Milos, a ilha das praias

Milos é uma das muitas ilhas das Cíclades.

Detentora do título de ilha grega com mais (e melhores) praias, cerca de 70, não é no entanto uma das primeiras opções para a generalidade daqueles que se propõem visitar as Cíclades. A verdade é que há quase uma ilha grega por habitante e para cada gosto e a escolha é quase infinita.

Tendo conhecido apenas Santorini e Milos, o balanço é o melhor possível, uma complementando a outra. Desde logo no que ao buzz e à quantidade de pessoas que as visita diz respeito. É uma felicidade constatar que mesmo em Agosto numa ilha como Milos podemos encontrar praias só para nós e em nenhum lugar se sente a pressão turística. É até possível alugar um carro de um dia para o outro em plena temporada alta (e o aluguer de carro é essencial para se percorrer Milos, uma vez que à semelhança de Santorini os táxis são caríssimos e os autocarros ainda menos convenientes).

Uma das razões para que Milos tenha estado até hoje relativamente afastada do radar do turismo de massas é o facto de ter sido considerado por muitas décadas um local industrial. Várias são as minas na ilha, de obsidiana, de perlite e de outros minerais. A obsidiana já era mesmo comercializada no tempo da civilização Minóica, que a transformava depois em armas e lâminas. Ainda hoje se vêem no meio da paisagem algumas dessas minas e parafernália industrial que lhe está associada, mas de forma discreta e sem a prejudicar.

Todavia, é essa riqueza mineral de Milos que faz da ilha um paraíso geológico com formas ricas, surpreendentes e curiosas.

A praia mais famosa de Milos é a de Saraniko. E é, precisamente, aquela que melhor se encaixa nos epítetos de surpreendente e curiosa. Um pequeno corte na terra forma um vale que nos transportará até ao mar. Mas esse mar parece ser aqui banhado por uma paisagem lunar branca. De formação calcária erodida pelo vento e pela água salgada, as rochas de Saraniko têm suaves relevos que, a juntar à sua cor alva, chegam a fazer lembrar lençóis brancos. A praia de areia é mínima e até chegar ao mar algo agitado forma uma espécie de lago muito concorrido.

Saraniko fica a norte, tal como Papafragas, também no top das mais fotografadas de Milos. As formações rochosas em vários estilos continuam a dominar a paisagem e aqui são formadas várias caves por onde a água corre mais ou menos rente. Numa delas duas paredes rochosas altas deixam ver uma piscina natural em baixo, com direito a um minúsculo areal. A descida é desaconselhada, daí que seja avisado contemplar o cenário desde cima. Havíamos visto fotos incríveis do sítio, onde a água de um azul intenso contrastava na perfeição com a paisagem rochosa com vegetação escura rasteira. Mas não tivemos a sorte de apanhar essas cores.

Pudemos, no entanto, confirmar o azul cristalino das águas de Milos na sua costa a sul.

Tirando a norte, nem toda a costa de Milos é facilmente acessível. Parte dela alcança-se com um veículo 4×4 ou então exclusivamente por barco. Aliás, nenhuma visita a Milos ficará completa sem que a sua costa muito particular seja avistada desde o mar.

E Kleftiko, acessível apenas por barco na costa sul, é um lugar imperdível. Seguimos, então, num passeio de barco de meio dia desde Kipos. Calmamente fomos apreciando esta costa feita de rochas brancas com relevos pintalgadas aqui e ali por alguma vegetação verde. Várias covinhas se formam nestas densas e altas rochas. E a piada deste passeio está não apenas na belíssima e rara paisagem, como também na possibilidade de nadarmos neste mar azul quente por entre as muitas caves naturais.

Algumas destas caves são verdadeiros túneis longos, outras apenas arcos breves. No arco que fica na base da rocha mais famosa de Kleftiko descobrimos ainda, como bónus, um fundo marinho lindíssimo e de um azul tão intenso que não vai ser fácil apagar da memória. Fica o aviso: não esquecer os óculos de natação (coisa que esquecemos e tivemos de ganhar coragem para interromper por momentos a diversão de outros para pedir emprestado o material essencial a este passeio). Aqui podemos passar horas na água, a nadar, a boiar, a explorar. Diz-se que piratas que por aqui passaram há séculos esconderam numa das caves o seu tesouro e esse é apenas mais um motivo para adoçar este passeio único.

