Dois dias de carro pela Serra da Freita – o 2° dia

Junto a Arouca uma excelente sugestão de dormida é a Quinta do Toutuço, em Lourosa do Campo. O lugar é pura ruralidade, com vistas lindíssimas para o verde da serra, um recanto de pacatez. Se não houvesse tanto para conhecer pela região não seriam mal passados uns dias de dolce far niente na Quinta, à conversa com os seus simpáticos proprietários e demais hóspedes dos apenas quatro quartos. Imperdível, no entanto, um passeio pelos jardins da Quinta, não apenas para ver uma das inúmeras árvores de fruto, mas sobretudo para apreciar a maior canastra do nosso país.

A manhã do segundo dia pela Serra da Freita começou com a visita aos Passadiços do Paiva, o ponto alto de qualquer passeio pela região (em breve um post sobre esta caminhada).

A minha caminhada de oito quilómetros foi demorada, como acabam por ser quase todos os meus passeios. Muita paragem para observar qualquer coisa, com interesse ou não só o sei depois, leva a que o plano do dia tenha de sofrer alterações e se tenham de fazer opções. Por exemplo, a ideia era almoçar uma das carnes típicas em Alvarenga, mas como já não eram bem horas de almoço e muito quilómetro havia ainda para percorrer, esta refeição ficou para trás.

Do Areinho, uma das entradas dos Passadiços, seguimos até à ponte onde cai a Garganta do Paiva, lugar onde quem se propõe fazer os Passadiços tem de superar a única dificuldade do percurso, uma longa subida por uma épica escadaria. Mas de carro podemos seguir até Paradinha, uma estrada que termina na sua praia fluvial e passa à entrada dos Icnofósseis de Cabanas Longas, outra das paragens com interesse geológico no Geopark de Arouca. Não há lugares para estacionar, por isso não sei bem como se pretende que possamos visitar o sítio. Aliás, não há sequer lugar para dois carros se cruzarem na estrada. Esta estrada é terrivelmente perigosa, estreita e sem visibilidade, curva contra curva monte afora a deixar ver um vale imensamente fundo. A rezar constantemente para não me cruzar com mais nenhum carro. Fui atendida.

E esta estrada é também terrivelmente bela. As formas que os monte tomam, o intenso verde e o isolamento que se pressente faz com que a viagem seja uma verdadeira aventura.

O lugar de Paradinha é um exemplo de tudo isto. Antiga aldeia de casas de xisto, foi totalmente recuperada e hoje não vive lá ninguém em permanência. O ambiente que se sente é misto. Não se vê vida, mas como refúgio parece ideal. Perdida na natureza, mas com arte espalhada pelas suas ruas e casas.

Como tinha dito, a estrada termina em Paradinha e daí há que voltar pela estrada terrível, mas agora felizmente na parte interior junto ao monte. Se tiver que desviar o carro pelo menos bato, não caio. O próximo destino é Janarde, a dois quilómetros de Paradinha em linha recta no mapa e a 22 quilómetros por estrada. O que vale é que a paisagem compensa a distância e a demora.

Pelo meio uma paragem em Meitriz. Faz lembrar Chãs de Égua, no Piodão, até pelo ambiente de abandono. Núcleo minúsculo de casas de xisto com a companhia de umas videiras, esse abandono só faz adensar o clima de mistério.

Em Janarde, um pouco adiante e acima, já vi duas pessoas. Neste ponto perdido no mapa não é apenas o xisto e o clima de mistério que prendem a nossa atenção, é antes a paisagem fabulosa. Pretendia fazer o percurso a pé até à Livraria do Paiva, fenómeno semelhante à mais acessível Livraria do Mondego, riscas nas paredes rochosas que parecem estantes de livros. Mas estes são literalmente caminhos menos batidos e as silvas a roçarem nas pernas ao léu venceram-me pelo cansaço ao fim de pouco tempo.

O pior foi quando tentei seguir de Janarde para Regoufe. O GPS deu-me uma estrada estreita e a subir em terra batida que só a inconsciência me levou a tentar iniciá-la sem um 4×4. Depois do susto, a volta à estrada de asfalto terrível mas bonita fez-me relativizar a coisa e já nem o cruzar com outros carros me atormentava.

Regoufe tem bem mais vida que as anteriores Paradinha, Meitriz e Janarde. E tem também outra história e dimensão.

A aldeia de Regoufe tem um localização geográfica belíssima, na cova de um monte com paredes enormes ora preenchidas do verde da vegetação ora de plantações de milho. Há ainda alguma vida aqui. E a aldeia acaba por ser um museu dos hábitos de vida tradicionais. As ruas tanto são das pessoas como dos cães, bois e galinhas. O cheiro a bosta faz aqui sentido.

Mas Regoufe, cujo significado é “rei dos lobos”, não é apenas aldeia de agricultura e pastorícia. Em tempos foi ainda lugar de umas minas de volfrâmio. As Minas de Regoufe ou Poça da Cadela começaram a sua exploração em 1915 e foram inicialmente concedidas a um francês. Em 1941 os ingleses tomaram a administração das minas e a eles se deveram vários melhoramentos não só no espaço mineiro mas também nos acessos à região. É curioso que em plena II Grande Guerra Mundial os ingleses tinham aqui esta mina de Regoufe e não muito longe os alemães administravam a de Rio de Frades, também dedicada à exploração do “ouro negro”, do qual fabricavam depois armas e munições. O complexo mineiro de Regoufe chegou a empregar mais de 1000 pessoas e apenas cessou a sua actividade na década de 1970. Hoje visitam-se as ruínas dos seus edifícios em granito, como as zonas residenciais, escritórios e oficinas. Vê-se até alguma maquinaria. E por ali afora abre-se um vale e a paisagem dá ainda mais encanto a este lugar abandonado. Não falta sequer um campo de futebol pelado ainda com balizas e redes roídas. Ao mesmo tempo, parece que a mina foi abandonada ontem mesmo.

