Pela EN2, na companhia de um castelo e um mergulho: 5ª etapa – Sardoal – Castro Verde (386 km – 638 km)

“Há quem se canse de percorrer as estradas intermináveis e lisas desse latifúndio sem relevos. Há quem adormeça de tédio a olhar a uniformidade da sua paisagem […] Amedronta-os a solidão de uma natureza que não se esconde por detrás de nenhum acidente, corajosa da sua nudez limpa e total. Eu, porém, não navego nas águas desses desiludidos.” – Miguel Torga, in O Alentejo

Esta é a etapa mais longa da nossa jornada pela EN2, aproveitando as várias rectas que as planícies do Alentejo nos oferecem, algumas delas intermináveis.

A saída do Sardoal em direcção a Abrantes é feita na companhia de intensa vegetação. E parece que os pinheiros e eucaliptos que vinham a dominar a paisagem da Beira desapareceram. A EN2 passa em baixo da cidade de Abrantes, instalada numa colina, vendo-se o castelo ao alto e o Tejo no lado esquerdo. E passamos a ponte rumo a além Tejo. Várias povoações de beira de estrada desfilam, umas atrás das outras, mas logo dão lugar a uma zona industrial e a alguns campos cultivados, onde se vêem os pivots de rega, aquelas estrutura mecânicas típicas da paisagem ribatejana e alentejana. Acabaram as subidas e as descidas, as serras já não nos fazem companhia e Ponte de Sor é sempre a direito, não tem nada que enganar. No entanto, não temos a certeza se a cidade é ribatejana ou alentejana. Talvez se veja a si mesma como as duas.

Ponte de Sor é simpática e aqui a arte urbana convive lado a lado com o casario branco e amarelo e a zona ribeirinha ao longo da Ribeira de Sor presta-se a um passeio demorado. A visitar também sem pressas o Centro de Artes e Cultura, instalado na antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz, hoje com a fachada azulíssima. É isso, Ponte de Sor, cor por todo o lado.

Deixamos a cidade e, novamente sempre a direito, só resta pisar um pouco mais no acelerador e ir apreciando os túneis formados pelas copas das árvores que aparecem amiúde e ver desfilar os marcos, alguns instalado à sombra dos sobreiros. Daqui a pouco, Alentejo profundo adentro, talvez possam descansar à sombra de um chaparro.

Antes, porém, vem a barragem de Montargil e a EN2 faz-nos seguir com as suas águas mesmo ao nosso lado esquerdo. Há por aqui várias vilas e resorts e oferta de actividades náuticas em abundância. Mas há também uma pequena praia fluvial imediatamente antes da povoação de mesmo nome, estando a vila, curiosamente, instalada num monte. A paisagem não engana, chegámos ao Alentejo.

Antes de chegarmos a Mora vale a pena um desvio até ao Fluviário e Parque Ecológico do Gameiro. O Parque possui uma praia fluvial onde demos o nosso mergulho do dia após a bela caminhada nos seus passadiços ao longo da ribeira de Raia. São apenas 1,3 kms lineares, cerca de 20 minutos para cada lado a fazer ranger a madeira. A vegetação é abundante e diversos painéis informativos dão-nos conta da diversidade da flora e fauna locais. Este é um lugar a voltar, uma vez que é possível continuar a caminhar no final dos passadiços por uma zona de montado alentejano, num percurso circular de 5,5 kms que, por falta de tempo, não fizemos neste dia.

Assim como não explorámos Mora nem Brotas a pé, como merecem. Apenas deu para perceber que Mora veste de amarelo e Brotas de azul e amarelo. O verde fica para as oliveiras que compõem a vizinhança destas povoações.

E chegamos a uma mítica marca ou, neste caso, marco: o km 500 à passagem da aldeia do Ciborro. Ao longo do último século a povoação viu a estrada passar de terra batida a empedrada e, depois, a asfaltada e orgulha-se de ter crescido à medida que a Estrada se ia desenvolvendo.

Em Montemor-o-Novo é obrigatória uma paragem. Aqui está o nosso castelo do dia. Foi lá no alto do monte, com vista da EN2, que a antiga vila conquistada por D. Afonso Henriques aos mouros começou por se instalar e desenvolver. Hoje o recinto já não está todo muralhado, mas o que resta proporciona um ambiente fantástico. Entramos pela Porta da Vila com a Torre do Relógio ao seu lado e caminhamos por entre o mato passando pelas ruínas de antigas igrejas, do Paço dos Alcaides e do Convento da Saudação, num espaço largo que nos faz imaginar como seria grande a arquitetura e intenso o dia-a-dia da urbe há séculos.

Foi a partir do século XVI que se deu o abandono do castelo e a passagem dos habitantes para o arrabalde. Cá em baixo, a actual Montemor-o-Novo é igualmente digna de um passeio. As ruas estreitas do centro histórico deixam espreitar o castelo, sinal da sua dependência ainda, mas muitos outros elementos há para apreciar. Desde logo, as suas fontes monumentais, como a Fonte de Nossa Senhora da Conceição e a Fonte Nova (Chafariz do Besugo), ambas junto aos Paços dos Concelho. Mas também algumas casas senhoriais, igrejas e conventos e o jardim público com coreto.

Saímos de Montemor-o-Novo rumo ainda mais a sul. As rectas tornam-se mais frequentes e são cada vez mais longas. Por vezes aparece uma “curva” e sem arriscar muito podemos até atravessá-la em 5ª. Subidas? São mais ou menos isto.

Há quem ache a paisagem do Alentejo monótona e dificilmente alguém elegerá uma das suas estradas como uma das melhores para se conduzir. Não há curvas, não há desafios, não há surpresas. Precisamente por isso é que amo conduzir sobre elas. Porque posso dedicar-me em exclusivo à sua paisagem, descobrir uma fonte à beira da estrada, confirmar que há água nos charcos, rever umas vacas a pastar, perceber que há mais árvores para além dos chaparros, avistar ao longe um monte, ver desfilar os marcos – os mais bonitos de toda a EN2 estão no Alentejo. E nunca me canso das estradas, incluindo a N2, transformadas em túneis de árvores por centenas de metros.

Logo a seguir a Santiago do Escoural, onde se pode visitar a sua Gruta (agora exclusivamente por marcação prévia), um desvio de menos de 5 kms por uma estrada onde mal cabe um carro leva-nos até à Anta-Capela de Nossa Senhora do Livramento, um exemplar de arquitectura popular edificada no meio de uma paisagem pura.

De volta à EN2, da Casa Branca às Alcáçovas surge a terceira mais longa recta da Estrada: 5,5 kms em que nos prepararmos para uma das paragens mais históricas de toda a viagem. Alcáçovas é a vila onde em 1479 foi assinado o Tratado das Alcáçovas. Com a Paz de Alcáçovas, para além de se pôr termo a disputas sobre a sucessão dos reinos de Castela e de Portugal, os dois reinos acordaram na divisão dos territórios do Atlântico entre si.

Crê-se que o Paço dos Henriques tenha sido o local exacto da assinatura deste decisivo documento. A visita ao edifício restaurado recentemente permite-nos ainda conhecer sobre a arte dos chocalhos, importante e antiquíssima tradição da vila. Mas o ponto alto da visita é o horto e capela do solar, construção do século XVII conhecida como Jardim e Capela das Conchas. O interior da capela está totalmente decorado com embrechados e no jardim vêem-se igualmente diversas estruturas, como a fonte, com a mesma execução técnica decorativa, uma surpresa e uma raridade na região. E Alcáçovas é ainda uma vila de fortes tradições e tipicamente alentejana nas suas ruas e edifícios, sempre agradáveis de percorrer.

Prosseguimos na condução recta, mas à chegada ao Torrão tudo muda: há curvas (verdadeiras) até se atravessar o rio Xarrama e depois subimos até chegar à vila. É aqui que pela primeira vez vemos um dos típicos postais da EN2, o da publicidade ao Nitrato de Chile nas paredes alvas do Alentejo. Mas, passado o Torrão, logo voltam as rectas. As albufeiras são várias por aqui, não espreitámos a de Vale do Gaio, junto ao Torrão, mas fizemo-lo na de Odivelas, lugar onde há uma zona de lazer com parque de merendas e possibilidade de um mergulho.

Segue-se Ferreira do Alentejo, recebendo-nos com os seus silos industriais à entrada. A Capela do Calvário é o emblema desta vila, bem diferente do que estamos habituados a conhecer, com umas pedrinhas como decoração na sua fachada. Mas Ferreira é bem bonita, com as ruas brancas e amarelas, desertas à hora da sesta. É numa delas que encontramos a Casa do Vinho e do Cante, na antiga Taberna Zé Lélito, um espaço museológico que pretende preservar e divulgar as tradições locais.

De Ferreira a Ervidel apanhamos a segunda recta mais comprida, 8 kms de pura evasão, amendoeiras de um lado e girassóis do outro, qualquer uma delas plantações até acabar a vista.

A entrada em Aljustrel faz-se, à semelhança de Ferreira, com a companhia de silos industriais. Mas nesta vila, encaixada entre dois montes, ambos miradouros naturais de onde se percebe a sua topografia traçada a regra e esquadro com uma série de ruas paralelas umas às outras, a grande atracção é o seu histórico passado mineiro. O Parque Mineiro de Aljustrel proporciona-nos diversos percursos turísticos, através dos quais conhecemos a maquinaria e estruturas associadas a esta industria, bem como os bairros dos operários.

E, por fim, de Carregueiro a Castro Verde cai-nos nas rodas a mais comprida recta da EN2: 12 kms bem medidos. Se tivéssemos tentado percorrê-la no dia anterior não o teríamos conseguido, uma vez que um fogo havia cortado o trânsito na Estrada. Neste dia fizemo-lo com a paisagem à beira da Estrada negra e com os bombeiros ainda em acções de rescaldo. O Centro de Educação Ambiental do Vale Gonçalinho, uma opção de visita aqui perto, esse, viu pelo menos as suas aves mais novas em perigo de vida. Triste.

Desfrutámos do fim de tarde na piscina, a recuperar dos 40° do dia, e deixámos o passeio pelas ruas de Castro Verde para o dia seguinte, não sem antes enchermos a barriga de carne de porto preto num dos seus óptimos restaurantes.

