Convento da Arrábida

Em pleno Parque Natural da Arrábida fica o Convento de Santa Maria da Arrábida, aquele conjunto de construções brancas que nos habituámos a ver ao longe em harmónico contraste entre o verde da serra e o azul do oceano. Totalmente envolvido pela vegetação da serra, espécie de protecção natural que ao mesmo tempo atrai e afasta os curiosos, este Convento hoje propriedade da Fundação Oriente pode – e deve – ser visitado (apenas visitas guiadas mediante agendamento prévio).

As origens deste Convento têm de ser buscadas muito antes da sua fundação em 1542 e, como toda a estória que se preze, tem uma lenda associada. Conta-se que por volta de 1250 o mercador inglês Hildebrant navegava por ali noite cerrada quando uma tempestade fez com que o seu barco se perdesse no mar e ficasse exposto a todos os perigos. Devoto de Nossa Senhora, com cuja imagem sempre viajava, o mercador reza-lhe e pede-lhe ajuda para guiar a tripulação. Atendido, uma luz alumia-os e a tempestade esmorece, conseguindo navegar até terra firme. Vão então serra acima em busca do lugar de onde tinham visto a salvadora luz surgir e aí descobrem a imagem de Nossa Senhora que sempre acompanhava Hildebrant. Em agradecimento pelo milagre, o inglês constrói uma ermida nesse lugar e torna-se o primeiro dos monges ermitas da Arrábida.

A Ermida da Memória é, pois, a antecedente do Convento da Arrábida. Três séculos mais tarde, em 1539, numa peregrinação encontraram-se D. João de Lencastre (1° Duque de Aveiro, proprietário das terras da Serra da Arrábida) e Frei Martinho de Santa Maria e daí surgiu a ocupação do que hoje conhecemos como Convento Velho. Frei Martinho de Santa Maria, um franciscano espanhol de ascendência nobre, pretendia uma experiência de vida religiosa mais radical materializada numa vida ermita mística. A convite do Duque veio, assim, para a Serra da Arrábida em busca de despojamento para uma vida de contemplação. A sua primeira impressão é elucidativa do cenário que encontrou (e que ainda encontramos todos nós), tendo soltado a expressão “se não estou no Céu, estou nos seus arrabaldes”. Este primeiro Convento Velho, no lugar da tal Ermida da Memória, mais não era do que as capelas, de que restam hoje as guaritas de veneração que vemos espreitar no alto da Serra, e as celas escavadas nas rochas onde os ermitas sobreviviam. O mote era muita penitência e muita austeridade, uma abnegação total que resultava numa vida duríssima.

Como essa vivência de isolamento era muito radical, em 1542 o Duque de Aveiro manda construir o Convento Novo, na encosta da Serra no lugar que hoje visitamos, e convida Frei Pedro de Alcântara, igualmente espanhol, para criar as bases desta comunidade e atrair outros frades a ela. Não se julgue, porém, que aqui os frades vivessem em luxo. Nada disso, a austeridade continuava a palavra de ordem e o único luxo era mesmo a paisagem que se propunham contemplar.

Apesar da construção do Convento Novo, Frei Martinho de Santa Maria é o fundador indisputado deste movimento de capuchos arrábidos no seio dos franciscanos que aqui marcaram presença entre os séculos XVI e XIX, até à extinção das ordens religiosas em 1834. É a imagem dele que constitui o primeiro grande momento da nossa visita. Passamos os muros do Convento pelo portão de entrada, descendo uma longa estrada que nos deixa no edifício hoje transformado em recepção, uma série de casinhas brancas com apontamentos decorativos simples como a natureza que as envolve. E, para lá do que parece uma fonte rosa decorada com pedrinhas e encimada por uma cruz, entramos no adro da igreja.

Na sua fachada, uma estátua do Frei Martinho de Santa Maria. A sua representação é incrível. Numa postura de crucificado, tem na mão direita uma vela, sinal da fé, e na mão esquerda um cilício, sinal da disciplina; a boca cosida e os olhos vendados, sinal de que os sentidos de quem entra para aqui estão encerrados para o mundo, restando apenas o silêncio; o seu coração possui um cadeado, igualmente sinal de que está fechado para o mundo e o seu caminho é apenas interior; está descalço e veste o hábito dos capuchos, incluindo o característico capucho piramidal típico dos capuchinhos da Arrábida; ergue-se em cima de uma serpente, esmagando o demónio, e de um globo.

O interior da igreja é simples. As missas eram abertas a elementos fora da comunidade e os frades participavam apartados dos demais no coro alto, onde se dedicavam a leituras.

Saindo da igreja percebemos a bela decoração das paredes com recurso a azulejos e revestimento de pedrinhas que no seu conjunto formam diversos elementos geométricos e símbolos. Tudo muito singelo. A extinção das ordens religiosas em 1834 e o consequente abandono da comunidade levou a que o lugar fosse pilhado. A Casa de Palmela adquiriu o Convento em 1863 e fez grandes alterações no conjunto, mas a dado momento pouco pode fazer para evitar que o tempo continuasse a produzir estragos. Em 1990 a família decidiu vender o Convento à Fundação Oriente e ainda que de forma lenta têm vindo a ser levadas a efeito diversas acções de salvaguarda deste património conventual. Daí que vejamos algumas decorações restauradas e outras que tardam a sê-lo.