E é na aldeia de Regoufe que se inicia aquele que deve ser um dos mais incríveis percursos pedestres do nosso país. A caminhada até Drave, a aldeia fantasma perdida nas profundezas da terra que os escoteiros fazem por manter ligada ao mundo, ficou adiada mas não será esquecida.

Ainda tinha esperança que a sua silhueta se pudesse ver de algum ponto da estrada à volta do seu vale, mas nada.

De qualquer forma, a estrada que passa pelo Portal do Inferno e da Garra (que nome inspirado) é certamente uma das mais fantásticas do nosso país. O vale de Drave para um lado, o vale de Covas do Monte para o outro. Não é apenas beleza, é muito mais do que isso e só aqui fincando os pés conseguimos sentir todo o poder da região.

O último capítulo desta viagem pela Serra da Freita e companhia antes de voltarmos para Arouca transporta-nos ainda até ao Santuário de São Macário, no alto da serra de mesmo nome, após atravessarmos um planalto. Não falta sequer uma lenda a este sítio, segundo a qual um homem que acidentalmente matou o seu pai se refugiou aqui até ao fim dos seus dias, alimentando-se de ervas e gafanhotos como penitência. Ficou santo, uma ermida foi construída neste lugar em sua honra e a romaria de São Macário é celebrada até hoje.

Aqui estamos no topo do nosso mundo, a 1054 metros de altitude, e o dia começa a deixar-nos. O vento forte tenta perturbar o momento, mas é impossível desviar a atenção da paisagem majestosa destas Montanhas Mágicas.

Dois dias de carro pela Serra da Freita – o 1° dia

A Serra da Freita não é o mesmo que a Serra da Arada e a Serra de São Macário. E estas, todas juntas, não correspondem exactamente ao Maciço da Gralheira. No entanto, por uma questão prática e uma vez que não existe qualquer controlo de fronteiras por esta região falaremos adiante sobre um território largo.

Que tal começar o passeio de carro pela Serra da Freita por um almoço no restaurante Mira Freita, na aldeia de Felgueira, concelho de Vale de Cambra? Às portas da Freita, este é um dos mais afamados restaurantes da região e a sua vitela confirma que a fama é merecida a cada segundo da degustação da carne local.

Esta aldeia fica num ponto elevado onde as plantações de milho se sobrepõem às vinhas e videiras. Os espigueiros, aqui chamados de canastras, deixam ver o milho amarelinho. E a lenha vai-se acomodando à porta das casas e à beira da estrada, que o Inverno está aí à porta (a viagem foi feita no início de Outubro).

De barriga cheia iniciei então o passeio de dois dias seguindo até ao pico do Espigão, a pouco mais de 1000 metros de altitude, o primeiro dos largos pontos de vista que temos ao nosso dispor. Aqui está instalado o Radar Meteorológico de Arouca, cuja torre se avista desde longe e nos vai ajudando a situar na paisagem. E este é ainda o lugar de uma daquelas torres de arquitectura familiar nas serras portuguesas. Um senhor estava no seu topo e perguntei-lhe se também poderia subir. “Só se me quiser ajudar a avistar um fogo”. Em época, cada vez mais alargada, de alertas de fogo, todo o cuidado é pouco, e lá segui viagem mais segura, sentindo que mesmo que não houvesse fogo alguém olharia por mim.

O bom de viajar sozinha é poder parar o carro para tirar uma foto ou para ficar só a apreciar o cenário sempre que quiser. Mesmo que isso signifique parar o carro de 200 em 200 metros. Até que o subconsciente lá ordena, “pára com isso senão chegas ao fim do dia sem visitar metade do que te propuseste”. E a verdade é que a Freita e redondezas nos obriga a parar muitas vezes.

A paisagem é variada nas suas formações rochosas, mas há algo que é marcante: a história geológica da região. O Arouca Geopark, coincidente com todo o território do concelho, possui um património riquíssimo em valor geológico.

A primeira paragem foi no Campo de Dobras da Castanheira. Está estudado que estas rochas se formaram há mais de 500 milhões de anos nas profundezas de um mar antigo, cujos sedimentos deram origem às rochas que hoje podemos observar. Xisto, metagrauvacoides e até filões de quartzo. Para quem não é especialista ou interessado em geologia, temos sempre a belíssima paisagem deste vale da Castanheira.

Um pouco mais adiante chegamos a um dos pontos altos deste Geopark, as Pedras Parideiras, já na aldeia da Castanheira. Temos um pequeno museu e casa de apoio que nos explica este fenómeno raro de granitização no mundo. Uns passadiços elevados transportam-nos por uma área de afloramento granítico onde podemos conhecer umas curiosas pedras. O nome “parideiras” vem da situação de estas pedras possuírem uns nódulos pretos brilhantes (quartzo no interior e mica preta no exterior) em forma de covinhas que acabam por se autonomizar da pedra mãe e dar origem a novas pedras. Pedras que parem pedras.

Curioso fenómeno, repito, mas a paisagem vizinha destas Pedras Parideiras está à sua altura. O granito é soberano e a vegetação não abunda e é rasteira, feita sobretudo de tojo, urze e carqueja. O colorido pode parecer monótono, mas não o é. Umas vacas pastam amiúde, para compor o cenário. Aliás, a raça arouquesa, delícia gastronómica da região, é deixada livre para pastar nas encostas da serra e alimenta-se de forma natural, daí que depois de servida à mesa possamos confirmar como é tenra a sua carne. E da aldeia da Castanheira, terra de granito com presença também do xisto, avista-se não muito ao longe a Cascata da Frecha da Mizarela.