Pelo Rio Ceira, da foz à nascente na Serra do Açor – 4° desvio à EN2

O Rio Ceira é afluente do Mondego, em cujas águas desagua poucos metros após as povoações de Ceira e Conraria. Antes, porém, percorre à volta de 100 kms por entre vales tranquilos ou abruptos, à vez, desde a sua nascente na Serra do Açor. Sob o Cabeço do Gondufo nasce o Ceira, a cerca de 1250m de altitude. Ou seja, é de um rio de montanha de que se trata. E um dos belos, com água fria para nos despertar todos os sentidos.

Começamos esta viagem pelo Ceira pela sua foz, subindo-o depois em busca de paisagens mais recolhidas e selvagens. A ponte metálica verde que une Conraria e Ceira (ambas concelho de Coimbra) parece menos sólida quando atravessada a pé do que de carro, mas em baixo o Ceira corre sereno, como que regalado com o caminho que o levou até aqui.

Seguimos pela Estrada da Beira com o rio sempre ao seu lado, até que uma curva mais pronunciada – de ambos, rio e estrada – nos deixa em Segade (Miranda do Corvo). Segade de Cá e Segade de Lá. A praia fluvial parece votada ao abandono e não tem grande piada, valendo no entanto pelas hortas que a rodeiam e a implantação da povoação em cova.

Mais adiante surge Foz de Arouce (Lousã) e a sua ponte. Em 1811 travou-se aqui aquele que ficou conhecido como o Combate de Foz de Arouce, tendo tido como consequência a retirada do exército francês comandado pelo General Massena a caminho de Espanha. Um obelisco comemorativo instalado junto à ponte marca o evento. Descemos até à beira do rio e aqui encontramos um pequeno mas agradável parque de merendas. Talvez este não seja o melhor lugar para nadar por ser raso e ter muitas pedrinhas, mas é seguramente suficiente para nos banharmos e permanecermos demoradamente com os pés na água a relaxar.

Com pouca demora atravessamos Casal de Ermio – e notamos que na região muitas povoações levam o nome “casal” – e estacionamos na Praia Fluvial da Bogueira. É bem bonita, florida e com todas as comodidades. Com espaço largo para nadar e até uma piscina para os mais pequeninos, possui ainda um bar e parque de merendas. Como se não fosse pouco, podemos ainda caminhar ao longo do rio por entre o sossego da paisagem fluvial feita de salgueiros, amieiros e fetos-reais.

A Praia Fluvial da Senhora da Graça é a praia fluvial de Serpins, igualmente com todas as comodidades para receber os visitantes e óptima para umas braçadas. Neste caso tem até um parque de campismo como vizinho. E a Igreja Matriz de Serpins como vigia, instalada numa elevação sobre o Ceira.

Continuando caminho, a próxima paragem requer atenção para não se perder a ponte de Maria Mendes, onde atravessamos para a outra margem do nosso rio e depois seguimos por uma estrada de terra batida por uns 2 kms. A estrada serve perfeitamente para qualquer carro e o único problema é ser estreita e obrigar a manobras caso se apanhe um veículo a circular no sentido contrário. Mas tal não pode e não deve demover ninguém de tentar chegar ao mais incrível pedaço do Ceira.

É o Cabril do Ceira, também conhecido como Garganta do Ceira. Até aqui o rio vem correndo normal, mais ou menos fundo, muitas vezes sobre pequenas pedras, com margens de terra. Mas neste exacto lugar duas íngremes paredes verticais se erguem, como uma garganta aberta para deixar o rio passar. E o Ceira aproveita o convite e forma nela uma piscina natural. Este é um fenómeno natural decorrente de um corte na rocha que levou ao afundamento do vale provocado pela erosão do rio. Tudo isto sucedeu no Ordovícico, um período anterior ao aparecimento dos dinossauros. Não creio, porém, que muitos dos nossos antepassados tenham aproveitado esta maravilha quartzítica. Nadar por entre estas paredes com dezenas de metros de altura é uma experiência incrível. Começamos com pé e a visualizar o fundo e à medida que nadamos até à garganta tudo se torna assustadoramente mais escuro. Ganhamos coragem para prosseguir, olhamos para cima para os penedos irmãos separados pelo Ceira e com mais umas boas braçadas percebemos que podemos nadar ainda mais adiante até nos libertarmos destas paredes e chegarmos a um espaço de margens mais habituais. Mas a sensação mais brutal que se pode ter é mesmo permanecer a flutuar na garganta formada pelos dois penedos.

Diz que os miúdos gostam de subir as rochas e desafiar as alturas só para saltarem e caírem nas águas frescas do Ceira. Observando bem, de facto encontramos uma escada de corda pendurada numa das paredes. No entanto, há quem prefira outras aventuras, embora igualmente engenhosas, como aquele casalinho que cortou uns ramos de uma árvore para construir uma cabana que assentou à beira da água. Ficámos a saber que apesar de pouco frequentado, este é um lugar de campismo selvagem.

Na parede esquerda percebemos ainda um túnel inacabado, consequência de uma antiga tentativa de abrir passagem para se instalar a linha férrea que ligaria Góis a Arganil, o que nunca aconteceu.

Isto é o que se passa cá em baixo. Lá em cima, no Miradouro do Santuário da Senhora da Candosa, o cenário não é menos brutal. Aqui estamos mesmo por cima da garganta do Cabril do Ceira, fenómeno geológico também conhecido como canhão fluvial. Cá do alto, por entre as cristas quartzíticas percebemos uma nesga de Ceira a furar para se libertar e encaminhar para o vale que passado o esforço se abre largo. O rio está tão fundo e tão encaixado nestas paredes que quase nem se percebe.

E porque todos os lugares incríveis têm a sua lenda, o Cabril do Ceira e a Senhora da Candosa não é excepção. Conta-se que um mouro convertido à fé cristã vinha para aqui alegremente pescar e que os invejosos dos seus companheiros não convertidos decidiram um dia expulsá-lo. Construíram, para tal, um muro que fechasse o rio e provocasse o seu afogamento. Mas, pese embora as insistências na sua reconstrução, este muro sempre aparecia desfeito ao dia seguinte. Foi então que um dos mouros não convertidos viu uma Nossa Senhora montada num jumento com um capuz e uma candeia na mão que ia destruindo as paredes muralhadas. Resultado: desistiu de muralhar o Ceira e converteu-se também ele e os seus companheiros ao cristianismo.

Ainda cá de cima no miradouro, dirigimos por fim o nosso olhar para a direita e damos com uma vista enorme de um vale verdejante, e já não o selvagem conjunto quartzítico das paredes do Ceira.

É por aí que encontramos a Praia Fluvial das Canaveias, em Vila Nova do Ceira (já concelho de Góis). Espaçosa e bonita, com areia e relva, é só escolher onde estender a toalha depois de mais um mergulho no Ceira.

Daqui seguimos por uns quilómetros pela EN2 junto às paisagens verdejantes que envolvem o rio Ceira até chegar à sua capital.

Góis é a povoação à beira Ceira mais conhecida. A sua Praia Fluvial da Peneda é uma imagem repetida, mas merece ser vista e revista. A Ponte Real adorna o Ceira, acolhendo-o no seu curto braço, da água avistamos o casario branco da vila, donde se distingue a igreja matriz, mas é a intensa vegetação a toda a volta que nos distraí.

Até aqui o Ceira andou sempre a caminhar por altitudes entre os 19m da foz e os 191m de Góis. Mas a partir de agora vai começar a subir. Ou melhor, a descer, uma vez que os rios correm para o mar e nós é que estamos a viajar ao contrário, a caminho da serra.

Continuamos a nossa jornada e entramos pelo Vale do Ceira na Serra do Açor, num sobe e desce constante, por entre povoações em cova ou meia encosta. Apesar de habituada a esta paisagem, surpreendo-me sempre que encontro estas aldeias, às vezes apenas lugares, empoleiradas na serra, tão isoladas.

O vale tem grandes quedas de nível e as linhas de água correm encaixadas. A maior parte das vezes é difícil de perceber o rio, sobretudo quando andamos lá bem em cima.

A Praia Fluvial da Ponte de Velha, logo a seguir à Cabreira, é linda, linda, linda. Com uma meia dúzia de casas de xisto como recepção, esta é a mais cénica de todas as praias fluviais do Ceira. Não é vigiada, não tem bar, mas é boa para nadar e ficar a contemplar a paisagem, incluindo a possibilidade de fazer estas duas actividades ao mesmo tempo.

Vamos continuar a subir pela estrada, rolando a uns 400m, enquanto o rio navega a uns 300m, e cerca de 10 kms depois da Cabreira aparece-nos ao virar da curva (uma de muitas) a praia Fluvial da Ponte, no Colmeal. Aqui vemos só uma a casinha de xisto (ou lousa?), suficiente para dar ainda mais graça ao lugar já de si bonito e sereno.

Daqui seguimos em direcção a Fajão e afastamo-nos um pouco do Ceira que contorna a Mata pelas suas traseiras. Esta vertente da Serra do Açor pertence já ao concelho da Pampilhosa da Serra e eram caminhos para mim totalmente desconhecidos. Até Fajão começamos por subir a bom subir. É uma paisagem impressionante e poderosa, com vales encravados nos montes que sobem a pique. Totalmente assustador para quem sofre de vertigens. E também para quem não sofre. Até que, lá em cima, encaramos finalmente os pedregosos Penedos de Fajão (ou Cabeço da Mata, a 902m) bem de frente. É uma bela e alongada crista quartzítica e por detrás dela esconde-se a aldeia da Mata e a Mata de Fajão.

Descemos aos 720m de Fajão, aldeia instalada a meia encosta que é parte integrante da rede das Aldeias de Xisto, e descemos ainda mais até aos 500m de Ponte de Fajão, o nome do lugar onde até este ponto da jornada apanhamos o Ceira a maior altitude.

Ponte de Fajão está belamente instalado no sopé das montanhas, no vale banhado pelo Ceira. A povoação tem poucas casas, onde se distingue uma ou outra de xisto no meio da maioria branca.

Aqui o Ceira faz uma espécie de curva, talvez procurando aninhar-se às encostas da sua preferência, e começa a subir cada vez mais e mais (ou, na verdade, a descer se nos lembrarmos uma vez mais do sentido para onde os rios correm). Chegado ao Porto da Balsa já passou dos 600m, na Alfubeira do Alto Ceira – onde o rio é mais largo – chega aos 650m, em Covanca passa dos 760m e em Malhada Chã dos 820m. Mas neste momento quase que nos esquecemos do rio Ceira, o nosso objectivo. A paisagem majestosa do Açor consome todas as atenções.