De qualquer forma, o que visitamos já é excessivamente inspirador. Pequenos edifícios brancos com telha ocre, fontes, capelas, pátios, a serra, o mar. Ai, aquele mar. Tão luzidio que às vezes parece que estamos numa ilha grega, uma daquelas que a tantos serviu igualmente de inspiração.

De um dos pátios com vista para as hortas e pomares vemos ainda algumas das sete ermidas que se alinham serra acima, aquelas que constituíam o Convento Velho.

Já na meia encosta em que estamos, no Convento Novo, é altura de visitar algumas das celas dos frades. O despojamento é completo. Cada espaço é exíguo, limitado aos metros suficientes para acomodar um indivíduo, não há cama – apenas um pedaço de cortiça onde deitar -, talvez um minúsculo assento e um crucifixo. Mas para os nossos tempos há um luxo, uma pequena janela que deixa ver o imenso mar. Talvez não saibamos é fazer o mesmo grandioso uso deste cenário, avessos que somos hoje à contemplação.

Seguimos pelas escadarias e pátios apertados e visitamos então o refeitório, deslumbrando-nos antes com o seu terraço com uma esplanada soberba sobre o mar. À entrada um pequeno martelo em cortiça (marca distintiva da pobreza como escolha), usado silenciosamente para a chamada para a refeição. O silêncio, sempre o silêncio. Havia apenas uma refeição diária, usavam-se conchas como pratos, a carne estava ausente e os períodos de jejum e abstinência eram longos. No mais, os frades andavam sempre descalços, independentemente das condições climatéricas e do piso, mais um exemplo da austeridade e penitência em que vivia a comunidade. No final da nossa visita, um lamento, porém: que pena é não podermos estar neste belíssimo lugar mais tempo para além da hora que dura a visita guiada.

Senhora do Salto

A Senhora do Salto é um daqueles lugares que traz uma surpresa e uma felicidade inesperadas diante da força ao mesmo tempo bruta e serena da natureza. Parte do Parque das Serras do Porto, em território partilhado pelos concelhos de Gondomar, Paredes e Valongo, o Parque da Senhora do Salto, em especial, está localizado em Aguiar de Sousa, Paredes.

O rio que ajudou a criar o cenário e o continua a manter é o Sousa, afluente do Douro, que aqui corre largo e, subitamente, estreito encravado nas serras altas. Este é um lugar onde se podem viver muitas aventuras, ideal para a prática de rappel e escalada ou caminhadas mais afoitas. Desta vez mantivemo-nos quietos e passeámos apenas por margens mais acessíveis, ainda assim o suficiente para considerar o sítio como brutal.

Debaixo do enorme viaduto da A41 existe uma estrada onde um desvio nos indica o Parque. Descemos e o que primeiro percebemos é um lugar absolutamente tranquilo, ainda que estranhamente sob o tal viaduto.

Para o lado esquerdo, o rio é largo e de águas calmas. Para o lado direito, a maior densidade de vegetação não nos deixa perceber de imediato o que anda para ali. Atravessamos a ponte e subimos um pouco. É então que começamos a ver bem desenhadas umas escarpas imensas, apertadas, um género de garganta por onde o rio Sousa terá de passar.

É a “Boca do Inferno”. O rio que vinha navegando sereno torna-se aqui selvagem. É, ao mesmo tempo, belo e possuidor de interesse geológico. As paredes rochosas, de xisto e quartzíticas, tomam formas curiosas. Apesar de no patamar acima haver um parque de merendas com todas as comodidades, é muito boa ideia deixarmo-nos ficar a piquenicar em baixo, à beira da água, a assistir à saga do Sousa em romper este ponto do seu curso, tentado ultrapassar as muitas pedras que se metem no seu caminho antes de ter de passar por entre as tais estreitas escarpas.

Se nos cansarmos de tanto esforço alheio, basta dirigir o olhar na direcção contrária, onde o Sousa cai levemente por um pequeno desnível, formando uma cascatinha. Não falta sequer uma casinha de pedra do outro lado do rio para compor esta paisagem perfeita.

Subimos, enfim, e descobrimos a Capela da Senhora do Salto numa pequena elevação. Este não é apenas um lugar de natureza, onde a flora e a fauna são diversas e até luxuriantes. Tem de haver uma lenda para o tornar ainda mais poderoso e místico. Pode ler-se numa placa: “Um cavaleiro andante do alto dos penhascos saltou e Nossa Senhora o amparou e o cavalo as patas marcou”. Conta-se que o cavaleiro estava a ser perseguido pelo diabo (ou talvez apenas por um veado) quando se abeirou e caiu da rocha-abismo, livrando-se de morrer ao invocar no salto a protecção de Nossa Senhora. Em agradecimento o cavaleiro terá mandado construir a Capela. Diz que há até marcas – 5 covas – no terreno, correspondentes às 4 patas e ao focinho do cavalo. Não interessa se já ouvimos esta lenda em diversos outros locais e se foi um emigrante quem na verdade mandou construir esta capela. O que interessa é que este é um daqueles lugares que temos mesmo de conhecer.

Passadiços de Fiães

O Parque das Ribeiras do Rio Uíma fica em Santa Maria da Feira, a 20 minutos do Porto e longe de Lisboa, mas não o suficiente para que deixássemos de lá ir conferir este maravilhoso pedaço de natureza.

