Por Valada do Ribatejo – Lado a Lado com o Tejo

De Porto de Muge à Palhota, na freguesia de Valada do Ribatejo, é um dos passeios mais fáceis e agradáveis a tomar com a companhia do Tejo. “Lado a lado com o Tejo” está integrado na Rede de Percursos Pedestres da Lezíria do Tejo e é coincidente com o PR1 – “Rota da Tapada” da Câmara Municipal do Cartaxo. Esta proposta de caminhada com cerca de 15 kms que alia lazer a cultura pode, em alternativa, ser efectuada no todo ou em parte também de carro.

A Ponte Rainha Dona Amélia é o lugar onde damos os primeiros passos e sobre o seu tabuleiro ficamos com uma ideia do cenário que nos espera: o belo Tejo e seus férteis terrenos agrícolas por onde foram crescendo algumas aldeias. A própria ponte é um elemento de beleza suspensa sobre as águas do rio. Projectada por Gustave Eiffel, foi inaugurada em Janeiro de 1904 pelo Rei D. Carlos. Na sequência da abertura da Linha de Vendas Novas, era então uma ponte exclusivamente destinada à travessia ferroviária, mas entretanto, após a construção de uma outra que a veio substituir, em 2001 foi definitivamente reconvertida em ponte rodoviária e pedonal, passando-a ligar os concelhos de Salvaterra de Magos e Cartaxo. Com uma característica estrutura em ferro, em tom vermelho, os seus pilares estão elevados cerca de 10 metros acima do rio para evitar as cheias que anos antes da sua inauguração haviam atingido os 5 metros.

A povoação de Porto de Muge fica logo ali, à saída da Ponte. Seguimos por ela afora, paralelos ao rio. O caminho é sempre plano e a única meia dúzia de escadas que subimos é aquela que nos leva até ao cimo do dique. Pois é, esta caminhada tem como facto curioso o de ser em grande parte efectuada sobre o dique que protege a passagem da água do rio nos períodos de cheias, o que é muito frequente no Tejo. Ou seja, esta obra de engenharia hidráulica propõe-se a tapar a passagem da água, daí que seja também conhecida como “tapada”.

Caminhamos sobre o dique pavimentado, mas logo que abandonamos as pitorescas casinhas de Porto de Muge (curiosa solução de plataforma de entrada) começamos a pisar o mato cheio de flores que cobre o dito dique. Esta povoação tem uns quantos ciganos como habitantes; seria por isso que mais adiante veríamos uns sapos à porta de umas outras casas vizinhas?

O rio nem sempre se deixa mirar, tal é o domínio da vegetação na sua margem. Mas quando há uma aberta é uma maravilha.

A povoação de Valada é sede de freguesia. É uma das mais antigas povoações do concelho do Cartaxo e por aqui passaram romanos e depois árabes. Era – e continua a ser – a fertilidade das suas terras a grande atracção para que as gentes aqui se estabelecessem. Aliás, crê-se que o próprio Porto de Muge que deixámos para trás já fosse um povoado na época romana ou que, pelo menos, ali houvesse um porto onde se fazia a ligação entre as margens do rio por uma barca que carregava os produtos agrícolas. O vinho e o trigo eram os grandes produtos que seguiam para Lisboa pelo Tejo. Anos mais tarde, em 1211 foi construída a Igreja Matriz da Valada (entretanto reconstruída), o que atesta bem a antiguidade do povoamento do lugar. A própria coroa tinha para aqui diversas herdades. Mas antes de seguirmos Valada e terrenos afora, vale a pena uma paragem demorada no pequeno cais / marina preenchido com barcos de recreio e com uma praia fluvial logo ao lado. Há um bar e um parque de merendas, mas é a paisagem tranquila do Tejo que nos faz ficar por ali a apreciar as vistas, não faltando sequer a bateira, o típico barco da região.