Sabemos que rolamos – nós a conduzir e o Ceira a nadar – junto aos picos mais altos da Serra do Açor. O Picoto da Cebola, o mais alto de todos, a 1418m, fica mesmo do lado direito acima de Covanca. E por cima de Malhada Chã fica o Pico de São Pedro do Açor, a 1342m, exactamente os mesmos a que está o Pico do Gondufo, a uns 5 kms em linha recta mais para lá de Malhada. Ou seja, Malhada Chã está rodeada dos mais altos picos do Açor.

A estrada de asfalto fica-se por aqui. O Ceira corre meia centena de metros abaixo da povoação e a sua nascente no Gondufo já vai perto, num território de fronteira entre três distritos: Coimbra, Guarda e Castelo Branco. Mas não a fomos espreitar. De carro não deve ser possível e a pé talvez seja mais acessível desde a vertente oposta, aquela onde o Piodão ocupa lugar mágico. Estes são já territórios de Arganil, a piscar o olho ao modesto Monte do Colcurinho, a meros 1244m (apenas o quarto mais alto do Açor), o pico da nossa infância e o mais mítico de Oliveira do Hospital. Um mundo, este Açor. Havemos de lá voltar. Voltamos sempre.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 4ª etapa – Vila Nova de Poiares – Sardoal (248 km – 386 km)

“Também lhe não acena uma paisagem límpida e aberta. A não ser nos boqueirões e nos píncaros da Estrela, onde se desce ao inferno e se toca o céu, enrugada e morena, a natureza beirã só de quando em quando se espraia e alegra.” – Miguel Torga, in A Beira

Começamos a etapa de hoje com esta citação de Torga sobre a paisagem da Beira, a qual parece antecipar a ausência de grandes momentos. Nada disso. A paisagem e o património construído podem ser por vezes desengraçados, mas como Torga logo de seguida acrescenta aparecem-nos inesperadamente certos recantos, como “trechos do Alva, pedaços do Vale do Zêzere, curvas do Mondego”.

Assim é. A etapa de hoje da EN2 é fortíssima nas opções para um mergulho. Garganta do Ceira, Góis, Alvares, Albufeira do Cabril, Mosteiro, Zaboeira, Fernandaires, Penedo Furado, Aldeia do Mato. Ufa. Umas mesmo junto à Estrada, outras pouco dela desviadas, todas excelentes para combater o calor extremo do interior da Beira. Nesta etapa quase que podemos não sair da água dos seus rios, ribeiras e albufeiras, não fosse o caso de termos um caminho a seguir rumo ao mar.

Saindo de Vila Nova de Poiares pela EN2 em direcção a Góis, um desvio de apenas 6 kms antes do meio do caminho leva-nos até ao mais incrível pedaço do Ceira. Se não conhece, vá conhecer e mergulhar numa piscina natural por entre dois penedos enormes conhecidos pela designação Garganta do Ceira (ou Cabril do Ceira). Desde os tempos de nadadora que fiquei perita em vestir e despir o fato de banho num instante, pelo que pouco tempo perco neste ritual. Ou seja, mergulho na Garganta do Ceira? Feito.

De volta à EN2, as curvas sucedem-se, o típico na região. Continuam a não existir muitas povoações à beira da estrada, o desordenamento florestal é enorme, com a paisagem dominada pelos eucaliptos novos a rebentar depois dos recentes fogos. É aqui que finalmente percebo como esta árvore que me é totalmente familiar é feia, com um tom verde completamente desgarrado da restante paisagem. Mas, curiosamente, à aproximação de Góis tudo muda e a vegetação torna-se até luxuriante. Os fogos não terão andado por aqui recentemente, felizmente.

Descemos a Góis, a capital do Ceira, espreitamos o rio e atravessamos a Ponte Real que nos guia até ao pequeno centro histórico. Tem alguma nobreza, com destaque para a Igreja da Misericórdia e para a Fonte do Pombal, para além de uma ou outra casa nobre. Aliás, a vila foi pioneira na iluminação eléctrica pública, nisso precedendo até Coimbra, capital de distrito.

Saímos de Góis e, se dúvidas houvesse, Portugal é mesmo um país de serras. E de penedos. Obrigatório o desvio até à bela aldeia de xisto da Pena, protegida pelos Penedos de Góis. E com um pouco mais de tempo podemos até percorrer a estrada que liga a Pena às demais aldeias de xisto do concelho – Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira – até se voltar de novo à EN2. Em tempos fizemo-lo, é confirmar aqui.

Seguimos novamente pela EN2, montanhosa e com a companhia do pinhal, percebendo-se agora que o fogo terá andado há pouco por aqui e que a vegetação seria mais frondosa. Mas logo depois a paisagem abre-se e torna-se grande, onde um pequeno conjunto de casas se aninha sob um fileira de penedos.

Alvares, junto à Estrada é uma povoação, mas é sobretudo uma praia fluvial. Uma daquelas inspiradoras, num cenário a que não falta sequer uma pequena ponte de xisto.

De volta à realidade, eis umas placas de estrada a anunciar o nome de povoações como Picha ou Venda da Gaita. Confesso que acho este último melhorzinho do que Venda da Rapariga, nome de outra terra beirã afastada da EN2.

Pedrogão Grande é sede de concelho, mas possui ambiente de aldeia. Pequena, com cafés à beira da rua, destaca-se a cúpula em azulejo da igreja matriz, diferente até mesmo na arquitetura da sua fachada.

Para os loucos por praias fluviais e coleccionadores de aldeias do xisto, vale a pena o desvio de apenas 5 kms até à aldeia de Mosteiro. De qualquer forma, a praia fluvial da Albufeira do Cabril, com piscina flutuante demarcada nas águas do Zêzere e tudo, fica mesmo à beira da EN2.

Mais, também Pedrógão Pequeno, outra aldeia de xisto, tem aqui a sua porta. A paisagem aqui é poderosa, com o estreito e alto vale do Zêzere a impressionar. A ponte Filipina, edificada no século XVII, que se avista do alto da Estrada (embora haja um percurso pedestre que nos conduz a ela), já não cumpre a sua antiga função de ligar as duas margens do Zêzere, substituída pelo empreendimento da construção da barragem. Mas continua lá, bem pequenina no fundo do vale.

Cruzado o Zêzere na Albufeira do Cabril entramos na Beira Baixa. E logo conhecemos a simpática Pedrogão Pequeno, percorrendo as suas poucas ruas.

Até à Sertã surge a dúvida: isto é o pinhal interior ou eucaliptal interior?

A Sertã tem tudo para uma visita agradável. Castelo, ribeira, ponte filipina, parque verde, convento transformado em hotel e uma bela localização geográfica. É nela que visitamos o nosso castelo do dia. As suas origens remontam ao século I a.C., na época romana, e faria parte de um rede de fortificações em volta da Serra da Estrela. Diz a lenda de Celinda que esta corajosa mulher expulsou os romanos atirando sobre eles uma sertage, uma frigideira larga com azeite a ferver. E daqui derivará o nome Sertã. No século XII a vila e o castelo terão sido reedificados e hoje, quando subimos ao outeiro onde foi instalado, vemos o largo terreiro com a Capela de São João Baptista e uma das antigas torres. Caso raro, possui cinco quinas. As vistas para lá da muralha são amplas.

Já cá em baixo, passeamos pelo tranquilo Parque da Carvalha, ao redor da ribeira da Sertã. Aqui encontramos a ponte antiga, também da época filipina, a embelezar ainda mais o lugar.

A EN2 da Sertã até Vila de Rei é um género de via rápida ladeada por uma vegetação intensa de pinheiros. Um pouco antes de Vila de Rei fica o Picoto da Melriça, o centro geodésico de Portugal, conforme marca a Pirâmide aqui instalada em 1802. A 592m de altitude estamos exactamente no centro do nosso país, equidistante em relação aos quatro pontos cardeais. É um miradouro com vistas de 360º para uma série de serras, incluindo a Estrela lá bem ao fundo, sendo que a direcção de Mação é a mais bonita.

E em Vila de Rei várias opções de curtos desvios se nos colocam. Para as praias fluviais da Zaboeira ou de Fernandaires, ambas na Albufeira de Castelo de Bode, para o Penedo Furado – praia fluvial e caminhada para cascatas em passadiços – ou para a aldeia de xisto de Água Formosa (estas duas últimas com post escrito aqui).

Mas ainda não foi numa destas que voltámos a mergulhar. Continuámos, antes, a caminho do Sardoal e subimos a Entrevinhas, com uns cénicos moinhos e vinhas a caminho, claro. Num ponto alto, este é um parque de merendas com miradouro e uma área de pinhal. Recentemente foi aqui instalado um mega-baloiço, decoração da moda.

E depois desviámos, enfim, para a Aldeia do Mato para o mergulho de fim de tarde. Impressionou o fogo que rondava por perto, a pouca distância. E mais impressionou ver os sucessivos aviões canadair a ir buscar água à barragem de Castelo de Bode em voos rasantes aos veraneantes. Ou seja, a ideia de relaxar dentro de água ao final de mais uma quente jornada saiu furada, sem piada pela triste companhia.

O Sardoal é o início do Ribatejo, a transição da Beira Baixa para o Alentejo. É uma vila onde já se percebem muitas características desta última região, com as casas brancas com listas amarelas. E é bem bonita. As ruas e as casas estão decoradas com flores, ambas bem conservadas. Na praça principal, cuja requalificação esteve a cargo do arquitecto Raul Lino, em 1934, encontramos um painel em azulejo com a figura de Gil Vicente, em homenagem à sua ligação ao Sardoal por citar a vila em três das suas obras. E o final do dia, com as cores a condizer, chegou no largo do Convento da Caridade, simpático na sua arquitectura simples, mais uma vez em cor branca e amarelo.