O rio Uíma é um afluente do Douro, com nascente em Romariz e foz em Crestuma, não tendo muito mais do que uma vintena de quilómetros. Fiães fica mais ou menos a meio do curso do rio e por aqui temos dois pontos onde podemos estacionar o carro junto à Estrada Nacional 326 e iniciar o percurso pedestre linear de cerca de 1,5 kms (para cada lado), grande parte dele em passadiços. No entanto, muitos outros caminhos irradiam do trilho, pelo que os quilómetros de caminhada à nossa disposição podem facilmente duplicar ou triplicar.

Caminhamos sempre junto ao rio, umas vezes sem o perceber mas logo depois abrindo-se à nossa companhia. E caminhamos quase sempre à sombra, sendo esta uma caminhada apropriada mesmo em dias de calor. Vamos debaixo de salgueiros e sabugueiros, o sol nem rompe em diversos pontos, mas ainda assim dá vontade de meter os pés na água sem receio das salamandras (de pintas amarelas) ou lontras – que não vimos. Podemos caminhar, correr ou até pedalar na bicicleta. Não é um lugar deserto, pois que o bom não dura guardado em segredo. Mas, de qualquer forma, há espaço suficiente para nos deliciarmos a apreciar a biodiversidade do Parque. Este é um sistema integrado de zonas húmidas, terrestres e de ocupação humana, esta última felizmente a menos visível. A diversidade de habitats é muito rica, quer ao nível de espécies vegetais quer animais, e nós somos testemunhas privilegiadas, podendo observá-la de muito perto ao percorrer este corredor ecológico. O bosque que nos envolve é dominado por árvores e arbustos de grande porte, criando um ambiente denso e sombrio (no bom sentido), sempre à margem do rio.

Mas também um ambiente encantador e romântico, até, como aquele produzido pelas árvores com o tronco praticamente todo coberto de hera. Não falta sequer um banquinho para descansar, sem deixarmos de admirar o cenário. Pouco depois aparece um pequeno açude, onde o som da água que até aí era uma presença discreta se torna forte.

Ao longo deste percurso a paisagem vai variando. Os passadiços cobertos de vegetação, o caminho de terra aberto, a várzea estendida à nossa passagem, os charcos de tamanhos diferentes (mas todos com elevada biodiversidade) e a discreta torre de madeira transformada em posto de observação. E, claro, o rio que vai serpenteando por todos estes elementos, sempre sossegado, fazendo desta uma muito agradável caminhada.

A Praça da República de São João da Pesqueira

Depois de termos arriscado escolher as praças e largos mais bonitos de Lisboa, arriscamos ainda mais em eleger a praça mais bonita fora da capital. E a eleita é a Praça da República, em São João da Pesqueira.

Situada na margem esquerda do rio Douro, com miradouros de eleição à sua volta, São João da Pesqueira (topónimo buscado na alfubeira vizinha abundante em peixes) tem também elementos históricos suficientes para nos cativar. Desde logo, é a mais antiga vila (e concelho) de Portugal, com foral concedido pelo rei de Leão entre os anos de 1055 e 1065, antes mesmo da nacionalidade portuguesa. Considerada o coração do Douro Vinhateiro, o vinho era já então um dos tributos a pagar ao rei e hoje o concelho é mesmo o maior produtor nacional de Vinho do Porto. E é aquele que possui a maior área do Alto Douro Vinhateiro, classificada como Património Mundial pela Unesco, cerca de 20% do total. Como curiosidade, diz-se que o Marquês de Pombal, o responsável pela criação da Região Demarcada do Douro em 1756, terá aqui vivido em menino.

Mas desta vez não é o vinho nem a sua paisagem fabulosa que nos traz a este texto. É apenas a Praça da República, o coração do pequeno centro histórico de São João da Pesqueira. Há uns bons anos havia passado pela vila numa tarde de chuva intensa que deu, ainda assim, para nunca mais esquecer a sua praça. É dos lugares mais bonitos que tive o prazer de conhecer. Ponto.

À Praça acede-se por diversas ruinhas, mas em qualquer entrada se percebe logo a monumentalidade harmoniosa do lugar. No século XVI seriam o solar da família Távora, condes de São João da Pesqueira, e o antigo hospital da Misericórdia os elementos arquitectónicos que dominariam o centro da urbe medieval. Já haveria o Arco e a Torre. O Pelourinho, esse, já não existe. Mas o que vemos hoje é a reedificação levada a efeito no século XVIII, época de grande desenvolvimento económico da vila, à boleia do crescimento acelerado da produção do Vinho do Porto. Tudo está conservado com uma vivacidade feliz.

Começámos por apreciar a Capela da Misericórdia com a sua fachada barroca revestida quase por inteiro a azulejos. Destacam-se dois painéis, um de cada lado: “Cristo e a Samaritana” e “Cristo curando um enfermo”.

Ao seu lado, o Arco com Torre do Relógio. E logo de seguida a Arcada ou Arcaria, construção do século XVIII que serviu de mercado. Espaço ainda para a torre da igreja que lhe está adossada.

Isto de um dos flancos. À sua frente encontramos ainda o edifício dos antigos Paços do Concelho e Cadeia, hoje Museu Eduardo Tavares. Igualmente com fachada barroca, como a Capela com quem dialoga face a face, foi mandado edificar por D. Maria I, com data de 1794 na frontaria, e tem o portal decorado com brasão real.

