobre a sua população.
A Jordânia, ao contrário de alguns dos seus vizinhos, não tem petróleo nem gás. Com excepção de uma parte relativamente pequena junto ao vale do Rio Jordão, o resto do país é praticamente deserto e impróprio para o cultivo. Mas esforços têm sido postos em marcha para tornar a capital um importante centro de negócios da região. O skyline tem vindo a mudar e, a ver pelos muitos guindastes, gruas e estaleiros vistos nas suas ruas, muito mais mudará em breve.
Não passamos lá muito tempo. Pareceu-me uma cidade difícil de entender, mas segura, com muitas colinas – dizem que são 7, como dizem de Lisboa – ocupadas por casas e mais casas. Não fosse por tudo o resto, só a contingência da constante recepção de refugiados imigrados nunca permitiria que fosse aqui possível qualquer tipo de ordenamento do território, em especial um urbanismo pensado e com lógica.
À parte disso, é perfeitamente perceptível a existência de duas Ammans. A do centro, com os souks e mulheres cobertas nas ruas. E a localizada mais a ocidente, em bairros como Abdoun e Shmeisani, também com mulheres cobertas nas ruas, mas com edifícios mais bonitos e modernos. E também Jabel Amman, bem juntinho ao downtown, uma mudança radical que pode ser percorrida a pé sem sequer ter que passar por um dos famosos circles que dominam o tráfego em Amman.
Aqui, no meio do caos das casas construídas nas colinas da cidade, que com a cor da terra se confundem, vamos encontrando umas ilhas que nos lembram que esta é uma cidade no século XXI. Exemplos?


– Darat al-Funum, uma espécie de centro de arte contemporânea, com um encantador café que ainda por cima tem uma vista que nos ajuda a esquecer do mundo, assim como o faz a sua escultura


– a esplanada empoleirada dos gelados Movenpick


– o restaurante lounge Living Room. Fica uns pisos acima de um dos restaurants mais chiques da cidade, daí talvez o pretensiosismo deste ponto da moda. Mas a cor que o cair do sol aplica no monte de casas ali mesmo à mão supera tudo.

Voltando ao centro de Amman, é mesmo imprescindível almoçar no Hashem. O quê? Falafel e húmus, pois claro. O melhor mesmo é ir deixando que nos ponham a comida na mesa, na certeza de que o preço não passará dos 5 euros por pessoa. ~

E, depois, um mergulho na antiguidade com a visita ao teatro e cidadela. A antiga Filadélfia tinha um teatro que comportava 6000 pessoas. Lá em cima, no mais alto monte da cidade, ficava a Citadela – Jebel al-Qala´a, com ruínas dos períodos romano, bizantino e omíada que permitem mais do que imaginar o que havia por ali. Com estas duas “atracções” é interessante verificar o corte no tempo que existiu em Amman.
Uma das cidades do mundo a ser habitada de forma continua há mais tempo, teve história, foi quase que abandonada e decresceu em população até que desde há um século tem vindo a crescer astronomicamente neste item. Conserva umas ilhas de edifícios históricos interessantes e aqui e ali outros edifícios mais recentes que dificilmente perdurarão no tempo. Na sua maioria não são agradáveis à vista, mais pelo contexto histórico em que acabaram por ser construídos e a função de servirem de abrigo a um fluxo enorme de refugiados.
Cenário negro e cidade a passar rapidamente? Não, de todo. Não é certamente a cidade que mais gostei de conhecer, eu que facilmente me deixo fascinar por cidades caóticas e do “3.º mundo” (tipo La Paz e Phnom Penh).
Mas é uma cidade. Com gente, com vida, a crescer necessariamente. E nas cidades, se caminharmos por elas, se perseverarmos, somos sempre brindados com uma surpresa aqui e outra ali.

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