A sul, e acessível de carro, ficam algumas praias onde vale a pena estender a toalha nos seus relativamente extensos areais e onde existem apoios de praia para uma refeição à beira-mar.

Provatas

Fyriplaka

Paliochori

Mas a praia mais bonita, mas com uma descida difícil e perigosa, é a de Tsigkrado. A vista desde o topo para aquelas águas transparentes é fabulosa e faz qualquer um apaixonar-se irremediavelmente pela costa de Milos.

Para terminar em beleza, não faltou sequer a despedida do sol na simpática vila de Pollonia.

Pôr-do-sol em Santorini

Um dos momentos altos de qualquer viagem a Santorini é, ou deve ser, o pôr-do-sol.

Oia é o lugar para se estar nessa ocasião. O problema é que estamos lá nós e quase toda a Santorini. Não quisemos ser diferentes e marcámos presença. É verdade que a falta de espaço é imensa e só conseguiremos estar sozinhos nesta vila para testemunhar a queda do sol se tivermos a sorte de ter um terraço privado. As pessoas acumulam-se sobretudo junto às ruínas de um antigo castelo, mas se procurarmos bem encontraremos outros locais igualmente fantásticos e ainda conseguiremos escapar com menos de uma dezena de empurrões. De qualquer forma, vale mesmo a pena todo o esforço para merecer este espectáculo.

Uma alternativa em grande estilo é assistir ao pôr-do-sol em Imerovigli. No pequeno adro da igreja por cima do rochedo Skaros também se junta muita gente, mas longe das multidões de Oia. E podemos com mais facilidade encontrar um qualquer lugar vazio nas estreitas ruas que deitam para o mar e para os terraços dos apartamentos. O branco do casario de Imerovigli com as cores do sol a despedir-se do dia sobre o mar faz deste um dos melhores pores-do-sol da Terra.

Um lugar diferente, sem casario e bem de frente para o imenso mar apenas interrompido pelas ilhas que há poucos séculos se formaram na caldeira, é a adega Santo Wines. Uma boa ideia é escolher a hora que coincide com o pôr-do-sol para vir aqui degustar uns vinhos locais na esplanada da adega enquanto se testemunha mais um grande momento em Santorini.

Um passeio pela outra Santorini

Fira é a capital de Thira-Santorini e onde se concentram os restaurantes e alojamentos mais caros. Oia é a mais procurada, em especial ao fim do dia para se assistir ao pôr-do-sol. Mas Imerovigli será a escolha acertada para se viver dos momentos mais belos na ilha, um misto de Fira e Oia mas sem a confusão das duas.

Mas porque Santorini não é só o eixo Fira – Firostani – Imerovigli e Oia, impõem-se algumas informações práticas acerca da ilha.

As deslocações não são totalmente convenientes. Pode-se sempre alugar um carro ou mota, mas fora isso resta-nos o táxi, caríssimo, e o autocarro. Este último não nos leva a todos os pontos da ilha e, pior, temos quase sempre de voltar a Fira para ligar os vários destinos.

Santorini não é a melhor ilha para se fazer praia. Tem praias, sim, mas apenas na costa leste e a sul.

Perissa e Perivolos são um contínuo de areia negra, duas praias coladas uma à outra e com uma grande concentração de restaurantes e bares de praia. Caso se queira passar uns dias de praia em Santorini estes (e Kamari, que não visitámos) são os lugares a escolher.

Também na costa sul, mas a ocidente, fica a Praia Vermelha, perto da antiga Akrotiri. A praia tem um areal mínimo e há perigo de derrocada das suas rochas instáveis. Mas o cenário selvagem, e efectivamente vermelho, deste pedaço de Santorini, bem como a água quente, fazem deste um lugar de visita e mergulho obrigatórios.

Pyrgos é uma belíssima vila. Tem as características mais reconhecidas das suas vizinhas mais famosas, como as casas brancas, igrejas de cúpula azul e ruas labirínticas. Mas ao contrário das outras é uma vila interior instalada num monte. Logo, as vistas fabulosas continuam e Pyrgos é um lugar privilegiado para panoramas largos de todas a ilha.