Destaque ainda para dois deliciosos edifícios contíguos, cada uma de sua cor, ambos com janelas de guilhotina. Janelas essas que não são, no entanto, um exclusivo destes.

Desta Praça da República, o antigo centro da vila antiga, podemos percebe-la com clareza como centro cívico, religioso, económico e nobre. O poder cívico local representado pelos Paços do Concelho, o religioso pela Capela da Misericórdia, o económico pelo espaço comercial da Arcada e o nobre pelo antigo solar dos Távoras. Uma bela unidade histórica e arquitectónica, testemunho de uma época que chegou intacta até nós.

As 10 Praças e Largos mais Bonitos de Lisboa

Eleger as praças e largos mais bonitos de Lisboa não é tarefa fácil, tal a profusão de beldades neste quesito. A ideia é fugir ao mais óbvio e conhecido, e se aqui não encontramos o Terreiro do Paço (Praça do Comércio), o Rossio, a Praça do Município e a Praça Luís de Camões não é por esquecimento, é antes por estas estarem já na Liga dos Campeões deste reconhecimento.

Praça das Flores – Entre o Príncipe Real e São Bento, esta é uma das zonas mais agradáveis e carismáticas da cidade, onde a faceta residencial surge aliada à faceta mais boémia. Um pedaço de tranquilidade sob o arvoredo durante o dia, pela noite são muitas as opções de qualidade para jantar ao longo da praça.

Largo São Carlos – No final do século XVIII construiu-se aqui o neoclássico Teatro São Carlos e quase cem anos depois aqui haveria de nascer e viver, no número 4 que lhe está mesmo em frente, Fernando Pessoa, poeta maior da cidade e da língua portuguesa. Espaço cultural de excelência, em dias de récitas é ver (ainda) os visons a saírem à rua, no mesmo espaço onde já é também tradição celebrar-se o mais popular Festival ao Largo.

Largo do Carmo – Situado num dos cantos do Chiado, este é um dos lugares mais históricos da cidade. Entre vários edifícios que foram palacetes, aqui fica o antigo Convento do Carmo (uma ruína cheia de atmosfera com o seu portal gótico intacto) – com o exuberante oitocentista tardo-barroco Chafariz do Carmo diante si – e o Quartel do Carmo. Ambos testemunhos de dois dos episódios que marcaram e marcam o urbanismo e a liberdade da cidade e do país, o Terramoto de 1755 e a Revolução dos Cravos de 1974.

Praça de São Paulo – Numa das mais animadas zonas de Lisboa, perto do Cais do Sodré, fica esta praça encimada pela igreja que lhe dá nome. A Igreja de São Paulo já não é a original do século XIV, destruída pelo Terramoto, antes outra construída na sequência desta tragédia. Na placa central da Praça com calçada típica portuguesa encontramos um chafariz-obelisco e quiosques em ferro forjado, tudo elementos que conferem uma beleza harmoniosa ao conjunto.

Largo Dr. José de Figueiredo – Com o nome do primeiro director do Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes, este largo monumental é um dos mais cénicos de Lisboa. O Chafariz barroco com bicas com carrancas e uma escultura de Vénus a encimá-la e uma escadaria de ambos os lados dão o enquadramento perfeito para os edifícios todos diferentes mas cheios de coerência que ladeiam esta praça em forma de U.

Praça do edifício Sede da Edp – Junto à Avenida 24 de Julho, o novo edifício dos arquitectos Aires Mateus deu à cidade uma das suas mais recentes praças e talvez a mais não convencional. Para além dos blocos de escritórios da empresa eléctrica, o propósito foi também o de criar um espaço público que pudesse ser usufruído por todos e não apenas pelos funcionários que ali trabalham. Esta praça é uma pequena obra de arte, com uma cobertura futurista que joga magistralmente com a luz natural e que nos dá ao mesmo tempo uma sensação de recolhimento e de passagem.

Largo da Achada – Situado na Mouraria, o seu nome derivará do facto de este ser um lugar relativamente plano, ideal para recolhimento na encosta, provindo “Achada” de “terra chã”. Num dos cantos do Largo fica a Casa da Achada, Centro Mário Dionisio, que no Verão se encarrega de aqui passar cinema ao ar livre, e no outro uma fachada de arte urbana pintada por Andrea Tarli, ironicamente retratando uma velha moradora e um turista intrusivo. São dois apontamentos modernos em lugar muito antigo, onde se destaca um edifício com porta e janela ogival, diz-se que um sobrevivente do Terramoto.

Beco do Jasmim – Ziguezagueando pelas labirínticas ruas do bairro da Mouraria, esta praça com declive acentuado bem aproveitado por umas escadarias é rodeada de edifícios mas tem uma árvore no meio. Pode levar “beco” no nome mas é um espaço relativamente amplo para os padrões do bairro e aqui o privado e o público confundem-se, fazendo deste um lugar óptimo para se estar. Escusado será dizer que, à semelhança do Largo da Achada, é um dos lugares mais procurados por altura dos Santos Populares.

Praça da Viscondessa dos Olivais – Nos Olivais Velho, outrora arrabalde de Lisboa onde no século XVII a nobreza da capital começou a construir as suas quintas de recreio, esta praça ainda dá ares de tempos que já lá vão. Tanto, mas tanto, que foi possível ver um senhor sentado num dos bancos da praça com um rechonchudo porco quando lá passei para tirar esta foto. À volta da praça com o seu coreto, cruzeiro e chafariz encontramos diversos edifícios que compunham o conjunto urbano então conhecido como Rossio (e a Igreja Matriz de Santa Maria dos Olivais nas suas traseiras). Um deles é a Casa Viscondessa dos Olivais, mais tarde transformada em asilo para crianças pobres e hoje um jardim de infância.