No Sardoal, terminamos o dia com mais uma leitura de Torga: “Na sua planura fofa e ubérrima, na melodia dos seus chocalhos e na harmonia da sua cor, o Ribatejo é um grito de felicidade incontida no corpo da nação. É uma faixa escarlate e briosa à cinta de Portugal.” – Miguel Torga, in O Ribatejo

Trilho do Vinho do Porto – 3° desvio à EN2

“Conheciam o Douro palmo a palmo, a íngreme dureza das suas encostas, o peso dos seus cestos vindimos, a luz mortiça dos seus lagares.” – Miguel Torga, in Vindima.

Não nos cansamos do Douro e insistimos em passear ao seu redor.

Perto de Lamego fica a aldeia de Samodães, sobranceira ao rio, onde tem início (e fim) o Trilho do Vinho do Porto, mais 8 kms fantásticos por esta inesquecível região. Esta caminhada circular não é inteiramente fácil, pois embora a primeira parte seja toda a descer tendo depois uma recta plana ao longo do rio, os seus últimos 2 kms são sempre a subir, num total de cerca de 2h 30m a dar à sola.

Descemos desde a igreja de Samodães sempre com o Douro na mira. Baixamos por entre caminhos protegidos por muros de xisto com vinhas logo ao lado. E fazê-mo-lo atravessando povoações, daquelas com meia dúzia de casas.

Já descemos bastante e olhamos para cima, confirmando que deixámos Samodães bem no alto. Lá em baixo corre o rio Douro, encaixado no vale, enquanto as encostas estão quase todas ocupadas por vinha. As linhas que a plantação das vinhas formam são uma beleza e todas diferentes. Não nos cruzamos com ninguém e começamos a chegar ao fundo do vale, rodeados de montes a enquadrar o Douro a toda a volta. Incluindo a Serra do Marão, imponente lá ao longe. Como escreveu Torga no seu “Reino Maravilhoso”, “Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas”.

É um cenário grandioso e sereno ao mesmo tempo, onde apenas o cacarejar das galinhas e o latido insistente dos cães vai ecoando. Aqui é-se feliz e nem a sensação de que à nossa passagem uma cobra se esgueira para dentro das vinhas nos perturba. Afinal, elas têm mais medo de nós do que nós delas.

O Douro já está quase à nossa beira e seguimos os últimos metros da descida pela estrada. Já a tínhamos avistado de cima, mas agora passamos mesmo ao lado do Six Senses, o hotel de luxo instalado na antiga Quinta do Vale Abraão que Agustina nos deu a ler e Manuel de Oliveira a ver.

Daqui abeiramos o Douro e seguimos durante cerca de 1,5 km sempre com ele ao nosso lado. Este rio é carismático e não nos cansamos de mirá-lo, ainda para mais sendo ele dono de reflexos incríveis que teima em oferecer-nos. Só um lamento: porque é tão difícil encontrar um lugar para nele mergulhar em segurança?

E chegou, enfim, o momento da grande subida. Grande em todos os sentidos. Extenuante fisicamente mas épica nas vistas. Um aviso: é obrigatório subir uns passos e ir parando para olhar para trás. Nem é preciso a desculpa do descanso, é mesmo por esta ser a parte do percurso mais estupenda.

Aqui caminhamos bem junto à encosta carregada de vinhas. Tão perto que percebemos um rapaz a trabalhar o terreno com o seu veículo empoleirado nos socalcos. Socalcos esses que o Homem há séculos teve a arte e o engenho de criar com poucos meios, cavando o terreno xistoso, assim transformando e moldando a paisagem da região do Douro a custo para que esta se tornasse a maravilha que os nossos sentidos hoje testemunham.

À medida que vamos subindo a paisagem vai ficando ainda mais bruta, socalcos, vinha e rio num cenário de montes a perder de vista. Um portão para o imenso convida-nos a espreitar os “íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza”, novamente nas palavras de Torga.

Com a respiração arfante e já quase com a igreja de Samodães à vista, espaço ainda para perceber um pássaro incrível, castanho com listas brancas e pretas e com uma crista irreal. Seguimos o poupa (é este o nome desta ave) durante uns metros pensando que companheiros lindos tem este Douro. Pode ser uma sorte, a dele, mas é seguramente também a nossa.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 3ª etapa – Lamego – Vila Nova de Poiares (104 km – 248 km)

De Lamego saímos pela EN2 despedindo-nos da sua bela avenida central com a Nossa Senhora dos Remédios no alto do monte de Santo Estêvão. Pela estrada fora, os campos de vinhas terminaram, mas os montes e vales continuam presentes. Assim como as curvas. Com cuidado, ultrapassamos um homem a cavalo na Estrada, embora não haja grande trânsito. Reconhecemos castanheiros para além da berma e reparamos que para aqui não há nem pinheiros nem eucaliptos.

A grande piada da etapa de hoje vai ser o desfile de nomes inenarráveis de povoações. À Matancinha segue-se a Matança e à Magueijinha segue-se a Magueija. Mas, logo depois, as povoações terminam e a paisagem fica bruta, selvagem até. Cruzamos o rio Balsemão e empreendemos um curto desvio até Lazarim, no final de uma descida quase a pique. Lembro que as “Terras do Demo” de Aquilino não ficam distantes e lembro sobretudo a história que Paulo Moura contou em “Longe do Mar”, o seu livro com reportagens da sua viagem pela EN2. Li e nunca mais esqueci. Decidi que haveria de querer visitar Antas de Mazes. Mas agora que continuo ainda a descer para Lazarim e vejo Mazes lá bem em cima e imagino que a desolada Antas fique para lá dela… titubeio. Este cenário assusta-me e nem consigo explicar porquê. A culpa será do Aquilino e do Paulo, que tão aterradora e misteriosamente o descreveram, deixando inconscientemente marcas em mim.

Lazarim, primeiro. A aldeia fica numa cova, mas o que a distingue é o facto de ser o lugar de um dos entrudos com mais tradição no nosso país. Aqui visitamos o Centro Interpretativo da Máscara Ibérica e ficamos a conhecer melhor a tradição associada aos caretos. Instalado num edifício moderno construído para o efeito, o espaço museológico está acompanhado de uma série de citações de escritores, como aquela que nos recebe, de Clarice Lispector: “escolher a própria máscara é o primeiro gesto humano e solitário”. A presença da máscara na Península Ibérica encontra-se sobretudo no nordeste transmontano e só de Coimbra para cima, no caso de Portugal, mas em Espanha, para além de todo o norte, podemos encontrar exemplos também na Extremadura e na Andaluzia.

A tradição em Lazarim é as máscaras serem feitas – artesanalmente – com madeira de amieiro, por ser mais fácil de trabalhar. Mas o Centro não apresenta apenas exemplos locais. É bonita a variedade de máscaras, representando diferentes tradições, quase sempre acompanhada de trajes tradicionais originais. As máscaras possuem quase sempre características zoomórficas, e a tradição resulta num apelo à fertilidade e fecundidade dos campos agrícolas para que traga um bom ano. Há uma combinação de ritos pagãos e cristãos, o sagrado e o profano, e festas em várias épocas do ano e não apenas no entrudo. Confesso que não achava muita piada àquelas imagens do Carnaval de Podence e outros que tais, onde os caretos saem loucos a chocalhar as mulheres, prestando-se a todos os abusos debaixo de uma máscara a pretexto de uma época festiva. Mas agora, conhecendo a origem desta tradição, percebo um pouco melhor a efusividade tresloucada da festa, uma dança entre a ordem e o caos, onde nessa altura tudo é permitido ao mascarado, o careto.

Dava jeito colocar uma máscara e ganhar coragem para subir a Mazes e a Antas, mas afinal parece que o caminho de carro não anda fácil e mesmo o trilho a pé está coberto com mato. Deu jeito acreditar que sim e voltei à EN2.

Mas aqui uma opção mais se colocou: o desvio de Lazarim a Ucanha, meros 12 kms de distância. Para quem não conhece esta fantástica aldeia vinhateira no vale do Varosa, única em Portugal pela sua ponte fortificada com torre, este desvio é obrigatório – pode ler mais sobre ela aqui.

A EN2 em direcção a Castro Daire oferece-nos algumas rectas e como não há povoações à beira da Estrada dá para acelerar um pouco. Mas sem nunca nos distrairmos com os raros nomes que as placas anunciam: Colo de Pito, Moura Morta… Que imaginação.

A Estrada atravessa o centro de Castro Daire, com o devido marco a comprová-lo. Nesta que se auto-denomina a “última terra de transumância“ e onde se pode provar o “bolo podre”, visitamos a igreja matriz, espreitamos algumas capelas do Calvário, bem como alguns edifícios interessantes com uma parte inferior comum mas pisos superiores bem diferentes do que estamos acostumados.

Na saída de Castro Daire descemos pela Estrada e voltam as curvas, com a vegetação carregada de verde. Mas logo desaparece. A EN2 estava cortada por uns quilómetros logo após passar a ponte do rio Paiva e tivemos que desviar para Ribolhos. Já estávamos preparados para perder alguns dos seus troços menos óbvios, mas nunca imaginámos tê-la cortada ainda que a espaços. Enfim, com o desvio para Ribolhos acabámos por ganhar um miradouro para Castro Daire que mostra na perfeição a sua localização geográfica.

Depois de Ribolhos, logo de volta à Estrada aparece, claro, Ribolhinhos. A Estrada aqui não tem grande graça, as curvas tornam-se mais espaçadas e não há povoações, apenas uma placa a indicar um nome e poucos metros adiante outra placa a sinalizar o fim dessa povoação sem que quase nada se tenha visto – habitações ou gente. Pensávamos que à aproximação de Viseu as povoações se tornassem mais presentes, mas nem isso. O que surge sim, são as rotundas, as famosas rotundas de Viseu. Algumas ridículas, só com duas entradas, impedindo a lógica da recta. É impossível evitá-las, assim como não podemos deixar de mencioná-las, faz já parte do anedotário nacional.

Viseu merece uma visita demorada a quem não a conheça. O seu centro histórico possui um edificado bonito e agradável para se passear e o Largo da Sé é monumental. É aqui que fica o imprescindível Museu Nacional Grão Vasco. Como o ano passado nos demorámos na cidade – pode confirmar aqui -, desta vez optámos por atravessá-la, relembrando o seu Rossio, por onde passa a EN2.