Mas o seu encanto é caminhar pelas suas ruinhas e descobrir onde elas nos levam. E assim vemos que muitos dos seus edifícios, incluindo o seu antigo castelo veneziano, estão em mau estado de conservação. Concluindo, Santorini parece ter ainda capacidade para crescer ainda mais em termos turísticos, e Pyrgos estará na dianteira para se tornar ainda mais na nova sensação da ilha.

Fora de Thira, mas ainda no arquipélago de Santorini, impõe-se um passeio de barco pela caldeira até Nea Kameni, o ilhéu vulcão. Este pedaço de terra, o mais novo do Mediterrâneo Oriental, nasceu há cerca de 430 anos e foi sendo formado através das várias erupções vulcânicas que aconteceram desde essa data, a última das quais em 1956. Por isso, as mais recentes das suas incríveis formações rochosas de lava possuem pouco mais de 50 anos.

O barco atraca numa pequena enseada e descarrega os turistas que empreendem uma curta caminhada até ao centro da cratera por um cenário pouco comum, um deserto rochoso e poroso onde ainda se vêem fumegar umas fumarolas. Por ora o vulcão está adormecido. Mas mais marcas da sua actividade sentem-se ainda nas águas extremamente quentes a amareladas do enxofre próximas do ilhéu Palea Kameni.

O passeio de barco prossegue rumo à ilha de Thirassia e a beleza natural da paisagem é uma constante. No pequeno porto colocam-se duas hipóteses: ou ficar por ali num dos restaurantes e dar um mergulho ou subir a bom subir até à aldeia e ganhar a oportunidade de nos embrenharmos por mais um pedaço da vida e arquitectura cicládicas. Obviamente que escolhemos esta última e o prémio materializou-se em mais postais soberbos.

Oia

Oia fica situada a norte de Thira-Santorini e é o lugar onde (quase) todos querem estar para ver o pôr-do-sol. Várias excursões pela ilha fazem por coincidir o seu final com esse momento e os outros fazem por lá estar a horas de assistir ao sol a transformar as cores do céu, do mar e das casas.

Mas independentemente do pôr-do-sol e das multidões que o acompanham, Oia é uma vila graciosa. Típica das Ciclades, temos as casas brancas empoleiradas na rocha e umas nas outras, as cúpulas azuis das igrejas, os moinhos, as ruas labirínticas que fazem questão de nos surpreender a cada passo. E o mar sempre ali.

Já tínhamos percorrido um pouco das outras vilas da ilha e perguntávamos-nos como lidariam os hóspedes daqueles terraços abertos com a sua privacidade. Em Oia tivemos uma resposta: ignorando o facto e agindo como se estivessem sozinhos naquele mundo de sonho. Um casal despreocupado fazia amor num terraço ao ar livre, convidando-nos a todos a transformar-nos em voyeurs.

Mas voltando ao que Oia tem, agora em versão decente, Oia tem alojamentos, restaurantes, bares e lojas, tudo com um bom gosto incrível. E tem ainda uma livraria que em tudo acompanha aquele bom gosto. E impõe-se que a palavra “surpreendente” seja repetida. A Atlantis Books é mais um encanto nesta vila encantada. Uma livraria independente criada em 2004 onde mesmo quem não aprecia livros se vai sentir obrigado a procurar um dos títulos em várias línguas e deixar-se estar num dos seus sofás numa sessão de leitura inspirada por aquele ambiente magnífico.

Santorini

Entre as muitas ilhas gregas, e em especial nas Ciclades do Mar Egeu (24 ilhas principais, fora rochedos inabitados), Santorini aparece sempre como a primeira escolha. A escolha de sonho, mesmo.

É provavelmente a ilha mais romântica, a preferida para luas de mel, mas não é preciso viver um romance para se ser feliz na ilha. Um trio de amigas pode divertir-se a valer e deixar-se seduzir pelo branco imaculado das vilas e pelos seus pores-do-sol mágicos.

