Benavente – Rota das Lezírias

Estreámo-nos nos percursos pedestres na Lezíria do Tejo pelo de Benavente, o mais longo de todos. Denominado Rota das Lezírias, são cerca de 22 quilómetros agradáveis e sempre planos que podem também ser percorridos de bicicleta.

Caminhando pela margem sul do Tejo, passamos pelas planícies da lezíria ribatejana, considerados dos melhores solos agrícolas de Portugal. Não surpreende, assim, que os camponeses se tenham estabelecido na região muito antes da chegada dos romanos ou sequer da fundação do nosso país. Todavia, a ocupação humana de Benavente é posterior, tendo recebido foral em 1200 – não deixa de ser terra antiga.

O maior destaque em termos de património construído é o edifício da câmara municipal. A torre de relógio com mirante que encima o frontão deste edifício é visível ao longe e logo nos enche de curiosidade por uma arquitectura que não é assim tão comum. Talvez tenhamos visto algo similar numa imagem de um filme americano rodado numa cidade perdida nas longas pradarias dos states, mas não aqui tão perto da nossa capital, apenas pulado o Tejo. Mas o que é facto é que apesar desta torre-mirante ser o mais belo exemplar, ela não é a única em Benavente e muitos mais motivos temos para apreciar nos seus telhados.

Sede de concelho, terra de ganadarias e de coudelarias, com os campinos e suas festas a colorirem esta terra ribatejana, haveremos de ver muitos exemplares de cavalos e touros no nosso caminho, mas aos primeiros passos são as águas do rio que dominam a paisagem. Iniciámos a caminhada pelo Parque Ribeirinho de Benavente, efectuando um breve desvio até à Vala Nova. Este é um canal de navegação que constitui um braço artificial do Tejo e foi criado no século XIX para servir de escoamento dos produtos de Benavente e de Salvaterra de Magos. Porém, em 1951 foi construída a ponte de Vila Franca de Xira e o transporte fluvial através da Vala Nova perdeu o sentido, servindo hoje o lugar como espaço de recreio e de lazer. A paisagem e serenidade do lugar são grandes, evidenciado pelos belos reflexos do arvoredo na água.

De volta a Benavente repetimos o caminho, com a imagem da torre da câmara e o atravessar da ponte sobre o rio Sorraia, surpreendendo os primeiros cavalos do dia que pacatamente bebericavam água no rio.

O Parque Ribeirinho de Benavente é um pedaço de verde muito aprazível junto às margens do Sorraia. Este rio e nome resultam da junção das ribeiras de Sor e de Raia, as quais se encontram na vila do Couço, no concelho de Coruche, para se transformarem no rio que corre até à Ponta da Erva, desaguando no Tejo. Rio navegável, a maior bacia afluente do Tejo já não tem hoje a importância que chegou a ter no transporte de pessoas e de mercadorias que vinham do Alentejo e do Ribatejo. Nos nossos dias é sobretudo um rio de rega (onde se verificam amiúde cheias trágicas) e a rede de valas, valados e canais que nele existe conjugada com as especiais características do solo faz com que as suas margens sejam bastante férteis.

Precisamente, no final do Parque Ribeirinho de Benavente, ao seguirmos por um longo caminho recto surgem ao nosso lado esquerdo os primeiros arrozais do dia, de intensas cores amarela e verde com diversas nuances.

As condições naturais da região, nomeadamente a luz, a água e o calor, bem como a tradição ancestral de plantação de arroz nestes solos faz com que Benavente seja não apenas um dos maiores produtores nacionais de arroz como um dos melhores. E, no caso deste nosso passeio, os extensos campos de arroz fazem desta uma companhia muito simpática.

Pouco depois entramos por uma zona arenosa junto a um dique que corre escondido por um bosque. Esta é outra das particularidades desta Rota das Lezírias: para além de se caminhar pelos campos de arroz e pastagens, segue-se pelos valados (elevações de terra) junto aos canais de rega do vale do Sorraia (e na volta pelo do rio Almansor), sistema com a função de proteger as terras agrícolas das cheias sazonais.