Da Castanheira até à Frecha são uns poucos mas intensos quilómetros. Os cabeços verdes dão lugar num ápice aos cabeços cinzentos. As formas das pedras cativam-me e nunca olho para duas iguais. Quanto mais não seja porque para lá de um muro de pedras empilhadas aparece-nos um campo de milho.

E já chegados à praia fluvial de Albergaria da Serra uns cavalos fazem companhia às vacas. O rio deste lugar é bem agradável.

A Cascata da Frecha da Mizarela é logo a seguir.

Um fiozinho de água é o que parece cair desde a alta parede rochosa que cai para o rio Caima, um dos muitos cursos de água que nascem ou se desenvolvem na região. Com 70 metros, esta é a mais alta cascata do país. Não é fácil perceber a verdadeira dimensão desta cascata face ao enorme cenário de montanha que cai sobre um vale que vemos desde o miradouro cá de cima, da estrada. Melhor seria se nos propuséssemos a seguir pelo percurso “Nas Escarpas da Mizarela”, um dos muitos percursos pedestres que existem na área do Geopark. O rei destes percursos é, claro, o multi-premiado “Passadiços do Paiva”, mas antes de visitarmos a Freita e suas cercanias é difícil ter noção da quantidade e qualidade dos caminhos que há para percorrer a pé por aqui. O percurso da Mizarela é apenas mais um deles, mas um daqueles que nos deixará bem mais perto de sentir o real poder desta queda de água. A confirmar numa visita futura.

Não havendo caminhada, há que seguir a viagem de carro.

A paisagem continua a encantar. Pedras, claro, e agora umas cabras guiadas por um pastor que nos obrigam a parar na estrada para as ver a brincar umas com as outras. Pura natureza.

O Miradouro de São Pedro Velho, a 1077 metros de altitude, obriga a uma breve mas agradável caminhada. Granito ou xisto à escolha. E já no miradouro norte e sul, este e oeste, igualmente à escolha. Diz-se que daqui se avista meio Portugal.

O mesmo para o Miradouro do Detrelo da Malhada. A 1100 metros de altitude, este é o ponto mais elevado da Freita, e agora temos Arouca e o seu fértil vale aos pés e nos dias bem limpos a costa atlântica entre Espinho e o Porto ao longe. Este miradouro tem uma forma engenhosa, uma plataforma circular suspensa que nos dá a sensação de flutuar no céu perante uma paisagem imensa.

Miradouros e pedras, uma dupla imbatível na Freita. E estradas praticamente desertas que vão rompendo pelas pequenas elevações granítico-amareladas.

Outra das curiosidades da Freita são as Pedras Boroas do Junqueiro. “Boroa”, que palavra é essa? Ainda se fosse pão de broa, ainda vá, mas boroa? Pois é, a Freita tem até uma pedra que ao engano pode fazer crer que é para ser mordida. Mas cuidado, que esta boroa é de granito. Na verdade são duas boroas, ou melhor, dois blocos de granito com cortes tais que se assemelham mesmo a umas broas. E assim fiquei também a saber que broa pode também ser designada como boroa.

Este é mesmo o reino da pedra. Elas ali aparecem, juntinhas, no meio de um prado onde as vaquinhas pastam sossegadamente.

Daqui seguimos para Manhouce, já no concelho de São Pedro do Sul. Terra da Isabel Silvestre, como alguém fez questão de lembrar, não foi a música, no entanto, que colocou esta aldeia no mapa. Foi antes a sua beleza, quer construída quer natural. Em tempos Manhouce chegou a ganhar o segundo prémio num concurso das aldeias mais portuguesas de Portugal. Vale a pena caminhar pelas ruas do povoado feito de casas de granito e telhados de ardósia.

E em Manhouce e ao seu redor existem ainda umas quantas piscinas naturais para descobrir. Também conhecidos como “poços”, junto à ponte romana ficam o Poço da Gola e o Poço da Silha (infelizmente não consegui dar com este último).

Mais incríveis são o Poço da Barreira, para um lado, e o Poço Negro, para o outro. Para chegar até às suas águas há que ser aventureiro e, pareceu-me, arriscar a saúde. Mas mesmo sem mergulhos a visita a estes Poços vale bem a pena pela paisagem e beleza soberbas. O Poço Negro no rio Teixeira, então, é uma imensa piscina redonda com uma cascata com uma dimensão generosa rodeada por uma densa vegetação.

Este primeiro dia pela Freita já ia longo e com o fim da tarde a chegar, mas pela serenidade da estrada desfilavam as canastras com o milho escondido, enquanto as suas folhas descansavam à sua beira. Uma trabalhadora seguia na labuta.

Tempo ainda para seguir pela estrada da Freita que nos permite o desvio para as aldeias de Cabreiros, Tebilhão e Cando, apenas avistadas de longe.

As paisagens da Freita são ainda mais soberbas ao cair do dia quando as cores se tornam irreais, rosas misturados com violetas e laranjas, antes do negro da noite tudo tomar.

Caxinas

Sem nos apercebermos que deixámos a Póvoa de Varzim damos por nós nas Caxinas, já no concelho de Vila do Conde. O mar continua o elemento dominante. Mas em poucos lugares do nosso país a cultura da pesca e a identidade e tradições associadas a uma povoação serão tão vincadas como aqui.