À partida levava a imagem dos barcos de cruzeiros a descarregarem multidões, acrescentada pelas já esperadas multidões estivais de Agosto, de pouco espaço para circular, dos burros a carregarem turistas velhos e gordos, de preços astronómicos. Nada disso trouxe para casa e nada disso me vem à memória quando penso nos três dias inteiros que passei em Santorini. Sei-o hoje, será uma pena e uma perda se pré-conceitos e pré-juizos nos afastarem de Santorini. Não é a ilha que nos merece. Somos nós que a merecemos.

A beleza de Santorini não está na paisagem natural da sua terra. A principal ilha é conhecida como Thira e esta ilha de origem vulcânica é um autêntico rochedo agreste em toda a sua costa ocidental, chegando os penhascos a tomar 300 metros. Acontece que esse rochedo fica virado para um mar incrivelmente bonito a qualquer hora do dia, terminando com os tais pores-do-sol mágicos, e possui umas vilas absolutamente tocantes.

A história geológica do arquipélago de Santorini é muito curiosa.

Antigamente chamada Strongili, a ilha era uma só e redonda. Uma enorme erupção há cerca de 3600 anos (em 1630 a.C.) fez com que o centro da ilha abatesse e afundasse, desmembrando-a e dando origem a três ilhas: Thira, Thirasia e Aspronisi. Esse centro afundado é hoje a caldeira, para onde os referidos penhascos da parte ocidental de Thira caiem dramaticamente, e aí foram entretanto formadas as ilhas Palea Kameni e Nea Kameni na sequência de novas erupções vulcânicas nos séculos XVI e XVII. Nea Kameni é a ilha-vulcão, a mais recente formação do Mediterrâneo Oriental.

Ultrapassada a era da civilização cicládica, na época daquela grande erupção vulcânica a ilha era habitada por uma civilização próspera similar àquela que ocupava Creta, a Minóica, que com ela possuía relações comerciais. Akrotiri, que não visitámos, é uma antiga cidade Minóica testemunha desse tempo situada a sul de Thira. Pensa-se que esta erupção foi tão grande, provavelmente uma das maiores de sempre, e produziu tais alterações climáticas que terá sido essa a causa que levou ao declínio da civilização Minóica.

Posteriormente e sucessivamente, as ilhas foram tomadas pelo Império de Atenas, pelo romano, pelos venezianos, pelos turcos, até que a Grécia ganhou a sua independência no século XIX. Nos anos 70 do século passado deu-se o boom do turismo e hoje de todos os cantos do globo chegam “invasores”.

Ao contrário do que se possa pensar, a Thira-Santorini de hoje não trata de nos mostrar o luxo. É sobretudo um imenso bom gosto que ela nos oferece. O estilo cicládico de branco e azul está lá, vilas feitas de casinhas empoleiradas desde o topo das encostas vindo por aí abaixo, telhados planos transformados em terraços miradouros com vistas soberbas, ruas estreitas e labirínticas – uma garantia de defesa contra os piratas e elementos como o vento – que se perdem num dos exclusivos apartamentos-cave, muitos deles donos de piscinas infinitas que caem para o mar.

As várias igrejas que nos aparecem no caminho são apenas mais um adereço para tamanho encantamento. Elas lá estão, com as suas cúpulas azuis tradicionais numa linda parceria com as casas brancas que as rodeiam. Ou podem ser elas próprias alvíssimas. Ou até tomar cores em tom pastel. Tanto faz, são sempre belíssimas nesta paisagem idílica.

Não faltam sequer umas buganvílias para compor a paleta.

Em Santorini tudo é simples, elegante e gracioso.

E não há melhor para o comprovar do que caminhar entre Fira, Firostani e Imerovigli, o ponto mais alto da caldeira. As vistas sucedem-se e mesmo que se diga que este percurso demora cerca de 30 minutos de uma vila à outra é bem provável que na verdade gastemos mais de 3 horas para o percorrer, tal é o deslumbre que força a repetidas paragens para a devida contemplação.

Atenas, monumentos, museus, miradouros e bairros

Um anúncio do turismo grego de 2005 dizia: “viva o seu mito na Grécia”.

Caminhando por Atenas podemos imaginar um dos vários mitos gregos, ou até criar o nosso próprio mito, escolhendo o Deus do Olimpo que nos acompanhará.