O canal de rega do Sorraia é o maior e mais importante regadio colectivo público do nosso país e o aproveitamento hidroagrícola do vale do Sorraia beneficia diversos concelhos para além de Benavente, como Salvaterra de Magos, Coruche, Mora, Ponte de Sor e Avis. Apesar de ser uma infraestrutura colectiva pública, este canal do Sorraia atravessa algumas propriedades privadas, que nos dão servidão de passagem. É o caso da Quinta da Foz, quinta tão antiga que possui referência histórica já no longínquo ano de 1431, provavelmente numa época em que a foz do Sorraia andaria por aqui. Esta é a maior propriedade do concelho de Benavente, com cerca de 680 hectares, 400 deles de arrozal contínuo, havendo ainda espaço para a criação pecuária.

Mais adiante fica o enorme viaduto da autoestrada que liga a margem sul do Tejo ao Carregado. Lá de cima, à velocidade automóvel, não suspeitamos a tranquilidade destes campos cheios de cor que ladeiam o Sorraia.

Seguimos por ele, mas o rio, ainda que mesmo ao nosso lado, nem sempre se deixa ver, tão estreito que é e tão guardado pela vegetação rasteira que está. Mas, cansado de deixar o protagonismo todo aos arrozais, lá aparece para compor a paisagem.

Não acompanhámos o Sorraia até à sua foz, antes virámos para Samora Correia. Foi aqui, neste desvio, que encontrámos um grupo de cavalos lusitanos. Que beleza e que elegância. Tão bem tratados que a sua pele luzia, realçando ainda mais as suas pitorescas e felpudas crinas. Esta é, já se disse, terra de coudelarias, não surpreendendo assim que se avistem muitos cavalos no seu ambiente natural, talvez a descansar entre uma ou outra prova de arte equestre.

A Samora Correia foi dado foral em 1510 e chegou a ser sede de concelho. Hoje é parte do concelho de Benavente e a vila tem um ambiente pacato, quase rural, onde frequentemente se vê roupa estendida a secar na rua. À entrada encontramos alguns armazéns pertencentes à Companhia das Lezírias e o centro da vila tem edifícios com um toque de monumentalidade, como o Palácio do Infantado e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Oliveira, ambos frente a frente na simpática praça que os acolhe. O Palácio do Infantado foi construído no século XVII e serviu de paço real, lugar onde o segundo filho de D. João IV ficava quando vinha até à lezíria. Acabou por ser integrado no património da Companhia das Lezírias e hoje, por acordo desta e da Câmara Municipal de Benavente, o seu espaço interior foi adaptado a biblioteca, auditório e museu.

Depois de um gelado no Gato Badéu, um espaço de restauração com uma decoração contemporânea, a mostrar que a vila é mesmo versátil, retornamos a Benavente, mas desta vez junto ao rio Almansor. Este rio que em breve desaguará no Sorraia, correndo juntos até ao Tejo, foi navegável até ao século XX, tendo sido há muito usado por romanos e árabes para escoar os produtos agrícola.

O ambiente de paisagem natural continua, com os vastos campos de arroz na terra e, percebemos desta vez, as garças reais e as cegonhas brancas a divertirem-se no céu.

Já quase a chegar a Benavente surgem, enfim, os touros, símbolo maior do Ribatejo. O touro bravo é criado em ganadarias e deixado à solta na zona de montado. Pela estrada, vê-mo-los à distância suficiente para nos deixarmos encantar em segurança.

O montado, a acrescer à lezíria e ao estuário, é apenas mais um exemplo da diversidade da região onde, por entre paisagens naturais e rurais, se pratica a agricultura e se criam o gado bovino e o cavalo lusitano. E neste nosso belo percurso somos testemunhas privilegiadas desta riqueza.

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