Praça Afrânio Peixoto – Esta deve ser a praça mais desconhecida desta lista. Situada no Areeiro, é uma praça-jardim junto à linha do comboio, mas acaba por ser um lugar escondido. Os prédios à sua volta estão dispostos em forma de U invertido e todos têm vista para um lago protegido por árvores. Por um deles ser a casa da tia, conheço o lugar desde pequena e se em tempos idos era mal frequentado e perigoso depois do entardecer, hoje é um luxo podermos sentar numa das cadeiras que acompanham as mesas e aí fazer um piquenique à beira da água.

Lisboa em Pinturas

Lisboa é linda. Sempre o foi.

Muitos pintores a retrataram ao longo dos séculos, mas aqui fica uma viagem pela cidade e seus motivos durante o século XX, com dois bónus fora desse tempo.

Alfredo Keil, Vista de Lisboa desde o Ginjal, finais do século XIX
Francis Smith Lisboa, Alfama, 1920
Sarah Afonso, Varina, 1924
Mário Eloy, Bailarico no Bairro, 1936
João Hogan, Casario de Lisboa, 1952
Abel Manta, Praça de Camões, 1954
Nikias Skapinakis, Pátios de Lisboa, 1956
Mário Cesariny, Vista sobre Lisboa, 1958
Carlos Botelho, Colinas de Lisboa, 1969
Maria Helena Vieira da Silva, A Poesia está na Rua, 1974
Maluda, Lisboa, 1988
Rui Carruço, Bairro Alto, 2018

Jardim Amália Rodrigues

Acima do miradouro do Alto do Parque, desde 1996 temos mais um jardim na cidade, o Jardim do Alto do Parque, renomeado Jardim Amália Rodrigues após a morte da fadista.

Criação do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles, a ideia é que este jardim seja parte da ligação entre o Parque Eduardo VII e Monsanto, o célebre Corredor Verde de Lisboa. Tudo aqui é tão bem pensado e melhor executado, de uma delicadeza tal (como a que, aliás, se observa no seu vizinho Jardim Gulbenkian, igualmente projecto de Ribeiro Teles), que custa a crer que tenhamos passado tanto tempo sem ele.

À entrada do enorme anfiteatro aberto ao vale do Parque Eduardo VII e Avenida da Liberdade, recebe-nos “Maternidade”, a escultura de Fernado Botero. A maior bandeira de Portugal por vezes também está por aqui hasteada, mas devo confessar que não fez grande falta que esvoaçasse ao vento interrompendo a vista desafogada.

Para lá desta encosta chegamos a um lago circular com a esplanada Linha de Água numa das suas margens. Enquanto uns, bem postos, se limitam a um café ou um gelado numa das cadeiras, os mais atrevidos não resistem a uma banhoca nos dias mais quentes. Ao redor do lago temos uma ampla zona relvada, quer totalmente exposta ao sol quer com zonas de sombra. Os mais conhecedores perceberão a diversidade das espécies arbóreas.

Mais acima, no ponto mais alto do Jardim, no designado miradouro, encontramos a escultura “O Segredo”, de Lagoa Henriques, duas meninas segredando ao ouvido uma da outra enquanto o mega edifício do Corte Inglês as observa. Do lado contrário, o restaurante Eleven, com estrela Michelin. E nas traseiras, o longo edifício do Palácio da Justiça, por onde segue o Corredor Verde de Lisboa. Tudo elementos de uma modernidade que continua o seu rumo nesta zona da cidade maioritariamente de bom gosto (riscar o que não interessa, por exemplo, caixote do Corte Inglês).

Parque Eduardo VII

Nós, lisboetas, habituamo-nos desde sempre a passar pelo Parque Eduardo VII, seja abaixo, girando pela rotunda do Marquês de Pombal, seja ao alto, rindo do “pirilau”, ou num sobe e desce constante por altura da Feira do Livro. Até não nos cansamos de parar frequentemente no Alto do Parque para assistir, vez após vez, à mais poderosa vista de Lisboa debruçada sobre o Tejo. Mas quantos de nós lá vamos somente para passear, fixando demoradamente o olhar na fachada do Pavilhão Carlos Lopes, de um lado, ou admirando a deliciosa entrada da Estufa Fria, do outro?

Inicialmente nomeado Parque da Liberdade, aquele que viria a ser o parque central de Lisboa começou a ser pensado em 1882, depois do fim do Passeio Público em consequência da abertura do boulevard da Avenida da Liberdade. A ideia era prolongar o espaço público, dando uma monumentalidade ainda maior à estátua do Marquês no cimo da Avenida e projectando urbanísticamente uma nova e grande Lisboa. Mas a apresentação e discussão de ideias e projectos prolongou-se por décadas, em 1903 o Parque adoptou o nome por que hoje é conhecido – Parque Eduardo VII de Inglaterra, em homenagem ao rei que havia visitado a cidade no ano anterior – e apenas nos anos 40 se deu, enfim, sequência ao projecto do arquitecto Francisco Keil do Amaral.