A comunidade das Caxinas é ao mesmo tempo forte e carismática e sofrida e nem sempre bem compreendida. No século XIX pescadores mais pobres vindos da vizinha Póvoa instalaram-se nesta enseada recolhida, atraídos por novos e melhores modelos urbanísticos que lhes permitiam ter uma casa com quintal. A pesca continuou a ser a sua vida, em contraponto a um maior cosmopolitanismo da burguesia poveira e vila-condense. Daqui saiam nos seus barcos de pesca pela costa das redondezas (e ainda saem) ou até para outros mundos, como para a Terra Nova e Gronelândia, para a pesca do bacalhau, a faina maior. O homem saía para a pesca e a mulher administrava a casa e o negócio em terra, ao mesmo tempo que cuidava e educava os filhos. Duas personagens que se completam, ambas trágicas. O homem em naufrágio no mar, a mulher em lamento em terra.

Já tínhamos apreciado o painel de azulejos na Póvoa de homenagem a estas vidas e pela promenade junto ao Atlântico que percorre as Caxinas observamos agora o Memorial aos Náufragos. É um belo exemplar escultórico, uma justaposição de diversas cruzes em ferro que forma no seu todo um barco, aludindo simbolicamente à tragédia da morte que este povo sacrificado se habituou a viver.

Instaladas nas rochas dentro do mar vêem-se ainda outras cruzes, todas simbolizando a desdita.

Ainda assim, ou talvez por isso, face a tamanha provação os caxineiros não deixam de ser uma comunidade devota e crente a Deus. Deus traz a tempestade mas traz também a bonança. A Igreja dos Navegantes, de frente para o mar, tem tudo a ver com esta comunidade. Em forma de barco, todos os seus elementos decorativos remetem para a vida no mar.

Desta última vez que lá passei, numa tarde de domingo, as gentes das Caxinas estavam engalanadas, tendo escolhido as suas melhores roupas para aquilo que seria um misto de actividade religiosa e evento comunitário. A vizinhança – forte e essencial na comunidade – parecia estar toda reunida. Aos meus olhos citadinos e distantes daquela realidade, a imagem remeteu para memórias de há 20 – 30 anos de uma aldeia da Beira. Pessoas humildes com vestes humildes, nem sempre discretas e por vezes espampanantes, mas sempre alegres.

Essa humildade de braço dado com a alegria manifesta-se também na arquitectura tradicional do bairro. Casas pequenas de um só piso, muitas revestidas a azulejos que lhe dão vida, roupa a secar na corda (por vezes até o peixe), pátios onde não se esconde nada.

Diz-se que a palavra “caxinas” provirá de “cacimba”, o nevoeiro que é costume instalar-se junto ao mar. Ou talvez provenha do verbo latim “cachinare“, que significa uma gargalhada trocista. Ambas farão sentido, mas esta última dá uma ideia mais acertada desta comunidade unida em todos os aspectos da vida, na desgraça e na festa.

Um breve passeio para além do mar das Caxinas deixa-nos ver que estas pequenas casas correm perigo. Poucas mantém-se íntegras, várias apresentam-se em ruína e muitas outras já foram demolidas para dar lugar a novos prédios. O lugar tem uma implantação excelente. Já sabíamos que as Caxinas não eram apenas uma comunidade de pesca e gente humilde (o escritor Valter Hugo Mãe, por exemplo, é um orgulhoso caxineiro), mas parece que no futuro isso vai ficar mais evidente.

Póvoa de Varzim

Póvoa de Varzim é sinónimo de mar. E o mar é central a toda a sua história e vida dos seus habitantes. O mar como labor e o mar como lazer.

Instalada numa pequena enseada, mais protegida dos humores da natureza, é terra de pescadores desde há séculos e a chegada do comboio no último quartel do século XIX fez com que passasse a ser também uma estância de veraneio. Hoje é esta última faceta que predomina na Póvoa, deixando às Caxinas, na vizinha Vila do Conde, a vida dura da pesca. Vila do Conde, com a qual a Póvoa de Varzim se confunde, de tal forma que para um não local é quase impossível perceber se está num ou noutro concelho – e para os locais também não deve ser fácil, pois à mesma pergunta sobre se um dado ponto de uma rua era uma ou outra localidade foi dada resposta diferente -, Vila do Conde, dizia, começou por ser dominadora. De 1308, data do seu foral, até 1514, a Póvoa de Varzim esteve na dependência do mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde. “Libertada” da rival, a comunidade piscatória foi crescendo e desenvolvendo, estabelecendo-se aí uma importante indústria de construção naval, até se transformar na maior praça de pescado do norte de Portugal. De tal forma que se tornou famosa a figura do “Poveiro”.

“Só tendo a morte quase certa é que o poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. […] O poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador”, escreveu Raul Brandão em “Os Pescadores”. Ramalho Ortigão, por sua vez, descreveu o “poveiro” como “afogado de nascença”, pois estava sempre na água.

Desta pujança económica ligada à pesca e à salga até que a Póvoa se transformasse no mais concorrido lugar para “ir a banhos” do norte do país, à boleia da fama das suas águas ricas em iodo, foi um pulinho. Bem frequentada, a Póvoa viria ainda a tornar-se num centro de jogo: o Casino, inaugurado em 1934, ainda hoje faz parte não só da paisagem arquitectónica da cidade como da vida cultural da região e até do país.

Ligada ao Porto pelo metro, a Póvoa de Varzim é uma cidade moderna. Aquele mar com areal mesmo em frente de prédios à distância de um breve atravessar do alcatrão dá-lhe um ar de Copacabana, ainda que o clima possa nem sempre ser convidativo. Isto é o norte, senhores. Mas mesmo nos dias fechados, assiste-se a uma espécie de eterno lazer, com jovens a jogar vôlei ou futebol na areia.