As povoações de média dimensão começam a suceder-se Beira Alta adentro. De Tondela retivemos a sua fonte monumental e em Santa Comba Dão decidimos parar, algo que estranhamente nunca tinha acontecido, apesar de ficar perto da aldeia das minhas raízes paternas. E o veredicto é que Santa Comba Dão é bem bonita, uma das mais bonitas povoações de toda a nossa viagem. O centro histórico tem poucas ruas, mas tudo está arranjado e composto, incluindo a ribeira local, ladeada de flores. E o largo dos Paços do Concelho, com pelourinho, é uma delícia. Em busca do miradouro do Outerinho que dá para o rio Dão passamos pelo edifício da sede local do PS e sorrimos. Não há como evitar mencioná-lo, Santa Comba Dão é a terra natal de Salazar. E a EN2, cuja criação foi uma decisão do seu Estado Novo, passa mesmo à porta da sua casa, no Vimieiro, com a singela placa a informar que ali nasceu “um senhor que governou e nada roubou” 🙄.

Deixando Santa Comba chega o momento de ter muita atenção se queremos rolar o máximo possível pelo asfalto da EN2. É que aqui esta passa a ter a forte concorrência do IP3, com ele se confundindo durante quilómetros. Felizmente, uma placa avisa-nos para desviar à direita e seguir paralelos ao IP3 se queremos insistir na EN2. Antes disso, porém, vale a pena uma espreitadela à praia fluvial da Ribeira, na Albufeira da Aguiera, aquela cuja construção implicou o afundamento da antiga aldeia de Foz do Dão. De volta à EN2, a sensação com que se fica é que neste troço esta mais se parece com uma estrada de vão de escada, com muito pouca dignidade. Bem tentámos seguir sempre sobre ela, mas com o IP3 em obras acabou por ser uma confusão e penso termos perdido alguns quilómetros, só voltando à Estrada no desvio para Porto da Raiva.

Aqui o rio Alva desagua no Mondego e uns 2 kms à frente encontramos a Livraria do Mondego, um monumento natural que é uma parede rochosa quartzítica com cortes rasgados verticalmente, como se fossem livros numa estante.

Estamos a chegar ao fim desta etapa e está difícil encontrar um castelo para visitar. Vamos ter de improvisar e em Penacova deixamos por breves instantes a EN2 para atravessar a ponte sobre o Mondego e subir ao Penedo de Castro. Não é um castelo, mas a ver pela sua implantação extraordinária e rochas a fazer de muralhas bem que podia ser. Tem até uma bandeira de Portugal hasteada ao alto. Anteriormente conhecido por Penedo da Cheira, o lugar foi renomeado em 1908 em homenagem a Augusto Mendes Simões Castro, o grande divulgador das belezas naturais da região. E esta é, efectivamente, uma das suas belezas. Um miradouro no topo de um bloco granítico que se abre a uma enorme panorâmica sobre o vale do Mondego, com Penacova logo abaixo e serras a toda a volta.

E o mergulho do dia acontece logo a seguir, precisamente no Mondego junto a Penacova, na praia fluvial do Reconquinho, ao quilómetro 238 da EN2. A água é fresca, exactamente o que precisávamos para relaxar do dia quente, e o lugar tranquilo e belo. A apenas 10 kms de Vila Nova de Poiares, a última paragem da etapa, estendemos a toalha e deixamo-nos estar, já a imaginar o dia seguinte de volta à Estrada.

De Provesende ao Pinhão – 2° desvio à EN2

“Não é descer de Sabrosa para o Pinhão, estacar em São Cristóvão, e abrir a boca de espanto. Não é ir a São Leonardo de Galafura ou ao Miradoiro de São Brás, olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a significação da tragédia, desde a tentação do cenário, à condenação de Prometeu, ao clamor do coro.” – Miguel Torga, in “O Doiro”

Provesende é uma das mais belas aldeias vinhateiras do Douro. Situada no alto de um planalto, a sua implantação é privilegiada, rodeada de uma sucessão de montes e de muitas plantações de vinha. Com um longo passado e cheia de histórias para contar – uma delas a da origem do seu nome, que derivará de “pobre Zaide”, o mouro local vencido pelos vizinhos cristãos -, diz-se que nela podemos encontrar o maior número de casas brasonadas por metro quadrado. A cultura vitivinícola que aqui fez estabelecer uma série de nobres é a grande responsável pela sua construção, mas num espaço tão pequeno merecem ainda uma visita a Igreja Matriz e a Fonte Velha em estilo barroco, ambas do século XVIII, bem como o Pelourinho manuelino.

Do Largo da Igreja Matriz, situado a 590m de altitude, tem início um dos trilhos mais bonitos do nosso país. Ao longo de quase 6 kms descemos até ao Pinhão, a 80m de altitude. O trilho é conhecido como “Trilho Torgueano Provesende – São Cristóvão do Douro – Pinhão” e percebe-se porquê. Foi em paisagens esplendorosas como esta que Torga foi buscar inspiração para a escrita das mais belas descrições do nosso país, como aquela com que iniciámos este texto.

A região do Douro é um exemplo da sobrevivência e superação do Homem face a terrenos inóspitos. Com a permissão e colaboração da Natureza, desde a época romana que insiste na cultura da vinha e vem transformando a paisagem, moldando-a em socalcos. Em resultado e em reconhecimento, em 2001 o Alto Douro Vinhateiro foi distinguido pela UNESCO como Património da Humanidade. São cenários magníficos aqueles que teremos por companhia durante esta caminhada de pouco mais de 1h 30m.

Saímos de Provesende e logo começamos a descer – uma constante ao longo de todo o percurso, daí que este trilho seja relativamente fácil para qualquer pessoa em termos de esforço físico. Caminhamos em terra batida, junto a muros de xisto, percebendo que os solos aqui são xistosos. E logo tem início o desfile de vinhas. Vinhas e mais vinhas, nunca cansam, e o passatempo perfeito é observar as várias formas das suas linhas, quase todas elas dispostas em socalcos, mas todas plantadas nas íngremes encostas. As características topográficas e climáticas do Vale do Douro fazem com que esta seja uma região óptima para a cultura da vinha. Um solo ácido, um fundo dos vales húmido e sujeito a forte radiação solar e sobretudo a exposição e a orientação dos terrenos aliado ao clima mediterrâneo de invernos frios e verões quentes e secos, eis a conjugação perfeita de factores para que esta seja não apenas uma região propícia à vinha mas também uma de excelência para a produção de vinhos do Porto Vintages.

E é por isso que em toda esta zona encontramos das mais famosas quintas do Douro. Este trilho de São Cristóvão não passa por nenhuma delas, mas atravessa muitas outras vinhas particulares. E é por isso que, bem perto, percebemos que já se veem umas uvas, bem verdinhas. Mas as vinhas não estão sozinhas nesta paisagem, antes têm a companhia de muitas oliveiras.

À medida que vamos descendo vamos avistando o Douro ao fundo, mais um momento alto da caminhada. Afinal, é por ele que aqui estamos e é até ele que caminhamos.

Uma breve passagem na estrada permite-nos debruçar sobre a aldeia de São Cristóvão do Douro, no vale da outra vertente do monte, belamente rodeado de mais socalcos de vinha.

De volta ao trilho de terra, o Miradouro de São Cristóvão do Douro é soberbo. Como dizia o guia que aqui largou um grupo de ingleses, “este é o spot”: uma soberba vista do rio Pinhão a juntar-se às águas do rio Douro. Não vale a pena procurar mais, este é o lugar para se estar e deixar ficar. E talvez arriscar compreender a sua beleza dramática, que Torga tão bem nos tentou explicar.

O Pinhão já está mesmo à nossa beira, mas há que descer até ele. Diversos afortunados possuem aqui casas alcandoradas, todas com terrenos de vinhas, os mais felizes até com acesso ao rio. O rio Pinhão corre sereno e um moço privilegiado rema no seu caiaque, passando tranquilamente por baixo da ponte romana. O cheiro das figueiras adoça ainda mais o cenário idílico e acompanha-nos em até à foz do Pinhão, onde atravessamos o rio pela nova ponte pedonal, com vista para a ponte ferroviária (e mais para lá há ainda uma outra ponte).

A vila do Pinhão não é muito antiga, tendo crescido com o comércio do vinho do Porto no século XIX. Os vinhos continuam a sair do seu Cais, e se antigamente seguiam em pipas nos típicos barcos rabelos e depois de comboio, hoje fazem-no através de todos os meios de transporte ao dispor. O Cais do Pinhão é também muito movimentado pelo intenso turismo que a vila recebe. Daqui podemos sair a passear de barco e uns metros mais adiante tomar o comboio rumo à Régua ou a Tua. Mas neste Verão de Covid-19 tudo está estranhamente calmo, ideal para o sossego da observação dos incríveis reflexos dos montes que caem sobre o Douro. Pode ser uma paisagem oferecida, fácil, mas assumimos com todo o prazer o seu abraço preguiçoso.

Este percurso não pode terminar senão na estação de comboio do Pinhão. Pode ser hiper turística, um cliché até, mas esta é mesmo uma das mais bonitas de Portugal. Inaugurada no século XIX, foi a partir de 1937 que começou a ganhar fama pela beleza da decoração das suas paredes em azulejo. São 24 painéis em azulejo azul que através da representação de cenas do dia-a-dia no Douro contam a história da produção do vinho do Porto, desde o momento da vindima até ao transporte fluvial do vinho. E aqui, observando estes azulejos e as vidas que mostram, recordo uma passagem de “Vindima”, único romance de Miguel Torga, e percebo que o Douro nem sempre e nem para todos foi só passeio e facilidades, antes o tal resultado do esforço dos homens face a uma natureza inóspita.

“Depois da ceia, o pessoal, extenuado, esfarrapado é imundo, dormia pelos cantos a fazer horas. Ganho o dia aos cestos, numa escravidão de besta de carga, era preciso ganhar a noite, enterrado em vinho, num marcar passo que a princípio dava gosto e alegria, e depois era uma tortura sem fim.”

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 2ª etapa – Vila Real – Lamego (61 km – 104 km)

“Numa curva da estrada, o Douro apareceu.” – Miguel Torga, in Vindima

De todas as seis etapas da nossa jornada pela EN2 esta é a mais curta, apenas 43 kms. Porquê? Precisamente porque “numa curva da estrada, o Douro apareceu” e sabemos que se dela desviarmos mais Douro teremos a inundar-nos.