O terreno desnivelado foi aproveitado e daqui surgiu a longa alameda central relvada acompanhada por duas alamedas laterais em calçada portuguesa. Nestas alas há espaços para se estar em bancos de jardim, protegidos pelas árvores, e é nelas que se realiza há quase 40 anos a Feira do Livro de Lisboa. E para lá destas alas temos, a oeste, a Estufa Fria e o Lago Grande, bem como um parque infantil e um club, e, a este, o Pavilhão Carlos Lopes e mais um lago com um restaurante. Em ambos os flancos, muito arvoredo e zonas de estar, fazendo do Parque não apenas um lugar monumental, mas também um verdadeiro espaço verde de recreio.

No topo do Parque temos o miradouro que nos dá a tal vista poderosa que mostra toda a Baixa de Lisboa, o rio Tejo e a margem sul. Apesar da vista ser uma daquelas que tudo distrai, não há forma de não perceber as enormes colunatas imperiais que se estendem rumo ao céu, símbolo característico do Parque. Foi entre estas colunatas do Estado Novo que, em 1997, foi inaugurado o monumento ao 25 de Abril, obra de João Cutileiro que muita polémica criou pela forma fálica da sua escultura, carinhosamente apodada de “pirilau”. A forma desta escultura em mármore é, precisamente, uma homenagem à virilidade da Revolução e à coragem dos capitães de Abril.

Descemos rumo aos jardins da Estufa Fria, sob o cacarejar das galinhas, e a sua recepção é incrível. O Lago Grande é belíssimo, com uma ilha e estatutária vária por onde nadam patos e carpas. A Estufa Fria foi criada na primeira década do século XX, ou seja, antes mesmo da execução do Parque, e aqui se conservam e podem conhecer diversas espécies botânicas, vindas de todo os lados do mundo, incluindo as da estufa quente, para plantas (e aves) tropicais, e as da estufa doce, para plantas carnudas. Aqui se realizam também eventos culturais no pequeno teatro do conjunto. Visitando a Estufa seguimos por trilhos que nos levam por plantas exóticas, riachos, grutas e cascatas, todo um cenário riquíssimo e luxuriante naquele que já foi considerado como um dos lugares mais aprazíveis da cidade. E é o mesmo.

No lado contrário do Parque o elemento que mais se destaca é o do edifício do Pavilhão Carlos Lopes (renomeado após a conquista da primeira medalha de ouro em Jogos Olímpicos por Carlos Lopes, em 1984, na maratona), destinado a eventos desportivos e culturais. Originalmente construído para ser o Pavilhão das Indústrias Portuguesas durante a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922, foi desmontado e transportado de volta para Portugal para ser reconstruído no Parque entre 1929-1931. Toma um gosto revivalista com inspiração no decorativismo barroco joanino e a sua fachada profusamente decorada – estátuas e brasão – é ainda revestida de painéis de azulejos, em azul e branco, da Fábrica de Sacavém, com a representação de canas da história de Portugal.

Subindo o Parque de volta ao miradouro monumental passamos ainda por mais um lago, estátuas e zonas de relva com sombras que são um autêntico convite para um momento de descanso. Quem sabe se não para uma leitura de uma das obras adquiridas numa das muitas Feiras do Livro que se celebram ali mesmo ao pé.

Duna da Cresmina, Guincho

A Duna da Cresmina é parte do sistema dunar Guincho-Oitavos, em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. Um passadiço circular com menos de 2 kms, meia-hora a andar sobre madeira a espaços invadida pela areia, sai desde o Núcleo de Interpretação da Duna da Cresmina, no alto da Praia do Guincho. Já sabemos que o Guincho é uma bela praia de areia branca que tinha tudo para ser o lugar indicado para estender a toalha na areia e nos deixarmos ficar por ali a apanhar sol. Mas daí vem o vento, e ele vem grande parte do tempo, e a praia transforma-se no lugar ideal para o windsurf, uma caminhada na areia, uma refeição num dos seus restaurantes ou… um passeio ao longo da duna, sem sair do trilho previamente definido para o efeito.

O que este sistema dunar tem de curioso é precisamente a condição climatérica adversa de vento forte carregado de sal. As areias das praias da Cresmina e do Guincho são por ele empurradas e retornam ao mar mais a sul, entre os Oitavos e a Guia, depois de migrarem sobre a plataforma rochosa aplanada do Cabo Raso.

Este é um sistema dinâmico, acreditando-se que a Duna da Cresmina esteja a avançar cerca de 10 metros por ano. Ou seja, embora a duna desempenhe um papel muito importante na protecção do terreno em caso de subida do nível do mar, ao mesmo tempo teme-se que a longo prazo este avanço possa vir a representar a perda de solos aráveis, infraestruturas e habitações.

Ao longo do trilho podemos observar o habitat diverso que nos rodeia, quer na sua flora quer fauna. As areias permitem alguma vegetação, embora rasteira, como o feno e o estorno da areia e pinheiro bravo. Surpreende que algumas flores consigam romper a areia. E vemos borboletas, melros e, sobretudo, lagartixas.

Mas a grande atracção são as dunas e as formas que são capazes de tomar. Num lugar de paisagem superior, Serra de Sintra nas costas e Oceano Atlântico por diante, é um agradável passatempo tentar observá-los num enquadramento especial dado pelas dunas.