É a Avenida dos Banhos que percorre a praia urbana da Póvoa desde o Porto de Pesca e da Marina até ao Estádio do Varzim. No denominado Passeio Alegre, espaço pedonal amplo, fica o Casino e o Grande Hotel da Póvoa. E um monumento de homenagem a Cego do Maio. Pescador do século XIX, é o exemplo maior de Poveiro. A sua coragem fê-lo arriscar a sua vida para salvar a dos demais, gente do povo e do mar como ele. Diz-se que foram mais de 80 os seus salvamentos e ele ali continua vigilante, agora imortalizado numa estátua em bronze, de frente para o mar.

As homenagens às gentes do mar não se ficam por esta figura. Se dúvidas houvesse acerca do papel do mar na vida – e morte – dos poveiros, um curto passeio pela zona do Porto de Pesca e da Marina acabariam de imediato com elas. Com a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição e seus baluartes e a Igreja da Lapa, esta um pouco mais adiante, como testemunhas das agruras que o mar ainda hoje traz, um painel de azulejos da autoria de Fernando Rodrigues mostra-nos cenas da história da Póvoa, evocando e prestando homenagem a figuras públicas e outras anónimas. São pungentes as imagens que retratam as mulheres na areia assistindo ao naufrágio dos seus homens no mar.

Aqui perto fica outro monumento escultórico de homenagem a estas mulheres, viúvas mas também sacrificadas, sobre as quais tão acertadamente escreveu Raul Brandão. É o Monumento à Peixeira.

Seguimos agora pelo coração comercial daPovoa, a Rua da Junqueira, até ao seu centro cívico, a Praça do Almada.

A Junqueira é a principal rua da Póvoa. Secular e das mais antigas ruas pedonais portuguesas (desde 1955), aqui encontramos o comércio tradicional, incluindo a Ourivesaria Gomes, fornecedora dos Duques de Bragança, lado a lado com as marcas modernas.

E edifícios de vários estilos, incluindo alguns exemplos da Belle Époque, decoração em azulejos, varandas de ferro forjado, onde viveram grandes figuras poveiras e uma certa burguesia. Ao redor da Junqueira saem pequenas ruas que ligam a praças, como aquela que acolhe o rejuvenescido Cine Teatro Garrett.

E percorrendo a Junqueira desde a Avenida dos Banhos até ao seu final chegamos à Praça do Almada. Praça Nova que no final do século XVIII veio substituir a antiga Praça Velha, no sentido de ir ao encontro das exigências de desenvolvimento da nova urbe, este local é muito bonito pelo conjunto de edifícios e estruturas que acolhe. Destaque para a arcaria do piso térreo do edifício da Câmara Municipal em estilo neoclássico, com decoração azulejar no piso superior.

Relativamente ampla, a Praça presta-se a lugar de convívio e jardim público. O Coreto com influências da Arte Nova construído em 1904 é um belo elemento decorativo. Mas a Praça do Almada é ainda o lugar onde nasceu Eça de Queirós, mais precisamente na casa com o número 1. Como homenagem, uma escultura / estátua de um dos nossos maiores escritores.

A Póvoa é bem mais do que o acima descrito. Não cessa de crescer e a saída norte da cidade comprova-o, com um relativamente recente núcleo residencial feito de construção em altura bem firmado.

A não perder, perto daqui, uma visita ao Parque da Cidade da Póvoa de Varzim. Instalado numa antiga planície que outrora acomodava um pequeno ribeiro, campos de cultivo e quintas, este equipamento de lazer projectado por Sidónio Pardal (o mesmo do Parque da Cidade do Porto) com cerca de 19 hectares foi inaugurado em 2007.

É um pedaço de natureza paredes meias com a A28 e com vista para os prédios da Póvoa lá bem ao fundo. A sua localização não me pareceu a mais útil para quem queira aqui chegar sem ser de carro, mas uma vez entrados no Parque logo nos esquecemos de tudo. Os seus caminhos bem desenhados, formando colinas aqui e ali, levam-nos a um bonito lago com uns divertidos patos que saem das suas águas para nos vir cumprimentar.

A qualidade de vida da Póvoa de Varzim está ainda em alta pelos passadiços pedonais sobre o extenso areal junto ao mar que se estendem por terras mais a norte e a sul. Desta vez apenas explorei os caminhos que vão do centro da Póvoa até à Praia de Santo André, passando pela pitoresca Aver-o-Mar. E fiquei a pensar porque é que, tirando parte da Linha e de Vila Franca de Xira, não podemos fazer o mesmo na zona metropolitana de Lisboa?

Cascata da Cabreia e Minas do Braçal

No concelho de Sever do Vouga, junto à aldeia de Silva Escura, fica uma das cascatas mais bonitas de Portugal.

A Cascata da Cabreia cai de uma altura de 25 metros e jorra água a bem jorrar. E isto surpreendeu-me porque nos últimos anos estou farta de ver quedas de água consideradas como das mais altas de Portugal sem água. Exemplos? Faia da Água Alta, onde não vi sequer resquícios de água, e Frecha da Mizarela, onde tive dificuldade em encontrar o fio de água.

A Cabreia não. A Cabreia lá estava frondosa e acolhedora e ainda com o bónus de vir acompanhada de uma piscina natural de água fria mas transparente aos seus pés.

Com um acesso fácil de carro e bonito como é, não admira que este lugar não seja um segredo. Um lugar para se tirar fotos da cara-metade em poses várias e de deixar quaisquer casados de fresco com inveja por não ter terem tido a ideia ou a oportunidade de uma recordação como esta.

O Rio Mau, que se torna Bom ao fim de um tempo, e as rochas são os responsáveis por esta beleza que a geografia da natureza nos dá. Vai daí, a água vem caindo em patamares até que no último deles se precipita com estrondo. Uma densa vegetação acompanha e completa este cenário. Já mais calma a água vai depois correndo por um bosque, por entre pedras e sob pontes de madeira, tendo por vizinhas umas pequenas casas em xisto. Uma outra ideia: que tal trazer uma flor de lótus de modelo para mais fotos absurdamente fantásticas? Já farta de tanta inspiração não tive forças para fotografar o casalinho budista que se fazia acompanhar de parafernália vária para as melhores imagens de todo o sempre.