Apesar de curta, esta etapa tem dos mais belos metros de toda a viagem.

Antes de deixarmos Vila Real passeámos pelo Jardim da Carreira, construído no século XVIII como jardim público da cidade, e conhecemos o Parque Corgo, a grande zona de lazer criada já neste século. Aqui espreitamos o Corgo, afluente do Douro a quem se irá juntar no Peso da Régua. A EN2 atravessa o coração de Vila Real, Sé de um lado, Paços do Concelho do outro, Casa de Diogo Cão à espreita, e à saída atravessa uma pequena ponte sobre o Rio Cabril antes de se fazer acompanhar pelo Vale do Corgo à sua esquerda. A situação geográfica de Vila Real, dominada pelo vale deste rio, é um pouco esquisita, fazendo com que ela ganhe altura e não seja fácil vencer os desníveis do território, com prédios encavalitados na encosta, não se podendo dizer que a cidade nova seja bonita. Mas depois de voltarmos a atravessar novo afluente do Corgo, desta vez o Sordo, este vale torna-se grandioso, e nem o enorme viaduto da A4 prejudica esta imagem.

A partir daqui o cenário entra num crescendo de panorâmicas épicas. As curvas sucedem-se e os montes invadem-se uns aos outros, tornando-se siameses, dando movimento à paisagem. Já se veem os famosos socalcos do Douro. E veem-se aldeias empoleiradas na encosta, como a bela Cumieira. A EN2 ainda atravessa mais um afluente do Corgo, o Aguilhão, antes de chegarmos a Santa Marta de Penaguião. A conjugação de montes e vales cravados por cursos de água moldou este território, fazendo dele um dos pedaços mais bonitos do nosso país.

Atravessamos Santa Marta de Penaguião e as suas esculturas públicas não enganam: esta é terra da vinha e da vindima.

Incrivelmente, a descida para a Régua consegue ser ainda mais bonita. As encostas, carregadas de vinha verde no princípio de Julho, estão dispostas em socalcos com linhas de vinhas que parecem uma obra de arte. Um cenário delicioso. Dá vontade de parar em cada berma da Estrada para com tempo melhor o apreciarmos, e felizmente vamos tendo espaço para o fazer. Pelo contrário, começamos a ver Peso da Régua ao longe, bonita com o Douro a enquadrá-la, mas aí já não temos a mesma sorte.

Estes breves 25 quilómetros de Vila Real à Régua são, não nos cansamos de repetir, beleza pura. Mas não chega. Da Régua desviamos da EN2 durante 19 kms para irmos ter com o Miradouro de São Leonardo da Galafura.

“O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir […] A beleza absoluta.”

A Galafura deixa-nos sem palavras, mas felizmente Torga, sempre ele, dá-nos uma ajuda para tentar compreender o arrebatamento que nos tocou. Da Galafura ao Pinhão pela margem norte do Douro são quase 40 kms, num sobe e desce constante pela ruralidade da região, feita de aldeias e de quintas. Nos últimos quilómetros da descida para o Pinhão os artísticos socalcos voltam a acompanhar-nos. É tudo demasiadamente belo. O Pinhão é extremamente turístico, aqui param os barcos e o comboio, mas merece todos os elogios. A paisagem que envolve a vila é de uma serenidade tocante.

De volta à Régua, seguimos desta vez pela margem sul do Douro. São 25 kms pela EN 222, provavelmente a estrada mais romântica do nosso país. Sempre junto ao rio, observando os incríveis reflexos dos seus montes, a condução faz-se lentamente, para melhor aproveitar cada pedaço da tal beleza sublimada.

Já dá vontade para o um mergulho do dia e aqui começa a frustração. Temos um rio imenso, vilas e quintas carismáticas, mas está difícil escolher um lugar para nos envolvermos na sua água. A Régua não é bonita, cresceu desmesuradamente como eixo central da indústria do vinho, e nem para um mergulho sob a observação do homem da capa, o Sandeman, serve.

Temos de desviar até à Rede, praia fluvial oficial, a caminho de Mesão Frio. São apenas 10 kms sempre a direito, novamente junto ao rio mas agora na margem norte. Passamos pelas Caldas de Moledo, lugar das antigas Termas, hoje decadente e ao abandono. Na Rede também não se vê ninguém, espreito o rio, escolho o lugar e, finalmente, o meu primeiro mergulho no Douro. Só verde e água à volta. Que maravilha.

Daqui voltamos à Régua. As visitas a esta cidade ficam-se normalmente pela sua zona ribeirinha. Mas o seu coração antigo fica mais para o interior e lá para cima – esta é mais uma daquelas urbes que teve de vencer o desnível da sua implantação. Temos o largo da igreja matriz com coreto e alguns edifícios interessantes e, depois, por aí abaixo, o edifício dos paços do concelho até chegar novamente à beira rio. Aqui fica o Museu do Douro, instalado no edifício da antiga “Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”, então detentora do monopólio da comercialização do Vinho do Porto, nesta que foi a primeira região vinícola demarcada do mundo, em 1756. Aqui se procura preservar a identidade e memória da região duriense, paisagem natural humanizada, com a exposição de objectos etnográficos ligados à vitivinicultura.

Até Lamego, última paragem do dia, são apenas 14 kms. Se a parte final da EN2 de Vila Real ao Peso da Régua havia sido sempre a descer, agora até Lamego é sempre a subir. A passagem do quilómetro 100 acontece lá em cima e o centro da cidade 4 kms depois, sendo que a Estrada faz questão de atravessar a sua bela avenida principal. Até lá, muitas vinhas e povoações penduradas na encosta.

À chegada subimos ao Castelo De Lamego – o nosso castelo do dia -, entrando pela pitoresca Porta dos Figos, em arco, a sua entrada norte. Aqui temos o núcleo arqueológico e centro interpretativo de um lugar que remonta à época romana. O Bairro do Castelo é pequeno e logo chegamos à Torre de Menagem. Diz-se que é obra dos mouros, mas terá sido construída no século XII, já a cidade estava sob o domínio cristão. Infelizmente, cheguei ao castelo a bater as 18:00, hora de fecho, pelo que já não pude nem deambular pela sua praça de armas nem subir à torre. Instalado num afloramento rochoso altaneiro à cidade, as vistas devem ser largas, mas tive de me contentar em vê-lo de fora.

De quase qualquer canto da cidade se avista o monte do castelo, como a caminho do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, por exemplo. Mas aqui o interesse é outro, e não necessariamente um de devoção religiosa. Momento brilhante da arquitectura barroca e rococó, a beleza do traçado da interminável escadaria (686 degraus) e os elementos decorativos que vamos encontrando em cada patamar são sublimes.

Já cá em baixo na cidade, a avenida central que prolonga o Santuário prolonga igualmente a sua beleza, pintalgada de mais esculturas e lagos.

Cidade-Património do Douro, muitos são os elementos arquitectónicos de visita obrigatória, como a Sé Catedral com o seu maravilhoso portal, diversos edifícios brasonados, o antigo Seminário e o antigo Paço do Bispo. Em comum, quase todos eles têm fachadas brancas fortemente dominadas pelo seus apontamentos em granito. Esta monumentalidade de Lamego, em especial os solares brasonados dos séculos XVII e XVIII, explica-se facilmente pelo seu passado ligado ao comércio do vinho nesta histórica Região Demarcada do Douro. E para terminar o dia, nada melhor do que compor a barriga com uma vitela arouquesa no literal Manjar do Douro.

Trilho das Fisgas do Ermelo – 1° desvio à EN2

“O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. Sem eles, quem daria aos homens o permanente exemplo da sublevação natural que há no espírito da própria vida?” – Miguel Torga

Em territórios de Vila Real e Mondim de Basto, percorrer o trilho das Fisgas do Ermelo é a melhor forma de se conhecer e perceber a Serra do Alvão, sua natureza bruta e modos de vida das suas povoações.

De Vila Real ao Ermelo, a aldeia de xisto onde tem início o trilho, são 30 kms. Mas grande parte deles são percorridos no troço da EN 304 correspondente ao Vale da Campeã, entre as serras do Alvão e do Marão. São cenários grandiosos aqueles por onde rolamos nesta que é considerada uma das melhores estradas da Europa para se conduzir.

Deixamos o carro na aldeia do Ermelo, a quem foi dado foral no século XII por D. Sancho I, passamos pelo seu Pelourinho junto àquela que foi a antiga casa da cadeia e junta de freguesia (extinta), uma fonte aqui, um espigueiro ali e inúmeras casas de xisto com telhado de lousa. E são precisamente para umas placas de lousa que o artista local se orgulha de chamar a nossa atenção. Lemos os textos aí inscritos contando a história do lugar e dedicatórias à sua beleza e encanto (“há (sic) tarde quando anoitece / louco de tanta beleza / o Ôlo não adormece / canta um hino à natureza”) e iniciamos os 12 kms do percurso pedestre (PR3 Fisgas de Ermelo) que nos manterá epicamente ocupados ao longo das próximas quase 6 horas.

O Olo é o rio que nasce no Alvão, um pouco para lá da povoação de Lamas de Olo, e desagua no Tâmega pouco antes de Amarante. É ele a grande estrela deste trilho ao proporcionar, em parceria com as locais rochas quartzíticas, uma queda de água com um desnível de cerca de 400 metros que se desenvolve em diversos patamares, formando lagoas de água cristalina, as “piocas”. No entanto, o primeiro curso de água de que nos aproximamos é a Ribeira de Fervença (que em breve se juntará ao Olo), até onde descemos desde a aldeia do Ermelo e cruzamos a sua ponte de madeira.

A partir daqui iniciamos uma longa subida a caminho das Fisgas e da aldeia de Varzigueto, primeiro protegidos pela vegetação, mas logo a céu aberto – daí que a caminhada em dias de maior calor possa ser ainda mais extenuante. Só que as vistas são absolutamente fantásticas, um emaranhado de serras e penhascos agrestes – um lugar de espanto e terror, como tão bem caracterizou Miguel Torga -, onde ao longe uma espuma branca pinta um desses penhascos, escorregando por ele abaixo. São, precisamente, as Fisgas. Os pretextos para pararmos e deixarmo-nos absorver pela magia do cenário são muitos, fazendo com que nem a subida nem o calor nos detenha.

A Lomba do Bulhão é o primeiro miradouro oficial, mesmo de frente para as Fisgas e debruçada sobre o vale do Olo.