Mark Twain pode ter passado por aqui rapidamente e não lhe ter achado graça, mas preferimos seguir e acreditar antes em Lord Byron quando afirmava que se era um poeta, ao ar da Grécia o devia.

Atenas é, na verdade, uma inspiração que moldou toda a civilização ocidental.

Muitas das nossa palavras têm origem grega, como arquitectura, filosofia, autonomia, democracia.

Foi na Ágora Antiga que a democracia começou a tomar forma e é por aí que começaremos este nosso passeio pelos monumentos de Atenas.

A Ágora Antiga era o coração da Atenas da Antiguidade, o espaço público onde os atenienses se reuniam para discutir assuntos administrativos, políticos e sociais e comerciar. Aqui o filósofo Sócrates discutiu política e expôs as suas ideias.

Hoje resiste magnificente a Stoa de Attalos, a passarela coberta que, diz-se, foi a primeira arcada comercial. São 45 elegantes colunas dóricas. Para lá delas fica um pequeno mas abrangente museu. Por todo o lado observamos esculturas belíssimas que apesar de poderem não estar inteiras nos encantam. O Templo de Hephaestus ergue-se ainda íntegro.

A Ágora Antiga fica localizada abaixo da Acrópole. E é a Acrópole a grande atracção de Atenas. Literalmente “lugar alto da cidade”, é um autêntico rochedo, a sentinela de Atenas, com ocupação desde o Neolítico. A civilização Micénica também o utilizou como poiso, mas foi quando a ideia de cidades-estado começou a ganhar forma que a Acrópole ganhou importância como lugar defensivo. Foi construída com muros de tal forma maciços que se designavam por Ciclópicos, ou seja, construídos pelos Ciclopes, as criaturas sobrenaturais da mitologia grega. Com a expulsão dos persas no século V, Péricles transformou a cidade por completo e graças ao maior líder que a Grécia jamais voltou a ter pode hoje designar-se a sua como a Época Dourada de Atenas, a deusa a quem dedicou a cidade e prestou culto. Uma época de prosperidade que no campo do teatro e da literatura nos deu Ésquilo, Sófocles e Eurípides, no domínio da história Tucídides e Herodoto e em matéria de filosofia Sócrates, Platão e Aristóteles. Tudo isto apesar das guerras de Atenas com Esparta. Alexandre, o Grande também por aqui passou e depois dele os romanos, em especial o Imperador Adriano. Com a divisão do Império Romano seguiram-se as invasões por parte de diversos povos. Até que chegaram os turcos e o Partenon chegou a ser mesquita e o Erecteion harém. Estes os dois mais impressionantes edifícios da Acrópole que resiste até hoje como o mais importante monumento da antiguidade do mundo ocidental. A cidade consagrada aos deuses, onde não é difícil acreditar nos mitos que nos dizem que eles, deuses, vinham aqui para dançar, passou a ser uma cidade de templos.

A entrada monumental da Acrópole faz-se pela Porta Beulé e a Propylaia e logo à direita, instalado numa espécie de plataforma, temos o simples mas bonito templo de Atena Nike.

O Partenon é considerado o mais bonito edifício jamais construído. O nome Partenon refere-se à divisão que tradicionalmente nas casas gregas era ocupada pelas virgens, as jovens mulheres que ainda não se haviam casado. Dedicado a uma delas, a deusa Atenas, a arquitectura atingiu aqui a sua perfeição e o Partenon viria a servir de modelo para muitos edifícios que se lhe seguiram. A primeira pedra foi lançada em 447 a.C. e foi construído inteiramente em mármore. As suas colunas dóricas são um esplendor. A quantidade de pessoas que o tenta captar o mais próximo possível é imensa e dificilmente aguentamos permanecer no mesmo sítio sem uns quantos encontrões. Missão impossível é captá-lo em fotografia sem pessoas à frente.

O Erecteion, mesmo ao lado da oliveira produzida por Atena, é o templo onde se diz que Poseidon / Neptuno cravou o seu tridente. Este é o parceiro certeiro do Partenon no que respeita a beleza. As cariátides, as figuras de donzelas que servem de colunas de suporte ao pórtico deste templo, mesmo sendo réplicas são do mais belo que se pode observar. Os seus pormenores escultóricos podem ser observados na sua plenitude no Museu da Acrópole, onde estão os originais de cinco destas figuras (a sexta encontra-se no British Museum).