O parque e praia fluvial da Cabreia tem até um parque de merendas formal para que nada falte a um dia bem passado na Cabreia. As suas tranquilidade e frescura fazem lembrar o que podemos igualmente experimentar na Fraga da Pena, na Mata da Margaraça, em Arganil.

O percurso da Cabreia até às Minas do Braçal parece poder ser feito a pé, mas optei por seguir de carro até aqui. Chegados ao final da aldeia de Folharido há que seguir em frente pela estrada local sem asfalto. Não é necessário um 4×4 e com o devido cuidado um veículo normal sobrevive sem mazelas. A vegetação por aqui continua poderosa. 2 quilómetros depois vemos um edifício que pertencia às Minas da Malhada e logo adiante temos então os edifícios abandonados das Minas do Braçal.

Não há ninguém por aqui, com excepção de mim. Nem cara-metade, nem vestido de noiva, nem sequer uma flor de lótus. É nestes momentos que faz falta seguir com alguém, para que a coragem não falhe e não faça hesitar em continuar a busca de mais um lugar desconhecido.

Já disse que a vegetação por aqui é intensa e sabendo-me sozinha qualquer barulho do vento a bater nas folhas das árvores assusta. Penso sempre que tipo de animal me vai sair de um lugar como este. Mas depois começo a ouvir o barulho da água a correr e ganho novo alento, o de descobrir onde pára o rio. Com cautela, claro, e sem nunca me aproximar de qualquer piso donde possa resvalar. Os edifícios das antigas Minas completamente em ruína e tomados pela natureza começam a aparecer e aí sim lamento verdadeiramente não estar acompanhada para explorar o seu interior esventrado. Não que fosse encontrar algum tesouro que o que havia por aqui para levar já foi levado há muito. É o ambiente de mistério que me fascina.

Crê-se que já na época dos romanos o Braçal tenha tido actividade mineira, mas a exploração oficial das Minas do Braçal teve o seu início em 1836 – a mais antiga concessão mineira portuguesa – e apesar de interregnos nos seus trabalhos só foi definitivamente desactivada em 1959. Aqui se explorava sobretudo chumbo, mas também pequenas quantidades de volfrâmio, zinco e prata, e no seu apogeu chegou a empregar quase 1000 trabalhadores. Situada ao longo do Rio Mau, nem sempre é fácil descobrir o seu caminho de água, uma vez que este afluente do Vouga corre canalizado sob a forma de túneis artificiais em muitas partes. Lá está, ouvia-o mas não era só a vegetação densa que me impedia de o ver. Até que depois de passar por diversas infra-estruturas de apoio à antiga mineração, seguindo o barulho da água por um caminho estreito se encontra uns pequenos degraus. Ao descer temos finalmente o rio à nossa vista. É uma paisagem bucólica, uma leve queda de água junto a um moinho que segue até o perdermos de vista para lá de uma ponte em túnel. Este cenário juntamente com as ruínas da Mina só adensa o seu clima e aura especiais.

Como dificilmente se vem ter às Minas do Braçal por acaso, os amantes de aventura e mistério que os lugares abandonados proporcionam façam o favor de marcar este sítio no seu mapa pessoal.

Do Porto a Espinho, de bicicleta

Saindo a pedalar desde o centro do Porto até Espinho são cerca de 30 agradáveis quilómetros. É aconselhável fazer os percursos de bicicleta em Portugal de norte para sul, de forma a aproveitar o vento favorável a empurrar as nossas costas.

Ultrapassada a azáfama turística da Ribeira, atravessamos a Ponte D. Luís I e aguarda-nos a azáfama turística do Cais de Gaia. Os turistas acumulam-se, seja para ver os miúdos a saltar da Ponte para o rio, seja para entrar numa das provas de vinho das várias Caves, seja para parar numa das bancas de feira com produtos locais. Quanto a mim, desmonto da bicicleta e faço aquilo que mais gosto quando por lá: sento-me em frente ao Douro e aprecio o casario tripeiro do outro lado.

Vila Nova de Gaia tem uma extensa área de ciclovia, quase toda ela ora junto ao rio ora junto ao mar. Depois de passarmos sob a Ponte da Arrábida é a popular Afurada que nos recebe. O maior centro piscatório de Gaia é uma povoação cheia de personalidade. Os seus moradores eram já pescadores e vieram sobretudo de terras um pouco mais a sul, como Espinho, Ovar e Murtosa. A pesca da sardinha é rainha, mas nas grelhas à porta das casas e dos restaurantes encontra-se muito mais peixe. Este é, claro está, um bom sítio para uma paragem para almoço à beira rio.

As casas da Afurada são conhecidas pelo seu revestimento a azulejo e em algumas delas podemos ainda ver mosaicos alusivos ao mar. Mas o mais pitoresco do bairro, e ao mesmo tempo uma viagem no tempo, é o seu Lavadouro público. Um tanque municipal, hoje coberto, onde ainda se vai lavar a roupa e estendê-la a céu aberto, a secar livremente ao vento. Uma senhora cumpria a tradição no momento em que lá passámos, enquanto os curiosos como nós se perdiam por entre aquela colecção de roupa.

Após a Afurada segue-se a Reseva Natural do Estuário do Douro, parte da Rede Nacional das Áreas Protegidas. É o habitat de diversas espécies de aves migratórias e na Baía de São Paio dois postos de observação estão ali ao nosso dispor para melhor as apreciarmos.