Todavia, durante esta primeira parte da caminhada, a da subida, as Fisgas têm a forte concorrência do Monte Farinha, acompanhado de mais dois ondulantes montes, todos em filinha uns ao lado dos outros. O Monte Farinha é, a par das Fisgas, o grande símbolo do concelho de Mondim de Basto, e tem o Santuário da Senhora da Graça no seu topo, lugar incontornável da passagem da Volta a Portugal em bicicleta. Já o tínhamos subido (de carro) num dia de vento e chuva e havíamos sentido que o ambiente que lá se experimenta era quase místico. Agora ao longe, vendo-o em toda a sua formosura no meio de uma paisagem imensa, não podemos deixar de recordar todo o seu poder.

Estamos em Terras de Basto e a felicidade inunda-nos. Que cenário!

As Fisgas ainda vão longe, por enquanto percebemos pouco mais do que a tal longa espuma branca a pintar a rocha, mas mesmo à distância o barulho intenso da queda da água faz-se sentir. À medida que circundamos o percurso, agora por um trilho com uma subida menos pronunciada, e nos aproximamos das Fisgas, vamos percebendo alguns dos muitos patamares em que vai caindo e as piscinas naturais que vai formando, as piocas. Este é um fenómeno natural onde um acidente geológico originado por uma falha interrompe o curso do Olo em sucessivas quedas de água em desníveis ao longo de centenas de metros.

Logo vemos uma pioca mais larga, vazia de gente, e definimos que é aí que vamos querer mergulhar. Mas não nos podemos distrair com a ansiedade e com o desejo de refrescar porque nesta vertente do trilho as lascas da pedra são usadas para definir o caminho.

Já estafados, finalmente o trilho dá-nos uma recta e até uma leve descida com o bónus de árvores como cobertura, uma espécie de descanso bem antes do meio do percurso.

Mais um miradouro, desta vez quase junto às Fisgas e às Piocas, próximo do Alto da Cabeça Grande, talvez o ponto mais elevado da nossa jornada, a 802 metros de altitude (a aldeia do Ermelo, onde começámos, está apenas a cerca de 420 metros).

É pouco depois que surge o desvio para as Piocas de Cima. Primeiro assistimos ao Olo a correr plano e lentamente. Depois percebemos um desnível seguido de uma piscina natural, mais um desnível e outra piscina, e mais um e outra, e poderíamos estar aqui até ao fim do dia a contá-los.

O lugar é verdadeiramente incrível e a vontade de uma banhoca gelada e refrescante ganha a concorrência de querer perceber como é a piscina que se segue. Controlamos uma vez mais a ansiedade e entramos na água, gentil e cristalina. Boiamos e olhamos o céu, a tentar acreditar que temos toda esta natureza para nós. Ainda dentro de água, espreitamos a próxima piscina. Demoramo-nos. Só então, já fora da lagoa escolhida, vamos caminhar em busca de mais piocas pelos blocos de pedras que as rodeiam que, por não serem escorregadias, não constituem um perigo de maior. Percebemos, com ingenuidade, que a tal pioca mais larga que viramos do miradouro anterior está um bocadão mais lá abaixo, sendo que o abaixo aqui é relativo, porque as verdadeiras Piocas de Baixo estão infinitamente mais abaixo. Digamos que esta lagoa generosa estará no primeiro 1/4 da infinitude da queda de água das Fisgas. Aliás, o nome “Fisgas” deriva precisamente desta forma que a água do Olo encontrou para se acomodar na parede rochosa, como que enfisgando-se.

Mas não vale a pena arriscar demasiado em busca de mais piocas, porque as que temos cá em cima temo-las que chegue. Continuamos, por isso, caminho rumo a Varzigueto, agora sempre junto ao Olo, estreito, quase um fio de agua sereno que vai dando para molhar os pés e a espaços até banhar o corpo todo.

Varzigueto, aldeia de montanha, está belamente implantada a 745 metros de altitude e aqui a ruralidade impera. Também com casas de xisto, palheiros e espigueiros, aqui as vacas pareciam indomáveis, teimando em escolher o seu caminho à revelia do seu domador. Não deixo Varzigueto sem quase tropeçar ou pisar num pedaço de qualquer coisa enrolado no chão. Felizmente que o senhor PAN não anda por aqui e alguém já lhe tinha dado uma paulada na cabeça, ou teria apanhado o susto da minha vida.

Atravessada Varzigueto, retornamos, passamos a ponte e seguimos agora pela margem contrária do Olo. Mesmo repetidas, as vistas continuam bonitas e, saciados, não desviamos novamente para as Piocas de Cima. O som forte da água a cair continua.

Pouco depois passamos pela Cancela do Miradouro com nova panorâmica, e mais próxima, para o Monte Farinha.

E logo chegamos ao mais famoso e acessível miradouro para as Fisgas do Ermelo, aquele onde se chega de carro imediatamente a seguir ao Fojo, com a sua capela, e o mais próximo que podemos chegar delas sem qualquer esforço físico. Há anos tinha aqui estado e é incrível como, apesar de brutal, não se percebe nem um décimo da enormidade das Fisgas. Aqui se lê e confirma com sentimento as palavras de Torga já referidas anteriormente: “Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche”.

Deste miradouro iniciamos uma descida num terreno de pedra. Até aqui o trilho tinha estado sempre muito bem marcado, com indicações amiúde, mas nesta descida perdi-me, voltando no entanto ao caminho com pouca demora e sem esforço de maior.

As Piocas de Baixo são outra das atracções da jornada. E começam por se ver e ouvir desde bem ao alto, logo aguçando a vontade de as espreitar de perto. No Ermelo tinham-nos dito que este era o lugar mais bonito de toda a região. Descemos, desviamos no trilho, descemos mais um pouco e aí estão as lagoas de baixo. Acontece que não esperávamos encontrar aqui tanta gente e, sobretudo, parafernália como colchões de água, bóias com patinho e música a sair demasiado alta de um rádio. Alguém chegou primeiro e tomou o lugar para si. Merecem respeito na mesma, uma vez que tanto para chegar às Piocas de Baixo como às de Cima há que caminhar mais de 1 km, nada é oferecido.

De qualquer forma, já não houve mergulho nestas piocas, antes subimos e seguimos rumo aos últimos 2 kms até à meta na aldeia do Ermelo. Que acabaram por ser um pouco mais, uma vez que alguma distração fez perder nova sinalização num qualquer cruzamento, levando a que se tivesse que saltar uns quantos muros até retomar o trilho. Continuamos a descer e aqui ficamos preocupados, porque sabemos que o casario de Ermelo está mais acima e, cansados, sabemos que teremos de enfrentar mais uma subida.

Cruzamos a ponte da Abelheira e reconheço a água do rio pintalgada de vegetação em forma de pompons que há anos tinha apreciado. Aqui é um bom lugar para descansar, tomar banho e até mergulhar.

E, bom, a partir daqui é mais 1 km sempre a subir. Com o acumulado da caminhada, quase 6 horas, é o que mais custa. Mas, com a chegada às casinhas de xisto do Ermelo todo o cansaço se vai e uma enorme alegria nos inunda pelo feito da conclusão de uma das mais épicas e incríveis caminhadas jamais feitas no nosso país. O coração do Alvão tinha sido atingido, mas eu é que sai conquistada, ainda mais após uma perseguição e espera de alguns anos.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 1ª etapa – Chaves – Vila Real (0 km – 61 km)

A EN2 tem início em Chaves e dificilmente poderíamos desejar começo mais feliz para uma jornada que se espera inesquecível.

Antes de nos metermos à estrada em direcção a sul há que passear nesta que é uma das mais bonitas, históricas e singulares povoações portuguesas. A Ponte de Trajano, da época romana, com os seus incríveis reflexos no rio Tâmega, encaminha-nos praticamente até à Rua Direita, o coração da urbe medieval. O centro histórico está bem conservado e é único no colorido das varandas, janelas e portadas de madeira das suas casas estreitas de dois ou três pisos. Quase todas elas possuem varandas avançadas sobre as ruas, uma forma de rentabilizar o pouco espaço interior das casas, dando uma imagem bem típica e castiça a Chaves.

Por aqui fica o Castelo de Chaves, elegante na sua Torre de Menagem. Do seu alto reforçamos a ideia do quão bela é a cidade. E a antiga Aquae Flavie é, claro, a cidade das águas termais, donde não podemos sair sem provar um copo da sua água. Ou do seu presunto. Ou do seu pastel, que aproveitamos para levar uns quantos a pensar no almoço. Depois disto tudo e de uma passagem pelo Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, com obras de arte do artista flaviense no interior e projecto de arquitectura de excelência (mais uma) de Siza Vieira, é altura de voltarmos a atravessar o Tâmega rumo ao bairro da Madalena, onde numa rotunda encontramos o icónico marco zero da nossa EN2.

E assim iniciamos a primeira de seis etapas da nossa jornada.

A saída de Chaves percorre a Estrada ladeada de muitas oficinas, stands, lojas de pneus e algumas lojas de móveis. A indústria não mora por estes lados. As habitações vão-se prolongando pela Estrada, mas antes de chegarmos ao Vidago ja elas desapareceram.

A vila do Vidago é igualmente famosa pelas suas águas minerais naturais e, sobretudo, pelo seu centenário Vidago Palace Hotel. Ideia ambiciosa do rei D. Carlos, o seu assassinato em 1908 fez com que não chegasse a viver para assistir à inauguração do hotel em 1910. Aliás, nem nenhum outro rei, uma vez que o Palace abriu portas no dia seguinte à queda da monarquia. Não deixou, porém, de ser lugar frequentado pela aristocracia portuguesa e europeia no tempo da “belle époque” e depois dela, lugar central no turismo termal, aproveitando a fama das propriedades terapêuticas das suas águas. O hotel, depois de obras de restauro e renovação, reabriu em 2010 com a novidade da inauguração do novo edifício correspondente ao Spa, projectado por Siza Vieira, que lhe está adossado. Mas o antigo edifício mantém toda a sua elegância com as múltiplas janelas e o interior é de um requinte imenso – inesquecível a sua escadaria dupla. Ao redor do Palace podemos caminhar pelas alamedas do Parque Natural e pelo arvoredo e descobrir as suas quatro fontes, duas delas activas e onde provamos a famosa água.