Pelo Trilho Castrejo

Os Montes Laboreiro, hoje mais conhecidos pela Serra da Peneda, são um dos lugares de Portugal que mais encanto produzem em mim. Sobretudo pela paisagem, sim, mas também pela cultura secular da qual chegaram testemunhos até aos dias de hoje. Em tempos andei por Castro Laboreiro e disso dei conta aqui.

Com a pandemia novos horizontes se abriram e o que me habituei a circundar de carro hoje adentro a pé, alcançando lugares, paisagens e ambientes que de outra forma não seriam possíveis perceber. Foi assim que surgiu a ideia da caminhada pelo Trilho Castrejo, percurso oficial de Melgaço (MLG – PR3), com 17 quilómetros pelos caminhos de transumância que outrora ligavam as brandas às inverneiras, um sistema de povoamento usado pelos povos castrejos que vale muito a pena conhecer e descobrir.

Antes de iniciarmos o Trilho Castrejo tal como está definido fizemos um desvio e subimos ao Castelo de Castro Laboreiro. O caminho até lá é fácil, cerca de 15 a 20 minutos para cada lado, indo por uma vertente do penedo e voltando pela outra, entrando e saindo por cada uma das portas do Castelo. Implantado num monte a 1033 metros de altitude (a vila de Castro Laboreiro está a 945 metros), neste miradouro natural para todo o planalto de Castro Laboreiro e montes escarpados que o rodeiam a vista é, está bom de ver-se, soberba.

Construído no século XII ou XIII sobre uma estrutura pré-existente, a muralha envolve dois espaços bem definidos. Um deles correspondia à povoação intramuros, a qual ainda na Idade Média abandonou o castelo altaneiro para se estabelecer mais abaixo, na vila que hoje conhecemos como Castro Laboreiro e que espreita para lá da muralha. Com o tempo o Castelo foi perdendo a sua importância estratégica, embora ainda tenha desempenhado um papel importante na Guerra da Restauração e na Guerra Peninsular. Realce-se, no entanto, que a ocupação humana do lugar do monte do Castelo é muito antiga, remontando ao Paleolítico e ao período castrejo, eram então os seus povos nómadas. Aliás, veremos adiante que uma espécie de nomadismo continua a ser prática na região.

Descemos do Castelo rumo à vila e desviámos breve até à face da Cascata de Castro Laboreiro, alimentada pelas águas do rio de mesmo nome. Chovia bem, mas não o suficiente para que pudéssemos confundir a água caída do céu com a torrente que cai em diversos patamares nesta falha nas rochas e que proporciona (mais) um belo espectáculo da natureza.

Atravessámos então a vila, conquistada por D. Afonso Henriques e logo integrada nos domínios do reino de Portugal, tendo recebido foral e sido elevada a sede de concelho em 1271, extinto em 1855 e hoje parte do concelho de Melgaço. O seu coração é a pequena praça onde encontramos a Igreja Matriz, o Pelourinho e o antigo edifício da Casa da Câmara. Instalada no planalto, o topónimo Castro Laboreiro deriva de “castrum” – povoação fortificada – e “lepporeiro” ou “lepus” (ou leporis, leporem, leporarium, lepporeiro, leboreiro) – palavra latina que significa lebre. Seria então a “fortificação das lebres”, talvez por existirem aqui muitos destes animais. Ou, palpitam ainda outros, derivará do “Castram Laborarum” dos romanos, de significado “acampamento de trabalhadores”. O que espanta na região é que desde sempre celtas, romanos, mouros e por fim os cristãos do reino de Portugal aqui tenham teimado em tomar assento, sobrevivendo às agruras do clima e da infertilidade do solo – daí a alusão aos trabalhadores. Ainda assim, têm demonstrado que é possível viver em comunhão com a natureza, adaptando-se e fazendo das previsíveis fraquezas a sua força.

Iniciámos oficialmente o Trilho Castrejo virando costas ao centro da vila de Castro Laboreiro e seguindo planalto afora. As fragas graníticas e os rochedos com formas cativantes marcam a paisagem típica da Peneda. A vegetação é rasteira, feita de tojo, carqueja, urze, com cores variadas que só o Outono sabe como fazer sobressair na perfeição. Este mato que aqui encontramos possui uma dupla função, servindo de alimento para o gado e mantendo alguma fertilidade do solo. Estamos no planalto, recordemos, e nas terras mais altas, as brandas, a fertilidade dos solos é ainda menor, pouco se produzindo, servindo as terras sobretudo para pastoreio e pastagens que aqui encontram alimento precisamente na vegetação rasteira referida.

À medida que abandonamos o planalto e descemos o vale do rio Laboreiro, com o monte do Castelo dominador à nossa esquerda, a paisagem e características do solo vão mudando. Somos transportados para um outro mundo, com um ambiente totalmente diferente. Primeiro aproximamo-nos de uma pequena lagoa com ponte (são às dezenas as pontes por estes caminhos), um lugar incrível, quase como se de um oásis na penedia se tratasse.

Depois continuamos a descer mas agora já não a céu aberto, antes totalmente imersos por um não menos incrível bosque. É o bosque de carvalhal do Barreiro e as palavras para o descrever nunca serão suficientes. Delicioso nas suas cores e tranquilo no seu recato, a dado passo os muros aparecem inteiramente cobertos de turfeira, de um verde tão intenso que parece irreal. É este musgo que faz reter a água e que juntamente com os rios e ribeiros que por aqui correm faz da zona baixa da região de Castro Laboreiro um mundo à parte em termos de fertilidade, num clima menos frio e numa terra menos pobre.