A Reserva estende-se até ao Cabedelo, curva onde o Douro encontra o Atlântico. O Cabedelo é uma praia com um longo areal com vista para a Foz, na outra margem do Douro, avistando-se até bem ao longe o novo edifício do Terminal de Cruzeiros de Matosinhos.

E o Cabedelo tem como elementos característicos umas rochas, as Pedras Altas, Pedra do Maroiço ou Pedra de Escorregar. Várias lendas estão associadas a este lugar. Uma delas diz-nos que aqui eram praticados rituais de fecundidade e precisamente na Pedra de Escorregar as moças deixavam-se deslizar até ao chão em busca da fertilidade. Outra lenda conta-nos que uma moura que aqui passeava um dia foi enfeitiçada por uma bruxa que a transformou em sereia, tendo determinado que esse feitiço fosse quebrado apenas quando uma virgem lhe servisse pão e leite; acontece que essa aparição do alto da rocha apenas acontecia de 100 e 100 anos. De qualquer forma, não avistámos a sereia. Mas as rochas, essas, continuam a pontuar as pedras das praias que se sucedem à do Cabedelo, como a dos Lavadores.

O clima nortenho não é dos mais propícios para banhos de sol, mas estas rochas servem bem o propósito de defesa do vento fresco, para além de serem bonitas e darem um ar selvagem à costa.

O percurso de bicicleta segue agora junto ao mar, ao invés do rio. Praia de Salgueiros, Canide, Madalena, dos Tesos (!). Existem certamente, e bem, restrições à construção junto ao mar, mas é evidente a geral simplicidade das habitações nesta zona, com uma ou outra excepção, num claro contraste com o edificado mais a norte, nomeadamente pela Foz e Leça da Palmeira.

Após a praia de Valadares o percurso abandona por momentos a companhia do mar e adentra terra. E aí, junto à estrada, espreitamos aquele que é seguramente um dos quintais de vivendas mais curiosos e divertidos do país. E um orgulho para qualquer sportinguista. Em bonecos de gesso lá estão os jogadores do Sporting, devidamente equipados com as listas verde e brancas, e então dedicamo-nos ao passatempo de tentar descobrir quem é quem.

De volta para junto do Atlântico, a praia de Miramar oferece-nos a Capela do Senhor da Pedra, uma das mais emblemáticas imagens da nossa costa. Erguida num rochedo junto ao mar, talvez em 1886 ou em 1763, ficamos também na dúvida se esta capela está na realidade em terra ou no mar. Lugar de culto e romarias, a maior delas acontece no domingo da Santíssima Trindade e prolonga-se até 3ª feira, em três dias de festa. Na passagem de ano, à meia-noite, também é costume muitos juntarem-se aqui para o primeiro mergulho gélido do ano. E o Senhor da Pedra está também associado a lendas e mitos. Desde aqueles que vinham para aqui agarrados à crença de que os seus amores partidos para o Brasil voltariam um dia para os seus braços, até aquelas mulheres que desejosas de casar iam colocar os seus pés na marca semelhante à pegada de boi que está atrás da capela para que os seus desejos viessem a ser concretizados.

Este é um lugar popular. Junto à praia e seu longo areal temos restaurantes, parque recreativo, bancas de feira e um espaço público generoso para que muitos possam vir para aqui passear. Vê- se de tudo, bicicletas, skates, citadinos, aldeões e até um andino a tocar a sua característica flauta. Parece que esta praia foi eleita há pouco tempo uma das mais bonitas do mundo e, se assim é, então todos merecem vir conhecê-la e aproveitá-la.

A Aguda é a praia e povoação que se segue antes de começarmos a avistar Espinho. Já num controlo estrito da hora de partida do comboio para Lisboa, não espreitámos o mar da Aguda, praia de pescadores com tradição. Mas apreciámos e aprovámos com encanto o conjunto de cinco moradias em banda bem junto à ciclovia.

Poucos minutos mais a pedalar por ruas afastadas da praia e chegamos enfim a Espinho. Todos sabemos que esta cidade é uma conhecida zona balnear do norte e que o Casino a coloca no mapa não apenas do turismo mas também do entretenimento e jogo a nível nacional. Mas menos a conhecerão pela Nova Iorque portuguesa, pelo mero facto de as suas ruas serem também designadas por números.

A Rua 19, por exemplo, é a rua pedonal que liga a praça onde está instalada a câmara municipal local ao mar. A cidade parece agradável e muito movimentada. Apesar de não ter achado grande piada à sua frente de mar (aquela grua junto ao molhe norte não ajudou), deixámo-nos ficar por aqui a saborear um gelado no fim desta jornada fácil e prazerosa.

(É possível viajar em Portugal de comboio no Intercidades sem necessidade de desmontar a bicicleta. Em cada carruagem existem dois lugares específicos para a deixar)

De bicicleta de Santa Catarina à Boa Nova, passando pela Foz

Já que estávamos com a bicicleta no Porto, com o objectivo de na volta pedalar daí até Espinho, aproveitámos para no dia anterior nos deslocarmos na cidade também através desse modo suave. E a verdade é que da Rua de Santa Catarina é possível seguir até à Praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira, sempre em terreno plano junto ao rio / mar e daí voltar igualmente sem esforço e atravessar o Parque da Cidade, visitar Serralves e a Casa da Música e chegar sãs e salvas à casa partida.

Descendo pela Avenida dos Aliados e seus edifícios de decoração elegante, deixamos a Estação de São Bento e seus deliciosos azulejos para trás e num ápice estamos cá em baixo junto ao Palácio da Bolsa e à Igreja de São Francisco. A partir daqui é sempre a pedalar com a água por companhia. A água do Douro que nos transporta pela Alfândega, Miragaia, Massarelos, Ponte da Arrábida e Cantareira até chegarmos à Foz e passarmos a ter a água do Atlântico como companheira.