O bilhete passe da Acrópole dá ainda direto de entrada em outros monumentos da cidade. Alguns deles podemos vê-los desde fora, como a Biblioteca de Adriano e a Ágora Romana e Torre dos Ventos.

O mesmo para o Olimpeu, o Templo Olímpico de Zeus. Mas este é tão impressionante, o maior templo da Grécia, que é uma pena deixar de se entrar no seu recinto para chegar o mais perto possível das 15 colunas que ainda restam das originais 104 colunas coríntias com cerca de 17 metros de altura.

O mesmo vale para Keramikos, paredes meias com as antigas muralhas da cidade, o antigo cemitério onde ainda resistem belas tumbas dos mais importantes vultos atenienses de outrora.

Na parte baixa da Acrópole ficam o Teatro de Dionísio e o Odeon de Herodes Ático, onde se apresentavam as grandes comédias e tragédias da dramaturgia grega. Modelo para vários teatros ao ar livre, construídos na encosta dos montes e com a sua característica forma em semi-círculo, a acústica destes espaços é gabada até aos dias de hoje.

Fora do bilhete passe de visita à Acrópole, muito há ainda para percorrer e conhecer da Atenas da Antiguidade. Mas provavelmente nenhum lugar será tão incrível como o Estádio Panatenaico. Encaixado entre pinheiros, com vista para a Acrópole e para o Monte Lykavittos, este é o lugar de um antigo estádio onde desde a Antiguidade se celebravam eventos desportivos e competitivos. Com o cristianismo veio a proibição de celebrações pagãs e espetáculos que entretanto vieram a ser considerados bárbaros como os duelos de gladiadores. O estádio foi perdendo preponderância e importância. Até que os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna tiveram aqui lugar em 1896, revivendo a memória dos Jogos Olímpicos da Antiguidade. A sua reconstrução usando mármore pentélico, o mesmo do Partenon, é sublime. São filas e filas de lugares em mármore, cerca de 68 mil, um estádio numa forma oval quase completa onde na pista tem ainda lugar para umas estátuas de deuses absolutamente expressivas. O nome panatenaico é uma alusão a uma medida de distância usada na Antiguidade equivalente a aproximadamente 185 metros e o actual estádio foi o lugar da chegada da prova da maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004.

Entre os museus de Atenas, muita escolha há para fazer. E a escolha de deixar os vários Benakis de fora do roteiro foi forçada e não sem lamento. Atenas é um verdadeiro museu a céu aberto, mas ainda assim visitámos os incontornáveis Museu Arqueológico e Museu da Acrópole.

O Museu Arqueológico exibe obras desde o Paleolítico, passando pelas três grandes civilizações que ocuparam o território que hoje designamos por Grécia – a Minóica (a primeira civilização avançada na Europa), a Micénica e a Cicládica -, bem como do período clássico. Vemos ao vivo a Máscara de Agamemnon, as elegantes figuras estreitas cicládicas que inspiraram Amadeo Modigliani, os lindíssimos vasos cerâmicos com cenas do dia a dia ou histórias dos heróis e deuses gregos, a poderosa estátua de Zeus ou Poseidon e esculturas tão perfeitas que detalhes como relevos dos caracóis do cabelo ou da roupa parecem impossíveis. O que não é impossível é apaixonarmo-nos pelo busto de Antinous quase tão arrebatadamente como o Imperador Adriano por ele, Antinous, se apaixonou.

O novo Museu da Acrópole é uma construção recente. Inaugurado em 2009, está situado no sopé da Acrópole e propôs-se substituir um outro museu mais antigo e sem dignidade para acolher todas as maravilhas lá encontradas. É uma construção moderna que assenta sobre ruínas da antiga Atenas, deixando-as ver através do chão em vidro que os visitantes pisam.

O restaurante do museu tem vistas privilegiadas para a Acrópole, bem ali quase à distância de um estender de mãos. Mas é no seu interior, que através das suas amplas janelas deixa ver para o exterior funcionando como um prolongamento à cidade, que encontramos diversas obras-primas.