Mas no centro do Vidago, atravessado pela EN2, vale também a pena uma paragem para pelo menos duas visitas: à esguia Torre do Alto do Côto e à Casa-Museu João Vieira, um centro de arte dedicado à obra do dadaísta que nasceu nesta terra.

As Pedras Salgadas são a próxima paragem. O ambiente e a vivência da terapêutica das águas termais prossegue no seu belo Parque, o qual merece uma caminhada sem pressas. O antigo Grande Hotel está abandonado, quase em ruína, mas o edifício do Casino e a Fonte de Pedras Salgadas (donde provém a Água das Pedras) preservam o esplendor e beleza da sua arquitectura. Pelos seus 20 frescos hectares passamos ainda por outras fontes termais, pelo renovado Balneário Termal, por uma capela, um chalet e um lago e pelas inspiradas eco-houses e tree-houses, completamente envolvidas pela floresta. Deve ser uma delícia dormir num destes alojamentos em que a propaganda do género “venha viver no meio da natureza” não podia ser mais certeira, mas há que seguir caminho pela nossa EN2.

Fazê-mo-lo apreciando os rolinhos de palha artisticamente arrumados à beira da Estrada e não é preciso dela desviar para encontrarmos tractores no caminho ou homens e mulheres com o resultado do seu labor empilhado à cabeça. Esta é uma região que mantém ainda as raízes rurais. Mas é, igualmente, uma região mineira. Minas de ouro que vêm dos tempos em que os romanos por aqui andaram, como a incrível Tresminas e a contemporânea Jales. Não o fiz desta vez, mas vale muito a pena o desvio até Tresminas, onde há anos tivemos oportunidade de fazer uma visita inesquecível que contámos aqui.

A EN2 à aproximação e à saída de Vila Pouca de Aguiar é bonita, com a Serra do Alvão de um lado e a da Padrela do outro. E, sem muito esforço, o nosso castelo do dia entra-nos pelos sentidos adentro. É o Castelo de Pena de Aguiar, à direita do nosso olhar num penedo granítico não muito distante da Estrada. Ao princípio não parece mais do que um amontoado de belas rochas, mas quando subimos a estrada que nos leva até ao cimo e percorremos os últimos metros a pé vamos percebendo que esta era uma fortificação que, resistente, chegou perceptível aos nossos dias. O monte terá sido usado pelos romanos para fins militares, mas foi no século XI que se terá erguido o castelo. Ainda que em ruínas, o lugar é mágico e as vistas grandiosas.

De volta à EN2, agora em direcção a Vila Real, percebemos ainda mais como rolamos entre serras. Vila Real será o lugar do final desta primeira etapa, mas antes de visitarmos a cidade e terminarmos o dia impõe-se um desvio que deve estar presente em qualquer roteiro pela EN2: a visita à Casa Mateus, talvez o ponto mais alto no quesito “património junto à Estrada”.

As origens do Palácio Mateus são mais remotas, mas o edifício barroco de cal branca pontuado pelo cinzento do granito que hoje podemos apreciar é uma criação do século XVIII da autoria de Nicolau Nasoni (o mesmo arquitecto dos Clérigos, no Porto). Mas o espelho de água que o enquadra – a primeira imagem que temos do lugar logo após percorremos a curta alameda carregada de árvores – é obra de Gonçalo Ribeiro Telles, já da década 60 do século passado. A imagem é belíssima, uma verdadeira obra-de arte que dispensa palavras, apenas contemplação. Depois disso, visitamos o interior da Casa (por marcação) e vagueamos pelos jardins. Muito bem decorados com arcos de buxo, canteiros e inúmeras flores coloridas, até um túnel de cedros, é um prazer apreciá-los e, depois, sentarmo-nos a uma sombrinha admirando mais uma vez a fachada traseira da Casa.

E já que estamos por Mateus, vale a pena mais um desvio breve até São Martinho de Anta, a “primeira terra do Douro”, para prestar homenagem a Miguel Torga na terra onde nasceu e onde está sepultado. O Espaço Torga, projecto de arquitectura de Souto Moura, dá-nos a conhecer a sua vida e obra e daqui seguimos com mais vontade de descobrir e conhecer Portugal.

Obviamente, as visitas a estes dois últimos espaços culturais estão sujeitas a horários pré-definidos, pelo que é importante não só planearmos e fazermos escolhas como levantarmo-nos cedo para melhor aproveitar o dia. Então, com dias longos e de calor, nada melhor do que a recompensa de final de dia de um mergulho para refrescar, não? E para isso, nesta jornada, a menos de 10 kms de Vila Real, nada melhor do que a Cascata de Galegos da Serra, em pleno Parque Natural do Alvão. A Ribeira do Arnal vem correndo lentamente, proporcionado vários lugares para molharmos os pés por entre as pedrinhas, mas a determinado momento a água decide cair abrupta no lugar de uma breve falha de uns oito metros de altura, despenhando-se numa piscina natural onde podemos mergulhar e até dar umas curtas braçadas.

De volta a Vila Real, encontramos o seu centro histórico esventrado com obras, a Sé fechada e a Casa de Diogo Cão com um carro vermelho estacionado mesmo à sua porta de propósito para estragar a fotografia. Não faz mal, já conhecíamos Vila Real e sabíamos da sua alteza, cidade carregada de edifícios brasonados. Seguimos para a Pastelaria Gomes e para a Casa Lapão e de cada uma delas saímos com uma crista de galo (doce, ao invés do também típico covilhete, salgado), lambuzando-nos enquanto caminhamos pelas agradáveis ruas pedonais de Vila Real.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho

“Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.” – Miguel Torga.

Chaves, km 0.

A Estrada Nacional 2 (EN2) começa bem a norte de Portugal, a menos de 10 kms da fronteira com Espanha, terra de contrabandistas, aventureiros por excelência. A EN2 não é bem uma estrada, é antes um conjunto de vários troços, um projecto que 75 anos depois não passa de uma amálgama de estradas, nacionais, regionais, ips, ics, rotundas… Começa numa rotunda em Chaves e termina numa rotunda em Faro, 739 kms depois de muita aventura, de muito caminho. Porque é de um caminho que se trata, nunca de um destino.

Um caminho com início em Trás-os-Montes, a mais distante das províncias portuguesas, o Reino Maravilhoso de Miguel Torga. É por isso que iniciamos este texto com as palavras de Torga, o mais telúrico dos nossos escritores e aquele que mais nos emociona com as suas descrições da paisagem portuguesa. E é por isso que nos fizemos acompanhar da sua obra “Portugal”, desfazendo-nos mais em espanto do que em desilusão por este corte norte-sul quase a direito pelo interior deste nosso rectângulo de terra.

A EN2, criada pelo Estado Novo e integrada no Plano Rodoviário em 11 de Maio de 1945, é a mais longa estrada portuguesa e uma das poucas no mundo a atravessar o país na sua longitude (só nos EUA, com a Route 66, e na Argentina, com a Rita 40, encontramos estrada semelhante). Entre Trás-Os-Montes e Algarve, passa por 11 distritos, 35 concelhos, inúmeras serras, rios e albufeiras. Atravessa povoações, segue por curvas e rectas, sobe e desce montanhas e vales e revela toda a imaginação dos portugueses na arte de dar nome às suas terras. Muito património e tradições do nosso país estão ou à beira da estrada ou a curta distância dela. Uma enorme diversidade, revelada até mesmo na gastronomia: carne de vaca barrosã a Norte, cabrito no Centro, porco no Alentejo, peixe no Algarve. E vinhas um pouco por todo o país, embora muito mais esmagadoramente presentes na região do Douro, em especial no mais cénico troço da Estrada, a subida e logo depois descida de Vila Real ao Peso da Régua. E se levava a ideia de que a EN2 iria atravessar muito mais povoações, nunca como até rolar por ela me tinha apercebido da quantidade de montanhas que irrompem por Portugal. E, depois, claro, todos conhecemos da desertificação do interior do nosso país, mas não pensei encontrar tão pouco tráfego por quase todos os 738 kms da Estrada. Bem sei que está distante das grandes cidades portuguesas e que muitas outras opções mais rápidas lhe fazem concorrência, mas tal revela o insucesso do projecto enquanto empreendimento rodoviário. Resta-nos, e não é pouco, conduzir por ela sem pressas, contemplando a paisagem que nos calhou em sorte receber e, como passatempo, ver desfilar os seus icónicos marcos: uns bem à vista, sim, mas outros enterrados, caídos, em falta, escondidos na erva ou a descansar à sombra de uma azinheira.

A pergunta inicial que se impõe numa qualquer jornada pela EN2 é em quantas etapas a vamos dividir. E a resposta só pode depender do interesse de cada viajante. Podemos deixá-la ao improviso, mas será sempre melhor planear para não perdermos as maravilhas que ela nos oferece. Na verdade, a piada da EN2 é percorre-la, mas também ir desviando, ora à esquerda ora à direita, no mapa deste nosso Portugal. Porque, repita-se, é o caminho que nos interessa, não o destino.

Esta empreitada fizemo-la em Julho, tempo de calor, e apresenta-mo-la agora em Agosto, igualmente tempo de calor. Ou seja, cada uma destas etapas teve de integrar um momento para um mergulho refrescante, fosse ao início, meio ou final do dia, junto à EN2 ou pouco dela distante. E porque, dissemos, os desvios são momentos altos desta épica viagem e os interesses de cada um são quem os deve guiar, o mote desta travessia da EN2 foi percorrê-la o mais integralmente e integramente possível (uma vez que há troços já muito abastardados) visitando em cada etapa um castelo. Daí o nosso título: “Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho”.

Foram, assim, seis as etapas da nossa EN2 e cinco os desvios mais longos, a saber:

1ª etapa – Chaves – Vila Real

(1° desvio – trilho Fisgas do Ermelo)

2ª etapa – Vila Real – Lamego

(2° desvio – caminhada Provesende Pinhão)

3ª etapa – Lamego – Vila Nova Poiares

(3° desvio – caminhada Vinho do Porto)

4ª etapa – Vila Nova de Poiares – Sardoal

(4º desvio – Rio Ceira da foz à nascente no Açor)

5° etapa – Sardoal – Castro Verde

6ª etapa – Castro Verde – Faro

(5° desvio – Barrocal algarvio)