E a partir do Jardim do Calém, onde fica o Observatório de Aves do Rio Douro, temos já uma ciclovia ao nosso dispor até à entrada do concelho de Matosinhos.

A Cantareira é um excelente aperitivo da Foz. Terra do Chico Fininho, o freak da Cantareira, é uma antiga zona portuária onde não é preciso entrar no rio para se pescar. Mas, claro, são os barcos que dominam a bela paisagem aberta ao Douro e ao Atlântico, porque a pesca tradicional ainda tem aqui raízes, bem como a reparação de barcos e redes. Do outro lado fica a Afurada, sua parceira piscatória.

O Jardim do Passeio Alegre é muito bonito, com as suas frondosas palmeiras a chamarem a atenção, mas vale a pena passar dentro do jardim e ver as suas esculturas e chafariz.

E já com o muito fotografado Farolim das Felgueiras ali à mão de semear começam então a suceder-se as famosas e concorridas praias da rica Foz (Ourigo, Ingleses e Luz). Ramalho Ortigão, autor de “As Praias de Portugal”, não é esquecido e uma placa lembra-nos que a Foz é a “residência querida da minha (sua) infância”.

Seguimos no caminho sempre plano, ideal para nos concentramos ora na paisagem natural do mar ora nos elementos criados pelo Homem e bem cuidados, como a octogenária Pérgola da Foz e os jardins do Homem do Leme e Montevideo. Não faltam sequer uns assentos artísticos para melhor contemplarmos o cenário.

Mas eis que chegamos ao Castelo do Queijo e num repente se instala uma furiosa neblina. Mal se viam os muitos surfistas ali na Praia de Matosinhos, a gigante Anémona só demos por ela por que a rasámos e o novo edifício do Terminal de Cruzeiros perdeu-se na totalidade naquele nevoeiro cerrado. Pudemos, no entanto, pisar as areias desta praia, típica pela sua paisagem industrial das infra-estruturas do Porto de Leixões. E observar compungidas a Escultura Tragédia no Mar. Esta é uma homenagem aos 152 pescadores, e suas viúvas e órfãos, que perderam a vida no maior naufrágio da costa portuguesa, que aconteceu nesta região em 1947.

E já que estávamos em Matosinhos pela hora do almoço, nada melhor do que uma paragem num dos seus muitos restaurantes na rua junto à Docapesca. Peixe fresco e doses generosas é o que nos espera.

Atravessado o Rio Leça chegamos a Leça da Palmeira.

A Avenida Marginal de Leça tem o traço de Álvaro Siza Vieira, um projecto de 2005. Zona pedonal por excelência, onde as pessoas e bicicletas se confundem numa área larga, por ela afora temos o prazer de visitar ou rever dois dos primeiros projectos de Siza, a Piscina das Marés (1966) e a Casa de Chá da Boa Nova (1963), ambos classificados como Monumento Nacional.

O complexo da Piscina das Marés funciona de acordo com a época balnear. Fora desta época a entrada não é paga, o bar mantém-se aberto, mas não há vigilância dos banhos das duas piscinas e de mar. As piscinas são de água salgada e confundem-se com as rochas à beira mar, numa integração preciosa com a paisagem natural. O próprio acesso ao espaço desde a Avenida não forma nenhuma ruptura com a vista do horizonte, já que é feito por uma rampa que nos deixa junto ao nível dos vestiários, das piscinas e do mar.

A conexão plena entre arquitectura e natureza é igualmente soberba no projecto da Casa de Chá da Boa Nova e o desígnio de Siza de “construir na paisagem” terá tido aqui o seu maior alcance. Tendo crescido na zona e sendo esta bastante familiar ao arquitecto, Siza integrou de forma majestosa o edifício na vegetação e nas formações rochosas aí existentes, tendo igualmente analisado o clima e as marés locais. Chá e neblina condizem, mas o restaurante Boa Nova que o chef Rui Paula dirige desde 2014 e que o levou a alcançar uma Estrela Michelin também não destoa nada do ambiente. O edifício foi recuperado e o mobiliário interior reproduzido conforme os originais desenhados pelo próprio Siza. Desta vez não entrámos, mas não é necessário fazê-lo para perceber que as salas de refeições estão envolvidas nas rochas e apenas o suficientemente enterradas nelas para que deixe as vistas de janelas livres para contemplar o mar. Podemos percorrer as rochas no exterior para melhor apreciar os planos da implantação deste edifício, mesmo se isso implique alguma intromissão nas refeições e trabalho de quem está no interior. Os preciosos detalhes deste projecto, à semelhança do da Piscina das Marés, estão igualmente no acesso ao edifício. A ele chegamos discretamente depois de atravessado um pequeno parque de estacionamento e ao subir dois patamares de escadas e só aí nos apercebemos da obra-prima: uma casa branca com telhado de madeira que quase beija as rochas. Um momento de delicadeza junto a uma paisagem bravia.

A envolvente da Casa de Chá são as rochas e o mar, já se disse. Mas próximos temos ainda a Capela da Boa Nova e o Farol da Boa Nova, uma estrutura de 46 metros que faz deste o segundo maior farol da nossa costa.

Chegadas a este ponto, a Praia da Boa Nova, Matosinhos continua por aí adiante, mas estava na hora de regressar ao Porto. Desta vez já não pela Foz e natureza marítima e fluvial, mas antes por aquela criada pelo Homem. O Parque da Cidade e os Jardins de Serralves são momentos de recato no Porto. A Casa da Arquitectura, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a Casa da Música são ícones de um novo Porto moderno.