Desde logo, os originais de cinco das seis cariátides, as tais figuras de donzelas que servem de colunas ao templo Erecteion. Aqui podemos apreciar bem de perto toda a magnificência destas esculturas, uma delas praticamente intacta, desde os vincos das suas roupas até ao intrincado das suas tranças. Vemos ainda a escultura de um busto de Alexandre, o Grande, um apaixonado por Atenas. Mas o ponto alto da visita a este Museu da Acrópole é o piso onde é replicado o Partenon. Houve até a preocupação de que este piso fosse colocado ao mesmo nível do sítio do real Partenon. E aqui apreciamos uma vez mais em detalhe as esculturas do friso de 160 metros de comprimento onde os deuses do Olimpo lutam contra os gigantes. Lembrar, porém, que muito do que foi retirado da Acrópole está aqui neste museu, mas muito pode ainda ser visto no British Museum, em Londres. Poder de colonizador e pilhador assim o permite.

Três montes-miradouro de Atenas são de visita obrigatória.

O Filoppapou, também conhecido como Colina das Musas, tem monumentos e mais vestígios da Atenas da Antiguidade e tem mitos que lhe estão associados, como aquele que nos diz que foi aqui que Theseus e as amazonas travaram a sua batalha. Mas são as magníficas vistas para a Acrópole que nos fazem subir ao seu topo.

Também o Monte Areopagus tem vistas superiores para a Acrópole, ali mesmo ao lado dela. No entanto, são aquelas que se debruçam sobre a Ágora Antiga que nos seduzem.

Ao Monte Lykavittos podemos subir a pé, mas temos a alternativa fácil do funicular. O lugar onde os lobos em tempos passeavam é aquele com as melhores vistas para toda a Atenas. Daqui tudo se alcança, a Acrópole, claro, mas também o Pireu e o mar ao fundo e toda a densidade urbana da cidade, apenas interrompida por diversos rochedos.

O bairro dos bairros de Atenas é a Plaka, o antigo quarteirão turco. É o mais pitoresco, em especial o quarteirão Anafiotika, bem debaixo da Acrópole.

Mas a Plaka é sobretudo feita da multidão que enche as suas ruas estreitas com lojas e restaurantes. É absolutamente turístico, mas registe-se a simpatia dos gregos. De todos eles. Não houve um funcionário de restaurante que não nos dedicasse uma atenção bem disposta e divertida. E ninguém precisou de soltar um “Cristiano Ronaldo” em resposta ao nome de Portugal para percebermos o respeito que mostram pelo nosso país.

A Praça Syntagma, o centro da moderna Atenas, conhecemo-la como o palco das manifestações dos gregos contra as medidas da troika. Para o visitante, a piada da Praça está em assistir ao render da guarda à frente do Parlamento. Os soldados possuem uma fatiota espampanante, o que nos deixa sem palavras para aqueles seus sapatos com pompons e estupefactos com os seus jeitos e trejeitos. A não perder.

Monastiraki é o bairro onde não faltam opções de restaurantes e bares, numa movida incessante. Mas uma das experiências a viver em Atenas é almoçar, jantar ou beber um copo num dos muitos terraços que os seus edifícios oferecem. E, claro, a vista que todos procuramos é aquela que nos dá de bandeja a Acrópole. Duas sugestões: o Café Avissinia (a sua moussaka é deliciosa) e o bar do hotel A for Athens.

Para propostas completamente fora da caixa, o bairro Metaxourgio é a escolha certa. Os gasómetros do Technopolis são um ambiente surpreendente para se instalar uma ideia como o Dinner in the Sky (jantar no céu), uma estrutura a fazer de mesa suspensa a 50 metros de altura através de um guindaste, oferecendo certamente vistas fabulosas (digo certamente porque apenas vi esta experiência de baixo). O cenário alternativo estende-se pelo bairro fora e uma outra proposta é uma refeição no Latraac, misto de café com skatepark.

A cultura urbana marca também presença forte em Exarcheia com os seus inúmeros graffitis. Este bairro é uma síntese perfeita da Atenas deste século, uma cidade decadente e caótica mas jovem e vibrante.