Do outro lado, o dique continua a marcar presença e parece que para além de proteger o casario da água também o quer esconder dos nossos olhares. Não consegue e acabamos por perceber alguns edifícios com fachadas revestidas a azulejos e varandas em ferro, uns mais distintos do que outros. E entre Porto de Muge e Reguengo, a próxima povoação, encontramos diversos sinais, incluindo apontamentos decorativos nas fachadas das casas, que nos remetem para outro dos elemento incontornáveis da região: o cavalo.

De Valada seguimos até Reguengo, mais afastados do rio mas sempre com a companhia dos férteis campos, todos eles trabalhados e com os seus homens em acção diária. Muito plana, a lezíria do Tejo é, graças aos seus solos inundáveis para onde confluem uma série de rios – criando o longo Estuário do Tejo -, uma zona húmida que permite culturas permanentes. Lezíria é uma palavra de origem árabe, cujo significado é terras que o rio arrasta e se depositam na margem. Continua fértil e os seus campos são do melhor que há – para além da citada vinha e trigo, produzem-se aqui em grande escala arroz e tomate -, mas veem-se muitas herdades em mau estado. Muitos já não desejam esta vida agrícola árdua, tantas vezes de sol a sol.

Esta zona do Tejo é, ainda, um dos maiores santuários de vida selvagem do país e muitas aves aquáticas encontram aqui óptimas condições para passar o Inverno, nidificar ou como rota migratória. A águia pesqueira é um dos maiores exemplos, e embora a tivéssemos visto em voo pelos céus, foi este colhereiro (a ver pelo bico e tronco esticadinho) que conseguimos apanhar pela nossa lente. Também esta ave captura os peixes na água, mergulhando para os apanhar.

Depois da pequena povoação de Reguengo viramos na estrada de terra batida à esquerda. A paisagem serena com os campos agrícolas continua bela e chegamos a ver longe, até à Serra de Montemuro.

Palhota fica logo adiante em direcção ao rio. É uma aldeia avieira composta por um pequeno núcleo urbano (não asfaltado) com duas ruas e cerca de 14 casas junto ao rio. As suas casinhas são coloridas e em madeira e assentes em troncos, elevadas acima do solo, guardando-se o barco em baixo e acedendo-se a elas através de uma escada exterior também em madeira. O pequeno cais da aldeia é igualmente construído em palafitas, como forma de evitar que o alagamento das terras leve as infra-estruturas.

A sua história é muito curiosa e em tempos já havíamos falado dela aqui no blog a propósito de uma aldeia avieira na Póvoa de Santa Iria e de Escaroupim, esta última praticamente à frente de Palhota, na margem contrária do Tejo. Foi no início do século XX que pescadores oriundos de Vieira de Leiria e sua família começaram a instalar-se nas margens do Tejo para aqui pescar no Inverno, voltando no Verão para a sua terra natal. A ideia era a de buscar águas mais tranquilas no Inverno, evitando assim que fossem obrigados a estar parados por falta de condições de pesca nessa estação, regressando depois à pesca no mar. Construíram as suas habitações precárias junto ao rio, mas ao longo das décadas esta comunidade sazonal foi permanecendo mais tempo durante o ano até se fixar de forma definitiva à beira Tejo. Estes migrantes que demandavam o Ribatejo trouxeram consigo novos costumes e uma cultura e tradições diferentes. A arquitectura das suas casas é uma delas, como vimos, mas também os barcos – bateira – eram característicos e o facto de tanto o homem como mulher irem à pesca, manobrando ela o barco a remos e lançando ele as redes. Diz-se que Alves Redol terá por aqui morado durante uns tempos e Palhota servido de inspiração para a sua obra maior, “Avieiros”, cunhando de forma definitiva e intemporal o termo “vagabundos do Tejo” para caracterizar esta gente tão típica.

Alcançado o ponto mais distante desta agradável e instrutiva caminhada, nada melhor do que um piquenique no cais palafitico de Palhota para, envolvidos em salgueiros e sob inspiração do Tejo, preparar a regresso a Porto de Muge, o nosso ponto de partida.

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