A piada e o interesse deste Trilho Castrejo está, precisamente nesta diversidade de paisagens que tem gerado ao longo dos séculos diferentes povoamentos. Ou melhor, um sistema de povoamento triplo: no planalto, nas brandas e nas inverneiras. Explique-se: este trilho segue pelos caminhos que ligavam as brandas às inverneiras, hoje ligadas por estradas asfaltadas mas há nem sequer um século apenas por caminhos medievais de calçada em pedra como este que percorremos agora (a estrada que liga Melgaço a Castro Laboreiro foi construída apenas na década de 1940). Os povos castrejos possuíam duas casas, uma nas brandas e outra nas inverneiras. Hoje, com as alterações climáticas e com o clima menos inclemente conseguem viver maioritariamente no planalto ou até nas brandas. Mas até há pouco tempo grande parte das famílias passavam os meses mais quentes nas encostas (brandas) e os meses mais frios nos vales (inverneiras). Nas brandas, situadas a maior altitude, faziam as sementeiras, como centeio e batata. Nas inverneiras, a mais baixa altitude e mais abrigadas, cultivavam-se os cereais e as frutas. Ou seja, o povoamento e exploração do solo varia conforme a época e o clima de modo a que o homem possa fazer o melhor uso da terra, trabalhando-a sempre que isso seja possível. Isto acontece um pouco por toda a Peneda, mas é aqui, em Castro Laboreiro, que assistimos a este sistema singular com maior evidência. Nos dias de hoje, porém, as pessoas têm vindo a fixar-se em permanência na vila de Castro Laboreiro, daí que, como alguém já se lhe referiu, esta seja a mais alta das inverneiras e a mais baixa das brandas.

Prosseguindo a nossa caminhada, aproveitámos para um lanche no inspirador bosque do Barreiro e atravessámos as inverneiras do Barreiro, Podre e Assureira. É à saída desta última aldeia que encontramos um belo postal que resulta do conjunto de um moinho junto à ponte. Até nos esquecemos que também a Capela de São Brás está ali. Em uso até há pouco tempo, alguns dos moinhos de água estão ainda bem conservados na sua fachada em granito e são uma expressão da arquitectura tradicional local.

Estamos já no ponto mais baixo do nosso trilho, a cerca de 750 metros de altitude. É nele que fica uma das pontes mais importantes e pitorescas da região e até de todo o Parque Nacional Peneda-Gerês. Classificada como Monumento Nacional, a Ponte da Cava Velha foi construída na época romana, embora tenha sido restaurada na época medieval. O facto de ser também designada por Ponte Nova faz crer que por aqui tenha existido uma outra ainda mais antiga. À semelhança de outras, o seu tabuleiro é em arco, mas maior. Na verdade, são dois os arcos que nos transportam até à outra margem do rio Castro Laboreiro.

E depois disso, atravessada a Ponte da Cava Velha o caminho brinda-nos com uma longa subida. A beleza agreste do lugar, mesmo com chuva e tempo nublado, reconforta no esforço. Os penedos e rochas não param de surpreender mas a forma de uma delas, em especial, supera tudo. O Bico do Patelo é irreal, como se um pássaro tivesse pousado à beira de um penedo e ali se tivesse quedado petrificado.

Vamos vendo o Bico ao longe, atravessamos a inverneira de Curveira já a preparar a lenha para os dias frios que aí virão, continuamos a subir por entre as pedras e ficamos mesmo debaixo da magistral formação rochosa. Aqui não podemos deixar de soltar um lamento pelo céu nublado não nos permitir registar na perfeição o fantástico enquadramento da aldeia com o Bico. Como pode um cenário ser tão grandioso mesmo com uma visibilidade tão má? E como pode a natureza moldar uma pedra de forma tão formosa?

Depois desta subida encontramos um terreno fácil e relativamente plano em terra batida. Um pouco para lá do ponto mais alto da nossa jornada (1090 metros de altitude) ficam algumas das brandas, como Padrosouro, junto à qual passámos sem entrar (e ainda mais escondidas nas montanhas ficam Seara, Eiras, Portos e Curral do Gonçalo).

Daqui iniciámos uma descida por mais um caminho de calçada de pedra, no que podia muito bem ser um rio com um fio de água. Avistam-se alguns pequenos prados verdejantes. Mas a melhor vista é para a inverneira de Cainheiras, um pequeno conjunto de casinhas de granito rodeadas de um manto verde entrecortado por uma fina e ondulante risca de asfalto, enquanto os penedos assistem a este espectáculo na fila de trás.

Antes de chegar a Castro Laboreiro ainda passámos pela ponte e povoação de Cainheiras e pela povoação e ponte de Varziela. Nesta última, junto ao ribeiro Corga das Lapas uma minúscula cabine está instalada num terraço verde com uma frente ribeirinha privativa. Um luxo. Mas voltam a ser as cores a ganhar protagonismo, fazendo questão de se sobrepor ao cinzento da paisagem.

À chegada a Castro Laboreiro temos a vista que nos faltava da sua cascata, agora no lugar cimeiro dos seus vários patamares e igualmente impressionante.

E podemos, finalmente, repousar desta enorme caminhada pela paisagem e cultura das aldeias de montanha dos Montes Laboreiro.

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